Roma e Pavia não se fizeram num dia. E uma exposição como esta não foi coisa fácil de conseguir. Pelo valor das obras que se conseguiu reunir, pela quantidade de entidades que foi preciso convencer a autorizar a saída dos quadros das suas bases, pela segurança exigida e pelo valor astronómico dos seguros. Convenhamos que juntar na Scuderie del Quirinale a maior exibição jamais vista de obras de um senhor chamado Jacopo Robusti, que passou à história como Tintoretto, não está ao alcance de muita gente. Vittorio Sgarbii foi o responsável por esta explosão de génio e de cor, assente em três temas fulcrais da obra de Tintoretto: a religião, a mitologia e o retrato. Com obras que vieram de museus de Viena, de Londres, de Milão, de Paris, de Munique, de Veneza ou de Modena, e onde é possível ver os dois mais famosos auto-retratos do pintor, a abrir e a fechar a mostra, para além de obras como Apollo e Dafne, Deucalione e Pirra, O Milagre dos Escravos, S. Jorge e o Dragão, Jesus entre os Doutores, A Última Ceia, A Criação dos Animais, a esplêndida Susanna entre os Velhos, Santa Maria do Egipto e Santa Maria Madalena, a exposição tem ainda o atractivo de juntar a Tintoretto - a verdadeira cereja no topo do bolo - artistas com quem aquele mestre interagiu. Quem? Apenas gente como Tiziano, Bonifacio Veronese, Giovanni Demio, Lambert Sustris, Parmigianino, El Greco, Schiavone e Paolo Veronese. Às quartas-feiras, até 4 de Abril e aproveitando a exposição, que só terminará em 10 de Junho, decorrem também os "Encontros" (I Mercoledí di Tintoretto - Incontri) sobre a sua obra (com entrada livre na Sala Cinema do Palazzo delle Esposizioni, na Via Milano, 9), às 18.30. Na semana passada esteve lá Giovanni Carlo Federico Villa, hoje estará Antonio Paolucci. Garanto-vos que não darão o vosso tempo por mal empregue.
quarta-feira, março 14, 2012
terça-feira, março 13, 2012
Dias de sol (1)
Há cidades de onde nunca chegamos a sair. Por tudo aquilo que elas nos dizem e transmitem. E porque sabemos que por nunca termos saído haveremos sempre de voltar. Roma é um daqueles lugares mágicos de onde nunca se sai mesmo quando não se está. A ela voltarei sempre enquanto tiver vida, saúde e meios que mo permitam. E desta vez não foi diferente. Regressar nesta altura do ano a Itália tem algo de ainda mais fascinante porque há muitos acontecimentos que assinalam o fim do Inverno e marcam os dias mais longos e solarengos que anunciam as estações seguintes. Na Piazza de Campidoglio, nas traseiras do monumento a Vittorio Emanuele II, entre o Foro Romano e a Piazza Venezia, ficam os Museus Capitolini e o Palácio dos Conservadores. Independentemente do interesse que os museus sempre têm, nem que seja só para rever a fabulosa estátua de Marco Aurélio, cuja réplica do original que está no interior está agora na Praça exposta aos elementos da natureza, tive desta vez a sorte de visitar uma exposição que vivamente aconselho a quem possa fazê-lo. Chama-se "Lux Arcana - L'Archivio Segreto Vaticano Si Revela". Consiste numa mostra de cerca de 100 documentos do vastíssimo Arquivo Secreto do Vaticano. A exposição assinala os 400 anos da fundação do Arquivo e entre outras relíquias absolutamente fabulosas, como os documentos dos processos contra Galileu e Giordano Bruno, a carta dos membros do parlamento inglês ao papa Clemente VII, a propósito das questões matrimoniais de Henrique VIII, as cartas de Maria Antonieta enquanto aguardava a sua hora e da imperatriz chinesa convertida ao Catolicismo e que tomou o nome cristão de Helena, a carta de Miguel Ângelo a monsenhor Cristoforo Spiritti, bispo de Cesena e futuro patriarca de Jerusalém, a bula de deposição de Frederico II ou a carta de Abraham Lincoln, é possível vermos, imaginem, a bula "Inter Cetera", de 4 de Maio de 1493, pela qual o papa Alexandre VI, Domingo Borja, reconhece a linha de Tordesilhas e os limites dos impérios marítimos de Portugal e de Espanha. A exposição está patente ao público até 9 de Setembro e o bilhete custa € 12,00. Uma ninharia mesmo nos dias de crise e insânia que atravessamos, mais ainda se pensarmos que nas próximas décadas, ou gerações, os vossos olhos e os dos vossos filhos muito provavelmente não terão outra oportunidade de voltar a ver aquilo que ali está patente. Já agora, se puderem, tragam-me o catálogo (€ 15,00), que eu, tão inebriado estava com o que tinha visto, esqueci-me completamente de comprar antes de sair.
quinta-feira, março 08, 2012
quarta-feira, março 07, 2012
Regresso à normalidade
17ª vez entre os 8 melhores da Europa. Sem favor. Como alguém dizia no final, o Benfica já não estava habituado a árbitros que deixassem jogar a equipa, a árbitros que não se deixam condicionar e contaminar pelo ambiente putrefacto do futebol nacional. O Benfica não precisou que o árbitro o favorecesse. Bastou-lhe que Howard Webb não o prejudicasse.
terça-feira, março 06, 2012
sexta-feira, março 02, 2012
Quatro notas soltas
1 - Rui Rio deu na quarta-feira passada uma excelente entrevista a Gomes Ferreira na SIC-Notícias. Não foi a primeira vez que foi entrevistado e marcou a diferença. Não vivo no Porto e não sei se ele foi um bom presidente da Câmara. Mas há factos que são incontornáveis e que vão muito para além do exercício da função. São os que têm a ver com a sua própria postura. Não sendo militante nem simpatizante do PSD e não me movendo por interesses oportunistas ou carreirismo serôdio, penso ser insuspeito para dizer o que digo dele. Pode-se não gostar do estilo, mas eu também não gostava do estilo de Sócrates, como não gosto do estilo Miguel Relvas, nem do estilo Cavaco Silva, mas Rio não é comparável com nenhum destes. Rui Rio é a antítese dos políticos que temos tido. É sereno, tem ideias consistentes e claras, tem formação cultural e académica, tem percurso profissional e político, é pragmático. E, além do mais, tem desapego ao cargo e à política e, embora discreto, carisma. Não concordo com muitas das suas ideias, mas a forma como ele é capaz de expô-las e defendê-las marca a diferença. Num sistema de políticos anódinos, sem qualificações ou mérito profissional relevante, inconsistentes, cujo carácter é feito de plasticina e esperteza saloia, será difícil resistir a um político como Rio. Por não depender da política tem liberdade e autoridade para falar como fala. E não deixa de ser curioso que sejam os líderes das duas maiores autarquias do País aqueles que ainda conseguem dar alguma confiança aos portugueses. Tudo o que estes dois têm - Rui Rio e António Costa - não têm os outros. Oxalá não se fartem da política e os portugueses ainda possam contar com eles durante muitos e longos anos.
2 - A "reforma" autárquica do ministro Relvas continua a dar que falar. Como se viu pelo editorial do Público desta manhã, já aqui abaixo transcrito, o homem não tem emenda e pensa que todos os outros são parvos. É um caso perdido de incompetência política e pesporrência. E o entendimento de PSD e PS relativamente à interpretação da limitação de mandatos, com a peregrina tese de que o impedimento se aplica ao território e não à função, vai permitir a troca de cadeiras e de lugares entre os profissionais da política. Como já anteriormente escrevi, trata-se da cartelização do sistema político e do pior da partidocracia em todo o seu esplendor. O conluio e a interacção entre os principais partidos é por demais evidente. Para mal do sistema político, degradação do regime e continuação da acelerada perda de qualidade da democracia. E o argumento usado pelos partidos para subscreverem essa entorse aos princípios não colhe porque não será a primeira vez que um presidente de câmara salta de uma autarquia para outra levando consigo o seu pessoal político, toda a sua equipa de autarcas e de assessores, bem como todas as empresas que antes gravitavam na autarquia de onde saíram e que, graças a este expediente do ministro Relvas acolhido pelo PS "renovado" de António José Seguro, poderão continuar a fazer negócios na autarquia para onde se mudar o seu "homem". Não pode haver renovação enquanto os actores políticos de sempre se forem revezando nos cargos e nos órgãos, saltitando de uns para outros com a benesse dos partidos políticos. O que irá acontecer nas autarquias será exactamente o mesmo que já acontece hoje dentro dos partidos. Quando esgotam o prazo de validade num órgão mudam para outro, isto é, mudam para o poleiro do lado. Tudo com a maior transparência e na paz do Senhor. O povo e a democracia que se lixem.
