terça-feira, fevereiro 19, 2008

TODOS À ESPERA...

...De saber qual a posição que Portugal vai assumir na questão da independência do Kosovo. Ontem, ouvi o ministro Luís Amado dizer que Portugal vai ponderar e analisar as posições dos seus aliados e que depois tomará uma posição. Sabendo-se que o Reino Unido e os EUA avançaram já pelo reconhecimento, no que são secundados pela França e pela Alemanha, o único aliado que não irá reconhecer o novo país é, ao que se sabe, a Espanha. Será que é desta que a aliança luso-espanhola vai ter mais força do que a relação com o nosso parceiro do outro lado da Mancha? Quem sabe se não será um primeiro passo para resolver a questão de Olivença? Estamos todos ansiosos para ver no que dão as habituais meias-tintas.

ESTADOS DE ALMA DE UMA ÁGUIA BICÉFALA


De uma notícia do Público de hoje:


"Menezes garantiu no domingo, em Gaia, que "não haverá acordo" caso a nova lei autárquica retire aos presidentes de junta o direito de votar na assembleia municipal o orçamento camarário e as grandes opções do plano.


Uma total inversão da posição da actual direcção do PSD, que assumiu o acordo feito no tempo de Marques Mendes, foi negociado pela bancada com o PS e cuja formulação foi aprovada em conselho nacional.


Ontem, Santana Lopes admitia ter sido apanhado de "surpresa" pelas declarações do presidente do partido, com quem diz ainda não ter falado sobre o assunto. Salientando "não querer fazer comentários" antes dessa conversa, Santana admite que lutará para que a reforma se concretize, tal como sempre defendeu ao longo do processo."A minha obrigação é encontrar uma solução para garantir uma reforma assumida há anos e que continuo a considerar importante", frisou o líder da bancada laranja. "Se a reforma da lei autárquica for por água abaixo, perdem-se alterações importantes, nomeadamente o facto de o presidente da câmara poder escolher os seus vereadores."


Com a ameaça de romper o acordo Menezes desautoriza também o vice-presidente do partido, Ribau Esteves, que no final de Janeiro, numa carta aos presidentes de junta do PSD, justificava as razões pelas quais Menezes dera seguimento ao acordo."

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

O GATO E O RATO

A sucessiva divulgação de situações menos claras - escutas, despachos, pareceres contraditórios, fotocópias, leis à medida, etc. - envolvendo o ex-primeiro-ministro Pedro Santana Lopes e membros do seu executivo no affaire Estoril-Sol, começa a querer transformar-se num jogo do gato e do rato. Aliás, com muitos gatos e muitos ratos que vão alternando nos papéis. Tão depressa é acusado o governo de Durão Barroso, referindo-se a existência de um eventual acordo deste com a Estoril-Sol, como logo a seguir vem o presidente da Comissão Europeia, por intermédio de uma porta-voz autorizada, ou antigos membros do seu governo, negarem a existência de qualquer entendimento com a concessionária do jogo, rejeitando qualquer hipótese de favorecimento e lançando o odioso sobre Santana Lopes. Se a divulgação dos pareceres e das cartas e as tomadas de posição públicas não trouxeram grande luz à embrulhada gerada, incluindo as declarações de ontem à noite de Pedro Santana Lopes na SIC - o homem farta-se de fazer publicidade ao Expresso! -, já o mesmo não se pode dizer das elucidativas conversas de Abel Pinheiro apanhadas pelas escutas. Neste ponto, apenas sei que a conta e consideração em que aquele dirigente do CDS tinha Telmo Correia não abona rigorosamente nada a favor deste seu companheiro de partido e ex-ministro do Turismo. Confesso que quando me recordo dos tempos de faculdade não imagino o Telmo a beneficiar alguém, muito menos uma concessionária do jogo. Um jeito, um bilhete para as corridas, ainda vá lá; agora uma coisa tão descarada ...nem pensar. E se o tivesse feito, o que está longe de ser verdade, não me parece que o fosse de forma voluntária. Sendo um tipo bem formado, esse não é seguramente o seu registo. Mas lá que a forma como tudo aquilo foi gerido denota ligeireza, amadorismo e total impreparação, parece-me indiscutível. A bem dizer, a actuação de Telmo Correia não destoou da de Paulo Portas ou de Santana Lopes. A diferença está apenas no grau de perfídia, ou de ingenuidade, da actuação de cada um. Para já, a única solução talvez seja mesmo a de aproveitar a sugestão de Mário Assis Fereira e fazer reverter, se houver interesse nisso, o edifício para o Estado no final da concessão. Sempre é mais fácil fazer reverter o edifício do que esclarecer o negócio dos submarinos. Restaria saber se Teixeira dos Santos estará disposto a dar alguns trocos aos mandarins da Estoril-Sol. Com as inundações que tem havido por estes dias em Lisboa, é provável que com tanta água à solta mais alguma coisa fique a descoberto. Só nessa altura será então possível saber quem é que usava flutuadores. Stanley Ho não costumava oferecê-los nem à própria família. O último govenador de Macau que o diga.

