quinta-feira, maio 10, 2012

Continuam uns pândegos

Então mas essa é pergunta que se faça? Será que estas alminhas do PCP andam a dormir? É evidente que mantém, não tem alternativa, sob pena do ministro demitir Passos Coelho e termos uma crise antecipada.

Títulos (7)

"Superespião ganha € 40.000,00 por mês" - Correio da Manhã

"Silva Carvalho enviou a Miguel Relvas plano de reforma das secretas" - Público

"Fuga de informações obriga a demissão do director adjunto das secretas" - Diário de Notícias

"Silva Carvalho mandava a Miguel Relvas clippings das secretas" - Jornal i

"Escândalo das secretas afasta mais dois espiões" - Jornal de Notícias

Esta gente precisava de uma boa esfrega

"Algum tempo depois das eleições legislativas de 2011, Jorge Silva Carvalho, então quadro da Ongoing, enviou, por correio electrónico, ao ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, um relatório detalhado com um plano para reformar os serviços de informação, propondo para directores do SIS (Serviço de Informações de Segurança) e do SIED (Serviço de Informações Estratégicas de Defesa) funcionários da sua confiança e apontando ainda os nomes daqueles que não deveriam assumir cargos dirigentes" - Público, 10/05/2012 

O desempenho de cargos públicos e partidários ao longo dos anos ajudaram a tornar mais acessível os meus contactos de email e telemóvel, pelo que recebo permanentemente imensos emails e sms’s de pessoas e entidades sobre os mais variados temas, e sobre este caso em particular não tenho ideia de ter recebido qualquer informação particular, e disso não resultou qualquer interacção da minha parte.” - Miguel Relvas, Jornal i, 10/05/2012

À medida que se vão revelando as listas de distribuição que apareciam na ponta dos tentáculos dos "polvos" das secretas, vai-se conhecendo um pouco melhor esta gente que contribuiu para que Portugal mergulhasse num poço sem fundo. O cheiro pestilento que se vai elevando das sarjetas, em resultado das investigações que têm sido conduzidas, mostra que os ovos podres entraram nas máquinas partidárias e maçónicas e acabaram por se partir lá dentro. O resultado disso é a ponta do icebergue cujos contornos surgem agora. Curiosa foi a expressão usada pelo ministro Miguel Relvas de que não houve qualquer "interacção da minha [sua] parte". Seria bom que o ministro, porque de um ministro com responsabilidades se trata,  esclarecesse o que pretendeu dizer com tal expressão e que tipo de "interacção" é que, normalmente, o recebimento de informação sensível (secreta) por e-mail ou sms desencadeia da sua parte.
Dizer que não se recorda, logo ele que com a sua incontornável pesporrência está sempre a dizer que os portugueses têm memória - naturalmente referindo-se a si próprio - quando se trata de fazer ataques políticos aos adversários, soa a falso, soa a muito falso. Nada de estranhar, é certo, de quem tem o seu percurso político, profissional e académico, pois basta ver as reportagens, algumas bem recentes, ler as suas entrevistas e as declarações que foi fazendo, para se ver que essa falta de memória não cola com o figurante.
Aliás, como resulta óbvio das declarações que surgem hoje na imprensa, volta a ganhar força o dito popular de que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo. Declarar que não se tem "ideia de ter recebido qualquer informação particular sobre o caso", ao mesmo tempo que se tem a certeza de que "disso" - "disso" o quê?; do que não se recorda? - não resultou "qualquer interacção", é uma espécie de gato escondido com o rabo de fora. Mais um dos vários com que a política nacional nos tem brindado nos últimos anos, entre robalos, sucatas, universidades, reformas, acções e jaguares.
Neste triste caso das secretas, o gato é enorme, contribuiu para a queda de um Governo e a ascensão de outro e está metido no aparelho de Estado até ao tutano. A sua cauda é tão grande e tão forte que penetrou e impregnou o tecido social e partidário com toda a viscosidade que lhe ficou agarrada ao pêlo pelos buracos por onde andou.
Agora, o gato que entrou pelo buraco e deixou a cauda de fora já engordou de tal forma que não é possível fazê-lo sair do Estado e dos partidos políticos sem que primeiro se destrua tudo o que está à sua volta e depois se enfie o animal numa tina com água quente e sabão azul.
Bem que eu gostaria que os portugueses, os que não se deixaram levar pela música da Mozart e os milhões fáceis obtidos nas tetas das empresas que dependem do Estado e das autarquias para prosperar, tivessem ainda coragem e força para fazê-lo. E, em especial, para esfregar a gataria que tomou conta deste país, até deixá-la limpa. Se possível sem pêlo. Com um aspecto rosadinho. Como as bochechas do ministro Relvas quando é entrevistado por Judite de Sousa. Seria a única forma de avivarmos  a memória a outros gatos que por aí andam, no Estado, nas autarquias e nos partidos, à procura de gatas com o cio onde se possam meter. E, já agora, evitar-lhes o "desconforto" de futuras interacções que os ponham a voar e a engordar e nos lixem a todos.

quarta-feira, maio 09, 2012

Lido

"Como Sócrates por cá, Sarkozy representa o típico politico gerado na democracia mediática da parlapatice e da vigarice, capaz de dizer e fazer qualquer coisa para se manter no poder. Um novo-rico da política, comodamente encostado a outros novos-ricos." - Pedro Lomba, Público, 08/05/2012.

