segunda-feira, abril 30, 2012

Palavras actuais

"En parcourant l'histoire des sociétés, nous aurons eu l'occasion de faire voir que souvent il existe un grand intervalle entre les droits que la loi reconnaît dans les citoyens et les droits dont ils ont une jouissance réelle; entre l'égalité qui est établie par les institutions politiques et celle qui existe entre les individus: nous aurons fait remarquer que cette différence a été une des principales causes de la destruction de la liberté dans les républiques anciennes, des orages qui les ont troublées, de la faiblesse qui les a livrées à des tyrans étrangers." - Condorcet, Esquisse d'un tableau historique des progrès de l'esprit humain (1793-1794), p. 199.

A circular

O teor desta carta que circula pela Internet levanta muitas questões que importaria esclarecer. Admito que entre a bazófia e alguma esquizofrenia haja factos cuja verdade é de toda a conveniência resgatar e apurar para bem da nossa democracia. Alguns estão tão bem situados temporal e espacialmente que não deverá ser difícil  cruzar informação. Gostaria de ver colocado um ponto final nesta história mas não sei se algum dia tal acontecerá. Com excepção dos que partiram, dos envolvidos à arraia miúda, por uma ou por outra razão, a maior parte dos nomes que aparecem referidos diz respeito a gente cuja companhia já então era pouco recomendável. E os mortos continuam a não poder falar.

Títulos (5)

"Cimentos - Governo assume preferência pela Camargo" - Expresso, 28/04/2012

"Desemprego 'real' dispara em Portugal" - Expresso, 28/04/2012

Lido

"Mas a questão da prevalência das lealdades partidárias às competências exigidas para o desempenho dos respectivos cargos não se fica pelo exemplo atrás referido [Tribunal Constitucional].
Com efeito, o facto do Governo ter criado uma comissão, dita independente, encarregada do processo de recrutamento de dirigentes da função pública, está a confessar publicamente que os membros do Governo são incapazes de resistir à pressão das forças partidárias e assim assegurar a isenção na escolha dos responsáveis máximos pelas instituições públicas.
Esta confissão, se por um lado nos tranquiliza por indiciar uma intenção meritória, por outro preocupa-nos.
Com efeito, esta decisão demonstra como as instituições que, pela sua vocação, têm a seu cargo a defesa do interesse nacional e, nessa medida, devem ser competentes e eficientes na gestão de recursos, podem estar capturadas pelas máquinas cujas clientelas estão, em muito casos, empenhadas em defender interesses que nada têm a ver com o colectivo." - Manuela Ferreira Leite, Expresso, 28/04/2012  

sábado, abril 28, 2012

Leituras (boas, da Quetzal, para todos os dias)


"Estranha, esta angústia do presente, do futuro.
Estranha, a imobilidade em que me perco, como se tivesse milhões de horas para esbanjar.
Estranho o medo que me prende.
Estranha, a inconsciência com que governo o dia-a-dia (a vida, essa, é ingovernável...).
Não sou o primeiro que deseja o repouso do não-ser, gasto pelos amanhãs que não vêm - ou temendo-os - pernas e maõs bloqueadas, cérebro vazio, nauseado, sem saber.
Amanhã!
E amanhã será como hoje, como ontem, como sempre, insatisfeito, triste, longe, mas enraizado naquela terra donde vim.


"Acordou com a luz quente do Sol, que durante o Verão, a meio da manhã, entrava quase sempre pelas nesgas entre as lousas mal sobrepostas no telhado. O pano de linho que cobria a enxerga estava manchado de sangue, e o cheiro doce da seiva das dedaleiras e das dulcamaras enchia a casa. Tinha finalmente chegado o que esperava havia então mais de dois anos: a hora da mandrágora."

