terça-feira, maio 15, 2012

O renascer da Europa dos cidadãos

Ao Miguel Portas,
que tanto lutou
pela consolidação de uma Europa
mais justa e solidária para todos os europeus.


"Dal mio punto di vista, sul piano della politica europea, il governo tedesco sta facendo poche cose giuste e molte cose sbagliate. Lo slogan Più Europa è la risposta giusta a una crisi dovuta a un difetto di costruzione della comunità monetaria. La politica non riesce più a compensare gli squilibri economichi che ne sono nati." - Jürgen Habermas, la Repubblica, 12/03/2012, texto que também saiu no último número da Reset

Um dos grandes defeitos da esquerda moderna, admitindo implícita nesta definição que existe uma esquerda que não se rendeu à Terceira Via, ao tacticismo eleitoral e ao conúbio com os mercados que nos trouxeram até à crise que a Europa vive e de que são espelho não só a situação na Grécia, em Portugal, na Irlanda, em Espanha e em Itália, mas igualmente as dificuldades recentes vividas na Bélgica e na Holanda, cujo governo acabou de cair e prepara eleições, e também em França e na Alemanha, sendo que neste dois últimos casos foram os resultados eleitorais de François Hollande e a dolorosa derrota da chanceler Merkel nas eleições regionais do mais populoso dos Estados alemães - Renânia do Norte-Vestefália - que mais marcam, é de por vezes tomar a nuvem por Juno e embandeirar em arco com o primeiro sucesso que traga os cidadãos para a rua. Na rua pode-se marcar a agenda, mas eleições ganham-se nas urnas.

Ora, esta é exactamente a primeira lição que se deve retirar da vitória de Hollande e dos resultados na Renânia do Norte - Vestefália. A forma sobranceira como o directório europeu se comportou na actual crise, o modo como a Alemanha e a França empurraram a Grécia para a catástrofe, dando azo ao fortalecimento de uma extrema-direita neo-nazi e xenófoba, que muitos julgavam banida do solo europeu, e a atitude de Nicolas Sarkozy de estigmatizar o discurso de esquerda, ao mesmo tempo que tentava ridicularizá-lo, esquecendo que a esquerda é ainda hoje para o mal e para o bem o depósito das convicções e da esperança de muito milhões de europeus que vivem a democracia diariamente e não se conformam com as grilhetas dos mercados, ilustra bem que ao subestimar a força das urnas com uma retórica de ocasião, Sarkozy e Merkel se esqueceram dessa verdade elementar, pagando hoje o preço dessa ousadia.

Por outro lado, como bem sublinhou Habermas, não pode haver aprofundamento da integração europeia e da democracia sem um reforço da integração dos cidadãos e da participação cívica dos europeus que modere a tendência dos Estados da linha da frente de decidirem primeiro, a seguir apresentarem a factura e só depois explicarem. A liberdade e uma democracia efectiva não são compatíveis com a ignorância histórica, a incompetência, acefalia e a acrisia de que alguns responsáveis europeus deram mostras.

Bem sei que a falta de estatura política, intelectual e cultural de muitas das lideranças europeias recentes, não só em França ou na Alemanha, como também no Reino Unido e em Itália, sem esquecer Portugal, que pelo menos desde 2005 não tem sequer um primeiro-ministro que possa mostrar o mérito do seu currículo político, académico e profissional na Europa sem corar de vergonha, tem contribuído para cultivar uma espécie de agenda de conveniência, incapaz de ver a médio e o longo prazo, não obstante os esforços da presidência da União Europeia - verdade seja dita, mérito de Durão Barroso - que percebeu mais cedo do que os demais a necessidade de se aproximar a Europa dos cidadãos e de inflectir o caminho.

É hoje evidente para qualquer pessoa sensata que o desvario de alguns países da zona euro só foi possível com a conivência ao longo de anos da Alemanha da senhora Merkel e dos banqueiros alemães, que enquanto retiraram lucros à custa do endividamento do Sul e foram crescendo à sombra do consumismo fácil dos seus parceiros menos previdentes, não deram a atenção devida ao que se estava a passar e até mesmo aos avisos que amiúde foram chegando de algumas agências de rating, as tais, pensando que a tendência em direcção ao abismo se inverteria por simples magia dos mercados financeiros, mais preocupados com as possibilidades de gerarem lucros especulativos rápidos do que em introduzirem alguma racionalidade na suas decisões.

Por via da forma complexada como o Norte sempre olhou para o Sul, incapaz de compreender que a construção da Europa passará sempre pelo conhecimento do outro, a Alemanha cavalgou a onda enquanto pôde, esquecendo que Weimar não é, nem nunca será, um mero capítulo, por sinal bem infeliz, na história da Alemanha e da Europa. A simples perspectiva das eleições gregas terem de ser repetidas, a incapacidade da democracia helénica gerar um governo estável e a cada vez mais que provável saída da Grécia da zona euro, mais do que uma derrota dos próprios gregos, é uma derrota da Alemanha e do espartilho que contra todos os avisos quis impôr aos outros.

A arrogância, falta de sentido europeu e cegueira ideológica do eixo franco-alemão, que chegou a raiar o cretinismo, aliás devidamente coadjuvada por alguns bandarilheiros de segunda e terceira linha, desejosos de mostrarem serviço e que logo se apressaram a aprovar as alterações ao novo Tratado Orçamental, colocou a Europa num impasse do qual só sairá, felizmente, com a ajuda do novo presidente francês e dos europeus.

Não se trata de pura e simplesmente colocar um ponto final na austeridade e voltar ao tempos do alegre gastar, pecha que, olhando-se para a Itália de Berlusconi e Bossi, se revelou não ser monopólio das esquerdas, mas de pensar a Europa como um espaço de cidadania, com regras claras e sensatas, designadamente em matéria orçamental, fiscal e financeira, que permita aos europeus, a todos e não apenas a alguns, viverem de uma forma decente, equilibrada e solidária, única via para o restabelecimento da paz social e da coesão entre os povos europeus.

Esse caminho está mais próximo. Se a vitória de Hollande e a derrota da CDU na Renânia do Norte-Vestefália são sinais de esperança, a recente tomada de posição do SPD quanto às condições para que o Tratado Orçamental possa ser aprovado em Berlim, já são mais do que uma garantia. São a certeza de que os europeus entendem chegado o momento de assegurar condições de participação democrática que mantenham vivo o sonho europeu num quadro de estabilidade política, coesão social e crescimento, que afaste o espectro de um desemprego global e o aumento do fosso entre os ricos e os pobres e remediados.                 

P.S. Como se vê pelos acontecimentos que se seguiram, a ridícula figura feita por Passos Coelho e pelos seus acólitos que no Parlamento português aprovaram apressadamente e sem pensar o Tratado Orçamental, ignorando uma salvaguarda pequena que fosse nessa posição, deverá ser vista como mais um murro no estômago, mas também como uma cacetada na ignorância e na sobranceria de que o Governo continua a dar mostras e que em nada contribuiu para o reforço da nossa posição na Europa.

quinta-feira, maio 10, 2012

Falta de nível

Com a mais importante competição do futebol nacional entregue a "cromos", é claro que ninguém estranha que antes mesmo do final da prova já tenha sido entregue o prémio. Seria o mesmo que num campeonato mundial de vela ou nuns jogos olímpicos se dessem as medalhas aos atletas antes do final das competições só porque quem ia à frente já não teria hipótese de perder. Para além da falta de respeito pelas equipas que ainda têm de competir para alcançarem os seus objectivos, a atitude denota falta de nível, mau gosto. Enfim, talvez ambas as coisas.

Continuam uns pândegos

Então mas essa é pergunta que se faça? Será que estas alminhas do PCP andam a dormir? É evidente que mantém, não tem alternativa, sob pena do ministro demitir Passos Coelho e termos uma crise antecipada.

Títulos (7)

"Superespião ganha € 40.000,00 por mês" - Correio da Manhã

"Silva Carvalho enviou a Miguel Relvas plano de reforma das secretas" - Público

"Fuga de informações obriga a demissão do director adjunto das secretas" - Diário de Notícias

"Silva Carvalho mandava a Miguel Relvas clippings das secretas" - Jornal i

"Escândalo das secretas afasta mais dois espiões" - Jornal de Notícias

Esta gente precisava de uma boa esfrega

"Algum tempo depois das eleições legislativas de 2011, Jorge Silva Carvalho, então quadro da Ongoing, enviou, por correio electrónico, ao ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, um relatório detalhado com um plano para reformar os serviços de informação, propondo para directores do SIS (Serviço de Informações de Segurança) e do SIED (Serviço de Informações Estratégicas de Defesa) funcionários da sua confiança e apontando ainda os nomes daqueles que não deveriam assumir cargos dirigentes" - Público, 10/05/2012 

O desempenho de cargos públicos e partidários ao longo dos anos ajudaram a tornar mais acessível os meus contactos de email e telemóvel, pelo que recebo permanentemente imensos emails e sms’s de pessoas e entidades sobre os mais variados temas, e sobre este caso em particular não tenho ideia de ter recebido qualquer informação particular, e disso não resultou qualquer interacção da minha parte.” - Miguel Relvas, Jornal i, 10/05/2012

