terça-feira, maio 01, 2012

Pingo doce, patrão tolo

Pouco passava das 18h quando me lembrei de que não tinha pão em casa e disse à minha mulher para passarmos pelo supermercado mais próximo. Quando chegámos ao local onde pretendíamos comprar o pão, a confusão logo à entrada de sacos e carrinhos com géneros alimentícios era tal que a minha mulher perguntou a uma cara sua conhecida se aquela gente toda se preparava para fazer algum piquenique. Quando logo a seguir a PSP nos barrou a entrada percebemos o que se passava e a razão para tão grande alarido.
Hoje, Primeiro de Maio, dia em que em todo o mundo civilizado se celebra a luta de um punhado de trabalhadores norte-americanos pela melhoria das suas condições de trabalho, e que entrou na história contemporânea como o Dia do Trabalhador, a cadeia de supermercados Pingo Doce, a mesma que é pertença de um senhor que transferiu a holding da família para a Holanda numa altura de crise nacional, resolveu abrir as portas, aliás na sequência de uma decisão de um executivo liderado por José Sócrates.
E abriu as portas para quê? Para vender todos os seus produtos com 50% de desconto desde que as compras realizadas fossem de valor superior a € 100,00.
Em início de mês, num país em que a taxa de desemprego já passou os 15%, e que caminha a saltos de coelho para os 20%, em que milhares de empresas e famílias são declaradas insolventes todos os meses, os Supermercados Pingo Doce entenderam, aparentemente, conceder uma benesse ao bom povo trabalhador.
Mas não a todo. Só aos que estiveram dispostos a perder o feriado e se sujeitaram a passar meia dúzia de horas nos seus estabelecimentos, lutando para encherem os carrinhos, contribuindo para um espectáculo que teve tanto de imoral como de revelador de uma ética comercial e empresarial a todos os títulos reprovável. 
O mesmo patrão do grupo que há meses censurava a um primeiro-ministro a sua falta de ética política não se importou de mandar abrir os seus supermercados no Primeiro de Maio. Ao tomar tal decisão gerou um espectáculo deplorável, verdadeiro gozo com a pobreza e as dificuldades dos portugueses que têm dificuldade em gerir o orçamento até ao final do mês para comprarem bens essenciais, muitos dos quais foram aumentados pelo actual Governo, apoiado pelos donos dos Supermercados Pingo Doce, por via da alteração da taxa do IVA de 6% para 23%.
Para além do espectáculo gerado num feriado nacional, obrigando os seus trabalhadores a um esforço adicional para conseguirem conter a turba, com gente a passar horas nas filas enquanto outros se esgadanhavam para entrarem nas lojas e alcançarem um qualquer produto antes dele se esgotar, açambarcando o indispensável e o supérfluo, com o dinheiro que tinham e com o que não tinham, a atitude dos Supermercados Pingo Doce permite-nos tirar uma de duas conclusões: ou o Pingo Doce praticou preços abaixo do seu custo, praticando uma política de dumping, ou então essa cadeia de supermercados tem margens de lucro superiores a 100%*, que lhe permite vender produtos com 50% de desconto em relação ao preço de aquisição aos seus fornecedores, sendo que, neste caso, a cadeia de supermercados se comporta como um vulgar agiota perante aqueles que contribuem para o seu engrandecimento, tal e qual como uma qualquer financeira de crédito fácil esmifra um devedor insolvente.
Em qualquer caso, o que o Pingo Doce fez foi vergonhoso. Porque se a preocupação do Grupo Jerónimo Martins é facilitar a vida aos portugueses, permitir-lhes que comprem produtos mais baratos sem violar a lei e sem dar cabo da concorrência, praticando uma política socialmente responsável, então os Supermercados Pingo Doce que o façam todos os dias da semana, durante todo o mês, contribuindo para uma descida geral dos preços e poupando-nos a tão triste quanto deprimente espectáculo.
Eu, que já não gostava de bancos e de seguradoras, entidades que nunca estão quando são precisos e se dedicam a tirar o maior partido dos desgraçados que precisam de comprar uma casa para viver ou a inventar exclusões para não honrarem os compromissos que assumem, ao mesmo tempo que pagam dividendos chorudos a ex-governantes e emprestam dinheiro a especuladores para nos enterrarem a todos, acrescentei a partir de hoje mais um conjunto de estabelecimentos a essa lista: os Supermercados Pingo Doce e o Grupo Jerónimo Martins.
Que o capital não tem pátria, como tão bem nos demonstrou Alexandre Soares dos Santos há bem pouco tempo, já todos sabíamos. A partir de hoje também temos a certeza de que não tem ética, moral, vergonha ou respeito perante a pobreza e as dificuldades dos portugueses.


* - Alertou o Paulo Godinho e com toda a razão, depois de eu ter escrito 50%: "(...) para fazerem o que fizeram hoje, a margem de lucro teria de ser de, pelo menos, 100% e não de 50%. A margem de lucro é calculada a partir do preço base do produto, enquanto o desconto é calculado a partir do preço final. Só se pode ter capacidade para vender produtos por metade do preço (50% de desconto) se se tiver os produtos à venda pelo dobro dos preços pelos quais foram comprados (margem de lucro de 100%). Para ter um produto à venda por 10 e poder vendê-lo por 5 (50% de desconto), só se o tiver comprado a 5 ou a menos de 5, pelo que, se o está a vender a 10, está a ter uma margem de lucro de, pelo menos, 100%. Isto sem considerar quaisquer outros custos para além do preço pelo qual os produtos foram comprados".

segunda-feira, abril 30, 2012

Palavras actuais

"En parcourant l'histoire des sociétés, nous aurons eu l'occasion de faire voir que souvent il existe un grand intervalle entre les droits que la loi reconnaît dans les citoyens et les droits dont ils ont une jouissance réelle; entre l'égalité qui est établie par les institutions politiques et celle qui existe entre les individus: nous aurons fait remarquer que cette différence a été une des principales causes de la destruction de la liberté dans les républiques anciennes, des orages qui les ont troublées, de la faiblesse qui les a livrées à des tyrans étrangers." - Condorcet, Esquisse d'un tableau historique des progrès de l'esprit humain (1793-1794), p. 199.

A circular

O teor desta carta que circula pela Internet levanta muitas questões que importaria esclarecer. Admito que entre a bazófia e alguma esquizofrenia haja factos cuja verdade é de toda a conveniência resgatar e apurar para bem da nossa democracia. Alguns estão tão bem situados temporal e espacialmente que não deverá ser difícil  cruzar informação. Gostaria de ver colocado um ponto final nesta história mas não sei se algum dia tal acontecerá. Com excepção dos que partiram, dos envolvidos à arraia miúda, por uma ou por outra razão, a maior parte dos nomes que aparecem referidos diz respeito a gente cuja companhia já então era pouco recomendável. E os mortos continuam a não poder falar.

Títulos (5)

"Cimentos - Governo assume preferência pela Camargo" - Expresso, 28/04/2012

"Desemprego 'real' dispara em Portugal" - Expresso, 28/04/2012

Lido

"Mas a questão da prevalência das lealdades partidárias às competências exigidas para o desempenho dos respectivos cargos não se fica pelo exemplo atrás referido [Tribunal Constitucional].
Com efeito, o facto do Governo ter criado uma comissão, dita independente, encarregada do processo de recrutamento de dirigentes da função pública, está a confessar publicamente que os membros do Governo são incapazes de resistir à pressão das forças partidárias e assim assegurar a isenção na escolha dos responsáveis máximos pelas instituições públicas.
Esta confissão, se por um lado nos tranquiliza por indiciar uma intenção meritória, por outro preocupa-nos.
Com efeito, esta decisão demonstra como as instituições que, pela sua vocação, têm a seu cargo a defesa do interesse nacional e, nessa medida, devem ser competentes e eficientes na gestão de recursos, podem estar capturadas pelas máquinas cujas clientelas estão, em muito casos, empenhadas em defender interesses que nada têm a ver com o colectivo." - Manuela Ferreira Leite, Expresso, 28/04/2012  

sábado, abril 28, 2012

Leituras (boas, da Quetzal, para todos os dias)


"Estranha, esta angústia do presente, do futuro.
Estranha, a imobilidade em que me perco, como se tivesse milhões de horas para esbanjar.
Estranho o medo que me prende.
Estranha, a inconsciência com que governo o dia-a-dia (a vida, essa, é ingovernável...).
Não sou o primeiro que deseja o repouso do não-ser, gasto pelos amanhãs que não vêm - ou temendo-os - pernas e maõs bloqueadas, cérebro vazio, nauseado, sem saber.
Amanhã!
E amanhã será como hoje, como ontem, como sempre, insatisfeito, triste, longe, mas enraizado naquela terra donde vim.


