terça-feira, maio 15, 2012

O renascer da Europa dos cidadãos

Ao Miguel Portas,
que tanto lutou
pela consolidação de uma Europa
mais justa e solidária para todos os europeus.


"Dal mio punto di vista, sul piano della politica europea, il governo tedesco sta facendo poche cose giuste e molte cose sbagliate. Lo slogan Più Europa è la risposta giusta a una crisi dovuta a un difetto di costruzione della comunità monetaria. La politica non riesce più a compensare gli squilibri economichi che ne sono nati." - Jürgen Habermas, la Repubblica, 12/03/2012, texto que também saiu no último número da Reset

Um dos grandes defeitos da esquerda moderna, admitindo implícita nesta definição que existe uma esquerda que não se rendeu à Terceira Via, ao tacticismo eleitoral e ao conúbio com os mercados que nos trouxeram até à crise que a Europa vive e de que são espelho não só a situação na Grécia, em Portugal, na Irlanda, em Espanha e em Itália, mas igualmente as dificuldades recentes vividas na Bélgica e na Holanda, cujo governo acabou de cair e prepara eleições, e também em França e na Alemanha, sendo que neste dois últimos casos foram os resultados eleitorais de François Hollande e a dolorosa derrota da chanceler Merkel nas eleições regionais do mais populoso dos Estados alemães - Renânia do Norte-Vestefália - que mais marcam, é de por vezes tomar a nuvem por Juno e embandeirar em arco com o primeiro sucesso que traga os cidadãos para a rua. Na rua pode-se marcar a agenda, mas eleições ganham-se nas urnas.

Ora, esta é exactamente a primeira lição que se deve retirar da vitória de Hollande e dos resultados na Renânia do Norte - Vestefália. A forma sobranceira como o directório europeu se comportou na actual crise, o modo como a Alemanha e a França empurraram a Grécia para a catástrofe, dando azo ao fortalecimento de uma extrema-direita neo-nazi e xenófoba, que muitos julgavam banida do solo europeu, e a atitude de Nicolas Sarkozy de estigmatizar o discurso de esquerda, ao mesmo tempo que tentava ridicularizá-lo, esquecendo que a esquerda é ainda hoje para o mal e para o bem o depósito das convicções e da esperança de muito milhões de europeus que vivem a democracia diariamente e não se conformam com as grilhetas dos mercados, ilustra bem que ao subestimar a força das urnas com uma retórica de ocasião, Sarkozy e Merkel se esqueceram dessa verdade elementar, pagando hoje o preço dessa ousadia.

Por outro lado, como bem sublinhou Habermas, não pode haver aprofundamento da integração europeia e da democracia sem um reforço da integração dos cidadãos e da participação cívica dos europeus que modere a tendência dos Estados da linha da frente de decidirem primeiro, a seguir apresentarem a factura e só depois explicarem. A liberdade e uma democracia efectiva não são compatíveis com a ignorância histórica, a incompetência, acefalia e a acrisia de que alguns responsáveis europeus deram mostras.

Bem sei que a falta de estatura política, intelectual e cultural de muitas das lideranças europeias recentes, não só em França ou na Alemanha, como também no Reino Unido e em Itália, sem esquecer Portugal, que pelo menos desde 2005 não tem sequer um primeiro-ministro que possa mostrar o mérito do seu currículo político, académico e profissional na Europa sem corar de vergonha, tem contribuído para cultivar uma espécie de agenda de conveniência, incapaz de ver a médio e o longo prazo, não obstante os esforços da presidência da União Europeia - verdade seja dita, mérito de Durão Barroso - que percebeu mais cedo do que os demais a necessidade de se aproximar a Europa dos cidadãos e de inflectir o caminho.

É hoje evidente para qualquer pessoa sensata que o desvario de alguns países da zona euro só foi possível com a conivência ao longo de anos da Alemanha da senhora Merkel e dos banqueiros alemães, que enquanto retiraram lucros à custa do endividamento do Sul e foram crescendo à sombra do consumismo fácil dos seus parceiros menos previdentes, não deram a atenção devida ao que se estava a passar e até mesmo aos avisos que amiúde foram chegando de algumas agências de rating, as tais, pensando que a tendência em direcção ao abismo se inverteria por simples magia dos mercados financeiros, mais preocupados com as possibilidades de gerarem lucros especulativos rápidos do que em introduzirem alguma racionalidade na suas decisões.