À medida que se vão revelando as listas de distribuição que apareciam na ponta dos tentáculos dos "polvos" das secretas, vai-se conhecendo um pouco melhor esta gente que contribuiu para que Portugal mergulhasse num poço sem fundo. O cheiro pestilento que se vai elevando das sarjetas, em resultado das investigações que têm sido conduzidas, mostra que os ovos podres entraram nas máquinas partidárias e maçónicas e acabaram por se partir lá dentro. O resultado disso é a ponta do icebergue cujos contornos surgem agora. Curiosa foi a expressão usada pelo ministro Miguel Relvas de que não houve qualquer "interacção da minha [sua] parte". Seria bom que o ministro, porque de um ministro com responsabilidades se trata,  esclarecesse o que pretendeu dizer com tal expressão e que tipo de "interacção" é que, normalmente, o recebimento de informação sensível (secreta) por e-mail ou sms desencadeia da sua parte.
Dizer que não se recorda, logo ele que com a sua incontornável pesporrência está sempre a dizer que os portugueses têm memória - naturalmente referindo-se a si próprio - quando se trata de fazer ataques políticos aos adversários, soa a falso, soa a muito falso. Nada de estranhar, é certo, de quem tem o seu percurso político, profissional e académico, pois basta ver as reportagens, algumas bem recentes, ler as suas entrevistas e as declarações que foi fazendo, para se ver que essa falta de memória não cola com o figurante.
Aliás, como resulta óbvio das declarações que surgem hoje na imprensa, volta a ganhar força o dito popular de que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo. Declarar que não se tem "ideia de ter recebido qualquer informação particular sobre o caso", ao mesmo tempo que se tem a certeza de que "disso" - "disso" o quê?; do que não se recorda? - não resultou "qualquer interacção", é uma espécie de gato escondido com o rabo de fora. Mais um dos vários com que a política nacional nos tem brindado nos últimos anos, entre robalos, sucatas, universidades, reformas, acções e jaguares.
Neste triste caso das secretas, o gato é enorme, contribuiu para a queda de um Governo e a ascensão de outro e está metido no aparelho de Estado até ao tutano. A sua cauda é tão grande e tão forte que penetrou e impregnou o tecido social e partidário com toda a viscosidade que lhe ficou agarrada ao pêlo pelos buracos por onde andou.
Agora, o gato que entrou pelo buraco e deixou a cauda de fora já engordou de tal forma que não é possível fazê-lo sair do Estado e dos partidos políticos sem que primeiro se destrua tudo o que está à sua volta e depois se enfie o animal numa tina com água quente e sabão azul.
Bem que eu gostaria que os portugueses, os que não se deixaram levar pela música da Mozart e os milhões fáceis obtidos nas tetas das empresas que dependem do Estado e das autarquias para prosperar, tivessem ainda coragem e força para fazê-lo. E, em especial, para esfregar a gataria que tomou conta deste país, até deixá-la limpa. Se possível sem pêlo. Com um aspecto rosadinho. Como as bochechas do ministro Relvas quando é entrevistado por Judite de Sousa. Seria a única forma de avivarmos  a memória a outros gatos que por aí andam, no Estado, nas autarquias e nos partidos, à procura de gatas com o cio onde se possam meter. E, já agora, evitar-lhes o "desconforto" de futuras interacções que os ponham a voar e a engordar e nos lixem a todos.

quarta-feira, maio 09, 2012

Lido

"Como Sócrates por cá, Sarkozy representa o típico politico gerado na democracia mediática da parlapatice e da vigarice, capaz de dizer e fazer qualquer coisa para se manter no poder. Um novo-rico da política, comodamente encostado a outros novos-ricos." - Pedro Lomba, Público, 08/05/2012.

Só faltou dizer que esse retrato também abrange muitos outros, como os que hoje nos governam em S. Bento e na Gomes Teixeira. 

"Foi a vontade da Santa Sé"

O Estado laico e republicano aproxima-se perigosamente de uma ficção. Estamos no ponto em que a Santa Sé manda, Álvaro Santos Pereira descarta-se e o primeiro-ministro Passos Coelho irá assinar. Enquanto isso, o Presidente Cavaco Silva assiste. A República atingiu o grau zero da responsabilidade política.  

segunda-feira, maio 07, 2012

O dinheiro compra tudo?

Eu já tinha chamado a atenção, no próprio dia 1 de Maio, para o inqualificável comportamento da cadeia de supermercados Pingo Doce, porque me pareceu, e continua a parecer,  que a "chico-espertice" não pode continuar a reproduzir-se impunemente neste país. Não é o facto de haver alguns consumidores em situação de carência ou egoístas e dispostos a tudo que altera os dados da questão. Há valores que estão acima das estratégias empresariais, comerciais e políticas e sem os quais nenhuma comunidade poderá funcionar saudavelmente. Admito que haja quem não o compreenda, mas isso não serve de justificação para que se admita tudo.
É claro que aquilo que o Pingo Doce fez não é sequer parecido com os saldos que se fazem em Nova Iorque ou em Londres, porque o sentido destes, a data escolhida e a legislação também é outra e não consta que quem ali os faz viole a lei.
Não querer perceber isto é não perceber a essência do problema e não é preciso ser de esquerda para ver as diferenças. Pacheco Pereira chamou prontamente a atenção para o que se tinha passado e, com excepção de um Presidente da República que antes não lia jornais e agora não vê telejornais e só se pronuncia sobre assuntos de mercearia que lhe digam directamente respeito, foi bom verificar que a democrata-cristã Assunção Cristas, ministra do actual Governo, e o insuspeito Marcelo Rebelo de Sousa também não fizeram como alguns arautos do capitalismo selvagem das sociedades liberais mais arcaicas para aplaudirem a manhosa iniciativa desse grupo empresarial.
Ao contrário do inefável Álvaro Santos Pereira, seu colega de Governo, cuja miopia o impede de ver o óbvio ululante, a ministra, como pessoa bem formada, de bom senso e inteligente, veio considerar "que estas práticas não são admissíveis" e que o quadro actual "é desiquilibrado e chocante, e o Direito deve intervir para equilibrar as relações". E sobre este mesmo assunto, o prof. Marcelo disse ontem para quem o quis ouvir que o que o Pingo Doce fez foi "uma habilidade no quadro da concorrência vigente", perguntado ademais se "queremos um capitalismo selvagem ou um capitalismo com regras"; que "não se pode vender produtos abaixo do custo efectivo", "(...) porque isso é que é grave, é capitalismo selvagem".
Ainda no sábado, no Expresso, Miguel Sousa Tavares qualificava a atitude da Jerónimo Martins como "um gesto de pura arrogância empresarial, uma operação reveladora de profundo desprezo e desrespeito pelos seus clientes, disfarçada de caridadezinha comercial".
Mas para quem ainda tivesse dúvidas sobre a gravidade, numa perspectiva social, jurídica, ética e política, do comportamento da administração dos Supermercados Pingo Doce, as notícias que esta tarde foram divulgadas eliminam-nas: "Além do pagamento a 500%, os trabalhadores do Pingo Doce que estiveram ao serviço, ou em gozo de folga, no passado dia 1, podem, até final da semana, fazer as suas compras nas lojas do grupo beneficiando de um desconto de 50%, em tudo idêntico ao que os clientes usufruíram no feriado. Apenas os que fizeram greve - convocada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Comércio (CESP), afeto à CGTP -, como forma de protesto contra a abertura das lojas no Dia do Trabalhador - , estão excluídos dessa iniciativa.
A confirmação de que isto também é verdade, acentua o dolo da iniciativa do Pingo Doce, da sua direcção comercial, da sua administração e, mais ainda, a irresponsabilidade do presidente do grupo Jerónimo Martins. O mesmo que acusava José Sócrates de "truques" devia saber que a ignorância da lei não aproveita a ninguém e ele não pode desconhecer alegremente o que os seus subordinados fazem, do mesmo modo que um primeiro-ministro ou um Presidente da República não podem afirmar desconhecimento sobre aquilo que é feito às claras e nos entra pela casa dentro só porque esse desconhecimento lhes é conveniente.
Recorrendo a um expediente grosseiro, a uma esperteza saloia, partindo do princípio de que os outros são parvos e que os consumidores beneficiados o absolverão, o  grupo Pingo Doce não se limitou a discriminar e lançou um dos mais violentos ataques ao Estado de Direito, ao exercício de direitos sociais e laborais, à liberdade de escolha, à leal concorrência e à regulação do mercado. Fazendo-o, o grupo Pingo Doce colocou em causa os mais elementares princípios de justiça, as bases do equilíbrio social e as regras de sã convivência de uma sociedade livre e democrática.
Os senhores do Pingo Doce podem pensar que o seu dinheiro compra tudo e é suficiente para pagar as ridículas multas por violação da lei, e que é preferível o salve-se quem puder à decência e ao bom senso. Pensar assim é um direito que lhes assiste. Mas antes que seja tarde e que isto entre tudo em auto-gestão, numa espiral incontrolável, seria bom, posto que o ministro da Economia já mostrou não ter autoridade para fazê-lo, que alguém lhes dissesse que há valores numa sociedade que o dinheiro não pode comprar, nem o marketing justificar. E se tiver que ser à bruta, pois então que seja, de acordo com os mecanismos legais, pois quer-me parecer ser essa a única linguagem que entendem.

sexta-feira, maio 04, 2012

A ler

O Fernando, entre os muitos que teve, não poderia ter melhor. Só a sua ausência não passará discreta.

Parece que não fui o único

Há muita gente que está a sofrer e com muita dificuldade e, não se podendo evitar o sofrimento e a austeridade, há, no entanto, que ter extremo cuidado no tratamento das pessoas, em particular com a sua dignidade”. Para Pacheco Pereira houve, nesta acção, humilhação de algumas pessoas. “Posso atirar um saco de moedas ao ar e as pessoas atiram-se para apanhar. Foi um bocado o que aconteceu. Quem foi lá apanhar as moedas ficou contente, mas sabe que se teve de se pôr no chão. E aí há uma certa humilhação” - Aqui, no Jornal de Negócios.

