Enquanto vai verificando a que velocidade cresce o seu nariz, seria bom que Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal, esclarecesse durante quanto tempo e até quando estará disposto a "torrar" o interesse nacional para proteger quem mentiu, omitiu e disfarçou. É a minha convicção pela análise dos factos, pelas respostas dadas e nebulosas existentes.
quarta-feira, maio 30, 2012
Continua a saga
"Miguel Relvas não disse toda a verdade quando foi ouvido no Parlamento. Na audição do passado dia 15 de maio, na primeira comissão, o ministro-adjunto de Pedro Passos Coelho foi assertivo: encontrou-se com Jorge Silva Carvalho, mas "sempre em locais públicos" e apenas assume terem conversado sobre "matérias de actualidade e política externa".
Mas Relvas, enquanto administrador da consultora Finertec, reuniu-se, pelo menos duas vezes, com Silva Carvalho para falarem de negócios. Uma das vezes na própria sede da Ongoing, na companhia de Nuno Vasconcellos, chairman da empresa, e de Braz da Silva, presidente da empresa de Relvas.
Os contactos entre as duas empresas resultaram num "memorando de entendimento" para "prospecção de mercado em várias áreas de negócio". Objectivos: Angola e Brasil.
A assinatura deste acordo, que Silva Carvalho e Relvas negociaram pessoalmente, foi feita no dia 21 de junho de 2011, no mesmo dia em que Relvas tomou posse como ministro. Já não era, há um mês, administrador da Finertec." - Visão
"Quando foi ao Parlamento para falar pela primeira vez sobre o seu envolvimento no caso das secretas, há duas semanas, Miguel Relvas foi taxativo: nenhum dos nomes que constavam de um SMS enviado por Jorge Silva Carvalho com sugestões para chefiar os serviços secretos estava abrangido pelo segredo de Estado.
"Não eram agentes, eram pessoas para responsabilidades, para lugares de topo que não eram agentes, aqui não há segredos de Estado", respondeu então o ministro dos Assuntos Parlamentares a uma pergunta da deputada socialista Isabel Oneto.
Mas de acordo com o que um antigo responsável dos serviços explicou ao Expresso, dois dos nomes que constavam no SMS estavam abrangidos pelo segredo de Estado e a sua identidade não podia ser revelada.
"Principalmente por um antigo diretor dos serviços que está obrigado a respeitar o segredo de Estado", precisa o mesmo responsável. Os nomes em questão eram os de Paula Morais, diretora da escola do SIS, e Filomena Teixeira, diretora do departamento no SIED." - Expresso
terça-feira, maio 29, 2012
Não, o burro não foi ele
Bastou-lhe chegar a Portugal e garantir uns milhões para começar logo a comportar-se como alguns "locais". Na entrevista que esta noite irá passar na RTP, o ex-seleccionador nacional vem, entre outras coisas, justificar a não convocação de Vítor Baía para a selecção nacional com as indicações que lhe foram dadas da primeira vez que se encontrou com Pinto da Costa e Mourinho num jogo Belenenses-Porto. Diz Scolari que nesse dia jogou Nuno Espírito Santo e que Pinto da Costa e Mourinho lhe transmitiram que não deveria convocar Baía. Perante esta afirmação, o que depois acrescentou sobre o poder dos ditos senhores é irrelevante. Bom foi que os portugueses, os que ainda não sabiam, possam ficar a saber, por confissão tardia na primeira pessoa, quais os critérios que ditaram as suas escolhas. Primeiro começou por se deixar manipular, depois mostrou ser um medroso interesseiro que só se preocupou em segurar o lugar e não desagradar aos senhores da bola nacional. As derrotas com a Grécia no Euro de 2004 foram afinal obra de Pinto da Costa e Mourinho. E deselegância deve ter sido uma herança recebida dos labregos que lhe deram a possibilidade de aprender a comer peixe nos restaurantes de Cascais.
Quem dera que fosse só nas secretas
É claro que Francisco Pinto Balsemão tem toda a razão quando refere a necessidade de ser feita uma "limpeza" nos serviços de informações. Mas o problema é que a "miséria moral" de que ele fala e justifica essa limpeza não existe só nos serviços secretos. Desde há um ror de anos que essa mesma miséria moral, promovida nos anos de ouro do cavaquismo à sombra de personagens tão intrigantes quanto obscuras, que se elevaram aos mais altos cargos da nação, depois continuada no guterrismo e no barrosismo e que atingiu todo o seu esplendor nos últimos governos, faz parte da vida política nacional. Faz parte do código genético de muitas das empresas do regime, da actividade bancária e bolsista das últimas décadas, está neste Governo, nos partidos políticos, no parlamento, na justiça, nas universidades e nas autarquias, nas polícias, no futebol, nos estádios do Euro 2004, nas notícias dos jornais e até nos programas televisivos, aos quais não escapa nesse quadro deprimente e avassalador a amada SIC do dr. Balsemão. A bem dizer, a miséria moral tornou-se numa marca distintiva das grandes obras do regime e são poucas as ilhas de decência que não foram atingidas por ela. Desta vez tocou-lhe a ele como podia ter tocado a qualquer outro. Eu também gostava que essa limpeza se fizesse. Há anos que me bato por ela sem que o dr. Balsemão e outros como ele liguem peva. Mas não sei, aliás duvido, que algum dia essa limpeza se faça, e que sendo feita tenha algum resultado. Como Francisco Pinto Balsemão também sabe, o que não falta neste país são clones e candidatos a clones. Só que o drama, quanto a estes, é que os modelos escolhidos são normalmente o espelho dessa miséria moral. E neste país o que não falta são candidatos a espelho. Para a maior parte, nesse percurso, tudo serve: comentários anónimos, cartas em cacifos, relatórios de coscuvilhice, oferecimento de serviços vários, sugestões, palmadinhas nas costas, atropelos vários e, se necessário, umas voltas num qualquer green. O desgosto do dr. Balsemão não será diferente do meu. Ou do de qualquer outro cidadão. A única diferença é que ele pode dar-se ao luxo de viver fora do regime. Fora desta miséria moral. Eu não. Também gostaria de poder pensar assim, mas acontece que não posso. Sou obrigado a conviver com eles: com o regime e com a sua miséria moral. Cada dia que passa tenho mais dificuldade em emigrar e a falta de trabalho só para alguns é que funciona como uma oportunidade. Nem todos podemos aspirar a ser ex-primeiros-ministros. Eu e mais dez milhões de portugueses estamos prisioneiros do regime. São os meus impostos, os nossos, que sustentam esta miséria moral, que nos agrilhoa ao passado e ao presente e torna incerto o nosso futuro. Se o dr. Balsemão quiser dar uma ajuda à minha, nossa, libertação e fazer alguma coisa para se proceder à limpeza, para se acabar com essa miséria moral, é só dizer. E não é preciso que nos seja mostrado um cherne. Hoje em dia basta uma sardinha.