Por via da forma complexada como o Norte sempre olhou para o Sul, incapaz de compreender que a construção da Europa passará sempre pelo conhecimento do outro, a Alemanha cavalgou a onda enquanto pôde, esquecendo que Weimar não é, nem nunca será, um mero capítulo, por sinal bem infeliz, na história da Alemanha e da Europa. A simples perspectiva das eleições gregas terem de ser repetidas, a incapacidade da democracia helénica gerar um governo estável e a cada vez mais que provável saída da Grécia da zona euro, mais do que uma derrota dos próprios gregos, é uma derrota da Alemanha e do espartilho que contra todos os avisos quis impôr aos outros.

A arrogância, falta de sentido europeu e cegueira ideológica do eixo franco-alemão, que chegou a raiar o cretinismo, aliás devidamente coadjuvada por alguns bandarilheiros de segunda e terceira linha, desejosos de mostrarem serviço e que logo se apressaram a aprovar as alterações ao novo Tratado Orçamental, colocou a Europa num impasse do qual só sairá, felizmente, com a ajuda do novo presidente francês e dos europeus.

Não se trata de pura e simplesmente colocar um ponto final na austeridade e voltar ao tempos do alegre gastar, pecha que, olhando-se para a Itália de Berlusconi e Bossi, se revelou não ser monopólio das esquerdas, mas de pensar a Europa como um espaço de cidadania, com regras claras e sensatas, designadamente em matéria orçamental, fiscal e financeira, que permita aos europeus, a todos e não apenas a alguns, viverem de uma forma decente, equilibrada e solidária, única via para o restabelecimento da paz social e da coesão entre os povos europeus.

Esse caminho está mais próximo. Se a vitória de Hollande e a derrota da CDU na Renânia do Norte-Vestefália são sinais de esperança, a recente tomada de posição do SPD quanto às condições para que o Tratado Orçamental possa ser aprovado em Berlim, já são mais do que uma garantia. São a certeza de que os europeus entendem chegado o momento de assegurar condições de participação democrática que mantenham vivo o sonho europeu num quadro de estabilidade política, coesão social e crescimento, que afaste o espectro de um desemprego global e o aumento do fosso entre os ricos e os pobres e remediados.                 

P.S. Como se vê pelos acontecimentos que se seguiram, a ridícula figura feita por Passos Coelho e pelos seus acólitos que no Parlamento português aprovaram apressadamente e sem pensar o Tratado Orçamental, ignorando uma salvaguarda pequena que fosse nessa posição, deverá ser vista como mais um murro no estômago, mas também como uma cacetada na ignorância e na sobranceria de que o Governo continua a dar mostras e que em nada contribuiu para o reforço da nossa posição na Europa.

quinta-feira, maio 10, 2012

Falta de nível

Com a mais importante competição do futebol nacional entregue a "cromos", é claro que ninguém estranha que antes mesmo do final da prova já tenha sido entregue o prémio. Seria o mesmo que num campeonato mundial de vela ou nuns jogos olímpicos se dessem as medalhas aos atletas antes do final das competições só porque quem ia à frente já não teria hipótese de perder. Para além da falta de respeito pelas equipas que ainda têm de competir para alcançarem os seus objectivos, a atitude denota falta de nível, mau gosto. Enfim, talvez ambas as coisas.

Continuam uns pândegos

Então mas essa é pergunta que se faça? Será que estas alminhas do PCP andam a dormir? É evidente que mantém, não tem alternativa, sob pena do ministro demitir Passos Coelho e termos uma crise antecipada.

Títulos (7)

"Superespião ganha € 40.000,00 por mês" - Correio da Manhã

"Silva Carvalho enviou a Miguel Relvas plano de reforma das secretas" - Público

"Fuga de informações obriga a demissão do director adjunto das secretas" - Diário de Notícias

"Silva Carvalho mandava a Miguel Relvas clippings das secretas" - Jornal i

"Escândalo das secretas afasta mais dois espiões" - Jornal de Notícias

Esta gente precisava de uma boa esfrega

"Algum tempo depois das eleições legislativas de 2011, Jorge Silva Carvalho, então quadro da Ongoing, enviou, por correio electrónico, ao ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, um relatório detalhado com um plano para reformar os serviços de informação, propondo para directores do SIS (Serviço de Informações de Segurança) e do SIED (Serviço de Informações Estratégicas de Defesa) funcionários da sua confiança e apontando ainda os nomes daqueles que não deveriam assumir cargos dirigentes" - Público, 10/05/2012 