3 - O Presidente da República fez hoje uma declaração, mais uma, de tarar. Foi no Congresso dos Magistrados do Ministério Público. De acordo com a Lusa, Cavaco Silva chamou a atenção do poder político "para a necessidade de reforçar o prestígio dos magistrados através de uma "cuidada reafirmação do seu estatuto de independência e autonomia". Uma vez mais o Presidente da República esqueceu-se de que não será essa a via pela qual se reforçará o prestígio dos magistrados. o que o Estado, através do poder político, tem de fazer é de melhorar as condições de funcionamento dos tribunais e simplificar a teia legislativa, eliminando as armadilhas, os "esquemas" e toda a série de artimanhas que têm impedindo que a justiça se faça a tempo e horas. Fazendo uma reforma ao estilo da que foi feita para os Tribunais Administrativos, do ponto de vista processual. Porque quanto ao mais, quanto ao prestígio dos magistrados, este só poderá ser reforçado por via do exercício das suas próprias funções, por via da legitimação das suas decisões junto da opinião pública através da produção de promoções, despachos e sentenças claras, fundamentadas e o mais justas possível. Mas para isso é necessário ter gente de carácter, gente que assuma o risco das suas decisões, gente de espírito livre, gente que não se deixe condicionar pelo poder político ou económico e que não passe a vida a fazer queixinhas. Gente que seja capaz de se distinguir pelo trabalho, pelo brio e pelo mérito com que o desempenha, gente que não tenha a mentalidade do funcionário e que se predisponha a despachar apenas para fazer circular o processo ou se livrar dele porque é incómodo. E se acima dos magistrados os Conselhos funcionarem, e forem capazes de exercer as suas competências, com toda a liberdade e plenitude, então teremos tudo para que eles se prestigiem e sejam olhados de uma forma diferente daquela com que os cidadãos cada vez mais os olham, isto é, com desconfiança. Compreendo que estas coisas sejam difíceis de compreender para um Presidente da República que tem dificuldade em assumir-se como tal e que renunciou ao vencimento da função que exerce, embora não tenha também renunciado às ajudas de custo respectivas, para receber umas reformas que lhe davam mais ao final do mês. É que as ajudas de custo da função presidencial são atribuídas também em função do vencimento que o Presidente aufere pelo exercício dessa função e não para que sejam acumuladas com as reformas por que optou. Quem assim actua e por essa forma desprestigia o exercício da função não tem qualquer autoridade moral ou ética para depois vir pedir o que pediu.
4 - Tive ontem o privilégio de voltar a ouvir António Vitorino falar sobre a Europa com a categoria a que me habituou, como ele próprio simpaticamente recordou, desde "os bancos da faculdade". A iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Faro e o seu actual presidente, engº. Macário Correia, tem tanto de meritória quanto de propaganda, aliás na linha de uma campanha de renovação de imagem que em tempo de crise custou mais uns milhares ao erário público e aproveitou para acabar com as cegonhas no logotipo da cidade. Mas o que aqui importa sublinhar é a importância da iniciativa. Aquilo que a Câmara Municipal de Faro está a fazer devia ser a regra e não a excepção. E devia ser levado a cabo pelos próprios partidos políticos. Porque é fundamental dar novos instrumentos de participação aos cidadãos, porque é fundamental ter cidadãos esclarecidos e interessados, porque é fundamental criar oportunidades de participação e pôr as pessoas a pensar e a discutir os problemas em voz alta. E sem uma abertura do espaço público à cidadania tudo permanecerá como até aqui. Não há que ter medo, há que ousar, atirar as palas do partido para trás das costas e tomar a iniciativa. Seria bom que idênticas iniciativas tivessem tido lugar no passado, mas quanto a este ponto o actual presidente não tem culpa do que os outros que o antecederam não se lembraram, não fizeram ou não quiseram fazer.
3 - O Presidente da República fez hoje uma declaração, mais uma, de tarar. Foi no Congresso dos Magistrados do Ministério Público. De acordo com a Lusa, Cavaco Silva chamou a atenção do poder político "para a necessidade de reforçar o prestígio dos magistrados através de uma "cuidada reafirmação do seu estatuto de independência e autonomia". Uma vez mais o Presidente da República esqueceu-se de que não será essa a via pela qual se reforçará o prestígio dos magistrados. o que o Estado, através do poder político, tem de fazer é de melhorar as condições de funcionamento dos tribunais e simplificar a teia legislativa, eliminando as armadilhas, os "esquemas" e toda a série de artimanhas que têm impedindo que a justiça se faça a tempo e horas. Fazendo uma reforma ao estilo da que foi feita para os Tribunais Administrativos, do ponto de vista processual. Porque quanto ao mais, quanto ao prestígio dos magistrados, este só poderá ser reforçado por via do exercício das suas próprias funções, por via da legitimação das suas decisões junto da opinião pública através da produção de promoções, despachos e sentenças claras, fundamentadas e o mais justas possível. Mas para isso é necessário ter gente de carácter, gente que assuma o risco das suas decisões, gente de espírito livre, gente que não se deixe condicionar pelo poder político ou económico e que não passe a vida a fazer queixinhas. Gente que seja capaz de se distinguir pelo trabalho, pelo brio e pelo mérito com que o desempenha, gente que não tenha a mentalidade do funcionário e que se predisponha a despachar apenas para fazer circular o processo ou se livrar dele porque é incómodo. E se acima dos magistrados os Conselhos funcionarem, e forem capazes de exercer as suas competências, com toda a liberdade e plenitude, então teremos tudo para que eles se prestigiem e sejam olhados de uma forma diferente daquela com que os cidadãos cada vez mais os olham, isto é, com desconfiança. Compreendo que estas coisas sejam difíceis de compreender para um Presidente da República que tem dificuldade em assumir-se como tal e que renunciou ao vencimento da função que exerce, embora não tenha também renunciado às ajudas de custo respectivas, para receber umas reformas que lhe davam mais ao final do mês. É que as ajudas de custo da função presidencial são atribuídas também em função do vencimento que o Presidente aufere pelo exercício dessa função e não para que sejam acumuladas com as reformas por que optou. Quem assim actua e por essa forma desprestigia o exercício da função não tem qualquer autoridade moral ou ética para depois vir pedir o que pediu.
4 - Tive ontem o privilégio de voltar a ouvir António Vitorino falar sobre a Europa com a categoria a que me habituou, como ele próprio simpaticamente recordou, desde "os bancos da faculdade". A iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Faro e o seu actual presidente, engº. Macário Correia, tem tanto de meritória quanto de propaganda, aliás na linha de uma campanha de renovação de imagem que em tempo de crise custou mais uns milhares ao erário público e aproveitou para acabar com as cegonhas no logotipo da cidade. Mas o que aqui importa sublinhar é a importância da iniciativa. Aquilo que a Câmara Municipal de Faro está a fazer devia ser a regra e não a excepção. E devia ser levado a cabo pelos próprios partidos políticos. Porque é fundamental dar novos instrumentos de participação aos cidadãos, porque é fundamental ter cidadãos esclarecidos e interessados, porque é fundamental criar oportunidades de participação e pôr as pessoas a pensar e a discutir os problemas em voz alta. E sem uma abertura do espaço público à cidadania tudo permanecerá como até aqui. Não há que ter medo, há que ousar, atirar as palas do partido para trás das costas e tomar a iniciativa. Seria bom que idênticas iniciativas tivessem tido lugar no passado, mas quanto a este ponto o actual presidente não tem culpa do que os outros que o antecederam não se lembraram, não fizeram ou não quiseram fazer.
Lido e registado
"A cada dia que passa percebe-se melhor que o Governo avançou com a reforma da administração local apenas porque tinha de ter alguma coisa na mão para aliviar a pressão da troika. Por isso, Miguel Relvas confunde as exigências do memorando de entendimento com a sua própria proposta, o que o leva até a acusar o PS de ter assinado o acordo para agora fugir às suas responsabilidades. Que se saiba, a troika pediu mexidas nas autarquias como o fez na Grécia, mas enquanto a Grécia extinguiu municípios para criar autarquias regionais, Portugal atacou o elo mais fraco: as freguesias. Com que objectivo? A proposta vai ter infíma contribuição para a redução do défice, vai anular a presença do Estado nas zonas mais frágeis do país e não vai no sentido da mudança de um Estado hipercentralizado para um Estado moderno. É uma reforma para alemão ver. (...)" - Editorial, Público, 02/03/2012.
quinta-feira, março 01, 2012
terça-feira, fevereiro 28, 2012
E vão 108 gloriosos anos
O grande Jaime Graça escolheu partir hoje. Podia ter sido ontem. Ou anteontem. Mas aconteceu hoje. No mesmo dia em que cá em baixo se apaga mais uma vela, lá em cima uma mais se acende. Para continuar a zelar por nós. E uma coisa podemos já prometer ao Jaime, a quem agradeço o quanto fez por nós, e pelos outros: para o ano celebraremos mais um. Serão então cento e nove. E celebraremos de novo com todos os que cá estarão, com ele e com todos os que de lá de cima nos iluminam, e também com os que vêm a caminho para se juntarem a nós e que, como ele sabe, são muitos mais do que os que já cá estão.
sexta-feira, fevereiro 24, 2012
Só espero que ele não tenha sido enganado
"A venda da Tóbis mostra como o Estado está disposto a vender seja em que condições for. O secretário de Estado da Cultura reconheceu que a venda foi feita "às escuras": do comprador só se sabe que tem capitais angolanos e nunca se negociou directamente com a companhia. Nem pode garantir que o comprador é o mesmo com quem foi iniciado o processo. Como é isto possível?" - Público, Sobe e Desce, 24/02/2012
É por estas e outras que me desgosta ver indivíduos como ele metidos nestas camisas-de-forças da política nacional.
