quinta-feira, junho 21, 2012

Palavroso, em minúsculas e com poucos "cês"

Não estranho os depoimentos contraditórios e a vacuidade de muitos dos factos analisados, aliás proprocionais às quarenta e oito páginas do relatório da ERC. Mas coisas houve que  assinalei, para além da adopção daquela coisa do "Acordo Ortográfico", que certamente conduziram a que as minúsculas de "maio" e a falta de "cês" não me estorvassem a leitura do relatório de tal Entidade (com maiúscula, é claro).
Entre o que registei, tomei nota do que já oportunamente sublinhara e que a ERC referiu sem que daí extraísse as devidas conclusões.
Se, como se escreveu no ponto 29, a fls. 8, o adjunto do ministro, António Valle, num e-mail enviado às 16h 01m - dir-se-ia que aguardou exactamente por ultrapassar as 16h "fixadas" para enviar a resposta - declarou que "todos os esclarecimentos sobre este assunto foram oportunamente prestados em sede própria, ou seja, na 1ª Comissão Parlamentar", que interesse havia em o ministro, ou alguém por ele, dizer algo mais ao jornal, designadamente tomando a inictivia de telefonar a Bárbara Reis ou Leonete Botelho? A resposta a este ponto parecer-me-ia essencial, mas a ERC não entendeu assim.
Por outro lado, as considerações tecidas pela ERC, designadamente nos pontos 55, 56 e 57 e 58, a fls. 12 e 13, também exigiriam outra abordagem e desenvolvimento. Ou seja, se a matéria que nesses números se contém é suficientemente relevante para merecer enquadramento e fazer parte de um capítulo atinente à "existência de pressões sobre jornalistas", então teria sido fundamental compaginar essa relevância com a conclusão  que se encontra a fls. 4, no ponto 2 alínea d).
Na verdade, se se reconhece que "a atuação do ministro nos telefonemas trocados com os responsáveis editoriais, usando de um tom exaltado e ameaçando deixar de falar pessoalmente com o Público, poderá ser objeto de um juízo negativo no plano ético e institucional" não se percebe que a ERC não retire daí, também, as devidas consequências, já que para além da eventual relevância deontológica e/ou criminal, é exactamente no plano da ética institucional e política que esta questão tinha de ser tratada pela ERC, partindo do princípio que é do seu interesse desempenhar as suas funções com utilidade.
Não o tendo feito, a ERC demitiu-se da sua função reguladora e provou que não é pelo facto de se mudarem os seus dirigentes, colocando-se lá gente da confiança e das relações pessoais e sociais do ministro Relvas e do PSD, que a Entidade passou a cumprir melhor a sua função.
Aliás, se o tivesse feito não teria perdido o seu tempo em divagações estéreis, como por exemplo a que fez em torno do conceito de "pressão", repescando anterior deliberação, ignorando que quem dela disse nesse tempo o pior fora agora o primeiro a ela recorrer, porque tal lhe convinha politicamente, desvalorizando a gravidade deste caso.
Talvez também por esse motivo seja de questionar se é aceitável numa democracia que um ministro com as responsabilidades de Miguel Relvas ao dirigir-se a quem não é seu subordinado (quanto a estes o problema é deles) fale "praticamente em contínuo" e "num tom de irritação" (isso seria bom para mim que não tenho as responsabilidades do ministro e não ando metido em "alhadas"), ou "um bocadinho irritado", com "tom elevado" e "bastante agitado" - por uma questão "daquelas", "menor"? - , admitindo-se que enquanto ministro e titular de um cargo público se permita dizer que "se continuavam [a quem se refere o uso do plural?] com aquele tipo de procedimento, se sentiria na liberdade de ele próprio deixar de falar com o Público e que não afastaria a possibilidade de fazer uma queixa à ERC e, no limite, também às instituições judiciais", quando o seu próprio gabinete já tinha respondido às questões da jornalista.
De resto, de quem, "em duas ocasiões", "desmentiu ter mantido uma segunda conversa telefónica com a editora de Política na tarde de 16 de Maio", e que só depois de confrontado com os "elementos comprovativos" dessa chamada telefónica que lhe foram remetidos pela ERC é que "não contestou que o número indicado lhe pertencia" vindo referir, em relação aos seus anteriores testemunhos (uma vez mais, como sempre, estava em causa o que dissera antes), que, "afinal, não poderia precisar quantas vezes  falara com a editora de Política naquele dia", em termos tais que foi a ERC a dar como provada a existência de um segundo telefonema entre Leonete Botelho e Miguel Relvas "pelas 18h 00 de 16 de maio" (sic), já nada haverá a esperar no plano da ética institucional e política. 
Objectivamente, o ministro Miguel Relvas, lamento ter de reafirmá-lo, que anteriormente,  informalmente e como quem não quer a coisa, fez o favor de me transmitir o seu desconforto, por um ex-ministro que é seu colega de partido, relativamente ao que eu escrevia no Delito de Opinião, não tem fibra, nem estatura política - perfil académico já sabíamos que não tinha - para desempenhar as funções que desempenha. Anteriormente demonstrara-o de motu proprio nalgumas entrevistas e intervenções recorrentemente infelizes, facto que a ERC, embora desajeitadamente, acabou agora por confirmar. 
Quanto ao mais, os portugueses que julguem o que entenderem, sendo certo que, como alguém ainda hoje afirmava, se fossemos todos tão exigentes com os nossos políticos e com nós próprios como somos com os deslizes futebolísticos de Cristiano Ronaldo, este País não estaria como está. 
É tudo o que tenho a dizer. Este é um assunto encerrado, morto, enterrado, e com o qual não há que perder mais tempo, ainda que no horizonte se antevenha já a chicana parlamentar. Mas foi o ministro quem escolheu o caminho. Não tem de se arrepender. Ou que pedir desculpa. Passos Coelho que resolva. Ele é que é, formalmente, o primeiro-ministro. Também deve ser pago para isso. 

P.S. O que me leva a criticar o desempenho do ministro Relvas e a duvidar cada vez mais das suas palavras é exactamente o mesmo critério que me levou a criticar anteriormente outros políticos, critério esse  que ainda recentemente me impôs abdicar de integrar a lista de delegados ao Congresso da Federação Regional do Algarve do PS. Nestas coisas da política reconheço que sou pouco tolerante comigo mesmo em matéria ética ou moral e que a bitola que para mim escolho é idêntica à que espero dos outros em matéria de lhaneza de carácter, de funções políticas e de lealdade a princípios e valores estruturantes da democracia. Nada de confusões.

terça-feira, junho 19, 2012

Má gestão, má política

Os CTT, aquela que foi uma das instituições mais queridas e respeitadas dos portugueses, prossegue a sua política de afastamento das populações e de degradação da qualidade do serviço prestado à comunidade. 
Se antes, aos poucos, nos fomos todos apercebendo das consequências mais óbvias da privatização (houve outras menos óbvias que andam pelos tribunais), como a eliminação de categorias de correspondência e sua substituição por outras mais dispendiosas e mais demoradas, além da progressiva transformação, sob a capa da modernização, das estações de correios numa espécie de armazéns dos trezentos, com serviço de papelaria, livraria, discoteca, quiosque de venda de bilhetes para espectáculos e certificados de aforro, loja de brinquedos, de telemóveis e de  material desportivo, onde a quem tinha a infelicidade de lá se dirigir se impunha que tirasse uma senha e ficasse à espera durante tempos infindos do atendimento, começa a ser mais visível o mau serviço prestado pelos CTT sem que o Governo e as autarquias, designadamente a de Faro, se preocupem com o assunto.
Depois do encerramento de estações ao sábado de manhã sucede-se o fecho das próprias estações onde ainda recentemente se investiram milhões em obras e mudança de imagem.
Há dias dei comigo, em Faro, pelas onze horas, diante da Estação da Pontinha, a informar um grupo de turistas que olhava para o mapa da cidade e para a porta, sem perceber o que tinha acontecido e que apenas queria enviar uns postais, do seu encerramento. Disse-lhes então que os selos passaram a ser vendidos e as cartas entregues numa tabacaria, com não mais do que dez metros quadrados, situada nas proximidades e onde os CTT colocaram uma balança e uma única pessoa atende o público, com pouca luz e sem ar condicionado, a longa fila que todos os dias se forma, sem "direito" a senhas, a troco de uma comissão a favor do dono da tabacaria, ao que dizem, de 1% sobre o valor dos registos.
Isto sucede depois de uma consistente e regular política de celebração de contratos a prazo e de despedimentos, sistematicamente ignorada pelo poder político - incluindo pelos governos anteriores - alguns apenas para não renovação de contratos e assim se impedir a produção de efeitos jurídicos que decorriam da lei, posto que logo depois se telefonava às mesmas pessoas para voltarem ao serviço com novo contrato por mais três meses. 
O fecho da Estação da Pontinha, em pleno centro da cidade de Faro, é mais um golpe na tradicional zona comercial da cidade, mas, mais do que isso, é também a prova de que a privatização de serviços e de empresas rentáveis que estavam na esfera do Estado traz consigo a degradação da qualidade dos serviços prestados à comunidade, em especial quando em causa estão serviços em regime de monopólio ou similar.
Por agora, que se saiba, os únicos beneficiários do mau serviço prestado pelos CTT são os seus administradores e, vá lá, os que recebem € 0,02 de comissão por um registo simples (€ 1,67, creio eu). Se quem faz o registo o conseguisse fazer num minuto (isto é, receber a carta, verificar o registo, colocar as etiquetas, receber o pagamento, dar o troco e emitir o recibo com os dados do contribuinte), o que seguramente não é possível, esse valor representaria € 1,20/hora. Ao fim de 8 h de trabalho a remuneração de quem faz essa tarefa seria qualquer coisa como € 9,60. Sem direito a subsídios de férias ou de Natal ou segurança social. Notável.
Seria interessante saber se este é o modelo de desenvolvimento a que Passos Coelho dá cobertura e que é defendido pelo senhor Borges e por um laparoto qualquer de olhos esbugalhados e gravata vermelha que dizem que trata das coisas da Economia e de cujo nome já nem me recordo.