O desempenho de cargos públicos e partidários ao longo dos anos ajudaram a tornar mais acessível os meus contactos de email e telemóvel, pelo que recebo permanentemente imensos emails e sms’s de pessoas e entidades sobre os mais variados temas, e sobre este caso em particular não tenho ideia de ter recebido qualquer informação particular, e disso não resultou qualquer interacção da minha parte.” - Miguel Relvas, Jornal i, 10/05/2012

À medida que se vão revelando as listas de distribuição que apareciam na ponta dos tentáculos dos "polvos" das secretas, vai-se conhecendo um pouco melhor esta gente que contribuiu para que Portugal mergulhasse num poço sem fundo. O cheiro pestilento que se vai elevando das sarjetas, em resultado das investigações que têm sido conduzidas, mostra que os ovos podres entraram nas máquinas partidárias e maçónicas e acabaram por se partir lá dentro. O resultado disso é a ponta do icebergue cujos contornos surgem agora. Curiosa foi a expressão usada pelo ministro Miguel Relvas de que não houve qualquer "interacção da minha [sua] parte". Seria bom que o ministro, porque de um ministro com responsabilidades se trata,  esclarecesse o que pretendeu dizer com tal expressão e que tipo de "interacção" é que, normalmente, o recebimento de informação sensível (secreta) por e-mail ou sms desencadeia da sua parte.
Dizer que não se recorda, logo ele que com a sua incontornável pesporrência está sempre a dizer que os portugueses têm memória - naturalmente referindo-se a si próprio - quando se trata de fazer ataques políticos aos adversários, soa a falso, soa a muito falso. Nada de estranhar, é certo, de quem tem o seu percurso político, profissional e académico, pois basta ver as reportagens, algumas bem recentes, ler as suas entrevistas e as declarações que foi fazendo, para se ver que essa falta de memória não cola com o figurante.
Aliás, como resulta óbvio das declarações que surgem hoje na imprensa, volta a ganhar força o dito popular de que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo. Declarar que não se tem "ideia de ter recebido qualquer informação particular sobre o caso", ao mesmo tempo que se tem a certeza de que "disso" - "disso" o quê?; do que não se recorda? - não resultou "qualquer interacção", é uma espécie de gato escondido com o rabo de fora. Mais um dos vários com que a política nacional nos tem brindado nos últimos anos, entre robalos, sucatas, universidades, reformas, acções e jaguares.
Neste triste caso das secretas, o gato é enorme, contribuiu para a queda de um Governo e a ascensão de outro e está metido no aparelho de Estado até ao tutano. A sua cauda é tão grande e tão forte que penetrou e impregnou o tecido social e partidário com toda a viscosidade que lhe ficou agarrada ao pêlo pelos buracos por onde andou.
Agora, o gato que entrou pelo buraco e deixou a cauda de fora já engordou de tal forma que não é possível fazê-lo sair do Estado e dos partidos políticos sem que primeiro se destrua tudo o que está à sua volta e depois se enfie o animal numa tina com água quente e sabão azul.
Bem que eu gostaria que os portugueses, os que não se deixaram levar pela música da Mozart e os milhões fáceis obtidos nas tetas das empresas que dependem do Estado e das autarquias para prosperar, tivessem ainda coragem e força para fazê-lo. E, em especial, para esfregar a gataria que tomou conta deste país, até deixá-la limpa. Se possível sem pêlo. Com um aspecto rosadinho. Como as bochechas do ministro Relvas quando é entrevistado por Judite de Sousa. Seria a única forma de avivarmos  a memória a outros gatos que por aí andam, no Estado, nas autarquias e nos partidos, à procura de gatas com o cio onde se possam meter. E, já agora, evitar-lhes o "desconforto" de futuras interacções que os ponham a voar e a engordar e nos lixem a todos.

quarta-feira, maio 09, 2012

Lido

"Como Sócrates por cá, Sarkozy representa o típico politico gerado na democracia mediática da parlapatice e da vigarice, capaz de dizer e fazer qualquer coisa para se manter no poder. Um novo-rico da política, comodamente encostado a outros novos-ricos." - Pedro Lomba, Público, 08/05/2012.

