sábado, dezembro 31, 2011

I am glad I spent it with you

Nem de propósito

Ao rever algumas imagens retrospectivas de 2011, dei comigo a ouvir o discurso do "Sr. Pritzker", Souto Moura, perante Obama, quando recebeu o prémio que o consagrou com um dos melhores entre os génios da arquitectura mundial. Curiosamente, ele que tinha todas as razões para discursar em inglês fê-lo em português.
Por cá, como ali abaixo sublinhei, o ministro das Finanças, que tinha todas as razões e mais algumas para discursar em português, até por razões institucionais, resolveu discursar em inglês numa cerimónia de uma empresa privada. Ante o olhar condescendente e subserviente dos ministros da Economia e dos Negócios Estrangeiros. E logo do MNE que tem a mania que é mais patriota que os outros.
Aos poucos se percebe a natureza do silicone de que se fez a coluna dos "Álvaros" que nos governam. O bom ainda é impermeável, mas o que ali usaram é demasiado poroso e permeável. Por dinheiro até o pino fazem. 2011 não deixa mesmo grandes recordações para Portugal.

Sinais (48)

"Não pode haver  confiança quando alguém, com dolo ou por ignorância, se compromete com uma coisa na oposição e faz o contrário no poder. (...) não pode haver confiança quando, estando o Governo a eliminar dias de férias e a exigir mais meia hora de trabalho diário, ou tendo decidido, muito acertadamente, não conceder tolerâncias de ponto no Natal e Ano Novo, os deputados da nação ignoram alegremente tudo isso e partem para umas longas férias iguais às que sempre fizeram. Não pode haver confiança quando o Governo corta metade do subsídio de Natal e depois se verifica que em empresas públicas e serviços do estado com regimes especiais, essa regra não é aplicada. Não pode haver confiança quando se atacam em todas as frentes os mais fracos e sem poder reivindicativo, mas se cede aos aparelhos partidários instalados nas autarquias, autorizando-os a mais endividamento e contratações, depois de se ter anunciado que isso lhes estaria vedado. (...)" - Fernando Madrinha, Expresso, 30/12/2011  

Leitura

Um livro para ler junto ao aconchego da lareira, para antecipar um final de ano distante, frio e imensamente triste. Como nenhum de que me lembre.

sexta-feira, dezembro 30, 2011

A ler

"Vale a pena pensar, com melancolia, no fim deste ano de 2011, que o Portugal da democracia não aprendeu nada".

Sinais (47)

"Hospital de Faro com novo conselho de administração

"Presidido pelo ex-bastonário da Ordem dos Médicos Pedro Nunes e tendo como vogais executivos Graça Pereira e Luís Miguel Costa Cunha Martins, ligados respectivamente ao PSD de Alcoutim e Portimão, tomou posse na quarta-feira.
Graça Pereira é licenciada em Economia (...). Integrou a última lista do PSD Algarve para a Asembleia da República. Por sua vez Luís Miguel Costa Cunha Martins, advogado, é membro da bancada do PSD da Assembleia Municipal de Portimão" - O Algarve, 30/12/2011   

Confundir cortesia com servilismo

A assinatura do acordo que selou a entrada da Three Gorges no capital da EDP teve lugar esta manhã. Já aqui tinha anteriormente defendido a escolha do Governo português; por isso mesmo fiquei satisfeito por ver a operação chegar a bom porto antes do final de 2011.
Do que não gostei mesmo for de ver o inglês erigido em língua oficial do Estado português. Que em reuniões internacionais se fale em inglês ou noutra língua que faça a ponte com o outro lado, tudo bem. Que o presidente da EDP se dirija em inglês aos visitantes e seus futuros patrões que não falam português, também compreendo. O que já eu não entendo de todo é que um ministro das Finanças, que é institucionalmente o número dois do Governo da República, entenda também discursar em inglês numa cerimónia privada a que entendeu emprestar o brilho da sua presença e em que também estão outros ministros do mesmo Governo e secretários de Estado.
Ao contrário do que se disse, não se tratou de um acto de cortesia para com o presidente da empresa chinesa, mas de um acto de aviltante servilismo por parte do Estado português. Não me recordo de alguma vez, em Macau, ter ouvido ministros de Portugal ou os Governadores, em cerimónias oficiais ou privadas a que entendessem associar-se, a discursarem em inglês.
Habituados a vergarem a cerviz perante quaisquer empresários, banqueiros e o capital financeiro, os tecnocratas do Governo não distinguem o Estado de uma simples empresa, mesmo muito rica. E deram assim, tristemente, mais uma prova da sua inexperiência política, falta de sentido de Estado e, ainda mais, incontornável provincianismo. 
Quem ficou mal na fotografia não foi Vítor Gaspar. Nem foi "o Álvaro". Foi o Estado português. Fomos nós.   

O regresso da musa

A Gentlemens Quarterly Portugal, vulgo edição nacional da GQ, encerra 2011 e começa 2012 com o número 100. Para quem se tinha habituado a ler as edições de outros países, 2011 confirmou a qualidade da produção nacional. Este é um número para ler e guardar. Para além das rubricas habituais e dos textos que algumas mulheres escrevem para homens, a revista que foi considerada a "Melhor Revista Masculina do Ano", comemora o momento trazendo para as suas páginas aquela que já deve ser a portuguesa, depois de Mariza, mais conhecida do mundo. Luísa Beirão, um dos novos rostos da Triumph, enche as páginas com os seus olhos, que dão vida às geniais fotografias de Pedro Ferreira e aos nossos próprios olhos. Prova de que mesmo após a intervenção da troika a mulher portuguesa, sem  necessidade de uma embalagem extra, continua a dispensar silicone francês, photoshop alemão, estilista italiano ou qualquer outra ajuda externa para se impor, bastando-lhe continuar a exalar sedução e beleza por todos os poros.   

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Subtilezas

Há uma pequenina diferença entre emigrar voluntariamente, solteiro e sem responsabildiades, para aquisição de uma experiência de vida, melhores competências, novos horizontes e alargamento dos que existem, com um bom contrato à saída de Lisboa e boas condições de recepção à chegada ao destino, e emigrar obrigado, por empurrão, saindo à procura de qualquer coisa apenas para tentar sobreviver, sem perspectiva de regresso no curto prazo ou médio prazo e de nesse dia, se um dia a perspectiva se tornar no regresso que acontece, já não se encontrar quem aqui se deixou. É isto, só isto, que alguns são incapazes de ver. E que fazem de conta que não percebem. Além de que uma coisa é emigrar aos vinte ou aos trinta anos e outra, bem diferente, emigrar aos cinquenta porque este País os descartou. 

terça-feira, dezembro 20, 2011

Perfeitos imbecis

Eu e a minha mulher, entre os dois, temos mais de 21 anos de ausência de Portugal. Quando em 1999 decidi regressar, fi-lo em virtude de algumas razões pelas quais eu entendia dever regressar. Porque os nosso pais estavam mais velhos e doentes e tinham o direito ao nosso convívio nos seus anos mais tristes. Porque gostava de ter um filho que nascesse e crescesse em Portugal e que, ao contrário de mim, não tivesse andado em bolandas durante décadas entre África e Portugal e depois acabasse emigrado no Extremo Oriente. Nessa altura eu já tinha acabado o meu curso e tinha iniciado o meu estágio, que interrompi quando fui à procura de uma nova vida e de outras hipóteses de trabalho que já então aqui não abundavam. Com a mesma idade tinha o ministro Miguel Relvas o 12º ano e começava a sua carreira política como deputado do PSD. Tentei uma primeira vez sem grande sucesso o regresso. Com poucos ou nenhuns conhecimentos, depois de alguns anos fora, teria sido mais cómodo continuar lá por fora. Mas eu quis regressar. De pouco me valeu acreditar porque três anos depois estava de novo de saída. E lá por fora fiquei durante mais seis anos. Teimoso, insisti em novo regresso e, apesar das dificuldades, por cá continuo. E continuo porque entendo que há combates que devem ser travados na própria terra. E não no estrangeiro. O combate por um Portugal melhor tem de ser travado em Portugal e não num qualquer exílio mais ou menos dourado. E porque como qualquer outro cidadão tenho o direito de aqui viver. De aqui pagar os meus impostos. Por isso regressei e melhor ou pior, ultimamente pior, por cá me fui acomodando. Para tanto tive inclusivamente de deixar de viver na terra onde mais tempo passei, onde tenho a família e amigos e me fiz homem. Só que continuando por cá, no rectângulo, e sendo o país pequeno isso também não seria grave. Entretanto, tipos como o actual primeiro-ministro ou o seu ministro dos Assuntos Parlamentares convidam agora os portugueses a emigrar. Fazem-no em razão de um sistema de selecção, recrutamento e ascensão dentro da classe política, que permitiu que os melhores saíssem da política e nela ficassem cábulas como eles que singraram à custa da política e dos conhecimentos que nela adquiriram para chegarem onde chegaram. Porque foi esse sistema "demeritocrático", como escreveu recentemente um autor italiano, que lhes permitiu ascender até onde ascenderam. Foi devido à incompetência e falta de visão de políticos como eles, que permitiram o desbaratamento dos fundos comunitários, a destruição do tecido produtivo nacional, das pescas à agricultura, o enraizamento de fenómenos como a corrupção e o tráfico de influências, a delapidação do erário público com uma máquina administrativa improdutiva e ineficiente, para já não falar na evasão fiscal e nas mordomias e reformas de estalo outorgadas a políticos semi-analfabetos, entre outros males menores, que chegámos até aqui e que homens como eles se permitem hoje convidar os melhores e os mais capazes (não falo de mim) a emigrem, a procurarem no estrangeiro aquilo que mais de trinta anos de vida democrática foram incapazes de construir. Por mim, enquanto puder resistirei. Porque as razões que me fizeram antes voltar permanecem quase todas válidas e são as mesmas que me motivam a ficar. Porque há combates que mais do que nunca têm de ser travados em Portugal, sob pena deste país ficar entregue aos mercenários da política, a demagogos e a traficantes de influências. O meu avô Miguel Correia passou pelo Tarrafal e acabou deportado em Moçambique. Por esse motivo o meu pai nasceu em Cabo Verde e está registado no Barreiro, acabando a viver em Moçambique, onde eu nasci. O meu tio João morreu no Brasil porque daqui foi escorraçado no tempo da ditadura. O meu tio José morreu em Inglaterra. Outros ficaram pela África do Sul ou Moçambique. E foi daqui, como de Angola ou de Timor que também alguns de nós, muitos de nós, foram recambiados para Portugal. Em 1999 decidi voltar. Aqui me têm. Por cá ficarei resistindo. Por muito que isso me custe. Quanto mais não seja até que Passos Coelho e Miguel Relvas me digam como poderei explicar a um pai com oitenta e três anos, numa cadeira de rodas e semi-paralisado por um avc, a uma mãe doente com oitenta e cinco, e a um padrinho cego com noventa e cinco, a quem devo quase tudo o que aprendi e a quem acabaram de rapar mais uns pozinhos da reforma, que se eu amanhã saísse de Portugal provavelmente não me voltariam a ver e abraçar durante o pouco tempo de vida que lhes resta.

