sexta-feira, junho 15, 2012

Cortar nas "gorduras"

Na mesma altura em que se fica a saber que a maternidade Alfredo da Costa irá mesmo fechar até ao final do ano, e em que há doentes com cancro da mama que estão com a reconstrução mamária suspensa e sem saberem quando a mesma ficará concluída, nem aonde, é divulgado um relatório do Observatório Português dos Sistemas de Saúde cujas conclusões deitam por terra tudo o que foi afirmado pelo PSD durante a campanha eleitoral e, já depois das eleições, pela actual equipa do Ministério da Saúde.
Que a Saúde tinha gastos excessivos e despropositados todos sabíamos, ou pelos menos suspeitávamos há longos anos. Nisso, o ex-ministro Correia de Campos foi exemplar na denúncia apesar de pouco hábil na explicação. E que era necessário racionalizar os gastos existentes gerindo melhor, também todos sabíamos, pensando eu que nenhum contribuinte sensato e de boa fé esperaria outra coisa dos sucessivos governos que tivemos que não fosse a tentativa, que todos sabem não ser fácil, de melhorar a qualidade dos serviços equilibrando os custos e os meios.
As PPP desde cedo se revelaram elas próprias um sugadouro sem controlo do qual eram beneficiários, invariavelmente, sempre os mesmos, isto é, aqueles que criticavam os gastos do sector público mas que nunca se importaram de serem pagos por esse mesmo sector e pelas empresas que neles integradas que lhes garantiam a rentabilidade das unidades privadas que exploram. O desperdício só era mau quando não acabava no seu bolso.
O relatório ontem divulgado pelo Observatório da Saúde, e de que a televisão e a imprensa já fizeram eco, quer pelas conclusões que apresenta quer pela reacção destemperada do secretário de Estado que foi convidado a fazer a sua apresentação, não é pelo facto de não ter colhido as boas graças dos burocratas, gestores e contabilistas que levaram com o tiro que deverá ser desvalorizado.
É evidente que quando gente que tem décadas de serviço público exemplar, uma carreira sem mácula obtida fora da política, sem ela e sem o concurso das universidades do cavaquismo, gente com qualificações que falam por si e que não vive à sombra dos partidos do arco do poder, chega à conclusão de que o acesso dos doentes aos serviços piorou, que aumentaram as dificuldades para o pagamento das taxas moderadoras, transportes e financiamentos, que há sintomas de depressão e ansiedade nas populações, que as pessoas deixam de comprar o que lhes é medicado ou alteram por sua livre vontade as doses prescritas por não terem meios para manterem as medicações anteriores, o poder não se sinta aplaudido.
Quem tenha a infelicidade de ter de frequentar centros de saúde sabe quanto custa hoje a saúde aos contribuintes e também sabe que não é só a "taxa moderadora" de uma consulta que faz a diferença. É tudo o resto que lhe vem associado, da comparticipação nos necessários exames ao custo dos medicamentos, que dificulta e cerceia o acesso. Basta ver e ouvir quem num centro de saúde espera por uma consulta ou lá vai mostrar os exames ao médico de família, ou falar com os médicos que lá desempenham estas funções, para perceber do que falo e saber que não falo (escrevo) de cor. 
Curiosamente, proliferam os hospitais privados e as clínicas, sendo que nalguns casos a oferta já se tornou obscena. Olhe-se por exemplo para o que se passa em Faro. Ao mesmo tempo que não se consegue uma consulta nalgumas especialidades no único hospital público da cidade, dezenas de especialistas chegam de Lisboa para enfrentarem listas de 40 e 50 doentes em unidades que dão emprego a afilhados políticos e em clínicas privadas, cobrando € 100,00 por quaisquer 10 minutos de consulta e despachando os doentes, por vezes noite fora, como se de uma mercadoria se tratasse, alguns limitando-se a prescreverem invariavelmente a mesma pomada para todos.