Só faltou dizer que esse retrato também abrange muitos outros, como os que hoje nos governam em S. Bento e na Gomes Teixeira. 

"Foi a vontade da Santa Sé"

O Estado laico e republicano aproxima-se perigosamente de uma ficção. Estamos no ponto em que a Santa Sé manda, Álvaro Santos Pereira descarta-se e o primeiro-ministro Passos Coelho irá assinar. Enquanto isso, o Presidente Cavaco Silva assiste. A República atingiu o grau zero da responsabilidade política.  

segunda-feira, maio 07, 2012

O dinheiro compra tudo?

Eu já tinha chamado a atenção, no próprio dia 1 de Maio, para o inqualificável comportamento da cadeia de supermercados Pingo Doce, porque me pareceu, e continua a parecer,  que a "chico-espertice" não pode continuar a reproduzir-se impunemente neste país. Não é o facto de haver alguns consumidores em situação de carência ou egoístas e dispostos a tudo que altera os dados da questão. Há valores que estão acima das estratégias empresariais, comerciais e políticas e sem os quais nenhuma comunidade poderá funcionar saudavelmente. Admito que haja quem não o compreenda, mas isso não serve de justificação para que se admita tudo.
É claro que aquilo que o Pingo Doce fez não é sequer parecido com os saldos que se fazem em Nova Iorque ou em Londres, porque o sentido destes, a data escolhida e a legislação também é outra e não consta que quem ali os faz viole a lei.
Não querer perceber isto é não perceber a essência do problema e não é preciso ser de esquerda para ver as diferenças. Pacheco Pereira chamou prontamente a atenção para o que se tinha passado e, com excepção de um Presidente da República que antes não lia jornais e agora não vê telejornais e só se pronuncia sobre assuntos de mercearia que lhe digam directamente respeito, foi bom verificar que a democrata-cristã Assunção Cristas, ministra do actual Governo, e o insuspeito Marcelo Rebelo de Sousa também não fizeram como alguns arautos do capitalismo selvagem das sociedades liberais mais arcaicas para aplaudirem a manhosa iniciativa desse grupo empresarial.
Ao contrário do inefável Álvaro Santos Pereira, seu colega de Governo, cuja miopia o impede de ver o óbvio ululante, a ministra, como pessoa bem formada, de bom senso e inteligente, veio considerar "que estas práticas não são admissíveis" e que o quadro actual "é desiquilibrado e chocante, e o Direito deve intervir para equilibrar as relações". E sobre este mesmo assunto, o prof. Marcelo disse ontem para quem o quis ouvir que o que o Pingo Doce fez foi "uma habilidade no quadro da concorrência vigente", perguntado ademais se "queremos um capitalismo selvagem ou um capitalismo com regras"; que "não se pode vender produtos abaixo do custo efectivo", "(...) porque isso é que é grave, é capitalismo selvagem".
Ainda no sábado, no Expresso, Miguel Sousa Tavares qualificava a atitude da Jerónimo Martins como "um gesto de pura arrogância empresarial, uma operação reveladora de profundo desprezo e desrespeito pelos seus clientes, disfarçada de caridadezinha comercial".
Mas para quem ainda tivesse dúvidas sobre a gravidade, numa perspectiva social, jurídica, ética e política, do comportamento da administração dos Supermercados Pingo Doce, as notícias que esta tarde foram divulgadas eliminam-nas: "Além do pagamento a 500%, os trabalhadores do Pingo Doce que estiveram ao serviço, ou em gozo de folga, no passado dia 1, podem, até final da semana, fazer as suas compras nas lojas do grupo beneficiando de um desconto de 50%, em tudo idêntico ao que os clientes usufruíram no feriado. Apenas os que fizeram greve - convocada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Comércio (CESP), afeto à CGTP -, como forma de protesto contra a abertura das lojas no Dia do Trabalhador - , estão excluídos dessa iniciativa.
A confirmação de que isto também é verdade, acentua o dolo da iniciativa do Pingo Doce, da sua direcção comercial, da sua administração e, mais ainda, a irresponsabilidade do presidente do grupo Jerónimo Martins. O mesmo que acusava José Sócrates de "truques" devia saber que a ignorância da lei não aproveita a ninguém e ele não pode desconhecer alegremente o que os seus subordinados fazem, do mesmo modo que um primeiro-ministro ou um Presidente da República não podem afirmar desconhecimento sobre aquilo que é feito às claras e nos entra pela casa dentro só porque esse desconhecimento lhes é conveniente.
Recorrendo a um expediente grosseiro, a uma esperteza saloia, partindo do princípio de que os outros são parvos e que os consumidores beneficiados o absolverão, o  grupo Pingo Doce não se limitou a discriminar e lançou um dos mais violentos ataques ao Estado de Direito, ao exercício de direitos sociais e laborais, à liberdade de escolha, à leal concorrência e à regulação do mercado. Fazendo-o, o grupo Pingo Doce colocou em causa os mais elementares princípios de justiça, as bases do equilíbrio social e as regras de sã convivência de uma sociedade livre e democrática.
Os senhores do Pingo Doce podem pensar que o seu dinheiro compra tudo e é suficiente para pagar as ridículas multas por violação da lei, e que é preferível o salve-se quem puder à decência e ao bom senso. Pensar assim é um direito que lhes assiste. Mas antes que seja tarde e que isto entre tudo em auto-gestão, numa espiral incontrolável, seria bom, posto que o ministro da Economia já mostrou não ter autoridade para fazê-lo, que alguém lhes dissesse que há valores numa sociedade que o dinheiro não pode comprar, nem o marketing justificar. E se tiver que ser à bruta, pois então que seja, de acordo com os mecanismos legais, pois quer-me parecer ser essa a única linguagem que entendem.