segunda-feira, maio 28, 2012
domingo, maio 27, 2012
Marcelo dixit
“Miguel Relvas é o berbicacho número 1 do Governo. As expectativas eram mais elevadas do que a realidade veio a ser. Não só não conseguiu gerir politicamente o que era preciso gerir – a coordenação e o discurso do Governo – como se viu enredado numa série de problemas que são objectivamente negativos para o primeiro-ministro." - Marcelo Rebelo de Sousa, TVI
Em suma, uma nódoa política...
sexta-feira, maio 25, 2012
A ler
Quadro que acompanha o artigo de Paulo Trigo Pereira e que tem por título "Défice de 2012: a entrar na zona vermelha?", no Público
Editorial de hoje sobre "as eurobonds"
Em cada declaração duas mentiras
Que espera Passos Coelho para pôr o seu apoderado a vender seguros? Um mentia para se safar, o outro fá-lo compulsivamente. Com que então no Gigi, com o gordinho? Em 5 de Agosto de 2011? Deviam ter ido para uma tasca em Massamá, sempre teria dado menos nas vistas.
E ainda havia quem acreditasse que tinha sido só numa festa de aniversário. Sim, sim, num "aniversário de conveniência", entre uma sangria de champagne e um peixinho do mar.
Os portugueses que vão pagando agora a conta dos anos de "aprendizagem" na JSD, da protecção de Ângelo Correia e das intimidades "d' o Relvas".
E ainda havia quem acreditasse que tinha sido só numa festa de aniversário. Sim, sim, num "aniversário de conveniência", entre uma sangria de champagne e um peixinho do mar.
Os portugueses que vão pagando agora a conta dos anos de "aprendizagem" na JSD, da protecção de Ângelo Correia e das intimidades "d' o Relvas".
Por mim estou esclarecido
(foto Mário Cruz, Lusa)
Bastou-me ouvir ontem o ministro Miguel Relvas na conferência de imprensa que improvisou, após ter sido ouvido na ERC, para que eventuais dúvidas sobre a sua actuação e as queixas das jornalistas e da direcção do Público se dissipassem. A forma como Miguel Relvas tentou disfarçar o incómodo e contornar aquilo que efectivamente disse na Assembleia da República não será muito diferente do que diria um troca-tintas que se dedica a construir versões das histórias que confabula de acordo com as situações em que é apanhado. Disse ontem o senhor ministro que a referência ao clipping sobre a viagem de Bush ao México fora apenas "um exemplo" do tipo de informação que Silva Carvalho lhe fazia chegar. Mas a passagem das imagens televisivas com a gravação daquilo que disse aos deputados é esclarecedora e não corrobora as suas declarações de ontem. Ele não deu um exemplo, ele afirmou taxativamente que o clipping com a notíca de Bush fora o primeiro que se recebera do ex-espião e que do mesmo se lembrava perfeitamente. Aqui não há segundos sentidos. De igual modo, o dizer que telefonou ao Público a pedir desculpa pelo tom que usara, e não pelo conteúdo do que afirmara antes, não cola. O tom, estando ele irado pelas conteúdo das perguntas e "pressão" que sobre ele fizera a jornalista, seria perfeitamente compreensível para a quem o escutava do outro lado da linha, atento o contexto. E se fosse por isso tê-lo logo afirmado para que ao seu destinatário não restassem dúvidas. Ninguém telefona a pedir desculpa só pelo tom, isto é, se não tiver sido malcriado e tiver a razão do seu lado. Pode-se ser contundente sem deixar de cumprir as regras da boa educação. A história, mais uma, que ontem inventou para se justificar à ERC do que fez, é mais um sinal da falta de estatura política do ministro. E, muito em particular, do seu carácter e falta de perfil para desempenhar funções de tanta responsabilidade. O ministro não é confiável. Fez-me lembrar aqueles meninos que quando são apanhados a fazer asneiras na escola ou que se querem impôr aos colegas, à falta de melhor argumento, dizem que se vão queixar ao pai, ou que este é polícia. Depois do que aconteceu com o anterior governo, os portugueses mereciam melhor. Muito melhor.
quinta-feira, maio 24, 2012
EN 125 vs portagens da Via do Infante
Espero que quando o Governo proceder à reanálise da questão das portagens nas SCUT, designadamente na Via do Infante, não se esqueça de levar em conta os números da sinistralidade rodoviária desde que aquelas foram introduzidas. Para além da EN 125 não ser "alternativa" a coisa alguma e de estar cada vez mais engarrafada, os elevados custos materiais e humanos dos acidentes deviam ajudar as pessoas a pensar antes de decidirem.
quarta-feira, maio 23, 2012
O que mudou?
