segunda-feira, janeiro 28, 2008

CREDIBILIDADE?


Tal como se previa, o soba da Madeira veio ao Algarve confraternizar com o régulo local, o presidente do PSD-Algarve e putativo presidente da “Região do Algarve”.

O Dr. Mendes Bota, que andou algum tempo desaparecido das lides políticas, afinal o mesmo durante o qual não exerceu cargos políticos, para, entre outras coisas, amealhar uns cobres num empreendimento que ficou conhecido por realizar obras ilegais pela calada da noite e tomar restaurantes de assalto para correr com os concessionários, alguns levados na sua boa-fé e desconhecedores do que por lá se passava – entendeu agora lançar uma cruzada contra a ASAE.

Fê-lo da forma mais desconcertante possível, chamando à colação Oliveira Salazar e a PIDE, a pretexto de atacar o primeiro-ministro e o Partido Socialista. O Dr. Mendes Bota achou por bem e ajuizado comparar a extinta PIDE à ASAE (Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica) e o governo legítimo de Portugal à ditadura de Oliveira Salazar.

O Dr. Mendes Bota teve a sorte de nunca conhecer a PIDE, nem a ditadura de Oliveira Salazar. Também não foi por isso, como demonstrou em plena Assembleia da República, e pelo tempo que não passou nas cadeias da PIDE, que conseguiu dedicar algum tempo à aprendizagem da democracia.

O Dr. Mendes Bota foi Presidente da Câmara Municipal de Loulé. Durante o seu mandato, por falta de jeito, desatenção, ou como se diz agora, por falta de meios, que é coisa que serve para tudo, permitiu que se cometessem uns quantos desmandos, designadamente em matéria urbanística. Alguns dos beneficiários desse caos até eram seus companheiros de partido. E são ou foram autarcas, gozando ao nível local de uma impunidade que lhes permite actuar como verdadeiros cowboys.

O Dr. Mendes Bota enquanto dirigente local nunca se preocupou em investigar estas fortunas dos seus colegas de partido nem das offshores que estão por detrás deles. Pessoalmente estou convencido de que as suas fortunas mereceriam ser devidamente investigadas. Neste ponto, aliás, a Drª Cândida Almeida, se quiser, poderá contar com o meu apoio e conhecimento nesta matéria para se fazer uma limpeza a Sul.

O Dr. Mendes Bota, que enquanto administrador de um empreendimento algarvio e consultor de empresas se habituou a conviver alegremente com os interesses imobiliários dos seus patrões e a dobrar a cerviz para ir amealhando, manteve-se silencioso e condescendente com tudo aquilo que aconteceu em Armação de Pêra e que ainda recentemente aconteceu nas Dunas Douradas. Seria ele consultor dos empresários? Ele que ainda recentemente saiu em defesa do presidente da Câmara de Vila do Bispo – mais um cuja gestão autárquica deveria ser devidamente investigada – resolveu estabelecer uma grotesca comparação entre a ASAE e a PIDE e um governo constitucional saído de eleições livres e participadas com o governo do Dr. Salazar. A sua comparação é um verdadeiro insulto à inteligência de qualquer cidadão, um insulto à democracia, ao Estado de Direito e à memória de todos aqueles que sofrendo os horrores da censura, da ditadura e da PIDE, lutaram para que uns patuscos e ignorantes, sem verbo nem gramática, se tornassem empresários, autarcas, deputados e dirigentes políticos. Não tivesse ocorrido o fim da ditadura e da PIDE e estou seguro que o Dr. Mendes Bota, com o seu espírito de aforro, subserviência e oportunismo, teria atingido um patamar idêntico ao que hoje tem, mas como membro de uma qualquer câmara corporativa do Dr. Salazar.

O Dr. Mendes Bota esquece-se de que vivemos num Estado de Direito e numa democracia consolidada. Esquece-se de que existem tribunais e autoridades às quais os cidadãos ofendidos se podem queixar dos excessos da ASAE e que estes, para além de sindicáveis, quando causadores de prejuízos podem servir de suporte à responsabilização civil e criminal dos seus autores, coisa que com a PIDE e com os seus homens não acontecia. Nem nunca aconteceu devidamente porque a democracia de Abril foi condescendente, deixando à solta nos partidos do regime democrático muitos dos que deviam estar presos. Deixou-os levar uma vida normal. Não os perseguiu. E ainda bem. O Dr. Mendes Bota não sabe o que isso é porque nunca precisou de sair da sua terra para arranjar trabalho. Ele não sabe, mas as democracias distinguem-se das ditaduras por algumas coisas. Na forma de actuação e também na tolerância e nos exageros.

Ao contrário do que o Dr. Mendes Bota gostaria de poder fazer, ele que nunca deu provas de tolerância para com os fumadores, o regime democrático e o Estado de Direito não excluem cidadãos, não os agrupam por origem social, credo, raça ou local de origem, não os cataloga como sendo de Lisboa, de Loulé ou de Faro, de pretos ou de brancos, de centralistas ou de regionalistas. A democracia é inclusiva. Por isso o Dr. Mendes Bota é hoje presidente do PSD-Algarve, deputado e empresário.