Era escusado um Comissário Europeu ter vindo dizer isto. Há propostas, como diria um amigo meu, que nem ao maior filho da puta se fazem. Mas eles foram capazes de pensar numa dessas propostas e dizê-la. E ainda se deram ao luxo de pesporrrentemente querer justificá-la perante as televisões. Como se todos pudessem emigrar para Moçambique tendo por sócio Nuno Morais Sarmento. Ou para Angola tendo por patrão a família "dos Santos". Um dia poderei perdoar-lhes. Esquecê-lo jamais.

Então e os outros?

Espero que a proposta das indemnizações por despedimento, que implica a redução destas para 8 a 12 dias, se é para ser levada a sério, não deixe de fora os gestores públicos nem todos aqueles que ocupando cargos políticos ou de nomeação política têm até agora usufruído de confortáveis subsídios de reintegração e de indemnizações por cessação antecipada das respectivas funções.

A ler

"Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca." - Carta aberta ao primeiro-ministro de Portugal, publicada aqui, Entre as brumas da memória

A ler

"Não percebo de que maneira tendo o governo assinado um compromisso não o vai cumprir. Não sei como vai resolver em futuras negociações com a troika esta inversão em relação à aquilo com que se comprometeu. Depois não creio que a extinção de freguesias por si só resolva muitos problemas. Podemos dizer que num território mais bem organizado a redução de freguesias faz sentido. Por exemplo, é óbvio que uma racionalização delas em Lisboa podia ter um ganho em termos de gestão do território. Agora cortar apenas no território das freguesias não permite ganhar economias de escala a um nível mais relevante. Não defendo uma diminuição enorme dos municípios existentes, acho é que os que existem actualmente impedem a adopção de políticas mais racionais e que permitam optimizar, por exemplo, a gestão financeira. A reforma que o governo propõe parece-me ainda incompleta por não prever, além da reorganização dos municípios, uma escala supramunicipal." - Marta Rebelo, em entrevista ao jornal i, 20/12/2011

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Sinais (46)

"Como programa político defende que só saímos desta situação empobrecendo. Em entrevista à SIC Notícias arrepiou caminho mas não deu alternativas: «o emobrecimento não é uma via para sair da crise. É uma consequência». Como é que isto motiva alguém a lutar, a sacrificar-se, a exceder-se para dar a volta à situação?

Passos chegou ao poder  e disse tudo o que estava mal. Não referiu uma única coisa que estivesse bem. Aliás, Passos carrega sempre nas tintas. Se pensamos que 2012 vai ser um ano péssimo, ele acrescenta que será dramático. Se consideramos que as coisas estão más, ele acrescenta que vão ficar piores. Passos não motiva os cidadãos nem aumenta a sua confiança. Pelo contrário, acrescenta desalento ao desalento, desânimo ao desânimo, fraqueza à fraqueza e instila em todos nós um sentimento de culpabiidade pelo que nos está a acontecer.

Passos está obcecado - e muito bem - pelo cumprimento do acordo com a troika. Mas não faz a gestão emocional da crise, nem nenhum esforço para manter as tropas moralizadas. Passos dá sempre a impressão de estar mais do lado dos credores do que do nosso. Não se preocupa minimamente em transmitir otimismo e esperança, nem em mostrar a luz ao fundo do túnel.

Desde que chegou ao Governo, fez várias promessa importantes que desdisse. E numa situação destas isso é um erro dramático. Quando agora afirma que não haverá novo aumento de impostos em 2012, já ninguém acredita. E é por isso que Passos corre dois enormes riscos. O primeiro é levar-nos a todos para um lugar de miséria e desesperança. O segundo é descobrir que está sozinho quando necessitar de tropas para a batalha." - Nicolau Santos, Expresso, 17/12/2011   

A diferença


"La primera [directriz fundamental do Programa de Governo], estimular el crecimiento y potenciar la creación de empleo.

Señorías, un país, en el que cada día que pasa se destruyen miles de empleos, no puede permitirse vacilaciones a la hora de señalar prioridades.
Me propongo, pues, dedicar toda la capacidad del Gobierno y todas las fuerzas de la Nación a detener la sangría del paro, estimular el crecimiento y acelerar el regreso de la creación de empleo.
Esto es lo que exigen las urnas, esto es lo que demanda Europa, esto es lo que España requiere con urgencia, y ésta, Señorías, es la única piedra angular que puede sustentar la tarea de nuestra recuperación.
Que surjan empleos significa que aumente la actividad económica, que el Estado recupere ingresos, que la Seguridad Social ensanche su base y sus cotizaciones, que los pensionistas respiren tranquilos, que podamos mejorar la educación y financiar la sanidad…
No existe ninguna posibilidad de enderezar la marcha de la Nación que no comience por crear las condiciones que permitan a los españoles que no tienen trabajo ponerse a trabajar.
(...)
Cuando se crea empleo, el país se estabiliza, se afirma la confianza, se reparte mejor la dignidad, los derechos se concretan, los sueños se vuelven accesibles, y cada individuo recupera la capacidad de administrar su propia vida. Cuando se crea empleo, Señorías, crece la libertad.
Empezaremos por aquí, por lo más importante y lo más difícil. Debemos sembrar con urgencia, si queremos que brote lo antes posible la nueva cosecha de empleos en España.
(...)
Sabíamos –y sabemos- lo que nos espera y sabíamos. Y sabemos- que se nos juzgará por lo que consigamos, y no por lo que intentemos, o por cómo nos hayamos encontrado las cosas." - Mariano Rajoy, Discurso de Investidura, 19/12/2011

Quem não tenha ouvido o discurso de investidura do novo primeiro-ministro espanhol poderá ao menos lê-lo. E escuso-me a transcrever aqui mais passagens do mesmo, visto que estas já são mais do que suficientes para mostrarem a diferença entre aquele que tem sido o desconchavo governativo do Governo da troika interna - Passos Coelho, Miguel Relvas, Miguel Macedo - e aquela que irá ser a postura do PP de Rajoy.
Aquilo que em Espanha será a primeira das prioridades - o combate ao flagelo do desemprego - continua a ser por cá uma miragem.
Lá privilegia-se a criação de emprego como alavanca para o crescimento e o pleno emprego. Cá tem-se privilegiado o empobrecimento generalizado da comunidade através do aumento obsceno de impostos e de taxas, o encerramento de empresas, o aumento do trabalho sem contrapartidas, em vez de se melhorar a produtividade fazendo uso de incentivos ao trabalho e de uma gestão mais eficiente e racional, e convida-se os cidadãos a emigrar.
São ambos governos catalogados como sendo de direita, pertencentes à  mesma família política, mas enquanto um é dirigido por quem adquiriu formação académica e profissional e alguma experiência de vida antes da política, o outro é dirigido por alguém que só adquiriu habilitações académicas quando interrompeu a carreira política e ganhou experiência profisional graças às muletas que a política lhe deu.
E se fizermos uma comparação com o ministro dos Assuntos Parlamentares verificaremos que com a mesma idade - 24 anos - com que Rajoy iniciou a sua carreira profissional como conservador do registo predial, já licenciado em Direito por Santiago de Compostela, iniciava o nosso ministro a sua carreira na Assembleia da República com ... o 12º ano, adquirindo as competências para agilizar processos, intermediar negócios de milhões e nomear grupos de trabalho.

São pormenores destes que fazem toda a diferença entre os que lá vão governar e os que por cá vão desgovernando antes de se voltarem a dedicar a uma vida folgada nos negócios com os conhecimentos que uma vida na política caseira proporciona.