L'ULTIMO TIZIANO E LA SENSUALITÀ DELLA PITTURA

Em Veneza, na Gallerie della'Accademia, depois do êxito do Kunsthistorisches Museum de Viena, estará patente até ao dia 20 de Abril a magnífica exposição sobre o último período da carreira de Ticiano. São 28 obras-primas pintadas entre meados do século XVI e a morte do artista em 1576.

VÁ-SE LÁ ADIVINHAR O QUE O HOMEM QUER


Há dois meses atrás queria pactos para tudo e mais alguma coisa, até para as Obras Públicas. Agora põe em causa todos os pactos, mesmo os que o seu próprio partido subscreveu antes dele ser eleito presidente do partido e que ele disse honrar. Em que ficamos?

domingo, fevereiro 17, 2008

PAÍS DE PAPALVOS

A inauguração do novo túnel do Rossio, ontem concretizada com a presença do primeiro-ministro e de mais umas quantas "altas individualidades", como se dizia no tempo da outra senhora, mereceu honras nos jornais televisivos e permitiu-nos, uma vez mais, olhar para dentro de nós e ver o país real. É natural que a reabertura do túnel e a possibilidade dos comboios da linha de Sintra voltarem a fazer o seu percurso normal ao fim de mais de 3 anos é motivo de justificado júbilo para toda aquela gente que depende do comboio para poder ganhar o seu pão. Incompreensível é que o simples anúncio de que nesse dia as viagens seriam à borla tenha gerado uma inusitada afluência de passeantes e curiosos. O espectáculo das carruagens apinhadas, num sábado à tarde, como se fora um dia normal de trabalho, só para andar de comboio à borla é algo de verdadeiramente inacreditável. Àquela gente, velhos e novos, já não chega andarem aos apalpões e aos encontrões durante os dias de semana. Uma viagem à borla num comboio suburbano da linha de Sintra, ao sábado à tarde, com uma poupança de um ou dois euros, também justificam o aperto. E o aperto foi tão grande que até a escada rolante da estação, no sentido descendente, começou a fumegar e acabou por parar ao fim de duas horas de festa. Confesso que a dada altura pensei que as imagens eram da Roménia pós-Ceausescu, em especial quando ouvi uns maduros a dizerem para a câmara da RTP que andavam "para cima e para baixo", uma jornalista a perguntar aos entrevistados se o faziam "ao calhas" e um sujeito a dizer que queria ir para "Romarieri". Só depois me apercebi que afinal o tipo queria ir para a estação de "Roma-Areeiro" e que tudo aquilo não se passava num comboio suburbano de Bucareste em dia de greve dos mineiros. Era Lisboa. Era uma capital da União Europeia. O espectáculo, mesmo abrilhantado pelo primeiro-ministro, não deixou de ser terceiro-mundista. Disso ninguém deverá ter dúvidas. Mas é o que temos. Um país de papalvos que se esmifram para andarem aos apertões num comboio suburbano, num sábado à tarde, ante a satisfação do Governo. Que tristeza. O O'Neil e o Pacheco é que os conheciam bem.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