"Acordou com a luz quente do Sol, que durante o Verão, a meio da manhã, entrava quase sempre pelas nesgas entre as lousas mal sobrepostas no telhado. O pano de linho que cobria a enxerga estava manchado de sangue, e o cheiro doce da seiva das dedaleiras e das dulcamaras enchia a casa. Tinha finalmente chegado o que esperava havia então mais de dois anos: a hora da mandrágora."

sexta-feira, abril 27, 2012

De luva branca

Nunca tive particular atracção pela figura, nem apreciei o seu estilo enquanto Presidente da República. Menos ainda o seu patrocínio à aventura semi-péronista do PRD. Porém, nunca deixei de lhe estar reconhecido, como todos os portugueses de boa índole deveriam estar, pelo papel que desempenhou no 25 de Novembro de 1975.
Com o decurso dos anos, em especial dos mais recentes, creio que o comecei a ver com outros olhos, a compreendê-lo melhor, e a perceber algumas das atitudes e decisões que tomou no passado.
Não sendo particularmente simpático aos olhos da opinião pública, manteve sempre um comportamento acima de qualquer suspeita, como militar e como cidadão, coisa que de alguns dos seus pares não poderei dizer.
A entrevista, magnífica, diga-se de passagem, que foi exibida no dia 25 de Abril, voltou a surpreender-me positivamente. E embora possa manter a discordância quanto a algumas das interpretações que faz, não deixei de registar o momento em que referiu que nunca lhe passaria pela cabeça receber outro ordenado enquanto Presidente da República que não o da função exercida. Menos ainda, e isso ele não o disse, lhe passaria certamente pela cabeça receber outro ordenado - mais elevado - e ainda acumular com as ajudas de custo da função cujo ordenado recusara. Mesmo que não tivesse dito mais nada, só por isso, teria valido a pena ouvi-lo.
Um homem que sabe dar-se ao respeito tem outra dimensão. E autoridade. Ainda quando se discorda dele.      

quinta-feira, abril 26, 2012

Fechem a RTP

Pelo menos há trinta e sete anos que a RTP passa regularmente programas sobre o 25 de Abril. Durante décadas vimos filmes, entrevistas, reportagens. A revolução entrou nas escolas, tornou-se tema de estudo e de reflexão. Foram investidos milhões a dar a conhecer o 25 de Abril às novas gerações. E, que diabo, o 25 de Abril não ocorreu há séculos. Pois bem, ontem, uma simples reportagem televisiva atirou por terra todo esse trabalho que, certamente, terá contribuído para justificar muitos dos défices de exploração da televisão pública em anos recentes. A geração "mais bem preparada de sempre" também chegou ao parlamento e foi penoso, deprimente, confirmar o seu baixo nível e grau de ignorância.
Não saber quem foi o último Presidente do Conselho deposto em 25 de Abril de 1974, dizer que Vasco Lourenço foi primeiro-ministro, ou que Vasco Gonçalves é que foi o primeiro primeiro-ministro após a revolução, enfim, são falhas que eu até poderia compreender se estivéssemos a falar de gente da rua, de desempregados sem estudos, de pessoas sem qualificações.
Agora se os entrevistados são deputados na presente legislatura, licenciados em "relações internacionais e ciência política" mas nem sequer conhecem um mínimo da história que fez deles deputados, permitindo-se dizer as alarvidades que essa reportagem demonstrou, é sinal de que, de facto, só se andou a perder tempo e a gastar dinheiro e que os partidos também não cumprem a sua função formativa. Nada de novo, portanto. 
O que lhes foi perguntado é cultura geral, não tem nada de extraordinário, mais a mais sendo eles deputados. Sugiro por isso à senhora presidente da Assembleia da República que no próximo ano organize umas sessões de esclarecimento e formação para os deputados sobre o 25 de Abril e lhes distribua umas brochuras - de preferência coloridas e com pouco para ler para eles não gastarem os neurónios nessa actividade que não rende votos nem senhas de presença - antes destas datas que o país celebra, para que dessa forma os senhores deputados - com a honrosa excepção de um deputado do CDS/PP - não exibam de forma tão despreocupada a sua falta de conhecimentos.
Quando aqui há uns tempos foi realizada uma reportagem de idêntico teor junto dos nossos jovens universitários, não faltou quem bradasse aos céus porque isso não era representativo da nossa juventude. Pois não, não era. Mas esta reportagem da TVI, porque de deputados e militantes partidários com responsabilidades estamos a falar, é bem demonstrativa não só do que eles não sabem, e deviam saber, como da falência do sistema de ensino e do (de)mérito do recrutamento feito pelos partidos. Se esses são os melhores, os que chegaram ao parlamento, imaginem agora o nível de alguns que nunca lá chegarão e que mandam nos partidos a nível local e nas autarquias.
Quem tem razão é Miguel Relvas. Fechem a RTP, fechem o serviço público de televisão que andou durante anos a gastar milhões na preservação da nossa memória histórica. Se nem mesmo os nossos deputados viram esses programas da RTP, que lhes facilitariam a vida e não lhes roubaria tempo de leitura e reflexão à actividade política, conseguiram aproveitar alguma coisa, então é sinal de que o serviço público de televisão também nunca existiu.
Felizmente que o tipo de perguntas feito nessa reportagem não colheu as respostas de alguns membros do actual Governo. Seriam ainda mais tristes, estou certo, mas talvez depois disso talvez já ninguém se admirasse de haver quem com tamanhas responsabilidades se aprestasse para acabar com os feriados do Primeiro de Dezembro e do Cinco de Outubro.
Quando quem tem que saber não sabe, quando não se conhece a História, é a ignorância que triunfa.
Licenciados, dizem-se eles. Pois pois, doutores é o que eles são, sim, mas da mula ruça.

terça-feira, abril 24, 2012

Em Abril, lágrimas mil

"A nobreza está presente onde quer que exista a virtude, mas a virtude nem sempre está presente na nobreza" - Dante

Não sei se alguma vez já se deram conta, mas há duas coisas que um estafermo não pode ter: dinheiro e poder. Dinheiro porque assim que o tem tende a imaginar-se o maior e com a maior desfaçatez convence-se de que é simples, fácil e barato comprar os outros para  obter os seus favores. Poder porque alcançando-o se crê superior, não raras vezes acabando por tentar fazer da humilhação dos seus semelhantes um exercício lúdico destinado a fortalecer esse mesmo poder. Uma das coisas sem a outra, em regra, não causa qualquer mossa à sociedade. Se tiverem riqueza sem poder limitar-se-ão a ostentá-la e a gastá-la à semelhança do que faz qualquer trolha numa taberna quando tem os bolsos cheios. Se ensaiarem exercitar o poder sem riqueza só terão um caminho: ou fazem-no de forma competente e serão aplaudidos ou, sendo incompetentes no mando, serão corridos na primeira oportunidade por aqueles que governam. O problema é quando os estafermos adquirem dinheiro e, por via dele, poder, ou, noutros casos, conquistando o poder conseguem depois enriquecer. 

Os exemplos nas empresas e na nossa vida política são imensos. O 25 de Abril, na generosidade de espírito e entrega de homens como Salgueiro Maia ou dos políticos que asseguraram contra ventos e marés uma transição serena e uma consolidação irrepreensível, ao restituir a liberdade e a democracia ao povo foi tão longe nesse gesto magnânimo que condescendeu com o enriquecimento e a conquista de poder por um bom punhado de estafermos.

Trinta e oito anos depois voltamos a estar sob intervenção externa, entregues à bestialidade de quem não foi capaz de reconhecer, nem de se reconhecer, nos valores e princípios que enformam o nosso contrato social. E que se alguma vez os reconheceram e proclamaram tal só aconteceu transitoriamente enquanto instrumento de conquista do poder e de riqueza, o que fizeram de modo abusivo e fraudulento, enganando aqueles que neles confiaram, desvirtuando e hipotecando sem qualquer pudor o sonho de várias gerações de homens livres, sérios e honrados.

A diluição de responsabilidades políticas e institucionais, o crescimento sem rei nem roque de grupos económicos, cliques e gangues de marginais engravatados, ao mesmo tempo que meia-dúzia de investimentos visíveis serviam para ocultar o desperdício e a inutilidade de sucessivos anos de governação, transformados no penoso cumprimento dos formalismos de uma democracia cujos actores se centravam cada vez mais no seu próprio protagonismo e na apologia de virtudes que nem a melhor das lupas permitia vislumbrar, contribuíram para atapetar a nossa vida pública de uma espécie de pasta lamacenta que aos poucos se acumulou e vagarosamente foi alastrando, espalhando-se pelas juntas do edifício democrático, entrando pela porta principal dos partidos políticos e de agremiações discretas, entretanto escancaradas para receberem a riqueza e o poder que os estafermos iam conquistando nas suas actividades de lobbying, tráfico de influências, compra de interesses e de consciências e contratação dos idiotas úteis que nessas ocasiões sempre aparecem, verdadeiros emplastros que dão cor e cara aos esquemas mafiosos que se encostaram aos partidos, ao poder local e a uma administração central prisioneira do atavismo e da desconfiança em relação a todos aqueles que era suposto servir.