sexta-feira, junho 15, 2012

Cortar nas "gorduras"

Na mesma altura em que se fica a saber que a maternidade Alfredo da Costa irá mesmo fechar até ao final do ano, e em que há doentes com cancro da mama que estão com a reconstrução mamária suspensa e sem saberem quando a mesma ficará concluída, nem aonde, é divulgado um relatório do Observatório Português dos Sistemas de Saúde cujas conclusões deitam por terra tudo o que foi afirmado pelo PSD durante a campanha eleitoral e, já depois das eleições, pela actual equipa do Ministério da Saúde.
Que a Saúde tinha gastos excessivos e despropositados todos sabíamos, ou pelos menos suspeitávamos há longos anos. Nisso, o ex-ministro Correia de Campos foi exemplar na denúncia apesar de pouco hábil na explicação. E que era necessário racionalizar os gastos existentes gerindo melhor, também todos sabíamos, pensando eu que nenhum contribuinte sensato e de boa fé esperaria outra coisa dos sucessivos governos que tivemos que não fosse a tentativa, que todos sabem não ser fácil, de melhorar a qualidade dos serviços equilibrando os custos e os meios.
As PPP desde cedo se revelaram elas próprias um sugadouro sem controlo do qual eram beneficiários, invariavelmente, sempre os mesmos, isto é, aqueles que criticavam os gastos do sector público mas que nunca se importaram de serem pagos por esse mesmo sector e pelas empresas que neles integradas que lhes garantiam a rentabilidade das unidades privadas que exploram. O desperdício só era mau quando não acabava no seu bolso.
O relatório ontem divulgado pelo Observatório da Saúde, e de que a televisão e a imprensa já fizeram eco, quer pelas conclusões que apresenta quer pela reacção destemperada do secretário de Estado que foi convidado a fazer a sua apresentação, não é pelo facto de não ter colhido as boas graças dos burocratas, gestores e contabilistas que levaram com o tiro que deverá ser desvalorizado.
É evidente que quando gente que tem décadas de serviço público exemplar, uma carreira sem mácula obtida fora da política, sem ela e sem o concurso das universidades do cavaquismo, gente com qualificações que falam por si e que não vive à sombra dos partidos do arco do poder, chega à conclusão de que o acesso dos doentes aos serviços piorou, que aumentaram as dificuldades para o pagamento das taxas moderadoras, transportes e financiamentos, que há sintomas de depressão e ansiedade nas populações, que as pessoas deixam de comprar o que lhes é medicado ou alteram por sua livre vontade as doses prescritas por não terem meios para manterem as medicações anteriores, o poder não se sinta aplaudido.
Quem tenha a infelicidade de ter de frequentar centros de saúde sabe quanto custa hoje a saúde aos contribuintes e também sabe que não é só a "taxa moderadora" de uma consulta que faz a diferença. É tudo o resto que lhe vem associado, da comparticipação nos necessários exames ao custo dos medicamentos, que dificulta e cerceia o acesso. Basta ver e ouvir quem num centro de saúde espera por uma consulta ou lá vai mostrar os exames ao médico de família, ou falar com os médicos que lá desempenham estas funções, para perceber do que falo e saber que não falo (escrevo) de cor. 
Curiosamente, proliferam os hospitais privados e as clínicas, sendo que nalguns casos a oferta já se tornou obscena. Olhe-se por exemplo para o que se passa em Faro. Ao mesmo tempo que não se consegue uma consulta nalgumas especialidades no único hospital público da cidade, dezenas de especialistas chegam de Lisboa para enfrentarem listas de 40 e 50 doentes em unidades que dão emprego a afilhados políticos e em clínicas privadas, cobrando € 100,00 por quaisquer 10 minutos de consulta e despachando os doentes, por vezes noite fora, como se de uma mercadoria se tratasse, alguns limitando-se a prescreverem invariavelmente a mesma pomada para todos.
Quando tudo isto entra pelos olhos e convive connosco diariamente torna-se ainda mais difícil aceitar que, como refere hoje o Público, o secretário de Estado da Saúde tenha feito "um autêntico comício para pôr em causa um relatório de uma entidade independente", acusando-a de "manipular os factos e recorrer à mentira e encenação", sem que ao mesmo tempo esclarecesse porque não facultou dados para a elaboração desse relatório.
Neste quadro, e sem escamotear, fazendo fé no que diz o Ministério, de que 2011 foi o ano em que se realizaram mais cirurgias, embora não se esclareça a sua natureza nem se foram privilegiadas as mais rápidas e mais baratas para se melhorar as estatísticas em detrimento das mais onerosas e demoradas, é por demais incompreensível que se ataquem as conclusões do relatório da forma descabida como o fizeram, pois que se um inquérito a 741 médicos, dos quais 51% trabalham em hospitais públicos, 21% em USF, 10% em UCSP e 4% em hospitais PPP, não cobre o universo todo, da mesma maneira que 41 farmácias do distrito de Lisboa envolvendo dados relativos a 375 doentes são apenas uma amostra, seguramente que também são, como muito bem referiu um dos autores do trabalho, indícios que a todos devem preocupar, dados que se aproximam da realidade e que são susceptíveis de gerarem convicções profundas nos seus autores.
Aliás, foi o próprio bastonário da Ordem dos Médicos quem confirmou a existência de forte "racionamento" nos hospitais públicos, "racionamento" que, por exemplo, não tem correspondência no ordenado que o senhor Borges aufere para fazer aquilo que competiria fazer ao Governo da república.
Os casos vão-se multiplicando e até um dito "Plano Nacional de Reformas (PNR)", um "documento de 36 páginas", ficou perdido nos corredores de S. Bento, "algures entre o gabinete da Presidência da AR e a comissão parlamentar errada
A moscambilha, a trafulhice, a esperteza saloia, não são saudáveis em circunstância alguma. O amadorismo e a pesporrência também não. Em especial quando não se consegue transmitir a ideia de que o que se está a fazer é feito com rigor, sensatez e boa fé, e não, como parece, apenas para julgar opositores políticos - e se eles precisam de ser julgados! - e cumprir uma agenda e um programa que não foram sufragados nas urnas, enquanto se atamancam medidas parcelares e  se albardam os burros sem critério e conforme corre o marfim, para efeitos meramente propagandísticos e se cumprir o programa da troika, sem também se curar de saber do estado em que estaremos em Setembro de 2013, acautelando desde já situações graves e irreversíveis para o bem estar dos cidadãos.
Tal como aconteceu com o aumento dos impostos directos e indirectos e com as portagens das ex-Scut, em que se apostou na gula fiscal, menosprezando-se os efeitos que todas as pessoa sensatas e descomprometidas anteciparam, também em matéria de Saúde percorremos agora caminho idêntico. O problema é que nalguns casos a saúde dos doentes, o bem-estar de alguns e a qualidade de vida de outros, para não cair no extremo de lembrar as vidas que a poupança já ajudou a ceifar, já não será recuperável. E se em qualquer área da governação são desejáveis as boas práticas, o rigor, a transparência, a verticalidade, o carácter, a lisura de processos, na Saúde isso  seria ainda mais necessário. Infelizmente optou-se pelo folclore no melhor estilo "Relvas" ou "Álvaro" e as consequências rapidamente começaram a aparecer. É triste, pois é, mas nem por isso deixa de ser menos verdadeiro.

P.S. No momento em que escrevia estas linhas o primeiro-ministro mostrava na Assembleia da República toda a sua indigência política e a falta de articulação do Governo em matéria de informação do que se passa na Saúde, gaguejando e revelando ignorância e falta de informação na interpelação que o deputado Francisco Louçã lhe fez. Lamentável.

