quarta-feira, março 27, 2013

Absolutamente genial


Se há livro que vale o preço, e não me refiro ao papel, é este. Está lá praticamente tudo, tudo, o que de mais e de menos básico se deve saber sobre este período da história europeia. O resto, o que não está neste magnífico livro, está nas restantes obras que Tony Judt nos deixou e que em boa hora foram editadas entre nós. O editor que se abalança a uma obras destas merece uma palavra de apreço. E de estímulo.
Uma escrita clara, simples, cativante. Uma simplicidade desarmante na forma como aborda as questões, a medida exacta do tempo e da importância dos factos.
Tony Judt partiu numa altura em que ainda tinha imenso para nos dar, mas o que deixou acompanhar-nos-á, a todos os que tivemos o privilégio de lê-lo, e saboreá-lo, pela vida fora. Deus não dorme.   

terça-feira, março 26, 2013

Reavivar a memória


A foto é do "The Guardian" e ilusta um texto sobre a ajuda grega e espanhola à Alemanha do pós-Guerra. A chanceler Merkel, que além do mais vivia na zona leste da Alemanha, sob domínio russo, pode ignorar o que então aconteceu, mas é bom que alguém lhe diga o que se passou.  

Lição de bom português

"Para grande parte de nós, Chipre não significará grande coisa, razão que talvez explique - mas não que justifique - que se ande a grafar por aí "o Chipre", acrescentando-lhe um artigo que o país dispensa. Afinal, não passa pela cabeça de ninguém escrever "a Andorra", "o Cabo Verde", "a Angola", "a Paris", "a Cuba", "o Gibraltar", "a Londres" ou "o Istambul", tudo exemplos descaradamente roubados a Mário de Carvalho" - Ana Cristina Leonardo, Expresso, 23/03/2013 
 
Pode ser que com a insistência (Miguel Esteves Cardoso já tinha escrito há algumas semanas um artigo sobre isto no Público) alguns portugueses com responsabilidades, como alguns jornalistas que ganham milhares sem saberem falar, aprendam o básico e deixem de influenciar (mal) aqueles portugueses que os ouvem e nunca tiveram oportunidade de aprender.  

sábado, março 09, 2013

Bem lembrado, melhor escrito

"Com a mudança de Governo e a chegada da troika, Cavaco Silva mudou também. Dantes tão claro, presente e decidido, hoje tão dúbio, ausente e temeroso, parece ter desistido - se não de exercer a função, pelo menos de trabalhar para a História. É para isso que serve o segundo mandato de um Presidente, mas este, por medo ou impotência, tem vindo a apagar-se quando mais se esperava que brilhasse, tantas vezes invocou a sua qualidade de economista para convencer os eleitores de que era o mais preparado para o exercício do cargo." - Fernando Madrinha, Escutar as Vozes, Expresso, 09/03/2013.

segunda-feira, março 04, 2013

Leituras (7)

 
"Em 1957, Corrêa d'Oliveira, à semelhança dos relatórios preparados pela OECE ao longo do período, era da opinião de que os principais problemas que a economia portuguesa enfrentava eram a criação de infra-estruturas de base, a reforma do ensino, o aumento das competências técnicas e a reforma do sistema fiscal. Segundo o relatório económico sobre o país realizado pela OCDE em 1999, e que se mantém actual, as prioridades de Portugal eram o melhoramento de infra-estruturas, o aperfeiçoamento das competências técnicas e a revisão do sistema fiscal. Por conseguinte, não é tão surpreendente que o Portugal democrático tenha adoptado uma política europeia semelhante à do regime autoritário de Salazar. A diferença reside no facto de o Estado Novo não ter reconhecido que a ditadura e o império eram anacronismos". - cfr. página 281.

sábado, março 02, 2013

Leituras (6)

 
"[E]ssential reading in the extent and depth of democratization in the early twenty-first century" - Ian McAllister, Distinguished Professor of Political Science, The Australian National University
 

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Outra vez "o Relvas"?