Com esta notícia e o entendimento a que os partidos chegaram, fica-se sem perceber o que mudou, o que fez CDS e PSD mudarem de posição. O iluminado Catroga diz que se trata de uma mera questão "semântica", talvez para não recorrer a um outro termo que o tornou famoso no período pré-eleitoral. Mas se assim era, por que razão não o disseram logo? Por aqui se vêem as tristes figuras que os jovens Menezes, as esganiçadas Franciscas e os discretos Montenegros andam a fazer pelos canais televisivos de cada vez que saem a terreiro para defender as posições do seu partido. O carreirismo, a irracionalidade na defesa dos disparates e a subserviência são cada vez mais as imagens de marca dos pontas-de-lança deste PSD "jotinha". Fazem-me lembrar um certo PS de má memória.
terça-feira, maio 22, 2012
A ler
"A embrulhada em que Miguel Relvas se enfiou no episódio das secretas e de Silva Carvalho, que entretanto atingiu também uma jornalista deste jornal em termos por esclarecer, mostra mais uma vez uma das debilidades deste governo. Não é, para já, a relação obcecada com a imprensa, embora como se viu na era Sócrates os caminhos tortuosos comecem assim. (...)
Desde o início que a presença de Relvas no governo gerou controvérisa e surpresa. Marcelo Rebelo de Sousa chamou-lhe um "erro de casting". Outras vozes afirmaram que era uma questão de tempo até as consequências sobrarem para Passos Coelho. (...)
Ninguém pode ficar tranquilo por saber que Relvas recebia mensagens abusivas de Silva Carvalho com listas de nomeas para as secretas, as quais diz ele que apagava de imediato sem apurar por que obscuro motivo estaria na lista dos destinatários (o regime tem esta faceta sinistra, que por sinal pede uma "vassourada"). E ficamos ainda menos tranquilos por saber que um ministro considera aceitável usar a vida pessoal - se é da vida pessoal que estamos a faalr - como restaliação contra uma jornalista. (E se não foi por isso que no dia seguinte apresentou desculpas, por que motivo se desculpou?). As contradições de Relvas nesta saga são patentes. (...)" - Pedro Lomba, Público, 22/05/2012
Um primeiro-ministro sob sequestro político
Durante anos vociferaram contra a ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Basta fazer uma pesquisa na Internet e recuperar meia-dúzia de notícias e declarações para recordar o que eles pensavam sobre essa instituição.
A este propósito, será bom ler o que escreveu no seu blogue um agora adjunto de Miguel Relvas. Em 28/05/2009, João Gonçalves esclarecia-nos que a ERC era "um corpo esquisito criado pelo governo e pelo dr. Santos Silva" e que "esta ERC é a ASAE dos jornalistas, uma coisa asséptica destinada a "purificar" a mensagem e a punir o mensageiro. O presidente da dita, aliás, podia perfeitamente ter servido o Estado Novo. Tiques como aquele de rejeitar um determinado profissional para lhe fazer uma entrevista suponho que nem ao Dutra Faria devia ocorrer. A ERC não tem autoridade moral para fazer recomendações éticas. É uma excrescência política do PS escondida sob a capa de "entidade reguladora"". Eduardo Cintra Torres, cronista do Público, em 21/08/2007, escrevia, por seu lado, que "a ERC podia perfeitamente chamar-se OMO". O mesmo Cintra Torres, em 04/09/2009, no Público, escrevia que o "PS-Governo de Sócrates não consegue coexistir com a liberdade dos outros" e que "criou uma central de propaganda brutal que coage os jornalistas, intervém nas empresas de comunicação social", "fez da ERC um braço armado contra a liberdade". Manuela Moura Guedes, uma das visadas pelo Governo Sócrates, em comentário a um post do referido João Gonçalves também se queixou da ERC (19/03/2009). No dia seguinte, João Gonçalves publicava no seu blogue um texto de Manuela Moura Guedes em que esta jornalista afirmava, e transcrevo, que "o jornalista tem de ser desconfiado, meter o nariz em tudo, fazer sempre de advogado do diabo, morder as canelas, não ter temor reverencial (tão cultivado neste país), eles estão ali para servir o povo e não para que o povo os sirva a eles ... o jornalista deve descodificar a mensagem política que vende gato por lebre, deve chamar as coisas pelos nomes, sem estar com rodriguinhos que só confundem quem nos vê, deve ter, sim, uma atitude 'contrapoder'". O tal adjunto do ministro Relvas acrescentava, em 08/08/2009, que a "ERC é muito ciosa do respeitinho e do silêncio enquanto bálsamo protector dos cidadãos. Uma protecção equivalente ao nível 63 dos cremes da Ambre Solaire". Já em 30/7/2010, ao transcrever um artigo de Eduardo Cintra Torres, o mesmo João Gonçalves, reafirmava que "a ERC é uma aberração que deve, à semelhança de tantas outras, ser pura e simplesmente removida (como um tumor maligno) da constituição porque, pelos vistos, nem sequer se preocupa excessivamente em a cumprir". Em Junho de 2011, mais exactamente no dia 24, também Paulo Pinto Mascarenhas, num blogue que todos sabem ser alinhado com a maioria e o Governo de Passos Coelho (Cachimbo de Magritte), defendia "a extinção imediata da ERC, que não serve para coisa alguma". Mais tarde, em 14/11/2011, umas das recomendações do Grupo de Trabalho constituído por ordem de Miguel Relvas e que analisou o conceito de serviço público de comunicação social, do qual, entre outros, também Cintra Torres e José Manuel Fernandes faziam parte, foi a de que a ERC devia "ser extinta" e que "as tarefas administrativas e burocráticas igualmente atribuídas à ERC, bem como o seu considerável orçamento de funcionamento, podem e devem ser transferidas para outras entidades do Estado com competências semelhantes".
Pois bem, foi a esta "excrescência", como elegantemente lhe chamaram os seus críticos, entre os quais também pontificava Pinto Balsemão, e que se habituou a fazer favores ao poder, em especial ao eng.º Sócrates e ao PS, que o ministro Miguel Relvas resolveu atribuir a análise do conflito que o opõe ao Público e a uma jornalista que se queixou de ter sido por ele ameaçada se continuasse, porque é disso que se trata, a exercer as suas funções com independência e autonomia em relação ao poder político.