sexta-feira, junho 08, 2012

Um Governo bipolar

Um ano depois das eleições legislativas que mudaram o quadro político do País, multiplicam-se as análises e os balanços daquilo que foi a actividade governativa nos últimos doze meses. Qualquer balanço pecará sempre por enfatizar aquilo que na perspectiva do observador será mais positivo ou mais negativo, pelo que lapalissianamente se poderá com rigor afirmar que não existem apreciações totalmente isentas e que a análise política, tal como o próprio exercício desta, é também a arte do possível. E às vezes a do impossível, como não raro se percebe pelas afirmações de Miguel Relvas ou os exercícios televisivos da deputada Teresa Caeiro. 
Todos estamos cansados, e já basta suportarmos tão estoicamente o cumprimento do memorando com a troika, as discussões do país futebolístico ou sabermos que o presidente da República em mais um rasgo de génio vai condecorar um ex-ministro da ditadura entretanto transformado em especialista da propaganda por conseguir, penso eu, a proeza de ver a História recente de Portugal de baixo para cima, de viés e às vezes até mesmo de joelhos, como sucedeu quando andou por Macau a realizar programas para enaltecer a figura de um ex-governador, para não me abalançar a entrar pelos caminhos dos comentadores encartados (pagos).
O que aqui gostaria de registar foi aquilo que de mais notável pude constatar ao longo do ano que passou: a bipolaridade do executivo.
Todos se aperceberam que consoante as matérias havia dois pesos e duas medidas e que para o Governo e o PSD até o memorando com a troika foi obra exclusiva dos anteriores governantes, esquecendo-se os seus responsáveis que foram ouvidos antes e deram o seu aval, antes e depois, às metas nele consagradas. Depois, como também verificámos, daquilo que era possível fazer sem qualquer esforço (corte de gorduras do Estado, redução do défice por via da redução da despesa, reformas de fundo, manutenção dos subsídios de férias e de Natal, manutenção da carga fiscal vigente há um ano, e por aí fora), só o aumento das exportações apresenta resultados palpáveis. De resto, pouco ou nada se tem visto, enredados como temos estado em casos de paróquia.
O CDS, sem faltar no apoio à coligação nos momentos decisivos, no que tem sido reconhecidamente um parceiro leal, tem procurado manter-se afastado da teia de interesses, verdadeira camisa-de-forças, em que o primeiro-ministro e o ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares se movem. Se amanhã alguma coisa correr pior a ponto de se inviabilizar a chegada ao termo da legislatura deste Governo, Paulo Portas e a sua gente estarão em condições de se defenderem e de retirarem óbvios dividendos. E com razão. Não são eles os responsáveis, nem têm nada que ver, pelas ou com as recorrentes "broncas" de Miguel Relvas, com as ligações que este estabeleceu por via da política e dos aventais que vai usando de acordo com as conveniências, e menos ainda com a doença bipolar que desde o início assola o Governo. Seja com as rendas da EDP, as travessuras do "menino Álvaro", a falta de soluções para resolver o problema das PPP - dir-se-ia ser mais importante continuar a lavar roupa ainda que haja muita já lavada e a que continua suja não faça falta do que estancar o mal - ou o flop da pomposamente chamada "reforma autárquica" que teve o condão de manter intocado o número de municípios.
O drama da doença de que o Governo e os seus principais responsáveis enfermam é que não permite vislumbrar quando é que os próprios se aperceberão da sua situação e se predisporão ao tratamento, sendo certo que enquanto este não ocorrer o cenário será cada vez mais deprimente. Gente insuspeita na sua casa como Rui Rio, Lobo Xavier ou Manuela Ferreira Leite (não falo de Pacheco Pereira que é tido como sendo do contra) já avançou com algumas ideias, mas parece que os doentes estão mais preocupados em correr o país a doutrinar as massas do que em tratarem-se. 
Dois exemplos colhidos esta semana evidenciam o agravamento da doença: a criação de uma nova empresa pública e a forma como o primeiro-ministro lidou com as declarações do seu conselheiro António Borges. A criação da empresa pública, ainda que eufemisticamente se diga que ocorre por via de "transformação", não deixa de ser mais uma, quando o objectivo do tal memorando que tem servido para justificar tudo e mais alguma coisa, era não só a eliminação de institutos e a privatização das empresas públicas, como a proibição de criação de mais alguma. Não sendo legítimo ao intérprete de qualquer texto legal dele retirar uma interpretação que não tenha um mínimo de correspondência verbal com o que nele se pode ler, nem distinguir onde o texto não distinguiu, acrescentando o que lá não está, subtilezas de que o ministro Gaspar deverá ter dificuldade em compreender, a decisão do último Conselho de Ministros de aprovar um diploma que transforma o Instituto de Gestão e do Crédito Público numa entidade pública empresarial não poderá deixar de ser vista como manifestação da doença, aliás na linha do "ir para além da troika" que já então antecipava a sua evolução.
De igual modo, o papel desempenhado por António Borges, dito conselheiro ou consultor do primeiro-ministro, mais conhecido como o 12º ministro mas que na realidade mais não é do que um "afilhado" dele e do PSD, pago a peso de ouro com o dinheiro dos contribuintes que estão a ser esfolados pelo ministro das Finanças, é um outro sinal da agudização da doença. Se o António Borges que Marc Roche desqualificou nas páginas da imprensa internacional, sem que se saiba que da sua parte tenha havido reacção, e que o deputado João Almeida (CDS/PP) com frontalidade criticou em pleno Parlamento, pode ganhar o que ganha à nossa custa, então o melhor é deixar que o programa da troika se cumpra por si. Pode ser que entretanto os doentes se "espetem" em qualquer lado e acabem internados compulsivamente. Ou, quem sabe, exportados para uma jurisdição offshore como uma "mais-valia" não tributável. E inqualificável.       

terça-feira, junho 05, 2012

Brilhante

Ele nunca ouviu responsáveis políticos como Macário Corrreia ou José Apolinário pronunciarem "hângares", como se lá estivesse um acento circunflexo, em vez da palavra "hangares", aguda, no plural como no singular com acento tónico na última sílaba, tal como em francês, "a língua veicular que a recebeu do inglês", mesmo antes de haver Acordo Ortográfico. Se tal lhe tivesse acontecido, como a mim, certamente que ele estaria hoje ainda mais incomodado. Mas não foi por isso que Vasco Graça Moura deixou de dar ontem à noite, na TVI 24, no programa "Olhos nos Olhos", de Judite de Sousa e Medina Carreira, uma valente estocada no Acordo Ortográfico, sob a forma de uma magistral lição que devia trazer à realidade todos os que embarcaram nessa perigosa e pouco esclarecida aventura, a começar pelo Governo português. O actual, mas também o anterior.
Sublinhando, uma vez mais, que até o comunicado final da última reunião de ministros da Cultura dos PALOP, que ocorreu há cerca de um mês e meio, foi escrito em termos pré-acordo, sendo por aqueles sugerida a sua revisão, e que neste momento só interesses económicos podem justificar a adopção do Acordo, o presidente do CCB, de uma forma séria, com factos e argumentos incontornáveis, prestou mais um inestimável serviço à língua portuguesa e aos povos que a falam e escrevem. Sem pedantismo, sem politiquice, sem populismo e sem demagogia, com clareza e elevação q.b.. A todos os títulos brilhante e a rever e divulgar logo que a TVI24 coloque aqui a gravação do programa.

segunda-feira, junho 04, 2012

Parabéns a Paulo Pinheiro e ao AIA

Nem mesmo a circunstância de estarmos perante uma prova de um campeonato do mundo  altamente competitivo, o WTCC, do preço dos bilhetes ser muito acessível, do tempo estar óptimo e do programa se completar com duas corridas do Troféu Maserati, com o Nacional de Clássicos, com uma corrida de fórmulas AutoGP e com a Taça de Portugal de Circuitos, serviu para levar público ao Autódromo Internacional do Algarve. É pena, porque a organização e o empenho de Paulo Pinheiro e da sua equipa mereciam outro reconhecimento por parte dos portugueses, em especial dos que residem na região do Algarve. Para a próxima talvez seja de avisar a miudagem que Michel Vaillant saiu dos livros de Jean Graton para correr na pista de Portimão. Quem sabe se isso não surtiria outro efeito.    
A boa disposição foi a nota dominante. Na foto, Pepe Oriola, Gabriele Tarquini e Tiago Monteiro.
Um "Vaillante" vestido a rigor.

 Um dos inconfundíveis Sport Coupé do Trofeo Maserati.

O homem da pole position e vencedor da primeira corrida de domingo do WTCC: Gabriele Tarquini.
A confusão habitual das primeiras voltas, aqui na curva VIP.

Um dos pontos mais espectaculares do circuito de Portimão foi a nossa escolha para a 2ª corrida do WTCC, aqui já com Michel "Alain" Vaillant "Menu" no comando, a caminho da vitória.

Quatro de Junho

A besta voltou a atacar. É preciso não esquecer. E resistir sempre.

quinta-feira, maio 31, 2012

A descambar

O debate parlamentar de ontem com o primeiro-ministro e a audição do ministro Miguel Relvas revelam que a situação está a descambar. A posição de Passos Coelho é incómoda. A do ministro Miguel Relvas não é menos, mas os membros da Comissão e as notícias que saem a toda a hora para os jornais também não ajudam. Os papéis desempenhados, quer pelos deputados da oposição quer pelos da maioria, têm sido deprimentes. Uns mal preparados e com dificuldade em colocarem as questões adequadas, outros procurando tapar o sol com a peneira para safarem o ministro a qualquer preço. As pessoas parece que se estão a esquecer que o que está em causa não é o simples envio ou recepção de e-mails. Essa é uma forma simplista de ver o problema. Em causa está o acesso a informação secreta, a violação da privacidade, o uso indevido de meios legais, a existência de pressões ilegítimas, enfim, um ror de situações pouco claras e que não podem ficar no limbo apenas porque isso dá jeito a alguém, seja ele o primeiro-ministro, o ministro ou a oposição. O ministro colocou-se a jeito e não esteve à altura das responsabilidades pela forma displicente e omissiva como foi respondendo às dúvidas que surgiram ante a catadupa de factos. Fez mal porque só adensou as dúvidas. Continua a haver muita coisa por explicar e por perceber. Para o filme ser completo só falta o primeiro-ministro libertar os ex-espiões do segredo de Estado para que estes se possam defender. Essa talvez seja a melhor solução, já que aquela coisa que dá pelo nome de serviço de informações está de rastos e não virá mal maior ao mundo se deixarem Silva Carvalho e o compincha defenderem-se antes de os crucificarem. Por vezes tenho a sensação de que uns desviam as questões porque não lhes convêm e os outros não querem esclarecer as que importa esclarecer, preferindo ambos andarem às cambalhotas na espuma e enrolados na areia. Em qualquer caso estão a prestar, uma vez mais, um mau serviço à democracia.  

quarta-feira, maio 30, 2012

Uma frase que diz tudo

"Eu não tinha funções públicas, por isso precisava de trabalhar para ganhar a vida" - ministro Miguel Relvas, esta tarde, no Parlamento, depreendendo-se do que hoje disse que sendo de novo ministro e tendo voltado a exercer funções públicas, concluo eu, voltou a deixar de precisar de trabalhar para ganhar a vida. Em duas palavras, sentido de Estado.

Até quando?

Enquanto vai verificando a que velocidade cresce o seu nariz, seria bom que Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal, esclarecesse durante quanto tempo e até quando estará disposto a "torrar" o interesse nacional para proteger quem mentiu, omitiu e disfarçou. É a minha convicção pela análise dos factos, pelas respostas dadas e nebulosas existentes.