Quando tudo isto entra pelos olhos e convive connosco diariamente torna-se ainda mais difícil aceitar que, como refere hoje o Público, o secretário de Estado da Saúde tenha feito "um autêntico comício para pôr em causa um relatório de uma entidade independente", acusando-a de "manipular os factos e recorrer à mentira e encenação", sem que ao mesmo tempo esclarecesse porque não facultou dados para a elaboração desse relatório.
Neste quadro, e sem escamotear, fazendo fé no que diz o Ministério, de que 2011 foi o ano em que se realizaram mais cirurgias, embora não se esclareça a sua natureza nem se foram privilegiadas as mais rápidas e mais baratas para se melhorar as estatísticas em detrimento das mais onerosas e demoradas, é por demais incompreensível que se ataquem as conclusões do relatório da forma descabida como o fizeram, pois que se um inquérito a 741 médicos, dos quais 51% trabalham em hospitais públicos, 21% em USF, 10% em UCSP e 4% em hospitais PPP, não cobre o universo todo, da mesma maneira que 41 farmácias do distrito de Lisboa envolvendo dados relativos a 375 doentes são apenas uma amostra, seguramente que também são, como muito bem referiu um dos autores do trabalho, indícios que a todos devem preocupar, dados que se aproximam da realidade e que são susceptíveis de gerarem convicções profundas nos seus autores.
Aliás, foi o próprio bastonário da Ordem dos Médicos quem confirmou a existência de forte "racionamento" nos hospitais públicos, "racionamento" que, por exemplo, não tem correspondência no ordenado que o senhor Borges aufere para fazer aquilo que competiria fazer ao Governo da república.
Os casos vão-se multiplicando e até um dito "Plano Nacional de Reformas (PNR)", um "documento de 36 páginas", ficou perdido nos corredores de S. Bento, "algures entre o gabinete da Presidência da AR e a comissão parlamentar errada
A moscambilha, a trafulhice, a esperteza saloia, não são saudáveis em circunstância alguma. O amadorismo e a pesporrência também não. Em especial quando não se consegue transmitir a ideia de que o que se está a fazer é feito com rigor, sensatez e boa fé, e não, como parece, apenas para julgar opositores políticos - e se eles precisam de ser julgados! - e cumprir uma agenda e um programa que não foram sufragados nas urnas, enquanto se atamancam medidas parcelares e  se albardam os burros sem critério e conforme corre o marfim, para efeitos meramente propagandísticos e se cumprir o programa da troika, sem também se curar de saber do estado em que estaremos em Setembro de 2013, acautelando desde já situações graves e irreversíveis para o bem estar dos cidadãos.
Tal como aconteceu com o aumento dos impostos directos e indirectos e com as portagens das ex-Scut, em que se apostou na gula fiscal, menosprezando-se os efeitos que todas as pessoa sensatas e descomprometidas anteciparam, também em matéria de Saúde percorremos agora caminho idêntico. O problema é que nalguns casos a saúde dos doentes, o bem-estar de alguns e a qualidade de vida de outros, para não cair no extremo de lembrar as vidas que a poupança já ajudou a ceifar, já não será recuperável. E se em qualquer área da governação são desejáveis as boas práticas, o rigor, a transparência, a verticalidade, o carácter, a lisura de processos, na Saúde isso  seria ainda mais necessário. Infelizmente optou-se pelo folclore no melhor estilo "Relvas" ou "Álvaro" e as consequências rapidamente começaram a aparecer. É triste, pois é, mas nem por isso deixa de ser menos verdadeiro.