Só faltou dizer que esse retrato também abrange muitos outros, como os que hoje nos governam em S. Bento e na Gomes Teixeira. 

"Foi a vontade da Santa Sé"

O Estado laico e republicano aproxima-se perigosamente de uma ficção. Estamos no ponto em que a Santa Sé manda, Álvaro Santos Pereira descarta-se e o primeiro-ministro Passos Coelho irá assinar. Enquanto isso, o Presidente Cavaco Silva assiste. A República atingiu o grau zero da responsabilidade política.  

segunda-feira, maio 07, 2012

O dinheiro compra tudo?

Eu já tinha chamado a atenção, no próprio dia 1 de Maio, para o inqualificável comportamento da cadeia de supermercados Pingo Doce, porque me pareceu, e continua a parecer,  que a "chico-espertice" não pode continuar a reproduzir-se impunemente neste país. Não é o facto de haver alguns consumidores em situação de carência ou egoístas e dispostos a tudo que altera os dados da questão. Há valores que estão acima das estratégias empresariais, comerciais e políticas e sem os quais nenhuma comunidade poderá funcionar saudavelmente. Admito que haja quem não o compreenda, mas isso não serve de justificação para que se admita tudo.
É claro que aquilo que o Pingo Doce fez não é sequer parecido com os saldos que se fazem em Nova Iorque ou em Londres, porque o sentido destes, a data escolhida e a legislação também é outra e não consta que quem ali os faz viole a lei.
Não querer perceber isto é não perceber a essência do problema e não é preciso ser de esquerda para ver as diferenças. Pacheco Pereira chamou prontamente a atenção para o que se tinha passado e, com excepção de um Presidente da República que antes não lia jornais e agora não vê telejornais e só se pronuncia sobre assuntos de mercearia que lhe digam directamente respeito, foi bom verificar que a democrata-cristã Assunção Cristas, ministra do actual Governo, e o insuspeito Marcelo Rebelo de Sousa também não fizeram como alguns arautos do capitalismo selvagem das sociedades liberais mais arcaicas para aplaudirem a manhosa iniciativa desse grupo empresarial.
Ao contrário do inefável Álvaro Santos Pereira, seu colega de Governo, cuja miopia o impede de ver o óbvio ululante, a ministra, como pessoa bem formada, de bom senso e inteligente, veio considerar "que estas práticas não são admissíveis" e que o quadro actual "é desiquilibrado e chocante, e o Direito deve intervir para equilibrar as relações". E sobre este mesmo assunto, o prof. Marcelo disse ontem para quem o quis ouvir que o que o Pingo Doce fez foi "uma habilidade no quadro da concorrência vigente", perguntado ademais se "queremos um capitalismo selvagem ou um capitalismo com regras"; que "não se pode vender produtos abaixo do custo efectivo", "(...) porque isso é que é grave, é capitalismo selvagem".
Ainda no sábado, no Expresso, Miguel Sousa Tavares qualificava a atitude da Jerónimo Martins como "um gesto de pura arrogância empresarial, uma operação reveladora de profundo desprezo e desrespeito pelos seus clientes, disfarçada de caridadezinha comercial".
Mas para quem ainda tivesse dúvidas sobre a gravidade, numa perspectiva social, jurídica, ética e política, do comportamento da administração dos Supermercados Pingo Doce, as notícias que esta tarde foram divulgadas eliminam-nas: "Além do pagamento a 500%, os trabalhadores do Pingo Doce que estiveram ao serviço, ou em gozo de folga, no passado dia 1, podem, até final da semana, fazer as suas compras nas lojas do grupo beneficiando de um desconto de 50%, em tudo idêntico ao que os clientes usufruíram no feriado. Apenas os que fizeram greve - convocada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Comércio (CESP), afeto à CGTP -, como forma de protesto contra a abertura das lojas no Dia do Trabalhador - , estão excluídos dessa iniciativa.
A confirmação de que isto também é verdade, acentua o dolo da iniciativa do Pingo Doce, da sua direcção comercial, da sua administração e, mais ainda, a irresponsabilidade do presidente do grupo Jerónimo Martins. O mesmo que acusava José Sócrates de "truques" devia saber que a ignorância da lei não aproveita a ninguém e ele não pode desconhecer alegremente o que os seus subordinados fazem, do mesmo modo que um primeiro-ministro ou um Presidente da República não podem afirmar desconhecimento sobre aquilo que é feito às claras e nos entra pela casa dentro só porque esse desconhecimento lhes é conveniente.
Recorrendo a um expediente grosseiro, a uma esperteza saloia, partindo do princípio de que os outros são parvos e que os consumidores beneficiados o absolverão, o  grupo Pingo Doce não se limitou a discriminar e lançou um dos mais violentos ataques ao Estado de Direito, ao exercício de direitos sociais e laborais, à liberdade de escolha, à leal concorrência e à regulação do mercado. Fazendo-o, o grupo Pingo Doce colocou em causa os mais elementares princípios de justiça, as bases do equilíbrio social e as regras de sã convivência de uma sociedade livre e democrática.
Os senhores do Pingo Doce podem pensar que o seu dinheiro compra tudo e é suficiente para pagar as ridículas multas por violação da lei, e que é preferível o salve-se quem puder à decência e ao bom senso. Pensar assim é um direito que lhes assiste. Mas antes que seja tarde e que isto entre tudo em auto-gestão, numa espiral incontrolável, seria bom, posto que o ministro da Economia já mostrou não ter autoridade para fazê-lo, que alguém lhes dissesse que há valores numa sociedade que o dinheiro não pode comprar, nem o marketing justificar. E se tiver que ser à bruta, pois então que seja, de acordo com os mecanismos legais, pois quer-me parecer ser essa a única linguagem que entendem.

sexta-feira, maio 04, 2012

A ler

O Fernando, entre os muitos que teve, não poderia ter melhor. Só a sua ausência não passará discreta.