Continua a saga

"Miguel Relvas não disse toda a verdade quando foi ouvido no Parlamento. Na audição do passado dia 15 de maio, na primeira comissão, o ministro-adjunto de Pedro Passos Coelho foi assertivo: encontrou-se com Jorge Silva Carvalho, mas "sempre em locais públicos" e apenas assume terem conversado sobre "matérias de actualidade e política externa".
Mas Relvas, enquanto administrador da consultora Finertec, reuniu-se, pelo menos duas vezes, com Silva Carvalho para falarem de negócios. Uma das vezes na própria sede da Ongoing, na companhia de Nuno Vasconcellos, chairman da empresa, e de Braz da Silva, presidente da empresa de Relvas.
Os contactos entre as duas empresas resultaram num "memorando de entendimento" para "prospecção de mercado em várias áreas de negócio". Objectivos: Angola e Brasil.
A assinatura deste acordo, que Silva Carvalho e Relvas negociaram pessoalmente, foi feita no dia 21 de junho de 2011, no mesmo dia em que Relvas tomou posse como ministro. Já não era, há um mês, administrador da Finertec." - Visão

"Quando foi ao Parlamento para falar pela primeira vez sobre o seu envolvimento no caso das secretas, há duas semanas, Miguel Relvas foi taxativo: nenhum dos nomes que constavam de um SMS enviado por Jorge Silva Carvalho com sugestões para chefiar os serviços secretos estava abrangido pelo segredo de Estado.
"Não eram agentes, eram pessoas para responsabilidades, para lugares de topo que não eram agentes, aqui não há segredos de Estado", respondeu então o ministro dos Assuntos Parlamentares a uma pergunta da deputada socialista Isabel Oneto.
Mas de acordo com o que um antigo responsável dos serviços explicou ao Expresso, dois dos nomes que constavam no SMS estavam abrangidos pelo segredo de Estado e a sua identidade não podia ser revelada.
"Principalmente por um antigo diretor dos serviços que está obrigado a respeitar o segredo de Estado", precisa o mesmo responsável. Os nomes em questão eram os de Paula Morais, diretora da escola do SIS, e Filomena Teixeira, diretora do departamento no SIED." - Expresso

terça-feira, maio 29, 2012

Não, o burro não foi ele


Bastou-lhe chegar a Portugal e garantir uns milhões para começar logo a comportar-se como alguns "locais". Na entrevista que esta noite irá passar na RTP, o ex-seleccionador nacional vem, entre outras coisas, justificar a não convocação de Vítor Baía para a selecção nacional com as indicações que lhe foram dadas da primeira vez que se encontrou com Pinto da Costa e Mourinho num jogo Belenenses-Porto. Diz Scolari que nesse dia jogou Nuno Espírito Santo e que Pinto da Costa e Mourinho lhe transmitiram que não deveria convocar Baía. Perante esta afirmação, o que depois acrescentou sobre o poder dos ditos senhores é irrelevante. Bom foi que os portugueses, os que ainda não sabiam, possam ficar a saber, por confissão tardia na primeira pessoa, quais os critérios que ditaram as suas escolhas. Primeiro começou por se deixar manipular, depois mostrou ser um medroso interesseiro que só se preocupou em segurar o lugar e não desagradar aos senhores da bola nacional. As derrotas com a Grécia no Euro de 2004 foram afinal obra de Pinto da Costa e Mourinho. E deselegância deve ter sido uma herança recebida dos labregos que lhe deram a possibilidade de aprender a comer peixe nos restaurantes de Cascais. 

Quem dera que fosse só nas secretas


É claro que Francisco Pinto Balsemão tem toda a razão quando refere a necessidade de ser feita uma "limpeza" nos serviços de informações. Mas o problema é que a "miséria moral" de que ele fala e justifica essa limpeza não existe só nos serviços secretos. Desde há um ror de anos que essa mesma miséria moral, promovida nos anos de ouro do cavaquismo à sombra de personagens tão intrigantes quanto obscuras, que se elevaram aos mais altos cargos da nação, depois continuada no guterrismo e no barrosismo e que atingiu todo o seu esplendor nos últimos governos, faz parte da vida política nacional. Faz parte do código genético de muitas das empresas do regime, da actividade bancária e bolsista das últimas décadas, está neste Governo, nos partidos políticos, no parlamento, na justiça, nas universidades e nas autarquias, nas polícias, no futebol, nos estádios do Euro 2004, nas notícias dos jornais e até nos programas televisivos, aos quais não escapa nesse quadro deprimente e avassalador a amada SIC do dr. Balsemão. A bem dizer, a miséria moral tornou-se numa marca distintiva das grandes obras do regime e são poucas as ilhas de decência que não foram atingidas por ela. Desta vez tocou-lhe a ele como podia ter tocado a qualquer outro. Eu também gostava que essa limpeza se fizesse. Há anos que me bato por ela sem que o dr. Balsemão e outros como ele liguem peva. Mas não sei, aliás duvido, que algum dia essa limpeza se faça, e que sendo feita tenha algum resultado. Como Francisco Pinto Balsemão também sabe, o que não falta neste país são clones e candidatos a clones. Só que o drama, quanto a estes, é que os modelos escolhidos são normalmente o espelho dessa miséria moral. E neste país o que não falta são candidatos a espelho. Para a maior parte, nesse percurso,  tudo serve: comentários anónimos, cartas em cacifos, relatórios de coscuvilhice, oferecimento de serviços vários, sugestões, palmadinhas nas costas, atropelos vários e, se necessário, umas voltas num qualquer green. O desgosto do dr. Balsemão não será diferente do meu. Ou do de qualquer outro cidadão. A única diferença é que ele pode dar-se ao luxo de viver fora do regime. Fora desta miséria moral. Eu não. Também gostaria de poder pensar assim, mas acontece que não posso.  Sou obrigado a conviver com eles: com o regime e com a sua miséria moral. Cada dia que passa tenho mais dificuldade em emigrar e a falta de trabalho só para alguns é que funciona como uma oportunidade. Nem todos podemos aspirar a ser ex-primeiros-ministros. Eu e mais dez milhões de portugueses estamos prisioneiros do regime. São os meus impostos, os nossos, que sustentam esta miséria moral, que nos agrilhoa ao passado e ao presente e torna incerto o nosso futuro. Se o dr. Balsemão quiser dar uma ajuda à minha, nossa, libertação e fazer alguma coisa para se proceder à limpeza, para se acabar com essa miséria moral, é só dizer. E não é preciso que nos seja mostrado um cherne. Hoje em dia basta uma sardinha.         

domingo, maio 27, 2012

Marcelo dixit

Miguel Relvas é o berbicacho número 1 do Governo. As expectativas eram mais elevadas do que a realidade veio a ser. Não só não conseguiu gerir politicamente o que era preciso gerir – a coordenação e o discurso do Governo – como se viu enredado numa série de problemas que são objectivamente negativos para o primeiro-ministro." - Marcelo Rebelo de Sousa, TVI

Em suma, uma nódoa política...

sexta-feira, maio 25, 2012

A ler

 Quadro que acompanha o artigo de Paulo Trigo Pereira e que tem por título "Défice de 2012: a entrar na zona vermelha?", no Público

Editorial de hoje sobre "as eurobonds"

Em cada declaração duas mentiras

Que espera Passos Coelho para pôr o seu apoderado a vender seguros? Um mentia para se safar, o outro fá-lo compulsivamente. Com que então no Gigi, com o gordinho? Em 5 de Agosto de 2011? Deviam ter ido para uma tasca em Massamá, sempre teria dado menos nas vistas.
E ainda havia quem acreditasse que tinha sido só numa festa de aniversário. Sim, sim, num "aniversário de conveniência", entre uma sangria de champagne e um peixinho do mar.
Os portugueses que vão pagando agora a conta dos anos de "aprendizagem" na JSD, da protecção de Ângelo Correia e das intimidades "d' o Relvas".

Por mim estou esclarecido

(foto Mário Cruz, Lusa)

Bastou-me ouvir ontem o ministro Miguel Relvas na conferência de imprensa que improvisou, após ter sido ouvido na ERC, para que eventuais dúvidas sobre a sua actuação e as queixas das jornalistas e da direcção do Público se dissipassem. A forma como Miguel Relvas tentou disfarçar o incómodo e contornar aquilo que efectivamente disse na Assembleia da República não será muito diferente do que diria um troca-tintas que se dedica a construir versões das histórias que confabula de acordo com as situações em que é apanhado. Disse ontem o senhor ministro que a referência ao clipping sobre a viagem de Bush ao México  fora apenas "um exemplo" do tipo de informação que Silva Carvalho lhe fazia chegar. Mas a passagem das imagens televisivas com a gravação daquilo que disse aos deputados é esclarecedora e não corrobora as suas declarações de ontem. Ele não deu um exemplo, ele afirmou taxativamente que o clipping com a notíca de Bush fora o primeiro que se recebera do ex-espião e que do mesmo se lembrava perfeitamente. Aqui não há segundos sentidos. De igual modo, o dizer que telefonou ao Público a pedir desculpa pelo tom que usara, e não pelo conteúdo do que afirmara antes, não cola. O tom, estando ele irado pelas conteúdo das perguntas e "pressão" que sobre ele fizera a jornalista, seria perfeitamente compreensível para a quem o escutava do outro lado da linha, atento o contexto. E se fosse por isso tê-lo logo afirmado para que ao seu destinatário não restassem dúvidas. Ninguém telefona a pedir desculpa só pelo tom, isto é, se não tiver sido malcriado e tiver a razão do seu lado. Pode-se ser contundente sem deixar de cumprir as regras da boa educação. A história, mais uma, que ontem inventou para se justificar à ERC do que fez, é mais um sinal da falta de estatura política do ministro. E, muito em particular, do seu carácter e falta de perfil para desempenhar funções de tanta responsabilidade. O ministro não é confiável. Fez-me lembrar aqueles meninos que quando são apanhados a fazer asneiras na escola ou que se querem impôr aos colegas, à falta de melhor argumento, dizem que se vão queixar ao pai, ou que este é polícia. Depois do que aconteceu com o anterior governo, os portugueses mereciam melhor. Muito melhor.   

quinta-feira, maio 24, 2012

EN 125 vs portagens da Via do Infante

 

Espero que quando o Governo proceder à reanálise da questão das portagens nas SCUT, designadamente na Via do Infante, não se esqueça de levar em conta os números da sinistralidade rodoviária desde que aquelas foram introduzidas. Para além da EN 125 não ser "alternativa" a coisa alguma e de estar cada vez mais engarrafada, os elevados custos materiais e humanos dos acidentes deviam ajudar as pessoas a pensar antes de decidirem. 

quarta-feira, maio 23, 2012

O que mudou?