É a essa entidade que o pressuroso, subserviente apparatchik e "envergonhado" (quem não se lembra da forma vergonhosa como se furtou a responder no Parlamento a um jornalista sobre a sua condição de maçon) Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD, entende que deve ser remetida a análise do problema pois que, segundo ele, "é importante não desvalorizar o cumprimento das capacidades e competências da ERC sob pena de estarmos a desvirtuar o sistema". Homessa! Então só agora é que lhes deu para valorizar o trabalho da ERC?
É claro que as pessoas não andam a dormir e já todas perceberam que bastou mudar o Governo e nomear para a dita ERC outros nomes para que este órgão ganhasse logo uma série de virtudes antes desconhecidas.
Creio que os portugueses a seu tempo avaliarão, se é que não o fizeram já, o carácter desta gente que em nada, repito, nada, se distingue, daqueles que mais criticaram no passado, e que muda de posições como quem muda de camisa.
Por isso mesmo, eu que já no tempo de José Sócrates critiquei algumas posições da ERC, e hoje continuo a criticar, gostaria de aqui enfatizar as posições de quem estando do outro lado da "barricada" não se comporta como um vulgar troca-tintas e mantém a lucidez suficiente para ver que aquilo que o ministro Relvas e o PSD estão a fazer para se "limparem" e fugirem à responsabilização política no Parlamento é um nojo. Refiro-me a Pedro Lomba, com um texto notável hoje publicado nesse mesmo Público e que aqui reproduzirei mais tarde, e a Henrique Raposo, no Expresso.
O ministro Miguel Relvas já mostrou várias vezes que não merece crédito, que não merece qualquer confiança política. Mas o primeiro-ministro Passos Coelho não "corre" com ele porque depende do ministro para a sua sobrevivência. Para manter a máquina da propaganda activa e bem oleada.
A situação de Miguel Relvas em relação ao primeiro-ministro e a confiança que por este lhe foi manifestada não é muito diferente da que Cavaco Silva deu a um seu ex-conselheiro de Estado numa altura em que este já estava preso por arames. Em cada dia que passa vê-se com mais clareza que Passos Coelho está refém, e de que maneira, dos amigos que o colocaram em S. Bento. Infelizmente, uma vez mais, o que aí vem não augura nada de bom. Este País fede e não há ninguém com tomates para o limpar.
sábado, maio 19, 2012
Complicar o que é simples
A nota editorial do Público complica o que é simples.
O que foi relatado não será muito diferente de outras situações ocorridas no passado recente. Porém, sendo verdade, não deixará de ser igualmente grave. E lamentável.
As "embrulhadas" do ministro Relvas são habituais, e não são novas. Fazem parte de uma certa maneira de estar na política e, por via desta, na vida, reflectindo, aliás, um modelo que Pedro Lomba causticamente definia no passado dia 8 de Maio, num artigo de opinião publicado nesse mesmo jornal, como sendo o do "típico politico gerado na democracia mediática da parlapatice e da vigarice, capaz de dizer e fazer qualquer coisa para se manter no poder. Assim como que uma espécie de "um novo-rico da política" que quando obtém algum poder, acrescento, se permite passar a fazer telefonemas com a arrogância de quem julga que o País é o partido e os cidadãos destinatários dos seus telefonemas e "recados" os militantes do rebanho que se habituaram a pastorear para singrarem na política e nos negócios. E, alguns outros, até nos estudos.
As "embrulhadas" do ministro Relvas são habituais, e não são novas. Fazem parte de uma certa maneira de estar na política e, por via desta, na vida, reflectindo, aliás, um modelo que Pedro Lomba causticamente definia no passado dia 8 de Maio, num artigo de opinião publicado nesse mesmo jornal, como sendo o do "típico politico gerado na democracia mediática da parlapatice e da vigarice, capaz de dizer e fazer qualquer coisa para se manter no poder. Assim como que uma espécie de "um novo-rico da política" que quando obtém algum poder, acrescento, se permite passar a fazer telefonemas com a arrogância de quem julga que o País é o partido e os cidadãos destinatários dos seus telefonemas e "recados" os militantes do rebanho que se habituaram a pastorear para singrarem na política e nos negócios. E, alguns outros, até nos estudos.
O estilo "chiclete" do ministro será o menos relevante numa sórdida história em que só importa apurar dois factos. Em primeiro lugar, saber se o ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, este e não qualquer outro, telefonou, ou não, para Maria José Oliveira. Em segundo, se depois, num outro momento, o ministro telefonou para a direcção do jornal. Ou se foi esta que ligou para o ministro.
São estas, e só a estas, perguntas que o Parlamento deverá procurar obter resposta.
Se o ministro confessar, então aproveite-se para se esclarecer a que horas, de que números foram realizadas as chamadas, para que números, e quanto tempo duraram. Creio que os registos da central telefónica do Público ou os registos das operadoras e dos próprios telemóveis, caso tenham sido estes os instrumentos do "crime", poderão confirmar a existência das chamadas, o seu tempo de duração, os dias e as horas em que aconteceram.
Quanto ao mais, como sempre, teremos a palavra da jornalista e a da direcção do jornal, de um lado, e a palavra do ministro Miguel Relvas, do outro. Cada um procurando confirmar as respectivas versões.
Mas isso já será irrelevante. Se pressões e ameaças não deixam sulco, as palavras do ministro Relvas ainda menos. O que importa é saber se o ministro telefonou. Quanto ao resto das conclusões, cada um que as tire.
O Parlamento não pode continuar a perder tempo e a dar tempo de antena a espertalhaços e similares que transformaram a política num chiqueiro. Muito menos a chafurdar nas histórias que aqueles relatam para se irem limpando. Os portugueses, os normais, os sérios, os decentes, que são a maioria, estão enjoados e enojados.
