Resolvi fazer caixotes e mudar-me para http://vistodemacau.blogs.sapo.pt. Espero a vossa visita. Não precisam de se fazer anunciar.
domingo, outubro 13, 2013
segunda-feira, setembro 30, 2013
Hei-de voltar
Partir
traz sempre consigo sentimentos contraditórios. A ebulição do espírito começa
logo no momento em que a hipótese surge. Depois vai aumentando à medida que o
destino avança e vai ganhando forma. Desta vez não foi diferente. Com
o passar dos anos a alma enrijece e deixa de nos embaciar os olhos quando no
bulício do vaivém dos aeroportos
roubamos um último abraço aos que ficam. A dor torna-se parte de nós.
Quem
nunca partiu não sabe o quão fácil e difícil é partir. Mas há alturas em que
isso se torna particularmente doloroso pelos riscos acrescidos que envolve,
pela separação dos mais novos e dos mais velhos, pelo afastamento em relação
àqueles que um dia não nos reconhecerão, pela ansiedade que cria naqueles que
um dia abalarão sem que no instante da partida tenhamos a certeza de que um dia
voltaremos a partilhar ternuras e carinhos, gestos simples de quem nos faz ser
como somos, gestos que nos aconchegam os olhos no poente.
Não
parto despeitado, não parto revoltado. O tempo da paixão e da revolta não são
próprios de um pensamento adulto, de uma racionalidade afectuosa como a que
cultivo junto dos que me rodeiam. Parto
triste. Parto só embora saiba que nunca tantos estiveram comigo nesta hora. Por
deixar para trás um povo que sofre diariamente na pele a mediocridade
petulante, incompetente, provinciana e ignorante dos seus dirigentes.
Parto
porque existe um momento na vida de todos nós em que temos de olhar para o que
está mais distante para nos podermos aperceber melhor dos pormenores do que
está perto. Longe de mim, direi, também perto de vós como nunca tive a
pretensão de estar. E nas semanas que antecederam a minha partida muitos foram
os que saídos do nada me vieram oferecer um sorriso, uma palavra amiga e
compreensiva, os que entenderam a minha decisão melhor do que alguma vez pudera
imaginar. É isto que me aproxima dos meus e me afasta dos apêndices que neles
se penduram para melhor espremerem as tetas exauridas da nação.
Vejo
nos olhos dos que deixo mais do que a tristeza, mais do que a dor e o afecto.
Vejo neles a esperança, a certeza de que um dia a bonança virá, sem ilusões
quanto ao regresso de Sebastião, mas com a segurança de quem já viveu e sabe a
inevitabilidade de que melhores dias virão. Porque de homens bons se fazem os
mundos, porque sem homens bons uma nação não sobrevive, porque sem homens bons
não há democracia que resista.
Não
sei quando terminará o tempo da canalha. Não sei quando é que os partidos
perceberão que homens como Rui Moreira “não podem” ser candidatos independentes
porque tinham a obrigação de sê-lo nos partidos. Do mesmo modo que homens como
Seara, Amorim, ou Menezes “não podem” ser candidatos de partido. São dois
pequenos exemplos tirados do nosso quotidiano recente. São exemplos que tornam
a nossa política pequenina.
Ler
a notícia de um semanário, de sexta-feira passada, que nos dá conta de que uma
presidente de junta de freguesia de uma cidade como Lisboa é capaz de se
recandidatar e encabeçar a lista de um partido cujo número dois foi por si
própria denunciado e é agora acusado de “canalizar
para si receitas das Componentes de Apoio à Família entregues na tesouraria da
Junta (...) a pretexto de efectuar pagamentos de aquisição de materiais e
pagamentos ao pessoal de limpeza”, “acedendo
o arguido, deste modo, às verbas em numerários geradas pelos pais dos alunos”
por se encontrar a “vivenciar um contexto pessoal de dificuldades financeiras”, pelo que
decidiu fazer sua “a quantia em numerário”
de “€ 13.104,35”, segundo reza a
acusação do MP, é apenas mais um exemplo da chafurdice em que o País se
encontra e do estado de pré-putrefacção em que o colocaram.
Penso
que não preciso de dizer mais nada. A ferida já foi suficientemente
escarafunchada nas últimas semanas aos olhos de todos para termos a obrigação
de evitar a gangrena.