sexta-feira, maio 04, 2012

A ler

O Fernando, entre os muitos que teve, não poderia ter melhor. Só a sua ausência não passará discreta.

Parece que não fui o único

Há muita gente que está a sofrer e com muita dificuldade e, não se podendo evitar o sofrimento e a austeridade, há, no entanto, que ter extremo cuidado no tratamento das pessoas, em particular com a sua dignidade”. Para Pacheco Pereira houve, nesta acção, humilhação de algumas pessoas. “Posso atirar um saco de moedas ao ar e as pessoas atiram-se para apanhar. Foi um bocado o que aconteceu. Quem foi lá apanhar as moedas ficou contente, mas sabe que se teve de se pôr no chão. E aí há uma certa humilhação” - Aqui, no Jornal de Negócios.

Volto a dizer o mesmo: se o Pingo Doce queria fazê-lo e se o objectivo era ajudar as pessoas então que o fizesse noutro dia. No dia do seu aniversário, por exemplo, num qualquer sábado ou domingo, em que o impacto seria o mesmo, ou durante um prazo mais longo, anunciando com antecedência a iniciativa. E assim dando também uma oportunidade aos idosos reformados que têm dificuldade em deslocar-se ou que só podem fazê-lo acompanhados, e que não têm qualquer hipótese de lutar no meio da malta pelos pacotes de leite, as garrafas de azeite ou as de whisky (bem essencial para os especialistas de gestão dessa cadeia de supermercados mas em relação ao qual o ministro Gaspar não foi suficientemente sensível para aplicar a taxa reduzida do IVA).   

Títulos (6)

"Jardim empresta 25% das verbas do resgate a sociedades falidas - Cinco sociedades públicas vão receber 259 milhões para necessidades de tesouraria. Empresas foram consideradas 'tecnicamente falidas' pelo Tribunal de Contas e a Inspecção de Finanças defende extinção" - Público, 04/05/2012 

quarta-feira, maio 02, 2012

Vidas que interessam

Um belíssimo, e pungente pela ternura, texto do Miguel Esteves Cardoso no Público desta manhã (clique na imagem se quiser ler). Um abraço para ele, que há muitos anos não vejo, e as melhoras da Maria João, que por via  dos seus textos se me tornou familiar.