Patético


O anúncio oficial da morte do ditador norte-coreano Kim Jong-il, com origem na televisão estatal da ditadura, que tem vindo a ser passado nas televisões ocidentais, e as imagens e sons que nos chegam de Pyongyang de uma população em doloroso pranto, sem deixarem de corresponder a um espectáulo patético, podem não passar de mais uma encenação propagandística do regime comunista para abafar as circunstâncias da morte do ditador. Isso mesmo é dado conta numa notícia desta manhã do Korea Times, na qual se refere, citando An Chan-il, um conhecido politólogo do Sul, que o líder comunista poderá ter sido assassinado, acompanhando dessa forma o rumor de que um oficial norte-coreano de elevada patente teria sido assassinado a tiro. Por agora, e sem prejuízo de Bernardino Soares nos trazer a sua versão oficial dos factos, o mais prudente será aguardar que comecem a chegar informações de fonte segura antes de se especular. A foto é do jornal citado e foi tirada em 10 de Outubro de 2010, por ocasião das celebrações dos 65 anos do Partido dos Trabalhadores, nela podendo ver-se o falecido e o líder "comunista" que será entronizado, o "terceiro na linha de sucessão ao trono".  

Sinais (45)

"O clima económico e social degrada-se a olhos vistos, o desemprego não para de subir, as condições de vida pioram para todos. Vamos empobrecer, como diz o primeiro-ministro. E este processo nunca foi experimentado pelas atuais gerações de europeus, filhas do pós-guerra. Mesmo no caso de Portugal, sempre um dos parentes mais pobres, temos uma revolução pela frente porque uma coisa é ser-se pobre e outra, muito diferente, é tornar-se pobre - ou ainda mais pobre." - Fernando Madrinha, Expresso, 17/12/2011

sábado, dezembro 17, 2011

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Uma entrevista que é todo um tratado

A entrevista que o secretário de Estado da Administração Local, Paulo Júlio, deu a Leonete Botelho e Margarida Gomes é, com todo o respeito, um verdadeiro tratado. Um guião de ilusionismo político.
O Público percebeu-o e dá conta disso no seu Editorial de hoje, aqui citado um pouco mais abaixo.
Com efeito, trata-se de uma "reforma administrativa" que se assemelha a uma fraude política destinada a criar a convicção junto da opinião pública de que de uma reforma se trata. Na verdade, como se depreende das palavras do secretário de Estado, a "reforma" até permite que autarcas que estavam impedidos de se recandidatarem por terem excedido o limite de mandatos possam vir a fazê-lo desde que haja, repare-se na subtileza, "mudança de circunscrição geográfica", isto é, "se uma freguesia ficar com mais ou menos território, por exemplo, o autarca já se pode recandidatar". Porque, explica a eminência, "não se trata já da mesma freguesia". Pois não. Será isso, aliás, que no futuro irá fazer a diferença entre uma qualquer "freguesia de S. Pedro" pré-reforma, à qual o actual presidente de junta de nome Pedro não se poderia voltar a recandidatar, e a futura "freguesia do Pedro", esta pós-reforma, onde aquele poderá começar do princípio a contagem dos seus mandatos.
Em concreto, no exemplo dado pelo secretário de Estado, estamos perante mais uma chico-espertice para contornar a lei de limitação dos mandatos que não indigna todos aqueles que antes criticavam, com razão, a  falta de reformas de fundo dos Governos, e foram vários, anteriores.
A este quadro juntam-se afirmações tão profundas como a de que "temos de ser eficazes a descentralizar", ou mais ou menos graves, para quem fala de reforma, como a de que "este não é o momento político para se discutir a regionalização", que "o Governo deixa em aberto a fusão de municípios" e que "o número de municípios em Portugal é muito inferior à média europeia", sem que se perceba se com esta última se está a deixar a porta aberta para que amanhã, algumas das freguesias que se vão fundir, nome suficientemente feio para fazer muita gente espumar sem que haja necessidade de usar outros, se poderão vir a transformar num novo município para satisfação das sempre atentas clientelas locais.
Ou, ainda, uma afirmação tão estranha nos dias de hoje como a de que "o objectivo do Governo não é diminuir aquilo que é transferido para as autarquias (municípios e freguesias)".
Confirma-se que tudo fica pela cosmética, por um pequeno rearranjo que baixe o endividamento em 150 milhões de euros e não "chateie" muito os municípios, porque é nestes que o Sr. Relvas e o PSD têm alguma força e muito poder e não convém amanhã ser vaiado por quem garante o funcionamento da máquina e satisfaz as clientelas partidárias. 
Mas se é para isto que se vai fazer uma reforma, então o melhor era ter ficado quieto. Porque fazer uma reforma só para dizer que se fez uma reforma, não reduzindo as transferências do OE, permitindo a eternização no poder autárquico de políticos que já estavam com guia de marcha, por via do expediente do redimensionamento de algumas freguesias, ou deixando de pagar a presidentes de junta para depois andar a pagar às "duas ou três pessoas de cada uma das freguesias agregadas" que irão integrar o "Conselho Social", "de modo a prosseguir a política de proximidade" - pro bono e a tempo inteiro? - que já é hoje levada a cabo, e com bons resultados pelas freguesias, como irem "buscar os medicamentos e levantar dinheiro", não é uma verdadeira reforma. Não é uma proposta séria nem é para ser levada a sério por ninguém. A não ser pelos novos "cromos" que o ministro vai desencantando para compor os grupos de trabalho.
Se o objectivo é fazer uma reforma, e ninguém duvida que ela seja necessária, então pense-se tudo com critério e rigor, incluindo a regionalização, o número e a dimensão dos municípios e as atribuições e meios que a cada um devem estar atribuídos no quadro de uma verdadeira reforma da Administração Local que melhore a governança impedindo o governanço público e notório a que temos assistido de uns quantos.
Estabeleçam-se primeiro os objectivos e a forma de alcançá-los com eficácia e em termos eficientes de um ponto de vista económico. A seguir calendarize-se e a partir daí cumpra-se, fazendo a adequada monitorização. 
O secretário de Estado não tem culpa. Ele cumpre o que quem o nomeou lhe manda fazer. E confesso que depois da apressada extinção da IGAL e de se ter corrido com o seu inspector da forma que todos conhecem, não esperava outra coisa. O ministro é que, depois de ler a entrevista do seu secretário de Estado, devia pintar-se de preto, embora duvide que houvesse nas freguesias tinta disponível que chegasse para esse efeito. Mas entre todos alguma coisa se haveria de arranjar. Pro bono

Sinais (44)

"E, para que não restem dúvidas, Paulo Júlio trata de o confirmar, quando admite que as assembleias de freguesia poderão nomear um conselho social que terá "duas ou três pessoas" de modo a prosseguir "aquilo que pode ser o trabalho de proximidade". Ou seja, deixa-se de pagar ao presidente de junta para se pagar aos membros do conselho. Depois, é difícil conceber por que razão a redução de freguesias ajuda a "planear o teritório" ou a "estruturar investimentos". Talvez essa tese faça sentido para a construção de fontanários, mas para os grandes equipamentos talvez façam falta as regiões administrativas - que no projecto do Governo ficarão a marinar" - Editorial, Público, 16/12/2011 

Diário irregular

16 de Dezembro

Não há declaração infeliz, aparte ordinário, dito jocoso ou simples calinada que não dê para justificar horas e horas de tempo de antena. Analisa-se o emissor, o perfil, o currículo, as implicações políticas e, depois, espreme-se tudo muito bem a ver se sai algum sumo. Em matéria de informação televisiva e de espaço de debate, seja político ou desportivo, perdeu-se a noção de tempo em televisão. Já não se trata de informar ou debater mas de apenas escaranfunchar. E alguns houve que se especializaram nisso. O que também revela a dimensão do seu carácter e a sua impreparação para desempenharem as funções que exercem nos mais nobres horários televisivos. O despropósito das questões, a forma como estas são colocadas, tantas vezes sibilinamente, não para que o esclarecimento ou a compreensão dos destinatários aumente mas tão-só para melhorar a audiência, o share, encontrar as respostas que se pretende para condicionar quem ouve e vê, e enaltecer o dislate, dando-lhe dimensão e importância nacional, fazem parte dessa forma de fazer jornalismo. Não admira que ande tudo histérico.

Reiniciou-se o período de produção legislativa acelerada. Os ciclos sucedem-se e de cada vez que muda o Governo é isto. Será que esta gente não entende que a estabilização do tecido legislativo é fundamental para o País se poder concentrar numa série de assuntos igualmente importantes a que urge dar solução? Só deixarão marca positiva aqueles que tiverem uma perspectiva de futuro. 

O embaixador da Argentina deu uma excelente entrevista ao jornal i. Para lá do bom futebol, do tango, das mulheres deslumbrantes e de uma literatura de nível quase estratosférico pela qualidade dos seus autores, a Argentina continua a ser um daqueles países com muito para dar ao mundo. E tirando aqueles momentos em que vejo os argentinos demasiado parecidos connosco, o que talvez explique a distância em que os nossos dois povos têm vivido, é um daqueles países em que continua a valer a pena acreditar. A forma como saíram do curralito e do curralón e se desenvencilharam da crise de há uma década devia servir para aprendermos alguma coisa. 
   