A forma hedionda como os partidos políticos permitiram a ascensão de caciques semi-analfabetos e medíocres, que arrastaram consigo as fichas de outros ansiosos por serem como eles, contemporizando com esquemas, ofertas subreptícias e roubos de sacristia que serviram ao seu próprio financiamento e ao pagamento de campanhas eleitorais, colocaram-nos à mercê dos estafermos que deles se quiseram aproveitar.

Muitos chegaram ao poder enriquecendo, rapidamente e multiplicando benesses à custa de uma muito aplaudida, socialmente reconhecida e institucionalmente valorizada, canalhice ascensional, aliás exemplarmente demonstrada pela forma como verdadeiros biltres foram feitos ministros, conselheiros e comendadores, condecorados e endeusados pelos mais altos magistrados do regime. O povo desconfiou, mas sereno como é ia aceitando as migalhas que sobravam dos seus banquetes. Os poucos que, entretanto, caíram em desgraça - por não terem sido suficientemente generosos na distribuição dos réditos e mais cautelosos no apuramento da "matéria colectável" -, foram entregues pelos seus pares, à laia de sacrifício, como forma de protegerem o grosso da coluna. De atirar areia para os olhos de quem há muito desconfiava do sistema de justiça. 

É impossível fechar os olhos. É impossível ignorar. E de nada serve vilipendiar ou chorar. Foi das nossas mãos que saiu o voto. Foram os nossos olhos que se fecharam quando deviam ter estado abertos. Foi a nossa cobardia, o nosso temor pelo risco, a vergonha de nos encararmos limpos e de cara lavada perante o espelho do passado e a vitrina iluminada do futuro que nos deixou arrastar para o atoleiro.

Trinta e oito anos depois perdemos o direito de sindicar o passado e de impugnar os nossos actos. Ninguém espera que os estafermos se retratem. Bem pelo contrário, eles estão aí vivos, bem vivos, no meio de nós, usando a sua máscara veneziana nos momentos eleitorais, distribuindo folhas de coca à malta das jotas, sob a forma de apelos vigorosos à alegria no desemprego, à crença na infalibilidade jacobina - estranho paradoxo - de economistas ditos "liberais" e/ou "neo-liberais".

Precisamos de uma democracia que esteja disposta a correr o risco de sobreviver, que não se deixe iludir pelo ar elegante e bem cheiroso dos estafermos que a condicionam nas escolhas e ainda assim os enganam nas poucas que são feitas, violando de forma inaudita, vergastando e mutilando a honra da república e de todos aqueles que deram o corpo às balas para que este país não fosse uma coutada de estafermos

O percurso que temos vindo a trilhar terá de ser interrompido. Se necessário à bruta. Sempre fazendo uso das armas que a democracia nos trouxe. Pela virtude da palavra. Pelo gesto ousado. Pela escrita vigorosa, clara e descomplexada. Pelo voto. Enfrentando os estafermos no seu próprio campo, no espaço público, que é onde mais lhes dói e lhes faltam os espaços para se esconderem.

Porque sendo naturalmente cobarde, o estafermo, quando acossado no seu palácio, esconde-se da luta nos subterfúgios da democracia. Nos tugúrios da política e nos templos do consumo. Numa democracia não pode haver esconderijos, muito menos um Olimpo onde os estafermos se acolham impunes à espera de uma choruda reforma. Numa democracia não pode haver virgens para serem oferecidas aos estafermos que adquirem riqueza e poder sem mérito. Numa democracia, a gente séria não pode conviver com pulhas e sovinas que singraram sem esforço fazendo favores a outros pulhas e sovinas que foram engordando e ensebando os seus dorsos com a luz, a manteiga e o combustível que os nossos tributos pagaram. 

Porque o esforço que homens como Salgueiro Maia, Emídio Guerreiro, Francisco Sá Carneiro, Sottomayor Cardia, Amaro da Costa, Salgado Zenha, Magalhães Mota, Sousa Franco ou Ernâni Lopes, para só citar alguns, fizeram, não pode ficar dependente da mentira, do disfarce e da ignorância de um qualquer primeiro-ministro, do cinismo dos biltres que o assessoram, de um Presidente da República que se deixa enganar pelo primeiro canalha e se convence de que tem razão, de polícias alucinados que a democracia transformou em empresários e dirigentes empenhados na coscuvilhice, de políticos tão rasteiros quanto mansos na forma como dissimulam e iludem, enfim, de estafermos de carne e osso sempre prontos a servirem e a servirem-se dos outros como de carne para canhão.    

Porque, já agora, não é possível construir uma sociedade livre e democrática, uma sociedade que se reja por padrões mínimos de decência, civilidade e solidariedade social, quando os estafermos se passeiam pelas avenidas, usam aventais bordados a ouro, a miséria é varrida para debaixo do tapete e o Presidente da República está preocupado com a gestão das suas poupanças.

Queríamos, queriam, que as flores de Abril tivessem florescido. Mas as flores de Abril há muito que murcharam, sendo substituídas nas lapelas por uns rectângulos serôdios em plástico que imitam a bandeira nacional. O patriotismo foi transformado numa patrioteira lamurienta, frívola e pirosa, aplaudida por canalhas que depois de terem rebentado com o sistema financeiro exigiram os nossos impostos para taparem o buraco que eles próprios criaram para pagarem dividendos aos que hojem se queixam do valor das reformas.

Os portugueses permitiram a ruptura do contrato social. Acomodaram-se, perderam ousadia, viraram a cara para o lado enquanto o vizinho batia na mulher e nos filhos. Porque não era com eles. Viram os estafermos, qual praga, treparem por todo o lado, ajudados pelos estafermos que já lá estavam e que lhes atiravam cordas e escadas para os ajudarem a trepar mais depressa, empurrando e derrubando, ajeitando-se nos bancos das empresas públicas, atafulhando-se de robalos e de charutos oferecidos por construtores civis, arrotando como porcos à porta do Tavares e rindo alarvemente enquanto se roubava o erário e se desmantelava o Estado.

E a Europa, a Europa senhores, essa só nos reconhece dentro dos estádios para onde atiram as moedas que os mais afoitos recolhem. Rastejando se necessário. Não podemos contar com ela porque ela só conta connosco para assegurar o pagamento dos juros.

Fazer a revolução que nunca se fez, recolocá-la nos carris, não é difícil. Fosse tudo tão simples. Não é preciso voltar à estaca zero, "empobrecer" como dizem alguns cretinos, nem destruir o pouco que se construiu. Bastará abrir os olhos, levantar a cabeça, olhar à nossa volta e correr com os estafermos que se abotoaram com o contrato social, colocando-o ao seu serviço.

Os portugueses não podem ficar eternamente à espera que os resgatem, que apareça um D. Sebastião ou um capitão de Abril que lhes restitua a dignidade e a honra. Os portugueses têm de crescer. Só a eles incumbe o dever de resgatar o contrato social. E podem ter a certeza de que não será o Presidente da República, um Passos Coelho, um Relvas, um Seguro, um Portas, um Gaspar, ou um delirante qualquer das economias, que irá fazê-lo por ele. Nem mesmo o velho Mário Soares que já está em idade de ter o merecido descanso.

Os portugueses têm de arregaçar as mangas, colocar a voz e a pena, e tomar conta do espaço público. Entrando pelos jornais e pelas televisões, elevando a voz nas empresas e nos sindicatos, nos hospitais, nos centros de saúde, nas escolas, nas repartições de finanças, nos tribunais, nas autarquias, arrombando as portas e as grilhetas dos partidos políticos. Libertando-os da canalha, filiando-se neles para exigirem a esses partidos responsabilidades, correndo com os estafermos, e com os seus filhos e afilhados, que tomaram conta deles e das autarquias e que na sombra gerem negociatas e o trade-off da corrupção. Os portugueses terão de fazer funcionar a democracia a toque de caixa se quiserem sobreviver. A democracia terá de ser neste Abril uma verdadeira bomba de fragmentação que penetre as consciências e o tecido social. Não há outro caminho. E que as carpideiras chorem tudo neste Abril, porque o que aí vem não é para flores de estufa. É preciso resgatar a democracia. É preciso secar as lágrimas e voltar a fazer funcionar o contrato social. É preciso libertar Portugal dos estafermos para que a democracia floresça.