sexta-feira, abril 27, 2012

De luva branca

Nunca tive particular atracção pela figura, nem apreciei o seu estilo enquanto Presidente da República. Menos ainda o seu patrocínio à aventura semi-péronista do PRD. Porém, nunca deixei de lhe estar reconhecido, como todos os portugueses de boa índole deveriam estar, pelo papel que desempenhou no 25 de Novembro de 1975.
Com o decurso dos anos, em especial dos mais recentes, creio que o comecei a ver com outros olhos, a compreendê-lo melhor, e a perceber algumas das atitudes e decisões que tomou no passado.
Não sendo particularmente simpático aos olhos da opinião pública, manteve sempre um comportamento acima de qualquer suspeita, como militar e como cidadão, coisa que de alguns dos seus pares não poderei dizer.
A entrevista, magnífica, diga-se de passagem, que foi exibida no dia 25 de Abril, voltou a surpreender-me positivamente. E embora possa manter a discordância quanto a algumas das interpretações que faz, não deixei de registar o momento em que referiu que nunca lhe passaria pela cabeça receber outro ordenado enquanto Presidente da República que não o da função exercida. Menos ainda, e isso ele não o disse, lhe passaria certamente pela cabeça receber outro ordenado - mais elevado - e ainda acumular com as ajudas de custo da função cujo ordenado recusara. Mesmo que não tivesse dito mais nada, só por isso, teria valido a pena ouvi-lo.
Um homem que sabe dar-se ao respeito tem outra dimensão. E autoridade. Ainda quando se discorda dele.      

quinta-feira, abril 26, 2012

Fechem a RTP

Pelo menos há trinta e sete anos que a RTP passa regularmente programas sobre o 25 de Abril. Durante décadas vimos filmes, entrevistas, reportagens. A revolução entrou nas escolas, tornou-se tema de estudo e de reflexão. Foram investidos milhões a dar a conhecer o 25 de Abril às novas gerações. E, que diabo, o 25 de Abril não ocorreu há séculos. Pois bem, ontem, uma simples reportagem televisiva atirou por terra todo esse trabalho que, certamente, terá contribuído para justificar muitos dos défices de exploração da televisão pública em anos recentes. A geração "mais bem preparada de sempre" também chegou ao parlamento e foi penoso, deprimente, confirmar o seu baixo nível e grau de ignorância.
Não saber quem foi o último Presidente do Conselho deposto em 25 de Abril de 1974, dizer que Vasco Lourenço foi primeiro-ministro, ou que Vasco Gonçalves é que foi o primeiro primeiro-ministro após a revolução, enfim, são falhas que eu até poderia compreender se estivéssemos a falar de gente da rua, de desempregados sem estudos, de pessoas sem qualificações.
Agora se os entrevistados são deputados na presente legislatura, licenciados em "relações internacionais e ciência política" mas nem sequer conhecem um mínimo da história que fez deles deputados, permitindo-se dizer as alarvidades que essa reportagem demonstrou, é sinal de que, de facto, só se andou a perder tempo e a gastar dinheiro e que os partidos também não cumprem a sua função formativa. Nada de novo, portanto. 
O que lhes foi perguntado é cultura geral, não tem nada de extraordinário, mais a mais sendo eles deputados. Sugiro por isso à senhora presidente da Assembleia da República que no próximo ano organize umas sessões de esclarecimento e formação para os deputados sobre o 25 de Abril e lhes distribua umas brochuras - de preferência coloridas e com pouco para ler para eles não gastarem os neurónios nessa actividade que não rende votos nem senhas de presença - antes destas datas que o país celebra, para que dessa forma os senhores deputados - com a honrosa excepção de um deputado do CDS/PP - não exibam de forma tão despreocupada a sua falta de conhecimentos.
Quando aqui há uns tempos foi realizada uma reportagem de idêntico teor junto dos nossos jovens universitários, não faltou quem bradasse aos céus porque isso não era representativo da nossa juventude. Pois não, não era. Mas esta reportagem da TVI, porque de deputados e militantes partidários com responsabilidades estamos a falar, é bem demonstrativa não só do que eles não sabem, e deviam saber, como da falência do sistema de ensino e do (de)mérito do recrutamento feito pelos partidos. Se esses são os melhores, os que chegaram ao parlamento, imaginem agora o nível de alguns que nunca lá chegarão e que mandam nos partidos a nível local e nas autarquias.
Quem tem razão é Miguel Relvas. Fechem a RTP, fechem o serviço público de televisão que andou durante anos a gastar milhões na preservação da nossa memória histórica. Se nem mesmo os nossos deputados viram esses programas da RTP, que lhes facilitariam a vida e não lhes roubaria tempo de leitura e reflexão à actividade política, conseguiram aproveitar alguma coisa, então é sinal de que o serviço público de televisão também nunca existiu.
Felizmente que o tipo de perguntas feito nessa reportagem não colheu as respostas de alguns membros do actual Governo. Seriam ainda mais tristes, estou certo, mas talvez depois disso talvez já ninguém se admirasse de haver quem com tamanhas responsabilidades se aprestasse para acabar com os feriados do Primeiro de Dezembro e do Cinco de Outubro.
Quando quem tem que saber não sabe, quando não se conhece a História, é a ignorância que triunfa.
Licenciados, dizem-se eles. Pois pois, doutores é o que eles são, sim, mas da mula ruça.