INSÓLITOS DO FISCO

Depois de aqui há uns anos me terem sido instaurados processos por falta de entrega de declarações do IVA relativas a um período em que não vivi em Portugal, facto que era do conhecimento das entidades tributárias uma vez que tinha a actividade suspensa e pagava impostos noutro lado, de ter sido ameaçado de não receber uma devolução que já me tinha sido processada, e, mais recentemente, dos pedidos de colaboração do Director-Geral das Contribuições e Impostos, de que Pacheco Pereira no seu Abrupto deu oportunamente notícia, fiquei hoje a saber que, na sequência da anulação de uma coima que me havia sido indevidamente aplicada, me foi instaurada uma execução fiscal para cobrança da quantia de € 0,94 (por extenso para que não haja dúvidas: noventa e quatro cêntimos!!!). É para manter uma máquina destas, oferecer imóveis às concessionárias do jogo e sustentar a banca que nós andamos a pagar impostos. O ministro Teixeira dos Santos, um excelente ministro, um homem sério, diga-se de passagem, diz que os contribuintes voltaram a ser uma prioridade (cfr.Público de hoje, caderno de Economia). Eu, palerma, ainda acredito nele. Mas o problema é que devem ser os contribuintes de outro país qualquer, pois que por mais que me esforce não consigo acreditar na máquina fiscal e nalguns amanuenses que detendo um pequeno poder estão sempre ansiosos em mostrar resultados. Só que não olhando a meios ocupam o seu tempo a tentar lixar o contribuinte zeloso, causando-lhe "n" incómodos, enquanto os relapsos se riem.

VITÓRIA 100 NA EUROPA


Sport Lisboa e Benfica - 1
FC Nuremberga- 0

Ainda pensei que a inaguração da exposição centenária no Parlamento Europeu pudesse dar alguma alma e juízo àquela malta. Mas qual quê! Não jogaram a ponta de um chavelho. Para a história ficou registada a 100ª vitória europeia do Benfica desde 1960. Ainda há horas felizes. Graças a Ariza Makukula e a um guarda-redes alemão de cujo nome já nem me lembro.

HOJE

Um dos poucos políticos profissionais portugueses de craveira e um dos mais brilhantes da sua geração, vai estar hoje em Olhão, no IPIMAR, pelas 19h, para proferir uma conferência sob o título:"A Questão Europeia: Europa: União, Federação ou Ilusão?".

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

A PRAGA CONTINUA

A LUSA noticiou que esta tarde, em Loulé, ocorreu mais um ataque de um rottweiller contra uma criança de vinte meses. Ao que reza a notícia a besta ficou incomodada com o choro da criança e investiu. O resultado foi um escalpe profundo e a abertura de ficha nos cuidados intensivos do Hospital de Faro. Enquanto continuarmos a encolher os ombros a este estado de coisas, e os ataques se forem repetindo a um ritmo impressionante, muitas mais crianças estarão em perigo. Continua a não existir prevenção e começa a ser criminosa a complacência das autoridades e a impunidade de quem, para deleite próprio, põe em risco desta forma perfeitamente gratuita a vida e a segurança de terceiros.

DEMAGOGIA E POPULISMO Q.B.

Na esteira de uma intervenção recente do novo bastonário da Ordem dos Advogados, o líder parlamentar do PSD veio, também ele e aproveitando a boleia, falar no alargamento dos impedimentos e das incompatibilidades entre deputados e advogados. De acordo com Santana Lopes, o PSD propõe uma mexida ao regime das incompatibilidades de maneira a tornar mais apertado o crivo e difícil o desempenho em paralelo da função parlamentar e de actividades profissionais liberais. Marinho Pinto já se havia pronunciado contra a acumulação dessa funções. Só que o problema não está na simples acumulação de funções, mas no estatuto e na responsabilidade com que essas funções têm sido exercidas. Bem sei que têm sido cometidos muitos excessos, que a promiscuidade é grande e o parlamento tem sido um pasto enorme onde se alimentam clientelas e se fazem favores, muitos deles, é verdade, ainda que sem qualquer contrapartida financeira, mas inseridos numa teia que se vai alargando em função de variadas cumplicidades, à boa maneira chinesa. Nos dias que correm, não se pode dizer que o exercício da função parlamentar seja bem remunerado, atendendo à natureza das funções e suas exigências, mas não tenho dúvidas de que muitos deputados acabam por ter um salário e um conjunto de contrapartidas muito superior àquilo que nas suas vidinhas e com a preparação que têm alguma vez poderiam aspirar. Mas aqui já estamos num outro campo, que é o da preparação e qualificação de quem exerce funções parlamentares, onde a responsabilidade maior é dos partidos e dos seus mecanismos de formação, recrutamento e selecção. Se para alguns o exercício da função parlamentar corresponde a um genuíno interesse e vocação, espelhado num desempenho brioso, participado e interessado, noutro casos representará apenas um sinal de poder e uma forma de ascensão social aos olhos dos seus conterrâneos e das gentes da paróquia onde se inserem. Acho muito bem que se mexa no regime das incompatibilidades se essa for a intenção da maioria. Mas que não se torne a função parlamentar apenas incompatível com a advocacia. Se for esse o caminho, então que se alargue o regime de forma a tornar exclusivo o exercício da função em paralelo com qualquer outra profissão, com excepção do ensino, das actividades de investigação e do voluntariado, mas ao mesmo tempo dever-se-á aumentar a contrapartida financeira dos deputados e elevar o grau de exigência no recrutamento e na função. A dignificação desta também passará por aí, já que um deputado que ganha menos que um qualquer chefe de divisão ou departamento de uma empresa de dimensão média, não poderá sentir-se confortável na sua pele. Todavia, nada disto terá qualquer efeito, enquanto igual regime não for também privativo das autarquias ou das regiões autónomas, aqui onde os exemplos têm sido por demais escandalosos e os casos mais ou menos obscuros se multiplicam. A eliminação daquilo a que Santana chama "focos de suspeição" passa igualmente por aqui. Querer transformar os advogados em bode expiatório de um sistema que já demonstrou não funcionar, aproveitando a boleia de Marinho Pinto, e esquecendo o que se passa em muitas autarquias por esse país fora e com muitas outras profissões - engenheiros, economistas, arquitectos, consultores, etc. - não passa de demagogia barata e de um populismo bacoco e virado para os holofotes. Todos conhecemos Santana Lopes e o seu estilo de fazer política, exímio em falar sobre tudo menos sobre o que devia falar. Como acontece quando se remete ao silêncio e se escusa pronunciar sobre casos tão graves como os das suspeitas de favores e de tráfico de influências que recaem sobre gente que esteve no seu efémero Governo. Também por isso, talvez fosse bom que alguém de quando em vez lhe lembrasse estas pequenas coisas.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