Daniel Oliveira disse ontem uma frase, a respeito do nosso servilismo perante o FMI e a Alemanha e a vontade que os nossos dirigentes têm de a tudo dizerem ámen, que tem tanto de simples quanto de magnífica: "a credibilidade do devedor mede-se pelos resultados económicos". Os nosso partidos, e em particular os actores políticos, têm dificuldade em entender isto. Por isso perdem tanto tempo a insultarem-se, a discutirem o sexo dos anjos e a bajularem os agiotas em nome da nação.

A selecção e recrutamento das nossas elites continua a dar bons exemplos do que não devia acontecer. A distorção é tal que até gente com alguma preparação e uma qualidade que se trabalhada poderia dar bons frutos se perde em situações caricatas. Tristes e que dão que pensar. Pessoalmente tenho horror a sessões de doutrinação partidária, mas de vez em quando os partidos, e o PS não foge à regra, mandam os seus dirigentes pelo país fora para, sob o pretexto de explicarem os méritos da acção governativa - quando estão no poder -, ou os desafios da oposição - sempre que perdem o poder -, pregarem aos militantes, manterem o tecido partidário mobilizado e tentarem que este se mantenha em sintonia com as posições das respectivas direcções. O caso que ocorreu com o deputado vice-presidente da bancada parlamentar do PS mostra como o actual sistema de partidos está errado. Aliás, o que sucedeu com Pedro Nuno Santos já aconteceu com outros dirigentes e de outros partidos, caso do PSD, do CDS ou do Bloco de Esquerda, e até com autarcas, em reuniões idênticas. Há sempre um jornalista "infiltrado" que aparece depois a fazer o relato do que por lá se disse. Não raras vezes são desmentidos, mas quando há gravação o desmentido é mais complicado. Invariavelmente, os dirigentes quando são apanhados apressam-se a corrigir o sentido da interpretação das suas declarações - no caso vertente risíveis - quando não há nada para esclarecer ou corrigir. Está dito, toda a gente percebeu, foi clarinho como a água, para quê insistir?

Normal seria assumirem o erro, mas não é o que acontece. Em regra, a emenda é pior do que o soneto. Uma vez mais assim foi. E o mais grave nem é a forma tão liminar como a si próprios se desqualificam, aumentando a desconfiança que já existe em relação à classe política. Não há nisso qualquer coragem ou gesto que mereça ser enaltecido. Manuel Alegre equivocou-se quanto a este ponto ainda que lhe fique bem a defesa. O que deve ser sublinhado e condenado não são as declarações infelizes, inócuas e infantis do autor, irrelevantes até pelo número de vice-presidentes da bancada do PS, mas sim que há dirigentes políticos que cândida e publicamente assumem possuir um discurso para dentro do partido e outro para fora. Como se isso fosse normal, politicamente aconselhado ou servisse para alguma coisa.

A duplicidade discursiva, a admissão de diferentes registos consoante as conveniências, um para comensais e crentes e outro para "infiltrados", agnósticos e ateus, constitui uma marca da forma como os partidos são hoje geridos. Do seu fechamento e da pouca conta em que têm os seus militantes ou os destinatários da mensagem. E, a avaliar pela idade desta última "vítima" da comunicação social, mais um sinal de pouca esperança na mudança de mentalidades.

O problema, em rigor, releva mais do foro da ética e da moral. E vem de trás, de muito lá para trás. Ou, se quisermos, mais do exercício da cidadania do que propriamente da politica, que acaba por ser uma extensão daquela onde tudo se reflecte e tem consequências,para nós e para os outros, se não estivermos preparados para a exercermos em bases sãs.

De qualquer modo, não será por isso que deixarei de resistir. E de lutar pela mudança de mentalidades. Dentro e fora das agremiações a que pertenço. Privado é só o que penso, guardo para mim e não exteriorizo. Ou o que se passa para lá da porta da minha casa e que não tem interesse, relevância nem repercussão pública. Tudo o mais é público. E transparente. Dos afectos aos discursos, da crítica ao elogio. Porque só assim nos poderemos conhecer melhor. E reciprocamente nos respeitarmos no consenso e na dissensão.    

Um nível muito crespo

"Até podemos passar outra vez o homem" - Mário Crespo, SIC-N, ontem pelas 22h e 25m, quando "moderava" um debate entre Pedro Marques Lopes e Daniel Oliveira, ao referir-se às declarações de um deputado. 

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Sinais (43)

"Pelo menos uma pessoa do PSD: José Biscaia, antigo presidente da Câmara de Manteigas (já aposentado), não demorou a vir a público assumir que ele próprio já fora «indigitado» para aquele posto. «O ministro escolheu-me. Não quero admitir que houve manobras de corredor que tenham influenciado o senhor ministro», lamentou o atual vereador da mesma autarquia" - Visão, 15/12/2011

Paradoxos

Foi, indiscutivelmente, uma das mulheres mais atraentes, caprichosas e belas da história do cinema. Por ela muitos se perderam, outros perderam-se e reencontraram-se. Teve quase tudo aquilo, entre alegrias e desgostos, que se pode ter em vida. Mas nada justifica que num período como aquele que atravessamos, com uma crise económica e financeira de proporções dantescas, com refugiados espalhados um pouco por todo o mundo e milhões que não têm um tecto para se abrigarem ou meios para comer ou vestir, haja alguém no seu perfeito juízo que gaste quantias como as que foram despendidas num leilão de jóias em segunda ou terceira mão. Ou que deixe fortunas de dezenas de milhões a gatos (os gatos depois, com o que lhes sobrar, fazem testamento a favor de quem?). Não sei quantas pessoas podiam ser alimentadas, quantas escolas construídas ou empregos criados com tantos milhões, mas sei que o sofrimento de muita gente poderia ter sido minorado. E também sei que gastar quatro, cinco ou nove milhões de euros numa jóia ou legar quantias dessas a favor de gatos e cães pode dar imenso gozo a quem os tem sem deixar, todavia, de ser um acto abjecto e profundamente obsceno.      

E que tal segurá-lo?

Será que alguém pode fazer o favor de dizer a este jovem que está na altura de "pôr-se fino" e de "piar mais fino" antes que a coisa piore?

quarta-feira, dezembro 14, 2011

A frase

"Não se fazem carreiras políticas cortando a direito" - João Cravinho, TVI24

Não vai ser fácil


Face a tudo aquilo que já foi dito em relação à privatização da EDP, com os concorrentes apurados e em plena corrida, e tendo presentes as ofertas de cada grupo e as declarações dos concorrentes, isto é, as promessas quanto ao futuro, penso que não vai ser fácil  arranjar argumentos para afastar os chineses da corrida. Conhecendo o excelente entendimento entre portugueses e chineses noutras circunstâncias, confesso que a minha preferência pende para o lado chinês. Além de serem fiáveis, normalmente não têm pressa, predispondo-se a limar as arestas que forem necessárias até que tudo esteja a contento de todas as partes. E isso é bom quando se trata de pensar no futuro, de salvaguardar os interesses nacionais e de querer fazer bons negócios. Samba e sambistas já cá temos que baste e para meter água chegaram os submarinos.

terça-feira, dezembro 13, 2011

Aguardo explicações adicionais

Bem sei que quem saiu gostava de lançar primeiras pedras e de anunciar projectos grandiosos. O que não invalida que tenham sido feitas algumas coisas que não nos envergonham. A aposta nos automóveis eléctricos pareceu-me ter pernas para andar. Mais convencido fiquei depois de ver alguns membros do anterior Governo deslocarem-se em carros eléctricos. A desistência do projecto de Cacia, nos termos em que foi feita pelos seus responsáveis, um português incluído, deixa muitas perguntas no ar. Atenta a dimensão e importância do investimento que antes foi propagandeado, quer pelo Governo, quer pela Renault/Nissan que a tal se associou, seria bom que este assunto fosse investigado e se percebessem as verdadeiras razões que estiveram na base da decisão. Não acredito que os custos de produção nas restantes unidades do Reino Unido, de França, dos EUA ou do Japão sejam inferiores aos nossos. Espero, por isso mesmo, uma explicação decente por parte do ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, que não só traga alguma luz ao assunto como esclareça que fez o Ministério para evitar este desfecho. Se é que houve oportunidade para fazer alguma coisa. E espero que algum jornalista se interesse pelo caso. Um projecto daquela dimensão está muito para além da simples propaganda ou de uma opção ideológica e diz respeito a todos nós. Sob pena de se isto não for devidamente clarificado o Governo português, qualquer que ele seja, andar a fazer figura de otário. Antes, durante e depois. E isso seria inaceitável numa perspectiva nacional.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

A LER

O facto deste livro ser prefaciado por Gian Antonio Stella, um dos autores do famoso "La Casta", obra que lamentavelmente ainda aguarda publicação em Portugal, já seria uma garantia de interesse e de qualidade.

O seu título constitui a porta de entrada para um mundo que não é de todo desconhecido dos portugueses e que teima em fazer parte do nosso quotidiano, como ainda agora o deputado Hélder Amaral e o prof. Marcelo Rebelo de Sousa sublinharam a propósito das nomeações dos novos administradores hospitalares. "Scurriculum - Viaggio nell'Italia della demeritocrazia" é, como se sublinhou no influente La Republica, um retrato impiedoso da "deméritocracia", isto é, de um "sistema que selecciona e promove cientifcamente uma classe dirigente de baixo perfil que não é funcional ao País mas ao partido".