Uma grande noite...
... com o Pedro Burmester, em Faro, no Teatro das Figuras, que ainda conseguiu tornar inesquecível uma interpretação muito própria do Salon Mexico de Aaron Copland.
sexta-feira, maio 18, 2012
Mistério
Uma instituição designada "ICPT - International Club of Portugal", manda-me regularmente convites para almoços onde invariavelmente estarão ministros do actual Governo. Agora calhou-me "o Álvaro", mas já antes lá esteve a ministra da Justiça. Desconheço a que título sou convidado, tanto mais que moro em Faro e não sou sócio da dita instituição. Os almoços são pagos pelos participantes, pelo que, quanto a esse ponto, só vai quem quer e ninguém paga nada a ninguém, não havendo o problema de me quererem comprar. Mas intriga-me não saber a que título é que os membros do Governo participam na iniciativa. É que, convém não esquecer, segundo se lê no convite, o número de lugares para este evento é "muito limitado". Ora, se assim é, ainda mais me espanta que se lembrem de mim. Que terei feito de tão grave para merecer a honra de ir almoçar com "o Álvaro"? Com a ministra da Justiça ainda posso perceber, atenta a profissão que exerço, mas com "o Álvaro"? Será o ICPT apenas mais um lobby? Se houver alguém que me possa dar algumas luzes agradeço. Não creio conhecer o fundador do ICPT, nem a senhora que simpaticamente me manda os e-mails, mas desconfio que não fui eu quem lhe deu o meu e-mail. Obrigado.
P.S. Não gostaria, daqui a alguns tempos, de ter de fazer a figura de tonto de um certo ministro quando recentemente foi ao Parlamento por causa de uns "clippings" e "sms" que andou a receber sem nunca procurar esclarecer a que título um ex-James Bond lhos enviava.
P.S. Não gostaria, daqui a alguns tempos, de ter de fazer a figura de tonto de um certo ministro quando recentemente foi ao Parlamento por causa de uns "clippings" e "sms" que andou a receber sem nunca procurar esclarecer a que título um ex-James Bond lhos enviava.
quinta-feira, maio 17, 2012
Sempre a descer
O Presidente da República, que deveria ser de todos o menos penalizado num momento de acentuada crise como a que atravessamos, continua a ser o recordista deste triste ranking. Creio que nenhum outro político em Portugal (Fernando Nobre não conta) conseguiu dar cabo tão depressa e de forma tão irremediável do seu capital político, da sua imagem e da confiança que os seus concidadãos podiam depositar no mais alto magistrado da Nação.
terça-feira, maio 15, 2012
O "caso Relvas"
Se não antes, pelo menos a partir de hoje passámos a ter um "caso Relvas". Mais um, dirá Clara Ferreira Alves. A ida do ministro dos Assuntos Parlamentares à Comissão de Assuntos Constitucionais não esclareceu o que devia ter sido esclarecido, mas também não consta que o ministro quisesse efectivamente dizer mais do que disse. A trapalhada salta à vista.
Mesmo admitindo que o ministro não pediu nenhum estudo ou projecto de reestruturação dos serviços de informações, o que até não será difícil de acreditar atendendo ao perfil conhecido de Jorge Silva Carvalho - tipos destes aparecem sempre e em todo o lado -, e que também não deu a conhecer ao primeiro-ministro o que por aquele patusco James Bond lhe foi endereçado, ficou por perceber como é que um tipo tão inteligente como Miguel Relvas não se questionou sobre o conteúdo dos clippings que recebia, nem sobre a sua origem e inclusão no rol dos eleitos para essa "dávida".
Se eu amanhã passasse a receber clippings de um qualquer ex-espião, sem os ter requisitado ou subscrito, certamente que duvidaria da minha inclusão como um dos contemplados. Ao menos tentaria perceber as razões.
Dando de barato que, como foi afirmado na Comissão, o clipping de informação que recebia "era mal feito" - também não custa acreditar - e que o seu conteúdo seria inócuo - embora, como também sublinhou Pacheco Pereira, nada do que é produzido por um serviço de informações seja irrelevante, posto que a própria escolha dos conteúdos já é por si reveladora de opções que deveriam permanecer secretas e para consumo dos serviços - não se compreende que alguém com as responsabilidades de Miguel Relvas aceitasse ir recebendo tais clippings como se em causa estivesse o anúncio das promoções de um supermercado.
Com efeito, se o ministro não queria fazer parte da lista - não percebi se dos e-mails recebidos era possível extrair a identidade dos demais destinatários - deveria, desde logo, ter tomado uma primeira decisão, que era o que eu teria feito: pedir a sua remoção da lista ou bloquear a sua recepção.
Depois, poderia também ter falado com o emissor, questionando-o sobre o próprio envio desse clipping e manifestando a sua opinião sobre a respectiva utilidade e, já agora, o seu desagrado pelas incorrecções ("era mal feito") que, segundo ele, revelava.
Em terceiro lugar, tratando-se de matéria reencaminhada de terceiros, admitindo-se que não desconhecia a origem, isto é, a fonte, e que o conteúdo certamente seria actual, e bem sabendo das funções que já ao tempo Silva Carvalho exercia na Ongoing, o mínimo que eu esperaria de um ministro da sua craveira era que tivesse discretamente alertado os responsáveis, a começar por Júlio Pereira, para que este esclarecesse e investigasse o que se estava a passar e por que motivo um ex-dirigente dos serviços que passara directamente para uma empresa privada lhe veiculava esse tipo de informação.
Não sei se uma situação desse tipo, envolvendo o envio de um eventual projecto que ninguém aparentemente encomendou sobre matéria tão sensível, ou a insinuação de nomes e de propostas tão desonestas como a nomeação de fulano e de beltrano para determinados lugares, em última instância, e não querendo fazer dele um bufo perante tal situação, não teria sido perfeitamente compreensível e aceitável para que o ministro protegesse os serviços de informações e o Estado que agora, como no passado, durante tantos anos, lhe paga o ordenado, antecipando o que se lhe seguiu. Isto é, os incómodos para ele, a chacota para os serviços e o desprestígio para o Estado.