terça-feira, maio 01, 2012

Pingo doce, patrão tolo

Pouco passava das 18h quando me lembrei de que não tinha pão em casa e disse à minha mulher para passarmos pelo supermercado mais próximo. Quando chegámos ao local onde pretendíamos comprar o pão, a confusão logo à entrada de sacos e carrinhos com géneros alimentícios era tal que a minha mulher perguntou a uma cara sua conhecida se aquela gente toda se preparava para fazer algum piquenique. Quando logo a seguir a PSP nos barrou a entrada percebemos o que se passava e a razão para tão grande alarido.
Hoje, Primeiro de Maio, dia em que em todo o mundo civilizado se celebra a luta de um punhado de trabalhadores norte-americanos pela melhoria das suas condições de trabalho, e que entrou na história contemporânea como o Dia do Trabalhador, a cadeia de supermercados Pingo Doce, a mesma que é pertença de um senhor que transferiu a holding da família para a Holanda numa altura de crise nacional, resolveu abrir as portas, aliás na sequência de uma decisão de um executivo liderado por José Sócrates.
E abriu as portas para quê? Para vender todos os seus produtos com 50% de desconto desde que as compras realizadas fossem de valor superior a € 100,00.
Em início de mês, num país em que a taxa de desemprego já passou os 15%, e que caminha a saltos de coelho para os 20%, em que milhares de empresas e famílias são declaradas insolventes todos os meses, os Supermercados Pingo Doce entenderam, aparentemente, conceder uma benesse ao bom povo trabalhador.
Mas não a todo. Só aos que estiveram dispostos a perder o feriado e se sujeitaram a passar meia dúzia de horas nos seus estabelecimentos, lutando para encherem os carrinhos, contribuindo para um espectáculo que teve tanto de imoral como de revelador de uma ética comercial e empresarial a todos os títulos reprovável. 
O mesmo patrão do grupo que há meses censurava a um primeiro-ministro a sua falta de ética política não se importou de mandar abrir os seus supermercados no Primeiro de Maio. Ao tomar tal decisão gerou um espectáculo deplorável, verdadeiro gozo com a pobreza e as dificuldades dos portugueses que têm dificuldade em gerir o orçamento até ao final do mês para comprarem bens essenciais, muitos dos quais foram aumentados pelo actual Governo, apoiado pelos donos dos Supermercados Pingo Doce, por via da alteração da taxa do IVA de 6% para 23%.
Para além do espectáculo gerado num feriado nacional, obrigando os seus trabalhadores a um esforço adicional para conseguirem conter a turba, com gente a passar horas nas filas enquanto outros se esgadanhavam para entrarem nas lojas e alcançarem um qualquer produto antes dele se esgotar, açambarcando o indispensável e o supérfluo, com o dinheiro que tinham e com o que não tinham, a atitude dos Supermercados Pingo Doce permite-nos tirar uma de duas conclusões: ou o Pingo Doce praticou preços abaixo do seu custo, praticando uma política de dumping, ou então essa cadeia de supermercados tem margens de lucro superiores a 100%*, que lhe permite vender produtos com 50% de desconto em relação ao preço de aquisição aos seus fornecedores, sendo que, neste caso, a cadeia de supermercados se comporta como um vulgar agiota perante aqueles que contribuem para o seu engrandecimento, tal e qual como uma qualquer financeira de crédito fácil esmifra um devedor insolvente.
Em qualquer caso, o que o Pingo Doce fez foi vergonhoso. Porque se a preocupação do Grupo Jerónimo Martins é facilitar a vida aos portugueses, permitir-lhes que comprem produtos mais baratos sem violar a lei e sem dar cabo da concorrência, praticando uma política socialmente responsável, então os Supermercados Pingo Doce que o façam todos os dias da semana, durante todo o mês, contribuindo para uma descida geral dos preços e poupando-nos a tão triste quanto deprimente espectáculo.
Eu, que já não gostava de bancos e de seguradoras, entidades que nunca estão quando são precisos e se dedicam a tirar o maior partido dos desgraçados que precisam de comprar uma casa para viver ou a inventar exclusões para não honrarem os compromissos que assumem, ao mesmo tempo que pagam dividendos chorudos a ex-governantes e emprestam dinheiro a especuladores para nos enterrarem a todos, acrescentei a partir de hoje mais um conjunto de estabelecimentos a essa lista: os Supermercados Pingo Doce e o Grupo Jerónimo Martins.
Que o capital não tem pátria, como tão bem nos demonstrou Alexandre Soares dos Santos há bem pouco tempo, já todos sabíamos. A partir de hoje também temos a certeza de que não tem ética, moral, vergonha ou respeito perante a pobreza e as dificuldades dos portugueses.


