terça-feira, setembro 11, 2012

O problema não é só falta de estudo


No dia 2 de Setembro, em declarações ao Jornal de Negócios, o ministro Miguel Relvas dizia que o futuro da RTP continuava por decidir e que nada estava decidido quanto ao futuro das licenças públicas de televisão.
 
Hoje, pouco mais de uma semana depois, sem que ninguém saiba se afinal vai haver concessão do serviço público de televisão ou não, ou se a opção é pela venda de um canal e a concessão de outro, o mesmo Miguel Relvas veio dizer, no Brasil, que como se sabe deve ser o local mais apropriado para este tipo de declarações, que  "o assunto da RTP está resolvido". Resolvido? Como? Será que ouvi bem? Vai ser Alberto da Ponte a decidir? Não foi Passos Coelho que esclareceu, quando instado a tal, que nada estava decidido?
 
Não satisfeito com o que disse, hoje voltei a dar de caras com o ministro Relvas, nos ecrãs televisivos, dizendo que "o primeiro-ministro apresentou medidas que não são medidas novas. São medidas que visam substituir as medidas que o Tribunal Constitucional chumbou, portanto eram medidas que os portugueses já sabiam que eram inevitáveis". Então não são novas mas destinam-se a "substituir"? Bem sei que não disse que eram exactamente as mesmas, mas fiquei a pensar se o homem, quando lhe põem um microfone à frente, pensa que está a falar para bestas.

Por isso mesmo, também desconheço se quando o ministro profere declarações desse calibre e, com o devido respeito, parece ensaiar um ar de "asno tonsurado", como escreveu Julien Green, para convencer os telespectadores, ele vê a figura que faz. Ou se algum dos seus assessores lhe faculta as imagens para que as possa ver. Se tal não acontece deviam fazê-lo, pois poderia ser que no futuro ele se poupasse, e a nós também, a algumas deprimentes figuras.

Em qualquer caso, começa a ser tempo de o Presidente da República, em vez de andar a jogar golfe ou a brincar com os netos, se predispor a dizer duas palavras ao primeiro-ministro sobre as figuras que o seu ministro fez e anda a fazer. Agora até fora de portas, acompanhando o amealhar de ajudas de custo do outro, também Portas. Aliás, seria bom saber quanto estão a custar mensalmente ao erário não só o ministro dos Negócios Estrangeiros mas também todos os outros - agora o ministro da Economia e a secretária de Estado do Turismo também passeiam o seu colesterol pela humidade do Oriente -, para se poder avaliar dos benefícios da acção externa de cada um deles na actual conjuntura, perante o custo suportado por todos.

Não é aceitável que o ministro Miguel Relvas continue a exercer funções de Estado. Um Estado que se queira dar minimamente ao respeito não pode ter um Miguel Relvas como ministro.

Gostava de lá voltar (14)


Da Nang, Vietnam

segunda-feira, setembro 10, 2012

Isto não foi escrito ontem

"Se este é o caminho que Passos Coelho e os seus brilhantes estrategas têm a apontar ao país, se é pelo caminho da mais obscena frivolidade que o líder do PSD pretende formar um governo de maioria sólido e coeso que devolva a dignidade aos portugueses, então o melhor talvez seja mesmo arranjar umas armas, pedir desculpa àqueles senhores que hoje discursaram, e fazer um novo 25 de Abril.
 
Está na hora de se fazer uma nova revolução. Penso que foi isto que Cavaco Silva também quis dizer no discurso da sua tomada de posse, que hoje foi reafirmado por quatro homens sérios e bem-intencionados e cujo verdadeiro alcance só nesta altura consegui compreender depois de ler o que li.
 
Meus amigos: um sobressalto cívico seria "defenestrar" quem depois de se entreter a cozinhar reportagens destas ainda tem o desplante de se apresentar a votos e aspira ser primeiro-ministro e ministro de Portugal. Se não o fizermos acabaremos todos por ser tratados como cães. E a votar nas cadelas. E nos seus filhos. Já faltou mais." - Aqui
 
"Sermos no futuro governados por gente bem-intencionada com quem se pode falar será a melhor prova do nosso falhanço. Um falhanço maior do que a liberdade que gozamos. Um regresso à prisão, mas desta vez à dos bem-intencionados com quem se pode falar." - Aqui

"Faço minhas quase todas, quase todas, as palavras dele (não gostei da mensagem de Páscoa de Passos Coelho: não voto em Massamá, não lhe dou o benefício da dúvida, acho o Relvas igual a José Sócrates e não sou hipócrita). E não é por oportunismo político ou por razões de família. Ainda há gente decente e que pensa por si. Sem baias." - Aqui