A razão, salvo raras excepções, nunca está só de um lado. E por vezes é conveniente deixar passar o alarido para se poder olhar com distância e claridade para os factos.
Os “episódios Miguel Relvas” são apenas o culminar de um processo de apartamento dos cidadãos dos seus actuais governantes que nada tem de novo nem de particularmente relevante. O que neles há a notar é a rapidez da erosão, a que não será alheia a degradação da situação social, política e económica a que temos assistido. A cara-de-pau do ministro das Finanças, depois de falhar todas as metas de 2012, a comunicar ao Parlamento que se havia enganado nas contas em 100%, é disso mesmo o melhor exemplo.
Posto isto convém dizer que a democracia não está em causa, que as liberdades e os valores constitucionais não foram postos em causa, e que tudo não tem passado de atitudes de rebeldia e propaganda às quais o ministro Relvas tem emprestado o seu estímulo.
Convenhamos que as coisas só têm a importância e o relevo que se lhe queiram dar. O que aconteceu com Passos Coelho na Assembleia da República no último debate era previsível que se repetisse depois de um grupo de comandos ter feito ecoar o grito de guerra no parlamento. Nessa altura eu critiquei a atitude por muito compreensível que pudesse ser, mas sabia que iria criar um mau precedente. Não me enganei. Na ocasião nem a senhora presidente da AR veio pedir a evacuação das galerias, nem a bancada do PSD, nem o cronista Henrique Raposo, se queixaram.
Agora que as coisas começam a piar mais fino já vêm falar, imagine-se, em fascismo. São eles e Mendes Bota quando este há uns anos comparava a ASAE a uma “nova PIDE”. Haja decência e tino, senhores.
Evidentemente que o que se passou no Clube dos Pensadores ou no ISCTE não é nem foi bonito. Porém, importa também perguntar qual a medida de participação de Miguel Relvas para o que aconteceu. Com Passos Coelho e Paulo Macedo os protestos fizeram-se ouvir. A seguir os manifestantes calaram-se ou foram-se embora e tudo prosseguiu. Com normalidade. Uns protestaram, os outros discursaram.
De diferente nos “episódios Relvas” foi a provocação, foi a petulância.
Quando um ministro com a pose, o estilo e a arrogância de Relvas, se predispõe a participar num protesto em que ele é o visado, ensaiando cantar de forma desafinada e sem sequer conhecer a letra uma canção simbólica da democracia portuguesa, só pode estar a querer gozar com aqueles que se manifestam.
De igual modo, quando um ministro cujo currículo académico e profissional tem tanto de medíocre quanto de sofrível e de nebuloso, com um diploma feito de equivalências e folclore, que nem a privatização de um canal da RTP conseguiu levar a bom porto, depois de andar a atirar foguetes no Copacabana Palace com Dias Loureiro e Marques Mendes, e mais a mais numa altura em que os estudantes mais carenciados não têm bolsas nem dinheiro para propinas e o país sofre a bom sofrer com a insânia dos economistas ao serviço do Governo, se predispõe a discursar numa das melhores escolas públicas portuguesas sabendo que a hostilidade em relação à sua figura vem em crescendo, só pode estar a provocar o pagode.
E a sua falta de vergonha e de senso é tão grande que nas tristes imagens que se viram ainda deu para ouvir Sua Excelência a dizer à segurança, que naturalmente não lhe fez a vontade, que queria sair, naquelas circunstâncias, pela porta por onde tinha entrado, no que não pode deixar de ser entendido como mais uma atitude provocatória e de desafio.
É verdade, nisso estamos todos de acordo, que o que se viu no ISCTE ou há dias em Gaia foi lamentável e não pode ser acolhido por ninguém. Não há “arruaças democráticas”, não há “enxovalhos democráticos”, não há “insultos democráticos”. A democracia tem de saber conviver com os excessos de alguns e há mecanismos para corrigir esses excessos.
Por isso mesmo, antes de se apontar o dedo aos “indignados”, seria bom que Passos Coelho e os membros do seu governo, em especial Miguel Relvas, percebessem, como escreveu Tony Judt, uma coisa muito simples: “A seriedade moral na vida pública é como a pornografia, difícil de descrever mas imediatamente identificável quando a vemos. Descreve uma coerência de intenção e de acção, uma ética de responsabilidade política. Toda a política é a arte do possível. Mas também a arte tem a sua ética”.
De outra forma, como esse mesmo autor também escreveu, a política transformar-se-á num fraco produto do qual só sairá o tagarelar constante e uma retórica infindável para disfarçar o vazio. Não creio que Judt conhecesse o ministro Relvas e se estivesse a referir a ele. Daí que as suas palavras tenham ainda mais significado quando se olha para o que se passou entre nós.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Os contribuintes são cobaias?