terça-feira, abril 24, 2012

Em Abril, lágrimas mil

"A nobreza está presente onde quer que exista a virtude, mas a virtude nem sempre está presente na nobreza" - Dante

Não sei se alguma vez já se deram conta, mas há duas coisas que um estafermo não pode ter: dinheiro e poder. Dinheiro porque assim que o tem tende a imaginar-se o maior e com a maior desfaçatez convence-se de que é simples, fácil e barato comprar os outros para  obter os seus favores. Poder porque alcançando-o se crê superior, não raras vezes acabando por tentar fazer da humilhação dos seus semelhantes um exercício lúdico destinado a fortalecer esse mesmo poder. Uma das coisas sem a outra, em regra, não causa qualquer mossa à sociedade. Se tiverem riqueza sem poder limitar-se-ão a ostentá-la e a gastá-la à semelhança do que faz qualquer trolha numa taberna quando tem os bolsos cheios. Se ensaiarem exercitar o poder sem riqueza só terão um caminho: ou fazem-no de forma competente e serão aplaudidos ou, sendo incompetentes no mando, serão corridos na primeira oportunidade por aqueles que governam. O problema é quando os estafermos adquirem dinheiro e, por via dele, poder, ou, noutros casos, conquistando o poder conseguem depois enriquecer. 

Os exemplos nas empresas e na nossa vida política são imensos. O 25 de Abril, na generosidade de espírito e entrega de homens como Salgueiro Maia ou dos políticos que asseguraram contra ventos e marés uma transição serena e uma consolidação irrepreensível, ao restituir a liberdade e a democracia ao povo foi tão longe nesse gesto magnânimo que condescendeu com o enriquecimento e a conquista de poder por um bom punhado de estafermos.

Trinta e oito anos depois voltamos a estar sob intervenção externa, entregues à bestialidade de quem não foi capaz de reconhecer, nem de se reconhecer, nos valores e princípios que enformam o nosso contrato social. E que se alguma vez os reconheceram e proclamaram tal só aconteceu transitoriamente enquanto instrumento de conquista do poder e de riqueza, o que fizeram de modo abusivo e fraudulento, enganando aqueles que neles confiaram, desvirtuando e hipotecando sem qualquer pudor o sonho de várias gerações de homens livres, sérios e honrados.

A diluição de responsabilidades políticas e institucionais, o crescimento sem rei nem roque de grupos económicos, cliques e gangues de marginais engravatados, ao mesmo tempo que meia-dúzia de investimentos visíveis serviam para ocultar o desperdício e a inutilidade de sucessivos anos de governação, transformados no penoso cumprimento dos formalismos de uma democracia cujos actores se centravam cada vez mais no seu próprio protagonismo e na apologia de virtudes que nem a melhor das lupas permitia vislumbrar, contribuíram para atapetar a nossa vida pública de uma espécie de pasta lamacenta que aos poucos se acumulou e vagarosamente foi alastrando, espalhando-se pelas juntas do edifício democrático, entrando pela porta principal dos partidos políticos e de agremiações discretas, entretanto escancaradas para receberem a riqueza e o poder que os estafermos iam conquistando nas suas actividades de lobbying, tráfico de influências, compra de interesses e de consciências e contratação dos idiotas úteis que nessas ocasiões sempre aparecem, verdadeiros emplastros que dão cor e cara aos esquemas mafiosos que se encostaram aos partidos, ao poder local e a uma administração central prisioneira do atavismo e da desconfiança em relação a todos aqueles que era suposto servir.