O estado da democracia
Promovido pela Cívis - Associação para o Aprofundamento da Cidadania. É hoje, com a presença de Martins Goulart (Coordenador da União dos Sindicatos do Algarve da CGTP), do Almirante Martins Guerreiro (Associação 25 de Abril) e de Nuno António (Associação Movimento Juvenil de Olhão). Eu junto-me a tão ilustre grupo graças a um simpático convite da organização e represento-me a mim próprio. Para não comprometer ninguém, como aliás é apanágio dos homens livres.
segunda-feira, fevereiro 20, 2012
Devia ser de leitura obrigatória nas escolas
A entrevista que Manuel António Pina deu ao jornal i é um documento de uma assombrosa lucidez e actualidade. Um verdadeiro testamento poético, jornalístico e cívico. Em particular, por um sentido da humildade, da tolerância e da decência só ao alcance de espíritos absolutamente excepcionais. Para ler, reler, guardar e ir muitas vezes buscar à gaveta de cada vez que eu estiver a pensar dizer ou escrever qualquer coisa que venha com o nome à frente. Não será por falta de coragem, acreditem, mas para desfulanizar a coisa. Um dia seremos todos pó e, de facto, não vale a pena que sejamos nós a colocar os que vemos como "canalhas" nas páginas da história. Ainda que depois acabemos a embrulhar o peixe com as folhas onde ficou impresso o seu nome. Basta sinalizar os factos. Cada um que julgue por si. Os peixes também não precisam de saber quem são eles. Ficarem sujos com a tinta do jornal onde se escreveu o nome daqueles de cada vez que são embrulhados já é um castigo bastante.
quarta-feira, fevereiro 15, 2012
É Carnaval...
Não tarda virá aí alguém justificar o gasto com o mesmo ar entediado com que o ministro responde aos jornalistas de cada vez que o questionam sobre os gastos da RTP ou de qualquer outro serviço público. De quem agora deu em dar lições de moral aos portugueses e lhes prega sobre a melhor forma de poupar e emigrar não está nada mal. Normalmente começa sempre assim. Primeiro põe-se um ar sério e aponta-se o dedo a todos, tal como Rocha Vieira fez quando chegou a Macau; depois sai-se pela porta dos fundos deixando um mar de caricaturas para trás. Bem prega Frei Tomás.
sexta-feira, fevereiro 10, 2012
De que serve a liberdade
Bertolt Brecht
(10/02/1898 - 14/08/1956)
"De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?"
Não é normal
Não é normal que um Presidente da República se queixe do que recebe e que para o fazer não se iniba de esconder os rendimentos que aufere e a verdadeira razão para o lamento. Não é normal que um candidato a primeiro-ministro com um mínimo de seriedade faça promessas que sabe não poder cumprir, por muito grande que seja a fé, seja quanto ao número de empregos cuja criação anuncia a troco de votos, seja quanto ao nível da pressão tributária que se propõe manter ou baixar logo que chegue ao poder. Como não é normal que um partido político sério utilize quando está no poder argumentos diferentes daqueles que usou quando era oposição e que resolveu desvalorizar apenas para se furtar ao escrutínio político e ao incómodo de ter de responder a perguntas cujas respostas se presume seriam desagradáveis e inoportunas para a sua imagem pública e a reputação que se esforça por construir. E também não é normal que numa sociedade democrática livre e transparente se ande permanentemente a iludir e enganar a opinião pública, enquanto se mantém uma postura pública incompatível com os jogos de bastidores. De igual modo, não é normal que conversas reservadas sejam escutadas à revelia dos intervenientes, à margem da lei, sem o seu conhecimento ou consentimento prévio, tenham essas conversas lugar através de uma linha telefónica ou ocorram numa parcela do espaço público. E também penso, já agora, que não é normal que um ministro das Finanças que também é a segunda figura do Governo de um Estado soberano, revele nos contactos com os seus hómologos europeus uma postura de tal forma subserviente e agradecida que se transforme na imagem de um mero serventuário, num funcionário público zeloso sem outra ambição que não seja a de cumprir agradando às suas chefias e aos credores do país. E normal não será que um ministro da Defesa e as chefias militares sejam publicamente enxovalhadas por comunicados de organizações para-sindicais dos seus subordinados e ainda os comentem. Nada disto é normal. Tudo isso é pouco sério e nada gratificante para o Estado, para o regime, para os partidos políticos ou os titulares do órgãos do poder político. Mas talvez por nada ser normal é que tudo seja aceite com tanta normalidade. E se resuma a uma luta política entre líderes (medíocres) de juventudes partidárias e filhos do regime que nunca foram capazes de deixar de o ser porque se recusaram a emancipar-se, porque rejeitaram as responsabilidades e os comportamentos da maioridade. A normalidade em Portugal é cada vez mais a anormalidade do dia-a-dia. Da forma como se vive, se respira e de como alguns conseguirão chegar a velhos. Se lá chegarem. Não tardará, por este andar, por esta resignação cega e contemplativa, por este sofrer que se aceita silencioso e reconhecido, que nos tornemos todos num país de anormais. Nesse dia tudo será normal porque a máscara se terá fundido com o rosto. E, por essa via, ter-se-á integrado na alma. No dia em que isso acontecer espero que a minha alma já se tenha libertado destas grilhetas. Se possível evaporado. Que parta comigo. Não sou o Poeta, por isso não pretendo que ela parta gentil para que eu viva cá na terra sempre triste. Porque nada é mais anormal nesta vida do que viver vendo a alma presa na terra e entre o povo que se ama só porque toda uma geração desgraçada nos conduziu a tão deprimente destino. E persiste.
quinta-feira, fevereiro 09, 2012
A ler
"(...) os portugueses não elegeram um primeiro-ministro, elegeram um comandante do corpo de fuzileiros. O resultado foi este regime híbrido que combina a democracia com a ditadura militar. Portugal fez um intervalo na sua existência como país e passou a ser uma caserna. Há dez milhões de recrutas que necessitam de formação e Pedro Passos Coelho berra-lhes aos ouvidos exactamente as mesmas palavras de incentivo que todos os soldados ouvem durante a recruta. A diferença é que o tratamento é mais bruto do que na tropa e as condições de vida são piores. (...) É duro, mas tem de ser. Porque Passos Coelho sabe melhor do que ninguém o que acontece àqueles portugueses menos esforçados, cuja capacidade de trabalho lhes permite arranjar emprego apenas nas empresas dos amigos, e que por opção, e não por necessidade, deixam a conclusão da licenciatura lá para os 37 anos: podem chegar a primeiro-ministro. E esse é um destino trágico que ele não deseja aos seus compatriotas." - Ricardo Araújo Pereira, Visão, 09/02/2012
A magnífica reforma do ministro Relvas
"Agora, enfim, nas eleições de 2013, não se poderão recandidatar cerca de 150 presidentes de Câmara e não sei quantos de Junta. Mas, face às previstas alterações no mapa autárquico, surgiu a extraordinária hipótese de, onde elas se verificarem, tal impossibilidade deixar de existir. Exemplo: três ou quatro freguesias fundem-se ou agrupam-se e o presidente de qualquer uma (que pode ter mais eleitores do que todas as outras somadas), poderia recandidatar-se. O que, em meu juízo, mais do que uma finta seria uma autêntica fraude à lei." - José Carlos de Vasconcelos, Visão, 09/02/2012
quarta-feira, fevereiro 08, 2012
Para quem tivesse dúvidas
"Numa avaliação feita aos primeiros 6 meses de governação de Pedro Passos Coelho, o Barómetro Político da Marktest revela que 70% da população considera que o novo Governo não tomou medidas importantes para o desenvolvimento económico do País e mais de metade acredita que o Governo de Pedro Passos Coelho não está a fazer o que é necessário para Portugal sair da crise."
Se os estudos deles eram bons até 5 de Junho de 2011, quando se tratou de correr com os outros, agora também devem continuar a ser, não? A isto chama-se a prova dos "pastéis de nata".
Por este andar...
... tenho impressão de que só eu, que não alinho em carnavais, e o Governo, que é um carnaval de máscaras e fantasias em permanente ebulição, é que estaremos a trabalhar na 3ª feira de Entrudo. Com as escolas fechadas e as câmaras das duas principais cidades do País encerradas, o melhor será todas as câmaras fazerem o mesmo. Assim, ficaremos todos com a certeza de quem é que está com quem e porquê. Não vale a pena iludirmo-nos.
terça-feira, fevereiro 07, 2012
Mataram as cegonhas
O presidente da Câmara Municipal de Faro, pessoa por quem tenho toda a consideração, depois de ter deixado Tavira no estado que ainda hoje o insuspeito deputado comunista Paulo Sá nos deu a conhecer, tendo sido incapaz de encontrar algures os milhões que o poderiam ajudar a realizar em Faro uma obra de endividamento e propaganda idêntica à que o seu colega de partido Alberto João Jardim realizou na Madeira, à custa dos "cubanos", resolveu inventar e começou logo pelo logótipo que há mais de uma dezena de anos constituía a marca mais distintiva da cidade. Fê-lo para trocá-la por um logótipo desajeitado cujo estilo, como se vê pela comparação, tanto pode servir a Faro, como à EDP ou a uma qualquer empresa da Conchichina.
Diz a propaganda do edil, aliás, já severamente criticada pelo Partido Socialista, que o novo logótipo tem as cores do brasão e representa o contorno da cidade velha. Como disse? Eu diria que é mais um borrão feio e desajeitado que tem tudo para conseguir não nos fazer esquecer as belas cegonhas que dão luz e vida à cidade da Ria Formosa e que antes orgulhosamente se exibiam no logótipo municipal.
O vídeo que foi realizado para apresentar a "obra", já em português de Acordo Ortográfico e com uma locução digna de salão de cabeleireiro, é todo ele mais um exemplo de mau gosto. Os maus exemplos fazem escola. Daí que a piroseira e a pinderiquice continuem a espalhar-se alegremente. Não é só no governo central. Desta vez aportou a Faro pela mão de Macário Correia.