Esta notícia do Público é reveladora do que abaixo referi: entrámos já na fase da "gozação" com os contribuintes, agora transformados em cobaias tributárias. A acção não tem nada de pedagógico, não visa informar, mas sim testar os limites da paciência dos contribuintes para se ver até onde estes se deixam atropelar, pisar, espezinhar.

Alguém que nos acuda

Aqui há uns meses, a propósito do arrendamento de uma casa de férias no Algarve, onde passou duas semanas de Agosto, o Diário de Notícias quis questionar o primeiro-ministro sobre se tinha pedido factura ao proprietário da casa onde se alojou. Pedro passos Coelho considerou a pergunta uma intromissão na sua vida privada e como tal escusou-se a prestar esclarecimentos.
Agora, o fisco anuncia a obrigatoriedade de todo o cidadão, por transacções de valor insignificante, exigir factura sob pena de lhe ser aplicada uma multa que pode ir dos € 75,00 a € 2.000,00. Pretende o fisco que os cidadãos se substituam a acção dos seus próprios fiscais e se transformem em bufos da máquina fiscal. Um verdadeiro nojo.
Um ex-secretário de Estado do governo de Passos Coelho, dirigindo-se ao seu secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, já se manifestou sobre o assunto, em termos que, não sendo os mais curiais num debate público, são seguramente os mais genuínos e que melhor espelham aquele que será o sentimento da maioria dos portugueses que paga impostos em relação a uma política fiscal fraudulenta e a uma actuação do fisco que raia o absurdo e se aproxima rapidamente do intolerável.
Independentemente da situação do país, a falta de senso (já nem digo bom, que este há muito desapareceu), o desatino das decisões que vêm sendo tomadas, a profunda iniquidade tributária e a forma despudorada como o fisco e seus agentes vêm actuando, em situação que se assemelha a um verdadeiro 'gangsterismo' fiscal em que tudo vale para aumentar a colecta - de cálculos de juros errados, a avaliações patrimoniais via "Google" e a interpretações das leis fiscais que invariavelmente acabam em prejuízo do cidadão que se quiser defender os seus direitos será obrigado a derreter rios de dinheiro a alimentar a ineficiência da máquina judicial - em qualquer outro país que tivesse uma opinião pública forte e uma elite política e intelectual com dimensão e dotada de uma aceitável consciência cívica, seria impensável e já teria gerado uma fronda.
Os resultados da execução orçamental de 2012 são um desastre, aproximando-nos rapidamente dos níveis de rendimento e dos padrões de vida de há três décadas, com uma miséria em crescendo e um empobrecimento geral das classes remediadas.
Bem sei que o que está a acontecer não é mais do que a penalização pela falta de empenho cívico e político da maioria dos portugueses que de há muito se resignou a entregar a política, a que diz respeito à vida de todos nós, a grupos de fedelhos mal estruturados, ignorantes e oportunistas que medravam nas organizações juvenis dos partidos políticos. Mas isso não justifica a passividade com que a generalidade dos portugueses continua hoje a encarar as coisas e a reagir aos maiores atropelos, enqaunto autarcas condenados continuam a fazer uso de expedientes dilatórios para se manterem em funções, e outros se permitem ler na lei aquilo que lá não está para proteger os interesses das suas camarilhas.
Há muito que apelei a uma fronda cívica, a um levantamento da sociedade civil contra o atavismo, a ignorância política e a prepotência tributária.
Perante um Estado tributário-pidesco, que quer transformar todos os portugueses em pides, bufos e fiscais ao seu serviço, com um poder político pantanoso (e merdoso), o problema já não se resolve com desabafos e expressões como a de Francisco José Viegas.
Por isso mesmo, deixo aqui um apelo à sociedade civil, aos homens bons deste país, à gente que consegue ler e ver para lá da opacidade dos partidos e que se habitou a lutar pelas suas ideias, que reconhece a existência de um sentimento nacional que se sobrepõe às conveniências conjunturais, ao tacticismo político, aos interesses de meia-dúzia de traficantes de influências e vendedores de banha da cobra, a gente que vai da direita à esquerda, de Adriano Moreira a António Barreto, de Pacheco Pereira a Pedro Lains, de José Reis a Medina Carreira, de Maria Filomena Mónica a Vasco Graça Moura, de Eduardo Lourenço a Bagão Félix, de Hélder Amaral a Francisco Louçã, e peço-lhes que se manifestem, que congregueme sforços, que unam num movimento único, genuíno, de defesa da cidadania e do interesse nacional que obrigue à capitulação da asneira e chame à razão o Presidente da República, obrigando-a a sair do seu sarcófago e a intervir.
Está na hora de Cavaco Silva fazer alguma coisa por Portugal e pelos portugueses que seja um pouco mais do que um acervo de frases triviais e inócuas.
Está na hora de ser formado um governo de iniciativa presidencial que conduza o país até ao final do cumprimento do memorando com a troika e que prepare o país para as legislativas de 2015.
Portugal não pode correr o risco de suportar durante mais uma dezenas de meses a incompetência, a ignorância, a teimosia e a pesporrência de Coelho, Gaspar, Relvas, Borges, Santos Pereira e de toda a sua trupe de coveiros pefumados.
Os portugueses têm o direito de viver com dignidade cumprindo as suas obrigações. E têm também o dever de exigir dos seus políticos o respeito pela razão, pela seriedade da actuação política e um mínimo de sentimentos de compreensão e humanidade perante a verdadeira tragédia social e moral que neste momento se abate sobre a maioria da comunidade. 