Espero
em breve poder concentrar-me no meu trabalho, profissional e académico, com o
empenho que a distância me exige para que frutos possa dar. E um dia, meus caros amigos, minha gente querida
de alma lúcida, ter-me-ão de volta. Não darei aos meus críticos o prazer da
certeza do meu não regresso. Até lá aproveitarei o tempo para ir lendo e
escrever o que ficou por escrever no último ano. Pensarei convosco em voz alta,
mesmo estando longe. Porque as trovas que o vento leva também regressam
renovadas se soubermos acompanhá-las, limar-lhes as arestas e transmiti-las às
novas gerações.
Todos
merecemos um futuro. Todos somos pouco para construí-lo. Todos temos a
obrigação ética e moral de exigir melhor, de colocar a “cabeça no cepo” por uma
alteração e renovação duradoura das circunstâncias. Um homem não é a sua
circunstância, um homem é o seu combate. E em muitos casos dura toda uma vida.
Espero,
por tal razão, que os que ficam não esmoreçam nesse combate e que coloquem em
cada luta o peso do bom senso, a força da lucidez, a riqueza do verbo, a
clareza indelével de um raciocínio lúcido, leal, coerente e sempre presente nos
momentos em que muitos querem que claudique.
Porque
os velhos não podem continuar a morrer de vergonha e desprezo atrás de uma
árvore para que a canalha engorde, para que a pacovice diletante dos acomodados
triunfe. Onde quer que eu esteja estarei convosco nesse combate e não
regatearei esforços para que o sorriso das crianças do meu país não acabe no
final da adolescência transformado no rosto encovado e macilento de um
desempregado.
Os
canalhas nunca entenderão isto. Mas também não é preciso. Basta-me saber que os
portugueses o entendem.
(Londres, Terminal 3 do Aeroporto de Heathrow, em
29/09/2013, dia que antecede o recomeço do combate)
quinta-feira, setembro 19, 2013
"Bad customer service" em português diz-se PT
Fui a uma loja da PT para mandar desligar uma linha telefónica e de Internet do meu escritório. A primeira coisa que querem saber é qual o motivo, como se eu tivesse de lhes dar satisfações sobre as minhas decisões. Depois, digo à simpática menina que me atendeu que só pretendo a linha desligada a partir do final do mês, isto é, 30 de Setembro. Diz-me que não pode fazer isso porque a interrupção do serviço demora "até 15 dias" e ela, pobre criatura, não sabe quanto tempo os eficientes serviços da sua empresa levarão para desligar a citada linha. A seguir, aconselhou-me a só fazê-lo para a semana, para não correr o risco deles me desligarem a linha já hoje, ou amanhã, sabe-se lá. Porque demorando "até 15 dias" nada impede que o corte não seja imediato. Perguntei-lhe se nessa altura poderia liquidar todas as minhas dívidas para com eles até esse dia. Também não posso. Terei de aguardar mais 15 dias por uma factura que me será enviada para acertos, independentemente de depois dessa data eu estar na Conchinchina. Como se tudo não fosse já suficientemente esclarecedor ainda me sugeriu que só voltasse à loja PT depois da próxima quarta-feira, dia 25, porque durante a próxima semana não terão sistema.
Depois disto só me apetece perguntar o que seria de nós sem estas empresas, como a PT, nas quais metade da classe política e dos nossos gestores se revêem, que beneficiando de condições únicas de mercado ainda conseguem prestar ao cliente um serviço de trampa. Aposto que se fosse para me ligarem o MEO não demoravam "até 15 dias".
terça-feira, julho 16, 2013
Quanta saudade...
"Que futuro pode ter uma sociedade sem esperança e sem poesia? Uma sociedade em que a esperança se reduziu progressivamente à mera sobrevivência individual e cujos valores se personificam em modelos como Silvester Stallone ou Madonna? Vejo a sanha com que os nossos líderes políticos e os "pivots" dos telejornais espezinham furiosamente os restos da tragédia em que descambou a utopia comunista e pergunto-me se, neles, nesses terríveis destroços, eles odeiam os crimes do socialismo real (o maior dos quais terá sido, provavelmente, o da traição à utopia igualitária) ou se não é, antes, a própria ideia de utopia e de esperança que, incapazes de compreender, eles sobretudo odeiam e perseguem. (...)