E se lhe derem um banano nos queixos, ele queixa-se a quem?
E se fosses chamar piegas a outro? Piegas era a tua tia, pá!
segunda-feira, fevereiro 06, 2012
Trapalhada carnavalesca
Convirá antes de tudo o mais dizer que não sou adepto de carnavais e que com excepção de meia dúzia de sambistas, também elas de excepção, nem sequer perco tempo a ver desfiles na televisão. E se forem em Portugal ainda menos, porque homens vestidos de mulher, gordas, barrigudas e enjeitadas cheias de silicone e celulite não são a melhor das coisas para se apreciar.
Posto isto gostaria de vos dizer que compreendo perfeitamente a decisão de Passos Coelho de não conceder tolerância de ponto no Entrudo. Esta é a parte que eu percebo e que nem de perto nem de longe se poderá alguma vez comparar com a abolição dos feriados de 5 de Outubro e de 1 de Dezembro.
O que eu já não compreendo é que essa decisão tenha sido tomada tão em cima do joelho. Quer-me parecer, pelas declarações que proferiu, que o primeiro-ministro ainda nem sequer tinha pensado no assunto quando a questão lhe foi colocada e o que disse foi a primeira coisa de que se lembrou. Aliás, creio que a forma trapalhona e atabalhoada como a resposta foi dada e, na sequência dela, a questão surgiu na comunicação social, com o clima que logo gerou, são o espelho disso mesmo.
A trapalhada não será muito diferente daquela que o ministro da Economia criou no final da última reunião do Conselho de Ministros com a confusão entre férias e feriados e a data da entrada em vigor das decisões tomadas sobre essa matéria.
Passos Coelho esqueceu-se de que há compromissos assumidos, que muita gente - autarquias incluídas - se empenhou há um ror de meses para preparar os desfiles e que não é na véspera que se avisa. Acabe-se com a 3ª feira de Carnaval mas faça-se isso em termos adequados, com tempo para as pessoas se prepararem e evitando-se prejuízos desnecessários. No final, sei que teremos mais uma confusão generalizada, com escolas fechadas e pais a terem de ir trabalhar e sem terem onde deixar os filhos. Prejuízos em barda. Nada, infelizmente, que a gente não estivesse à espera desta trupe carnavalesca de laranjinhas impreparados que chegou ao poder "aldrabando" o eleitorado e sem saber o que fazer com o poder. Por falta de ideias, de currículo e de experiência. Um desastre a somar a tantos outros.
sexta-feira, fevereiro 03, 2012
Ele vem aí...
Com ou sem Acordo Ortográfico, para quem tiver oportunidade e bilhete para ir ao CCB, no próximo dia 21, a hipótese de ver um dos maiores guitarristas da actualidade: Joe Bonamassa.
Coisas
A entrevista de Basílio Horta à Visão. Leiam-na toda, de fio a pavio. Deixo os comentários para vós. Eu tenho de ir ali buscar um lenço e já volto. Há momentos em que a gente não sabe se há-de rir ou se chorar.
O estado a que isto chegou
Em 2007 um carro despistou-se na A22. Morreu uma pessoa. O processo foi julgado e proferida sentença em Setembro de 2009. Em 21 de Outubro desse mesmo ano deu entrada o recurso no 1º juízo criminal de Loulé. Hoje, 3 de Fevereiro de 2012, telefonei, uma vez mais, para o tribunal, a saber se já havia algum despacho. Não, não há, o juízo tem seis mil processos pendentes. A juíza ainda é a mesma. O processo sobre o qual eu buscava informações foi para a inspecção. Não se sabe quando voltará. Nem quando o recurso subirá à Relação de Évora. O condutor tinha álcool no sangue no momento do acidente em nível superior ao legalmente permitido. Continua a conduzir. E eu continuo a pensar que mal terei eu feito a Deus para nascer português e merecer esta sina.
Uma decisão corajosa
"Referi sempre ao secretário de Estado da Cultura que a minha posição era esta. Aliás, a minha posição é conhecida por todos os membros do Governo."
A decisão de Vasco Graça Moura, o recém-empossado presidente do Centro Cultural de Belém, de não aplicar o aberrante Acordo Ortográfico (AO) que quer o actual quer o anterior Governo da República se propuseram levar à prática, é uma decisão justa e corajosa por parte de quem sempre se mostrou contra tal aborto linguístico, verdadeira machadada na nossa língua e na identidade nacional. Vasco Graça Moura mostra, uma vez mais, que não se pode ser contemporizador com o poder político quando esse poder é ignorante, inculto e precipitado, mesmo que seja da nossa cor política. O problema criado é demasiado gravoso para passar despercebido e das duas uma: ou o Secretário de Estado da Cultura que o nomeou lhe dá uma ordem expressa para aplicar o tal AO, e se ele não o fizer demite-o, ou o Governo terá de conviver com o facto de um dos seus nomeados, um dos mais importantes intelectuais portugueses, senhor de um domínio e conhecimento da língua como poucos, utilizar um dos lugares mais visíveis do panorama cultural nacional como tribuna contra uma das suas decisões políticas mais controversas. Sublinho aqui o facto da decisão de Vasco Graça Moura ter sido sufragada por unanimidade pelos restantes membros da administração do CCB. Estou certo de que a maioria dos portugueses, da direita à esquerda e até os apolíticos, estarão de acordo com ele. Pela parte que me toca, não podia estar mais de acordo e deixar de dar-lhe os parabéns.
quinta-feira, fevereiro 02, 2012
Sonhar alto
Imagine-se que eu respondia a um anúncio de recrutamento para presidente do conselho de administração de uma empresa em situação económica difícil, que movimentasse milhões e com potencial técnico e humano internacionalmente reconhecido como sendo do melhor. No anúncio pediam-me para apresentar um programa, a ser executado no prazo máximo de quatro anos, o qual seria submetido à consideração dos accionistas para aprovação, sendo essa uma das provas de selecção. Depois de apreciada a minha candidatura, fui a uma entrevista, recebi os elogios da maioria dos accionistas ao meu programa e foi-me pedido que começasse a trabalhar. Escolhi a minha equipa entre gente da minha confiança, e na primeira assembleia geral foi tudo aprovado nos termos que eu desejava. Tinha, no entanto, um pequeno problema, do qual eu tivera conhecimento atempado e com o qual teria de contar durante o meu mandato. É que no final do mandato da anterior administração, já depois da publicação do anúncio de recrutamento a que eu respondera, foi necessário contrair um empréstimo junto de entidades externas. Não havia hipótese de obter suprimentos internamente e esse empréstimo era necessário para pagar os salários, a luz e a água dos meses seguintes. Durante a entrevista de selecção foi-me perguntado o que pensava eu das condições daquele empréstimo. Foi-me sugerido que desse a minha opinião, uma vez que a seguir, sendo escolhido para o lugar, estar-me-ia destinado cumprir com as condições acordadas. Na altura, pensei que não iria ser fácil, mas convicto das minhas capacidades e da ajuda divina, dei algumas sugestões. Como não queria perder o lugar, ainda que fosse só por quatro anos e sem grandes perspectivas de carreira, manifestei o meu assentimento aos termos propostos e predispus-me, caso fosse seleccionado, a contar com o cumprimento dessa obrigação. Acontece que quando iniciei funções, percebi que a tarefa seria mais complicada do que pensava, pois que tirando um curto período em que ajudei o caseiro do meu tio a gerir a quinta, não tinha qualquer experiência, mas evidentemente não podia dar parte de fraco. Preparei um orçamento, anunciei despedimentos em massa e aumentei os preços dos serviços que a empresa transaccionava. O ambiente tornou-se mais pesado. Os outros membros do conselho de administração, alguns recém-chegados do estrangeiro, andavam completamente aos papéis, mas lá foram todos remando enquanto metiam mais uma bucha, entre pastéis de nata e franguinhos da Guia. À medida que os dias passavam, e muito embora os compromissos fossem sendo cumpridos, a situação agravava-se: alguns sectores começaram a fazer greves, a mercadoria não se escoava, a administração cortou nas folgas, o refeitório fechou e no seu lugar ficou uma máquina de sumos e sandes de uma outra empresa de um dos accionistas que, entretanto, se mudara para a Holanda. Foi então que eu me lembrei de telefonar para uns amigos chineses a pedir-lhes ajuda. Voltaram a não falhar nessa hora difícil e lá apareceram. Entregaram-me uma mão cheia de yuans que muito jeito me deram, mas ao mesmo tempo os meus amigos tiveram a triste ideia de ir visitar alguns ex-administradores que tinham sido dispensados. Uns por incompetência, outros por terem atingido o limite de idade, e outros ainda por terem mau feitio. E resolveram trazê-los de volta para a empresa. Perguntei-lhes qual era a ideia e quem lhes iria pagar. Disseram-me que não me preocupasse. Era por causa de um torneio de matraquilhos. O pagamento não seria comigo nem com a empresa e eles apenas quiseram corresponder ao pedido de um dos meus colaboradores que solicitara o anonimato e entendia que seria conveniente introduzir alguma alegria no trabalho. Calculei quem fosse e não quis fazer-lhes a desfeita. O problema é que na mesma altura me chegou um cliente antigo, primo do Mantorras, que me pediu para lhe dar uma "fatia do negócio" (sic) e, se possível, arranjar colocação a mais dois ou três familiares que queriam vir viver para Portugal porque estavam fartos de ter de sair do Colombo a correr, cheios de sacos, para apanharem um avião para Luanda. Da última vez um deles perdera as leggings que adquirira para uma amiga do Trópico, por causa do reembolso do IVA no aeroporto, e aquilo acabara tudo