sábado, fevereiro 09, 2013

Leituras (5)


"Soft power arises in large part from our values. These values are expressed in our culture, in the policies we follow inside our country, and in the way we handle ourselves internationally". Joseph S. Nye Jr.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Leituras (4)

 
 
"A situação social portuguesa é anti-cristã. As estruturas da economia nacional assentes na plutocracia e na formação de capital à custa do baixo nível de vida das classes trabalhadoras, representa um compromisso de êxito duvidoso entre as formas de expansão capitalista-industrial do século XIX e do dirigismo planificador do Estado moderno [..]. Já  não há emigração mas sim um êxodo em massa. O homem português não tem presente e não acredita no futuro [...] Exigimos o direito ao diálogo. A presença do pensamento católico na vida portuguesa justifica-se por oito séculos de história [...]" - Panfleto escrito por Joaquim Pires de Lima, em nome do Movimento Cristão de Acção Democrática, em Agosto de 1965, citado por Filipe Ribeiro de Menezes, p. 604

sábado, janeiro 26, 2013

terça-feira, janeiro 22, 2013

Leituras (3)

 
"Hoje é costume desdenhar-se o Estado-providência do século XX como europeu e 'socialista' - geralmente em formulações como: "Creio que a história registará que foi o capitalismo chinês que pôs fim ao socialismo europeu". Pode ser europeu (se admitirmos para este efeito que o canadá, a Nova Zelândia e - no que toca à segurança social e ao serviço nacional de saúde para a terceira idade - os EUA são todos 'europeus'); mas 'socialista'? O epíteto mais uma vez revela uma curiosa ignorância do passado recente. Fora da Escandinávia - na Áustria, Alemanha, França, Itália, Holanda e outros países - não foram socialistas mas democratas-cristãos os principais responsáveis pelo estabelecimento e administração das instituições fulcrais do Estado-providência activista. Até na Grã-Bretanha, onde no pós-II Guerra o governo trabalhista de Clement Attlee inaugurou de facto o Estado-providência como então o conhecemos, foi o governo de tempo de guerra de Winston Churchill que encomendou e aprovou o Relatório de William Beveridge (ele próprio um liberal), que estabeleceu os princípios do fornecimento da providência pública: princípios - e práticas - reafirmados e garantidos por todos os governos conservadores que se seguiram até 1979.
 