P.S. Discordo, embora compreenda, a decisão da Associação 25 de Abril. Mas  é dentro das instituições que a autoridade moral e a legitimidade de quem fez e se afastou tem de ser ouvida. Como Vasco Lourenço tão bem sabe, lá dentro já temos "Rochas Vieiras" que cheguem.      

sexta-feira, abril 20, 2012

Uma borrada em toda a linha

Não posso estar mais de acordo com Jorge Miranda, Mouraz Lopes e Rui Cardoso, o novo presidente do dito "Sindicato dos Magistrados do Ministério Público". O que aconteceu com a indicação dos nomes propostos pela Assembleia da República para as vagas abertas no Tribunal Constitucional constitui mais um lamentável episódio nesse caminho que os principais partidos políticos insistem em trilhar e que passa por confundirem a justiça com a política enquanto arrastam ambas para o lodaçal.
O Tribunal Constitucional talvez seja uma das poucas instituições da República que tem sabido cultivar a inteligência, a discrição e a respeitabilidade, procurando manter-se à margem da idiotia generalizada.
Se a saída de Rui Pereira para o Governo já tinha sido antes um péssimo sinal, aliás dando guarida às primeiras críticas que tinham sido formuladas quanto a uma tentativa de desvirtuamento das suas funções e de menorização do seu estatuto, os nomes que foram agora indicados pelo PS e o PSD raiam o absurdo.
Não estão em causa as qualidades jurídicas dos nomeados. O que se discute é o seu perfil para integrarem um dos órgãos de soberania mais importantes da nossa estrutura judicial. E a ser verdade o que o Público escreve, apontando como razões para a sua indicação o facto de pertencerem à mais influente obediência maçónica, isso só quer dizer que as escolhas estavam feitas antes mesmo de o serem.
Tenho pena que os ideais maçónicos agora apareçam por tudo e por nada misturados nesta espécie de jardim zoológico em que vivem as nossas instituições mais representativas. 
Olhando para o que se está a passar tenho por vezes a tentação de dizer aquilo que Haffner disse de Weimar: "uma república sem republicanos". Quanto àquela todos sabemos como acabou. Quanto à nossa, confesso que não gostaria de estar cá no momento em que ela se finar. 
A vida é um caminho que se vai fazendo, onde tudo tem o seu tempo, onde tudo passa por processos de aprendizagem, aquisição de conhecimentos, de experiências, e, em particular, pela aquisição de valores e de princípios que em momentos de crise nos ajudem a seguir um rumo, a definir um caminho. Não é feita de escolhas apressadas, atamancadas para responderem ao imediatismo do quotidiano e à sofreguidão e sede de protagonismo de alguns actores.
Com as escolhas que fizeram, pela forma como negociaram os nomes nos bastidores e os impuseram, PS e PSD  mostraram disponibilidade para transformarem o Tribunal Constitucional em mais uma choldra ao nível do que de pior os partidos têm sido capazes de produzir. E, quer queiramos quer não, este sinal que uma vez mais é dado à sociedade funciona contra os próprios partidos, contra o estado de direito democrático, contra a qualidade da democracia e o respeito pelas suas instituições, representando mais um atestado de incompetência passado em letras garrafais às suas elites dirigentes.
Continuem, pois, e não mudem nada que não é preciso.

terça-feira, abril 17, 2012

Não estranhem

Para além dos afazeres quotidianos, há momentos em que é necessário afastarmo-nos para podermos depois ver as coisas com mais lucidez e mais distância. E também é preciso pôr as leituras em dia e preparar o trabalho futuro. Não se admirem, por isso, pela ausência. Em breve, lá mais para o final do mês, voltarei a colocar no papel, ou nos vossos monitores, os meus estados de alma e tudo aquilo que os meus olhos vêem do vosso (nosso) Portugal. Até lá, para além dos recortes que aqui irei deixando de alguns fragmentos do quotidiano, a única coisa que vos posso recomendar é que vão olhando para a vossa sombra. Nunca se sabe quando atrás dela segue um vice-presidente do Sporting ou o ministro das Finanças. E o seguro, sabêmo-lo todos agora, se nalguns casos morreu de velho, noutros terá sido pela fragilidade da cobertura das apólices contratadas.

segunda-feira, abril 16, 2012

Títulos (4)

"Economia vai ter menos dinheiro do QREN do que Governo prometeu" - Público, 16/04/2012

"Pressão do IRS sobe 200 milhões" - Correio da Manhã, 16/04/2012

"Saúde impõe contratação de médicos pelo valor mais baixo" - Diário de Notícias, 16/04/2012

"Estado entrega a quem quer 90% das obras" - Jornal de Notícias, 16/04/2012

"Preço dos ovos vai disparar em Portugal" - i, 16/04/2012

"Crise está a fechar 16 empresas por dia desde o início do ano" - Diário Económico, 16/04/2012

sexta-feira, abril 13, 2012

Leituras

"Porquê? Porquê este niilismo? Porquê esta traição da nobreza de espírito?

A sedução do poder é a primeira razão: ser finalmente influente, ser finalmente ouvido, e, de preferência, ser igualmente admirado. Nada vicia tanto como o poder e a fama. E para se agarrar a isto, para se manter a posição de ideólogo ou especialista de partido, para ser porta-voz do 'público', é necessário adaptar-se constantemente. se existe algum lugar onde a submissão reina é entre os intelectuais politizados. A ideia de arriscar perder o poder e a influência pela independência intelectual enche esses realistas de terror. Por causa do poder político abandonam o mundo do espírito. (...)

Uma segunda razão para a infidelidade aos valores imortais e à nobreza de espírito é a má fé. Alguns intelectuais não acreditam nessas qualidades. A imensa influência do paradigma científico desempenha aí um importante papel. Imortalidade, significado, valor, bem, mal, beleza, amor, compaixão, sabedoria, justiça, experiência, virtude e auto-conhecimento são palavras que não existem na linguagem das ciências. A sua linguagem é da objectividade, factos, análise, objectivo, progresso. Quando o mundo intelectual é aprisionado por esta linguagem sem sentido, o espírito perde a capacidade de exprimir o significado. Os factos, em si e por si, não significam nada. A verdade da realidade só pode surgir através do conhecimento dos valores, da distinção entre útil e inútil, bem e mal, significativo e insignificante; ou seja conhecimento cultural, inserido na linguagem dos artistas, poetas e pensadores. Esta linguagem é desconhecida para os clones intelectuais pseudo-científicos. É por isso que escrevem tão mal. Com excepção de notícias do mundo da 'realidade social', não têm nada a revelar que valha a pena".

quinta-feira, abril 12, 2012

Um ex-apoiante de Passos Coelho na primeira pessoa

"Começa a ser tarde para os portugueses admitirem o que é evidente: o Governo está a falhar na resolução da crise, aproveitando-a, entretanto, para impor um programa político com que nunca teria sido eleito. A degradação da economia e das finanças é clara: o défice só baixou em 2011 pelo recurso artificioso ao fundo de pensões dos bancários; do que se conseguiu em ajustamento do Orçamento de Estado, 75 por cento deveu-se ao aumento dos impostos e só 25 por cento à redução das despesas, sendo certo que se atingiu o extremo direito da curva de Laffer (impossibilidade de arrecadar mais receitas aumentando a carga fiscal), o desemprego saltou para os 15 por cento; a dívida pública subiu e aproxima-se dos 115 por cento do PIB, que desce 3,3 pontos percentuais; desapareceu o investimento público e o privado tem a especulação financeira por paradigma (o banco do estado financia especulações bolsistas de um grupo milionário, enquanto empresas viáveis recusam encomendas do estrangeiro por não terem dinheiro para comprar matérias primas)." - Santana Castilho, Público, 11/04/2012

Um tipo depois de ler este texto do prof. Santana Castilho, que foi figura de proa do PSD na campanha para as legislativas de Junho passado e que foi inclusivamente convidado por Passos Coelho para apoiar a redacção do seu programa em matéria de Educação, fica a pensar se para além da evidente má-fé de quem mais não tem feito do que aldrabar os portugueses, afinal dando cobertura e razão ao que José Sócrates e Teixeira dos Santos fizeram, será apenas um problema de ineptidão. Ou se haverá algo mais que os aproxime tanto do reino da estupidez.

P.S. Clique na imagem para ler o texto todo.

Coisas do arco da velha

Ainda estou para perceber por que raio Passos Coelho ou Miguel Relvas não fizeram dele ministro. Entre Vítor Gaspar e "o Álvaro" o fulano devia ganhar inspiração para escrever mais ensaios deste calibre