Parece que não fui o único

Há muita gente que está a sofrer e com muita dificuldade e, não se podendo evitar o sofrimento e a austeridade, há, no entanto, que ter extremo cuidado no tratamento das pessoas, em particular com a sua dignidade”. Para Pacheco Pereira houve, nesta acção, humilhação de algumas pessoas. “Posso atirar um saco de moedas ao ar e as pessoas atiram-se para apanhar. Foi um bocado o que aconteceu. Quem foi lá apanhar as moedas ficou contente, mas sabe que se teve de se pôr no chão. E aí há uma certa humilhação” - Aqui, no Jornal de Negócios.

Volto a dizer o mesmo: se o Pingo Doce queria fazê-lo e se o objectivo era ajudar as pessoas então que o fizesse noutro dia. No dia do seu aniversário, por exemplo, num qualquer sábado ou domingo, em que o impacto seria o mesmo, ou durante um prazo mais longo, anunciando com antecedência a iniciativa. E assim dando também uma oportunidade aos idosos reformados que têm dificuldade em deslocar-se ou que só podem fazê-lo acompanhados, e que não têm qualquer hipótese de lutar no meio da malta pelos pacotes de leite, as garrafas de azeite ou as de whisky (bem essencial para os especialistas de gestão dessa cadeia de supermercados mas em relação ao qual o ministro Gaspar não foi suficientemente sensível para aplicar a taxa reduzida do IVA).   

Títulos (6)

"Jardim empresta 25% das verbas do resgate a sociedades falidas - Cinco sociedades públicas vão receber 259 milhões para necessidades de tesouraria. Empresas foram consideradas 'tecnicamente falidas' pelo Tribunal de Contas e a Inspecção de Finanças defende extinção" - Público, 04/05/2012 

quarta-feira, maio 02, 2012

Vidas que interessam

Um belíssimo, e pungente pela ternura, texto do Miguel Esteves Cardoso no Público desta manhã (clique na imagem se quiser ler). Um abraço para ele, que há muitos anos não vejo, e as melhoras da Maria João, que por via  dos seus textos se me tornou familiar.

terça-feira, maio 01, 2012

Pingo doce, patrão tolo

Pouco passava das 18h quando me lembrei de que não tinha pão em casa e disse à minha mulher para passarmos pelo supermercado mais próximo. Quando chegámos ao local onde pretendíamos comprar o pão, a confusão logo à entrada de sacos e carrinhos com géneros alimentícios era tal que a minha mulher perguntou a uma cara sua conhecida se aquela gente toda se preparava para fazer algum piquenique. Quando logo a seguir a PSP nos barrou a entrada percebemos o que se passava e a razão para tão grande alarido.
Hoje, Primeiro de Maio, dia em que em todo o mundo civilizado se celebra a luta de um punhado de trabalhadores norte-americanos pela melhoria das suas condições de trabalho, e que entrou na história contemporânea como o Dia do Trabalhador, a cadeia de supermercados Pingo Doce, a mesma que é pertença de um senhor que transferiu a holding da família para a Holanda numa altura de crise nacional, resolveu abrir as portas, aliás na sequência de uma decisão de um executivo liderado por José Sócrates.
E abriu as portas para quê? Para vender todos os seus produtos com 50% de desconto desde que as compras realizadas fossem de valor superior a € 100,00.
Em início de mês, num país em que a taxa de desemprego já passou os 15%, e que caminha a saltos de coelho para os 20%, em que milhares de empresas e famílias são declaradas insolventes todos os meses, os Supermercados Pingo Doce entenderam, aparentemente, conceder uma benesse ao bom povo trabalhador.
Mas não a todo. Só aos que estiveram dispostos a perder o feriado e se sujeitaram a passar meia dúzia de horas nos seus estabelecimentos, lutando para encherem os carrinhos, contribuindo para um espectáculo que teve tanto de imoral como de revelador de uma ética comercial e empresarial a todos os títulos reprovável. 
O mesmo patrão do grupo que há meses censurava a um primeiro-ministro a sua falta de ética política não se importou de mandar abrir os seus supermercados no Primeiro de Maio. Ao tomar tal decisão gerou um espectáculo deplorável, verdadeiro gozo com a pobreza e as dificuldades dos portugueses que têm dificuldade em gerir o orçamento até ao final do mês para comprarem bens essenciais, muitos dos quais foram aumentados pelo actual Governo, apoiado pelos donos dos Supermercados Pingo Doce, por via da alteração da taxa do IVA de 6% para 23%.
Para além do espectáculo gerado num feriado nacional, obrigando os seus trabalhadores a um esforço adicional para conseguirem conter a turba, com gente a passar horas nas filas enquanto outros se esgadanhavam para entrarem nas lojas e alcançarem um qualquer produto antes dele se esgotar, açambarcando o indispensável e o supérfluo, com o dinheiro que tinham e com o que não tinham, a atitude dos Supermercados Pingo Doce permite-nos tirar uma de duas conclusões: ou o Pingo Doce praticou preços abaixo do seu custo, praticando uma política de dumping, ou então essa cadeia de supermercados tem margens de lucro superiores a 100%*, que lhe permite vender produtos com 50% de desconto em relação ao preço de aquisição aos seus fornecedores, sendo que, neste caso, a cadeia de supermercados se comporta como um vulgar agiota perante aqueles que contribuem para o seu engrandecimento, tal e qual como uma qualquer financeira de crédito fácil esmifra um devedor insolvente.
Em qualquer caso, o que o Pingo Doce fez foi vergonhoso. Porque se a preocupação do Grupo Jerónimo Martins é facilitar a vida aos portugueses, permitir-lhes que comprem produtos mais baratos sem violar a lei e sem dar cabo da concorrência, praticando uma política socialmente responsável, então os Supermercados Pingo Doce que o façam todos os dias da semana, durante todo o mês, contribuindo para uma descida geral dos preços e poupando-nos a tão triste quanto deprimente espectáculo.
Eu, que já não gostava de bancos e de seguradoras, entidades que nunca estão quando são precisos e se dedicam a tirar o maior partido dos desgraçados que precisam de comprar uma casa para viver ou a inventar exclusões para não honrarem os compromissos que assumem, ao mesmo tempo que pagam dividendos chorudos a ex-governantes e emprestam dinheiro a especuladores para nos enterrarem a todos, acrescentei a partir de hoje mais um conjunto de estabelecimentos a essa lista: os Supermercados Pingo Doce e o Grupo Jerónimo Martins.
Que o capital não tem pátria, como tão bem nos demonstrou Alexandre Soares dos Santos há bem pouco tempo, já todos sabíamos. A partir de hoje também temos a certeza de que não tem ética, moral, vergonha ou respeito perante a pobreza e as dificuldades dos portugueses.