A forma hedionda como os partidos políticos permitiram a ascensão de caciques semi-analfabetos e medíocres, que arrastaram consigo as fichas de outros ansiosos por serem como eles, contemporizando com esquemas, ofertas subreptícias e roubos de sacristia que serviram ao seu próprio financiamento e ao pagamento de campanhas eleitorais, colocaram-nos à mercê dos estafermos que deles se quiseram aproveitar.

Muitos chegaram ao poder enriquecendo, rapidamente e multiplicando benesses à custa de uma muito aplaudida, socialmente reconhecida e institucionalmente valorizada, canalhice ascensional, aliás exemplarmente demonstrada pela forma como verdadeiros biltres foram feitos ministros, conselheiros e comendadores, condecorados e endeusados pelos mais altos magistrados do regime. O povo desconfiou, mas sereno como é ia aceitando as migalhas que sobravam dos seus banquetes. Os poucos que, entretanto, caíram em desgraça - por não terem sido suficientemente generosos na distribuição dos réditos e mais cautelosos no apuramento da "matéria colectável" -, foram entregues pelos seus pares, à laia de sacrifício, como forma de protegerem o grosso da coluna. De atirar areia para os olhos de quem há muito desconfiava do sistema de justiça. 

É impossível fechar os olhos. É impossível ignorar. E de nada serve vilipendiar ou chorar. Foi das nossas mãos que saiu o voto. Foram os nossos olhos que se fecharam quando deviam ter estado abertos. Foi a nossa cobardia, o nosso temor pelo risco, a vergonha de nos encararmos limpos e de cara lavada perante o espelho do passado e a vitrina iluminada do futuro que nos deixou arrastar para o atoleiro.

Trinta e oito anos depois perdemos o direito de sindicar o passado e de impugnar os nossos actos. Ninguém espera que os estafermos se retratem. Bem pelo contrário, eles estão aí vivos, bem vivos, no meio de nós, usando a sua máscara veneziana nos momentos eleitorais, distribuindo folhas de coca à malta das jotas, sob a forma de apelos vigorosos à alegria no desemprego, à crença na infalibilidade jacobina - estranho paradoxo - de economistas ditos "liberais" e/ou "neo-liberais".

Precisamos de uma democracia que esteja disposta a correr o risco de sobreviver, que não se deixe iludir pelo ar elegante e bem cheiroso dos estafermos que a condicionam nas escolhas e ainda assim os enganam nas poucas que são feitas, violando de forma inaudita, vergastando e mutilando a honra da república e de todos aqueles que deram o corpo às balas para que este país não fosse uma coutada de estafermos

O percurso que temos vindo a trilhar terá de ser interrompido. Se necessário à bruta. Sempre fazendo uso das armas que a democracia nos trouxe. Pela virtude da palavra. Pelo gesto ousado. Pela escrita vigorosa, clara e descomplexada. Pelo voto. Enfrentando os estafermos no seu próprio campo, no espaço público, que é onde mais lhes dói e lhes faltam os espaços para se esconderem.

Porque sendo naturalmente cobarde, o estafermo, quando acossado no seu palácio, esconde-se da luta nos subterfúgios da democracia. Nos tugúrios da política e nos templos do consumo. Numa democracia não pode haver esconderijos, muito menos um Olimpo onde os estafermos se acolham impunes à espera de uma choruda reforma. Numa democracia não pode haver virgens para serem oferecidas aos estafermos que adquirem riqueza e poder sem mérito. Numa democracia, a gente séria não pode conviver com pulhas e sovinas que singraram sem esforço fazendo favores a outros pulhas e sovinas que foram engordando e ensebando os seus dorsos com a luz, a manteiga e o combustível que os nossos tributos pagaram. 

Porque o esforço que homens como Salgueiro Maia, Emídio Guerreiro, Francisco Sá Carneiro, Sottomayor Cardia, Amaro da Costa, Salgado Zenha, Magalhães Mota, Sousa Franco ou Ernâni Lopes, para só citar alguns, fizeram, não pode ficar dependente da mentira, do disfarce e da ignorância de um qualquer primeiro-ministro, do cinismo dos biltres que o assessoram, de um Presidente da República que se deixa enganar pelo primeiro canalha e se convence de que tem razão, de polícias alucinados que a democracia transformou em empresários e dirigentes empenhados na coscuvilhice, de políticos tão rasteiros quanto mansos na forma como dissimulam e iludem, enfim, de estafermos de carne e osso sempre prontos a servirem e a servirem-se dos outros como de carne para canhão.    