Viu-se que o ministro tentou desvalorizar o incidente, procurando escapar aos salpicos que o atingiram, ao querer misturar frivolidades - um aniversário com centenas de pessoas - com um assunto demasiado grave e que se permitiu - ele inclusivé - que fosse demasiado longe. Mesmo com um aventalinho que o proteja, não me parece que este assunto possa ficar por aqui. E que ao ministro - aceitando, por uma vez, a sua ingenuidade - baste lavar as mãos, enxugá-las no avental, como faria qualquer cozinheiro de tasca, e seguir em frente. É que se o ministro contar com o avental para enxugá-las, então correrá o risco das ditas nunca mais se apresentarem, independentemente de outras consequências, limpas aos olhos dos seus concidadãos.
Aventais da loja do chinês e ainda por cima salpicados por terceiros não oferecem garantias de higiene e protecção.
E, como o ministro seguramente já percebeu, uma coisa é contar com a compreensão e o apoio de Passos Coelho, mandar na JSD, dizer umas larachas a Judite de Sousa, ser entrevistado por Mário Crespo ou impedir a contratação do Futre para a RTP. Outra coisa é governar com a confiança dos seus semelhantes.
O Indiana Jones, que nunca foi ministro em Portugal, não era tipo para fazer as coisas com tamanha displicência. Além de que hoje em dia já nem os heróis confiam na sorte.
Mesmo admitindo que o ministro não pediu nenhum estudo ou projecto de reestruturação dos serviços de informações, o que até não será difícil de acreditar atendendo ao perfil conhecido de Jorge Silva Carvalho - tipos destes aparecem sempre e em todo o lado -, e que também não deu a conhecer ao primeiro-ministro o que por aquele patusco James Bond lhe foi endereçado, ficou por perceber como é que um tipo tão inteligente como Miguel Relvas não se questionou sobre o conteúdo dos clippings que recebia, nem sobre a sua origem e inclusão no rol dos eleitos para essa "dávida".
Se eu amanhã passasse a receber clippings de um qualquer ex-espião, sem os ter requisitado ou subscrito, certamente que duvidaria da minha inclusão como um dos contemplados. Ao menos tentaria perceber as razões.
Dando de barato que, como foi afirmado na Comissão, o clipping de informação que recebia "era mal feito" - também não custa acreditar - e que o seu conteúdo seria inócuo - embora, como também sublinhou Pacheco Pereira, nada do que é produzido por um serviço de informações seja irrelevante, posto que a própria escolha dos conteúdos já é por si reveladora de opções que deveriam permanecer secretas e para consumo dos serviços - não se compreende que alguém com as responsabilidades de Miguel Relvas aceitasse ir recebendo tais clippings como se em causa estivesse o anúncio das promoções de um supermercado.
Com efeito, se o ministro não queria fazer parte da lista - não percebi se dos e-mails recebidos era possível extrair a identidade dos demais destinatários - deveria, desde logo, ter tomado uma primeira decisão, que era o que eu teria feito: pedir a sua remoção da lista ou bloquear a sua recepção.
Depois, poderia também ter falado com o emissor, questionando-o sobre o próprio envio desse clipping e manifestando a sua opinião sobre a respectiva utilidade e, já agora, o seu desagrado pelas incorrecções ("era mal feito") que, segundo ele, revelava.
Em terceiro lugar, tratando-se de matéria reencaminhada de terceiros, admitindo-se que não desconhecia a origem, isto é, a fonte, e que o conteúdo certamente seria actual, e bem sabendo das funções que já ao tempo Silva Carvalho exercia na Ongoing, o mínimo que eu esperaria de um ministro da sua craveira era que tivesse discretamente alertado os responsáveis, a começar por Júlio Pereira, para que este esclarecesse e investigasse o que se estava a passar e por que motivo um ex-dirigente dos serviços que passara directamente para uma empresa privada lhe veiculava esse tipo de informação.
Não sei se uma situação desse tipo, envolvendo o envio de um eventual projecto que ninguém aparentemente encomendou sobre matéria tão sensível, ou a insinuação de nomes e de propostas tão desonestas como a nomeação de fulano e de beltrano para determinados lugares, em última instância, e não querendo fazer dele um bufo perante tal situação, não teria sido perfeitamente compreensível e aceitável para que o ministro protegesse os serviços de informações e o Estado que agora, como no passado, durante tantos anos, lhe paga o ordenado, antecipando o que se lhe seguiu. Isto é, os incómodos para ele, a chacota para os serviços e o desprestígio para o Estado.
Viu-se que o ministro tentou desvalorizar o incidente, procurando escapar aos salpicos que o atingiram, ao querer misturar frivolidades - um aniversário com centenas de pessoas - com um assunto demasiado grave e que se permitiu - ele inclusivé - que fosse demasiado longe. Mesmo com um aventalinho que o proteja, não me parece que este assunto possa ficar por aqui. E que ao ministro - aceitando, por uma vez, a sua ingenuidade - baste lavar as mãos, enxugá-las no avental, como faria qualquer cozinheiro de tasca, e seguir em frente. É que se o ministro contar com o avental para enxugá-las, então correrá o risco das ditas nunca mais se apresentarem, independentemente de outras consequências, limpas aos olhos dos seus concidadãos.
Aventais da loja do chinês e ainda por cima salpicados por terceiros não oferecem garantias de higiene e protecção.
E, como o ministro seguramente já percebeu, uma coisa é contar com a compreensão e o apoio de Passos Coelho, mandar na JSD, dizer umas larachas a Judite de Sousa, ser entrevistado por Mário Crespo ou impedir a contratação do Futre para a RTP. Outra coisa é governar com a confiança dos seus semelhantes.