Volto a dizer o mesmo: se o Pingo Doce queria fazê-lo e se o objectivo era ajudar as pessoas então que o fizesse noutro dia. No dia do seu aniversário, por exemplo, num qualquer sábado ou domingo, em que o impacto seria o mesmo, ou durante um prazo mais longo, anunciando com antecedência a iniciativa. E assim dando também uma oportunidade aos idosos reformados que têm dificuldade em deslocar-se ou que só podem fazê-lo acompanhados, e que não têm qualquer hipótese de lutar no meio da malta pelos pacotes de leite, as garrafas de azeite ou as de whisky (bem essencial para os especialistas de gestão dessa cadeia de supermercados mas em relação ao qual o ministro Gaspar não foi suficientemente sensível para aplicar a taxa reduzida do IVA).   

Títulos (6)

"Jardim empresta 25% das verbas do resgate a sociedades falidas - Cinco sociedades públicas vão receber 259 milhões para necessidades de tesouraria. Empresas foram consideradas 'tecnicamente falidas' pelo Tribunal de Contas e a Inspecção de Finanças defende extinção" - Público, 04/05/2012 

quarta-feira, maio 02, 2012

Vidas que interessam

Um belíssimo, e pungente pela ternura, texto do Miguel Esteves Cardoso no Público desta manhã (clique na imagem se quiser ler). Um abraço para ele, que há muitos anos não vejo, e as melhoras da Maria João, que por via  dos seus textos se me tornou familiar.

terça-feira, maio 01, 2012

Pingo doce, patrão tolo

Pouco passava das 18h quando me lembrei de que não tinha pão em casa e disse à minha mulher para passarmos pelo supermercado mais próximo. Quando chegámos ao local onde pretendíamos comprar o pão, a confusão logo à entrada de sacos e carrinhos com géneros alimentícios era tal que a minha mulher perguntou a uma cara sua conhecida se aquela gente toda se preparava para fazer algum piquenique. Quando logo a seguir a PSP nos barrou a entrada percebemos o que se passava e a razão para tão grande alarido.
Hoje, Primeiro de Maio, dia em que em todo o mundo civilizado se celebra a luta de um punhado de trabalhadores norte-americanos pela melhoria das suas condições de trabalho, e que entrou na história contemporânea como o Dia do Trabalhador, a cadeia de supermercados Pingo Doce, a mesma que é pertença de um senhor que transferiu a holding da família para a Holanda numa altura de crise nacional, resolveu abrir as portas, aliás na sequência de uma decisão de um executivo liderado por José Sócrates.
E abriu as portas para quê? Para vender todos os seus produtos com 50% de desconto desde que as compras realizadas fossem de valor superior a € 100,00.
Em início de mês, num país em que a taxa de desemprego já passou os 15%, e que caminha a saltos de coelho para os 20%, em que milhares de empresas e famílias são declaradas insolventes todos os meses, os Supermercados Pingo Doce entenderam, aparentemente, conceder uma benesse ao bom povo trabalhador.
Mas não a todo. Só aos que estiveram dispostos a perder o feriado e se sujeitaram a passar meia dúzia de horas nos seus estabelecimentos, lutando para encherem os carrinhos, contribuindo para um espectáculo que teve tanto de imoral como de revelador de uma ética comercial e empresarial a todos os títulos reprovável. 
O mesmo patrão do grupo que há meses censurava a um primeiro-ministro a sua falta de ética política não se importou de mandar abrir os seus supermercados no Primeiro de Maio. Ao tomar tal decisão gerou um espectáculo deplorável, verdadeiro gozo com a pobreza e as dificuldades dos portugueses que têm dificuldade em gerir o orçamento até ao final do mês para comprarem bens essenciais, muitos dos quais foram aumentados pelo actual Governo, apoiado pelos donos dos Supermercados Pingo Doce, por via da alteração da taxa do IVA de 6% para 23%.
Para além do espectáculo gerado num feriado nacional, obrigando os seus trabalhadores a um esforço adicional para conseguirem conter a turba, com gente a passar horas nas filas enquanto outros se esgadanhavam para entrarem nas lojas e alcançarem um qualquer produto antes dele se esgotar, açambarcando o indispensável e o supérfluo, com o dinheiro que tinham e com o que não tinham, a atitude dos Supermercados Pingo Doce permite-nos tirar uma de duas conclusões: ou o Pingo Doce praticou preços abaixo do seu custo, praticando uma política de dumping, ou então essa cadeia de supermercados tem margens de lucro superiores a 100%*, que lhe permite vender produtos com 50% de desconto em relação ao preço de aquisição aos seus fornecedores, sendo que, neste caso, a cadeia de supermercados se comporta como um vulgar agiota perante aqueles que contribuem para o seu engrandecimento, tal e qual como uma qualquer financeira de crédito fácil esmifra um devedor insolvente.
Em qualquer caso, o que o Pingo Doce fez foi vergonhoso. Porque se a preocupação do Grupo Jerónimo Martins é facilitar a vida aos portugueses, permitir-lhes que comprem produtos mais baratos sem violar a lei e sem dar cabo da concorrência, praticando uma política socialmente responsável, então os Supermercados Pingo Doce que o façam todos os dias da semana, durante todo o mês, contribuindo para uma descida geral dos preços e poupando-nos a tão triste quanto deprimente espectáculo.
Eu, que já não gostava de bancos e de seguradoras, entidades que nunca estão quando são precisos e se dedicam a tirar o maior partido dos desgraçados que precisam de comprar uma casa para viver ou a inventar exclusões para não honrarem os compromissos que assumem, ao mesmo tempo que pagam dividendos chorudos a ex-governantes e emprestam dinheiro a especuladores para nos enterrarem a todos, acrescentei a partir de hoje mais um conjunto de estabelecimentos a essa lista: os Supermercados Pingo Doce e o Grupo Jerónimo Martins.
Que o capital não tem pátria, como tão bem nos demonstrou Alexandre Soares dos Santos há bem pouco tempo, já todos sabíamos. A partir de hoje também temos a certeza de que não tem ética, moral, vergonha ou respeito perante a pobreza e as dificuldades dos portugueses.


* - Alertou o Paulo Godinho e com toda a razão, depois de eu ter escrito 50%: "(...) para fazerem o que fizeram hoje, a margem de lucro teria de ser de, pelo menos, 100% e não de 50%. A margem de lucro é calculada a partir do preço base do produto, enquanto o desconto é calculado a partir do preço final. Só se pode ter capacidade para vender produtos por metade do preço (50% de desconto) se se tiver os produtos à venda pelo dobro dos preços pelos quais foram comprados (margem de lucro de 100%). Para ter um produto à venda por 10 e poder vendê-lo por 5 (50% de desconto), só se o tiver comprado a 5 ou a menos de 5, pelo que, se o está a vender a 10, está a ter uma margem de lucro de, pelo menos, 100%. Isto sem considerar quaisquer outros custos para além do preço pelo qual os produtos foram comprados".

segunda-feira, abril 30, 2012

Palavras actuais

"En parcourant l'histoire des sociétés, nous aurons eu l'occasion de faire voir que souvent il existe un grand intervalle entre les droits que la loi reconnaît dans les citoyens et les droits dont ils ont une jouissance réelle; entre l'égalité qui est établie par les institutions politiques et celle qui existe entre les individus: nous aurons fait remarquer que cette différence a été une des principales causes de la destruction de la liberté dans les républiques anciennes, des orages qui les ont troublées, de la faiblesse qui les a livrées à des tyrans étrangers." - Condorcet, Esquisse d'un tableau historique des progrès de l'esprit humain (1793-1794), p. 199.

A circular

O teor desta carta que circula pela Internet levanta muitas questões que importaria esclarecer. Admito que entre a bazófia e alguma esquizofrenia haja factos cuja verdade é de toda a conveniência resgatar e apurar para bem da nossa democracia. Alguns estão tão bem situados temporal e espacialmente que não deverá ser difícil  cruzar informação. Gostaria de ver colocado um ponto final nesta história mas não sei se algum dia tal acontecerá. Com excepção dos que partiram, dos envolvidos à arraia miúda, por uma ou por outra razão, a maior parte dos nomes que aparecem referidos diz respeito a gente cuja companhia já então era pouco recomendável. E os mortos continuam a não poder falar.

Títulos (5)

"Cimentos - Governo assume preferência pela Camargo" - Expresso, 28/04/2012

"Desemprego 'real' dispara em Portugal" - Expresso, 28/04/2012

Lido

"Mas a questão da prevalência das lealdades partidárias às competências exigidas para o desempenho dos respectivos cargos não se fica pelo exemplo atrás referido [Tribunal Constitucional].
Com efeito, o facto do Governo ter criado uma comissão, dita independente, encarregada do processo de recrutamento de dirigentes da função pública, está a confessar publicamente que os membros do Governo são incapazes de resistir à pressão das forças partidárias e assim assegurar a isenção na escolha dos responsáveis máximos pelas instituições públicas.
Esta confissão, se por um lado nos tranquiliza por indiciar uma intenção meritória, por outro preocupa-nos.
Com efeito, esta decisão demonstra como as instituições que, pela sua vocação, têm a seu cargo a defesa do interesse nacional e, nessa medida, devem ser competentes e eficientes na gestão de recursos, podem estar capturadas pelas máquinas cujas clientelas estão, em muito casos, empenhadas em defender interesses que nada têm a ver com o colectivo." - Manuela Ferreira Leite, Expresso, 28/04/2012  

sábado, abril 28, 2012

Leituras (boas, da Quetzal, para todos os dias)


"Estranha, esta angústia do presente, do futuro.
Estranha, a imobilidade em que me perco, como se tivesse milhões de horas para esbanjar.
Estranho o medo que me prende.
Estranha, a inconsciência com que governo o dia-a-dia (a vida, essa, é ingovernável...).
Não sou o primeiro que deseja o repouso do não-ser, gasto pelos amanhãs que não vêm - ou temendo-os - pernas e maõs bloqueadas, cérebro vazio, nauseado, sem saber.
Amanhã!
E amanhã será como hoje, como ontem, como sempre, insatisfeito, triste, longe, mas enraizado naquela terra donde vim.