num pandemónio à chegada quando o desgraçado se apercebeu que o embrulho ficara na Portela junto com as queijadas de Sintra que ele dera ao tipo da segurança para ver se aliviava o excesso de peso na bagagem. Por causa disso ainda hoje um "tio" dela, que trabalhava nos vistos do consulado, continua a dizer aos que lá aparecem que só lhes põe o carimbo nos passaportes se no regresso trouxerem um par das ditas cujas para a fulana. Enfim, lá se arranjaram as coisas, e eu aproveitei a notícia do aumento da produtividade em razão do final das folgas e da abolição do dia da empresa, que se comemorava habitualmente em 5 de Outubro, para convidar uma equipa de um programa de televisão chamado "Tapetes voadores e afins", para vir fazer uma reportagem à empresa, aproveitando a animação provocada pela chegada dos familiares do Mantorras. Estava eu nisto quando me lembrei que tinha uma assembleia geral extraordinária daí a dias. Em causa estava uma eventual reorganização da nossa estratégia de recuperação, de acordo com a proposta de alguns accionistas. Nem queria pensar nisso. Já os tinha aldrabado com o programa que defendera na entrevista de selecção, desculpando-me depois com o encerramento de uma das nossas filiais no Brasil e com as dificuldades do programa informático instalado pela anterior administração, baixara os salários dizendo que a responsabilidade não era minha mas sim do tesoureiro, vendera os camiões da distribuição para poupar nos custos e despedir os motoristas (eram todos comunistas) e cortara na subsidiação das aspirinas e xaropes durante o período das gripes e constipações. Como safar-me na dita assembleia? Pois bem,chegado o dia desfiei o meu rosário: queixei-me da anterior administração, disse que o empréstimo não fora negociado por mim e que houvera uma alteração de circunstâncias - ninguém me perguntou quais - que me fizera abandonar o meu programa. Os números eram incontornáveis. Já havia galinhas mortas debaixo das escadas e nas casas de banho e as fotocopiadoras estavam sem papel. Propuseram-me então reavaliar o programa, renegociar as condições do empréstimo, redireccionar o negócio, voltar a distribuir os nossos produtos. A tudo disse que não. E disse-lhes mais. Disse-lhes que custasse o que custasse o programa, não o que fora aprovado, mas aquele que eu estava a executar, iria ser levado até ao fim. Comigo não havia mudanças, nem renegociações de coisa alguma. Os sacrifícios seriam cumpridos com alegria. E se já havia galinhas mortas a culpa não era minha, quando muito da ASAE que era quem fiscalizava. Que culpa tinha eu que o primo do Mantorras também tivesse trazido um feiticeiro do Huambo, que era quem agora analisava as perspectivas das exportações da nossa empresa, e as usasse para saber qual o caminho que devíamos tomar em função do lado para que ficasse virado o bico delas depois de lhes tirar o sangue para uma cabidela? Nesse momento fui interrompido por um dos minoritários. Um amigo dos meus tempos de militância na jota que passara por um seminário e agora usava fatos castanhos com gravatas lilazes porque era adjunto de um ministro. Bom tipo. E também estafermo desde que passara a ter telemóvel pago pelo gabinete e criara uma base de dados por causa dos números do euromilhões. Vira-se para mim e diz-me que assim vamos ter de fechar a empresa. Os outros olharam-no desconfiados. Eu também. Eu sabia que era uma questão de meses mas não podia dizer-lhes isso. Ainda faltavam dois anos para o Mundial de Futebol e o meu padrinho dissera-me para aguentar. O contacto dele no Rio de Janeiro, um libanês de bigodaça que fora conselheiro de Estado, já lhe tinha garantido que me daria emprego nessa altura. Antes não porque as secretas andavam muito activas e já tinha constado que havia aventais "made in China" com o logotipo da empresa a serem vendidos ao desbarato na Feira da Ladra e na Rotunda do Relógio por uns adeptos do Besiktas que tinham acabado de chegar de Istambul. Coisas do Quaresma. O costume. Vai daí, puxei da minha voz de barítono e disse-lhes: esta empresa não fecha, nós vamos salvá-la. E rematei dizendo, impante, daqui não sai ninguém. Ainda pensei acrescentar "vivo ou morto", mas já não fui a tempo. Vindo das minhas costas, ouviu-se um grito. A sala emudecera. Gelou. Sentiu-se o frisson. Lá atrás, com um facalhão espetado e a pingar numa mão e uma cabeça de porco na outra, a esvair-se em sangue, estava o feiticeiro do Huambo. Tinha uma espécie de orelhas de burro douradas enfiadas no alto da cabeça, e vestia uma tanga de leopardo com setas cor-de laranja de onde pendiam umas fitas verdes e vermelhas. Dos seus olhos esbugalhados, vidrados, saiu uma boca enorme, com os dentes muito brancos, e a frase que me salvou. Recordo-a com emoção. Foi com ela que se encerrou a assembleia geral: "Já não temos galinhas para a cabidela, mas o porco diz-nos que a empresa sobreviverá sem as exportações". Fugiram todos. Até os credores. Até hoje.
Agora estou reformado da vida empresarial. Resolvi sair da minha zona de conforto. Jogo golfe, sou consultor para os países lusófonos e tenho um pequeno negócio de "import-export" para me manter ocupado. Em rigor, exporto leggings para Angola e aventais para o Brasil (era previsível). Na volta recebo divisas, que coloco numa dependência da CGD, nas ilhas Caimão, e vou a programas de rádio e televisão. O feiticeiro, esse, continuo a vê-lo de quando em vez. Deixou de usar tanga e sei que aproveita as horas vagas para organizar workshops com a Maya a pedido do Fisco. Meteu-se na política, conseguiu a nacionalidade e vai ser condecorado.
Agora estou reformado da vida empresarial. Resolvi sair da minha zona de conforto. Jogo golfe, sou consultor para os países lusófonos e tenho um pequeno negócio de "import-export" para me manter ocupado. Em rigor, exporto leggings para Angola e aventais para o Brasil (era previsível). Na volta recebo divisas, que coloco numa dependência da CGD, nas ilhas Caimão, e vou a programas de rádio e televisão. O feiticeiro, esse, continuo a vê-lo de quando em vez. Deixou de usar tanga e sei que aproveita as horas vagas para organizar workshops com a Maya a pedido do Fisco. Meteu-se na política, conseguiu a nacionalidade e vai ser condecorado.
Obrigado, Maria Flor
A excelente prestação de Maria Flor Pedroso serviu para melhor enquadrar o entrevistado. Não é fácil encontrar vendedores de seguros ou de tapetes com tanta prolixidade, à-vontade, e que se inebriem com tanta facilidade com o seu próprio discurso. Tê-lo como ministro é uma coisa só possível num livro de banda desenhada. Ou em Portugal, como acontece ser o caso. A entrevistadora ainda procurou chamar-lhe a atenção ("O sr. ministro está a ser hábil", ao que o ministro respondeu dizendo que não, "que estava a ser verdadeiro"), trazê-lo à razão, apontar-lhe a realidade. Mas, qual quê, o ministro trazia a cartilha decorada, a arma engatilhada e pronta a disparar sobre tudo o que fosse dito. Não havia nada a fazer. Daquilo que não lhe convém diz nada saber e manda que as perguntas sejam feitas a outros (caso Pedro Rosa Mendes). Noutras vezes atira a responsabilidade para trás das costas, apresentando os factos como irreversíveis (TDT). Ele próprio apresenta-se como um modelo de seriedade, de virtudes e de infalibilidade, de si dizendo ter a "escola da gestão na decisão" (sic). Já ouvi coisas piores, palavrões também, mas na verdade o ministro até é capaz de ter razão. Poucos terão tido tanto sucesso na forma como se chegaram à manjedoura, tiraram partido do sistema e da deméritocracia reinante para gerirem a sua carreira política, obterem um curso a meio do percurso e acederem ao farto mundo dos negócios onde se facturam milhões com um piscar de olhos, o que certamente fará dele um Nobel. Mas o melhor mesmo é ouvir na Antena 1 - a entrevista a Miguel Relvas para poderem fazer o vosso próprio juízo. Há tipos que por mais disfarçados que se apresentem nunca conseguirão esconder a sua pesporrência. Está-lhes na massa do sangue e, pelo que se ouve, aliás, fazem gáudio nisso. Qualquer microfone ou holofote servirá para fazê-la brilhar. E à sua verdadeira natureza. Diz ser amigo do líder do PS. Admito que sim, não tenho razões para duvidar, embora ficasse a pensar para comigo se seria coisa que se aprendesse nas "jotas" ou em Relações Internacionais. António José Seguro lá saberá como se consegue ser amigo de um tipo assim, sem ser por interesse, e aspirar a governar Portugal.
quarta-feira, fevereiro 01, 2012
Nomeações transparentes
Não passa um dia sem que mais um "boy" seja colocado. Que competências e qualificações tem um professor do ensino secundário, da área de engenharia, para dirigir uma Direcção Regional de Economia? Porventura terá muitas competências mas não as indicadas para o lugar. Se pensarmos que esse "boy" é um conhecido militante do PSD a nível regional, que foi presidente de uma Câmara Municipal, das mais pequenas do Algarve, que se recandidatou com o apoio do então líder regional, o deputado Mendes Bota, e levou um cartão vermelho do eleitorado, sendo até agora vereador nessa autarquia, talvez se compreenda a razão de ser da nomeação. E também a razão para que as qualificações e o currículo não tenham qualquer relevância, sendo o cartão do partido a única e decisiva certeza. Estranha-se é que tendo o senhor já tomado posse do lugar no Portal do Governo continue figurar o nome do anterior director regional, com a indicação de ter transitado do anterior governo? A quem se quererá enganar?