segunda-feira, abril 09, 2012

Mandarins em pânico

O anúncio da candidatura de Luís Graça à direcção da Comissão Política Concelhia do Partido Socalista, em Faro, é sinal concludente da apreensão com os que sectores mais conservadores do PS/Faro encararam o simples anúncio da candidatura de Mário Dias, na semana passada.
Com efeito, o anúncio de Mário Dias teve o mérito de colocar imediatamente em acção a velha estrutura partidária, adormecida após a derrota eleitoral de José Apolinário - agora agrilhoado ao Governo PSD/CDS num cargo de confiança política -, mobilizando os seus antigos indefectíveis em torno de um estimável e ilustre militante, antigo assessor daquele histórico do PS na Câmara de Faro, e que de sopetão, como que por artes mágicas, se transformou de não-candidato assumido em candidato do regime.
Basta atentar no facto de Mário Dias ter anunciado a sua candidatura e a apresentação de uma moção de orientação política para a Concelhia, que terá lugar numa conferência de imprensa agendada para o próximo dia 11 de Abril, para que, não obstante o período pascal, tal aviso à navegação tivesse mobilizado os órfãos que nos últimos anos assistiram impávidos e serenos ao definhar do PS/Faro, ao desmantelamento do sonho de renovar a cidade e de fazer dela uma verdadeira capital da região, para que todos aqueles que medraram e fizeram a vidinha à sombra do guarda-chuva do partido se agrupassem para convencerem Luís Graça a avançar.
Reza a história que candidatos cujas candidaturas são condicionadas pelas estruturas oligárquicas das quais dependem para chegarem ao terreno, e que só se assumem como candidatos depois de muito instados e de juras de não candidatura - é o que consta nos mentideros locais -, se eleitos dificilmente conseguem ganhar autonomia suficiente para executarem os programas que apresentam.
Excepções à parte, para já sabe-se apenas que a moção do afável Luís Graça se irá intitular "Novo Sentido", embora do título não se descortine a quê que o candidato pretende dar um novo sentido, ou a quem ou com quem. Nem se o novo sentido será só para o trânsito na cidade ou se para o partido. Noutra vertente, a moção de Mário Dias, o primeiro canddiato a sair à liça, escolheu apresentar-se sob um lema bem mais ambicioso -  "Mudança em Acção - Participar, Renovar, Vencer" -, o que só por si diz bem da diferença que vai entre os projectos (havendo-os) e do posicionamento dos candidatos no terreno. Como se sabe, é grande a diferença entre dar um novo sentido, com os mesmos e velhos camiões cansados e poluentes, ou acordar de um estado de inércia e letargia, de não fazer ondas e deixar Macário andar, para agir, participar e renovar.
A ver vamos. Por agora importa aguardar pela apresentação das moções e das equipas que os candidatos irão alinhar para se poder fazer uma avaliação séria das propostas e daquele que virá a ser o cenário pós 1 e 2 de Junho. Cenário que não poderá ser dissociado da eleição do novo presidente da Federação do Algarve, que ocorrerá logo após as eleições das novas concelhias, e da circunstância de se começarem a perfilar e descortinar as sombras das  primeiras manobras de bastidores por parte dos interesses que habitualmente gravitavam (gravitam?) em torno da autarquia de Faro, agora na esperança de não apostarem no cavalo errado.

quarta-feira, abril 04, 2012

Ele merece

Ele nunca deixou de dizer de onde vinha e a quem queria bem, mas isso não o impediu de ser um dos melhores. Merece, por isso mesmo, perante mais um afastamento imbecil, a nossa solidariedade pela isenção de que sempre deu mostras. Merece o nosso apoio pela sua autenticidade. E ainda merece o nosso aplauso por não ser hipócrita num país e numa televisão cheia de subservientes sempre prontos a dizerem ámen para poderem sentar-se junto à manjedoura.

A ler

Um belo texto, uma bela homenagem, de um homem que escrevendo como escreve devia escrever sobre tudo menos sobre política. No Diário de Notícias.

sábado, março 31, 2012

Comparações

"Enquanto hesitar, Seguro continuará refém de uma bancada parlamentar que suspira por Sócrates. Se quiser sobreviver, tem de optar pela rutura e deixar muita gente pelo caminho. É a vida. (...)
António José Seguro ainda não percebeu onde se enfiou. Hesita entre as viúvas de Sócrates e o memorando da troika, entre esquerdistas bissextos e a UGT, entre esperar pelas decisões do Governo e impor negociações. Para sobreviver tem de fazer uma rutura clara com o passado recente e escolher um rumo." - Ricardo Costa, Expresso, 31/03/2012 


"- Um grupo parlamentar talhado à medida da débâcle e do tenebroso "aparelho" que o manteve à tona, iludido e convencido de si;
- Um partido centralizado, acomodado, manietado, silencioso e acrítico, do tipo "Maria vai com as outras", que não honra a tradição republicana e socialista;
- Um núcleo subserviente, agarrado como uma lapa à figura do líder e onde qualquer olhar crítico é visto como um acto de rebeldia, de falta de solidariedade e de lealdade para com quem manda;  
- Um futuro líder agrilhoado a um conjunto de deputados (nem todos) eleito em 5 de Junho, que tudo fará para que qualquer alternativa à sucessão saia de um dos seus, obrigando o futuro líder, se quiser aspirar a uma liderança efectiva, a ter de contar com eles, com as suas manobras de bastidores, cliques e egoísmos para reconstruir o partido na Oposição" - Sérgio de Almeida Correia, Delito de Opinião, em 06/06/2011

sexta-feira, março 30, 2012

A ler

"A reconciliação interna do PS como a reconciliação do PS com os portugueses pedem mais do que uma 'autocrítica'. Pedem um destino. E que destino nos pode o PS agora oferecer?" - Vasco Pulido Valente, Público, 30/03/2012

Títulos (1)

"Economia estagna em 2013 e Portugal perde mais 200 mil empregos

Mantém-se a tendência de revisão em baixa das previsões do crescimento do banco de Portugal. Uma recessão mais profunda do que o esperado já custou 520 milhões de euros às contas do Estado" - Público

quarta-feira, março 28, 2012

País de pacóvios

Em Macau, nos tempos da Administração Portuguesa, houve uma paragem de autocarro, doada por uma instituição filantrópica, que foi inaugurada por um Secretário-Adjunto do Governador de Macau. Ou seja, pelo equivalente ao nosso ministro dos Transportes. Mesmo em Macau o assunto foi tema de comentário político e gozo generalizado. Mais de uma década depois a história repete-se.
Agora temos um ministro - o ministro da Economia e do Emprego, segundo reza a notícia - que acompanhado de dois secretários de Estado Adjuntos - respectivamente, da Economia e Desenvolvimento Regional e o do Emprego -, e de provavelmente meia-dúzia de deputados, autarcas e dirigentes partidários, vai inaugurar, isto é, patrocinar, a reabertura de um supermercado remodelado da cadeia Alicoop/Alisuper.
Acho muito bem que se recuperem empresas falidas, que se criem novos e se mantenham os poucos postos de trabalho ainda existentes, mas associar três membros do Governo, sendo um deles o ministro, à reabertura de um supermercado junto de um aldeamento turístico de luxo, parece-me excessivo.
Não sei se o ministro da Economia possui algum estudo que revele dados sobre a recuperação económica do Algarve na próxima década que sejam desconhecidos dos portugueses, mas gastar gasolina e portagens e um bom par de horas de trabalho para vir a um Algarve cada vez mais triste, desertificado, falido e com mais de 20% de desempregados, para inaugurar uma tabanca sem dimensão ou qualquer significado, fora dos grandes centros e que irá servir prioritariamente gente que compra e arrenda casas em Vale do Lobo, como Cristiano Ronaldo ou Louis van Gaal, é de todo desajustado. Se a coisa for para continuar, um destes dias tê-lo-emos a inaugurar bares de praia.
Se o homem em vez de fazer discursos com um brilhozinho infantil nos olhos para atacar o passado que ficou morto e enterrado em 5 de Junho de 2011, e de anunciar investimentos megalómanos em minas, que não se concretizam, e inaugurar supermercados (qual vai ser o salário médio daqueles que ali vão trabalhar?), se dedicasse a produzir algo de mais útil para o nosso futuro não seria mau. É triste dizê-lo, mas parece que há qualquer coisa que não funciona naquelas cabecinhas. As prioridades desta gente estão cada vez mais distantes das do país real e dos portugueses.

domingo, março 25, 2012

Requiem



Eu prefiro a angústia à paz podre, (…), entre as duas coisas prefiro a angústia

Apresentou-se-me com as suas crónicas há um bom par de décadas. Li as publicadas em jornais, uns nossos, outros que me chegavam, e um ou outro texto rápido que amiúde surgia. Apaixonava-me a forma cristalina e a um mesmo tempo subtil como atraía a nossa atenção para as coisas simples da vida. As coisas que fazem dela um drama, uma luta permanente e um mar de alegrias e emoções. E confesso que foi, paradoxalmente, graças ao engenho da professora Lucia Margutti, ao ler a tradução italiana do seu primeiro romance escrito integralmente em português, Requiem, que me apercebi da genialidade da obra e me interessei por conhecer o homem por trás dessas linhas.

Mais do que um cultor da palavra, um esteta da alma humana, um académico, um pensador, um dramaturgo e romancista internacionalmente premiado e reconhecido, ele foi, é, e será sempre para mim uma espécie de Fernando Pessoa a falar italiano. Talvez porque, como ele próprio escreveu, o seu pai não conhecesse nenhuma língua estrangeira e a língua da sua infância tivesse sido “um toscano rústico marcado por entoações e por um léxico dialectal típicos da região de Pisa e Lucca” é que tenha sido capaz de, tal como o Sol, se colocar atrás da montanha para aos poucos a ir iluminando até surgir por cima dela, dando cor, luz, espaço e profundidade às tonalidades da voz e do sonho. Como poucos soube dar à voz humana a dimensão de um arco-íris, tornando reais as suas entoações. As suas emoções.