* - Alertou o Paulo Godinho e com toda a razão, depois de eu ter escrito 50%: "(...) para fazerem o que fizeram hoje, a margem de lucro teria de ser de, pelo menos, 100% e não de 50%. A margem de lucro é calculada a partir do preço base do produto, enquanto o desconto é calculado a partir do preço final. Só se pode ter capacidade para vender produtos por metade do preço (50% de desconto) se se tiver os produtos à venda pelo dobro dos preços pelos quais foram comprados (margem de lucro de 100%). Para ter um produto à venda por 10 e poder vendê-lo por 5 (50% de desconto), só se o tiver comprado a 5 ou a menos de 5, pelo que, se o está a vender a 10, está a ter uma margem de lucro de, pelo menos, 100%. Isto sem considerar quaisquer outros custos para além do preço pelo qual os produtos foram comprados".

segunda-feira, abril 30, 2012

Palavras actuais

"En parcourant l'histoire des sociétés, nous aurons eu l'occasion de faire voir que souvent il existe un grand intervalle entre les droits que la loi reconnaît dans les citoyens et les droits dont ils ont une jouissance réelle; entre l'égalité qui est établie par les institutions politiques et celle qui existe entre les individus: nous aurons fait remarquer que cette différence a été une des principales causes de la destruction de la liberté dans les républiques anciennes, des orages qui les ont troublées, de la faiblesse qui les a livrées à des tyrans étrangers." - Condorcet, Esquisse d'un tableau historique des progrès de l'esprit humain (1793-1794), p. 199.

A circular

O teor desta carta que circula pela Internet levanta muitas questões que importaria esclarecer. Admito que entre a bazófia e alguma esquizofrenia haja factos cuja verdade é de toda a conveniência resgatar e apurar para bem da nossa democracia. Alguns estão tão bem situados temporal e espacialmente que não deverá ser difícil  cruzar informação. Gostaria de ver colocado um ponto final nesta história mas não sei se algum dia tal acontecerá. Com excepção dos que partiram, dos envolvidos à arraia miúda, por uma ou por outra razão, a maior parte dos nomes que aparecem referidos diz respeito a gente cuja companhia já então era pouco recomendável. E os mortos continuam a não poder falar.

Títulos (5)

"Cimentos - Governo assume preferência pela Camargo" - Expresso, 28/04/2012

"Desemprego 'real' dispara em Portugal" - Expresso, 28/04/2012

Lido

"Mas a questão da prevalência das lealdades partidárias às competências exigidas para o desempenho dos respectivos cargos não se fica pelo exemplo atrás referido [Tribunal Constitucional].
Com efeito, o facto do Governo ter criado uma comissão, dita independente, encarregada do processo de recrutamento de dirigentes da função pública, está a confessar publicamente que os membros do Governo são incapazes de resistir à pressão das forças partidárias e assim assegurar a isenção na escolha dos responsáveis máximos pelas instituições públicas.
Esta confissão, se por um lado nos tranquiliza por indiciar uma intenção meritória, por outro preocupa-nos.
Com efeito, esta decisão demonstra como as instituições que, pela sua vocação, têm a seu cargo a defesa do interesse nacional e, nessa medida, devem ser competentes e eficientes na gestão de recursos, podem estar capturadas pelas máquinas cujas clientelas estão, em muito casos, empenhadas em defender interesses que nada têm a ver com o colectivo." - Manuela Ferreira Leite, Expresso, 28/04/2012  

sábado, abril 28, 2012

Leituras (boas, da Quetzal, para todos os dias)


"Estranha, esta angústia do presente, do futuro.
Estranha, a imobilidade em que me perco, como se tivesse milhões de horas para esbanjar.
Estranho o medo que me prende.
Estranha, a inconsciência com que governo o dia-a-dia (a vida, essa, é ingovernável...).
Não sou o primeiro que deseja o repouso do não-ser, gasto pelos amanhãs que não vêm - ou temendo-os - pernas e maõs bloqueadas, cérebro vazio, nauseado, sem saber.
Amanhã!
E amanhã será como hoje, como ontem, como sempre, insatisfeito, triste, longe, mas enraizado naquela terra donde vim.