P.S. No momento em que escrevia estas linhas o primeiro-ministro mostrava na Assembleia da República toda a sua indigência política e a falta de articulação do Governo em matéria de informação do que se passa na Saúde, gaguejando e revelando ignorância e falta de informação na interpelação que o deputado Francisco Louçã lhe fez. Lamentável.

sexta-feira, junho 08, 2012

Um Governo bipolar

Um ano depois das eleições legislativas que mudaram o quadro político do País, multiplicam-se as análises e os balanços daquilo que foi a actividade governativa nos últimos doze meses. Qualquer balanço pecará sempre por enfatizar aquilo que na perspectiva do observador será mais positivo ou mais negativo, pelo que lapalissianamente se poderá com rigor afirmar que não existem apreciações totalmente isentas e que a análise política, tal como o próprio exercício desta, é também a arte do possível. E às vezes a do impossível, como não raro se percebe pelas afirmações de Miguel Relvas ou os exercícios televisivos da deputada Teresa Caeiro. 
Todos estamos cansados, e já basta suportarmos tão estoicamente o cumprimento do memorando com a troika, as discussões do país futebolístico ou sabermos que o presidente da República em mais um rasgo de génio vai condecorar um ex-ministro da ditadura entretanto transformado em especialista da propaganda por conseguir, penso eu, a proeza de ver a História recente de Portugal de baixo para cima, de viés e às vezes até mesmo de joelhos, como sucedeu quando andou por Macau a realizar programas para enaltecer a figura de um ex-governador, para não me abalançar a entrar pelos caminhos dos comentadores encartados (pagos).
O que aqui gostaria de registar foi aquilo que de mais notável pude constatar ao longo do ano que passou: a bipolaridade do executivo.
Todos se aperceberam que consoante as matérias havia dois pesos e duas medidas e que para o Governo e o PSD até o memorando com a troika foi obra exclusiva dos anteriores governantes, esquecendo-se os seus responsáveis que foram ouvidos antes e deram o seu aval, antes e depois, às metas nele consagradas. Depois, como também verificámos, daquilo que era possível fazer sem qualquer esforço (corte de gorduras do Estado, redução do défice por via da redução da despesa, reformas de fundo, manutenção dos subsídios de férias e de Natal, manutenção da carga fiscal vigente há um ano, e por aí fora), só o aumento das exportações apresenta resultados palpáveis. De resto, pouco ou nada se tem visto, enredados como temos estado em casos de paróquia.
O CDS, sem faltar no apoio à coligação nos momentos decisivos, no que tem sido reconhecidamente um parceiro leal, tem procurado manter-se afastado da teia de interesses, verdadeira camisa-de-forças, em que o primeiro-ministro e o ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares se movem. Se amanhã alguma coisa correr pior a ponto de se inviabilizar a chegada ao termo da legislatura deste Governo, Paulo Portas e a sua gente estarão em condições de se defenderem e de retirarem óbvios dividendos. E com razão. Não são eles os responsáveis, nem têm nada que ver, pelas ou com as recorrentes "broncas" de Miguel Relvas, com as ligações que este estabeleceu por via da política e dos aventais que vai usando de acordo com as conveniências, e menos ainda com a doença bipolar que desde o início assola o Governo. Seja com as rendas da EDP, as travessuras do "menino Álvaro", a falta de soluções para resolver o problema das PPP - dir-se-ia ser mais importante continuar a lavar roupa ainda que haja muita já lavada e a que continua suja não faça falta do que estancar o mal - ou o flop da pomposamente chamada "reforma autárquica" que teve o condão de manter intocado o número de municípios.
O drama da doença de que o Governo e os seus principais responsáveis enfermam é que não permite vislumbrar quando é que os próprios se aperceberão da sua situação e se predisporão ao tratamento, sendo certo que enquanto este não ocorrer o cenário será cada vez mais deprimente. Gente insuspeita na sua casa como Rui Rio, Lobo Xavier ou Manuela Ferreira Leite (não falo de Pacheco Pereira que é tido como sendo do contra) já avançou com algumas ideias, mas parece que os doentes estão mais preocupados em correr o país a doutrinar as massas do que em tratarem-se. 
Dois exemplos colhidos esta semana evidenciam o agravamento da doença: a criação de uma nova empresa pública e a forma como o primeiro-ministro lidou com as declarações do seu conselheiro António Borges. A criação da empresa pública, ainda que eufemisticamente se diga que ocorre por via de "transformação", não deixa de ser mais uma, quando o objectivo do tal memorando que tem servido para justificar tudo e mais alguma coisa, era não só a eliminação de institutos e a privatização das empresas públicas, como a proibição de criação de mais alguma. Não sendo legítimo ao intérprete de qualquer texto legal dele retirar uma interpretação que não tenha um mínimo de correspondência verbal com o que nele se pode ler, nem distinguir onde o texto não distinguiu, acrescentando o que lá não está, subtilezas de que o ministro Gaspar deverá ter dificuldade em compreender, a decisão do último Conselho de Ministros de aprovar um diploma que transforma o Instituto de Gestão e do Crédito Público numa entidade pública empresarial não poderá deixar de ser vista como manifestação da doença, aliás na linha do "ir para além da troika" que já então antecipava a sua evolução.
De igual modo, o papel desempenhado por António Borges, dito conselheiro ou consultor do primeiro-ministro, mais conhecido como o 12º ministro mas que na realidade mais não é do que um "afilhado" dele e do PSD, pago a peso de ouro com o dinheiro dos contribuintes que estão a ser esfolados pelo ministro das Finanças, é um outro sinal da agudização da doença. Se o António Borges que Marc Roche desqualificou nas páginas da imprensa internacional, sem que se saiba que da sua parte tenha havido reacção, e que o deputado João Almeida (CDS/PP) com frontalidade criticou em pleno Parlamento, pode ganhar o que ganha à nossa custa, então o melhor é deixar que o programa da troika se cumpra por si. Pode ser que entretanto os doentes se "espetem" em qualquer lado e acabem internados compulsivamente. Ou, quem sabe, exportados para uma jurisdição offshore como uma "mais-valia" não tributável. E inqualificável.       

