
A Airbus foi no passado uma fonte de problemas para um Governo de Cavaco Silva. Agora volta a sê-lo para José Sócrates. Só que desta vez não se tratam de fumos de corrupção, mas de ligeireza na acção governativa, o que sendo igualmente deplorável sempre é menos mau para o primeiro-ministro que lidera. O
Público retoma hoje, e bem,
as questões levantadas pelo deputado do PS Ventura Leite, a propósito das contrapartidas da Airbus na aquisição dos aviões da TAP. Infelizmente, continuo a ter a pior das impressões de Mário Lino, não quanto à sua competência técnica ou profissional, mas quanto ao seu desempenho político e a forma como enfrenta os problemas que lhe surgem pelo caminho. Primeiro disfarça, faz de conta que não é nada com ele. Depois, quando não pode contornar a questão, arranja uma justificação estapafúrdia, e no final, quando a coisa aperta e fica sem argumentos, espalha-se. Com ele o problema não é de corrupção ou de falta de idoneidade ética ou moral. Em causa está apenas a sua falta de jeito e o espírito, certamente herdado da sua longa passagem pelo PCP, de querer tapar o sol com uma peneira e tentar controlar o que manifestamente lhe escapa. De tempos a tempos lá vem mais uma bordoada. Quando um relatório parlamentar, elaborado por um deputado da maioria, aponta erros e negligências com a amplitude dos que ali constam, confirmados pela carta da Airbus de 2005, o primeiro-ministro não pode ficar indiferente. Eu sei que ele vai ignorar. E é pena. Após o que aconteceu com a OTA e depois das intervenções desabridas de Lino, desmentido pelos factos e ultrapassado pelos acontecimentos à velocidade de um raio, o que agora se sabe deste caso da Airbus se conhecido há um ano atrás certamente que teria consequências diferentes. É óbvio que Mário Lino não poderá ser substituído nesta altura, a meia dúzia de meses das eleições. Os ganhos seriam inferiores às perdas. Ao menos que sirva de lição. Ventura Leite, que na suas próprias palavras recusa "
a ideia de ser uma espécie de vereador no Parlamento", cumpriu a sua função de deputado. Seria bom que se percebesse isso. A começar por José Sócrates e pelos que no parlamento fazem de vereadores. É isso que dignifica o PS, não o contrário.