Da “Piazza D’Italia”, seu primeiro romance escrito em 1975, passando pel’“O jogo do reverso”, “Nocturno indiano”, o fabuloso “A Mulher de Porto Pim”, homenagem aos Açores, às baleias e aos baleeiros, ou pela “Afirma Pereira”, sem esquecer as peças de teatro e os ensaios que nos legou, fosse na corajosa defesa da democracia e da liberdade numa Itália acossada pelo berlusconismo, o que lhe trouxe alguns dissabores, o que para mim fica de toda a vasta e erudita obra de Antonio Tabucchi é o Requiem e a tradução para italiano de toda a obra de Fernando Pessoa.

Portugal estava escrito na sua “bagagem genética” e ele soube como poucos, muito poucos, mostrar que “às vezes uma sílaba pode conter o universo”, da mesma forma que Pessoa nos ensinou que podemos ter em nós todos os sonhos do universo e ser plurais como ele.

A Europa das nações, do pensamento livre, a Itália das artes, o mundo culto e civilizado dos simples e discretos, a literatura, a poesia, o teatro, o Portugal de “A Bola”, o Benfica, todos perderam hoje um dos arquitectos contemporâneos do universo.

O último homem que sabia escrever na língua dos sonhos decidiu ir tomar um café com Pessoa. Ele foi o mais português dos italianos. Morreu o maior escritor português da língua de Dante.

Se eu mandasse, e os italianos me desculpassem, o “gajo” iria para o Panteão Nacional. Tudo o que seja menos do que isso só pode revelar desconhecimento e ignorância pela sua importância para Portugal e os portugueses.  

sexta-feira, março 23, 2012

É a vida

Renascença V+Ver todos os videos
Mal-estar no PSD. Capucho e Rio ausentes do congresso
V Mais Informação | 23 Março 2012

Rádio RenasceçaMais informação sobre este video
Faz hoje um ano. Aos homens de Sócrates sucederam os de Passos Coelho. A José Lello sucedeu Miguel Relvas. Manuel Pinho passou a chamar-se Álvaro. Os Valteres chamam-se agora Rosalino, Júlio ou Moedas. Teixeira dos Santos virou Gaspar. O Presidente da República deu lugar a um funcionário público agastado e poucochinho. O Lima mantém-se em Belém. Os comentadores residentes também. No futebol e na política. Os congressos "kimilsunguistas" da era Sócrates tornaram-se nos congressos "kimilsunguistas" da era Passos Coelho. A Passos Coelho sucedeu Seguro. Jota por jota. Os boys Armani foram trocados pelos jotas Decénio. E as girls são mais assépticas, com ar de teenagers e vozinha esganiçada. Tirando isso, o desemprego aumentou, os impostos e as portagens também, a receita fiscal diminuiu, 150.000 decidiram emigrar e os que tinham vindo para cá regressaram aos países de origem. Os economistas continuam a sonhar com o regresso aos mercados. Mas a EDP, a Galp e a PT estão mais ricas. Vale e Azevedo continua em Londres a passear de Bentley. Paulo Portas viaja mais e com mais estatuto. A blogosfera está mais triste. Os críticos tornaram-se "Abrantes", os "Abrantes" viraram críticos. A polícia de choque voltou às ruas. A RTP e a Antena 1 estão mais obedientes. A LUSA abana o rabo. A regionalização está ferida de morte. Foi trocada pela lusofonia com sotaque angolano e brasileiro. Os ministros rezam. Os que sabem. Alguns nem isso. Outros por chuva. Outros que não são ministros pela justiça que tarda. Auto-estradas na justiça fiscal só para quem tem milhões. Mesmo que depois os ponha na Holanda. Os pobres que se lixem. A pobreza nunca foi prioritária. Só a "chico-espertice". As púdicas virgens querem que o SNS poupe nos abortos. Eu também. Nesses e nos outros. A arbitragem no futebol está como estava. A liga de clubes é que perdeu cabelo; embora já escreva comunicados cheios de maiúsculas "a bem do Futebol". O QREN está às moscas. O TGV agora chama-se ASP de bitola europeia. Um emplastro de ontem é uma aventesma de hoje. O partido das becas está cada vez mais activo. Não tarda elege deputados. O nosso Di Pietro chama-se Martins. Não é grave. Entre nós isso dá-lhe mais tempo de antena do que ao italiano. O país, esse, está cada vez mais pobre. Os portugueses invariavelmente tesos. As moscas mudaram para que depois do processo de reformas em curso (PREC) tudo  ficasse irreconhecível. Mas na mesma. Não ficou. O cheiro é o mesmo. A quantidade não. Aumentou. Espalhou-se. Foge pelas listas da Segurança Social e o obituário hospitalar. Pelos buracos territoriais da nova lei autárquica. Um ano depois a realidade de Lampedusa foi encadernada para distribuir pelos membros do Governo em papel couché. O cheiro do papel disfarça outros menos agradáveis. A fraude perfumada tem mais estilo. E nos intervalos joga-se matraquilhos. Recebe-se o Hermínio, pois claro. Enquanto o Hermínio ajeita as calças o fotógrafo regista o momento. Foram-se os cromos. Ficámos com os trocos. E sem a bola. É a vida.

A ler


"Mas nada explica que a Procuradoria-Geral da República e os tribunais tomem sobre si o encargo de fazer justiça em matéria política: um serviço que obviamente lhes não compete e que, levado ao extremo, pode alterar o equilíbrio constitucional da República".

quarta-feira, março 21, 2012

Evocação

Cada dia que passa percebo um pouco melhor o quanto é difícil chegar aonde chegaste, recordando sempre a tua condução no Mundial de Karting de 1979. E mais te admiro.

Recordar é viver

Dedicada ao Adolfo Mesquita Nunes, de quem espero que recorde isto a Paulo Portas, tanto mais que a gasolina 95, em Faro (nunca percebi porque aqui pagamos mais pelos combustíveis), já está em € 1,729 e competitividade é coisa que o ministro "Álvaro" não consegue devolver, nem às empresas do Algarve nem a nenhumas, preocupado como está com as privatizações que aí vêm e que vão dar dinheiro a ganhar aos amigos angolanos e brasileiros.

Vesgos e mal formados

SLB - 3   FCP - 2

Há três semanas não viram um golo, que lhes deu a vitória, marcado em claríssimo fora-de-jogo, e acharam normal que assim tivesse sido. Ontem, depois de três bolas nos ferros e de terem marcado dois golos com a inequívoca "colaboração" de dois jogadores adversários, numa clara demonstração de que a sorte não estava com os melhores nem com os mais talentosos, foram incapazes de reconhecer a sua pequenez. Que o jogo "não era prioritário", que a Taça da Liga não tinha grande interesse, disseram eles depois do jogo. Mas na hora do apito final vieram logo a correr atirar-se ao árbitro. Estranhos padrões estes em que só são prioritárias as competições em que ainda não foram eliminados e em que os árbitros só são maus quando perdem.
O futebol está cada vez mais parecido com a política. Enquanto o futebol português estiver nas mãos de montanheses vesgos e mal formados será muito difícil sair da cepa torta. 

segunda-feira, março 19, 2012

Razão e Liberdade

"Madison aborda a existência dos partidos num sentido moderno, destacando-os como organizações emergentes de um tecido social vivo e aberto, que assim dinamiza a esfera pública. Este labor processar-se-ia num contexto sócio-político orgânico, onde os partidos se integravam como ideias, propostas e tendências, estimulando e revigorando um debate do qual resultariam políticas que agiam directamente sobre a sociedade e a partir dessa mesma sociedade, com a qual os órgãos políticos estão afinal em permanente diálogo. Neste esquema, os partidos ocupariam, por conseguinte, um papel indispensável como impulsionadores da discussão pública e como mediadores entre o indivíduo comum e as cúpulas dirigentes da acção política".

O pequeno excerto que acima transcrevi diz muito sobre aquilo que é e continua a ser uma concepção moderna do papel dos partidos e aquilo que eles hoje não fazem nem se têm mostrado à altura de saber fazer para preservarem e melhorarem a qualidade da democracia.
O prof. José Gomes André, autor do livro que vêem na foto, teve a simpática lembrança de me convidar para a apresentação do seu livro, que hoje terá lugar em Lisboa, na FNAC do Centro Colombo, pelas 18.30. O prof. Viriato Soromenho-Marques fará a apresentação, tendo sido quem também já prefaciou (não confundir com outras coisas sem pés nem cabeça a que chamam "prefácio") obra tão notável quanto invulgar pelo tema, clareza e sentido de oportunidade no panorama da Ciência Política portuguesa.
Como ali se escreveu, Razão e Liberdade constitui o mais importante estudo alguma vez publicado em língua portuguesa sobre o pensamento de James Madison, o 4º presidente dos Estados Unidos da América, e um "dos mais significativos" publicados "na última década em qualquer parte do mundo".
Tenho admiração pelo trabalho e estima pessoal pelo autor, que conheci graças à iniciativa do comum amigo Pedro Correia, que fez o favor de nos juntar no Delito de Opinião, e a quem daqui também envio uma saudação. Mas, infelizmente, o facto de actualmente viver longe de Lisboa e de ser cada vez mais difícil para os independentes a subsidiação dos combustíveis e das portagens do Dr. Gaspar, impedem-me de poder estar presente. Não será, porém, por esse facto, que deixarei de aqui registar o facto e de apelar à leitura e divulgação de tão importante e generosa obra, indispensável num momento de acesos ataques contra o republicanismo, a liberdade e os valores mais fundos de uma cidadania responsável, ataques que vêm de todos os quadrantes e contra os quais os principais partidos políticos portugueses não têm, em razão de lideranças fracas e incultas e de uma absurda coligação de interesses perniciosos, sabido responder.

sexta-feira, março 16, 2012

A ler

"O regime vai caindo diariamente, sem grande sobressalto (e sem grande interesse) do país, como se o seu fim fosse uma conclusão esperada e até bem-vinda. No meio disto, o sr. Presidente da República, sem que nada aparentemente o obrigasse, resolveu publicar a sua autojustificação e o seu auto-elogio, com o propósito ostensivo de provar a sua refulgente virtude e de prometer que seria no futuro tão imparcial e legalista como tinha sido no passado.