terça-feira, junho 05, 2012

Brilhante

Ele nunca ouviu responsáveis políticos como Macário Corrreia ou José Apolinário pronunciarem "hângares", como se lá estivesse um acento circunflexo, em vez da palavra "hangares", aguda, no plural como no singular com acento tónico na última sílaba, tal como em francês, "a língua veicular que a recebeu do inglês", mesmo antes de haver Acordo Ortográfico. Se tal lhe tivesse acontecido, como a mim, certamente que ele estaria hoje ainda mais incomodado. Mas não foi por isso que Vasco Graça Moura deixou de dar ontem à noite, na TVI 24, no programa "Olhos nos Olhos", de Judite de Sousa e Medina Carreira, uma valente estocada no Acordo Ortográfico, sob a forma de uma magistral lição que devia trazer à realidade todos os que embarcaram nessa perigosa e pouco esclarecida aventura, a começar pelo Governo português. O actual, mas também o anterior.
Sublinhando, uma vez mais, que até o comunicado final da última reunião de ministros da Cultura dos PALOP, que ocorreu há cerca de um mês e meio, foi escrito em termos pré-acordo, sendo por aqueles sugerida a sua revisão, e que neste momento só interesses económicos podem justificar a adopção do Acordo, o presidente do CCB, de uma forma séria, com factos e argumentos incontornáveis, prestou mais um inestimável serviço à língua portuguesa e aos povos que a falam e escrevem. Sem pedantismo, sem politiquice, sem populismo e sem demagogia, com clareza e elevação q.b.. A todos os títulos brilhante e a rever e divulgar logo que a TVI24 coloque aqui a gravação do programa.

segunda-feira, junho 04, 2012

Parabéns a Paulo Pinheiro e ao AIA

Nem mesmo a circunstância de estarmos perante uma prova de um campeonato do mundo  altamente competitivo, o WTCC, do preço dos bilhetes ser muito acessível, do tempo estar óptimo e do programa se completar com duas corridas do Troféu Maserati, com o Nacional de Clássicos, com uma corrida de fórmulas AutoGP e com a Taça de Portugal de Circuitos, serviu para levar público ao Autódromo Internacional do Algarve. É pena, porque a organização e o empenho de Paulo Pinheiro e da sua equipa mereciam outro reconhecimento por parte dos portugueses, em especial dos que residem na região do Algarve. Para a próxima talvez seja de avisar a miudagem que Michel Vaillant saiu dos livros de Jean Graton para correr na pista de Portimão. Quem sabe se isso não surtiria outro efeito.    
A boa disposição foi a nota dominante. Na foto, Pepe Oriola, Gabriele Tarquini e Tiago Monteiro.
Um "Vaillante" vestido a rigor.

 Um dos inconfundíveis Sport Coupé do Trofeo Maserati.