"Acordou com a luz quente do Sol, que durante o Verão, a meio da manhã, entrava quase sempre pelas nesgas entre as lousas mal sobrepostas no telhado. O pano de linho que cobria a enxerga estava manchado de sangue, e o cheiro doce da seiva das dedaleiras e das dulcamaras enchia a casa. Tinha finalmente chegado o que esperava havia então mais de dois anos: a hora da mandrágora."

sexta-feira, abril 27, 2012

De luva branca

Nunca tive particular atracção pela figura, nem apreciei o seu estilo enquanto Presidente da República. Menos ainda o seu patrocínio à aventura semi-péronista do PRD. Porém, nunca deixei de lhe estar reconhecido, como todos os portugueses de boa índole deveriam estar, pelo papel que desempenhou no 25 de Novembro de 1975.
Com o decurso dos anos, em especial dos mais recentes, creio que o comecei a ver com outros olhos, a compreendê-lo melhor, e a perceber algumas das atitudes e decisões que tomou no passado.
Não sendo particularmente simpático aos olhos da opinião pública, manteve sempre um comportamento acima de qualquer suspeita, como militar e como cidadão, coisa que de alguns dos seus pares não poderei dizer.
A entrevista, magnífica, diga-se de passagem, que foi exibida no dia 25 de Abril, voltou a surpreender-me positivamente. E embora possa manter a discordância quanto a algumas das interpretações que faz, não deixei de registar o momento em que referiu que nunca lhe passaria pela cabeça receber outro ordenado enquanto Presidente da República que não o da função exercida. Menos ainda, e isso ele não o disse, lhe passaria certamente pela cabeça receber outro ordenado - mais elevado - e ainda acumular com as ajudas de custo da função cujo ordenado recusara. Mesmo que não tivesse dito mais nada, só por isso, teria valido a pena ouvi-lo.
Um homem que sabe dar-se ao respeito tem outra dimensão. E autoridade. Ainda quando se discorda dele.      

quinta-feira, abril 26, 2012

Fechem a RTP

Pelo menos há trinta e sete anos que a RTP passa regularmente programas sobre o 25 de Abril. Durante décadas vimos filmes, entrevistas, reportagens. A revolução entrou nas escolas, tornou-se tema de estudo e de reflexão. Foram investidos milhões a dar a conhecer o 25 de Abril às novas gerações. E, que diabo, o 25 de Abril não ocorreu há séculos. Pois bem, ontem, uma simples reportagem televisiva atirou por terra todo esse trabalho que, certamente, terá contribuído para justificar muitos dos défices de exploração da televisão pública em anos recentes. A geração "mais bem preparada de sempre" também chegou ao parlamento e foi penoso, deprimente, confirmar o seu baixo nível e grau de ignorância.
Não saber quem foi o último Presidente do Conselho deposto em 25 de Abril de 1974, dizer que Vasco Lourenço foi primeiro-ministro, ou que Vasco Gonçalves é que foi o primeiro primeiro-ministro após a revolução, enfim, são falhas que eu até poderia compreender se estivéssemos a falar de gente da rua, de desempregados sem estudos, de pessoas sem qualificações.
Agora se os entrevistados são deputados na presente legislatura, licenciados em "relações internacionais e ciência política" mas nem sequer conhecem um mínimo da história que fez deles deputados, permitindo-se dizer as alarvidades que essa reportagem demonstrou, é sinal de que, de facto, só se andou a perder tempo e a gastar dinheiro e que os partidos também não cumprem a sua função formativa. Nada de novo, portanto. 
O que lhes foi perguntado é cultura geral, não tem nada de extraordinário, mais a mais sendo eles deputados. Sugiro por isso à senhora presidente da Assembleia da República que no próximo ano organize umas sessões de esclarecimento e formação para os deputados sobre o 25 de Abril e lhes distribua umas brochuras - de preferência coloridas e com pouco para ler para eles não gastarem os neurónios nessa actividade que não rende votos nem senhas de presença - antes destas datas que o país celebra, para que dessa forma os senhores deputados - com a honrosa excepção de um deputado do CDS/PP - não exibam de forma tão despreocupada a sua falta de conhecimentos.
Quando aqui há uns tempos foi realizada uma reportagem de idêntico teor junto dos nossos jovens universitários, não faltou quem bradasse aos céus porque isso não era representativo da nossa juventude. Pois não, não era. Mas esta reportagem da TVI, porque de deputados e militantes partidários com responsabilidades estamos a falar, é bem demonstrativa não só do que eles não sabem, e deviam saber, como da falência do sistema de ensino e do (de)mérito do recrutamento feito pelos partidos. Se esses são os melhores, os que chegaram ao parlamento, imaginem agora o nível de alguns que nunca lá chegarão e que mandam nos partidos a nível local e nas autarquias.
Quem tem razão é Miguel Relvas. Fechem a RTP, fechem o serviço público de televisão que andou durante anos a gastar milhões na preservação da nossa memória histórica. Se nem mesmo os nossos deputados viram esses programas da RTP, que lhes facilitariam a vida e não lhes roubaria tempo de leitura e reflexão à actividade política, conseguiram aproveitar alguma coisa, então é sinal de que o serviço público de televisão também nunca existiu.
Felizmente que o tipo de perguntas feito nessa reportagem não colheu as respostas de alguns membros do actual Governo. Seriam ainda mais tristes, estou certo, mas talvez depois disso talvez já ninguém se admirasse de haver quem com tamanhas responsabilidades se aprestasse para acabar com os feriados do Primeiro de Dezembro e do Cinco de Outubro.
Quando quem tem que saber não sabe, quando não se conhece a História, é a ignorância que triunfa.
Licenciados, dizem-se eles. Pois pois, doutores é o que eles são, sim, mas da mula ruça.