Em Portugal, a metástase cavaquista do fenómeno contamina até hoje os que, pessoas e partidos, aparentemdente deviam estar do outro lado. O "fim das ideologias" e o "fim da História" são saudados euforicamente por quase todos e os raros que persistem em alguma forma de fidelidade ou de fé são olhados despeitadamente de viés como sobreviventes dinossáuricos.", JN, 07/10/1992
quinta-feira, julho 11, 2013
Um Presidente vocacionado para cenários de terror
A comunicação que o Presidente da República fez ontem ao País constituiu um dos mais altos momentos de inaptidão política de que há memória na nossa democracia.
Convirá dizer, antes de mais, que não me custa aceitar as razões apresentadas pelo PR para a não realização de eleições. Também tenho sérias dúvidas de que as mesmas resolvessem o problema, atenta a falta de consistência da oposição, mas ao contrário dele não me sinto imbuído de uma áurea que me permita numa democracia decidir o que é melhor para os "súbditos" sem consultá-los.
A argumentação de ordem económica e financeira também é compreensível. O cumprimento do memorando de entendimento com a troika e chegar ao final do período de ajustamento em Junho de 2014 sem ter de pedir um segundo resgate, e com a garantia de que tal não acontecerá nos anos seguintes, é claramente um objectivo nacional e que não deverá ser escamoteado.
Mas posto isto, que é a parte compreensível da mensagem de ontem, tudo o mais é ininteligível.
Depois de ter andado durante mais de dois anos a fomentar a solução da coligação PSD-CDS/PP para obviar ao desconforto provocado pelo chumbo do PEC4, que fora tão elogiado pelos banqueiros e pela chanceler alemã como as políticas de Vítor Gaspar, verifica-se que o PR se tornou em mais um factor de instabilidade, aliás com reflexo imediato na agitação dos mercados que se registou esta manhã.
Durante dois anos o PR assistiu ao esboroar da coligação, por vezes fazendo apelos no sentido de levar os protagonistas à união e à razão, sempre sem tomar posição que vincasse o seu estatuto e autoridade, assim perdendo força e capacidade de intervenção.
Desta forma, perante o avolumar de sucessivos fracassos em matéria económica, de controlo do défice e do desemprego, de ausência de reformas dignas desse nome, com um falhanço fiscal em toda a linha que desacreditou o ministro das Finanças e o primeiro-ministro, o resultado só poderia aquele a que se chegou com uma coligação e um governo liquefeitos, com a confiança pelas ruas da amargura e os mercados desconfiados quanto à nossa capacidade de chegarmos a Junho de 2014 sem um segundo resgate. Ou seja, chegamos a Julho de 2013 numa situação em tudo contrária à que foi prometida quer pelo PR quer pelos partidos que formam a coligação e venceram as eleições legislativas de Junho de 2011.
A solução proposta pelo PR não é neste momento solução de coisa alguma. É antes uma "não- solução". Em especial, porque volta a colocar-se à margem dessa mesma solução, deixando os partidos e o País entregues a si próprios, sem que de facto se vislumbre qual a solução final se os partidos - como é previsível - não se entenderem.
Certo é que o PR não aceitou o que lhe foi proposto pelo primeiro-ministro Passos Coelho, pelo que o Governo irá assim continuar a "governar" em estado semi-comatoso, com um líder desacreditado e com um número dois e ministro dos Negócios Estrangeiros cujo sentido de Estado e palavra política deixam tudo a desejar, enfim, com uma ministra das Finanças de ocasião e sem estatuto, isto é, com o governo no limbo.
O PR voltou a ficar nas meias-tintas. Já não se trata de uma leitura minimalista dos seus poderes, mas antes de uma leitura desajustada e tardia desses mesmos poderes. Como agora é patente, o PR nunca devia ter viabilizado um governo como o que saiu das eleições de Junho de 2011.
Tal como então defendi, e isso se tornou mais evidente com o decurso do tempo e à medida que as pequenas crises - políticas, económicas e constitucionais - agravavam a crise mais geral, há muito que o PR deveria ter tido a iniciativa de promover a formação de um novo governo no actual quadro parlamentar. Ontem como hoje mostrou-se incapaz e revelou estar isolado e sem capacidade de manobra.
Quanto aos partidos, a começar pelo PS, seria bom que reanalisassem a actual situação política e os factos ocorridos nos últimos três ou quatro meses e colocassem a mão na consciência.