"Passos Coelho é o melhor exemplo da metamorfose do dirigente no processo de ascensão ao poder. Sócrates já é passado. Como aqui neste espaço escrevi, há apenas dois dias, a um coelho sucede uma lebre.
O que agora os portugueses podem perguntar a si próprios é o que esperar de um tipo como Passos Coelho, alguém que ainda não chegou ao poder e já actua desta forma. Dir-se-á que não é virgem e que até Cavaco Silva incorreu no mesmo erro da omissão de factos. Pois é verdade. Mas quem numa questão destas, quando ainda não detém o poder executivo do Estado e precisa de conquistar os votos dos eleitores, actua já desta forma tão ínvia, imaginem o que não estará disposto a fazer quando a sua clique, devidamente orquestrada pelos “Relvas”, os “Jardins”, os “Mendes” e os “Marcos”, se vir instalada em S. Bento, contando com a passividade do Presidente da República?
Quem está de parabéns é Marcelo Rebelo de Sousa. Em boa hora, com a sua notável argúcia, rejeitou prefaciar o livro encomiástico e autobiográfico de um homem que de invulgar só pode apresentar a confrangedora vulgaridade do seu percurso académico e profissional. E hoje a transparente mediocridade da sua actuação e pensamento político. O convite a Fernando Nobre para encabeçar a lista de deputados por Lisboa foi mais um sinal. De um cata-vento político que se deixou instrumentalizar da forma que todos viram depois de alguém o convencer que tinha talento para a política não se estranha tal atitude. De um líder que apregoa a sua seriedade como cartão-de-visita seria legítimo esperar outros métodos. Tão pouco tempo de liderança e aí está ele em todo o seu esplendor. Quarenta e oito horas bastaram. Não admira que haja quem com toda a bazófia se prepare já para “despachar” mais um líder do PSD. Em boa verdade, PPC depois do que não disse e tem andado a fazer que diz não merece outra coisa. O País dispensava a repetição da dose. Só que, infelizmente, será esse o cenário com que todos teremos cada vez mais que contar. Nós e o FMI/FEEF.
Enfim, como sublinhou um autor (Garcia Clancini, 1995), assistimos a uma curiosa reversão temporal. Ao mesmo tempo que vivemos uma revolução tecnológica acelerada e dirigida para o futuro, há uma regressão social que atira a actual noção de cidadania para os séculos XVIII e XIX. E isto é tão mais grave quanto a “geração à rasca” já se devia ter apercebido disso para não ser mais um instrumento dessa regressão cultivada pelos nossos dirigentes políticos. O Congresso do PS e as declarações de Passos Coelho bastam.
A actual “geração à rasca” ainda tem a casa dos pais para se abrigar. Os seus filhos e netos provavelmente não terão, porque a essa sucederá uma geração ainda mais à rasca, dominada pelas poses bonapartistas dos actuais dirigentes. Um bonapartismo só de pose. Não na essência. Porque se persistirmos nos actuais modelos de participação e liderança, acabaremos todos não por sermos como o corso, mas por sermos como eles: isto é, definitivamente sonsos, medíocres, mansos e sempre à rasca.
Oxalá que por essa altura eu já tenha sido poupado a um destino que tem tanto de medonho quanto de merdoso." - Aqui

quinta-feira, setembro 06, 2012

Horas de sorte

Ele não sabia o que era a Ongoing e pouco depois era administrador do ramo brasileiro dessa empresa. Agora regressa, depois de "uma experiência profissional espectacular num país onde não conhecia ninguém e que está bombando"(sic). Pelo que refere a Visão, regressa para ir exercer funções executivas na Santa Casa da Misericórdia do Porto. Esperemos que desta vez saiba de que entidade se trata.
Enquanto alguns saem do país para arranjar trabalho, e alguns desesperam por cá sem consegui-lo, há quem regresse para garantir o futuro. Sem esforço. Basta um misericordioso convite.
Para alguns ainda há horas de sorte. 

