sábado, agosto 29, 2009

A RECRIAÇÃO DA HISTÓRIA

Tarantino voltou. E com ele o cinema elevado à dimensão cósmica de Borges. É difícil resistir quando se é colocado perante a recriação da História. Não foi assim, mas podia ter sido. Mais do que imaginação, efeitos especiais, uma boa história ou um corajoso naipe de actores, fazer cinema é ser capaz de nos fazer olhar para dentro, de nos obrigar a olhar para um espelho e procurar ver nele os reflexos da nossa própria sombra, projectando-os. Se isso se conjugar com divertimento, curiosidade, representação e desconforto, então é porque a barreira invisível da vulgaridade foi ultrapassada. Stiglitz (não confundir com o Nobel da Economia) ou Dreyfus (não confundir com o condenado da ilha do Diabo) podem ser agora nomes vagamente familiares. Como será para muitos outros a França de Vichy e de Pétain. A recriação de Tarantino transporta-nos para uma outra dimensão, para um lugar onde a violência é apenas um instrumento da compreensão da História, o outro lado do nosso próprio rosto, o reflexo escondido, a sombra que eternamente nos persegue. "Wait for the cream", dizia o coronel Hans Landa. Por isso mesmo, também não serei eu a antecipar aqui a magnífica visão de Diane Kruger.