* - Alertou o Paulo Godinho e com toda a razão, depois de eu ter escrito 50%: "(...) para fazerem o que fizeram hoje, a margem de lucro teria de ser de, pelo menos, 100% e não de 50%. A margem de lucro é calculada a partir do preço base do produto, enquanto o desconto é calculado a partir do preço final. Só se pode ter capacidade para vender produtos por metade do preço (50% de desconto) se se tiver os produtos à venda pelo dobro dos preços pelos quais foram comprados (margem de lucro de 100%). Para ter um produto à venda por 10 e poder vendê-lo por 5 (50% de desconto), só se o tiver comprado a 5 ou a menos de 5, pelo que, se o está a vender a 10, está a ter uma margem de lucro de, pelo menos, 100%. Isto sem considerar quaisquer outros custos para além do preço pelo qual os produtos foram comprados".

segunda-feira, abril 30, 2012

Palavras actuais

"En parcourant l'histoire des sociétés, nous aurons eu l'occasion de faire voir que souvent il existe un grand intervalle entre les droits que la loi reconnaît dans les citoyens et les droits dont ils ont une jouissance réelle; entre l'égalité qui est établie par les institutions politiques et celle qui existe entre les individus: nous aurons fait remarquer que cette différence a été une des principales causes de la destruction de la liberté dans les républiques anciennes, des orages qui les ont troublées, de la faiblesse qui les a livrées à des tyrans étrangers." - Condorcet, Esquisse d'un tableau historique des progrès de l'esprit humain (1793-1794), p. 199.

A circular

O teor desta carta que circula pela Internet levanta muitas questões que importaria esclarecer. Admito que entre a bazófia e alguma esquizofrenia haja factos cuja verdade é de toda a conveniência resgatar e apurar para bem da nossa democracia. Alguns estão tão bem situados temporal e espacialmente que não deverá ser difícil  cruzar informação. Gostaria de ver colocado um ponto final nesta história mas não sei se algum dia tal acontecerá. Com excepção dos que partiram, dos envolvidos à arraia miúda, por uma ou por outra razão, a maior parte dos nomes que aparecem referidos diz respeito a gente cuja companhia já então era pouco recomendável. E os mortos continuam a não poder falar.

Títulos (5)

"Cimentos - Governo assume preferência pela Camargo" - Expresso, 28/04/2012

"Desemprego 'real' dispara em Portugal" - Expresso, 28/04/2012

Lido

"Mas a questão da prevalência das lealdades partidárias às competências exigidas para o desempenho dos respectivos cargos não se fica pelo exemplo atrás referido [Tribunal Constitucional].
Com efeito, o facto do Governo ter criado uma comissão, dita independente, encarregada do processo de recrutamento de dirigentes da função pública, está a confessar publicamente que os membros do Governo são incapazes de resistir à pressão das forças partidárias e assim assegurar a isenção na escolha dos responsáveis máximos pelas instituições públicas.
Esta confissão, se por um lado nos tranquiliza por indiciar uma intenção meritória, por outro preocupa-nos.
Com efeito, esta decisão demonstra como as instituições que, pela sua vocação, têm a seu cargo a defesa do interesse nacional e, nessa medida, devem ser competentes e eficientes na gestão de recursos, podem estar capturadas pelas máquinas cujas clientelas estão, em muito casos, empenhadas em defender interesses que nada têm a ver com o colectivo." - Manuela Ferreira Leite, Expresso, 28/04/2012  

sábado, abril 28, 2012

Leituras (boas, da Quetzal, para todos os dias)


"Estranha, esta angústia do presente, do futuro.
Estranha, a imobilidade em que me perco, como se tivesse milhões de horas para esbanjar.
Estranho o medo que me prende.
Estranha, a inconsciência com que governo o dia-a-dia (a vida, essa, é ingovernável...).
Não sou o primeiro que deseja o repouso do não-ser, gasto pelos amanhãs que não vêm - ou temendo-os - pernas e maõs bloqueadas, cérebro vazio, nauseado, sem saber.
Amanhã!
E amanhã será como hoje, como ontem, como sempre, insatisfeito, triste, longe, mas enraizado naquela terra donde vim.


"Acordou com a luz quente do Sol, que durante o Verão, a meio da manhã, entrava quase sempre pelas nesgas entre as lousas mal sobrepostas no telhado. O pano de linho que cobria a enxerga estava manchado de sangue, e o cheiro doce da seiva das dedaleiras e das dulcamaras enchia a casa. Tinha finalmente chegado o que esperava havia então mais de dois anos: a hora da mandrágora."