RUI PAIVA

Esteve em Moura, inagurou no passado dia 9 em Beja, onde estará até dia 22 de Março na Galeria dos Escudeiros, seguindo depois para Almodôvar, Castro Verde, Angra, Horta, Aljustrel e Mértola. É mais uma exposição de Rui Paiva, coordenada pelo Museu Jorge Vieira. Uma nota de especial atenção para o filme preparado para o evento, quer pela qualidade da imagem, do texto e da narração, quer pelo relaxamento produzido pela excelente música de fundo que o acompanha.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

ECOS DOS ACONTECIMENTOS DE LA SAPIENZA

Entrada da Universidade Católica de S. Ambrogio, Milão, 4 de Fevereiro de 2008

NO MELHOR PANO CAI A NÓDOA


Fez ontem uma excelente entrevista a esse grande senhor da canção francesa chamado Charles Aznavour. Na língua de Racine esteve bem melhor do que Mário Soares, embora tivese sido escusado borrar a pintura com aquela de perguntar ao entrevistado o que pensava das relações entre Sarkozy e Carla Bruni. A pergunta, a fugir para o chinelo, para além de infeliz, revelava desconhecimento pela personalidade de Aznavour, pela maneira de ser dos franceses e confundia a liberal França com a intrigalhada ao estilo inglês e o doentio conservadorismo dos EUA. Foi pena. Para a próxima será melhor. Ninguém é perfeito.

NUNCA É TARDE PARA REPARAR UM ERRO

António José Seguro foi sempre uma daquelas personagens do PS de quem eu desconfiei. Sempre o considerei como mais um aparatchik do partido, a quem faltara o tempo para obter uma formação académica decente na ânsia de se guindar aos lugares de topo. Como sempre achei que há um tempo para tudo, desconfiei da forma como ele apoiou Guterres e chegou ao poder. Aos poucos, contudo, foi-se demarcando da direcção e trilhando o seu caminho, afastando-se de uma certa e indecorosa unanimidade que atravessa todos os partidos do espectro político nacional. Em especial quando são poder ou se trata de "cozinhar" as listas de deputados e de parlamentares europeus. No entanto, como só há uma vez para causar uma primeira boa impressão, fiquei sempre com péssima impressão dele, que se acentuou numa célebre entrevista em que Seguro deu a entender que precisava de uma prateleira bem remunerada para descansar. Mais tarde tentou corrigir o lapso, mas já não foi a tempo. Ontem tive oportunidade de ler o artigo que ele escreveu na última edição do Expresso e não posso deixar de manifestar a minha satisfação pelo que ele lá escreveu. No actual estado da vida política nacional, com a permanente e esmagadora mediocridade que tomou conta dos partidos, com uma classe política que é na sua generalidade indigna do estatuto que detém e que a primeira coisa que faz quando atinge o poder é tentar esconder o passado ou garantir o futuro, é bom saber que ainda há quem dentro do PS queira separar o trigo do joio e combater de uma forma eficaz e transparente a corrupção, o clientelismo, o compadrio e o tráfico de influências. Este último, mais do que os anteriores, é o verdadeiro cancro do sistema. Faço-lhe hoje a justiça de reconhecer que quer a posição assumida na votação sobre o referendo ao Tratado de Lisboa quer o artigo do Expresso revelam um António José Seguro diferente daquele que sempre imaginei e que fui conhecendo nalgumas intervenções públicas. No combate que pretende travar poderá estar certo de que contará com o meu apoio. Oxalá que José Sócrates também tenha lido o artigo. E compreendido o que lá está.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