Os meus heróis têm nome

É a imagem viva da perseverança, do esforço, da coragem e de uma íncrivel capacidade de lutar contra e domar as adversidades da vida. Depois de uma promissora carreira na F1, do terrível acidente nos treinos do GP da Bélgica, em 1993, no circuito de SPA-Francorchamps, que lhe arrancou as duas pernas, depois dos dois títulos nos campeonatos CART e dos êxitos no WTCC, com o BMW da equipa de Roberto Ravaglia, após o seu regresso às pistas na sequência de um longo período de recuperação e habituação às próteses, eis a vitória mais difícil e mais merecida de toda a sua carreira: a medalha de ouro em ciclismo nos Jogos Paralímpicos de Londres 2012. Alessandro Zannardi habituou-nos a vê-lo correr, a vê-lo competir e a vencer mesmo quando não ficava em primeiro lugar, sempre com o mesmo sorriso, sempre com a mesma vontade e o mesmo fairplay. Um exemplo para todos nós. Porque se há homens maiores do que a vida ele é seguramente um deles. Grazie, Alessandro!

quarta-feira, setembro 05, 2012

Gostava de lá voltar (11)


Honolulu, Havai, EUA

Um desastre

O diagnóstico estava feito, eles sabiam tudo, tinham tudo preparado, a receita era infalível e até o prof. Catroga do alto da sua cátedra falava de "....elhos". Sabendo-se que as eleições foram em 5 de Junho, que o Governo tomou posse a 21 desse mês e que estes dados se reportam aos primeiros 6 meses de 2012, que medidas foram tomadas nos últimos seis meses de 2011 pelo Governo para evitar esta situação? O que correu mal? Por culpa de quem? É isto que é preciso saber para se poderem tirar as devidas ilações.

Pois é

Como bem demonstra o Rui Rocha, da cabeça de "minipolíticos" só podiam sair "mini-ideias".

José Gil


São homens com o seu perfil, o seu estilo, a sua lhaneza de carácter e dimensão intelectual, e com uma linguagem simples, acessível, frontal, que podem contribuir para nos ajudar a reencontrar um caminho e um sentido para as nossas acções. Tanto as colectivas como as individuais. Os portugueses precisam de alguém que os ajude a pensar fora das balizas da troika e das palas ideológicas. Ele fá-lo como poucos. A entrevista que José Gil ontem deu a Fátima Campos Ferreira deverá ser vista e revista vezes sem conta. Em especial pela nossa classe política. Está lá tudo. Um verdadeiro guião para a nossa sobrevivência e sanidade. 

Mais uma edição a caminho

Ano após ano, sem falhar, um festival e pêras. Mais informação aqui, num site que também nunca falha, dia após dia.

domingo, setembro 02, 2012

Teia rompida

A lista divulgada pela Casa das Aranhas tem muito que se lhe diga. Como em tudo nesta vida, há boas (nunca pensei lá encontrar tantos amigos) e há desagradáveis surpresas.
Independentemente da forma mais ou menos (talvez menos que mais) lícita como a obtiveram, e dos mortos e adormecidos que por lá andam, há coisas que incomodam. Algumas fidelidades que muito prejudicaram o País, a democracia e a justiça, tornam-se agora demasiado transparentes. O GOL devia promover a sua própria regeneração, como muitas outras respeitáveis instituições, purgando as excrescências que por lá andam e regressando à pureza dos princípios. A fidelidade a estes tem de ter correspondência na composição da elite que a organização pretende e no quotidiano de cada um, na vida privada e na pública. Sem dramas.

segunda-feira, agosto 27, 2012

Opinar para néscios

1 - Opinar assim não custa nada. Basta atirar meia-dúzia de atoardas ao ar que alguém publicará e um serventuário qualquer dar-lhe-á eco.

2 - Importa também por isso dar exemplos do que se afirma para que, se for esse o caso, aqueles possam ser rebatidos e discutidos com alguma elevação e mérito. Os bois deverão ser sempre identificados pelos nomes, e não apenas quando nos convém.

3 - Quem sempre se bateu contra o desperdício e a pouca vergonha do que se passava na RTP naturalmente que sempre se incomodou com o que "a coisa" custava e com a forma como os oportunistas do costume - os partidos do centrão, incluindo naturalmente o de Marques Mendes - sempre dela tiraram partido e a usaram para lá plantarem os seus comissários e apparatchiks.

4 - Desconheço em quê que se apoia Marques Mendes para afirmar que se a RTP passar a dar lucro o privado pagará uma renda maior. Saberá Marques Mendes alguma coisa que Miguel Relvas e António Borges só a ele tenham contado? 

5 - Afirma o senhor que a RTP não vai ser dada, que "vai ser concessionada". A avaliar pelos exemplos passados trata-se de mais um eufemismo. Bem sabemos que concessões e PPP's foram coisas em que o seu partido e alguns dos seus militantes também se especializaram, mas isso não nos obriga a continuarmos a engolir indefinidamente esse tipo de esquemas e de negociatas. Isso não é "serviço público", muito menos a sua defesa. É uma fraude. E como todas as fraudes deve ser denunciada.  