Sinais (60)
"A proposta de abolição dos feriados de 5 de Outubro e 1 de Dezembro constitui uma escandalosa afronta do governo aos valores nacionais. Não há coragem para abolir alguns dos muitos feriados religiosos pelo receio de afrontar a Igreja Católica. Também não há coragem para abolir o feriado municipal com receio de indispor as autarquias. Mas quando estão em causa os feriados que representam a independência nacional e o regime republicano, e que deveriam por isso ser absolutamente intocáveis, é o próprio governo que vem propor a sua abolição.
Pessoalmente assisto a isto com uma grande tristeza. Sempre senti profunda admiração pelo heroísmo dos conjurados do 1º de Dezembro que terminaram com a submissão do país a um rei estrangeiro. E não deixa de ser irónico que se termine com as comemorações da república pouco tempo depois de se ter festejado o seu centenário com pompa e circunstância. Se o governo, pela voz do seu ministro da Economia importado do Canadá, entende que não faz sentido comemorar os dias históricos nacionais, há que perguntar por que razão não entrega o país á gestão dos comissários europeus como a Alemanha propôs recentemente à Grécia. Porque com esta proposta de abolição destes feriados a mensagem que se transmite é que já não somos uma república e perdemos a nossa independência. E isso as gerações futuras nunca nos perdoarão." - Luís Menezes Leitão, no i, aqui.
Sinais (59)
"Muito embora não considere o ensino português deficiente, a taxa de abandono escolar no ensino secundário é invulgarmente alta. O motivo é claro: os pais não vêem no ensino grande benefício, numa sociedade que sentem como pouco acolhedora e onde as cunhas serão sempre determinantes.
Ao sucumbir a um 'esquema' político na nova gestão da CGD, o novo governo demonstrou, quase antes de estar constituído, que permanece profundamente arreigado a este mundo de nepotismo ou àquilo que na prática é uma forma de corrupção profundamente enraizada, e que deixa muitas dúvidas relativamente ao progresso económico. Portugal não constitui caso isolado - o caso da Itália ocorre imediatamente à nossa mente, e certamente o da Grécia - pelo que não se pode depositar grande confiança numa mudança de mentalidades" - Jan Dalhuisen, Professor Catedrático da Universidade de Berkeley (Califórnia), do King's College (Londres) e da Universidade Católica Portuguesa, no i, de ontem.
terça-feira, janeiro 31, 2012
Rolling Stone Itália
A edição italiana da Rolling Stone faz nove anos e atinge o número 100. Como forma de comemorar o evento e para os apaixonados da música italiana, traz uma lista dos 100 discos mais belos dos últimos 50 anos que ainda vai dar que falar. Ela pode ser vista aqui.
Lapsos a mais
Não é por nada, mas a data dos despachos e a da respectiva publicação - 27 de Janeiro - faz-me pensar que há lapsos a mais. Independentemente das razões para as nomeações, que aqui não coloco em causa, se os subsídios não são para serem pagos, pelo menos enquanto durar o programa da troika, por que razão os despachos, que podem ser consultados via internet no original do Diário da República e sem as desagradáveis marcações a vermelho, não tem mais um número a dizer isso mesmo? Se isso fosse feito dissipavam-se muitas dúvidas e eu deixava de receber este tipo de "correspondência" que depois circula por aí e só serve para indispor quem já estava nos serviços e foi brindado com os cortes.
Gabinete da Ministra
Despacho n.º 1210/2012
1 — Nos termos do disposto no n.º 3 do artigo 2.º do Decreto -Lei n.º 262/88, de 23 de julho, nomeio o licenciado Ricardo José Galo Negrão dos Santos, para realizar estudos, trabalhos e prestar conselho técnico ao meu Gabinete no âmbito da área da informática e das novas tecnologias, pelo período de um ano, renovável automática e tacitamente por iguais períodos, podendo a presente nomeação ser revogada a todo o tempo.
2 — Ao nomeado é atribuída a remuneração mensal correspondente a € 3892,82, acrescida dos subsídios de férias e de Natal de igual montante, subsídio de refeição, bem como das despesas de representação fixadas para os adjuntos dos gabinetes dos membros do Governo.
O presente despacho produz efeitos a 1 de janeiro de 2012.
19 de janeiro de 2012. — A Ministra da Justiça,
Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz. 205646465 segunda-feira, janeiro 30, 2012
Justo destaque
Embora nunca tivesse sido meu professor, lembro-me dele no meu primeiro ano de Direito, pois tive oportunidade de ouvi-lo uma ou outra vez. Mais tarde, a propósito de uma investigação que fiz no âmbito de um mestrado, comecei a acompanhar mais de perto a sua produção científica e, também, a "jornalística". Naturalmente que a forma frontal e cristalina e a justeza de muitas das suas teses, nem sempre consensual, aliada à dimensão enciclopédica dos seus conhecimentos e à sua formação humanista e cívica, granjearam-lhe as merecidas reputação e notoriedade pública. A publicação do Abecedário Simbiótico é mais um passo nesse caminho há tanto trilhado de afirmação do homem e do intelectual. Não é um livro que se leia como um romance. É mais do tipo para se ir lendo e reflectindo, sem pressas, devagar, pelo caminhar dos dias. Afinal a única forma de se ir percebendo e apreciando a beleza das coisas.
Sinais (58)
" A austeridade que nos estamos a autoinfligir tem dois únicos méritos: a desalavancagem de uma economia demasiado habituada a viver a crédito e a redução da despesa do Estado, que atingiu proporções absurdas na última década. Mas a velocidade a que estamos a tentar atingir esses objetivos está a provocar efeitos colaterais demasiado graves. E, paradoxalmente, vai acabar por pôr em causa a consolidação orçamental. A receita fiscal está condenada a ficar abaixo do previsto pelo Governo". - Ricardo Costa, Expresso, 28/01/2012.
Sinais (57)
"Sim, é verdade. Tive de me vergar ao Governo da República" - Alberto João Jardim, presidente do Governo Regional da Madeira, em resposta a um jornalista.
A ler
Muitos já escreveram sobre a autárquica aldrabice. Eu também me incluo nesse número e foi com muita atenção que li o texto de Pedro Marques Lopes. Refiro-me ao artigo do Diário de Notícias que aquele comentador, assumidamente do PSD e que publicamente confessou apoiar e ter votado nesse partido, hoje fez publicar. Reafirma-se a aldrabice da reforma para "inglês ver". Pedro Marques Lopes desmascara-a com a incisividade e a honestidade habituais. A direita não são aqueles senhores que transitoriamente ocupam a cadeira do poder. Na direita também há gente séria, gente que pensa e que não vai atrás de cantigas.
sábado, janeiro 28, 2012
Sinais (56)
"Uma outra ‘poll' da Reuters junto de 20 economistas mostra que a economia portuguesa deverá registar uma quebra de 3,2% este ano - pior do que a contracção de 3,1% prevista pelo Banco de Portugal e do que a quebra de 3% antecipada pelo Governo e pela troika - e estagnar em 2013. Na última sondagem realizada em Novembro, os economistas esperavam, em média, uma contracção de 0,9% do PIB no próximo ano." - Diário Económico
sexta-feira, janeiro 27, 2012
Manuel Carvalho da Silva
Durante mais de duas décadas foi o rosto da contestação sindical permanente. Percorreu o país de norte a sul, sozinho, com os seus, às vezes também com os outros. Foi para muitos, durante todo o tempo em que liderou a CGTP, o rosto da desgraça, o mentor da revolta. Irritou muita gente. Outros estar-lhe-ão agradecidos. No intervalo das lutas sindicais aproveitou para crescer como homem. Estudou, doutorou-se. Enquanto liderou falou com todos, com os mais fortes, com os mais fracos, com os mais ricos, com os mais pobres, e também com os outros, com os que vivem abaixo da linha de água. Nunca tive por ele outra admiração que não fosse a de reconhecer nele um lutador, muitas vezes mesmo pensando que ele estava fora do seu tempo. Ainda hoje creio que assim será em muita coisa. Mas não posso deixar de registar aqui o percurso político e humano de Manuel Carvalho da Silva. Outros enriqueceram no sindicalismo e à custa das lutas sindicais. Ele sai como entrou. Com as convicções de sempre, de mãos e peito aberto, sem medo. Como sempre esteve. Só isso já seria suficiente para merecer duas linhas. Mas numa terra de gente medrosa e onde muitos continuam a ter receio de expor as suas convicções com medo que lhes falte o pão ou que sofram represálias de quem tem a faca e o queijo na mão, é duplamente reconfortante saber que ainda há homens desta têmpera, com carácter. Ainda que quase sempre ele tenha estado num azimute muito diferente do meu. Convém não confundir as coisas. É isso, e só isso, que quero sublinhar aqui.
Sinais (55)
"PSD e CDS-PP dividem poder na Direcção Regional de Agricultura - Partidos do Governo acedem a lugares-chave à frente das principais instituições da região" - Postal, Semanário Regional, 27/01/2012
Ó Relvas! Então este não era dos vossos?