"Acordou com a luz quente do Sol, que durante o Verão, a meio da manhã, entrava quase sempre pelas nesgas entre as lousas mal sobrepostas no telhado. O pano de linho que cobria a enxerga estava manchado de sangue, e o cheiro doce da seiva das dedaleiras e das dulcamaras enchia a casa. Tinha finalmente chegado o que esperava havia então mais de dois anos: a hora da mandrágora."

sexta-feira, abril 27, 2012

De luva branca

Nunca tive particular atracção pela figura, nem apreciei o seu estilo enquanto Presidente da República. Menos ainda o seu patrocínio à aventura semi-péronista do PRD. Porém, nunca deixei de lhe estar reconhecido, como todos os portugueses de boa índole deveriam estar, pelo papel que desempenhou no 25 de Novembro de 1975.
Com o decurso dos anos, em especial dos mais recentes, creio que o comecei a ver com outros olhos, a compreendê-lo melhor, e a perceber algumas das atitudes e decisões que tomou no passado.
Não sendo particularmente simpático aos olhos da opinião pública, manteve sempre um comportamento acima de qualquer suspeita, como militar e como cidadão, coisa que de alguns dos seus pares não poderei dizer.
A entrevista, magnífica, diga-se de passagem, que foi exibida no dia 25 de Abril, voltou a surpreender-me positivamente. E embora possa manter a discordância quanto a algumas das interpretações que faz, não deixei de registar o momento em que referiu que nunca lhe passaria pela cabeça receber outro ordenado enquanto Presidente da República que não o da função exercida. Menos ainda, e isso ele não o disse, lhe passaria certamente pela cabeça receber outro ordenado - mais elevado - e ainda acumular com as ajudas de custo da função cujo ordenado recusara. Mesmo que não tivesse dito mais nada, só por isso, teria valido a pena ouvi-lo.
Um homem que sabe dar-se ao respeito tem outra dimensão. E autoridade. Ainda quando se discorda dele.      

quinta-feira, abril 26, 2012

Fechem a RTP

Pelo menos há trinta e sete anos que a RTP passa regularmente programas sobre o 25 de Abril. Durante décadas vimos filmes, entrevistas, reportagens. A revolução entrou nas escolas, tornou-se tema de estudo e de reflexão. Foram investidos milhões a dar a conhecer o 25 de Abril às novas gerações. E, que diabo, o 25 de Abril não ocorreu há séculos. Pois bem, ontem, uma simples reportagem televisiva atirou por terra todo esse trabalho que, certamente, terá contribuído para justificar muitos dos défices de exploração da televisão pública em anos recentes. A geração "mais bem preparada de sempre" também chegou ao parlamento e foi penoso, deprimente, confirmar o seu baixo nível e grau de ignorância.
Não saber quem foi o último Presidente do Conselho deposto em 25 de Abril de 1974, dizer que Vasco Lourenço foi primeiro-ministro, ou que Vasco Gonçalves é que foi o primeiro primeiro-ministro após a revolução, enfim, são falhas que eu até poderia compreender se estivéssemos a falar de gente da rua, de desempregados sem estudos, de pessoas sem qualificações.
Agora se os entrevistados são deputados na presente legislatura, licenciados em "relações internacionais e ciência política" mas nem sequer conhecem um mínimo da história que fez deles deputados, permitindo-se dizer as alarvidades que essa reportagem demonstrou, é sinal de que, de facto, só se andou a perder tempo e a gastar dinheiro e que os partidos também não cumprem a sua função formativa. Nada de novo, portanto. 
O que lhes foi perguntado é cultura geral, não tem nada de extraordinário, mais a mais sendo eles deputados. Sugiro por isso à senhora presidente da Assembleia da República que no próximo ano organize umas sessões de esclarecimento e formação para os deputados sobre o 25 de Abril e lhes distribua umas brochuras - de preferência coloridas e com pouco para ler para eles não gastarem os neurónios nessa actividade que não rende votos nem senhas de presença - antes destas datas que o país celebra, para que dessa forma os senhores deputados - com a honrosa excepção de um deputado do CDS/PP - não exibam de forma tão despreocupada a sua falta de conhecimentos.
Quando aqui há uns tempos foi realizada uma reportagem de idêntico teor junto dos nossos jovens universitários, não faltou quem bradasse aos céus porque isso não era representativo da nossa juventude. Pois não, não era. Mas esta reportagem da TVI, porque de deputados e militantes partidários com responsabilidades estamos a falar, é bem demonstrativa não só do que eles não sabem, e deviam saber, como da falência do sistema de ensino e do (de)mérito do recrutamento feito pelos partidos. Se esses são os melhores, os que chegaram ao parlamento, imaginem agora o nível de alguns que nunca lá chegarão e que mandam nos partidos a nível local e nas autarquias.
Quem tem razão é Miguel Relvas. Fechem a RTP, fechem o serviço público de televisão que andou durante anos a gastar milhões na preservação da nossa memória histórica. Se nem mesmo os nossos deputados viram esses programas da RTP, que lhes facilitariam a vida e não lhes roubaria tempo de leitura e reflexão à actividade política, conseguiram aproveitar alguma coisa, então é sinal de que o serviço público de televisão também nunca existiu.
Felizmente que o tipo de perguntas feito nessa reportagem não colheu as respostas de alguns membros do actual Governo. Seriam ainda mais tristes, estou certo, mas talvez depois disso talvez já ninguém se admirasse de haver quem com tamanhas responsabilidades se aprestasse para acabar com os feriados do Primeiro de Dezembro e do Cinco de Outubro.
Quando quem tem que saber não sabe, quando não se conhece a História, é a ignorância que triunfa.
Licenciados, dizem-se eles. Pois pois, doutores é o que eles são, sim, mas da mula ruça.

terça-feira, abril 24, 2012

Em Abril, lágrimas mil

"A nobreza está presente onde quer que exista a virtude, mas a virtude nem sempre está presente na nobreza" - Dante

Não sei se alguma vez já se deram conta, mas há duas coisas que um estafermo não pode ter: dinheiro e poder. Dinheiro porque assim que o tem tende a imaginar-se o maior e com a maior desfaçatez convence-se de que é simples, fácil e barato comprar os outros para  obter os seus favores. Poder porque alcançando-o se crê superior, não raras vezes acabando por tentar fazer da humilhação dos seus semelhantes um exercício lúdico destinado a fortalecer esse mesmo poder. Uma das coisas sem a outra, em regra, não causa qualquer mossa à sociedade. Se tiverem riqueza sem poder limitar-se-ão a ostentá-la e a gastá-la à semelhança do que faz qualquer trolha numa taberna quando tem os bolsos cheios. Se ensaiarem exercitar o poder sem riqueza só terão um caminho: ou fazem-no de forma competente e serão aplaudidos ou, sendo incompetentes no mando, serão corridos na primeira oportunidade por aqueles que governam. O problema é quando os estafermos adquirem dinheiro e, por via dele, poder, ou, noutros casos, conquistando o poder conseguem depois enriquecer. 

Os exemplos nas empresas e na nossa vida política são imensos. O 25 de Abril, na generosidade de espírito e entrega de homens como Salgueiro Maia ou dos políticos que asseguraram contra ventos e marés uma transição serena e uma consolidação irrepreensível, ao restituir a liberdade e a democracia ao povo foi tão longe nesse gesto magnânimo que condescendeu com o enriquecimento e a conquista de poder por um bom punhado de estafermos.

Trinta e oito anos depois voltamos a estar sob intervenção externa, entregues à bestialidade de quem não foi capaz de reconhecer, nem de se reconhecer, nos valores e princípios que enformam o nosso contrato social. E que se alguma vez os reconheceram e proclamaram tal só aconteceu transitoriamente enquanto instrumento de conquista do poder e de riqueza, o que fizeram de modo abusivo e fraudulento, enganando aqueles que neles confiaram, desvirtuando e hipotecando sem qualquer pudor o sonho de várias gerações de homens livres, sérios e honrados.

A diluição de responsabilidades políticas e institucionais, o crescimento sem rei nem roque de grupos económicos, cliques e gangues de marginais engravatados, ao mesmo tempo que meia-dúzia de investimentos visíveis serviam para ocultar o desperdício e a inutilidade de sucessivos anos de governação, transformados no penoso cumprimento dos formalismos de uma democracia cujos actores se centravam cada vez mais no seu próprio protagonismo e na apologia de virtudes que nem a melhor das lupas permitia vislumbrar, contribuíram para atapetar a nossa vida pública de uma espécie de pasta lamacenta que aos poucos se acumulou e vagarosamente foi alastrando, espalhando-se pelas juntas do edifício democrático, entrando pela porta principal dos partidos políticos e de agremiações discretas, entretanto escancaradas para receberem a riqueza e o poder que os estafermos iam conquistando nas suas actividades de lobbying, tráfico de influências, compra de interesses e de consciências e contratação dos idiotas úteis que nessas ocasiões sempre aparecem, verdadeiros emplastros que dão cor e cara aos esquemas mafiosos que se encostaram aos partidos, ao poder local e a uma administração central prisioneira do atavismo e da desconfiança em relação a todos aqueles que era suposto servir.