6 - Se o problema é de programação, como ele diz, então mude-se a programação, comece-se por se mudar o director de programas. Se houver coragem para tal, o que eu duvido de quem admite que o futuro concessionário possa despedir pessoal mas é incapaz de fazê-lo, assumindo os custos políticos e proveitos inerentes, antes de atribuir a concessão. Ou será que pelo facto do ministro das Finanças não conseguir cumprir as metas do défice impostas pela troika isso justificará que se feche a Autoridade Tributária e Aduaneira e se concessione a cobrança de impostos, por exemplo, ao "Cobrador de Fraque"? Penso, apesar de tudo, que Marques Mendes não se estaria a referir ao que se passou na pasta das Finanças quando Manuela Ferreira Leite foi a sua titular. 

7 - E ainda estou para saber em quê que se baseia Marques Mendes para afirmar que "em regra, o privado gere melhor que o Estado". Far-lhe-ei a justiça de não pensar que ele se estaria a referir ao BPN, ou à Independente, ou à Moderna, ou à TVI que Cavaco Silva ofereceu à Igreja e que acabou a passar filmes semi-pornográficos, ou a alguns hospitais geridos em PPP, onde  se dá alta aos doentes mesmo que eles tenham de entrar na hora seguinte por causa das estatísticas ou das compensações que o Estado lhes irá pagar em razão do número, ou a companhias aéreas que acabaram em processos de insolvência, casos que são tudo menos exemplos de uma má gestão pública. Dos exemplos de que de repente me lembrei deixo de fora a Lusófona, porque esta entidade, pelo menos, mostrou como pode ser compatível, no sector privado, a excelência de ensino com uma expedita e rentável política de atribuição de diplomas universitários a pessoas com experiência na presidência de assembleias-gerais de grupos folclóricos (privados, é claro).

8 - Em todo o caso, gostaria que Marques Mendes desse exemplos daquilo que afirma, em especial de situações em que a gestão privada, sem o favor do Estado nem o patrocínio político do situacionismo militante, nas mesmas condições da gestão pública, isto é, com as mesmas regras e constrangimentos, apresente melhores resultados. Sei do que falo porque tenho visto muitos "gestores privados de excelência" acabarem como administradores liquidatários. Se vier ao Algarve por estes dias posso dar-lhe exemplos de alguns que depois da borrada feita nas empresas, quando muda o Governo, acabam de novo nomeados para entes públicos.

9 - Se o argumento económico não colhe, tanto mais que nos últimos dois anos a empresa RTP deu lucros e se presume que vá continuar a dar, que poderá motivar em Marques Mendes tão entusiasmada defesa da "concessão" da RTP?

10 - Quanto ao mais, designadamente que moralizar deve ser a regra e não a excepção, estamos de acordo. Não se pode é ficar pelas meias-tintas porque isso é mais típico dos cambalachos público-privados. E destes estamos todos - contribuintes - fartos.

Leituras

"Ter um inimigo é importante, não apenas para definir a nossa identidade, mas também para arranjarmos um obstáculo em relação ao qual seja medido o nosso sistema de valores, e para mostrar, no afrontá-lo, o nosso valor. Portanto, quando o inimigo não existe, há que construí-lo."
 
"Para fazer ruído não é necessário inventar notícias. Basta difundir uma notícia verdadeira, mas irrelevante, que, todavia, cria uma sombra de suspeita, pelo simples facto de que é dada. 
 
(...) O ruído não tem sequer necessidade de transmitir mensagens interessantes, até porque uma mensagem se sobrepõe a outra, e todas, precisamente, fazem ruído.
 
(...) um bom ideal para o universo da política de amanhã e da televisão seria ainda Santo Agostinho.
 
É apenas no silêncio que funciona o único e verdadeiramente poderoso meio de informação que é o murmúrio. Cada povo, mesmo que oprimido pelo mais censurador dos tiranos, sempre conseguiu saber tudo aquilo que acontece no mundo através do murmúrio.
 
(...) Eis que, portanto, em em conclusão, direi que um dos problemas éticos que se põe é como voltar ao silêncio. E um dos problemas semióticos que poderemos enfrentar é estudar melhor a função do silêncio nos vários modos de comunicação. Abordar uma semiótica do silêncio: pode ser uma semiótica da reticência, uma semiótica do silêncio no teatro, uma semiótica do silêncio em política, uma semiótica do silêncio no discurso político, isto é, a longa pausa, o silêncio como criação de suspense, o silêncio como ameaça, o silêncio como consenso, o silêncio como negação, o silêncio na música.
 
E, portanto, italianos, eu não vos convido às histórias, mas convido-vos ao silêncio."