"Não esperava ter razão tão depressa. Melhor: não esperava que o diagnóstico realizado pelo grupo de trabalho para o serviço público de comunicação social se revelasse tão certeiro tão depressa: é que foi há apenas dois meses que dissemos temer o "modelo de informação que o Governo aparenta defender, por considerarmos que permitirá perpetuar a influência, quando não a interferência, do poder político" na televisão e na rádio públicas. Ora, aí está: por mais justificações pífias que se procurem, não restam muitas dúvidas sobre a relação directa entre um lamentável programa emitido pela RTP a partir de Angola e o fim das crónicas de Pedro Rosa Mendes nas manhãs da Antena 1.
A primeira vergonha começou com a emissão, a partir de Luanda, de um Prós e Contras rebaptizado como Reencontro. Quando conheci o objectivo da produção luandense coreografada por Fátima Campos Ferreira temi o pior - quando assisti à emissão, o pior foi ainda pior. Não fiquei apenas pessoalmente incomodado, senti que a democracia portuguesa saía dali enxovalhada.
Pedro Rosa Mendes, um profundo conhecedor de Angola, foi magistral na sua crítica àquela vergonha. (...)
Por isso não duvido de que Pedro Rosa Mendes não falta à verdade quando revela que lhe foi dito que 'a administração da casa não tinha gostado da última crónica sobre a RTP e Angola'. (...)
Tenho por hábito ser frontal e inconveniente, pelo que não posso fingir que não vejo. E quem, na RTP, deu a cara pelo fim da série de crónicas Este Tempo, que incluía a contribuição de Pedro Rosa Mendes, não foi a administração, pois esta sacudiu rapidamente a água do capote."
"(...) Isso é tanto mais verdade quanto os tempos são de crise e, no país, como disse Rosa Mendes, se instalou "uma noção puramente alimentar da dignidade individual". Ora se isso se traduz em "está caladinho para guardares o trabalhinho", se no país os governos já têm poder a mais, então que não tenham também tanto poder numa área tão sensível como a rádio e a televisão. (...)"
"(...) Portugal, infelizmente, não se tem dado ao respeito na sua relação com Angola e com as autoridades de Luanda. O preço que pagamos são humilhações constantes e endoutrinações sobre as virtudes de caminhar de espinha vergada".
Vale a pena ler os dois textos de José Manuel Fernandes, no Público, de hoje, intitulados, respectivamente, "RTP, episódios de uma eterna servidão" e "Não ganhamos nada com a vassalagem a Angola" . Seis meses bastaram, seis delirantes meses com Miguel Relvas a baralhar e a dar jogo. Foi o suficiente para se acabar o stock de Haze e a pocilga começar a feder. Quem não os conheça que os compre. E falavam eles dos outros...
quarta-feira, janeiro 25, 2012
Sete décadas gloriosas
Podia ter sido maior do que o mundo. Podia ter sido presidente da República, rei, princípe, administrador de empresas, maçon, banqueiro, político, sei lá, o que ele quisesse. Mas não foi nada disso. Foi apenas tudo e mais alguma coisa. Para além das botas de ouro, das taças dos campeões europeus, dos campeonatos e das taças de Portugal, foi um excelente professor de geografia e homem como poucos: nas lições de vida, no exemplo, no profissionalismo, na sinceridade, na humildade, nos grandes e nos pequenos momentos da vida. Dele será pouco provável que o ouçamos queixar-se de alguma coisa, menos ainda do valor da sua reforma. Por isso é que setenta anos depois temos todos o dever e também a sorte de podermos festejar os seus setenta anos. O seu nome marcou uma era. Em Portugal há um futebol a.E. e um d.E. Há um antes de Eusébio e um depois de Eusébio. Depois dele nada ficou igual. Por isso podia ter sido tudo. Não quis. Preferiu continuar a ser apenas o Eusébio. E isso, no caso dele, é tudo. O suficiente para fazer dele um imortal. Parabéns, patrício. Que Deus e a Luz te continuem a iluminar.
terça-feira, janeiro 24, 2012
Sem emenda
Já perdi a conta ao número de vezes que o PR teve de vir esclarecer o que tinha dito antes. Uma vez mais escusava ter-se dado ao trabalho. Para dizer o que disse não valia a pena. Porque todos percebemos muito bem o sentido das suas pausadas e ponderadas palavras. Admito que o PR não queira ficar à margem dos sacrifícios exigidos a todos os portugueses. Ninguém quer ficar mal visto aos olhos dos seus concidadãos. Ele não é diferente destes. Mas o ideal seria que quem tem de fazê-lo o fizesse de modo a que não fosse necessário mexer nas suas próprias pensões. Foi o que eu percebi do esclarecimento. Não é por nada, mas creio que isso já tinha ficado bem claro. Isso e mais algumas coisas que não foi preciso esclarecer.
segunda-feira, janeiro 23, 2012
Sinais (54)
"O rigor de sempre deu lugar a uma frase demagógica que podia ter sido dita por qualquer membro do governo de Sócrates. Há cerca de um ano, mais precisamente no dia 12 de Janeiro de 2011, o governo português acordou a tremer com uma notícia do "Financial Times Deutschland" que garantia que Bruxelas tinha preparado um pacote de resgate para Portugal. Mas, nessa mesma manhã, Portugal conseguiu emitir 1200 milhões de euros de dívida pública e o gabinete de Sócrates garantiu que aquela emissão era um momento de viragem. Viu-se..."
"Espero, e acredito, que numa segunda fase promovam crescimento, igualdade de oportunidades, e justiça. Mas até lá, por favor, não falem em sinais que não existem." - Ricardo Costa, Expresso, 21/01/2012
domingo, janeiro 22, 2012
Orquídea de aço
Gosto de cinema. Gosto de uma história bem contada. O filme de Luc Besson é uma história sem pretensões mas que nos vem recordar a luta dessa flor de aço que é Aung San Suu Kyi e o drama que foram os últimos anos da sua vida, dilacerada entre o amor ao seu povo e a fidelidade ao marido. Michael Aris acabaria por falecer vitimado por um cancro, longe da mulher que sempre amou e que ele ajudou a conquistar o Nobel. Vi "The Lady" numa sala em que eramos apenas dois, longe do barulho e do cheiro das pipocas. O filme de Besson e a excelente interpretação da malaia Michelle Yeoh são um grito contra o esquecimento, um alerta para que não nos esqueçamos do drama daquele povo. Visionar "The Lady" é uma forma de censurarmos os crimes dos militares birmaneses e uma justa homenagem ao estoicismo e à beleza da incansável lutadora.
Uma desgraça nunca vem só
Há momentos em que valeria a pena ser cego, surdo e mudo. Na segurança da sua casa um cidadão pode imaginar o que seria esse luxo mantendo todas as suas capacidades. Um Presidente da República não.
Na sexta-feira passada, o País foi abalado por uma declaração de Aníbal Cavaco Silva. Não foi o cidadão quem falou, foi o Presidente da República. O PR aproveitou um encontro com jornalistas, no meio de uma das muitas visitas que faz, para se queixar do valor da sua reforma. É natural que quem não está satisfeito se queixe, que proteste, que vá para as ruas de megafone. E tire partido daqueles que lhe põem à frente. Já não é normal que um Presidente da República em exercício o faça como se fosse um cidadão qualquer, um contestatário anónimo.
Mas, afinal, o que disse o PR? Queixou-se, qual Calimero, do valor da “sua reforma”. A “sua reforma” que, afinal, são três: uma da Caixa Nacional de Pensões, outra do Banco de Portugal e, ainda, uma subvenção vitalícia pelo tempo em que exerceu cargos políticos. Quem em casa o ouviu ficou a pensar que o PR não recebe o salário inerente à função que desempenha, mas apenas uma reforma da Caixa Nacional de Pensões de € 1300,00 (mil e trezentos euros). Só que a dado passo, certamente traído pelo número de microfones, Aníbal Cavaco Silva disse que “tudo somado, o que irei receber do fundo de pensões do Banco de Portugal e da CGA quase de certeza que não dá para pagar as minhas despesas”.
Eu não sei quais serão as despesas do Presidente da República. Também não sei quais serão as despesas do reformado Aníbal Cavaco Silva. Mas todos os portugueses sabem que, fiando-se no que diz, não será homem de vícios. Não bebe, não fuma, não se droga, não consta que frequente lupanares. E qualquer cidadão perceberá facilmente que, enquanto PR, o cidadão Aníbal não paga renda de casa, água, luz, gás, a maior parte das refeições, gasolina, estacionamento ou empregada doméstica. E no dia em que o cidadão Aníbal deixar de ser PR passará a auferir de uma pensão que, “tudo somado”, andará, não pelos € 1.300 que ele insinuou, mas pelos € 9.000,00 (nove mil euros).
Custa perceber o que pode levar o PR, o cidadão Aníbal Cavaco Silva – o mesmo que trepava coqueiros em São Tomé como se fosse um símio, que ajudou a promover gente como Oliveira e Costa, Duarte Lima ou Dias Loureiro, e que mantém como assessor um fulano que depois de andar metido num obsceno caso envolvendo um jornalista do Público acabou há dias a explicar num jornal brasileiro que a sua concepção da democracia, em matéria de liberdade de imprensa, não será muito diferente da de um general birmanês –, a fazer afirmações do jaez da que produziu.