A forma hedionda como os partidos políticos permitiram a ascensão de caciques semi-analfabetos e medíocres, que arrastaram consigo as fichas de outros ansiosos por serem como eles, contemporizando com esquemas, ofertas subreptícias e roubos de sacristia que serviram ao seu próprio financiamento e ao pagamento de campanhas eleitorais, colocaram-nos à mercê dos estafermos que deles se quiseram aproveitar.

Muitos chegaram ao poder enriquecendo, rapidamente e multiplicando benesses à custa de uma muito aplaudida, socialmente reconhecida e institucionalmente valorizada, canalhice ascensional, aliás exemplarmente demonstrada pela forma como verdadeiros biltres foram feitos ministros, conselheiros e comendadores, condecorados e endeusados pelos mais altos magistrados do regime. O povo desconfiou, mas sereno como é ia aceitando as migalhas que sobravam dos seus banquetes. Os poucos que, entretanto, caíram em desgraça - por não terem sido suficientemente generosos na distribuição dos réditos e mais cautelosos no apuramento da "matéria colectável" -, foram entregues pelos seus pares, à laia de sacrifício, como forma de protegerem o grosso da coluna. De atirar areia para os olhos de quem há muito desconfiava do sistema de justiça. 

É impossível fechar os olhos. É impossível ignorar. E de nada serve vilipendiar ou chorar. Foi das nossas mãos que saiu o voto. Foram os nossos olhos que se fecharam quando deviam ter estado abertos. Foi a nossa cobardia, o nosso temor pelo risco, a vergonha de nos encararmos limpos e de cara lavada perante o espelho do passado e a vitrina iluminada do futuro que nos deixou arrastar para o atoleiro.

Trinta e oito anos depois perdemos o direito de sindicar o passado e de impugnar os nossos actos. Ninguém espera que os estafermos se retratem. Bem pelo contrário, eles estão aí vivos, bem vivos, no meio de nós, usando a sua máscara veneziana nos momentos eleitorais, distribuindo folhas de coca à malta das jotas, sob a forma de apelos vigorosos à alegria no desemprego, à crença na infalibilidade jacobina - estranho paradoxo - de economistas ditos "liberais" e/ou "neo-liberais".

Precisamos de uma democracia que esteja disposta a correr o risco de sobreviver, que não se deixe iludir pelo ar elegante e bem cheiroso dos estafermos que a condicionam nas escolhas e ainda assim os enganam nas poucas que são feitas, violando de forma inaudita, vergastando e mutilando a honra da república e de todos aqueles que deram o corpo às balas para que este país não fosse uma coutada de estafermos

O percurso que temos vindo a trilhar terá de ser interrompido. Se necessário à bruta. Sempre fazendo uso das armas que a democracia nos trouxe. Pela virtude da palavra. Pelo gesto ousado. Pela escrita vigorosa, clara e descomplexada. Pelo voto. Enfrentando os estafermos no seu próprio campo, no espaço público, que é onde mais lhes dói e lhes faltam os espaços para se esconderem.

Porque sendo naturalmente cobarde, o estafermo, quando acossado no seu palácio, esconde-se da luta nos subterfúgios da democracia. Nos tugúrios da política e nos templos do consumo. Numa democracia não pode haver esconderijos, muito menos um Olimpo onde os estafermos se acolham impunes à espera de uma choruda reforma. Numa democracia não pode haver virgens para serem oferecidas aos estafermos que adquirem riqueza e poder sem mérito. Numa democracia, a gente séria não pode conviver com pulhas e sovinas que singraram sem esforço fazendo favores a outros pulhas e sovinas que foram engordando e ensebando os seus dorsos com a luz, a manteiga e o combustível que os nossos tributos pagaram. 

Porque o esforço que homens como Salgueiro Maia, Emídio Guerreiro, Francisco Sá Carneiro, Sottomayor Cardia, Amaro da Costa, Salgado Zenha, Magalhães Mota, Sousa Franco ou Ernâni Lopes, para só citar alguns, fizeram, não pode ficar dependente da mentira, do disfarce e da ignorância de um qualquer primeiro-ministro, do cinismo dos biltres que o assessoram, de um Presidente da República que se deixa enganar pelo primeiro canalha e se convence de que tem razão, de polícias alucinados que a democracia transformou em empresários e dirigentes empenhados na coscuvilhice, de políticos tão rasteiros quanto mansos na forma como dissimulam e iludem, enfim, de estafermos de carne e osso sempre prontos a servirem e a servirem-se dos outros como de carne para canhão.    

Porque, já agora, não é possível construir uma sociedade livre e democrática, uma sociedade que se reja por padrões mínimos de decência, civilidade e solidariedade social, quando os estafermos se passeiam pelas avenidas, usam aventais bordados a ouro, a miséria é varrida para debaixo do tapete e o Presidente da República está preocupado com a gestão das suas poupanças.

Queríamos, queriam, que as flores de Abril tivessem florescido. Mas as flores de Abril há muito que murcharam, sendo substituídas nas lapelas por uns rectângulos serôdios em plástico que imitam a bandeira nacional. O patriotismo foi transformado numa patrioteira lamurienta, frívola e pirosa, aplaudida por canalhas que depois de terem rebentado com o sistema financeiro exigiram os nossos impostos para taparem o buraco que eles próprios criaram para pagarem dividendos aos que hojem se queixam do valor das reformas.

Os portugueses permitiram a ruptura do contrato social. Acomodaram-se, perderam ousadia, viraram a cara para o lado enquanto o vizinho batia na mulher e nos filhos. Porque não era com eles. Viram os estafermos, qual praga, treparem por todo o lado, ajudados pelos estafermos que já lá estavam e que lhes atiravam cordas e escadas para os ajudarem a trepar mais depressa, empurrando e derrubando, ajeitando-se nos bancos das empresas públicas, atafulhando-se de robalos e de charutos oferecidos por construtores civis, arrotando como porcos à porta do Tavares e rindo alarvemente enquanto se roubava o erário e se desmantelava o Estado.

E a Europa, a Europa senhores, essa só nos reconhece dentro dos estádios para onde atiram as moedas que os mais afoitos recolhem. Rastejando se necessário. Não podemos contar com ela porque ela só conta connosco para assegurar o pagamento dos juros.

Fazer a revolução que nunca se fez, recolocá-la nos carris, não é difícil. Fosse tudo tão simples. Não é preciso voltar à estaca zero, "empobrecer" como dizem alguns cretinos, nem destruir o pouco que se construiu. Bastará abrir os olhos, levantar a cabeça, olhar à nossa volta e correr com os estafermos que se abotoaram com o contrato social, colocando-o ao seu serviço.

Os portugueses não podem ficar eternamente à espera que os resgatem, que apareça um D. Sebastião ou um capitão de Abril que lhes restitua a dignidade e a honra. Os portugueses têm de crescer. Só a eles incumbe o dever de resgatar o contrato social. E podem ter a certeza de que não será o Presidente da República, um Passos Coelho, um Relvas, um Seguro, um Portas, um Gaspar, ou um delirante qualquer das economias, que irá fazê-lo por ele. Nem mesmo o velho Mário Soares que já está em idade de ter o merecido descanso.

Os portugueses têm de arregaçar as mangas, colocar a voz e a pena, e tomar conta do espaço público. Entrando pelos jornais e pelas televisões, elevando a voz nas empresas e nos sindicatos, nos hospitais, nos centros de saúde, nas escolas, nas repartições de finanças, nos tribunais, nas autarquias, arrombando as portas e as grilhetas dos partidos políticos. Libertando-os da canalha, filiando-se neles para exigirem a esses partidos responsabilidades, correndo com os estafermos, e com os seus filhos e afilhados, que tomaram conta deles e das autarquias e que na sombra gerem negociatas e o trade-off da corrupção. Os portugueses terão de fazer funcionar a democracia a toque de caixa se quiserem sobreviver. A democracia terá de ser neste Abril uma verdadeira bomba de fragmentação que penetre as consciências e o tecido social. Não há outro caminho. E que as carpideiras chorem tudo neste Abril, porque o que aí vem não é para flores de estufa. É preciso resgatar a democracia. É preciso secar as lágrimas e voltar a fazer funcionar o contrato social. É preciso libertar Portugal dos estafermos para que a democracia floresça.