KUNG HEI FAT CHOI

No 1º dia do Novo Ano Lunar, o Bacteriófago dá as boas vindas ao Rato, 1º signo do zodíaco chinês, e deseja a todos os seus leitores um excelente ano, não esquecendo que a chegada do bicho coincidiu com o aniversário do Pombex e do Corta-Fitas. Para ambos vão direitinhos os votos de uma vida longa e cheia de sucessos sob o signo do Rato.

O REI VAI NU

Não sei porquê, mas sempre que saio do país acontece alguma coisa. Neste país onde nada acontece. De repente parece que um turbilhão tomou conta deste pequeno rectângulo. José Sócrates fez uma micro-remodelação, ignorando os reparos internos e externos. Ainda não passaram duas semanas e os resultados começam já a aparecer. Na área da Justiça, onde inexplicavelmente ficou tudo como dantes, um subordinado do ministro da Justiça, ignorando a sua condição de director de um órgão de polícia crimininal e de responsável pela condução no terreno de algumas importantíssimas investigações, resolveu, de uma forma que teve tanto de ingénua quanto de irresponsável, vir criticar o facto da sua própria polícia ter promovido a constituição de arguidos num processo cujo inquérito continua em curso e cujas repercussões internacionais colocariam em xeque todo o sistema de investigação criminal e a crediblidade da Justiça portuguesa. Alípio Ribeiro lá saberá porque o disse e da forma como o fez com o ar mais cândido deste mundo num programa de televisão. Alguém lhe deveria ter dito que aquilo não era um concurso e que ali não se davam prémios, falha que até seria colmatável. O que já é de todo incompreensível é que continue à frente da PJ depois do que disse e que o ministro da Justiça se tenha limitado a referir que o facto daquele se manter no lugar dizia tudo sobre o que ele pensava sobre o assunto. Creio que não é verdade. Se bem conheço o ministro da Justiça, este não terá ficado satisfeito com o que ouviu, mas se entendeu não fazer nada ou, pelo menos, deixar transparecer que nada fez, por pensar que estava a proteger a PJ e as instituições do nosso sistema de justiça, fez mal. A solidariedade funcional e pessoal fica-lhe bem. É isso que se espera de gente de bem. Só que o interesse das instituições e a defesa do bom nome do país têm de ter prioridade. As declarações do senhor Director da PJ foram um perfeito disparate susceptível de colocar toda a estratégia - vamos admitir que havia uma - de investigação e condução de inquérito do "Caso Maddie", ao nível do que se passa no Ruanda ou na Birmânia. Depois do afastamento de Gonçalo Cabral não valia a pena dizer mais nada. Era chegar ao fim do inquérito e então esclarecer o que houvesse a esclarecer. Infelizmente a coisa não ficou por aqui. E logo a seguir, numa posição tão inaceitável quanto o conteúdo das declarações ou a posição de Alberto Costa, vieram as declarações de um ex-Bastonário da Ordem dos Advogados. Mas quanto a este quer-me parecer que palavras como decoro e sensatez há muito que fugiram do seu vocabulário. As palavras são volúveis, todos o sabemos. Aconteceu com ele como aconteceu com outros colegas seus e com representantes de algumas ordens ou associações profissionais e sindicais. O rei vai nu. É, pois, natural que todos falem. Aos poucos começa a tornar-se incontornável a transmutação da velha imagem da Justiça, que de uma bela mulher de olhos vendados com uma espada numa mão e a balança na outra, se tenha tornado num sujeito baixote, obeso, suado, vestido com uma tanga minúscula, levando um computador portátil numa mão e um megafone na outra. As boas novas têm de continuar a ser anunciadas.