Finalmente, uma palavra final para Passos Coelho e que se resume a uma única pergunta: desautorizado pelo PR da forma como foi pela comunicação de ontem, de que está à espera para apresentar a demissão? Quanto mais tarde o fizer maior será a agitação dos mercados que ele tanto estima e maiores os riscos de condicionamento do regime por força das pressões externas. Se for isto o que pretende Passos Coelho poderá continuar como até aqui. Se tiver ainda alguma réstea de sentido patriótico então é melhor que se despache e se demita, assim facilitando a vida a quem, mesmo contra vontade, terá de encontrar uma solução que remedeie as asneiras que se andaram a fazer durante dois anos e numa altura em que tudo era possível menos o falhanço.
sexta-feira, julho 05, 2013
Para fazer política é preciso ter batido com a cabeça muitas vezes...
O que Medina Carreira diz tem todo o sentido. E muito embora as generalizações sejam sempre perigosas, é hoje indiscutível que são mais os maus exemplos do que os bons exemplos.
As "jotas" são hoje um cancro do regime e mais do que nunca os partidos deveriam caminhar no sentido da mudança. A preparação dos jovens para a política faz-se nas escolas, na vida e nos partidos, após os 16 anos. Enquanto organizações autónomas dentro dos partidos as "jotas" não servem para nada. Basta olhar para o Parlamento e para os sucessivos Governos, dos titulares aos restante pessoal dos gabinetes, para já não falar nas empresas públicas, para se perceber o que tem sido produzido e qual tem sido o produto do trabalho das "jotas".
Há também bons exemplos, pois há, mas esses não precisavam das "jotas" para singrarem e se imporem. Os outros, os medíocres, é que sem elas não teriam obtido uma "licenciatura", não teriam sido autarcas, assessores, adjuntos, deputados e membros do Governo, não teriam sido administradores de empresas públicas, nem teriam arranjado empregos à custa destas. E isto é verdade tanto à direita como à esquerda.
quinta-feira, julho 04, 2013
Uma PPP com a Maya?
Comprova-se que com a saída de Vítor Gaspar do Governo já não será possível recorrer ao Borda d'Água. Respostas para a crise, pelas declarações do sempre afável Marques Guedes, só mesmo através da leitura dos astros. Não há nada como a sinceridade.
Com meia dúzia como este estávamos safos
A entrevista que o Prof. Adriano Moreira ontem deu à TVI24 é toda ela um tratado de clarividência política. O modo afável, simples e directo como aborda as questões e a análise fluída, linear e esclarecedora, com uma clareza de raciocínio e lógica notáveis, são atributos que apesar dos anos continuam a fazer dele um dos grandes comentadores da actualidade política. É indiscutivelmente um dos grandes senhores do nosso tempo. Numa terra onde escasseiam os verdadeiros talentos na política seria bom que o ouvissem mais. Em especial o Presidente da República. E, se não for pedir de mais, espero que a TVI24 coloque a totalidade da entrevista online.
"Nunca vi nada de equivalente na vida política" (sobre a actual crise e as circunstâncias em que aconteceu);
"O País vai a caminho da bancarrota";
"Nos últimos dois anos não fez nada do que anunciou" (sobre Passos Coelho);
"A fome não é um dever constitucional. Tudo tem limites";
"O Presidente da República deve assumir a autoridade que se espera do Presidente da República".
"O Presidente da República deve assumir a autoridade que se espera do Presidente da República".
quarta-feira, julho 03, 2013
Graças ao Luís Brandão
Mantens-te de pé como uma torre infeliz. Um coração sem alento
conserva-te vivo, desoladoramente vivo, obscuramente ineficaz.
O que buscas no bosque não é uma árvore, nem uma rosa silvestre.
O que buscas, o que desejas para ti, não é teu. O objecto do teu sonho não é senão o fruto do trabalho daqueles que não têm tempo para sonhar. Já não conversas com os vivos, as tuas palavras ostentam um brilho inútil, lembram-me uma candeia tentando iluminar o sol.
O teu cansaço é o de uma orquestra que acabou o concerto e não recebeu um único aplauso, a não ser o dos músicos que elogiam o seu maestro. O público já te virou as costas e sai com a frustrada sensação de um espectáculo medíocre, de um
tempo perdido.
Não te manterás de pé por muito tempo.
Joaquim Pessoa, in ANO COMUM.
conserva-te vivo, desoladoramente vivo, obscuramente ineficaz.
O que buscas no bosque não é uma árvore, nem uma rosa silvestre.