Com esta notícia e o entendimento a que os partidos chegaram, fica-se sem perceber o que mudou, o que fez CDS e PSD mudarem de posição. O iluminado Catroga diz que se trata de uma mera questão "semântica", talvez para não recorrer a um outro termo que o tornou famoso no período pré-eleitoral. Mas se assim era, por que razão não o disseram logo? Por aqui se vêem as tristes figuras que os jovens Menezes, as esganiçadas Franciscas e os discretos Montenegros andam a fazer pelos canais televisivos de cada vez que saem a terreiro para defender as posições do seu partido. O carreirismo, a irracionalidade na defesa dos disparates e a subserviência são cada vez mais as imagens de marca dos pontas-de-lança deste PSD "jotinha". Fazem-me lembrar um certo PS de má memória.

terça-feira, maio 22, 2012

A ler

"A embrulhada em que Miguel Relvas se enfiou no episódio das secretas e de Silva Carvalho, que entretanto atingiu também uma jornalista deste jornal em termos por esclarecer, mostra mais uma vez uma das debilidades deste governo. Não é, para já, a relação obcecada com a imprensa, embora como se viu na era Sócrates os caminhos tortuosos comecem assim. (...)

Desde o  início que a presença de Relvas no governo gerou controvérisa e surpresa. Marcelo Rebelo de Sousa chamou-lhe um "erro de casting". Outras vozes afirmaram que era uma questão de tempo até as consequências sobrarem para Passos Coelho. (...)

Ninguém pode ficar tranquilo por saber que Relvas recebia mensagens abusivas de Silva Carvalho com listas de nomeas para as secretas, as quais diz ele que apagava de imediato sem apurar por que obscuro motivo estaria na lista dos destinatários (o regime tem esta faceta sinistra, que por sinal pede uma "vassourada"). E ficamos ainda menos tranquilos por saber que um ministro considera aceitável usar a vida pessoal - se é da vida pessoal que estamos a faalr - como restaliação contra uma jornalista. (E se não foi por isso que no dia seguinte apresentou desculpas, por que motivo se desculpou?). As contradições de Relvas nesta saga são patentes. (...)" - Pedro Lomba, Público, 22/05/2012

Um primeiro-ministro sob sequestro político

Durante anos vociferaram contra a ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Basta fazer uma pesquisa na Internet e recuperar meia-dúzia de notícias e declarações para recordar o que eles pensavam sobre essa instituição.

A este propósito, será bom ler o que escreveu no seu blogue um agora adjunto de Miguel Relvas. Em 28/05/2009, João Gonçalves esclarecia-nos que a ERC era "um corpo esquisito criado pelo governo e pelo dr. Santos Silva" e que "esta ERC é a ASAE dos jornalistas, uma coisa asséptica destinada a "purificar" a mensagem e a punir o mensageiro. O presidente da dita, aliás, podia perfeitamente ter servido o Estado Novo. Tiques como aquele de rejeitar um determinado profissional para lhe fazer uma entrevista suponho que nem ao Dutra Faria devia ocorrer. A ERC não tem autoridade moral para fazer recomendações éticas. É uma excrescência política do PS escondida sob a capa  de "entidade reguladora"". Eduardo Cintra Torres, cronista do Público, em 21/08/2007, escrevia, por seu lado, que "a ERC podia perfeitamente chamar-se OMO". O mesmo Cintra Torres, em 04/09/2009, no Público, escrevia que o "PS-Governo de Sócrates não consegue coexistir com a liberdade dos outros" e que "criou uma central de propaganda brutal que coage os jornalistas, intervém nas empresas de comunicação social", "fez da ERC um braço armado contra a liberdade". Manuela Moura Guedes, uma das visadas pelo Governo Sócrates, em comentário a um post do referido João Gonçalves também se queixou da ERC (19/03/2009). No dia seguinte, João Gonçalves publicava no seu blogue um texto de Manuela Moura Guedes em que esta jornalista afirmava, e transcrevo, que "o jornalista tem de ser desconfiado, meter o nariz em tudo, fazer sempre de advogado do diabo, morder as canelas, não ter temor reverencial (tão cultivado neste país), eles estão ali para servir o povo e não para que o povo os sirva a eles ... o jornalista deve descodificar a mensagem política que vende gato por lebre, deve chamar as coisas pelos nomes, sem estar com rodriguinhos que só confundem quem nos vê, deve ter, sim, uma atitude 'contrapoder'". O tal adjunto do ministro Relvas acrescentava, em 08/08/2009, que a "ERC é muito ciosa do respeitinho e do silêncio enquanto bálsamo protector dos cidadãos. Uma protecção equivalente ao nível 63 dos cremes da Ambre Solaire". Já em 30/7/2010, ao transcrever um artigo de Eduardo Cintra Torres, o mesmo João Gonçalves, reafirmava que "a ERC é uma aberração que deve, à semelhança de tantas outras, ser pura e simplesmente removida (como um tumor maligno) da constituição porque, pelos vistos, nem sequer se preocupa excessivamente em a cumprir". Em Junho de 2011, mais exactamente no dia 24, também Paulo Pinto Mascarenhas, num blogue que todos sabem ser alinhado com a maioria e o Governo de Passos Coelho (Cachimbo de Magritte), defendia "a extinção imediata da ERC, que não serve para coisa alguma". Mais tarde, em 14/11/2011, umas das recomendações do Grupo de Trabalho constituído por ordem de Miguel Relvas e que analisou o conceito de serviço público de comunicação social, do qual, entre outros, também Cintra Torres e José Manuel Fernandes faziam parte, foi a de que a ERC devia "ser extinta" e que "as tarefas administrativas e burocráticas igualmente atribuídas à ERC, bem como o seu considerável orçamento de funcionamento, podem e devem ser transferidas para outras entidades do Estado com competências semelhantes".

Pois bem, foi a esta "excrescência", como elegantemente lhe chamaram os seus críticos, entre os quais também pontificava Pinto Balsemão, e que se habituou a fazer favores ao poder, em especial ao eng.º Sócrates e ao PS, que o ministro Miguel Relvas resolveu atribuir a análise do conflito que o opõe ao Público e a uma jornalista que se queixou de ter sido por ele ameaçada se continuasse, porque é disso que se trata, a exercer as suas funções com independência e autonomia em relação ao poder político.

É a essa entidade que o pressuroso, subserviente apparatchik e "envergonhado" (quem não se lembra da forma vergonhosa como se furtou a responder no Parlamento a um jornalista sobre a sua condição de maçon) Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD, entende que deve ser remetida a análise do problema pois que, segundo ele, "é importante não desvalorizar o cumprimento das capacidades e competências da ERC sob pena de estarmos a desvirtuar o sistema". Homessa! Então só agora é que lhes deu para valorizar o trabalho da ERC?

É claro que as pessoas não andam a dormir e já todas perceberam que bastou mudar o Governo e nomear para a dita ERC outros nomes para que este órgão ganhasse logo uma série de virtudes antes desconhecidas.

Creio que os portugueses a seu tempo avaliarão, se é que não o fizeram já, o carácter desta gente que em nada, repito, nada, se distingue, daqueles que mais criticaram no passado, e que muda de posições como quem muda de camisa.

Por isso mesmo, eu que já no tempo de José Sócrates critiquei algumas posições da ERC, e hoje continuo a criticar, gostaria de aqui enfatizar as posições de quem estando do outro lado da "barricada" não se comporta como um vulgar troca-tintas e mantém a lucidez suficiente para ver que aquilo que o ministro Relvas e o PSD estão a fazer para se "limparem" e fugirem à responsabilização política no Parlamento é um nojo. Refiro-me a Pedro Lomba, com um texto notável hoje publicado nesse mesmo Público e que aqui reproduzirei mais tarde, e a Henrique Raposo, no Expresso.

O ministro Miguel Relvas já mostrou várias vezes que não merece crédito, que não merece qualquer confiança política. Mas o primeiro-ministro Passos Coelho não "corre" com ele porque depende do ministro para a sua sobrevivência. Para manter a máquina da propaganda activa e bem oleada.