O homem da pole position e vencedor da primeira corrida de domingo do WTCC: Gabriele Tarquini.
A confusão habitual das primeiras voltas, aqui na curva VIP.

Um dos pontos mais espectaculares do circuito de Portimão foi a nossa escolha para a 2ª corrida do WTCC, aqui já com Michel "Alain" Vaillant "Menu" no comando, a caminho da vitória.

Quatro de Junho

A besta voltou a atacar. É preciso não esquecer. E resistir sempre.

quinta-feira, maio 31, 2012

A descambar

O debate parlamentar de ontem com o primeiro-ministro e a audição do ministro Miguel Relvas revelam que a situação está a descambar. A posição de Passos Coelho é incómoda. A do ministro Miguel Relvas não é menos, mas os membros da Comissão e as notícias que saem a toda a hora para os jornais também não ajudam. Os papéis desempenhados, quer pelos deputados da oposição quer pelos da maioria, têm sido deprimentes. Uns mal preparados e com dificuldade em colocarem as questões adequadas, outros procurando tapar o sol com a peneira para safarem o ministro a qualquer preço. As pessoas parece que se estão a esquecer que o que está em causa não é o simples envio ou recepção de e-mails. Essa é uma forma simplista de ver o problema. Em causa está o acesso a informação secreta, a violação da privacidade, o uso indevido de meios legais, a existência de pressões ilegítimas, enfim, um ror de situações pouco claras e que não podem ficar no limbo apenas porque isso dá jeito a alguém, seja ele o primeiro-ministro, o ministro ou a oposição. O ministro colocou-se a jeito e não esteve à altura das responsabilidades pela forma displicente e omissiva como foi respondendo às dúvidas que surgiram ante a catadupa de factos. Fez mal porque só adensou as dúvidas. Continua a haver muita coisa por explicar e por perceber. Para o filme ser completo só falta o primeiro-ministro libertar os ex-espiões do segredo de Estado para que estes se possam defender. Essa talvez seja a melhor solução, já que aquela coisa que dá pelo nome de serviço de informações está de rastos e não virá mal maior ao mundo se deixarem Silva Carvalho e o compincha defenderem-se antes de os crucificarem. Por vezes tenho a sensação de que uns desviam as questões porque não lhes convêm e os outros não querem esclarecer as que importa esclarecer, preferindo ambos andarem às cambalhotas na espuma e enrolados na areia. Em qualquer caso estão a prestar, uma vez mais, um mau serviço à democracia.  

quarta-feira, maio 30, 2012

Uma frase que diz tudo

"Eu não tinha funções públicas, por isso precisava de trabalhar para ganhar a vida" - ministro Miguel Relvas, esta tarde, no Parlamento, depreendendo-se do que hoje disse que sendo de novo ministro e tendo voltado a exercer funções públicas, concluo eu, voltou a deixar de precisar de trabalhar para ganhar a vida. Em duas palavras, sentido de Estado.

Até quando?

Enquanto vai verificando a que velocidade cresce o seu nariz, seria bom que Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal, esclarecesse durante quanto tempo e até quando estará disposto a "torrar" o interesse nacional para proteger quem mentiu, omitiu e disfarçou. É a minha convicção pela análise dos factos, pelas respostas dadas e nebulosas existentes.

Continua a saga

"Miguel Relvas não disse toda a verdade quando foi ouvido no Parlamento. Na audição do passado dia 15 de maio, na primeira comissão, o ministro-adjunto de Pedro Passos Coelho foi assertivo: encontrou-se com Jorge Silva Carvalho, mas "sempre em locais públicos" e apenas assume terem conversado sobre "matérias de actualidade e política externa".
Mas Relvas, enquanto administrador da consultora Finertec, reuniu-se, pelo menos duas vezes, com Silva Carvalho para falarem de negócios. Uma das vezes na própria sede da Ongoing, na companhia de Nuno Vasconcellos, chairman da empresa, e de Braz da Silva, presidente da empresa de Relvas.
Os contactos entre as duas empresas resultaram num "memorando de entendimento" para "prospecção de mercado em várias áreas de negócio". Objectivos: Angola e Brasil.
A assinatura deste acordo, que Silva Carvalho e Relvas negociaram pessoalmente, foi feita no dia 21 de junho de 2011, no mesmo dia em que Relvas tomou posse como ministro. Já não era, há um mês, administrador da Finertec." - Visão