O que buscas, o que desejas para ti, não é teu. O objecto do teu sonho não é senão o fruto do trabalho daqueles que não têm tempo para sonhar. Já não conversas com os vivos, as tuas palavras ostentam um brilho inútil, lembram-me uma candeia tentando iluminar o sol.
O teu cansaço é o de uma orquestra que acabou o concerto e não recebeu um único aplauso, a não ser o dos músicos que elogiam o seu maestro. O público já te virou as costas e sai com a frustrada sensação de um espectáculo medíocre, de um
tempo perdido.
Não te manterás de pé por muito tempo.
Joaquim Pessoa, in ANO COMUM.
terça-feira, julho 02, 2013
Um dia atípico
Dedicado a Sua Excelência o senhor Presidente da República e ao senhor primeiro-ministro. Em nome de Portugal e dos portugueses que estoicamente aguentam a insânia que grassa na associação de estudantes do ensino secundário que tomou conta do PSD e do Governo da nação.
A carta
Verdade seja dita que em cada dia que passa me sinto cada vez mais distante de Portugal e dos portugueses. E no entanto estou no meio deles, vivo no meio deles, penso no meio deles. Às vezes também com eles. Os meus defeitos serão os deles, as minhas virtudes, se algumas tiver, também serão as deles. Não consigo, talvez por isso, pensar em "off" da mesma maneira que outros conseguem falar. Dentro de mim tudo se passa em "on" e o "off" será sempre um prelúdio do fim.
Confesso que tenho alguma dificuldade em perceber os ínvios caminhos de algumas inteligências que têm o condão de transformar em obscuro o que é claro, de substituírem a transparência pela opacidade, de confundirem um segmento de recta com uma elipse.
Numa democracia adulta, com gente séria e intelectualmente honesta, a comunicação não tem segredos, a informação é facilmente acessível a qualquer cidadão e a interpretação dos factos estará sempre balizada pela realidade. O vazio não faz parte da cartilha comunicacional.
É certo que a ironia não sofrerá do mal de ausência, mas será sempre de mau gosto ironizar com o corpo ainda quente do moribundo. Porque ele poderá sempre despertar, ressuscitar, voltar ao mundo dos vivos, ainda que o faça em "off", enquanto os seus olhos rodam pela distância que os separa daqueles que procura encontrar.
A carta do ex-ministro de Estado e das Finanças não é um testamento político. Menos uma justificação de modéstia. Vítor Gaspar resolveu fazer uma partilha em vida e deixou preparada a habilitação de herdeiros. E isso justifica a chamada de Maria Luís Albuquerque à pasta das Finanças. Não há nisto nada de irónico. Ou de meteorológico, para recordar o almanaque de que todos falam.
O legado que fica nem sempre representa o resultado de uma vida de trabalho. Por vezes será apenas o produto de uma vida vivida em "off", mesmo quando bem vivida.
O que ficou não constitui uma confissão de impotência, não significa um acto desesperado, nem é o epílogo de um período conturbado. E não será, seguramente, um acto de lealdade política ou de agradecimento. Uma carta constituirá sempre um testemunho para a posterioridade. Em "on". Tudo o que de bom ou de mau contiver ficará indelevelmente gravado.
Eu prefiro os que pensam, dizem e escrevem em "on". Sem rede. O incómodo que isso provoca é não raro uma forma de nos trazer à realidade, de nos fazer olhar à nossa volta, de nos ajudar a crescer.
O mesmo não digo da hipocrisia em "on". Esta não é um problema de carácter. Nem sequer da falta dele. É um problema de visão. Mas entre a falta desta em "on" e a franqueza em "off", ainda assim prefiro a primeira.
Numa democracia a decência está sempre em "on". Numa democracia a gente séria não teme as palavras; sabe reconhecer os gestos, e responsabiliza-se. Gente séria não teme a transparência, enquanto qualidade que nos permite ver e inferir, ou os juízos que outros façam das nossas acções. Gente séria não funciona em "off". Está sempre em "on". Os outros, se quiserem, poderão sempre repudiar o legado. Em "on". De outro modo não funciona.
sexta-feira, junho 28, 2013
Um homem de excepção
O Pedro Correia, sempre oportuno e atento, já tinha tido a justa lembrança de assinalar a obra do padre Lancelote Rodrigues, recentemente desaparecido. O Economist fá-lo agora. Para que aqueles que não tiveram o raro privilégio de com ele conviver em vida e conhecer a sua excepcional obra de apoio aos refugiados e aos mais desfavorecidos possam conhecê-la depois da morte. Nunca será demais, para que o exemplo perdure.