terça-feira, abril 24, 2012

Em Abril, lágrimas mil

"A nobreza está presente onde quer que exista a virtude, mas a virtude nem sempre está presente na nobreza" - Dante

Não sei se alguma vez já se deram conta, mas há duas coisas que um estafermo não pode ter: dinheiro e poder. Dinheiro porque assim que o tem tende a imaginar-se o maior e com a maior desfaçatez convence-se de que é simples, fácil e barato comprar os outros para  obter os seus favores. Poder porque alcançando-o se crê superior, não raras vezes acabando por tentar fazer da humilhação dos seus semelhantes um exercício lúdico destinado a fortalecer esse mesmo poder. Uma das coisas sem a outra, em regra, não causa qualquer mossa à sociedade. Se tiverem riqueza sem poder limitar-se-ão a ostentá-la e a gastá-la à semelhança do que faz qualquer trolha numa taberna quando tem os bolsos cheios. Se ensaiarem exercitar o poder sem riqueza só terão um caminho: ou fazem-no de forma competente e serão aplaudidos ou, sendo incompetentes no mando, serão corridos na primeira oportunidade por aqueles que governam. O problema é quando os estafermos adquirem dinheiro e, por via dele, poder, ou, noutros casos, conquistando o poder conseguem depois enriquecer. 

Os exemplos nas empresas e na nossa vida política são imensos. O 25 de Abril, na generosidade de espírito e entrega de homens como Salgueiro Maia ou dos políticos que asseguraram contra ventos e marés uma transição serena e uma consolidação irrepreensível, ao restituir a liberdade e a democracia ao povo foi tão longe nesse gesto magnânimo que condescendeu com o enriquecimento e a conquista de poder por um bom punhado de estafermos.

Trinta e oito anos depois voltamos a estar sob intervenção externa, entregues à bestialidade de quem não foi capaz de reconhecer, nem de se reconhecer, nos valores e princípios que enformam o nosso contrato social. E que se alguma vez os reconheceram e proclamaram tal só aconteceu transitoriamente enquanto instrumento de conquista do poder e de riqueza, o que fizeram de modo abusivo e fraudulento, enganando aqueles que neles confiaram, desvirtuando e hipotecando sem qualquer pudor o sonho de várias gerações de homens livres, sérios e honrados.

A diluição de responsabilidades políticas e institucionais, o crescimento sem rei nem roque de grupos económicos, cliques e gangues de marginais engravatados, ao mesmo tempo que meia-dúzia de investimentos visíveis serviam para ocultar o desperdício e a inutilidade de sucessivos anos de governação, transformados no penoso cumprimento dos formalismos de uma democracia cujos actores se centravam cada vez mais no seu próprio protagonismo e na apologia de virtudes que nem a melhor das lupas permitia vislumbrar, contribuíram para atapetar a nossa vida pública de uma espécie de pasta lamacenta que aos poucos se acumulou e vagarosamente foi alastrando, espalhando-se pelas juntas do edifício democrático, entrando pela porta principal dos partidos políticos e de agremiações discretas, entretanto escancaradas para receberem a riqueza e o poder que os estafermos iam conquistando nas suas actividades de lobbying, tráfico de influências, compra de interesses e de consciências e contratação dos idiotas úteis que nessas ocasiões sempre aparecem, verdadeiros emplastros que dão cor e cara aos esquemas mafiosos que se encostaram aos partidos, ao poder local e a uma administração central prisioneira do atavismo e da desconfiança em relação a todos aqueles que era suposto servir.

A forma hedionda como os partidos políticos permitiram a ascensão de caciques semi-analfabetos e medíocres, que arrastaram consigo as fichas de outros ansiosos por serem como eles, contemporizando com esquemas, ofertas subreptícias e roubos de sacristia que serviram ao seu próprio financiamento e ao pagamento de campanhas eleitorais, colocaram-nos à mercê dos estafermos que deles se quiseram aproveitar.

Muitos chegaram ao poder enriquecendo, rapidamente e multiplicando benesses à custa de uma muito aplaudida, socialmente reconhecida e institucionalmente valorizada, canalhice ascensional, aliás exemplarmente demonstrada pela forma como verdadeiros biltres foram feitos ministros, conselheiros e comendadores, condecorados e endeusados pelos mais altos magistrados do regime. O povo desconfiou, mas sereno como é ia aceitando as migalhas que sobravam dos seus banquetes. Os poucos que, entretanto, caíram em desgraça - por não terem sido suficientemente generosos na distribuição dos réditos e mais cautelosos no apuramento da "matéria colectável" -, foram entregues pelos seus pares, à laia de sacrifício, como forma de protegerem o grosso da coluna. De atirar areia para os olhos de quem há muito desconfiava do sistema de justiça. 