O Indiana Jones, que nunca foi ministro em Portugal, não era tipo para fazer as coisas com tamanha displicência. Além de que hoje em dia já nem os heróis confiam na sorte.
O renascer da Europa dos cidadãos
Ao Miguel Portas,
que tanto lutou
pela consolidação de uma Europa
mais justa e solidária para todos os europeus.
P.S. Como se vê pelos acontecimentos que se seguiram, a ridícula figura feita por Passos Coelho e pelos seus acólitos que no Parlamento português aprovaram apressadamente e sem pensar o Tratado Orçamental, ignorando uma salvaguarda pequena que fosse nessa posição, deverá ser vista como mais um murro no estômago, mas também como uma cacetada na ignorância e na sobranceria de que o Governo continua a dar mostras e que em nada contribuiu para o reforço da nossa posição na Europa.
que tanto lutou
pela consolidação de uma Europa
mais justa e solidária para todos os europeus.
"Dal mio punto di vista, sul piano della politica europea, il governo tedesco sta facendo poche cose giuste e molte cose sbagliate. Lo slogan Più Europa è la risposta giusta a una crisi dovuta a un difetto di costruzione della comunità monetaria. La politica non riesce più a compensare gli squilibri economichi che ne sono nati." - Jürgen Habermas, la Repubblica, 12/03/2012, texto que também saiu no último número da Reset
Um dos grandes defeitos da esquerda moderna, admitindo implícita nesta definição que existe uma esquerda que não se rendeu à Terceira Via, ao tacticismo eleitoral e ao conúbio com os mercados que nos trouxeram até à crise que a Europa vive e de que são espelho não só a situação na Grécia, em Portugal, na Irlanda, em Espanha e em Itália, mas igualmente as dificuldades recentes vividas na Bélgica e na Holanda, cujo governo acabou de cair e prepara eleições, e também em França e na Alemanha, sendo que neste dois últimos casos foram os resultados eleitorais de François Hollande e a dolorosa derrota da chanceler Merkel nas eleições regionais do mais populoso dos Estados alemães - Renânia do Norte-Vestefália - que mais marcam, é de por vezes tomar a nuvem por Juno e embandeirar em arco com o primeiro sucesso que traga os cidadãos para a rua. Na rua pode-se marcar a agenda, mas eleições ganham-se nas urnas.
Ora, esta é exactamente a primeira lição que se deve retirar da vitória de Hollande e dos resultados na Renânia do Norte - Vestefália. A forma sobranceira como o directório europeu se comportou na actual crise, o modo como a Alemanha e a França empurraram a Grécia para a catástrofe, dando azo ao fortalecimento de uma extrema-direita neo-nazi e xenófoba, que muitos julgavam banida do solo europeu, e a atitude de Nicolas Sarkozy de estigmatizar o discurso de esquerda, ao mesmo tempo que tentava ridicularizá-lo, esquecendo que a esquerda é ainda hoje para o mal e para o bem o depósito das convicções e da esperança de muito milhões de europeus que vivem a democracia diariamente e não se conformam com as grilhetas dos mercados, ilustra bem que ao subestimar a força das urnas com uma retórica de ocasião, Sarkozy e Merkel se esqueceram dessa verdade elementar, pagando hoje o preço dessa ousadia.
Por outro lado, como bem sublinhou Habermas, não pode haver aprofundamento da integração europeia e da democracia sem um reforço da integração dos cidadãos e da participação cívica dos europeus que modere a tendência dos Estados da linha da frente de decidirem primeiro, a seguir apresentarem a factura e só depois explicarem. A liberdade e uma democracia efectiva não são compatíveis com a ignorância histórica, a incompetência, acefalia e a acrisia de que alguns responsáveis europeus deram mostras.
Bem sei que a falta de estatura política, intelectual e cultural de muitas das lideranças europeias recentes, não só em França ou na Alemanha, como também no Reino Unido e em Itália, sem esquecer Portugal, que pelo menos desde 2005 não tem sequer um primeiro-ministro que possa mostrar o mérito do seu currículo político, académico e profissional na Europa sem corar de vergonha, tem contribuído para cultivar uma espécie de agenda de conveniência, incapaz de ver a médio e o longo prazo, não obstante os esforços da presidência da União Europeia - verdade seja dita, mérito de Durão Barroso - que percebeu mais cedo do que os demais a necessidade de se aproximar a Europa dos cidadãos e de inflectir o caminho.
É hoje evidente para qualquer pessoa sensata que o desvario de alguns países da zona euro só foi possível com a conivência ao longo de anos da Alemanha da senhora Merkel e dos banqueiros alemães, que enquanto retiraram lucros à custa do endividamento do Sul e foram crescendo à sombra do consumismo fácil dos seus parceiros menos previdentes, não deram a atenção devida ao que se estava a passar e até mesmo aos avisos que amiúde foram chegando de algumas agências de rating, as tais, pensando que a tendência em direcção ao abismo se inverteria por simples magia dos mercados financeiros, mais preocupados com as possibilidades de gerarem lucros especulativos rápidos do que em introduzirem alguma racionalidade na suas decisões.
Por via da forma complexada como o Norte sempre olhou para o Sul, incapaz de compreender que a construção da Europa passará sempre pelo conhecimento do outro, a Alemanha cavalgou a onda enquanto pôde, esquecendo que Weimar não é, nem nunca será, um mero capítulo, por sinal bem infeliz, na história da Alemanha e da Europa. A simples perspectiva das eleições gregas terem de ser repetidas, a incapacidade da democracia helénica gerar um governo estável e a cada vez mais que provável saída da Grécia da zona euro, mais do que uma derrota dos próprios gregos, é uma derrota da Alemanha e do espartilho que contra todos os avisos quis impôr aos outros.