"Quando foi ao Parlamento para falar pela primeira vez sobre o seu envolvimento no caso das secretas, há duas semanas, Miguel Relvas foi taxativo: nenhum dos nomes que constavam de um SMS enviado por Jorge Silva Carvalho com sugestões para chefiar os serviços secretos estava abrangido pelo segredo de Estado.
"Não eram agentes, eram pessoas para responsabilidades, para lugares de topo que não eram agentes, aqui não há segredos de Estado", respondeu então o ministro dos Assuntos Parlamentares a uma pergunta da deputada socialista Isabel Oneto.
Mas de acordo com o que um antigo responsável dos serviços explicou ao Expresso, dois dos nomes que constavam no SMS estavam abrangidos pelo segredo de Estado e a sua identidade não podia ser revelada.
"Principalmente por um antigo diretor dos serviços que está obrigado a respeitar o segredo de Estado", precisa o mesmo responsável. Os nomes em questão eram os de Paula Morais, diretora da escola do SIS, e Filomena Teixeira, diretora do departamento no SIED." - Expresso

terça-feira, maio 29, 2012

Não, o burro não foi ele


Bastou-lhe chegar a Portugal e garantir uns milhões para começar logo a comportar-se como alguns "locais". Na entrevista que esta noite irá passar na RTP, o ex-seleccionador nacional vem, entre outras coisas, justificar a não convocação de Vítor Baía para a selecção nacional com as indicações que lhe foram dadas da primeira vez que se encontrou com Pinto da Costa e Mourinho num jogo Belenenses-Porto. Diz Scolari que nesse dia jogou Nuno Espírito Santo e que Pinto da Costa e Mourinho lhe transmitiram que não deveria convocar Baía. Perante esta afirmação, o que depois acrescentou sobre o poder dos ditos senhores é irrelevante. Bom foi que os portugueses, os que ainda não sabiam, possam ficar a saber, por confissão tardia na primeira pessoa, quais os critérios que ditaram as suas escolhas. Primeiro começou por se deixar manipular, depois mostrou ser um medroso interesseiro que só se preocupou em segurar o lugar e não desagradar aos senhores da bola nacional. As derrotas com a Grécia no Euro de 2004 foram afinal obra de Pinto da Costa e Mourinho. E deselegância deve ter sido uma herança recebida dos labregos que lhe deram a possibilidade de aprender a comer peixe nos restaurantes de Cascais. 