P.S. Discordo, embora compreenda, a decisão da Associação 25 de Abril. Mas  é dentro das instituições que a autoridade moral e a legitimidade de quem fez e se afastou tem de ser ouvida. Como Vasco Lourenço tão bem sabe, lá dentro já temos "Rochas Vieiras" que cheguem.      

sexta-feira, abril 20, 2012

Uma borrada em toda a linha

Não posso estar mais de acordo com Jorge Miranda, Mouraz Lopes e Rui Cardoso, o novo presidente do dito "Sindicato dos Magistrados do Ministério Público". O que aconteceu com a indicação dos nomes propostos pela Assembleia da República para as vagas abertas no Tribunal Constitucional constitui mais um lamentável episódio nesse caminho que os principais partidos políticos insistem em trilhar e que passa por confundirem a justiça com a política enquanto arrastam ambas para o lodaçal.
O Tribunal Constitucional talvez seja uma das poucas instituições da República que tem sabido cultivar a inteligência, a discrição e a respeitabilidade, procurando manter-se à margem da idiotia generalizada.
Se a saída de Rui Pereira para o Governo já tinha sido antes um péssimo sinal, aliás dando guarida às primeiras críticas que tinham sido formuladas quanto a uma tentativa de desvirtuamento das suas funções e de menorização do seu estatuto, os nomes que foram agora indicados pelo PS e o PSD raiam o absurdo.
Não estão em causa as qualidades jurídicas dos nomeados. O que se discute é o seu perfil para integrarem um dos órgãos de soberania mais importantes da nossa estrutura judicial. E a ser verdade o que o Público escreve, apontando como razões para a sua indicação o facto de pertencerem à mais influente obediência maçónica, isso só quer dizer que as escolhas estavam feitas antes mesmo de o serem.
Tenho pena que os ideais maçónicos agora apareçam por tudo e por nada misturados nesta espécie de jardim zoológico em que vivem as nossas instituições mais representativas. 
Olhando para o que se está a passar tenho por vezes a tentação de dizer aquilo que Haffner disse de Weimar: "uma república sem republicanos". Quanto àquela todos sabemos como acabou. Quanto à nossa, confesso que não gostaria de estar cá no momento em que ela se finar. 
A vida é um caminho que se vai fazendo, onde tudo tem o seu tempo, onde tudo passa por processos de aprendizagem, aquisição de conhecimentos, de experiências, e, em particular, pela aquisição de valores e de princípios que em momentos de crise nos ajudem a seguir um rumo, a definir um caminho. Não é feita de escolhas apressadas, atamancadas para responderem ao imediatismo do quotidiano e à sofreguidão e sede de protagonismo de alguns actores.
Com as escolhas que fizeram, pela forma como negociaram os nomes nos bastidores e os impuseram, PS e PSD  mostraram disponibilidade para transformarem o Tribunal Constitucional em mais uma choldra ao nível do que de pior os partidos têm sido capazes de produzir. E, quer queiramos quer não, este sinal que uma vez mais é dado à sociedade funciona contra os próprios partidos, contra o estado de direito democrático, contra a qualidade da democracia e o respeito pelas suas instituições, representando mais um atestado de incompetência passado em letras garrafais às suas elites dirigentes.
Continuem, pois, e não mudem nada que não é preciso.

terça-feira, abril 17, 2012

Não estranhem

Para além dos afazeres quotidianos, há momentos em que é necessário afastarmo-nos para podermos depois ver as coisas com mais lucidez e mais distância. E também é preciso pôr as leituras em dia e preparar o trabalho futuro. Não se admirem, por isso, pela ausência. Em breve, lá mais para o final do mês, voltarei a colocar no papel, ou nos vossos monitores, os meus estados de alma e tudo aquilo que os meus olhos vêem do vosso (nosso) Portugal. Até lá, para além dos recortes que aqui irei deixando de alguns fragmentos do quotidiano, a única coisa que vos posso recomendar é que vão olhando para a vossa sombra. Nunca se sabe quando atrás dela segue um vice-presidente do Sporting ou o ministro das Finanças. E o seguro, sabêmo-lo todos agora, se nalguns casos morreu de velho, noutros terá sido pela fragilidade da cobertura das apólices contratadas.

segunda-feira, abril 16, 2012

Títulos (4)

"Economia vai ter menos dinheiro do QREN do que Governo prometeu" - Público, 16/04/2012

"Pressão do IRS sobe 200 milhões" - Correio da Manhã, 16/04/2012

"Saúde impõe contratação de médicos pelo valor mais baixo" - Diário de Notícias, 16/04/2012

"Estado entrega a quem quer 90% das obras" - Jornal de Notícias, 16/04/2012

"Preço dos ovos vai disparar em Portugal" - i, 16/04/2012

"Crise está a fechar 16 empresas por dia desde o início do ano" - Diário Económico, 16/04/2012

sexta-feira, abril 13, 2012

Leituras

"Porquê? Porquê este niilismo? Porquê esta traição da nobreza de espírito?

A sedução do poder é a primeira razão: ser finalmente influente, ser finalmente ouvido, e, de preferência, ser igualmente admirado. Nada vicia tanto como o poder e a fama. E para se agarrar a isto, para se manter a posição de ideólogo ou especialista de partido, para ser porta-voz do 'público', é necessário adaptar-se constantemente. se existe algum lugar onde a submissão reina é entre os intelectuais politizados. A ideia de arriscar perder o poder e a influência pela independência intelectual enche esses realistas de terror. Por causa do poder político abandonam o mundo do espírito. (...)

Uma segunda razão para a infidelidade aos valores imortais e à nobreza de espírito é a má fé. Alguns intelectuais não acreditam nessas qualidades. A imensa influência do paradigma científico desempenha aí um importante papel. Imortalidade, significado, valor, bem, mal, beleza, amor, compaixão, sabedoria, justiça, experiência, virtude e auto-conhecimento são palavras que não existem na linguagem das ciências. A sua linguagem é da objectividade, factos, análise, objectivo, progresso. Quando o mundo intelectual é aprisionado por esta linguagem sem sentido, o espírito perde a capacidade de exprimir o significado. Os factos, em si e por si, não significam nada. A verdade da realidade só pode surgir através do conhecimento dos valores, da distinção entre útil e inútil, bem e mal, significativo e insignificante; ou seja conhecimento cultural, inserido na linguagem dos artistas, poetas e pensadores. Esta linguagem é desconhecida para os clones intelectuais pseudo-científicos. É por isso que escrevem tão mal. Com excepção de notícias do mundo da 'realidade social', não têm nada a revelar que valha a pena".

quinta-feira, abril 12, 2012

Um ex-apoiante de Passos Coelho na primeira pessoa

"Começa a ser tarde para os portugueses admitirem o que é evidente: o Governo está a falhar na resolução da crise, aproveitando-a, entretanto, para impor um programa político com que nunca teria sido eleito. A degradação da economia e das finanças é clara: o défice só baixou em 2011 pelo recurso artificioso ao fundo de pensões dos bancários; do que se conseguiu em ajustamento do Orçamento de Estado, 75 por cento deveu-se ao aumento dos impostos e só 25 por cento à redução das despesas, sendo certo que se atingiu o extremo direito da curva de Laffer (impossibilidade de arrecadar mais receitas aumentando a carga fiscal), o desemprego saltou para os 15 por cento; a dívida pública subiu e aproxima-se dos 115 por cento do PIB, que desce 3,3 pontos percentuais; desapareceu o investimento público e o privado tem a especulação financeira por paradigma (o banco do estado financia especulações bolsistas de um grupo milionário, enquanto empresas viáveis recusam encomendas do estrangeiro por não terem dinheiro para comprar matérias primas)." - Santana Castilho, Público, 11/04/2012

Um tipo depois de ler este texto do prof. Santana Castilho, que foi figura de proa do PSD na campanha para as legislativas de Junho passado e que foi inclusivamente convidado por Passos Coelho para apoiar a redacção do seu programa em matéria de Educação, fica a pensar se para além da evidente má-fé de quem mais não tem feito do que aldrabar os portugueses, afinal dando cobertura e razão ao que José Sócrates e Teixeira dos Santos fizeram, será apenas um problema de ineptidão. Ou se haverá algo mais que os aproxime tanto do reino da estupidez.

P.S. Clique na imagem para ler o texto todo.

Coisas do arco da velha

Ainda estou para perceber por que raio Passos Coelho ou Miguel Relvas não fizeram dele ministro. Entre Vítor Gaspar e "o Álvaro" o fulano devia ganhar inspiração para escrever mais ensaios deste calibre

segunda-feira, abril 09, 2012

Mandarins em pânico

O anúncio da candidatura de Luís Graça à direcção da Comissão Política Concelhia do Partido Socalista, em Faro, é sinal concludente da apreensão com os que sectores mais conservadores do PS/Faro encararam o simples anúncio da candidatura de Mário Dias, na semana passada.
Com efeito, o anúncio de Mário Dias teve o mérito de colocar imediatamente em acção a velha estrutura partidária, adormecida após a derrota eleitoral de José Apolinário - agora agrilhoado ao Governo PSD/CDS num cargo de confiança política -, mobilizando os seus antigos indefectíveis em torno de um estimável e ilustre militante, antigo assessor daquele histórico do PS na Câmara de Faro, e que de sopetão, como que por artes mágicas, se transformou de não-candidato assumido em candidato do regime.
Basta atentar no facto de Mário Dias ter anunciado a sua candidatura e a apresentação de uma moção de orientação política para a Concelhia, que terá lugar numa conferência de imprensa agendada para o próximo dia 11 de Abril, para que, não obstante o período pascal, tal aviso à navegação tivesse mobilizado os órfãos que nos últimos anos assistiram impávidos e serenos ao definhar do PS/Faro, ao desmantelamento do sonho de renovar a cidade e de fazer dela uma verdadeira capital da região, para que todos aqueles que medraram e fizeram a vidinha à sombra do guarda-chuva do partido se agrupassem para convencerem Luís Graça a avançar.
Reza a história que candidatos cujas candidaturas são condicionadas pelas estruturas oligárquicas das quais dependem para chegarem ao terreno, e que só se assumem como candidatos depois de muito instados e de juras de não candidatura - é o que consta nos mentideros locais -, se eleitos dificilmente conseguem ganhar autonomia suficiente para executarem os programas que apresentam.
Excepções à parte, para já sabe-se apenas que a moção do afável Luís Graça se irá intitular "Novo Sentido", embora do título não se descortine a quê que o candidato pretende dar um novo sentido, ou a quem ou com quem. Nem se o novo sentido será só para o trânsito na cidade ou se para o partido. Noutra vertente, a moção de Mário Dias, o primeiro canddiato a sair à liça, escolheu apresentar-se sob um lema bem mais ambicioso -  "Mudança em Acção - Participar, Renovar, Vencer" -, o que só por si diz bem da diferença que vai entre os projectos (havendo-os) e do posicionamento dos candidatos no terreno. Como se sabe, é grande a diferença entre dar um novo sentido, com os mesmos e velhos camiões cansados e poluentes, ou acordar de um estado de inércia e letargia, de não fazer ondas e deixar Macário andar, para agir, participar e renovar.
A ver vamos. Por agora importa aguardar pela apresentação das moções e das equipas que os candidatos irão alinhar para se poder fazer uma avaliação séria das propostas e daquele que virá a ser o cenário pós 1 e 2 de Junho. Cenário que não poderá ser dissociado da eleição do novo presidente da Federação do Algarve, que ocorrerá logo após as eleições das novas concelhias, e da circunstância de se começarem a perfilar e descortinar as sombras das  primeiras manobras de bastidores por parte dos interesses que habitualmente gravitavam (gravitam?) em torno da autarquia de Faro, agora na esperança de não apostarem no cavalo errado.

quarta-feira, abril 04, 2012

Ele merece

Ele nunca deixou de dizer de onde vinha e a quem queria bem, mas isso não o impediu de ser um dos melhores. Merece, por isso mesmo, perante mais um afastamento imbecil, a nossa solidariedade pela isenção de que sempre deu mostras. Merece o nosso apoio pela sua autenticidade. E ainda merece o nosso aplauso por não ser hipócrita num país e numa televisão cheia de subservientes sempre prontos a dizerem ámen para poderem sentar-se junto à manjedoura.