Porque, já agora, não é possível construir uma sociedade livre e democrática, uma sociedade que se reja por padrões mínimos de decência, civilidade e solidariedade social, quando os estafermos se passeiam pelas avenidas, usam aventais bordados a ouro, a miséria é varrida para debaixo do tapete e o Presidente da República está preocupado com a gestão das suas poupanças.

Queríamos, queriam, que as flores de Abril tivessem florescido. Mas as flores de Abril há muito que murcharam, sendo substituídas nas lapelas por uns rectângulos serôdios em plástico que imitam a bandeira nacional. O patriotismo foi transformado numa patrioteira lamurienta, frívola e pirosa, aplaudida por canalhas que depois de terem rebentado com o sistema financeiro exigiram os nossos impostos para taparem o buraco que eles próprios criaram para pagarem dividendos aos que hojem se queixam do valor das reformas.

Os portugueses permitiram a ruptura do contrato social. Acomodaram-se, perderam ousadia, viraram a cara para o lado enquanto o vizinho batia na mulher e nos filhos. Porque não era com eles. Viram os estafermos, qual praga, treparem por todo o lado, ajudados pelos estafermos que já lá estavam e que lhes atiravam cordas e escadas para os ajudarem a trepar mais depressa, empurrando e derrubando, ajeitando-se nos bancos das empresas públicas, atafulhando-se de robalos e de charutos oferecidos por construtores civis, arrotando como porcos à porta do Tavares e rindo alarvemente enquanto se roubava o erário e se desmantelava o Estado.

E a Europa, a Europa senhores, essa só nos reconhece dentro dos estádios para onde atiram as moedas que os mais afoitos recolhem. Rastejando se necessário. Não podemos contar com ela porque ela só conta connosco para assegurar o pagamento dos juros.

Fazer a revolução que nunca se fez, recolocá-la nos carris, não é difícil. Fosse tudo tão simples. Não é preciso voltar à estaca zero, "empobrecer" como dizem alguns cretinos, nem destruir o pouco que se construiu. Bastará abrir os olhos, levantar a cabeça, olhar à nossa volta e correr com os estafermos que se abotoaram com o contrato social, colocando-o ao seu serviço.

Os portugueses não podem ficar eternamente à espera que os resgatem, que apareça um D. Sebastião ou um capitão de Abril que lhes restitua a dignidade e a honra. Os portugueses têm de crescer. Só a eles incumbe o dever de resgatar o contrato social. E podem ter a certeza de que não será o Presidente da República, um Passos Coelho, um Relvas, um Seguro, um Portas, um Gaspar, ou um delirante qualquer das economias, que irá fazê-lo por ele. Nem mesmo o velho Mário Soares que já está em idade de ter o merecido descanso.

Os portugueses têm de arregaçar as mangas, colocar a voz e a pena, e tomar conta do espaço público. Entrando pelos jornais e pelas televisões, elevando a voz nas empresas e nos sindicatos, nos hospitais, nos centros de saúde, nas escolas, nas repartições de finanças, nos tribunais, nas autarquias, arrombando as portas e as grilhetas dos partidos políticos. Libertando-os da canalha, filiando-se neles para exigirem a esses partidos responsabilidades, correndo com os estafermos, e com os seus filhos e afilhados, que tomaram conta deles e das autarquias e que na sombra gerem negociatas e o trade-off da corrupção. Os portugueses terão de fazer funcionar a democracia a toque de caixa se quiserem sobreviver. A democracia terá de ser neste Abril uma verdadeira bomba de fragmentação que penetre as consciências e o tecido social. Não há outro caminho. E que as carpideiras chorem tudo neste Abril, porque o que aí vem não é para flores de estufa. É preciso resgatar a democracia. É preciso secar as lágrimas e voltar a fazer funcionar o contrato social. É preciso libertar Portugal dos estafermos para que a democracia floresça.