Quem leu essa intrigante peça de prosa (que ele obviamente não escreveu) ficou, pelo menos, com duas perguntas. Primeira, por que razão decidiu agora acusar o defunto Sócrates de "uma falta de lealdade", que a pobre "história da nossa democracia" não deixará de "registar"? Segunda, porque lhe pareceu necessária neste particular momento a defesa de cada acto da sua passagem por Belém? Quanto a Sócrates, não há dificuldade em responder: um homem que foi "desleal", com o Presidente, está para sempre fora da politica. Quanto à intempestiva apologia que envolve e completa o assassinato, é uma absolvição plenária de qualquer responsabilidade que lhe possam atribuir na crise.

É já amanhã

Em fim-de-semana de início do Mundial de F1 (Melbourne) e do Campeonato Superstars (Monza), vai correr-se o 1º Grande Prémio de Resistência do Indoor de Olhão. O Cascais South Winds Racing Team vai fazer a sua estreia em competição e esperam-se grandes tempos do bólide que será pilotado pelos experientes Paulo Jorge Vicente e Fernando Fevereiro Mendes, aos quais eu me associarei como 3º piloto. Serei o "rookie" da equipa e espero humildemente aprender alguma coisa e contribuir para o sucesso do CSW (nada de confusões com CSI) antes de Luca di Montezemolo me oferecer um contrato vitalício com os meus amigos da AF Corse. Será a partir das 16h e deverá estar concluído pelas 19 h.

quinta-feira, março 15, 2012

Um texto notável de Stefano Rodotà

Tem por título "Questão moral, último acto" e foi publicado no La Repubblica de segunda-feira passada, dia 12 de Março. Li-o no avião e estava a ver como seria possível digitalizá-lo para o levar até vós quando percebi que o seu impacto foi tão grande na sociedade italiana que é possível lê-lo em vários locais, da resenha de imprensa do Ministério da Defesa italiano até à página do Partido Democrático, passando por inúmeros blogues e páginas de jornalistas. Mais importante, ainda, porque o autor não se esqueceu de sublinhar as palavras do cardeal Tettamanzi ao deixar a importantíssima diocese de Milão: a de que nada se aprendeu com a operação Tangentopoli porque a questão moral continua a ser decisiva.
As semelhanças entre o que aconteceu em Itália e o que de há uns anos a esta parte se vive em Portugal exige que prestemos muita atenção ao que ali se passou e ao que Rodotà escreveu. Basta ver o que sucedeu entre nós com as PPP, com as obras públicas clientelares, que tiveram o tiro de partida com Cavaco Silva,  com o que está a acontecer com a Saúde, com o que se passa na Justiça, em que até o partido das becas, corroído pela despeita e o acinte, já acciona ex-ministros, alegadamente por causa de gastos ilegais, esquecendo-se de que dessa forma se está a violar de forma flagrante o princípio basilar da separação de poderes. Enfim, tendo presentes os pagamentos à Lusoponte, as justificações dadas por um impante "chico-esperto" e a ignorância do primeiro-ministro sobre a matéria, até às ligações de alguns ministros aos negócios com Angola, não se poderá deixar de ler e reflectir sobre o que Rodotà escreveu.
E se é certo, como ele diz, que nenhum político pode hoje invocar falta de informação, não é menos certo que "a ética pública não tem o seu fundamento apenas no Código Penal". O dever da politica, como ele refere, passa pela reconstrução da moral pública e ela deverá ser inflexível consigo própria se quiser reconquistar a confiança dos cidadãos. Tão simples quanto isto.

Um museu de luxo

A inauguração no passado domingo do novíssimo Museo Ferrari, em Modena, é motivo de satisfação para todos os apaixonados dos automóveis, do desporto automóvel e das obras de arte contemporânea. No meu caso, como "ferrarista", "alfista" e, já agora, também "maseratista" militante, é ainda maior o prazer por saber e ver que a Ferrari no museu dedicado ao comendador Enzo Ferrari não se esqueceu das suas origens e conferiu lugar de destaque à Alfa Romeo. Para quem não sabe, foi na Alfa Romeo que Enzo Ferrari começou por brilhar como líder da sua equipa de mecânicos e depois de ter saído, durante alguns anos, esteve impedido de usar a marca com o seu nome em virtude de um compromisso anteriormente assumido com a casa de Arese. Constitui, assim, uma justa homenagem à Alfa e o reconhecimento a quem tanto contribuiu para o reconhecimento da Ferrari.
Na imagem, o volante de um Fórmula 1 campeão do mundo.

Tudo na mesma

"Essa é a grande pergunta: porquê? O Governo queria. A troika exigiu. O Ministério da Economia avançou com um imposto especial para tirar de um lado o que os subsídios davam por outro. Adiou-se tudo por causa da privatização. Perdeu-se o tempo certo. A secretária de Estado do Tesouro anunciou no dia da venda aos chineses que o Governo continuava livre para decidir tarifas. Não continuou nada: os chineses enfureceram-se. O Governo, se os queria enganar, enganou-se. E calou-se.
Não foi só um secretário de Estado que se demitiu de um cargo, foi um Governo que se demitiu da sua função, tornando-se perigosamente parecido com quem criticara violentamente no passado.
O encaixe brutal da privatização tem contrapartidas, como se viu nas nomeações de políticos para a administração, como se vê agora nesta postura obediente aos chineses. No fundo, percebe-se agora, parte desse encaixe da privatização será pago por nós, consumidores e indústrias. É por isso que este é o país "até já": Santos Pereira diz até já a Henrique Gomes, Passos diz até já a Sócrates, todos dizemos até já aos lóbis, mudamos para que tudo fique na mesma, neste até já Portugal, até já sectores não transaccionáveis, até já cepa torta, sempre "até" e sempre "já" e sempre "nunca", nunca, nunca mais saímos disto
." - Pedro Santos Guerreiro, Jornal de Negócios, 14/03/2012

Igualdade social-democrata

"Salários dos gestores das empresas públicas só sofrem cortes em Abril" - título da primeira página do Público, 15/03/2012

"Os portugueses percebem que os cortes não são para todos" - Medina Carreira na primeira página do i, 15/03/2012

"Eu não conheço precedentes disto. E a gravidade está aí." - Pedro Santana Lopes ao Público, sobre um certo prefácio do Presidente da República, Público, 14/03/2012

Dias de sol (4)

Durante um par de horas percorremos o caminho que nos leva da Piazza Venezzia ao velho mercado do peixe, junto do Templo de Ottaviano, nas cercanias do Museo Ebraico e do Teatro de Marcello, até ao popular bairro, agora muito na moda entre intelectuais e artistas, de Trastevere. Tirando partindo da luz magnífica e de um céu tão azul e tão alto que nos sentíamos transportados em balão, lá percorremos ruas e vielas, apreciando a cor e o movimento, os rostos apressados e as paredes que a história ergueu. Por momentos detenho-me junto à Casa de Dante. E prosseguimos, calmamente, como se não houvesse amanhã, até à  Piazza di S. Cosimato e à Igreja de Santa Maria in Trastevere. Depois passamos por S. Egidio, onde o Museo di Roma in Trastevere nos acolhe o tempo necessário para visitarmos mais duas exposições, uma acabada de inaugurar, a outra a aproximar-se do fim. Quando ao cair da tarde cruzámos o Ponte Sisto a caminho da Piazza Farnese e do Campo de Fiori, onde alguns homens procediam às indispensáveis limpezas, e me deparei com a sempre presente e solitária estátua do filósofo Giordano Bruno, cujos originais dos autos que o sentenciaram pudera ver há alguns dias em Capimdoglio, não pude deixar de pensar nas contradições da vida, nas voltas que ela dá até voltar a compôr-se. Não sei se Bruno alguma vez, mesmo em sonhos, terá podido imaginar-se num pedestal do Campo de Fiori. Duvido. Mas naquele momento sonhei que ele teria gostado de me ver ali. E de nele reparar nu bulíçio do local. Depois de ter posto em causa o mundo e os dogmas que o rodearam antes de acabar condenado por pensar de maneira diferente, ei-lo ali reabilitado. Em toda a sua grandeza. Perante Roma e o mundo. Perante Deus e os homens. Não há nada como a defesa de uma ideia, com convicção, apoiada no saber, na inteligência e na coragem. Ainda quando todos os céus nos caem sobre a cabeça.