Quem dera que fosse só nas secretas


É claro que Francisco Pinto Balsemão tem toda a razão quando refere a necessidade de ser feita uma "limpeza" nos serviços de informações. Mas o problema é que a "miséria moral" de que ele fala e justifica essa limpeza não existe só nos serviços secretos. Desde há um ror de anos que essa mesma miséria moral, promovida nos anos de ouro do cavaquismo à sombra de personagens tão intrigantes quanto obscuras, que se elevaram aos mais altos cargos da nação, depois continuada no guterrismo e no barrosismo e que atingiu todo o seu esplendor nos últimos governos, faz parte da vida política nacional. Faz parte do código genético de muitas das empresas do regime, da actividade bancária e bolsista das últimas décadas, está neste Governo, nos partidos políticos, no parlamento, na justiça, nas universidades e nas autarquias, nas polícias, no futebol, nos estádios do Euro 2004, nas notícias dos jornais e até nos programas televisivos, aos quais não escapa nesse quadro deprimente e avassalador a amada SIC do dr. Balsemão. A bem dizer, a miséria moral tornou-se numa marca distintiva das grandes obras do regime e são poucas as ilhas de decência que não foram atingidas por ela. Desta vez tocou-lhe a ele como podia ter tocado a qualquer outro. Eu também gostava que essa limpeza se fizesse. Há anos que me bato por ela sem que o dr. Balsemão e outros como ele liguem peva. Mas não sei, aliás duvido, que algum dia essa limpeza se faça, e que sendo feita tenha algum resultado. Como Francisco Pinto Balsemão também sabe, o que não falta neste país são clones e candidatos a clones. Só que o drama, quanto a estes, é que os modelos escolhidos são normalmente o espelho dessa miséria moral. E neste país o que não falta são candidatos a espelho. Para a maior parte, nesse percurso,  tudo serve: comentários anónimos, cartas em cacifos, relatórios de coscuvilhice, oferecimento de serviços vários, sugestões, palmadinhas nas costas, atropelos vários e, se necessário, umas voltas num qualquer green. O desgosto do dr. Balsemão não será diferente do meu. Ou do de qualquer outro cidadão. A única diferença é que ele pode dar-se ao luxo de viver fora do regime. Fora desta miséria moral. Eu não. Também gostaria de poder pensar assim, mas acontece que não posso.  Sou obrigado a conviver com eles: com o regime e com a sua miséria moral. Cada dia que passa tenho mais dificuldade em emigrar e a falta de trabalho só para alguns é que funciona como uma oportunidade. Nem todos podemos aspirar a ser ex-primeiros-ministros. Eu e mais dez milhões de portugueses estamos prisioneiros do regime. São os meus impostos, os nossos, que sustentam esta miséria moral, que nos agrilhoa ao passado e ao presente e torna incerto o nosso futuro. Se o dr. Balsemão quiser dar uma ajuda à minha, nossa, libertação e fazer alguma coisa para se proceder à limpeza, para se acabar com essa miséria moral, é só dizer. E não é preciso que nos seja mostrado um cherne. Hoje em dia basta uma sardinha.         

domingo, maio 27, 2012

Marcelo dixit

Miguel Relvas é o berbicacho número 1 do Governo. As expectativas eram mais elevadas do que a realidade veio a ser. Não só não conseguiu gerir politicamente o que era preciso gerir – a coordenação e o discurso do Governo – como se viu enredado numa série de problemas que são objectivamente negativos para o primeiro-ministro." - Marcelo Rebelo de Sousa, TVI

Em suma, uma nódoa política...

sexta-feira, maio 25, 2012

A ler

 Quadro que acompanha o artigo de Paulo Trigo Pereira e que tem por título "Défice de 2012: a entrar na zona vermelha?", no Público

Editorial de hoje sobre "as eurobonds"

Em cada declaração duas mentiras

Que espera Passos Coelho para pôr o seu apoderado a vender seguros? Um mentia para se safar, o outro fá-lo compulsivamente. Com que então no Gigi, com o gordinho? Em 5 de Agosto de 2011? Deviam ter ido para uma tasca em Massamá, sempre teria dado menos nas vistas.
E ainda havia quem acreditasse que tinha sido só numa festa de aniversário. Sim, sim, num "aniversário de conveniência", entre uma sangria de champagne e um peixinho do mar.
Os portugueses que vão pagando agora a conta dos anos de "aprendizagem" na JSD, da protecção de Ângelo Correia e das intimidades "d' o Relvas".

Por mim estou esclarecido

(foto Mário Cruz, Lusa)