A arrogância, falta de sentido europeu e cegueira ideológica do eixo franco-alemão, que chegou a raiar o cretinismo, aliás devidamente coadjuvada por alguns bandarilheiros de segunda e terceira linha, desejosos de mostrarem serviço e que logo se apressaram a aprovar as alterações ao novo Tratado Orçamental, colocou a Europa num impasse do qual só sairá, felizmente, com a ajuda do novo presidente francês e dos europeus.
Não se trata de pura e simplesmente colocar um ponto final na austeridade e voltar ao tempos do alegre gastar, pecha que, olhando-se para a Itália de Berlusconi e Bossi, se revelou não ser monopólio das esquerdas, mas de pensar a Europa como um espaço de cidadania, com regras claras e sensatas, designadamente em matéria orçamental, fiscal e financeira, que permita aos europeus, a todos e não apenas a alguns, viverem de uma forma decente, equilibrada e solidária, única via para o restabelecimento da paz social e da coesão entre os povos europeus.
Esse caminho está mais próximo. Se a vitória de Hollande e a derrota da CDU na Renânia do Norte-Vestefália são sinais de esperança, a recente tomada de posição do SPD quanto às condições para que o Tratado Orçamental possa ser aprovado em Berlim, já são mais do que uma garantia. São a certeza de que os europeus entendem chegado o momento de assegurar condições de participação democrática que mantenham vivo o sonho europeu num quadro de estabilidade política, coesão social e crescimento, que afaste o espectro de um desemprego global e o aumento do fosso entre os ricos e os pobres e remediados.
Por outro lado, como bem sublinhou Habermas, não pode haver aprofundamento da integração europeia e da democracia sem um reforço da integração dos cidadãos e da participação cívica dos europeus que modere a tendência dos Estados da linha da frente de decidirem primeiro, a seguir apresentarem a factura e só depois explicarem. A liberdade e uma democracia efectiva não são compatíveis com a ignorância histórica, a incompetência, acefalia e a acrisia de que alguns responsáveis europeus deram mostras.
Bem sei que a falta de estatura política, intelectual e cultural de muitas das lideranças europeias recentes, não só em França ou na Alemanha, como também no Reino Unido e em Itália, sem esquecer Portugal, que pelo menos desde 2005 não tem sequer um primeiro-ministro que possa mostrar o mérito do seu currículo político, académico e profissional na Europa sem corar de vergonha, tem contribuído para cultivar uma espécie de agenda de conveniência, incapaz de ver a médio e o longo prazo, não obstante os esforços da presidência da União Europeia - verdade seja dita, mérito de Durão Barroso - que percebeu mais cedo do que os demais a necessidade de se aproximar a Europa dos cidadãos e de inflectir o caminho.
É hoje evidente para qualquer pessoa sensata que o desvario de alguns países da zona euro só foi possível com a conivência ao longo de anos da Alemanha da senhora Merkel e dos banqueiros alemães, que enquanto retiraram lucros à custa do endividamento do Sul e foram crescendo à sombra do consumismo fácil dos seus parceiros menos previdentes, não deram a atenção devida ao que se estava a passar e até mesmo aos avisos que amiúde foram chegando de algumas agências de rating, as tais, pensando que a tendência em direcção ao abismo se inverteria por simples magia dos mercados financeiros, mais preocupados com as possibilidades de gerarem lucros especulativos rápidos do que em introduzirem alguma racionalidade na suas decisões.
Por via da forma complexada como o Norte sempre olhou para o Sul, incapaz de compreender que a construção da Europa passará sempre pelo conhecimento do outro, a Alemanha cavalgou a onda enquanto pôde, esquecendo que Weimar não é, nem nunca será, um mero capítulo, por sinal bem infeliz, na história da Alemanha e da Europa. A simples perspectiva das eleições gregas terem de ser repetidas, a incapacidade da democracia helénica gerar um governo estável e a cada vez mais que provável saída da Grécia da zona euro, mais do que uma derrota dos próprios gregos, é uma derrota da Alemanha e do espartilho que contra todos os avisos quis impôr aos outros.
A arrogância, falta de sentido europeu e cegueira ideológica do eixo franco-alemão, que chegou a raiar o cretinismo, aliás devidamente coadjuvada por alguns bandarilheiros de segunda e terceira linha, desejosos de mostrarem serviço e que logo se apressaram a aprovar as alterações ao novo Tratado Orçamental, colocou a Europa num impasse do qual só sairá, felizmente, com a ajuda do novo presidente francês e dos europeus.
Não se trata de pura e simplesmente colocar um ponto final na austeridade e voltar ao tempos do alegre gastar, pecha que, olhando-se para a Itália de Berlusconi e Bossi, se revelou não ser monopólio das esquerdas, mas de pensar a Europa como um espaço de cidadania, com regras claras e sensatas, designadamente em matéria orçamental, fiscal e financeira, que permita aos europeus, a todos e não apenas a alguns, viverem de uma forma decente, equilibrada e solidária, única via para o restabelecimento da paz social e da coesão entre os povos europeus.
Esse caminho está mais próximo. Se a vitória de Hollande e a derrota da CDU na Renânia do Norte-Vestefália são sinais de esperança, a recente tomada de posição do SPD quanto às condições para que o Tratado Orçamental possa ser aprovado em Berlim, já são mais do que uma garantia. São a certeza de que os europeus entendem chegado o momento de assegurar condições de participação democrática que mantenham vivo o sonho europeu num quadro de estabilidade política, coesão social e crescimento, que afaste o espectro de um desemprego global e o aumento do fosso entre os ricos e os pobres e remediados.
P.S. Como se vê pelos acontecimentos que se seguiram, a ridícula figura feita por Passos Coelho e pelos seus acólitos que no Parlamento português aprovaram apressadamente e sem pensar o Tratado Orçamental, ignorando uma salvaguarda pequena que fosse nessa posição, deverá ser vista como mais um murro no estômago, mas também como uma cacetada na ignorância e na sobranceria de que o Governo continua a dar mostras e que em nada contribuiu para o reforço da nossa posição na Europa.
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