sexta-feira, junho 21, 2013
A ler
(clique na imagem para aumentar)
"O dr. Cavaco não é um palhaço (Deus me livre!), mas tudo indica que o país, coitado, é uma grande palhaçada" - Vasco Pulido Valente, Público, 21/06/2013
domingo, junho 16, 2013
Leituras (12)
"Strong democracy is a disctintively modern form of participatory democracy. It rests on the ideia of a self-governing community of citizens who are united less by homogeneous interests than by civic education and who are capable of common purpose and mutual action by virtue of their civic attitudes and participatory institutions rather than their altruism orn their good nature. Strong democracy is consonant with - indeed it depends upon - the politics of conflict, the sociology of pluralism, and the separation of private and public realms of action.
(...)
[S]trong democracy (...) can be formally defined as politics in the participatory mode where conflict is resolved in the absence of an independent ground through a participatory process of ongoing, proximate self-legislation and the creation of a political community capable of transforming dependent, private individuals into free citizens and partial and private interest into public goods".
sexta-feira, maio 31, 2013
A ler
"Ora, quando o resto se afunda, é na liberdade que, em última análise, assenta o regresso a uma situação tolerável e 'normal'. E, deste ponto de vista, o sr. Gaspar e o dr. Cavaco estão de um lado e o dr. Soares de outro." - Vasco Pulido Valente, Público, 31/05/2013
quinta-feira, maio 30, 2013
As teias que o fisco tece
Ontem fiquei a saber que o fisco quer que entregue um anexo SS. Tal e qual. Acontece que, entretanto, o IRS já tinha seguido. O sistema informático aceitou a declaração sem o tal anexo. Mas, ainda assim, pelo que me disseram, era possível corrigir. Era, porque o dito sistema só aceita o anexo SS se lá tiver o número da Segurança Social. Pediram-me o número. Eu não tenho. Nunca tive, fui advogado a vida toda e o único número que tenho é o da minha Caixa de Previdência. E o de contribuinte. Disseram-me que vem no cartão de cidadão. Mas eu também não tenho cartão de cidadão. Só uso bilhete de identidade e só tirarei um cartão de cidadão quando aquele caducar. Não tenho que antecipar a receita do Estado, pois não? Será que vou ter de me inscrever na Segurança Social mesmo que não tenhamos nada a ver um com o outro e o número não sirva para nada? Só para satisfazer a gula burocrática e orwelliana dos senhores do ministro Gaspar?
Em tempo: Creio que se resolveu. Pena é que se tenha necessidade de chegar até aqui.
Em tempo: Creio que se resolveu. Pena é que se tenha necessidade de chegar até aqui.
sábado, maio 25, 2013
Palhaços
Um tipo que não consegue rir-se de si nunca poderá ser palhaço. Para ser palhaço é preciso ser inteligente.
O Pessoa podia ter sido um palhaço.
sexta-feira, maio 24, 2013
A ler
"Sozinho, completamente sozinho, o dr. Cavaco Silva conseguiu arruinar a Presidência da República. A Presidência da República não tem hoje autoridade, influência ou prestígio." - Vasco Pulido Valente, Público, 24/05/2013
Georges Moustaki
Vamos sentir a tua falta.
Leituras (11)
"Une organisation de parti doit, ensuite, faire montre de dynamisme. Il lui faut manifester ses capacités d'adaptation, de rénovation et d'innovation tant dans les idées que dans la façon de les promouvoir ainsi que dans son style d'action. 'Pour s'avancer vers le peuple, les partis n'ont pas besoin de lever le poing ou de se réfugier derrière l'éphémère autorité des chefs vieillissants. Ils doivent être en quête d'idéaux à partager, de sentiments et de styles de vie (...).. Ils devraient changer leurs méthodes d'organisation, expérimenter de nouvelles idées, imaginer de nouveaux liens entre les gens et les militants'. Le phénomène de réalignement atteste avec éclat du dynamisme d'une organisation capable de jeter son projet fondateur aux orties pour, se choisissant un créneau plus porteur, s'enraciner sur le versant d'un clivage différent de celui qui l'engendra." - Daniel-Louis Seiler, Les Partis Politiques en Occident, Sociologie Historique du Phénomène Partisan, Ellipses, Paris, 2003, p. 271.
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