A ler

Um belo texto, uma bela homenagem, de um homem que escrevendo como escreve devia escrever sobre tudo menos sobre política. No Diário de Notícias.

sábado, março 31, 2012

Comparações

"Enquanto hesitar, Seguro continuará refém de uma bancada parlamentar que suspira por Sócrates. Se quiser sobreviver, tem de optar pela rutura e deixar muita gente pelo caminho. É a vida. (...)
António José Seguro ainda não percebeu onde se enfiou. Hesita entre as viúvas de Sócrates e o memorando da troika, entre esquerdistas bissextos e a UGT, entre esperar pelas decisões do Governo e impor negociações. Para sobreviver tem de fazer uma rutura clara com o passado recente e escolher um rumo." - Ricardo Costa, Expresso, 31/03/2012 


"- Um grupo parlamentar talhado à medida da débâcle e do tenebroso "aparelho" que o manteve à tona, iludido e convencido de si;
- Um partido centralizado, acomodado, manietado, silencioso e acrítico, do tipo "Maria vai com as outras", que não honra a tradição republicana e socialista;
- Um núcleo subserviente, agarrado como uma lapa à figura do líder e onde qualquer olhar crítico é visto como um acto de rebeldia, de falta de solidariedade e de lealdade para com quem manda;  
- Um futuro líder agrilhoado a um conjunto de deputados (nem todos) eleito em 5 de Junho, que tudo fará para que qualquer alternativa à sucessão saia de um dos seus, obrigando o futuro líder, se quiser aspirar a uma liderança efectiva, a ter de contar com eles, com as suas manobras de bastidores, cliques e egoísmos para reconstruir o partido na Oposição" - Sérgio de Almeida Correia, Delito de Opinião, em 06/06/2011

sexta-feira, março 30, 2012

A ler

"A reconciliação interna do PS como a reconciliação do PS com os portugueses pedem mais do que uma 'autocrítica'. Pedem um destino. E que destino nos pode o PS agora oferecer?" - Vasco Pulido Valente, Público, 30/03/2012

Títulos (1)

"Economia estagna em 2013 e Portugal perde mais 200 mil empregos

Mantém-se a tendência de revisão em baixa das previsões do crescimento do banco de Portugal. Uma recessão mais profunda do que o esperado já custou 520 milhões de euros às contas do Estado" - Público

quarta-feira, março 28, 2012

País de pacóvios

Em Macau, nos tempos da Administração Portuguesa, houve uma paragem de autocarro, doada por uma instituição filantrópica, que foi inaugurada por um Secretário-Adjunto do Governador de Macau. Ou seja, pelo equivalente ao nosso ministro dos Transportes. Mesmo em Macau o assunto foi tema de comentário político e gozo generalizado. Mais de uma década depois a história repete-se.
Agora temos um ministro - o ministro da Economia e do Emprego, segundo reza a notícia - que acompanhado de dois secretários de Estado Adjuntos - respectivamente, da Economia e Desenvolvimento Regional e o do Emprego -, e de provavelmente meia-dúzia de deputados, autarcas e dirigentes partidários, vai inaugurar, isto é, patrocinar, a reabertura de um supermercado remodelado da cadeia Alicoop/Alisuper.
Acho muito bem que se recuperem empresas falidas, que se criem novos e se mantenham os poucos postos de trabalho ainda existentes, mas associar três membros do Governo, sendo um deles o ministro, à reabertura de um supermercado junto de um aldeamento turístico de luxo, parece-me excessivo.
Não sei se o ministro da Economia possui algum estudo que revele dados sobre a recuperação económica do Algarve na próxima década que sejam desconhecidos dos portugueses, mas gastar gasolina e portagens e um bom par de horas de trabalho para vir a um Algarve cada vez mais triste, desertificado, falido e com mais de 20% de desempregados, para inaugurar uma tabanca sem dimensão ou qualquer significado, fora dos grandes centros e que irá servir prioritariamente gente que compra e arrenda casas em Vale do Lobo, como Cristiano Ronaldo ou Louis van Gaal, é de todo desajustado. Se a coisa for para continuar, um destes dias tê-lo-emos a inaugurar bares de praia.
Se o homem em vez de fazer discursos com um brilhozinho infantil nos olhos para atacar o passado que ficou morto e enterrado em 5 de Junho de 2011, e de anunciar investimentos megalómanos em minas, que não se concretizam, e inaugurar supermercados (qual vai ser o salário médio daqueles que ali vão trabalhar?), se dedicasse a produzir algo de mais útil para o nosso futuro não seria mau. É triste dizê-lo, mas parece que há qualquer coisa que não funciona naquelas cabecinhas. As prioridades desta gente estão cada vez mais distantes das do país real e dos portugueses.

domingo, março 25, 2012

Requiem



Eu prefiro a angústia à paz podre, (…), entre as duas coisas prefiro a angústia

Apresentou-se-me com as suas crónicas há um bom par de décadas. Li as publicadas em jornais, uns nossos, outros que me chegavam, e um ou outro texto rápido que amiúde surgia. Apaixonava-me a forma cristalina e a um mesmo tempo subtil como atraía a nossa atenção para as coisas simples da vida. As coisas que fazem dela um drama, uma luta permanente e um mar de alegrias e emoções. E confesso que foi, paradoxalmente, graças ao engenho da professora Lucia Margutti, ao ler a tradução italiana do seu primeiro romance escrito integralmente em português, Requiem, que me apercebi da genialidade da obra e me interessei por conhecer o homem por trás dessas linhas.

Mais do que um cultor da palavra, um esteta da alma humana, um académico, um pensador, um dramaturgo e romancista internacionalmente premiado e reconhecido, ele foi, é, e será sempre para mim uma espécie de Fernando Pessoa a falar italiano. Talvez porque, como ele próprio escreveu, o seu pai não conhecesse nenhuma língua estrangeira e a língua da sua infância tivesse sido “um toscano rústico marcado por entoações e por um léxico dialectal típicos da região de Pisa e Lucca” é que tenha sido capaz de, tal como o Sol, se colocar atrás da montanha para aos poucos a ir iluminando até surgir por cima dela, dando cor, luz, espaço e profundidade às tonalidades da voz e do sonho. Como poucos soube dar à voz humana a dimensão de um arco-íris, tornando reais as suas entoações. As suas emoções.

Da “Piazza D’Italia”, seu primeiro romance escrito em 1975, passando pel’“O jogo do reverso”, “Nocturno indiano”, o fabuloso “A Mulher de Porto Pim”, homenagem aos Açores, às baleias e aos baleeiros, ou pela “Afirma Pereira”, sem esquecer as peças de teatro e os ensaios que nos legou, fosse na corajosa defesa da democracia e da liberdade numa Itália acossada pelo berlusconismo, o que lhe trouxe alguns dissabores, o que para mim fica de toda a vasta e erudita obra de Antonio Tabucchi é o Requiem e a tradução para italiano de toda a obra de Fernando Pessoa.

Portugal estava escrito na sua “bagagem genética” e ele soube como poucos, muito poucos, mostrar que “às vezes uma sílaba pode conter o universo”, da mesma forma que Pessoa nos ensinou que podemos ter em nós todos os sonhos do universo e ser plurais como ele.

A Europa das nações, do pensamento livre, a Itália das artes, o mundo culto e civilizado dos simples e discretos, a literatura, a poesia, o teatro, o Portugal de “A Bola”, o Benfica, todos perderam hoje um dos arquitectos contemporâneos do universo.

O último homem que sabia escrever na língua dos sonhos decidiu ir tomar um café com Pessoa. Ele foi o mais português dos italianos. Morreu o maior escritor português da língua de Dante.