A estátua de Giordano Bruno

As flores que nunca faltam na sua praça.

quarta-feira, março 14, 2012

Um livro a não perder

"A oligarquia política italiana alimenta-se sem limites de enormes quantidades de dinheiro público que recebe e gere sem controlo, com efeitos destrutivos para as finanças públicas e a dinâmica democrática: este é hoje o financiamento público dos partidos, sob diversas formas".

É este, numa tradução por cujas falhas só eu respondo, o primeiro parágrafo do livro que acabou de sair e que aqui dou a conhecer aos leitores deste blogue que se interessam por estas coisas da liberdade, da democracia e dos partidos. Tive a sorte de conseguir um exemplar da 1ª edição, mas acredito que tal como aconteceu com La Casta, ainda a aguardar uma tradução para português, também este baterá recordes tal a importância e actualidade do tema e o vasto manancial de factos e documentos que os autores publicam.  Os autores são desconhecidos em Portugal mas sobejamente conhecidos em Itália. Um é Elio Veltri, médico, professor da Universidade de Pavia, político e jornalista, que foi um dos fundadores da "Itália dos Valores". O outro é Francesco Paola, conhecido advogado e especialista em direito penal, co-autor do livro "Il governo dei conflitti". A similitude entre o que por lá se passa e entre nós vai acontecendo torna este livro de leitura obrigatória. Enquanto não discutirmos estas questões a sério entre nós nunca compreenderemos as demissões de alguns membros do Governo ou a petulância de outros e de mais uns quantos parlamantares e comentadores "vitalícios" do nosso regime. Isto está a precisar de uma boa fronda. Ou de várias, se necessário. Mas antes convém ler este livrinho para que depois não aconteça o mesmo de sempre: que a emenda não seja pior do que o soneto.

Dias de sol (3)

Há sempre uma primeira vez. E posso garantir-vos que não é preciso ser primeiro-ministro ou "escrevinhador de prefácios" para ir ao Quirinale. Numa notável iniciativa das instituições da República Italiana, a comemorarem os 150 anos da Unificação, o Palácio do Quirinale, actual residência do Presidente da República, abriu as suas portas a todos os que queiram lá ir. De interessante, para além de uma exibição de carruagens, carros e motas que foram usados por reis e presidentes, saliento a interessantíssima exposição de documentos, quadros, gravuras e esculturas guardados no Quirinale. Na imagem de cima podem ver o texto original da Constituição italiana assinada pelos parlamentares que a votaram.
 O pátio interior do Palácio do Quirinale num momento do render da guarda.

Um magnífico Lancia que em tempos esteve ao serviço dos presidentes.

E depois de fazermos uma viagem pelos segredos, não do Vaticano mas da presidência italiana, nada como ler os últimos textos de Giorgio Napolitano, incluindo, este sim a merecer leitura, o respectivo prefácio. Para quem viu o que se passou antes em Itália, com os governos de Berlusconi, assistiu ao que se passou em Portugal com José Sócrates e está agora a pasmar com os erros grosseiros do governo de Passos Coelho, ante a total secura, manifesta falta de capacidade para o exercício das funções  e um mínimo de senso político por parte do mais alto magistrado da Nação, vale a pena recordar algumas das palavras escritas por Napolitano: "Il prezzo che si paga per il prevalere - nella sfera della politica - di calcoli di parte e di logiche di scontro sta diventando insostenible. Una coza è credere nella democrazia dell'alternanza; altra cosa è lasciarla degenerare in modo sterile e dirompente dal punto di vista del comune interesse nazionale". Os nossos governantes também deviam perceber isto. Não seria pedir-lhes muito, penso eu, mas admito que para quem escolheu viver e enriquecer com e à custa da política, aproveitando as horas vagas para andar a tirar cursos que pudessem conferir um título na hora da tomada de posse, seja naturalmente difícil compreender coisas tão simples.

Dias de sol (2)

Roma e Pavia não se fizeram num dia. E uma exposição como esta não foi coisa fácil de conseguir. Pelo valor das obras que se conseguiu reunir, pela quantidade de entidades que foi preciso convencer a autorizar a saída dos quadros das suas bases, pela segurança exigida e pelo valor astronómico dos seguros. Convenhamos que juntar na Scuderie del Quirinale a maior exibição jamais vista de obras de um senhor chamado Jacopo Robusti, que passou à história como Tintoretto, não está ao alcance de muita gente. Vittorio Sgarbii foi o responsável por esta explosão de génio e de cor, assente em três temas fulcrais da obra de Tintoretto: a religião, a mitologia e o retrato. Com obras que vieram de museus de Viena, de Londres, de Milão, de Paris, de Munique, de Veneza ou de Modena, e onde é possível ver os dois mais famosos auto-retratos do pintor, a abrir e a fechar a mostra, para além de obras como Apollo e Dafne, Deucalione e Pirra, O Milagre dos Escravos, S. Jorge e o Dragão, Jesus entre os Doutores, A Última Ceia, A Criação dos Animais, a esplêndida Susanna entre os Velhos, Santa Maria do Egipto e Santa Maria Madalena, a exposição tem ainda o atractivo de juntar a Tintoretto - a verdadeira cereja no topo do bolo - artistas com quem aquele mestre interagiu. Quem? Apenas gente como Tiziano, Bonifacio Veronese, Giovanni Demio, Lambert Sustris, Parmigianino, El Greco, Schiavone e Paolo Veronese. Às quartas-feiras, até 4 de Abril e aproveitando a exposição, que só terminará em 10 de Junho, decorrem também os "Encontros" (I Mercoledí di Tintoretto - Incontri) sobre a sua obra (com entrada livre na Sala Cinema do Palazzo delle Esposizioni, na Via Milano, 9), às 18.30. Na semana passada esteve lá Giovanni Carlo Federico Villa, hoje estará Antonio Paolucci. Garanto-vos que não darão o vosso tempo por mal empregue. 

terça-feira, março 13, 2012

Dias de sol (1)

Há cidades de onde nunca chegamos a sair. Por tudo aquilo que elas nos dizem e transmitem. E porque sabemos que por nunca termos saído haveremos sempre de voltar. Roma é um daqueles lugares mágicos de onde nunca se sai mesmo quando não se está. A ela voltarei sempre enquanto tiver vida, saúde e meios que mo permitam. E desta vez não foi diferente. Regressar nesta altura do ano a Itália tem algo de ainda mais fascinante porque há muitos acontecimentos que assinalam o fim do Inverno e marcam os dias mais longos e solarengos que anunciam as estações seguintes. Na Piazza de Campidoglio, nas traseiras do monumento a Vittorio Emanuele II, entre o Foro Romano e a Piazza Venezia, ficam os Museus Capitolini e o Palácio dos Conservadores. Independentemente do interesse que os museus sempre têm, nem que seja só para rever a fabulosa estátua de Marco Aurélio, cuja réplica do original que está no interior está agora na Praça exposta aos elementos da natureza,  tive desta vez a sorte de visitar uma exposição que vivamente aconselho a quem possa fazê-lo.  Chama-se "Lux Arcana - L'Archivio Segreto Vaticano Si Revela". Consiste numa mostra de cerca de 100 documentos do vastíssimo Arquivo Secreto do Vaticano. A exposição assinala os 400 anos da fundação do Arquivo e entre outras relíquias absolutamente fabulosas, como os documentos dos processos contra Galileu e Giordano Bruno, a carta dos membros do parlamento inglês ao papa Clemente VII, a propósito das questões matrimoniais de Henrique VIII, as cartas de Maria Antonieta enquanto aguardava a sua hora e da imperatriz chinesa convertida ao Catolicismo e que tomou o nome cristão de Helena, a carta de Miguel Ângelo a monsenhor Cristoforo Spiritti, bispo de Cesena e futuro patriarca de Jerusalém, a bula de deposição de Frederico II ou a carta de Abraham Lincoln, é possível vermos, imaginem, a bula "Inter Cetera", de 4 de Maio de 1493, pela qual o papa Alexandre VI, Domingo Borja, reconhece a linha de Tordesilhas e os limites dos impérios marítimos de Portugal e de Espanha. A exposição está patente ao público até 9 de Setembro e o bilhete custa € 12,00. Uma ninharia mesmo nos dias de crise e insânia que atravessamos, mais ainda se pensarmos que nas próximas décadas, ou gerações, os vossos olhos e os dos vossos filhos muito provavelmente não terão outra oportunidade de voltar a ver aquilo que ali está patente. Já agora, se puderem, tragam-me o catálogo (€ 15,00), que eu, tão inebriado estava com o que tinha visto, esqueci-me completamente de comprar antes de sair.