O Estado-providência, em suma, nasceu de um consenso transpartidário do século XX. Foi implementado, na maioria dos casos, por liberais ou conservadores que haviam entrado na vida pública muito antes de 1914, e para quem o fornecimento de serviços médicos universais, pensões de velhice, subsídios de desemprego e doença, educação gratuita, transportes públicos subsidiados, e os outros pré-requisitos de uma ordem civil estável, representavam não o primeiro estádio do socialismo do século XX mas o culminar do liberalismo reformista do fim do século XIX. (...)

Não é só a natureza que tem horror ao vácuo: as democracias em que não existem escolhas políticas significativas a fazer, onde a política económica é agora grandemente determinada por actores não políticos (bancos centrais, agências internacionais, ou empresas transnacionais) - podem ou deixar de ser democracias funcionais ou conciliar uma vez mais a política da frustração e do ressentimento político."   

Leituras (2)


 
Um clássico incontornável para quem quem aspira a saber alguma coisa sobre partidos políticos, aqui na versão espanhola de 2005, da Alianza Editorial, com um prefácio de Peter Mair.

Ciclo de Conferências ISCTE-IUL

sexta-feira, janeiro 18, 2013

A luta continua, diz VPV

 
O problema, como todos já perceberam, não é de má comunicação ou de falta de coordenação. É difícil dizer que se comunica mal quando não se tem nada para dizer. Ou falar de falta de coordenação quando reina a auto-gestão. Como bem escreve Vasco Pulido Valente, com a habitual classe e secura de superlativos, a conferência no palácio Foz foi "um proverbial incitamento à loucura e à asneira". Bem estiveram, por isso mesmo, António Vitorino e Correia de Campos ao recusarem o convite para abrilhantarem o baile. É que depois do que Philipe Riès escreveu no Orange Finances sobre o Presidente da República e a trupe que se promoveu à sua sombra, não há reputação que resista.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Leituras (1)

 
"Au fond, la crise de l'engagement politique de la fin des années quatre-vingt et du déclin des années quatre-vingt-dix n'est pas aussi surprenante qu'on veut bien le dire. Elle s'enracine dans cette difficulté du système politique à répondre aux nouvelles demandes des citoyens et non dans une subite et radicale dépolitisation de ceux-ci. La crise de l'engagement n'est pas le signe d'une mort prochaine du politique. Ell est, en fait, une crise de mutation où de vieilles modalités d'engagement meurent et de nouvelles cherchent à naître." - Pascal Perrineau