P.S. Discordo, embora compreenda, a decisão da Associação 25 de Abril. Mas  é dentro das instituições que a autoridade moral e a legitimidade de quem fez e se afastou tem de ser ouvida. Como Vasco Lourenço tão bem sabe, lá dentro já temos "Rochas Vieiras" que cheguem.      

sexta-feira, abril 20, 2012

Uma borrada em toda a linha

Não posso estar mais de acordo com Jorge Miranda, Mouraz Lopes e Rui Cardoso, o novo presidente do dito "Sindicato dos Magistrados do Ministério Público". O que aconteceu com a indicação dos nomes propostos pela Assembleia da República para as vagas abertas no Tribunal Constitucional constitui mais um lamentável episódio nesse caminho que os principais partidos políticos insistem em trilhar e que passa por confundirem a justiça com a política enquanto arrastam ambas para o lodaçal.
O Tribunal Constitucional talvez seja uma das poucas instituições da República que tem sabido cultivar a inteligência, a discrição e a respeitabilidade, procurando manter-se à margem da idiotia generalizada.
Se a saída de Rui Pereira para o Governo já tinha sido antes um péssimo sinal, aliás dando guarida às primeiras críticas que tinham sido formuladas quanto a uma tentativa de desvirtuamento das suas funções e de menorização do seu estatuto, os nomes que foram agora indicados pelo PS e o PSD raiam o absurdo.
Não estão em causa as qualidades jurídicas dos nomeados. O que se discute é o seu perfil para integrarem um dos órgãos de soberania mais importantes da nossa estrutura judicial. E a ser verdade o que o Público escreve, apontando como razões para a sua indicação o facto de pertencerem à mais influente obediência maçónica, isso só quer dizer que as escolhas estavam feitas antes mesmo de o serem.
Tenho pena que os ideais maçónicos agora apareçam por tudo e por nada misturados nesta espécie de jardim zoológico em que vivem as nossas instituições mais representativas. 
Olhando para o que se está a passar tenho por vezes a tentação de dizer aquilo que Haffner disse de Weimar: "uma república sem republicanos". Quanto àquela todos sabemos como acabou. Quanto à nossa, confesso que não gostaria de estar cá no momento em que ela se finar. 
A vida é um caminho que se vai fazendo, onde tudo tem o seu tempo, onde tudo passa por processos de aprendizagem, aquisição de conhecimentos, de experiências, e, em particular, pela aquisição de valores e de princípios que em momentos de crise nos ajudem a seguir um rumo, a definir um caminho. Não é feita de escolhas apressadas, atamancadas para responderem ao imediatismo do quotidiano e à sofreguidão e sede de protagonismo de alguns actores.
Com as escolhas que fizeram, pela forma como negociaram os nomes nos bastidores e os impuseram, PS e PSD  mostraram disponibilidade para transformarem o Tribunal Constitucional em mais uma choldra ao nível do que de pior os partidos têm sido capazes de produzir. E, quer queiramos quer não, este sinal que uma vez mais é dado à sociedade funciona contra os próprios partidos, contra o estado de direito democrático, contra a qualidade da democracia e o respeito pelas suas instituições, representando mais um atestado de incompetência passado em letras garrafais às suas elites dirigentes.
Continuem, pois, e não mudem nada que não é preciso.

terça-feira, abril 17, 2012

Não estranhem

Para além dos afazeres quotidianos, há momentos em que é necessário afastarmo-nos para podermos depois ver as coisas com mais lucidez e mais distância. E também é preciso pôr as leituras em dia e preparar o trabalho futuro. Não se admirem, por isso, pela ausência. Em breve, lá mais para o final do mês, voltarei a colocar no papel, ou nos vossos monitores, os meus estados de alma e tudo aquilo que os meus olhos vêem do vosso (nosso) Portugal. Até lá, para além dos recortes que aqui irei deixando de alguns fragmentos do quotidiano, a única coisa que vos posso recomendar é que vão olhando para a vossa sombra. Nunca se sabe quando atrás dela segue um vice-presidente do Sporting ou o ministro das Finanças. E o seguro, sabêmo-lo todos agora, se nalguns casos morreu de velho, noutros terá sido pela fragilidade da cobertura das apólices contratadas.

segunda-feira, abril 16, 2012

Títulos (4)