É impossível fechar os olhos. É impossível ignorar. E de nada serve vilipendiar ou chorar. Foi das nossas mãos que saiu o voto. Foram os nossos olhos que se fecharam quando deviam ter estado abertos. Foi a nossa cobardia, o nosso temor pelo risco, a vergonha de nos encararmos limpos e de cara lavada perante o espelho do passado e a vitrina iluminada do futuro que nos deixou arrastar para o atoleiro.

Trinta e oito anos depois perdemos o direito de sindicar o passado e de impugnar os nossos actos. Ninguém espera que os estafermos se retratem. Bem pelo contrário, eles estão aí vivos, bem vivos, no meio de nós, usando a sua máscara veneziana nos momentos eleitorais, distribuindo folhas de coca à malta das jotas, sob a forma de apelos vigorosos à alegria no desemprego, à crença na infalibilidade jacobina - estranho paradoxo - de economistas ditos "liberais" e/ou "neo-liberais".

Precisamos de uma democracia que esteja disposta a correr o risco de sobreviver, que não se deixe iludir pelo ar elegante e bem cheiroso dos estafermos que a condicionam nas escolhas e ainda assim os enganam nas poucas que são feitas, violando de forma inaudita, vergastando e mutilando a honra da república e de todos aqueles que deram o corpo às balas para que este país não fosse uma coutada de estafermos

O percurso que temos vindo a trilhar terá de ser interrompido. Se necessário à bruta. Sempre fazendo uso das armas que a democracia nos trouxe. Pela virtude da palavra. Pelo gesto ousado. Pela escrita vigorosa, clara e descomplexada. Pelo voto. Enfrentando os estafermos no seu próprio campo, no espaço público, que é onde mais lhes dói e lhes faltam os espaços para se esconderem.

Porque sendo naturalmente cobarde, o estafermo, quando acossado no seu palácio, esconde-se da luta nos subterfúgios da democracia. Nos tugúrios da política e nos templos do consumo. Numa democracia não pode haver esconderijos, muito menos um Olimpo onde os estafermos se acolham impunes à espera de uma choruda reforma. Numa democracia não pode haver virgens para serem oferecidas aos estafermos que adquirem riqueza e poder sem mérito. Numa democracia, a gente séria não pode conviver com pulhas e sovinas que singraram sem esforço fazendo favores a outros pulhas e sovinas que foram engordando e ensebando os seus dorsos com a luz, a manteiga e o combustível que os nossos tributos pagaram. 

Porque o esforço que homens como Salgueiro Maia, Emídio Guerreiro, Francisco Sá Carneiro, Sottomayor Cardia, Amaro da Costa, Salgado Zenha, Magalhães Mota, Sousa Franco ou Ernâni Lopes, para só citar alguns, fizeram, não pode ficar dependente da mentira, do disfarce e da ignorância de um qualquer primeiro-ministro, do cinismo dos biltres que o assessoram, de um Presidente da República que se deixa enganar pelo primeiro canalha e se convence de que tem razão, de polícias alucinados que a democracia transformou em empresários e dirigentes empenhados na coscuvilhice, de políticos tão rasteiros quanto mansos na forma como dissimulam e iludem, enfim, de estafermos de carne e osso sempre prontos a servirem e a servirem-se dos outros como de carne para canhão.    

Porque, já agora, não é possível construir uma sociedade livre e democrática, uma sociedade que se reja por padrões mínimos de decência, civilidade e solidariedade social, quando os estafermos se passeiam pelas avenidas, usam aventais bordados a ouro, a miséria é varrida para debaixo do tapete e o Presidente da República está preocupado com a gestão das suas poupanças.

Queríamos, queriam, que as flores de Abril tivessem florescido. Mas as flores de Abril há muito que murcharam, sendo substituídas nas lapelas por uns rectângulos serôdios em plástico que imitam a bandeira nacional. O patriotismo foi transformado numa patrioteira lamurienta, frívola e pirosa, aplaudida por canalhas que depois de terem rebentado com o sistema financeiro exigiram os nossos impostos para taparem o buraco que eles próprios criaram para pagarem dividendos aos que hojem se queixam do valor das reformas.

Os portugueses permitiram a ruptura do contrato social. Acomodaram-se, perderam ousadia, viraram a cara para o lado enquanto o vizinho batia na mulher e nos filhos. Porque não era com eles. Viram os estafermos, qual praga, treparem por todo o lado, ajudados pelos estafermos que já lá estavam e que lhes atiravam cordas e escadas para os ajudarem a trepar mais depressa, empurrando e derrubando, ajeitando-se nos bancos das empresas públicas, atafulhando-se de robalos e de charutos oferecidos por construtores civis, arrotando como porcos à porta do Tavares e rindo alarvemente enquanto se roubava o erário e se desmantelava o Estado.

E a Europa, a Europa senhores, essa só nos reconhece dentro dos estádios para onde atiram as moedas que os mais afoitos recolhem. Rastejando se necessário. Não podemos contar com ela porque ela só conta connosco para assegurar o pagamento dos juros.