terça-feira, janeiro 15, 2013

In memoriam


Soube há pouco da partida do João Carvalho, graças a uma nota da Leonor Barros e a mais um excelente texto do Pedro Correia.
Quando um amigo se vai embora, como refere o Pedro, há muito pouco para dizer. Mas eu, que tive a sorte de conhecer o João Carvalho e de disfrutar da sua companhia, não podia neste momento ficar calado e guardar em silêncio décadas de amizade, de boa convivência e camaradagem.
Conheci-o graças aos gosto pelos jornais e à circunstância de termos amigos comuns. Durante algum tempo reuníamos regularmente em animados jantares em casa da N. e do J., onde falávamos de política, de cultura, de cinema, de viagens, de motas e de carros clássicos, enfim, de tudo um pouco.
Depois, quando regressei a Portugal, soube que ele estava no STJ e acompanhava o saudoso Aragão Seia. Mais tarde voou para os Açores onde foi exercer funções no gabinete do Ministro da República, mas apesar da distância retomámos o contacto. Encontrámo-nos algumas vezes. Poucas para aquelas que seriam desejáveis, sendo que a última vez que estive com ele foi num jantar do Delito de Opinião, no Museu do Oriente. Mas íamos comunicando via e-mail, sms e telefone.
Quando fui a Braga tive notícia de que ele estaria em Gaia e quis visitá-lo antes de regressar a Lisboa. Em vão. O João já estava de volta aos Açores e ao seu posto.
Na dolorosa hora em que tomei a decisão de deixar de escrever no Delito de Opinião foi com o João com quem falei. Ele compreendeu as minhas razões. E registou-as.
Quaisquer que fossem as circunstâncias, o João era sempre um interlocutor à altura. Pelo seu saber, pela sua educação, pela sua boa disposição, pela sua frontalidade, pela amizade que colocava em cada gesto, e, acima de tudo, por um inestimável sentido da vida e uma lucidez desarmante.
Gostava de ter podido rever o João, mas não quis a vida proporcionar-me mais esse momento de convívio, nem que o pudessemos continuar a ler com gosto. 
Sei que um dia vou encontrar o João. Como sei que o mesmo acontecerá com muitos outros amigos que nos foram deixando ao longo do caminho que diariamente percorremos. E também sei que só nessa altura vou poder dizer as palavras que a escrita não consente. Mas até lá, até esse dia, não poderia ficar a dever mais estas palavras ao João, tendo como tenho a certeza de que os meus textos não deixarão de ser revistos e as minhas gralhas continuarão a ser assinaladas por ele com a boa disposição de sempre. Ainda que as correcções já não venham com um sms a avisar.  

P.S. João, penso que o Alfa da fotografia era aquele que tu querias ter.     

quarta-feira, janeiro 02, 2013

Entrar com o pé esquerdo

Sem qualquer novidade, e tão previsível quanto seria de esperar, o Presidente da República voltou a mostrar na sua mensagem de Ano Novo que o fato que veste o incomoda. Ainda não se percebeu se é nas mangas se nas costas, mas que ele que se sente desconfortável parece óbvio. 
Que 2013 irá ser um ano difícil não constitui novidade para ninguém. Que o OE de 2013 contém um forte aumento de impostos igualmente. Que 90% dos deputados apoiam ou apoiaram o programa de assistência financeira idém. Que uma crise política nesta altura seria pouco ajuizada e que se não for declarada a inconstitucionalidade de algumas normas do OE haverá alguns que serão mais prejudicados do que outros também.
Uma vez mais o Presidente da República quis demarcar-se do Governo sem se demarcar. Tudo como dantes, tudo demasiado teatralizado, tudo sem uma palavra nova, quase que se diria de tão pobre que foi um discurso de agradecimento pelo que se passou em 2012.  
Depois, na mesma linha de previsibilidade foram as reacções dos partidos. Mas houve uma que pelo seu significado não poderá passar sem ser devidamente assinalada. Refiro-me à do Secretário-Geral do PSD, Matos Rosa.
Desde logo pelo facto de ter sido um deputado apagado da segunda linha do PSD, um burocrata do aparelho, o sucessor de Miguel Relvas, a "comentar" a declaração do Presidente da República. Se o PSD e Passos Coelho pretendem continuar a desvalorizar as intervenções do PR, Matos Rosa será seguramente o homem indicado para tal.
E essa desvalorização, para não dizer acinte, foi tão notória que o "comentário" era afinal a leitura monocórdica, trapalhona e pontuada de engasgos, de um "lençol" pobre e confuso, previamente preparado e sem direito a perguntas por parte dos jornalistas.
Atento o tempo que mediou entre o final da declaração do PR e a leitura do "comentário" por parte de Matos Rosa, é evidente que a reacção do PSD já estava escrita há muito tempo.
Daí que, também, seja absolutamente incompreensível que tendo o Governo levado um apertão do PR sobre as opções do OE e se tivesse ficado a saber de viva voz que aquele levantava fundadas dúvidas sobre um documento socialmente desequilibrado e que culmina uma "espiral recessiva", o PSD tivesse vindo dizer que estava de acordo com o PR e que subscrevia as posições deste.
Pela maneira como começou, o ano político do PSD de Passos Coelho não só não augura nada de bom, como ainda por cima entrou com o pé esquerdo. Dir-se-ia mesmo que o comunicado lido por Matos Rosa foi tão infeliz que será de admitir ter sido escrito pelo anterior secretário-geral antes deste ir lançar foguetes para o réveillon do Rio de Janeiro. Noutras circunstâncias teria sido hilariante. Assim, como aconteceu, foi mais um prego no caixão da credibilidade e da seriedade da política e deste PSD. 

segunda-feira, dezembro 31, 2012

A fechar um ano triste

Poucos anos bissextos, que por natureza já são difíceis de gerir, terão sido tão tristes e complicados para a maioria dos portugueses como o que agora finda. 
 