"Economia vai ter menos dinheiro do QREN do que Governo prometeu" - Público, 16/04/2012

"Pressão do IRS sobe 200 milhões" - Correio da Manhã, 16/04/2012

"Saúde impõe contratação de médicos pelo valor mais baixo" - Diário de Notícias, 16/04/2012

"Estado entrega a quem quer 90% das obras" - Jornal de Notícias, 16/04/2012

"Preço dos ovos vai disparar em Portugal" - i, 16/04/2012

"Crise está a fechar 16 empresas por dia desde o início do ano" - Diário Económico, 16/04/2012

sexta-feira, abril 13, 2012

Leituras

"Porquê? Porquê este niilismo? Porquê esta traição da nobreza de espírito?

A sedução do poder é a primeira razão: ser finalmente influente, ser finalmente ouvido, e, de preferência, ser igualmente admirado. Nada vicia tanto como o poder e a fama. E para se agarrar a isto, para se manter a posição de ideólogo ou especialista de partido, para ser porta-voz do 'público', é necessário adaptar-se constantemente. se existe algum lugar onde a submissão reina é entre os intelectuais politizados. A ideia de arriscar perder o poder e a influência pela independência intelectual enche esses realistas de terror. Por causa do poder político abandonam o mundo do espírito. (...)

Uma segunda razão para a infidelidade aos valores imortais e à nobreza de espírito é a má fé. Alguns intelectuais não acreditam nessas qualidades. A imensa influência do paradigma científico desempenha aí um importante papel. Imortalidade, significado, valor, bem, mal, beleza, amor, compaixão, sabedoria, justiça, experiência, virtude e auto-conhecimento são palavras que não existem na linguagem das ciências. A sua linguagem é da objectividade, factos, análise, objectivo, progresso. Quando o mundo intelectual é aprisionado por esta linguagem sem sentido, o espírito perde a capacidade de exprimir o significado. Os factos, em si e por si, não significam nada. A verdade da realidade só pode surgir através do conhecimento dos valores, da distinção entre útil e inútil, bem e mal, significativo e insignificante; ou seja conhecimento cultural, inserido na linguagem dos artistas, poetas e pensadores. Esta linguagem é desconhecida para os clones intelectuais pseudo-científicos. É por isso que escrevem tão mal. Com excepção de notícias do mundo da 'realidade social', não têm nada a revelar que valha a pena".

quinta-feira, abril 12, 2012

Um ex-apoiante de Passos Coelho na primeira pessoa

"Começa a ser tarde para os portugueses admitirem o que é evidente: o Governo está a falhar na resolução da crise, aproveitando-a, entretanto, para impor um programa político com que nunca teria sido eleito. A degradação da economia e das finanças é clara: o défice só baixou em 2011 pelo recurso artificioso ao fundo de pensões dos bancários; do que se conseguiu em ajustamento do Orçamento de Estado, 75 por cento deveu-se ao aumento dos impostos e só 25 por cento à redução das despesas, sendo certo que se atingiu o extremo direito da curva de Laffer (impossibilidade de arrecadar mais receitas aumentando a carga fiscal), o desemprego saltou para os 15 por cento; a dívida pública subiu e aproxima-se dos 115 por cento do PIB, que desce 3,3 pontos percentuais; desapareceu o investimento público e o privado tem a especulação financeira por paradigma (o banco do estado financia especulações bolsistas de um grupo milionário, enquanto empresas viáveis recusam encomendas do estrangeiro por não terem dinheiro para comprar matérias primas)." - Santana Castilho, Público, 11/04/2012

Um tipo depois de ler este texto do prof. Santana Castilho, que foi figura de proa do PSD na campanha para as legislativas de Junho passado e que foi inclusivamente convidado por Passos Coelho para apoiar a redacção do seu programa em matéria de Educação, fica a pensar se para além da evidente má-fé de quem mais não tem feito do que aldrabar os portugueses, afinal dando cobertura e razão ao que José Sócrates e Teixeira dos Santos fizeram, será apenas um problema de ineptidão. Ou se haverá algo mais que os aproxime tanto do reino da estupidez.

P.S. Clique na imagem para ler o texto todo.