Aliás, o interesse da obra é que tal que aquilo que Stella escreveu no prefácio teria plena aplicação em Portugal: "da noi vige un sistema, ignobile e suicida, che mortifica i più bravi costringendoli spesso a regalare la loro intelligenza ai Paesi stranieri e premia al contrario quanti hanno in tasca la tessera giusta o il telefono del deputato giusto" [tradução livre: "entre nós vigora um sistema, ignóbil e suicida, que mortifica os melhores, constrangendo-os muitas vezes a oferecer a sua inteligência aos países estrangeiros, e premeia, ao invés, os que têm no bolso o cartão adequado ou o número de telefone do deputado que interessa"]. 

Quem sabe se não era isto que o actual secretário de Estado da Juventude, Alexandre Mestre, tinha em mente quando convidou os jovens desempregados qualificados a saírem de Portugal? A partida dos mais capazes diminuiria as estatísticas do desemprego e facilitaria o aprofundamento da deméritocracia com a colocação dos mais medíocres que tivessem o cartão do PSD ou do CS/PP ou o telefone de um dos influentes ex-jotinhas que mandam no País.

APLAUSO

O recente episódio da nomeação dos administradores hospitalares é apenas mais um a juntar a tantos outros, em tão pouco tempo, que permitem confirmar a teoria de que continuamos nas mãos de gente indigna de exercer o poder. Conquistar o poder não custa, difícil é saber exercê-lo. Por isso, quero também aqui deixar uma palavra de apreço pela atitude pronta e responsável do deputado do CDS/PP Hélder Amaral que, não obstante integrar um dos partidos da coligação, prontamente denunciou e criticou a situação.
Em cada dia que passa o "primeiro-ministro" Miguel Relvas e o seu "assessor" Passos Coelho, com toda a transparência, mostram a sua verdadeira face e demonstram não terem esquecido as lições aprendidas durante os anos de militância na JSD. Bastaram seis meses e já está quase tudo visto em matéria de satisfação de clientelas.
Razão tinha José Adelino Maltez quando há dias escrevia que seria bom as pessoas fazerem as contas para se saber quantos dos que estavam na primeira fila, no dia do lançamento do livro de Passos Coelho, escrito por Felícia Cabrita, é que ainda não foram nomeados para alguma coisa.

domingo, dezembro 11, 2011

Subscrevo

Contudo, ele e as suas ideias estão aí. Nesta época de desnorte e incerteza em que o chão parece fugir-nos debaixo dos pés, precisamos como nunca de reconhecer e valorizar as nossas melhores referências: Gonçalo Ribeiro Telles é uma delas.” – Fernando Madrinha, Expresso, 10/12/2011

Regresso ao sol (encoberto)

Ele passara por aquele período de idealismo em que por vezes preludia também a formação dos tiranos, e de tal período não restava nele maior vestígio do que o da larva no insecto alado. Poder-se-ia triturar tudo e depois analisar, sem descobrirmos no seu organismo uma só célula forjada para servir outra coisa que não fazer bons negócios.” – Italo Svevo, Una burla riuscita (tradução de Vasco Gato)    

No seu poema “Ressurreição”, de “Máquina de areia”, o imortal Rui Knopfli escreveu nos idos do primeiro semestre de 1963 que

o regresso ao sol é o regresso
 ao princípio, porque o sol tem
 o brilho novo do princípio
 e as coisas têm o ar estranhamente
 fresco do primeiro dia da criação.

Knopfli foi um génio.

Quem conheça Knopfli e o pequeno texto de Italo Svevo acima transcrito e a seguir leia a entrevista que o ministro Miguel Relvas deu ao Expresso dificilmente não concluirá estar na presença do herói falhado de Svevo. Num novo regresso ao sol. 

Quem, com distanciamento, sem falsidade, e um módico de atenção, se der ao trabalho de ler a entrevista será obrigado a nela ver um tremendo exercício de cinismo, de hipocrisia em estado puro, de umbigismo. A entrevista do ministro Relvas não foge daquele que tem sido o modelo seguido desde que há alguns anos se guindou a posições de poder, se tornou influente na estrutura maçónica e se julgou no dever de dar entrevistas para manifestar o seu “pensamento”.

Com a atenção que o assunto merece – o ministro é um modelo do abrilismo pós-revolucionário de vocação mediática e a entrevista uma pequena “maldade” do jornal que toda sua inteligência desprezou –, vale a pena perceber algumas das suas palavras, em especial porque o ministro Relvas tropeça na sua própria sombra e “percurso”. Normalmente, quando assim acontece, não é preciso ler nas entrelinhas. Basta ler o vertido nas folhas do jornal.

Cinismo porque dificilmente alguém que não estivesse subjugado pela imagem e odor do seu poder actual se predisporia a dizer, tendo ascendido às posições que ascendeu da forma que é por de todos conhecida, em resposta a uma pergunta sobre este Governo, que tem dois slogans – “austeridade e reformas” – que foram bandeira de um anterior governo do PSD chefiado por Durão Barroso, e que o próprio Miguel Relvas e Manuela Ferreira Leite integraram, que a diferença entre os dois está em que este, o actual, “tem uma estratégia”. Tão sibilina frase conduz-nos inevitavelmente a secamente concluir que o Executivo que ele antes integrou, chefiado por Durão Barroso, não tinha estratégia. Foi um equívoco. Bom, mas um equívoco, repare-se, dirigido por “um dos políticos mais notáveis da sua geração”. Sim, ele mesmo, Durão Barroso. Imagine-se agora o que teria sido se não tivesse esse estatuto.

Se Relvas fala verdade quando diz que Durão Barroso, “um dos políticos mais notáveis da sua geração”, conseguiu ser presidente do PSD, vencer eleições, formar governo e a seguir ser escolhido como presidente da Comissão Europeia, sem ter sequer uma estratégia de governo, imagine-se o que seria de Portugal neste momento se o homem não tivesse o currículo que tinha.

Incompreensível é que Miguel Relvas, um espírito superior, não se tenha então importado de fazer parte de um Governo que não tinha estratégia. Que hão-de os portugueses pensar de tal atitude? Serviço público? Só pode ser isso, porque o actual ministro, que ao tempo já o era, poderia ter aproveitado esse tempo para prosseguir os estudo, como fez agora José Sócrates, ou incrementar as relações entre Portugal e o Brasil, com as qualificações que já tinha, mas preferiu servir o País num Governo sem estratégia, atrasando as inadiáveis reformas e permitindo a ascensão de José Sócrates. Quem sabe se não foi por isso que estamos como estamos?        

Temo ser mal interpretado, mas o entrevistado foi o mesmo que logo a seguir referiu que as declarações que o Presidente da República tem feito são uma ajuda para Portugal e representam o lado “modular do nosso sistema político”, complementando o discurso do Governo. O Presidente da República a esta hora já deve estar a pensar entregar as suas poupanças ao mesmo banco com o qual o ministro Relvas fez um “contrato de gestão discricionária” (?) da sua conta bancária.

Esse tipo de discurso deve ser ainda um resquício do lado “facilitador da realidade” que Miguel Relvas atribui a António José Seguro e que o entrevistado, sem rodeios, reconhece ser a o papel da oposição. Da oposição, senhor ministro? E o senhor está de acordo?

Não quero ser provocador, mas se é esse o papel que o senhor ministro Relvas atribui à oposição, como conciliar esse “discurso facilitador da realidade” com o discurso da transparência e da verdade que Passos Coelho reivindicou como seu? O mesmo que, segundo ele, justificou uma vitória eleitoral e a chamada de Miguel Relvas ao Governo?

Compreendo tal atitude por parte de quem humildemente confessou ter “uma vida para além da política”. Não tenho dúvidas. A avaliar pelos amigos que ainda recentemente um semanário refere como sendo os do ministro do outro lado do Atlântico. O que o jornalista do Expresso se esqueceu foi de perguntar ao entrevistado que teria sido dele, sem profissão, emprego ou qualificações relevantes, sem a JSD e a política. Ele que em tempos confessou numa outra entrevista ter saído do Parlamento, homem feito, para ir trabalhar, fazer-se à vida, estudar, ganhar dinheiro. Verdade se diga que o fez muito bem. E com rapidez. Reconheçamos-lhe o “mérito”. De quem já foi “convidado para tanta coisa na vida”, outra forma de, digamos, desenrascanço não seria de esperar.  

Quem me dera poder falar assim. Perceberão que não possa fazê-lo. Nem todos se podem dar ao luxo de ser referenciados nos jornais e revistas como sendo membros influentes de uma poderosa loja maçónica e, ao mesmo tempo, com igual transparência afirmar quando questionado sobre a sua eventual filiação maçónica, que “a vida privada de cada um, a cada um diz respeito”, com a displicência de quem logo a seguir e na mesma entrevista, ao ser perguntado sobre se acha bem “figuras públicas pertencerem a sociedades secretas”, asserção que todos os mais recentes grão-mestres contestam, se permite dizer que “hoje em dia tudo é público”. É? Quem diria? Então por que razão não assumiu sem rodeios a sua filiação maçónica? Ser maçónico diz respeito à vida privada? Há alguma coisa que o envergonhe ou lhe impeça numa sociedade livre e democrática de assumir a sua condição  maçónica?

Eu, ao contrário dele, nunca fui convidado para muita coisa. Diria mesmo que, tirando algumas festas de amigos e conhecidos, nunca fui convidado para nada. Vá-se lá saber porquê. Mas, curiosamente, para a Maçonaria, tal como a Assunção, também fui convidado. Logo eu, um pelintra, fora da política, sem ligações a Angola, ao Brasil, à Zona Franca da Madeira ou a Ângelo Correia e com cada vez menos amigos. É verdade que se posso dizer que se (ainda) não aceitei o convite foi por continuar ingénuo e temer encontrar lá um Relvas. E outros como ele. Todos de avental e sorriso acolhedor para avaliarem as minhas “pranchas”. Manias.