Naturalmente que um ano não se esgota em meia-dúzia de assuntos de actualidade, frases banais, revistas de imprensa ou retrospectivas à hora nobre dos noticiários televisivos.
 
Cada vez mais gosto de passar a consoada e a noite de 31 de Dezembro, como também os aniversários que todos os anos, desde há cinquenta, religiosamente cumpro e a que Deus ainda me vai dando a sorte de estar presente com saúde, discernimento e alguma comida e bebida na mesa, de uma forma tranquila. De preferência na companhia de quem me diz alguma coisa. Nunca fui, e agora já será tarde para me vir a tornar, um pândego das confusões ou um saltitão dos bailaricos.
 
O silêncio diz-me muito. O sossego, a tranquilidade, enfim, a paz, são inexplicavelmente, ou talvez não, afirmações quotidianas da minha liberdade, da minha independência, da minha vontade de me olhar de tempos a tempos. Para me criticar. Para fazer balanços regulares ou para sonhar novos caminhos que amanhã possa trilhar. Fundamentalmente para me encontrar com a natureza que nos faz únicos. Para pensar, para aconchegar algumas palavras, preparando o burilar dos dias que hão-de vir.  
 
Este foi um ano triste. Se foi. Pelos que partiram, uns mais públicos do que outros. Pelos que se perderam, quantas vezes sem razão e sem uma palavra de conforto. Pelos que empobreceram sem saberem porquê. 
 
Foi um ano em que escrevi pouco, mas em contrapartida li muito e como há muito não o fazia. Voltei aos bancos de uma faculdade que me diz muitíssimo, a uma biblioteca aonde volto sempre com prazer e curiosidade renovada.Também viajei pouco, muito menos do que noutros anos. Mas o pouco fi-lo de forma soberba, na melhor das companhias e no melhor dos mundos. E os momentos com os amigos não foram tantos quantos gostaria, sem prejuízo de também ali ter estado rodeado dos melhores, daqueles a quem já perdi a conta aos anos em que rimos e choramos juntos, mas também com os mais recentes, com os que ao longo do ano me acompanharam e emprestaram o seu abraço, a sua palavra, o seu sorriso, o calor da sua dádiva. E, não raras vezes, o conforto da crítica sadia, por vezes mesmo contundente, sempre tremendamente generosa e desafiante.
 
Tudo isso são marcos que de uma forma ou de outra tenderão a perdurar ou a desaparecer. Só os próximos anos o dirão. Porém, tudo isso se torna secundário quando levantamos os olhos e nos confrontamos com tudo o que nos rodeia. Que seria de nós sem os outros? 2012 será em muitos aspectos um ano para esquecer, mas colectivamente, para nós portugueses, foi um ano que nos ensinou muita coisa. Foi um ano que serviu para nos conhecermos melhor. E para conhecermos os melhores e os piores de nós. Se tivesse de resumir o ano político em poucas palavras diria apenas o seguinte: 2012 foi um ano em que faltou inteligência à política e em que todos saímos à rua para os eunucos ganharem protagonismo.
 
E por aqui me fico. Do fundo do coração, com aquele coração que o Manuel António Pina - que saudades dele, meu Deus, que saudades... -  nos deixou, com um coração de uma bondade maior que o mundo, desejo-vos um ano de 2013 em que a saúde, a esperança e o silêncio vos guiem em cada dia. E que politicamente seja exactamente o oposto de 2012. Isto é, um ano que veja chegar a inteligência à política, e em que o protagonismo seja dado à seriedade, à decência e à palavra honrada. E, já agora, aos portugueses e à sua língua.