Fazer a revolução que nunca se fez, recolocá-la nos carris, não é difícil. Fosse tudo tão simples. Não é preciso voltar à estaca zero, "empobrecer" como dizem alguns cretinos, nem destruir o pouco que se construiu. Bastará abrir os olhos, levantar a cabeça, olhar à nossa volta e correr com os estafermos que se abotoaram com o contrato social, colocando-o ao seu serviço.

Os portugueses não podem ficar eternamente à espera que os resgatem, que apareça um D. Sebastião ou um capitão de Abril que lhes restitua a dignidade e a honra. Os portugueses têm de crescer. Só a eles incumbe o dever de resgatar o contrato social. E podem ter a certeza de que não será o Presidente da República, um Passos Coelho, um Relvas, um Seguro, um Portas, um Gaspar, ou um delirante qualquer das economias, que irá fazê-lo por ele. Nem mesmo o velho Mário Soares que já está em idade de ter o merecido descanso.

Os portugueses têm de arregaçar as mangas, colocar a voz e a pena, e tomar conta do espaço público. Entrando pelos jornais e pelas televisões, elevando a voz nas empresas e nos sindicatos, nos hospitais, nos centros de saúde, nas escolas, nas repartições de finanças, nos tribunais, nas autarquias, arrombando as portas e as grilhetas dos partidos políticos. Libertando-os da canalha, filiando-se neles para exigirem a esses partidos responsabilidades, correndo com os estafermos, e com os seus filhos e afilhados, que tomaram conta deles e das autarquias e que na sombra gerem negociatas e o trade-off da corrupção. Os portugueses terão de fazer funcionar a democracia a toque de caixa se quiserem sobreviver. A democracia terá de ser neste Abril uma verdadeira bomba de fragmentação que penetre as consciências e o tecido social. Não há outro caminho. E que as carpideiras chorem tudo neste Abril, porque o que aí vem não é para flores de estufa. É preciso resgatar a democracia. É preciso secar as lágrimas e voltar a fazer funcionar o contrato social. É preciso libertar Portugal dos estafermos para que a democracia floresça.

P.S. Discordo, embora compreenda, a decisão da Associação 25 de Abril. Mas  é dentro das instituições que a autoridade moral e a legitimidade de quem fez e se afastou tem de ser ouvida. Como Vasco Lourenço tão bem sabe, lá dentro já temos "Rochas Vieiras" que cheguem.      

sexta-feira, abril 20, 2012

Uma borrada em toda a linha

Não posso estar mais de acordo com Jorge Miranda, Mouraz Lopes e Rui Cardoso, o novo presidente do dito "Sindicato dos Magistrados do Ministério Público". O que aconteceu com a indicação dos nomes propostos pela Assembleia da República para as vagas abertas no Tribunal Constitucional constitui mais um lamentável episódio nesse caminho que os principais partidos políticos insistem em trilhar e que passa por confundirem a justiça com a política enquanto arrastam ambas para o lodaçal.
O Tribunal Constitucional talvez seja uma das poucas instituições da República que tem sabido cultivar a inteligência, a discrição e a respeitabilidade, procurando manter-se à margem da idiotia generalizada.
Se a saída de Rui Pereira para o Governo já tinha sido antes um péssimo sinal, aliás dando guarida às primeiras críticas que tinham sido formuladas quanto a uma tentativa de desvirtuamento das suas funções e de menorização do seu estatuto, os nomes que foram agora indicados pelo PS e o PSD raiam o absurdo.
Não estão em causa as qualidades jurídicas dos nomeados. O que se discute é o seu perfil para integrarem um dos órgãos de soberania mais importantes da nossa estrutura judicial. E a ser verdade o que o Público escreve, apontando como razões para a sua indicação o facto de pertencerem à mais influente obediência maçónica, isso só quer dizer que as escolhas estavam feitas antes mesmo de o serem.
Tenho pena que os ideais maçónicos agora apareçam por tudo e por nada misturados nesta espécie de jardim zoológico em que vivem as nossas instituições mais representativas. 
Olhando para o que se está a passar tenho por vezes a tentação de dizer aquilo que Haffner disse de Weimar: "uma república sem republicanos". Quanto àquela todos sabemos como acabou. Quanto à nossa, confesso que não gostaria de estar cá no momento em que ela se finar. 
A vida é um caminho que se vai fazendo, onde tudo tem o seu tempo, onde tudo passa por processos de aprendizagem, aquisição de conhecimentos, de experiências, e, em particular, pela aquisição de valores e de princípios que em momentos de crise nos ajudem a seguir um rumo, a definir um caminho. Não é feita de escolhas apressadas, atamancadas para responderem ao imediatismo do quotidiano e à sofreguidão e sede de protagonismo de alguns actores.
Com as escolhas que fizeram, pela forma como negociaram os nomes nos bastidores e os impuseram, PS e PSD  mostraram disponibilidade para transformarem o Tribunal Constitucional em mais uma choldra ao nível do que de pior os partidos têm sido capazes de produzir. E, quer queiramos quer não, este sinal que uma vez mais é dado à sociedade funciona contra os próprios partidos, contra o estado de direito democrático, contra a qualidade da democracia e o respeito pelas suas instituições, representando mais um atestado de incompetência passado em letras garrafais às suas elites dirigentes.
Continuem, pois, e não mudem nada que não é preciso.