NÃO HÁ DUAS SEM TRÊS

(foto AFP)
Uma vez mais Portugal perdeu com a Itália. No futebol, tal como na política, não há milagres. Ou se é capaz e se é capaz sempre, ou então o melhor é arrumar as botas. Scolari provou, de novo, não ter estatura para dirigir a selecção nacional contra as equipas do seu campeonato. Incapaz de apresentar um futebol decente há larguíssimos meses, a equipa das quinas especializou-se em conferências de imprensa, contratos publicitários e marketing. Tudo menos jogar futebol que era aquilo que era suposto saber fazer. Quando o treinador não presta, por muito bons que sejam os executantes, é natural que se falhe nos momentos decisivos. Os erros são sempre os mesmos, começam na baliza - Ricardo voltou a demonstrar ser um desastre - passam por uma defesa insegura - Bruno Alves?, Bonsingwa? -, um meio campo fraco, sem rotina e impotente - Deco?, Maniche? - e por um ataque individualista e inconsistente. Enquanto Scolari cultivar a aleivosia contra todos os que criticam a selecção, fazendo disso um método de trabalho e factor de união do balneário, é natural que os resultados contra as grandes equipas continuem a ser medíocres. A exibição de ontem voltou a augurar muito pouco de bom para o Euro que aí vem. Mas com a sorte que têm tido noutros campeonatos, pode ser que também desta vez se safem só com o terço e as bandeirinhas. Não há duas sem três. A Itália que o diga.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

UM LIVRO FUNDAMENTAL

"Che futuro ha un Paese dove la fame di poltrone ha spinto a inventare le comunità montane al livello del mare? Dove il Quirinale spende il quadruplo di Buckingham Palace? Dove una 'lasagnetta al ragù bianco e scarmoza' dello chef del Senato costa la metà di una pastasciutta alla mensa degli spazzini? Dove ci sono partiti nati dalla mutazione genetica di una bottega di cuoio e ombrelli? Dove conviene fiscalmente regalare soldi a una forza politica piuttosto che ai bambini lebbrosi? Che futuro ha un Paese così?"
Sergio Rizzo, responsável pela redacção económica do Corriere della Sera e autor de uma história sobre a editora Mondadori, e Gian Antonio Stella, editorialista do mesmo jornal e autor de diversos livros, resolveram juntar-se e escrever "La Casta", a investigação, como eles dizem, que põe a nú a classe dirigente italiana. A primeira edição saiu em Maio de 2007. Eu tive a sorte de apanhar a edição de Janeiro de 2008, que é só a 26ª! Em 18 artigos e uma dezena de quadros estatísticos, retomando a lição de Tocqueville e de alguns mais recentes, os autores explicam a deriva da classe política, por que razão vivemos num "sistema partidocrático que sofre de elefantíase", por que motivo a regionalização pode vir a ser um desastre de proporções inimagináveis em Portugal e a razão para que os alertas de Maria José Morgado e Marinho Pinto sobre corrupção e promiscuidades entre o poder político e económico façam todo o sentido. Espero que haja alguma editora portuguesa disposta a traduzir e publicar este livro. Isso seria verdadeiro serviço público e com retorno garantido. Se nenhuma aparecer pode ser que eu consiga convencer o meu amigo Marco Lisi, antigo colega de mestrado, doutorado em Florença e actual investigador do ICS, a traduzi-lo. Ou que Pacheco Pereira o queira fazer. Eu posso ajudar na publicação e garantir que já há vários exemplares que estão reservados: para José Sócrates, para Santana Lopes, para Alberto João Jardim, para o Procurador-Geral da República e, em especial, para Mendes Bota e José Miguel Júdice. É que há coisas que não se devem pensar, quanto mais dizer com a desfaçatez com que eles o fazem. Os exemplos estão à vista de todos e os números falam por si.

TAVERNA DEL MARINAIO, PORTOFINO

Aqui, num local paradisíaco, o mesmo por onde andaram Petrarca e Guy de Maupassant, fica a Taverna del Marinaio. Uma proposta gastronómica única, num restaurante competente e decente, com gente civilizada e preços normais (porque será que em Portugal restaurantes medíocres e com gente afectada cobram muito mais?). Recomendo os fresquíssimos mexilhões marinados (€ 10,00) e o spaghetti di mare (€ 32,00 para dois), o verdadeiro. Quanto ao vinho fica ao vosso critério. Também não vos posso dizer tudo.