A situação de Miguel Relvas em relação ao primeiro-ministro e a confiança que por este lhe foi manifestada não é muito diferente da que Cavaco Silva deu a um seu ex-conselheiro de Estado numa altura em que este já estava preso por arames. Em cada dia que passa vê-se com mais clareza que Passos Coelho está refém, e de que maneira, dos amigos que o colocaram em S. Bento. Infelizmente, uma vez mais, o que aí vem não augura nada de bom. Este País fede e não há ninguém com tomates para o limpar.  

sábado, maio 19, 2012

Complicar o que é simples

A nota editorial do Público complica o que é simples.
O que foi relatado não será muito diferente de outras situações ocorridas no passado recente. Porém, sendo verdade, não deixará de ser igualmente grave. E lamentável.
As "embrulhadas" do ministro Relvas são habituais, e não são novas. Fazem parte de uma certa maneira de estar na política e, por via desta, na vida, reflectindo, aliás, um modelo que Pedro Lomba causticamente definia no passado dia 8 de Maio, num artigo de opinião publicado nesse mesmo jornal, como sendo o do "típico politico gerado na democracia mediática da parlapatice e da vigarice, capaz de dizer e fazer qualquer coisa para se manter no poder. Assim como que uma espécie de "um novo-rico da política" que quando obtém algum poder, acrescento, se permite passar a fazer telefonemas com a arrogância de quem julga que o País é o partido e os cidadãos destinatários dos seus telefonemas e "recados" os militantes do rebanho que se habituaram a pastorear para singrarem na política e nos negócios. E, alguns outros, até nos estudos.
O estilo "chiclete" do ministro será o menos relevante numa sórdida história em que só importa apurar dois factos. Em primeiro lugar, saber se o ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, este e não qualquer outro, telefonou, ou não, para Maria José Oliveira. Em segundo, se depois, num outro momento, o ministro telefonou para a direcção do jornal. Ou se foi esta que ligou para o ministro.
São estas, e só a estas, perguntas que o Parlamento deverá procurar obter resposta.
Se o ministro confessar, então aproveite-se para se esclarecer a que horas, de que números foram realizadas as chamadas, para que números, e quanto tempo duraram. Creio que os registos da central telefónica do Público ou os registos das operadoras e dos próprios telemóveis, caso tenham sido estes os instrumentos do "crime", poderão confirmar a existência das chamadas, o seu tempo de duração, os dias e as horas em que aconteceram.
Quanto ao mais, como sempre, teremos a palavra da jornalista e a da direcção do jornal, de um lado, e a palavra do ministro Miguel Relvas, do outro. Cada um procurando confirmar as respectivas versões.
Mas isso já será irrelevante. Se pressões e ameaças não deixam sulco, as palavras do ministro Relvas ainda menos. O que importa é saber se o ministro telefonou. Quanto ao resto das conclusões, cada um que as tire.

O Parlamento não pode continuar a perder tempo e a dar tempo de antena a espertalhaços e similares que transformaram a política num chiqueiro. Muito menos a chafurdar nas histórias que aqueles relatam para se irem limpando. Os portugueses, os normais, os sérios, os decentes, que são a maioria, estão enjoados e enojados.

Uma grande noite...

... com o Pedro Burmester, em Faro, no Teatro das Figuras, que ainda conseguiu tornar inesquecível uma interpretação muito própria do Salon Mexico de Aaron Copland.

sexta-feira, maio 18, 2012

Mistério

Uma instituição designada "ICPT - International Club of Portugal", manda-me regularmente convites para almoços onde invariavelmente estarão ministros do actual Governo. Agora calhou-me "o Álvaro", mas já antes lá esteve a ministra da Justiça. Desconheço a que título sou convidado, tanto mais que moro em Faro e não sou sócio da dita instituição. Os almoços são pagos pelos participantes, pelo que, quanto a esse ponto, só vai quem quer e ninguém paga nada a ninguém, não havendo o problema de me quererem comprar. Mas intriga-me não saber a que título é que os membros do Governo participam na iniciativa. É que, convém não esquecer, segundo se lê no convite, o número de lugares para este evento é "muito limitado". Ora, se assim é, ainda mais me espanta que se lembrem de mim. Que terei feito de tão grave para merecer a honra de ir almoçar com "o Álvaro"? Com a ministra da Justiça ainda posso perceber, atenta a profissão que exerço, mas com "o Álvaro"? Será o ICPT apenas mais um lobby? Se houver alguém que me possa dar algumas luzes agradeço. Não creio conhecer o fundador do ICPT, nem a senhora que simpaticamente me manda os e-mails, mas desconfio que não fui eu quem lhe deu o meu e-mail. Obrigado.

P.S. Não gostaria, daqui a alguns tempos, de ter de fazer a figura de tonto de um certo ministro quando recentemente foi ao Parlamento por causa de uns "clippings" e "sms" que andou a receber sem nunca procurar esclarecer a que título um ex-James Bond lhos enviava. 

quinta-feira, maio 17, 2012

Sempre a descer

O Presidente da República, que deveria ser de todos o menos penalizado num momento de acentuada crise como a que atravessamos, continua a ser o recordista deste triste ranking. Creio que nenhum outro político em Portugal (Fernando Nobre não conta) conseguiu dar cabo tão depressa e de forma tão irremediável do seu capital político, da sua imagem e da confiança que os seus concidadãos podiam depositar no mais alto magistrado da Nação.

terça-feira, maio 15, 2012

O "caso Relvas"



Se não antes, pelo menos a partir de hoje passámos a ter um "caso Relvas". Mais um, dirá Clara Ferreira Alves. A ida do ministro dos Assuntos Parlamentares à Comissão de Assuntos Constitucionais não esclareceu o que devia ter sido esclarecido, mas também não consta que o ministro quisesse efectivamente dizer mais do que disse. A trapalhada salta à vista.
Mesmo admitindo que o ministro não pediu nenhum estudo ou projecto de reestruturação dos serviços de informações, o que até não será difícil de acreditar atendendo ao perfil conhecido de Jorge Silva Carvalho - tipos destes aparecem sempre e em todo o lado -, e que também não deu a conhecer ao primeiro-ministro o que por aquele patusco James Bond lhe foi endereçado, ficou por perceber como é que um tipo tão inteligente como Miguel Relvas não se questionou sobre o conteúdo dos clippings que recebia, nem sobre a sua origem e inclusão no rol dos eleitos para essa "dávida".
Se eu amanhã passasse a receber clippings de um qualquer ex-espião, sem os ter requisitado ou subscrito, certamente que duvidaria da minha inclusão como um dos contemplados. Ao menos tentaria perceber as razões.
Dando de barato que, como foi afirmado na Comissão, o clipping de informação que recebia "era mal feito" - também não custa acreditar - e que o seu conteúdo seria inócuo - embora, como também sublinhou Pacheco Pereira, nada do que é produzido por um serviço de informações seja irrelevante, posto que a própria escolha dos conteúdos já é por si reveladora de opções que deveriam permanecer secretas e para consumo dos serviços - não se compreende que alguém com as responsabilidades de Miguel Relvas aceitasse ir recebendo tais clippings como se em causa estivesse o anúncio das promoções de um supermercado.
Com efeito, se o ministro não queria fazer parte da lista - não percebi se dos e-mails recebidos era possível extrair a identidade dos demais destinatários - deveria, desde logo, ter tomado uma primeira decisão, que era o que eu teria feito: pedir a sua remoção da lista ou bloquear a sua recepção.
Depois, poderia também ter falado com o emissor, questionando-o sobre o próprio envio desse clipping e manifestando a sua opinião sobre a respectiva utilidade e, já agora, o seu desagrado pelas incorrecções ("era mal feito") que, segundo ele, revelava.
Em terceiro lugar, tratando-se de matéria reencaminhada de terceiros, admitindo-se que não desconhecia a origem, isto é, a fonte, e que o conteúdo certamente seria actual, e bem sabendo das funções que já ao tempo Silva Carvalho exercia na Ongoing, o mínimo que eu esperaria de um ministro da sua craveira era que tivesse discretamente alertado os responsáveis, a começar por Júlio Pereira, para que este esclarecesse e investigasse o que se estava a passar e por que motivo um ex-dirigente dos serviços que passara directamente para uma empresa privada lhe veiculava esse tipo de informação.
Não sei se uma situação desse tipo, envolvendo o envio de um eventual projecto que ninguém aparentemente encomendou sobre matéria tão sensível, ou a insinuação de nomes e de propostas tão desonestas como a nomeação de fulano e de beltrano para determinados lugares, em última instância, e não querendo fazer dele um bufo perante tal situação, não teria sido perfeitamente compreensível e aceitável para que o ministro protegesse os serviços de informações e o Estado que agora, como no passado, durante tantos anos, lhe paga o ordenado, antecipando o que se lhe seguiu. Isto é, os incómodos para ele, a chacota para os serviços e o desprestígio para o Estado.
Viu-se que o ministro tentou desvalorizar o incidente, procurando escapar aos salpicos que o atingiram, ao querer misturar frivolidades - um aniversário com centenas de pessoas - com um assunto demasiado grave e que se permitiu - ele inclusivé - que fosse demasiado longe. Mesmo com um aventalinho que o proteja, não me parece que este assunto possa ficar por aqui. E que ao ministro - aceitando, por uma vez, a sua ingenuidade - baste lavar as mãos, enxugá-las no avental, como faria qualquer cozinheiro de tasca, e seguir em frente. É que se o ministro contar com o avental para enxugá-las, então correrá o risco das ditas nunca mais se apresentarem, independentemente de outras consequências, limpas aos olhos dos seus concidadãos.
Aventais da loja do chinês e ainda por cima salpicados por terceiros não oferecem garantias de higiene e protecção.
E, como o ministro seguramente já percebeu, uma coisa é contar com a compreensão e o apoio de Passos Coelho, mandar na JSD, dizer umas larachas a Judite de Sousa, ser entrevistado por Mário Crespo ou impedir a contratação do Futre para a RTP. Outra coisa é governar com a confiança dos seus semelhantes.
O Indiana Jones, que nunca foi ministro em Portugal, não era tipo para fazer as coisas com tamanha displicência. Além de que hoje em dia já nem os heróis confiam na sorte.

O renascer da Europa dos cidadãos

Ao Miguel Portas,
que tanto lutou
pela consolidação de uma Europa
mais justa e solidária para todos os europeus.


"Dal mio punto di vista, sul piano della politica europea, il governo tedesco sta facendo poche cose giuste e molte cose sbagliate. Lo slogan Più Europa è la risposta giusta a una crisi dovuta a un difetto di costruzione della comunità monetaria. La politica non riesce più a compensare gli squilibri economichi che ne sono nati." - Jürgen Habermas, la Repubblica, 12/03/2012, texto que também saiu no último número da Reset

Um dos grandes defeitos da esquerda moderna, admitindo implícita nesta definição que existe uma esquerda que não se rendeu à Terceira Via, ao tacticismo eleitoral e ao conúbio com os mercados que nos trouxeram até à crise que a Europa vive e de que são espelho não só a situação na Grécia, em Portugal, na Irlanda, em Espanha e em Itália, mas igualmente as dificuldades recentes vividas na Bélgica e na Holanda, cujo governo acabou de cair e prepara eleições, e também em França e na Alemanha, sendo que neste dois últimos casos foram os resultados eleitorais de François Hollande e a dolorosa derrota da chanceler Merkel nas eleições regionais do mais populoso dos Estados alemães - Renânia do Norte-Vestefália - que mais marcam, é de por vezes tomar a nuvem por Juno e embandeirar em arco com o primeiro sucesso que traga os cidadãos para a rua. Na rua pode-se marcar a agenda, mas eleições ganham-se nas urnas.