Bastou-me ouvir ontem o ministro Miguel Relvas na conferência de imprensa que improvisou, após ter sido ouvido na ERC, para que eventuais dúvidas sobre a sua actuação e as queixas das jornalistas e da direcção do Público se dissipassem. A forma como Miguel Relvas tentou disfarçar o incómodo e contornar aquilo que efectivamente disse na Assembleia da República não será muito diferente do que diria um troca-tintas que se dedica a construir versões das histórias que confabula de acordo com as situações em que é apanhado. Disse ontem o senhor ministro que a referência ao clipping sobre a viagem de Bush ao México  fora apenas "um exemplo" do tipo de informação que Silva Carvalho lhe fazia chegar. Mas a passagem das imagens televisivas com a gravação daquilo que disse aos deputados é esclarecedora e não corrobora as suas declarações de ontem. Ele não deu um exemplo, ele afirmou taxativamente que o clipping com a notíca de Bush fora o primeiro que se recebera do ex-espião e que do mesmo se lembrava perfeitamente. Aqui não há segundos sentidos. De igual modo, o dizer que telefonou ao Público a pedir desculpa pelo tom que usara, e não pelo conteúdo do que afirmara antes, não cola. O tom, estando ele irado pelas conteúdo das perguntas e "pressão" que sobre ele fizera a jornalista, seria perfeitamente compreensível para a quem o escutava do outro lado da linha, atento o contexto. E se fosse por isso tê-lo logo afirmado para que ao seu destinatário não restassem dúvidas. Ninguém telefona a pedir desculpa só pelo tom, isto é, se não tiver sido malcriado e tiver a razão do seu lado. Pode-se ser contundente sem deixar de cumprir as regras da boa educação. A história, mais uma, que ontem inventou para se justificar à ERC do que fez, é mais um sinal da falta de estatura política do ministro. E, muito em particular, do seu carácter e falta de perfil para desempenhar funções de tanta responsabilidade. O ministro não é confiável. Fez-me lembrar aqueles meninos que quando são apanhados a fazer asneiras na escola ou que se querem impôr aos colegas, à falta de melhor argumento, dizem que se vão queixar ao pai, ou que este é polícia. Depois do que aconteceu com o anterior governo, os portugueses mereciam melhor. Muito melhor.   

quinta-feira, maio 24, 2012

EN 125 vs portagens da Via do Infante

 

Espero que quando o Governo proceder à reanálise da questão das portagens nas SCUT, designadamente na Via do Infante, não se esqueça de levar em conta os números da sinistralidade rodoviária desde que aquelas foram introduzidas. Para além da EN 125 não ser "alternativa" a coisa alguma e de estar cada vez mais engarrafada, os elevados custos materiais e humanos dos acidentes deviam ajudar as pessoas a pensar antes de decidirem. 

quarta-feira, maio 23, 2012

O que mudou?

Com esta notícia e o entendimento a que os partidos chegaram, fica-se sem perceber o que mudou, o que fez CDS e PSD mudarem de posição. O iluminado Catroga diz que se trata de uma mera questão "semântica", talvez para não recorrer a um outro termo que o tornou famoso no período pré-eleitoral. Mas se assim era, por que razão não o disseram logo? Por aqui se vêem as tristes figuras que os jovens Menezes, as esganiçadas Franciscas e os discretos Montenegros andam a fazer pelos canais televisivos de cada vez que saem a terreiro para defender as posições do seu partido. O carreirismo, a irracionalidade na defesa dos disparates e a subserviência são cada vez mais as imagens de marca dos pontas-de-lança deste PSD "jotinha". Fazem-me lembrar um certo PS de má memória.

terça-feira, maio 22, 2012

A ler

"A embrulhada em que Miguel Relvas se enfiou no episódio das secretas e de Silva Carvalho, que entretanto atingiu também uma jornalista deste jornal em termos por esclarecer, mostra mais uma vez uma das debilidades deste governo. Não é, para já, a relação obcecada com a imprensa, embora como se viu na era Sócrates os caminhos tortuosos comecem assim. (...)

Desde o  início que a presença de Relvas no governo gerou controvérisa e surpresa. Marcelo Rebelo de Sousa chamou-lhe um "erro de casting". Outras vozes afirmaram que era uma questão de tempo até as consequências sobrarem para Passos Coelho. (...)

Ninguém pode ficar tranquilo por saber que Relvas recebia mensagens abusivas de Silva Carvalho com listas de nomeas para as secretas, as quais diz ele que apagava de imediato sem apurar por que obscuro motivo estaria na lista dos destinatários (o regime tem esta faceta sinistra, que por sinal pede uma "vassourada"). E ficamos ainda menos tranquilos por saber que um ministro considera aceitável usar a vida pessoal - se é da vida pessoal que estamos a faalr - como restaliação contra uma jornalista. (E se não foi por isso que no dia seguinte apresentou desculpas, por que motivo se desculpou?). As contradições de Relvas nesta saga são patentes. (...)" - Pedro Lomba, Público, 22/05/2012