Também não sei se o PR tem a exacta noção do que disse. Sei, todavia, que omitiu aos portugueses uma parte substancial dos seus rendimentos. Induziu-os em erro. Porque quem fala como ele falou sabia do que estava a falar. E se formos a analisar os casos em que este PR andou metido, verificaremos que, para além dos episódios relativamente recentes das escutas e da protecção ao seu assessor Fernando Lima, omitiu aos portugueses, numa outra declaração pública, os seus ganhos em Bolsa por via do BPN e das ligações a Oliveira e Costa ou os dados relevantes sobre a forma como adquiriu uma casa na Urbanização da Coelha. Bastará recordar a forma como fez de conta, enquanto pôde, dos problemas em que Dias Loureiro estava envolvido, disfarçando ser este um homem da sua máxima confiança, para acabar desvirtuando o sentido da sua vitória eleitoral com um discurso que destilou acinte. Era pouco. Por isso, esta semana veio queixar-se dos trocos que tem no bolso. Ou melhor, da sua falta.
Já todos tínhamos desconfiado da sua posição quanto ao corte dos subsídios imposto por um governo da sua cor e confiança. E foi patente a sua falta de nível quando referiu, em plena campanha eleitoral, o valor da reforma da sua mulher. Como se esta fosse uma desgraçadinha enjeitada acolhida por ele. Agora, Cavaco Silva, o PR, desceu a um nível nunca visto. Fê-lo sem decoro. Pior, sem a noção do ridículo.
Não se espera de um PR que faça discursos miserabilistas. Que assuma o papel do desgraçadinho ou que omita deliberadamente factos públicos e notórios relacionados com a sua pessoa só para se proteger. Menos ainda que assuma o papel de um merceeiro avarento para se queixar do valor das reformas que recebe.
Para quem descontou durante os mesmos trinta ou quarenta anos que o PR e recebe uma pensão de 500, 600 ou 1000 euros por mês, será fácil perceber que com valores dessa ordem de grandeza seja difícil pagar as todas as despesas do mês. Para qualquer cidadão será muito mais complicado compreender como é possível receber cerca de € 9.000,00 por mês, não gastar um cêntimo com o exercício ou por causa das suas funções, e no final encontrar justificação para ainda assim se queixar.
O cidadão Aníbal Cavaco Silva não merece ser Presidente da República. Não tem atitudes dignas da função que desempenha. É o meu juízo objectivo. O cidadão em causa, pela forma como exerce as suas competências, pelas declarações miserabilistas que profere, revela não ter, nunca ter tido, estatura para desempenhar o cargo. A vitimização não faz parte da nossa herança histórica. Quem diz o que o PR disse esta semana, da forma como o disse, sem gaguejar, desvirtuando os factos para ganhar a compaixão dos seus concidadãos, ofendendo de forma gratuita e insultuosa a maioria dos portugueses que nem em sonhos terão uma reforma como a dele, demonstra não ser digno da História de Portugal. Os cidadãos que diariamente fazem fila na Segurança Social e no Centro de Emprego de Faro para tentarem obter os meios que lhes permitam pagar a água, a luz ou a escola dos filhos, não percebem o que disse o cidadão Aníbal Cavaco Silva. Nunca perceberão. Ninguém no seu perfeito juízo, à direita ou à esquerda, lavrador ou administrador de empresa, alcança as declarações do PR.
Limito-me a confirmar o que sempre pensei dele. Do cidadão e do político. O que foi dito não constituiu um lapso. É um traço do seu carácter. O seu discurso, mesmo que não pudesse ser visto à luz do seu passado político, é mais do que um simples complexo. Ou uma confissão. É a prova do fracasso da educação na formação do carácter. Os conhecimentos, a mobilidade e a ascensão social que a formação académica lhe proporcionou, foram incapazes de lhe moldar ou alterar o carácter. O seu discurso denota a existência de falhas graves na formação da sua personalidade, com reflexo cada vez mais evidente no desempenho das suas funções políticas. No discurso de Estado. É triste, pois é. Mas como escreveu o insuspeito António Ribeiro Ferreira, “as crises servem para muitas coisas, até para descobrir as pessoas, o seu carácter e a forma como estão na vida. A natureza humana revela-se sempre nestas alturas, no pior e no melhor”. Lamentavelmente, esta crise tem revelado, além de um Presidente da República incapaz de corresponder às exigências do momento, o pior do cidadão Aníbal Cavaco Silva.
Sinto-me envergonhado. Estou triste. E revoltado. Ser um mau Presidente da República é um azar. Pode acontecer a qualquer um que exerça as funções. Na pior das hipóteses dura dois mandatos. É um custo da democracia para o qual todos estão preparados. Já um cidadão com uma personalidade mal formada é para sempre. É um vírus que afecta toda a nação. Um cidadão perdido. Uma alma penada. Nunca se está preparado para uma tragédia.
sexta-feira, janeiro 20, 2012
Já me falta a paciência
Mas este tipo não se enxerga? Olhe, Senhor Presidente, aperte o cinto, mude de hábitos. É o que nós também fazemos. Em vez de ir ao Sueste comer um robalinho, agarre na sua madame e nos netos e vá ao McDonald's comer uns douradinhos. Talvez assim a reforma já lhe chegue. Enxergue-se, homem, tenha vergonha.
Este também foi indicado pelos accionistas?
Não está em causa o mérito do nomeado, de quem aliás sou admirador da escrita e da superior valia cultural e intelectual. Mas politicamente, depois de tudo o que tem acontecido nos últimos dias, será sensato continuar a nomear desta forma? Não há ninguém competente fora da área do Governo? Nem um para a amostra? Só os fundamentalistas ligados ao PSD têm currículo para aceder à manjedoura? A lista de favores nunca mais acaba de ser paga? Lucidez já se viu que é coisa inexistente, mas vergonha também não há? Como é possível pôr o País a tresandar em tão pouco tempo?
Sinais (53)
"Em Portugal, está visto, não basta privatizar uma empresa para que as mãos do governo se afastem do destino dos negócios, e suspeito que de tal não estava a troika à espera. É por isso que temos de fazer muito mais, se quisermos realmente um Portugal diferente deste Portugal paroquial e nepotista que é, de certa forma, o Portugal de sempre" - José Manuel Fernandes, Público, 20/01/2012
Sinais (52)
"Ministro vê "sinais" e "viragem", mas risco de incumprimento está nos 66%"
"Gaspar vê pontos de viragem onde os mercados vêem default"
"As taxas de juro no mercado secundário voltaram a bater recordes"
Público, 20/01/2012
"Gaspar vê pontos de viragem onde os mercados vêem default"
"As taxas de juro no mercado secundário voltaram a bater recordes"
Público, 20/01/2012
A LER
"(...) no fundo ninguém parece levar a sério, sabendo que da 'promoção do empreendedorismo' à 'redução dos custos de contexto' ou a outra qualquer política fantasista e misericordiosa nada passará de conversa para iniciados." - Vasco Pulido Valente, Público
O ANO DO DRAGÃO
Começará à meia-noite de 23 de Janeiro para só terminar no dia 9 de Fevereiro de 2013. Trata-se do quinto signo do zodíaco chinês e significa sorte. E este será um ano do dragão vermelho, o que poderá ser ainda mais auspicioso. É então altura de desejar a todos os leitores e aos meus amigos os melhores votos, e que os deuses lhes tragam tudo aquilo que a troika e Passos Coelho lhes tem tirado. Em especial a esperança num Portugal melhor, numa sociedade que não se envegonhe dos seus cidadãos.
新年愉快! 恭喜發財! 身體健康! 萬事如意!
Kung Hei Fai Choi! Gong Xi Fa Cai!
Regabofe em sessões contínuas
Enquanto o DN continua à espera que sejam reveladas 192 nomeações que não foram publicitadas, melhor seria dizer que foram omitidas, no portal do Governo, nós deparamo-nos com estas pérolas. Neste caso nem valerá a pena tapar o nome. Porque está tudo no Diário da República. A nomeada não tem culpa, mas não deixa de ser estranha a atribuição de dois abonos suplementares em Junho e Novembro. Uns ficam sem os subsídios, outros ganham abonos suplementares. E, curiosamente, o despacho foi agora publicado com efeitos a 28 de Junho do ano passado. Um aldrabão pode ter várias identidades, apresentar um discurso simpático e até merecer o benefício da dúvida. Mas só os tontos se deixam enganar por um par de "jotinhas" alaranjados.
P.S. Como não passou, corrigiram.
P.S. Como não passou, corrigiram.
quinta-feira, janeiro 19, 2012
É por estas e outras ...
Diferenças ideológicas à parte, quase tudo o que Pacheco Pereira diz com a sua habitual frontalidade e eloquência correspondem à verdade. É incómodo? É. Tinha de ser dito? Tinha. Eu próprio já o referi várias vezes, quer aqui, quer no Delito de Opinião, no tempo em que por ali escrevia. Agora Pacheco Pereira vai um pouco mais longe e dá os nomes às coisas. Ainda bem que ele o faz. Não há crise que justifique o adormecimento das consciências, o apagamento da oposição ou que obrigue a tudo engolir como se fossemos, na expressiva linguagem da Clara Ferreira Alves, uns servos da gleba. Se neste país tivéssemos mais meia dúzia, já nem peço mais, de pessoas como ele, à esquerda e à direita, seguramente que não estaríamos no atoleiro em que estamos e entregues a parlapatões. Mas como a frontalidade e a honestidade em política pagam um preço muito elevado, contentemo-nos com a mobília que temos, com os tarecos que nos calharam em sorte.
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