Ora, esta é exactamente a primeira lição que se deve retirar da vitória de Hollande e dos resultados na Renânia do Norte - Vestefália. A forma sobranceira como o directório europeu se comportou na actual crise, o modo como a Alemanha e a França empurraram a Grécia para a catástrofe, dando azo ao fortalecimento de uma extrema-direita neo-nazi e xenófoba, que muitos julgavam banida do solo europeu, e a atitude de Nicolas Sarkozy de estigmatizar o discurso de esquerda, ao mesmo tempo que tentava ridicularizá-lo, esquecendo que a esquerda é ainda hoje para o mal e para o bem o depósito das convicções e da esperança de muito milhões de europeus que vivem a democracia diariamente e não se conformam com as grilhetas dos mercados, ilustra bem que ao subestimar a força das urnas com uma retórica de ocasião, Sarkozy e Merkel se esqueceram dessa verdade elementar, pagando hoje o preço dessa ousadia.

Por outro lado, como bem sublinhou Habermas, não pode haver aprofundamento da integração europeia e da democracia sem um reforço da integração dos cidadãos e da participação cívica dos europeus que modere a tendência dos Estados da linha da frente de decidirem primeiro, a seguir apresentarem a factura e só depois explicarem. A liberdade e uma democracia efectiva não são compatíveis com a ignorância histórica, a incompetência, acefalia e a acrisia de que alguns responsáveis europeus deram mostras.

Bem sei que a falta de estatura política, intelectual e cultural de muitas das lideranças europeias recentes, não só em França ou na Alemanha, como também no Reino Unido e em Itália, sem esquecer Portugal, que pelo menos desde 2005 não tem sequer um primeiro-ministro que possa mostrar o mérito do seu currículo político, académico e profissional na Europa sem corar de vergonha, tem contribuído para cultivar uma espécie de agenda de conveniência, incapaz de ver a médio e o longo prazo, não obstante os esforços da presidência da União Europeia - verdade seja dita, mérito de Durão Barroso - que percebeu mais cedo do que os demais a necessidade de se aproximar a Europa dos cidadãos e de inflectir o caminho.

É hoje evidente para qualquer pessoa sensata que o desvario de alguns países da zona euro só foi possível com a conivência ao longo de anos da Alemanha da senhora Merkel e dos banqueiros alemães, que enquanto retiraram lucros à custa do endividamento do Sul e foram crescendo à sombra do consumismo fácil dos seus parceiros menos previdentes, não deram a atenção devida ao que se estava a passar e até mesmo aos avisos que amiúde foram chegando de algumas agências de rating, as tais, pensando que a tendência em direcção ao abismo se inverteria por simples magia dos mercados financeiros, mais preocupados com as possibilidades de gerarem lucros especulativos rápidos do que em introduzirem alguma racionalidade na suas decisões.

Por via da forma complexada como o Norte sempre olhou para o Sul, incapaz de compreender que a construção da Europa passará sempre pelo conhecimento do outro, a Alemanha cavalgou a onda enquanto pôde, esquecendo que Weimar não é, nem nunca será, um mero capítulo, por sinal bem infeliz, na história da Alemanha e da Europa. A simples perspectiva das eleições gregas terem de ser repetidas, a incapacidade da democracia helénica gerar um governo estável e a cada vez mais que provável saída da Grécia da zona euro, mais do que uma derrota dos próprios gregos, é uma derrota da Alemanha e do espartilho que contra todos os avisos quis impôr aos outros.

A arrogância, falta de sentido europeu e cegueira ideológica do eixo franco-alemão, que chegou a raiar o cretinismo, aliás devidamente coadjuvada por alguns bandarilheiros de segunda e terceira linha, desejosos de mostrarem serviço e que logo se apressaram a aprovar as alterações ao novo Tratado Orçamental, colocou a Europa num impasse do qual só sairá, felizmente, com a ajuda do novo presidente francês e dos europeus.

Não se trata de pura e simplesmente colocar um ponto final na austeridade e voltar ao tempos do alegre gastar, pecha que, olhando-se para a Itália de Berlusconi e Bossi, se revelou não ser monopólio das esquerdas, mas de pensar a Europa como um espaço de cidadania, com regras claras e sensatas, designadamente em matéria orçamental, fiscal e financeira, que permita aos europeus, a todos e não apenas a alguns, viverem de uma forma decente, equilibrada e solidária, única via para o restabelecimento da paz social e da coesão entre os povos europeus.

Esse caminho está mais próximo. Se a vitória de Hollande e a derrota da CDU na Renânia do Norte-Vestefália são sinais de esperança, a recente tomada de posição do SPD quanto às condições para que o Tratado Orçamental possa ser aprovado em Berlim, já são mais do que uma garantia. São a certeza de que os europeus entendem chegado o momento de assegurar condições de participação democrática que mantenham vivo o sonho europeu num quadro de estabilidade política, coesão social e crescimento, que afaste o espectro de um desemprego global e o aumento do fosso entre os ricos e os pobres e remediados.                 

P.S. Como se vê pelos acontecimentos que se seguiram, a ridícula figura feita por Passos Coelho e pelos seus acólitos que no Parlamento português aprovaram apressadamente e sem pensar o Tratado Orçamental, ignorando uma salvaguarda pequena que fosse nessa posição, deverá ser vista como mais um murro no estômago, mas também como uma cacetada na ignorância e na sobranceria de que o Governo continua a dar mostras e que em nada contribuiu para o reforço da nossa posição na Europa.

quinta-feira, maio 10, 2012

Falta de nível

Com a mais importante competição do futebol nacional entregue a "cromos", é claro que ninguém estranha que antes mesmo do final da prova já tenha sido entregue o prémio. Seria o mesmo que num campeonato mundial de vela ou nuns jogos olímpicos se dessem as medalhas aos atletas antes do final das competições só porque quem ia à frente já não teria hipótese de perder. Para além da falta de respeito pelas equipas que ainda têm de competir para alcançarem os seus objectivos, a atitude denota falta de nível, mau gosto. Enfim, talvez ambas as coisas.

Continuam uns pândegos

Então mas essa é pergunta que se faça? Será que estas alminhas do PCP andam a dormir? É evidente que mantém, não tem alternativa, sob pena do ministro demitir Passos Coelho e termos uma crise antecipada.

Títulos (7)

"Superespião ganha € 40.000,00 por mês" - Correio da Manhã

"Silva Carvalho enviou a Miguel Relvas plano de reforma das secretas" - Público

"Fuga de informações obriga a demissão do director adjunto das secretas" - Diário de Notícias

"Silva Carvalho mandava a Miguel Relvas clippings das secretas" - Jornal i

"Escândalo das secretas afasta mais dois espiões" - Jornal de Notícias

Esta gente precisava de uma boa esfrega

"Algum tempo depois das eleições legislativas de 2011, Jorge Silva Carvalho, então quadro da Ongoing, enviou, por correio electrónico, ao ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, um relatório detalhado com um plano para reformar os serviços de informação, propondo para directores do SIS (Serviço de Informações de Segurança) e do SIED (Serviço de Informações Estratégicas de Defesa) funcionários da sua confiança e apontando ainda os nomes daqueles que não deveriam assumir cargos dirigentes" - Público, 10/05/2012 

O desempenho de cargos públicos e partidários ao longo dos anos ajudaram a tornar mais acessível os meus contactos de email e telemóvel, pelo que recebo permanentemente imensos emails e sms’s de pessoas e entidades sobre os mais variados temas, e sobre este caso em particular não tenho ideia de ter recebido qualquer informação particular, e disso não resultou qualquer interacção da minha parte.” - Miguel Relvas, Jornal i, 10/05/2012