Ao fazer uma comparação tão irresponsável, enquanto vice-presidente do maior partido da oposição, o Dr. Mendes Bota demonstrou, uma vez mais, sofrer de um provincianismo doentio. Daí o seu regionalismo. É claro que hoje lhe convém ser regionalista. Como lhe convém garantir o futuro, nem que seja com este tipo de comparações. Como lhe convém ter o Prof. Marcelo nas suas festarolas, mesmo que depois ranja entre dentes, ou vai suportando o convívio com Pedro Santana Lopes ou com os “meninos bem do Porto” na bancada parlamentar. Por detrás do seu discurso mais recente, o que o Dr. Mendes Bota revelou não foi o seu desprezo pela actuação da ASAE, mas sim o asco que vota a tudo o que é de Lisboa. Com excepção do Sporting é claro, mas isso é lá com ele. Gostos não se discutem e essa será apenas mais uma das suas contradições.

Só que isso não permite ao Dr. Mendes Bota ter uma memória tão curta, demonstrar tanta ignorância e tanta irresponsabilidade. Talvez por isso já se tenha esquecido do que até José António Saraiva, personagem por quem não nutro particular admiração, sobre ele escreveu em 6 de Agosto de 1994. Tavez valha a pena aqui recordar-lhe:

Se a nível superior da classe política – e sublinho superior – a corrupção material não é significativa, já o mesmo não se pode dizer da corrupção moral. Da venalidade. Da troca dos valores pelos interesses. Há um episódio recente que ilustra na perfeição este fenómeno: a renúncia de Mendes Bota aos cargos que ocupava no PSD. Como se sabe, Mendes Bota era deputado europeu e, nas últimas eleições, foi colocado num lugar difícil, acabando por não ser reeleito. Bota deu então uma conferência de imprensa onde fez graves acusações, atacou o presidente do partido e anunciou a demissão de todos os cargos partidários. E, aqui, instalou-se a dúvida: o que teria acontecido se Mendes Bota tivesse sido reeleito? Teria falado na mesma – ou ter-se-ia calado? Partindo do princípio de que Mendes Bota foi sincero, de que disse o que na verdade sentia, por que razão não se demitiu antes das eleições? Por que esperou pelos resultados para falar? Mas o caso de Mendes Bota permite-nos ir ainda mais longe. Permite-nos, por exemplo, perguntar quantos Botas existirão hoje no PSD? Quantos serão aqueles que se mantêm calados apenas porque lhes foram distribuídos lugares no partido ou no Estado? Qual será a extensão da corrupção moral que tomou conta do PSD após nove anos de presença consecutiva e solitária no Poder? É impossível dizer – mas deve ser enorme. (...) Deve começar a ser muito difícil dirigir um partido onde um grande número de militantes não se move já por convicção ou idealismo mas por oportunismo ou por interesse.(...)”.

O texto continua a ter toda a actualidade. O Dr. Mendes Bota esqueceu-se dele. E permite-se fazer declarações como a que fez. Ele que nunca foi deportado do Algarve para outras paragens. E se calhar até deveria tê-lo sido para que a terra pudesse crescer longe da sua asa e os cargos políticos e empresariais da região não fossem infestados por ele, pelos seus familiares e pelos companheiros do partido. O Dr. Mendes Bota nunca teve familiares presos, torturados ou que pura e simplesmente não arranjavam trabalho e que eram obrigados a procurá-lo noutras paragens. O Dr. Mendes Bota não sabe o que é o desemprego porque os telefones estão aí para alguma coisa e há sempre quem queira pagar um favor, uma cunha, um encómio. Quando saiu do Algarve foi porque isso lhe convinha. Fosse para “deputar”, para ganhar protagonismo ou criar uma teia de influências clientelar. Infelizmente, ao contrário de outros algarvios íntegros e de de valor que lutaram contra a ditadura e a PIDE, o Dr. Mendes Bota teve todas as oportunidades para ser um grande político ou um grande empresário, mas nunca conseguiu superar a sua pequenez regional e o melhor que conseguiu foi umas investidas no imobiliário e umas vendas de trapos. Por isso o Dr. Mendes Bota não sabe quem foi Oliveira Salazar ou o que foi a PIDE. As actividades no partido e o controo da sua ascensão retiraram-lhe o tempo para ler, para se instruir.

Percebe-se melhor agora porquê. Ele nunca precisou de aprender. Sorte a dele. Daí que se sinta, vê-se agora, mais à-vontade para criticar a ASAE. Vendo bem, o Dr. Mendes Bota limitou-se a dizer que preferia continuar a fechar os olhos à venda, nas feiras algarvias, de discos, filmes e software pirata, roupa e calçado da candonga, ou a ter os doces de figo e alfarroba e os queijos ao sol e às moscas, ou os restaurantes e bares a funcionarem sem licença adequada, com seguranças ilegais e copos imundos.

O Dr. Mendes Bota, a quem a República e o Estado democrático garantem o direito de dizer todas as asneiras que lhe vêm à cabeça, tinha mil e uma formas de atacar a ASAE, de criticar os seus métodos e a actuação das brigadas. Escolheu de todas a menos séria, a que lhe podia render mais aplausos entre os seus correligionários do partido. Era também a única ao nível dos dichotes habituais do seu convidado da Madeira. O populismo e a demagogia são mesmo assim. Mas como não tem a argúcia de Alberto João Jardim, o Dr. Mendes Bota limitou-se, na sua patusca esperteza, a dar mais uma prova da sua confrangedora ignorância, da sua falta de estatura política, do seu servilismo político e do oportunismo que orienta todos os seus mais pequenos passos. Com o seu ar balofo, com um barrete branco na cabeça e um avental, ele dava o perfeito chefe de cozinha de um rodízio na Estrada de Quarteira. O Prof. Cavaco Silva e o Dr. Pacheco Pereira é que o toparam bem.

P.S. Que fazia Fernando Negrão no meio daqueles dois?

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