Maria Filomena Mónica, com a elegância que se lhe colou à pele e à escrita, escreveu na sua crónica do Expresso: “a reportagem sobre os empenhos que o “Público” publicou, a 27 de Novembro último, é deprimente. Os portugueses aceitam a cunha como natural, o que corrói a alma, mina o esforço e prejudica a economia. Infelizmente, Portugal nunca foi, nem é, um país meritocrático”. De facto, há coisas terríveis.  

Olhei para mim, vi-me reflectido no espelho que estava ao meu lado. Estranhamente, não foi a minha imagem que apareceu. Por momentos vi-me dentro do fato – terno ou paletó - do ministro Miguel Relvas. Ao lado de Passos Coelho e do seu olhar severo, enquanto lia o embuste perfeito de Italo Svevo. Senti-me transparente, incapaz de dissimular o espanto. Há amizades como a do texto de Svevo, entre Mario e o caixeiro-viajante, que nunca deviam conhecer a luz do dia. Para não nos traírem.

Entre a fantasia e a realidade sempre escolhi a liberdade.

A liberdade, como escreveu o Knopfli, “é a ressurreição”. E eu, se um dia fosse membro de um qualquer executivo, não me atreveria a dizer que “se um dia sair do Governo, sei o que vou fazer”. Não saberia. Não me vejo capaz de ressuscitar. Eu nunca teria a lata de dizer que em 2011 “a figura do ano são os portugueses”. Não entrei na política para agilizar negócios, desdenhar dela ou gozar com os portugueses. E até hoje, embora desconte ininterruptamente para ter uma reforma decente há 22 anos, nunca consegui entregar as minhas “poupanças” à “gestão discricionária de um banco”. Nem sequer uma parte. Quem me dera poder fazê-lo. É que sem o respaldo de uma irmandade, laranja ou outra, a mim, os “irmãos”, cidadãos como eu, dentro ou fora da política, pedem-me contas.

Quem tem uma carreira fora da política, e da função pública, quando sai não consegue recuperá-la. Em particular se der uma entrevista como a do ministro Relvas e não gozar da ajuda de uma “irmandade”, da compreensão de um partido ou das amizades que a política ajudou a criar e cimentar.

Ninguém, em Portugal, que fez da política a sua vida quando ainda usava “cueiros” inicia uma carreira fora da política, à beira dos 40 anos, sem qualificações nem habilitações, no mundo dos negócios, sem tudo o que a política lhe deu. Ter tirado partido disso, enriquecer com isso e não ter a humildade de reconhecê-lo é profundamente aviltante. E pouco sério.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Os palhaços somos nós

Disse do programa o que Maomé não disse do toucinho. Chamou-lhe um "escândalo" e prometeu reformulá-lo porque não passava de uma fraude e de uma "credenciação da ignorância". Entretanto, o rapaz ganhou as eleições neste país desvairado e farto das manigâncias do "socratismo". Os portugueses, palermas e sem alternativa credível, deram-lhe a maioria.

Seis meses volvidos, e depois do actual primeiro-ministro nomear um novo responsável pelo programa que tão desacreditado foi, um tal de Xufre veio dizer que não tem dúvidas de que "o processo deve e vai continuar" e que "um país, por muitas dificuldades que tenha, só começa a sair delas se apostar no seu bem mais precioso, que são as pessoas".

Esta última frase podia ter sido dita por Guterres. Ou por José Sócrates. Mas foi dita pelo tal Xufre, de nome próprio Gonçalo, o homem que Passos Coelho nomeou para presidente da Agência Nacional para a Qualificação. Xufre não só "faz uma avaliação genericamente positiva do programa Novas Oportunidades" como, acrescenta o Público, "da análise que está a ser feita ao Novas Oportunidades já é consensual a ideia de que são necessários novos passos, porque o objectivo foi recuperar para o ensino pessoas e aprendizagens que importava reconhecer". Novos passos? De coelho?

Desconfiado, reli a notícia da página 14 e ainda consegui vislumbrar uma citação, entre aspas, de mais uma frase do homem que Passos Coelho nomeou para acabar com a "credenciação da ignorância": "Esse processo já atingiu o seu pico, o programa é um sucesso, somos vistos como um exemplo por essa Europa fora". Caramba, será que li bem? Parece que sim. O Público refere serem as declarações públicas e terem sido proferidas "no decorrer da cerimónia de entrega de diplomas a cerca de 70 formandos do centro Novas Oportunidades da Secundária Alves Redol, de Vila Franca de Xira". E Gonçalo Xufre ainda esclareceu, para acabar com dúvidas, que "ficou 'convencido' da importância deste processo quando foi convidado por um grupo económico para a entrega de diplomas a cerca de 500 funcionários".

Grupo económico? Quinhentos? Já sabia que há grupos económicos que têm o condão de fazer algumas pessoas ver com outros olhos quando as convidam para qualquer coisa. Também sei que houve quem atribuísse ao PS, por causa desse programa das Novas Oportunidades, o prémio "fraude da década". E até homens sérios e sensatos como os meus amigos do Delito de Opinião, Rui Rocha e João Carvalho, alinharam pelo diapasão de Passos Coelho, criticando e gozando duramente as Novas Oportunidades.

Eu, que sou incréu, desconfiei da excelência e dos defeitos do programa. Antes, durante e depois.

Hoje, após ler as declarações de Gonçalo Xufre, sabendo que estamos a 9 de Dezembro, e não a 1 de Abril, senti remorsos por não ter acreditado logo no que Sócrates dizia. Se gente da confiança de Passos Coelho, nomeada por ele para desmantelar o "escândalo" e acabar com a "credenciação da ignorância", vem dizer, seis meses depois das eleições, que as Novas Oportunidades são "um sucesso", que hei-de pensar dela? E do programa?

Não tenho dúvidas de que entre esta gente haverá pessoas bem intencionadas. E não tenho (ainda) Passos Coelho na conta de um refinado mentiroso ou de um perfeito trafulha (não conto aqui com aquelas cenas, que são mais da categoria do sádico, dos aumentos de impostos e da rejeição do "PEC 4" devido à excessividade dos sacríficios que os "estafermos" dos socialistas queriam impor ao povo português). Mas declarações como as de Gonçalo Xufre ou as do inqualificável Álvaro Santos Pereira, no Parlamento, fazem-me duvidar, ainda mais, da seriedade de quem disse das Novas Oportunidades o que foi dito.

Da competência deles, ou melhor, da sua incompetência, nunca duvidei. Bastava-me saber que os "ex-jotinhas" eram a locomotiva da mudança para perceber qual seria o caminho que nos esperava. Prova-se em cada dia que passa que não era eu quem estava equivocado. Para mal dos nossos pecados. Os palhaços somos nós.  

Sinais (42)

"Com o passar do tempo e o confronto com as medidas tomadas, clarifica-se o conteúdo ideológico de Passos Coelho e a sua intenção política de desarticular o Estado e entregar à plutocracia o que resta. Os exemplos abundam e são diários. Uns, finaceiramente irrelevantes, esmagam moralmente. É o caso do ministro da Economia, que veio voluntariamente para Lisboa mas obteve um subsídio de renda de casa. É legal, mas imoral. Porque ele próprio censurou e acabou com a possibilidade dos velhos viajarem em comboios vazios, pagando apenas metade do bilhete. Porque os funcionários públicos deslocados para trabalharem no país e os mais de 300 mil emigrantes forçados, recentes, não o têm. Porque apra viver bem melhor que os mais de 700 mil desempregados, cujo sofrimento deveria combater com medidas que não toma, não precisa desse subsídio. (...) Passos Coelho ainda não entendeu que a sua estrita visão contabilística poderá proteger o país do aguaceiro presente, mas vai deixá-lo bem mais vulnerável à tempestade do futuro. Nem a escola onde estudou nem a curta experiência de gestão que teve lhe ensinaram que há uma diferença entre o importante e o urgente. Centrou-se no imediato. Abriu-se à plutocracia. É um utilitarista irracional. E não só nos empurra para a penúria, como afirma que esse é o nosso futuro. Se o regime não estivesse podre e a sociedade abúlica, o seu provir seria curto." - Santana Castilho, Público, 07/12/2011 

Sinais (41)

"Quem foi responsável pela concessão da barragem à EDP e quem autorizou a sua construção não foi Passos Coelho nem o seu ministro da Economia, mas há no comportamento dos dois executivos uma mesma mentalidade obreirista e economicista que reduz a riqueza do país a gigawatts ou, no caso a receitas antecipadas que haveremos de pagar com altos juros. (...) O que importou foi concessionar a barragem para obter receitas extraordinárias para o défice. Mesmo que em causa estivesse um aproveitamento que produzirá menos energia do que o simples reforço de potência das barragens do Douro Internacional. À custa do natural interesse da EDP, da irresponsabilidade de José Sócrates e da cumplicidade de alguns autarcas (excepção apra José Silvano, de Mirandela) o Douro Património Mundial corre o risco de perder um dos seus maiores activos" - Editorial, Público, 07/12/2011.