Coisas do arco da velha

Ainda estou para perceber por que raio Passos Coelho ou Miguel Relvas não fizeram dele ministro. Entre Vítor Gaspar e "o Álvaro" o fulano devia ganhar inspiração para escrever mais ensaios deste calibre

segunda-feira, abril 09, 2012

Mandarins em pânico

O anúncio da candidatura de Luís Graça à direcção da Comissão Política Concelhia do Partido Socalista, em Faro, é sinal concludente da apreensão com os que sectores mais conservadores do PS/Faro encararam o simples anúncio da candidatura de Mário Dias, na semana passada.
Com efeito, o anúncio de Mário Dias teve o mérito de colocar imediatamente em acção a velha estrutura partidária, adormecida após a derrota eleitoral de José Apolinário - agora agrilhoado ao Governo PSD/CDS num cargo de confiança política -, mobilizando os seus antigos indefectíveis em torno de um estimável e ilustre militante, antigo assessor daquele histórico do PS na Câmara de Faro, e que de sopetão, como que por artes mágicas, se transformou de não-candidato assumido em candidato do regime.
Basta atentar no facto de Mário Dias ter anunciado a sua candidatura e a apresentação de uma moção de orientação política para a Concelhia, que terá lugar numa conferência de imprensa agendada para o próximo dia 11 de Abril, para que, não obstante o período pascal, tal aviso à navegação tivesse mobilizado os órfãos que nos últimos anos assistiram impávidos e serenos ao definhar do PS/Faro, ao desmantelamento do sonho de renovar a cidade e de fazer dela uma verdadeira capital da região, para que todos aqueles que medraram e fizeram a vidinha à sombra do guarda-chuva do partido se agrupassem para convencerem Luís Graça a avançar.
Reza a história que candidatos cujas candidaturas são condicionadas pelas estruturas oligárquicas das quais dependem para chegarem ao terreno, e que só se assumem como candidatos depois de muito instados e de juras de não candidatura - é o que consta nos mentideros locais -, se eleitos dificilmente conseguem ganhar autonomia suficiente para executarem os programas que apresentam.
Excepções à parte, para já sabe-se apenas que a moção do afável Luís Graça se irá intitular "Novo Sentido", embora do título não se descortine a quê que o candidato pretende dar um novo sentido, ou a quem ou com quem. Nem se o novo sentido será só para o trânsito na cidade ou se para o partido. Noutra vertente, a moção de Mário Dias, o primeiro canddiato a sair à liça, escolheu apresentar-se sob um lema bem mais ambicioso -  "Mudança em Acção - Participar, Renovar, Vencer" -, o que só por si diz bem da diferença que vai entre os projectos (havendo-os) e do posicionamento dos candidatos no terreno. Como se sabe, é grande a diferença entre dar um novo sentido, com os mesmos e velhos camiões cansados e poluentes, ou acordar de um estado de inércia e letargia, de não fazer ondas e deixar Macário andar, para agir, participar e renovar.
A ver vamos. Por agora importa aguardar pela apresentação das moções e das equipas que os candidatos irão alinhar para se poder fazer uma avaliação séria das propostas e daquele que virá a ser o cenário pós 1 e 2 de Junho. Cenário que não poderá ser dissociado da eleição do novo presidente da Federação do Algarve, que ocorrerá logo após as eleições das novas concelhias, e da circunstância de se começarem a perfilar e descortinar as sombras das  primeiras manobras de bastidores por parte dos interesses que habitualmente gravitavam (gravitam?) em torno da autarquia de Faro, agora na esperança de não apostarem no cavalo errado.

quarta-feira, abril 04, 2012

Ele merece

Ele nunca deixou de dizer de onde vinha e a quem queria bem, mas isso não o impediu de ser um dos melhores. Merece, por isso mesmo, perante mais um afastamento imbecil, a nossa solidariedade pela isenção de que sempre deu mostras. Merece o nosso apoio pela sua autenticidade. E ainda merece o nosso aplauso por não ser hipócrita num país e numa televisão cheia de subservientes sempre prontos a dizerem ámen para poderem sentar-se junto à manjedoura.

A ler

Um belo texto, uma bela homenagem, de um homem que escrevendo como escreve devia escrever sobre tudo menos sobre política. No Diário de Notícias.