À medida que se vão revelando as listas de distribuição que apareciam na ponta dos tentáculos dos "polvos" das secretas, vai-se conhecendo um pouco melhor esta gente que contribuiu para que Portugal mergulhasse num poço sem fundo. O cheiro pestilento que se vai elevando das sarjetas, em resultado das investigações que têm sido conduzidas, mostra que os ovos podres entraram nas máquinas partidárias e maçónicas e acabaram por se partir lá dentro. O resultado disso é a ponta do icebergue cujos contornos surgem agora. Curiosa foi a expressão usada pelo ministro Miguel Relvas de que não houve qualquer "interacção da minha [sua] parte". Seria bom que o ministro, porque de um ministro com responsabilidades se trata,  esclarecesse o que pretendeu dizer com tal expressão e que tipo de "interacção" é que, normalmente, o recebimento de informação sensível (secreta) por e-mail ou sms desencadeia da sua parte.
Dizer que não se recorda, logo ele que com a sua incontornável pesporrência está sempre a dizer que os portugueses têm memória - naturalmente referindo-se a si próprio - quando se trata de fazer ataques políticos aos adversários, soa a falso, soa a muito falso. Nada de estranhar, é certo, de quem tem o seu percurso político, profissional e académico, pois basta ver as reportagens, algumas bem recentes, ler as suas entrevistas e as declarações que foi fazendo, para se ver que essa falta de memória não cola com o figurante.
Aliás, como resulta óbvio das declarações que surgem hoje na imprensa, volta a ganhar força o dito popular de que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo. Declarar que não se tem "ideia de ter recebido qualquer informação particular sobre o caso", ao mesmo tempo que se tem a certeza de que "disso" - "disso" o quê?; do que não se recorda? - não resultou "qualquer interacção", é uma espécie de gato escondido com o rabo de fora. Mais um dos vários com que a política nacional nos tem brindado nos últimos anos, entre robalos, sucatas, universidades, reformas, acções e jaguares.
Neste triste caso das secretas, o gato é enorme, contribuiu para a queda de um Governo e a ascensão de outro e está metido no aparelho de Estado até ao tutano. A sua cauda é tão grande e tão forte que penetrou e impregnou o tecido social e partidário com toda a viscosidade que lhe ficou agarrada ao pêlo pelos buracos por onde andou.
Agora, o gato que entrou pelo buraco e deixou a cauda de fora já engordou de tal forma que não é possível fazê-lo sair do Estado e dos partidos políticos sem que primeiro se destrua tudo o que está à sua volta e depois se enfie o animal numa tina com água quente e sabão azul.
Bem que eu gostaria que os portugueses, os que não se deixaram levar pela música da Mozart e os milhões fáceis obtidos nas tetas das empresas que dependem do Estado e das autarquias para prosperar, tivessem ainda coragem e força para fazê-lo. E, em especial, para esfregar a gataria que tomou conta deste país, até deixá-la limpa. Se possível sem pêlo. Com um aspecto rosadinho. Como as bochechas do ministro Relvas quando é entrevistado por Judite de Sousa. Seria a única forma de avivarmos  a memória a outros gatos que por aí andam, no Estado, nas autarquias e nos partidos, à procura de gatas com o cio onde se possam meter. E, já agora, evitar-lhes o "desconforto" de futuras interacções que os ponham a voar e a engordar e nos lixem a todos.

quarta-feira, maio 09, 2012

Lido

"Como Sócrates por cá, Sarkozy representa o típico politico gerado na democracia mediática da parlapatice e da vigarice, capaz de dizer e fazer qualquer coisa para se manter no poder. Um novo-rico da política, comodamente encostado a outros novos-ricos." - Pedro Lomba, Público, 08/05/2012.

Só faltou dizer que esse retrato também abrange muitos outros, como os que hoje nos governam em S. Bento e na Gomes Teixeira. 

"Foi a vontade da Santa Sé"

O Estado laico e republicano aproxima-se perigosamente de uma ficção. Estamos no ponto em que a Santa Sé manda, Álvaro Santos Pereira descarta-se e o primeiro-ministro Passos Coelho irá assinar. Enquanto isso, o Presidente Cavaco Silva assiste. A República atingiu o grau zero da responsabilidade política.  

segunda-feira, maio 07, 2012

O dinheiro compra tudo?

Eu já tinha chamado a atenção, no próprio dia 1 de Maio, para o inqualificável comportamento da cadeia de supermercados Pingo Doce, porque me pareceu, e continua a parecer,  que a "chico-espertice" não pode continuar a reproduzir-se impunemente neste país. Não é o facto de haver alguns consumidores em situação de carência ou egoístas e dispostos a tudo que altera os dados da questão. Há valores que estão acima das estratégias empresariais, comerciais e políticas e sem os quais nenhuma comunidade poderá funcionar saudavelmente. Admito que haja quem não o compreenda, mas isso não serve de justificação para que se admita tudo.
É claro que aquilo que o Pingo Doce fez não é sequer parecido com os saldos que se fazem em Nova Iorque ou em Londres, porque o sentido destes, a data escolhida e a legislação também é outra e não consta que quem ali os faz viole a lei.
Não querer perceber isto é não perceber a essência do problema e não é preciso ser de esquerda para ver as diferenças. Pacheco Pereira chamou prontamente a atenção para o que se tinha passado e, com excepção de um Presidente da República que antes não lia jornais e agora não vê telejornais e só se pronuncia sobre assuntos de mercearia que lhe digam directamente respeito, foi bom verificar que a democrata-cristã Assunção Cristas, ministra do actual Governo, e o insuspeito Marcelo Rebelo de Sousa também não fizeram como alguns arautos do capitalismo selvagem das sociedades liberais mais arcaicas para aplaudirem a manhosa iniciativa desse grupo empresarial.
Ao contrário do inefável Álvaro Santos Pereira, seu colega de Governo, cuja miopia o impede de ver o óbvio ululante, a ministra, como pessoa bem formada, de bom senso e inteligente, veio considerar "que estas práticas não são admissíveis" e que o quadro actual "é desiquilibrado e chocante, e o Direito deve intervir para equilibrar as relações". E sobre este mesmo assunto, o prof. Marcelo disse ontem para quem o quis ouvir que o que o Pingo Doce fez foi "uma habilidade no quadro da concorrência vigente", perguntado ademais se "queremos um capitalismo selvagem ou um capitalismo com regras"; que "não se pode vender produtos abaixo do custo efectivo", "(...) porque isso é que é grave, é capitalismo selvagem".
Ainda no sábado, no Expresso, Miguel Sousa Tavares qualificava a atitude da Jerónimo Martins como "um gesto de pura arrogância empresarial, uma operação reveladora de profundo desprezo e desrespeito pelos seus clientes, disfarçada de caridadezinha comercial".
Mas para quem ainda tivesse dúvidas sobre a gravidade, numa perspectiva social, jurídica, ética e política, do comportamento da administração dos Supermercados Pingo Doce, as notícias que esta tarde foram divulgadas eliminam-nas: "Além do pagamento a 500%, os trabalhadores do Pingo Doce que estiveram ao serviço, ou em gozo de folga, no passado dia 1, podem, até final da semana, fazer as suas compras nas lojas do grupo beneficiando de um desconto de 50%, em tudo idêntico ao que os clientes usufruíram no feriado. Apenas os que fizeram greve - convocada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Comércio (CESP), afeto à CGTP -, como forma de protesto contra a abertura das lojas no Dia do Trabalhador - , estão excluídos dessa iniciativa.
A confirmação de que isto também é verdade, acentua o dolo da iniciativa do Pingo Doce, da sua direcção comercial, da sua administração e, mais ainda, a irresponsabilidade do presidente do grupo Jerónimo Martins. O mesmo que acusava José Sócrates de "truques" devia saber que a ignorância da lei não aproveita a ninguém e ele não pode desconhecer alegremente o que os seus subordinados fazem, do mesmo modo que um primeiro-ministro ou um Presidente da República não podem afirmar desconhecimento sobre aquilo que é feito às claras e nos entra pela casa dentro só porque esse desconhecimento lhes é conveniente.
Recorrendo a um expediente grosseiro, a uma esperteza saloia, partindo do princípio de que os outros são parvos e que os consumidores beneficiados o absolverão, o  grupo Pingo Doce não se limitou a discriminar e lançou um dos mais violentos ataques ao Estado de Direito, ao exercício de direitos sociais e laborais, à liberdade de escolha, à leal concorrência e à regulação do mercado. Fazendo-o, o grupo Pingo Doce colocou em causa os mais elementares princípios de justiça, as bases do equilíbrio social e as regras de sã convivência de uma sociedade livre e democrática.
Os senhores do Pingo Doce podem pensar que o seu dinheiro compra tudo e é suficiente para pagar as ridículas multas por violação da lei, e que é preferível o salve-se quem puder à decência e ao bom senso. Pensar assim é um direito que lhes assiste. Mas antes que seja tarde e que isto entre tudo em auto-gestão, numa espiral incontrolável, seria bom, posto que o ministro da Economia já mostrou não ter autoridade para fazê-lo, que alguém lhes dissesse que há valores numa sociedade que o dinheiro não pode comprar, nem o marketing justificar. E se tiver que ser à bruta, pois então que seja, de acordo com os mecanismos legais, pois quer-me parecer ser essa a única linguagem que entendem.

sexta-feira, maio 04, 2012

A ler

O Fernando, entre os muitos que teve, não poderia ter melhor. Só a sua ausência não passará discreta.

Parece que não fui o único

Há muita gente que está a sofrer e com muita dificuldade e, não se podendo evitar o sofrimento e a austeridade, há, no entanto, que ter extremo cuidado no tratamento das pessoas, em particular com a sua dignidade”. Para Pacheco Pereira houve, nesta acção, humilhação de algumas pessoas. “Posso atirar um saco de moedas ao ar e as pessoas atiram-se para apanhar. Foi um bocado o que aconteceu. Quem foi lá apanhar as moedas ficou contente, mas sabe que se teve de se pôr no chão. E aí há uma certa humilhação” - Aqui, no Jornal de Negócios.

Volto a dizer o mesmo: se o Pingo Doce queria fazê-lo e se o objectivo era ajudar as pessoas então que o fizesse noutro dia. No dia do seu aniversário, por exemplo, num qualquer sábado ou domingo, em que o impacto seria o mesmo, ou durante um prazo mais longo, anunciando com antecedência a iniciativa. E assim dando também uma oportunidade aos idosos reformados que têm dificuldade em deslocar-se ou que só podem fazê-lo acompanhados, e que não têm qualquer hipótese de lutar no meio da malta pelos pacotes de leite, as garrafas de azeite ou as de whisky (bem essencial para os especialistas de gestão dessa cadeia de supermercados mas em relação ao qual o ministro Gaspar não foi suficientemente sensível para aplicar a taxa reduzida do IVA).   

Títulos (6)

"Jardim empresta 25% das verbas do resgate a sociedades falidas - Cinco sociedades públicas vão receber 259 milhões para necessidades de tesouraria. Empresas foram consideradas 'tecnicamente falidas' pelo Tribunal de Contas e a Inspecção de Finanças defende extinção" - Público, 04/05/2012 

quarta-feira, maio 02, 2012

Vidas que interessam

Um belíssimo, e pungente pela ternura, texto do Miguel Esteves Cardoso no Público desta manhã (clique na imagem se quiser ler). Um abraço para ele, que há muitos anos não vejo, e as melhoras da Maria João, que por via  dos seus textos se me tornou familiar.