Finou-se

A notícia de uma cisão no Bloco de Esquerda já era aguardada há algum tempo. Tal como eu previra, o resultado de 5 de Junho constituiu a certidão de óbito de um suicídio anunciado e promovido ao longo de meses nos horários mais nobres. A inteligência e a seriedade sempre conviveram mal com o oportunismo serôdio, o apelo mediático e a sobranceria de alguns dirigentes. As coroas deverão ser enviadas ao cuidado de Francisco Louçã e Luís Fazenda.

terça-feira, dezembro 06, 2011

Sinais (40)

"Desde o "congresso da unidade" de Braga que os socialistas, que José Sócrates secara e quase silenciara, mostraram que realmente são os calados os mais perigosos, os que "mordem". A votação do Orçamento esta semana - em que uma cadeia de mails que alguns fizeram chegar aos media mostrava não só a divisão mas sobretudo o poder de pressão que os deputados têm sobre o seu líder - e o movimento - perdão, o manifesto - com que Mário Soares voltou a agitar as águas são apenas os últimos exemplos de que a serapilheira que sustém os gatos do PS estará constantemente a rebentar pelas costuras. E que por mais reuniões para desabafar que mande fazer ou por mais eventos das várias correntes rosa a que vá, como tem feito, António José Seguro não evitará arranhões sucessivos dos muitos que estão com as unhas de fora." - Filomena Martins, Diário de Notícias, 03/12/2011 

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Sinais (39)

"A razão por que os deputados da Madeira votaram a favor do Orçamento [do Estado para 2012], embora com a declaração de voto que os senhores conhecem, é que antes da votação o primeiro-ministro lhes disse - aos deputados do PSD e ao deputado do CDS - que a Zona Franca ia para a frente", afirmou Alberto João Jardim" - Jornal de Notícias, 05/12/2011.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Sinais (38)

"O OE 2012, que acaba de ser aprovado, tem um erro de consolidação de 297,4 milhões de euros num importante quadro-síntese de apuramento do défice público, quadro esse que resulta, em grande parte, dos mapas orçamentais. Algo está errado e o Ministério das Finanças deverá esclarecer onde. Ou nas transferências, e aí é necessário saber qual o valor que necessita de ser corrigido e porquê, ou, se estão certas as transferências, o défice público será agravado nesse montante. Errar é humano, mas este erro é importante não só pelo que pode implicar, mas pelo que revela". - Paulo Trigo Pereira, professor do ISEG, Público, 01/12/2011 

"Questionado pelo Público, o Ministério das Finanças diz que não está em causa nenhum 'erro', mas sim uma 'discrepância', que 'resulta de diferenças de consolidação entre os diversos sectores da administração pública' e que deveria ter sido imputada à linha de transferências entre as administrações públicas". - Rita Faria, Público, 01/12/2011

DIÁRIO IRREGULAR

2 de Dezembro de 2011

Olho para as pessoas que por mim passam na rua. Em todas o mesmo olhar triste. Amargurado. Até nas mulheres bonitas. À crise soma-se o distúrbio provocado pela fotografia da criança francesa que foi enfiada à força dentro de uma máquina de lavar para ser centrifugada. Nem as crianças escapam. À entrevista confessória do "estripador de Lisboa" seguiu-se o sequestro e o roubo a um vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos e a apresentação dos documentos "originais" dos "originais" relativos à licenciatura de José Sócrates. O passado não traz segurança. O presente é cada vez mais incerto. O Estado,a economia, o poder político, a razão de toda a desconfiança.

A senhora Merkel garante que a solução está próxima. Nicolas Sarkozy, com o seu sorriso idiota e andar apalhaçado, acompanha-a. Agora falam em refundação da Europa, em convergência orçamental e disciplina económica. Tudo em nome da solidariedade europeia. No fundo tudo se resume a uma frase: dêem-nos os vossos recursos que nós trataremos de geri-los sem sobressaltos. Nem para nós, nem para vós, acrescentaria eu.

Pouco edificante, como seria previsível, a negociação que afinal não houve sobre o Orçamento de Estado. A forma e a rapidez como alguns políticos passam a si próprios atestados de desqualificação é assustadora. Os acontecimentos verificados durante a apresentação, debate e votação do Orçamento de Estado, os números circenses que alguns voltaram a protagonizar com o à-vontade de quem ainda não percebeu que os tempos mudaram, fazem-me pensar que tudo aquilo que então escrevi mantém actualidade. Não seria possível mudar a composição do Grupo Parlamentar socialista, mas era perfeitamente evitável que nos órgãos nacionais do partido ficassem os mesmos de sempre. A factura de Seguro já começou a ser paga e há erros que a opinião pública e o eleitorado não perdoam. 

A velocidade com que em Portugal caminhamos para o empobrecimento é tal que nos últimos dias me vieram à memória duas frases que marcaram os anos oitenta do século passado. Uma é de um pensador e ensaísta neo-liberal, o francês Guy Sorman, que definiu os regimes socialistas do Leste europeu como sendo "regimes de miséria planificada". O grau de pobreza e de subdesenvolvimento de algumas sociedades comunistas era tão acentuado que Sorman não encontrou melhor forma de defini-los. A outra frase  - há quem discuta se foi efectivamente proferida, mas aquele a quem foi atribuída nunca a desmentiu -não é de um liberal, mas de alguém que foi durante mais de duas décadas o homem mais poderoso do regime chinês, ainda hoje por muitos idolatrado. Foi ele quem iniciou a revolução que conduziu a que um país pobre, isolado e fechado, dominado por comunistas corruptos, se tornasse num dos pilares fundamentais para a sustentabilidade do capitalismo moderno e das economias ocidentais. Refiro-me a Deng Xiaoping. Muita gente sorriu, poucos acreditaram, quando lhe atribuíram a frase "poverty is not socialism, to be rich is glorious". Mais de uma dezena de anos após o seu falecimento, depois dos Jogos Olímpicos passarem por Pequim e numa altura em que as grandes empresas americanas, italianas e alemãs, de produtoras de bens de luxo a empresas de refrigerantes que foram símbolos da Guerra Fria, vendem mais na nova China que nos seus próprios países, tudo parece começar a fazer sentido.

Parece mas não faz. Deng já cá não está para comentar o que se está a passar na Europa nem para nos ajudar a perceber as razões para o que acontece. Duvido que, entretanto, alguém se atreva a perguntar a Sorman qual a solução para o caso português, mas estou ciente de que ele duvidaria das conclusões de Passos Coelho. Quando um primeiro-ministro em funções de um país estruturalmente pobre, e que precisa urgentemente de se modernizar, crescer e desenvolver, diz que uma crise grave como a que atravessamos só será ultrapassável empobrecendo ainda mais, qual o papel que fica reservado à esperança? Se o socialismo era o regime da miséria planificada, o "passismo" só poderá ser entendido como uma estratégia de empobrecimento planificado, assente no desmantelamento do Estado e na asfixia tributária dos cidadãos, destinada a criar a ilusão nos portugueses de que um dia será possível sair da miséria crescendo.

O grave é que a miséria não é um adubo. A miséria espalha-se, pode tornar-se endémica, mas não gera crescimento. E ser pobre e esforçado não é uma glória. Nunca foi. Passos Coelho, que apesar de tudo me parece um tipo normal, devia perceber isto. Não é difícil. Bem sei que as universidades de Verão do PSD não ensinam estas coisas, que por lá só se discutem futuros grandiosos e carreiras brilhantes, ouvem-se discursos eloquentes e grita-se "Soares é fixe". E que poucos laranjinhas pensam quando sentem o cheiro do poder. Mas também considero que seria bom que alguém que saiba alguma coisa sobre a miséria, ou que a ela tenha sobrevivido, lhe devia dizer isso. Dar-lhe umas luzes sobre esse tema. E se for um ex-comunista ou um liberal melhor. Quem sabe se Paulo Portas ou Zita Seabra não estarão disponíveis para isso. Pensando bem seriam as pessoas ideais para terem uma conversinha com o primeiro-ministro. Antes que Vítor Gaspar, para compensar o programa de privatizações do Governo e o fiasco da venda do BPN aos patrões angolanos de Mira Amaral, avance com uma proposta de nacionalização da Servilusa. Para depois poder reprivatizá-la. Não convém dar mais ideias a Miguel Relvas. Na miséria e na morte os grupos de trabalho ainda rendem pouco.   

quarta-feira, novembro 30, 2011

The 10 Best Books of 2011

A fotografia é de Todd St. John e a lista é a conceituadíssima do New York Times. Um livro que se deixe ler com gosto é sempre uma excelente oferta.