Se eu mandasse, e os italianos me desculpassem, o “gajo” iria para o Panteão Nacional. Tudo o que seja menos do que isso só pode revelar desconhecimento e ignorância pela sua importância para Portugal e os portugueses.  

sexta-feira, março 23, 2012

É a vida

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Mal-estar no PSD. Capucho e Rio ausentes do congresso
V Mais Informação | 23 Março 2012

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Faz hoje um ano. Aos homens de Sócrates sucederam os de Passos Coelho. A José Lello sucedeu Miguel Relvas. Manuel Pinho passou a chamar-se Álvaro. Os Valteres chamam-se agora Rosalino, Júlio ou Moedas. Teixeira dos Santos virou Gaspar. O Presidente da República deu lugar a um funcionário público agastado e poucochinho. O Lima mantém-se em Belém. Os comentadores residentes também. No futebol e na política. Os congressos "kimilsunguistas" da era Sócrates tornaram-se nos congressos "kimilsunguistas" da era Passos Coelho. A Passos Coelho sucedeu Seguro. Jota por jota. Os boys Armani foram trocados pelos jotas Decénio. E as girls são mais assépticas, com ar de teenagers e vozinha esganiçada. Tirando isso, o desemprego aumentou, os impostos e as portagens também, a receita fiscal diminuiu, 150.000 decidiram emigrar e os que tinham vindo para cá regressaram aos países de origem. Os economistas continuam a sonhar com o regresso aos mercados. Mas a EDP, a Galp e a PT estão mais ricas. Vale e Azevedo continua em Londres a passear de Bentley. Paulo Portas viaja mais e com mais estatuto. A blogosfera está mais triste. Os críticos tornaram-se "Abrantes", os "Abrantes" viraram críticos. A polícia de choque voltou às ruas. A RTP e a Antena 1 estão mais obedientes. A LUSA abana o rabo. A regionalização está ferida de morte. Foi trocada pela lusofonia com sotaque angolano e brasileiro. Os ministros rezam. Os que sabem. Alguns nem isso. Outros por chuva. Outros que não são ministros pela justiça que tarda. Auto-estradas na justiça fiscal só para quem tem milhões. Mesmo que depois os ponha na Holanda. Os pobres que se lixem. A pobreza nunca foi prioritária. Só a "chico-espertice". As púdicas virgens querem que o SNS poupe nos abortos. Eu também. Nesses e nos outros. A arbitragem no futebol está como estava. A liga de clubes é que perdeu cabelo; embora já escreva comunicados cheios de maiúsculas "a bem do Futebol". O QREN está às moscas. O TGV agora chama-se ASP de bitola europeia. Um emplastro de ontem é uma aventesma de hoje. O partido das becas está cada vez mais activo. Não tarda elege deputados. O nosso Di Pietro chama-se Martins. Não é grave. Entre nós isso dá-lhe mais tempo de antena do que ao italiano. O país, esse, está cada vez mais pobre. Os portugueses invariavelmente tesos. As moscas mudaram para que depois do processo de reformas em curso (PREC) tudo  ficasse irreconhecível. Mas na mesma. Não ficou. O cheiro é o mesmo. A quantidade não. Aumentou. Espalhou-se. Foge pelas listas da Segurança Social e o obituário hospitalar. Pelos buracos territoriais da nova lei autárquica. Um ano depois a realidade de Lampedusa foi encadernada para distribuir pelos membros do Governo em papel couché. O cheiro do papel disfarça outros menos agradáveis. A fraude perfumada tem mais estilo. E nos intervalos joga-se matraquilhos. Recebe-se o Hermínio, pois claro. Enquanto o Hermínio ajeita as calças o fotógrafo regista o momento. Foram-se os cromos. Ficámos com os trocos. E sem a bola. É a vida.

A ler


"Mas nada explica que a Procuradoria-Geral da República e os tribunais tomem sobre si o encargo de fazer justiça em matéria política: um serviço que obviamente lhes não compete e que, levado ao extremo, pode alterar o equilíbrio constitucional da República".

quarta-feira, março 21, 2012

Evocação

Cada dia que passa percebo um pouco melhor o quanto é difícil chegar aonde chegaste, recordando sempre a tua condução no Mundial de Karting de 1979. E mais te admiro.

Recordar é viver

Dedicada ao Adolfo Mesquita Nunes, de quem espero que recorde isto a Paulo Portas, tanto mais que a gasolina 95, em Faro (nunca percebi porque aqui pagamos mais pelos combustíveis), já está em € 1,729 e competitividade é coisa que o ministro "Álvaro" não consegue devolver, nem às empresas do Algarve nem a nenhumas, preocupado como está com as privatizações que aí vêm e que vão dar dinheiro a ganhar aos amigos angolanos e brasileiros.

Vesgos e mal formados

SLB - 3   FCP - 2

Há três semanas não viram um golo, que lhes deu a vitória, marcado em claríssimo fora-de-jogo, e acharam normal que assim tivesse sido. Ontem, depois de três bolas nos ferros e de terem marcado dois golos com a inequívoca "colaboração" de dois jogadores adversários, numa clara demonstração de que a sorte não estava com os melhores nem com os mais talentosos, foram incapazes de reconhecer a sua pequenez. Que o jogo "não era prioritário", que a Taça da Liga não tinha grande interesse, disseram eles depois do jogo. Mas na hora do apito final vieram logo a correr atirar-se ao árbitro. Estranhos padrões estes em que só são prioritárias as competições em que ainda não foram eliminados e em que os árbitros só são maus quando perdem.
O futebol está cada vez mais parecido com a política. Enquanto o futebol português estiver nas mãos de montanheses vesgos e mal formados será muito difícil sair da cepa torta. 

segunda-feira, março 19, 2012

Razão e Liberdade

"Madison aborda a existência dos partidos num sentido moderno, destacando-os como organizações emergentes de um tecido social vivo e aberto, que assim dinamiza a esfera pública. Este labor processar-se-ia num contexto sócio-político orgânico, onde os partidos se integravam como ideias, propostas e tendências, estimulando e revigorando um debate do qual resultariam políticas que agiam directamente sobre a sociedade e a partir dessa mesma sociedade, com a qual os órgãos políticos estão afinal em permanente diálogo. Neste esquema, os partidos ocupariam, por conseguinte, um papel indispensável como impulsionadores da discussão pública e como mediadores entre o indivíduo comum e as cúpulas dirigentes da acção política".

O pequeno excerto que acima transcrevi diz muito sobre aquilo que é e continua a ser uma concepção moderna do papel dos partidos e aquilo que eles hoje não fazem nem se têm mostrado à altura de saber fazer para preservarem e melhorarem a qualidade da democracia.
O prof. José Gomes André, autor do livro que vêem na foto, teve a simpática lembrança de me convidar para a apresentação do seu livro, que hoje terá lugar em Lisboa, na FNAC do Centro Colombo, pelas 18.30. O prof. Viriato Soromenho-Marques fará a apresentação, tendo sido quem também já prefaciou (não confundir com outras coisas sem pés nem cabeça a que chamam "prefácio") obra tão notável quanto invulgar pelo tema, clareza e sentido de oportunidade no panorama da Ciência Política portuguesa.
Como ali se escreveu, Razão e Liberdade constitui o mais importante estudo alguma vez publicado em língua portuguesa sobre o pensamento de James Madison, o 4º presidente dos Estados Unidos da América, e um "dos mais significativos" publicados "na última década em qualquer parte do mundo".
Tenho admiração pelo trabalho e estima pessoal pelo autor, que conheci graças à iniciativa do comum amigo Pedro Correia, que fez o favor de nos juntar no Delito de Opinião, e a quem daqui também envio uma saudação. Mas, infelizmente, o facto de actualmente viver longe de Lisboa e de ser cada vez mais difícil para os independentes a subsidiação dos combustíveis e das portagens do Dr. Gaspar, impedem-me de poder estar presente. Não será, porém, por esse facto, que deixarei de aqui registar o facto e de apelar à leitura e divulgação de tão importante e generosa obra, indispensável num momento de acesos ataques contra o republicanismo, a liberdade e os valores mais fundos de uma cidadania responsável, ataques que vêm de todos os quadrantes e contra os quais os principais partidos políticos portugueses não têm, em razão de lideranças fracas e incultas e de uma absurda coligação de interesses perniciosos, sabido responder.

sexta-feira, março 16, 2012

A ler

"O regime vai caindo diariamente, sem grande sobressalto (e sem grande interesse) do país, como se o seu fim fosse uma conclusão esperada e até bem-vinda. No meio disto, o sr. Presidente da República, sem que nada aparentemente o obrigasse, resolveu publicar a sua autojustificação e o seu auto-elogio, com o propósito ostensivo de provar a sua refulgente virtude e de prometer que seria no futuro tão imparcial e legalista como tinha sido no passado.

Quem leu essa intrigante peça de prosa (que ele obviamente não escreveu) ficou, pelo menos, com duas perguntas. Primeira, por que razão decidiu agora acusar o defunto Sócrates de "uma falta de lealdade", que a pobre "história da nossa democracia" não deixará de "registar"? Segunda, porque lhe pareceu necessária neste particular momento a defesa de cada acto da sua passagem por Belém? Quanto a Sócrates, não há dificuldade em responder: um homem que foi "desleal", com o Presidente, está para sempre fora da politica. Quanto à intempestiva apologia que envolve e completa o assassinato, é uma absolvição plenária de qualquer responsabilidade que lhe possam atribuir na crise.

É já amanhã

Em fim-de-semana de início do Mundial de F1 (Melbourne) e do Campeonato Superstars (Monza), vai correr-se o 1º Grande Prémio de Resistência do Indoor de Olhão. O Cascais South Winds Racing Team vai fazer a sua estreia em competição e esperam-se grandes tempos do bólide que será pilotado pelos experientes Paulo Jorge Vicente e Fernando Fevereiro Mendes, aos quais eu me associarei como 3º piloto. Serei o "rookie" da equipa e espero humildemente aprender alguma coisa e contribuir para o sucesso do CSW (nada de confusões com CSI) antes de Luca di Montezemolo me oferecer um contrato vitalício com os meus amigos da AF Corse. Será a partir das 16h e deverá estar concluído pelas 19 h.