UMA TRAPALHADA EM 3D

Como se o que tínhamos não fosse suficiente para deslustrar a actuação de quem criou as "Independentes", de quem lhes deu lastro, de quem lá estudou, e de quem por ali investigou, acusou e arquivou, vem agora mais este figurão de uma galeria digna dos melhores "western spaghetti", em mais um incontornável trabalho do Público, dizer que originais são os dele. São? Mas há originais? Quem me garante que nesta história, desde o seu início, há alguma coisa de original? A mim parece-me tudo contrafeito. E mal. Ninguém, nem nada, se salva desta trapalhada "académica".

terça-feira, novembro 29, 2011

domingo, novembro 27, 2011

O LIVRO DE QUE SE FALA

"A auto-imagem que temos de nós próprios leva, por vezes, a aceitar a afirmação de que o "offshore da Madeira é diferente dos outros". Pura fantasia política para enganar tolos. É parte do sistema mundial de desresponsabilização social, fraude e branqueamento de capitais. Algo que existe se vantagens para a economia portuguesa, antes pelo contrário. Algo que nem impacto tem sobre o desenvolvimento regional do arquipélago" - Carlos Pimenta, Catedrático da Faculdade de Economia do Porto e presidente do Observatório de Economia e Gestão de Fraude

Pode-se sempre esperar mais de uma obra, mas confesso que não deve ser fácil compilar mais informação em termos tão acessíveis. Tem, ademais, o mérito de constituir a primeira investigação ao offshore da Madeira, pondo a nu a aberração que essa coisa é. O livro irritou Alberto João Jardim e é revelador da coragem do seu autor. É, pois, de leitura obrigatória. Se quiser ter um cheirinho do que está lá dentro poderá ouvir a entrevista que o economista João Pedro Martins deu à Antena 1, acessível aqui. Por momentos pensei que o entrevistado estivesse a falar de Angola ou da Somália. Depois percebi que era mesmo connosco.  

sábado, novembro 26, 2011

V FESTIVAL DE ÓRGÃO

Termina hoje em Faro mais um Festival de Órgão, com um espectáculo na Igreja da Sé, pelas 21h 30. O convidado é José L. González Uriol, antigo professor catedrático de órgão e cravo no Conservatória de Saragoça e personagem mundialmente reconhecida como  especialista em Música Antiga de Tecla. Irá interpretar peças de Andrés de Sola, Buxtehude, Johann Kaspar Ferdinand Fischer, Speth, Giovanni Pescetti e Pablo Bruna. O órgão da Sé de Faro data de 1715/16 e foi integralmente revisto em 2006 por Dinarte Machado.
Espero que em próximas edições o Festival possa aumentar o seu prestígio internacional e merecer adequada promoção, a qual, até agora, não tem estado ao nível das interpretações.

sexta-feira, novembro 25, 2011

25 DE NOVEMBRO


"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!” - Salgueiro Maia, 25 de Abril de 1974 

O estado a que chegámos é por estes dias exactamente o mesmo. Só já não temos o Salgueiro Maia. 

SINAIS (37)

"Esta greve é uma prova de vida num tempo em que a relação de forças no mundo laboral se apresenta difusa, quase inorgânica, casuística e, não raro, muito desigual.
Um alerta para o Governo que deve interpretar os sinais desta greve na sua dimensão intrinsecamente humana, que é o que conta por detrás da visão macroscópica da crise. A austeridade exige ainda mais um justo equilíbrio entre personalismo laboral, coesão social, justiça distributiva, sensibilidade familiar e competitivdade económica". - António Bagão Félix, Público, 25/11/2011

quinta-feira, novembro 24, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

24 de Novembro de 2011

A greve é um direito. Para alguns, como o meu falecido avô e distinto anarco-sindicalista do primeiro quartel do século passado, Miguel Maria de Almeida Correia, seria mais um dever. Uma obrigação do operariado quando a degradação das suas condições de vida e de trabalho colocasse em risco princípios básicos de justiça e de liberdade e a sua sobrevivência pessoal e colectiva. Nesta perspectiva, a greve de hoje seria um dever do movimento sindical português do século XXI.

Estamos muito longe das lutas sindicais dos ferroviários portugueses da I República, que foram severamente reprimidas e antecederam a chegada ao poder do movimento que culminou em 28 de Maio de 1926. Mas em causa, então como agora, estavam e estão o desgoverno político e o agravamento das condições de vida dos portugueses. Do que se seguiu a 1926 já nós sabemos. Do que se vai seguir à greve de hoje ninguém sabe. Em qualquer caso, sendo diferentes as condições da democracia naquele final da I República (antes de 28 de Maio já tinham ocorrido golpes e ameaças) das que hoje vivemos, não será difícil pensar que se algo de idêntico acontecesse, já não por força das armas que os tempos são outros, mas por via de uma revolução tecnocrática assente no poder de uma qualquer troika, teríamos uma versão mais moderna, mais cativante e mais bem composta do “Botas”.

O problema é que esse modelo, agora repescado em diversos países, não garante, por esta ordem, uma injecção de confiança nos mercados, uma melhoria da reputação dos governantes, um aumento de credibilidade externa, uma retoma económica que permitisse a reversão dos números do desemprego até um patamar comportável para o Estado e a sociedade e o incremento das exportações, enfim, os instrumentos necessários à ultrapassagem da crise.

Bem pelo contrário. Os exemplos que nos chegam revelam um estado de cegueira global, à semelhança do romance de Saramago, que tendo começado nas grandes instituições financeiras e económicas, alastrou aos mercados, inundou os países e sequestrou a política. Quer isto dizer que neste momento não se afigura provável um qualquer 28 de Maio pela simples razão de que o golpe já aconteceu, está em curso e disseminado por toda a Europa.

Mais grave do que a Fitch ou uma agência chinesa de notação atribuírem a Portugal a classificação de lixo – que muitos milhões de portugueses fazendo fé nas promessas e garantias que lhes foram dadas acreditavam ser impossível de acontecer depois de terem dado a vitória nas presidenciais a Cavaco Silva e de terem elegido Passos Coelho para o lugar do desacreditado e impotente José Sócrates –, é o facto da Alemanha, o farol do Banco Central Europeu e fiel da estabilidade continental, ser incapaz de transmitir aos tais mercados a confiança de que estes necessitariam para arrematarem a totalidade da emissão de dívida que ontem realizou. Ao colocar apenas 60% daquilo que pretendia e a um juro que roça os 2%, os sinos alemães tocaram a rebate. As chamas começam a aproximar-se perigosamente de Berlim e a senhora Merkel se não foi capaz até agora de modernizar o seu guarda-roupa já não terá daqui em diante muitas hipóteses de fazê-lo.

Em parte, o facto das preocupações chegarem à Alemanha poderá parecer-nos, a nós europeus do Sul, uma pequena vingança dos deuses, fartos de nos verem ser tratados pelo acrónimo “pigs” pela “big sister” teutónica e os seus amigos do Norte. Porém, essa aparente satisfação não contribui em nada para resolver o nosso problema, dar mais sentido à greve de hoje, amenizar a amputação dos subsídios de Natal ou os obscenos aumentos de impostos, uns mais às claras outros encapotados, com que o triunvirato Coelho/Gaspar/Relvas nos tem fustigado. De uma forma ou de outra, já que com o Presidente da República, eterno funcionário agarrado às suas reformas e às poupanças que um bando de pantomineiros e criminosos ajudou a fazer crescer, os portugueses sabem que não poderão contar, para além de palavras de circunstância e de boas intenções.

Resta o tal triunvirato. É com ele que teremos de contar, pese embora seja claro que com um primeiro-ministro estagiário, um tecnocrata em comissão de serviço e um especialista em grupos de trabalho doutorado em práticas ocultas e artes várias, ninguém se poderá sentir protegido.

Durante meses a fio os juros subiram. Depois corremos com Sócrates, sem prejuízo de termos ficado com alguns monos plantados em São Bento e no Largo do Rato. Seguiu-se a descoberta dos “buracos” legados pelos anteriores governantes e os que tinham sido devidamente ajardinados pelos sociais-democratas da Madeira. Entretanto, a troika instalou-se, chegaram ordens travestidas de conferências de imprensa, e os peritos em contabilidade pública escolhidos pelo Dr. Coelho apresentaram o OE para 2012. Convencidos de que esse documento era a “Nó Górdio” que nos iria livrar dos terroristas das agências e dos especuladores, os deputados da maioria aprovaram-no sem pestanejar. E sem pensar. Para quem se recorda, a verdadeira “Nó Górdio”, a de Kaúlza de Arriaga, custou-nos os olhos da cara e durou sete meses, deixando no terreno centenas de mortos e milhares de feridos e estropiados.

A operação que está em curso e que levou a que nos fosse atribuída a categoria de lixo (junk) talvez devesse ser apropriadamente chamada “Nó Tróiko”, nome do golpe que o triunvirato Coelho/Gaspar/Relvas, com o apoio do Presidente da República, nos aplicou. Porquê? Porque há coisas de que já temos a certeza neste momento: a “Nó Tróiko” vai ser mais cara do que a original de Kaúlza, vai durar anos em vez de meses e não consegue desalojar os terroristas das suas bases nas agências de rating, permitindo que eles agora nos entrem pela casa. Ficará por apurar o que ainda não conseguimos prever neste momento. Isto é, quantos mortos, feridos e estropiados ficarão pelo caminho. E quando terá lugar um novo 25 de Abril que nos tire este peso de cima e nos devolva a dignidade. Sim, eu sei, não vou tão longe quanto o Luiz Pacheco, não os mando para onde eles mereciam. Mas há uma razão: eu ainda acredito.

Se Ângelo Correia, que é um santo, acreditou em Duarte Lima e depois em Passos Coelho, e a ambos deu a mão, por que razão é que nós, portugueses, que não temos as capacidades dele de prever o futuro, não havemos de dar a mão, ou até as mãos, as duas, ao esforçado Passos Coelho e ao seu primeiro-ministro? Dir-me-ão que Miguel Relvas não tem a preparação de Duarte Lima para poder ser primeiro-ministro. Pois não, não tem. Mas tem amigos. Muitos. Até brasileiros. Eu ainda tenho fé que um deles nos venha safar. Duvido que o outro possa dizer o mesmo.