Roma e Pavia não se fizeram num dia. E uma exposição como esta não foi coisa fácil de conseguir. Pelo valor das obras que se conseguiu reunir, pela quantidade de entidades que foi preciso convencer a autorizar a saída dos quadros das suas bases, pela segurança exigida e pelo valor astronómico dos seguros. Convenhamos que juntar na Scuderie del Quirinale a maior exibição jamais vista de obras de um senhor chamado Jacopo Robusti, que passou à história como Tintoretto, não está ao alcance de muita gente. Vittorio Sgarbii foi o responsável por esta explosão de génio e de cor, assente em três temas fulcrais da obra de Tintoretto: a religião, a mitologia e o retrato. Com obras que vieram de museus de Viena, de Londres, de Milão, de Paris, de Munique, de Veneza ou de Modena, e onde é possível ver os dois mais famosos auto-retratos do pintor, a abrir e a fechar a mostra, para além de obras como Apollo e Dafne, Deucalione e Pirra, O Milagre dos Escravos, S. Jorge e o Dragão, Jesus entre os Doutores, A Última Ceia, A Criação dos Animais, a esplêndida Susanna entre os Velhos, Santa Maria do Egipto e Santa Maria Madalena, a exposição tem ainda o atractivo de juntar a Tintoretto - a verdadeira cereja no topo do bolo - artistas com quem aquele mestre interagiu. Quem? Apenas gente como Tiziano, Bonifacio Veronese, Giovanni Demio, Lambert Sustris, Parmigianino, El Greco, Schiavone e Paolo Veronese. Às quartas-feiras, até 4 de Abril e aproveitando a exposição, que só terminará em 10 de Junho, decorrem também os "Encontros" (I Mercoledí di Tintoretto - Incontri) sobre a sua obra (com entrada livre na Sala Cinema do Palazzo delle Esposizioni, na Via Milano, 9), às 18.30. Na semana passada esteve lá Giovanni Carlo Federico Villa, hoje estará Antonio Paolucci. Garanto-vos que não darão o vosso tempo por mal empregue.
quarta-feira, março 14, 2012
terça-feira, março 13, 2012
Dias de sol (1)
Há cidades de onde nunca chegamos a sair. Por tudo aquilo que elas nos dizem e transmitem. E porque sabemos que por nunca termos saído haveremos sempre de voltar. Roma é um daqueles lugares mágicos de onde nunca se sai mesmo quando não se está. A ela voltarei sempre enquanto tiver vida, saúde e meios que mo permitam. E desta vez não foi diferente. Regressar nesta altura do ano a Itália tem algo de ainda mais fascinante porque há muitos acontecimentos que assinalam o fim do Inverno e marcam os dias mais longos e solarengos que anunciam as estações seguintes. Na Piazza de Campidoglio, nas traseiras do monumento a Vittorio Emanuele II, entre o Foro Romano e a Piazza Venezia, ficam os Museus Capitolini e o Palácio dos Conservadores. Independentemente do interesse que os museus sempre têm, nem que seja só para rever a fabulosa estátua de Marco Aurélio, cuja réplica do original que está no interior está agora na Praça exposta aos elementos da natureza, tive desta vez a sorte de visitar uma exposição que vivamente aconselho a quem possa fazê-lo. Chama-se "Lux Arcana - L'Archivio Segreto Vaticano Si Revela". Consiste numa mostra de cerca de 100 documentos do vastíssimo Arquivo Secreto do Vaticano. A exposição assinala os 400 anos da fundação do Arquivo e entre outras relíquias absolutamente fabulosas, como os documentos dos processos contra Galileu e Giordano Bruno, a carta dos membros do parlamento inglês ao papa Clemente VII, a propósito das questões matrimoniais de Henrique VIII, as cartas de Maria Antonieta enquanto aguardava a sua hora e da imperatriz chinesa convertida ao Catolicismo e que tomou o nome cristão de Helena, a carta de Miguel Ângelo a monsenhor Cristoforo Spiritti, bispo de Cesena e futuro patriarca de Jerusalém, a bula de deposição de Frederico II ou a carta de Abraham Lincoln, é possível vermos, imaginem, a bula "Inter Cetera", de 4 de Maio de 1493, pela qual o papa Alexandre VI, Domingo Borja, reconhece a linha de Tordesilhas e os limites dos impérios marítimos de Portugal e de Espanha. A exposição está patente ao público até 9 de Setembro e o bilhete custa € 12,00. Uma ninharia mesmo nos dias de crise e insânia que atravessamos, mais ainda se pensarmos que nas próximas décadas, ou gerações, os vossos olhos e os dos vossos filhos muito provavelmente não terão outra oportunidade de voltar a ver aquilo que ali está patente. Já agora, se puderem, tragam-me o catálogo (€ 15,00), que eu, tão inebriado estava com o que tinha visto, esqueci-me completamente de comprar antes de sair.
quinta-feira, março 08, 2012
quarta-feira, março 07, 2012
Regresso à normalidade
17ª vez entre os 8 melhores da Europa. Sem favor. Como alguém dizia no final, o Benfica já não estava habituado a árbitros que deixassem jogar a equipa, a árbitros que não se deixam condicionar e contaminar pelo ambiente putrefacto do futebol nacional. O Benfica não precisou que o árbitro o favorecesse. Bastou-lhe que Howard Webb não o prejudicasse.
terça-feira, março 06, 2012
sexta-feira, março 02, 2012
Quatro notas soltas
1 - Rui Rio deu na quarta-feira passada uma excelente entrevista a Gomes Ferreira na SIC-Notícias. Não foi a primeira vez que foi entrevistado e marcou a diferença. Não vivo no Porto e não sei se ele foi um bom presidente da Câmara. Mas há factos que são incontornáveis e que vão muito para além do exercício da função. São os que têm a ver com a sua própria postura. Não sendo militante nem simpatizante do PSD e não me movendo por interesses oportunistas ou carreirismo serôdio, penso ser insuspeito para dizer o que digo dele. Pode-se não gostar do estilo, mas eu também não gostava do estilo de Sócrates, como não gosto do estilo Miguel Relvas, nem do estilo Cavaco Silva, mas Rio não é comparável com nenhum destes. Rui Rio é a antítese dos políticos que temos tido. É sereno, tem ideias consistentes e claras, tem formação cultural e académica, tem percurso profissional e político, é pragmático. E, além do mais, tem desapego ao cargo e à política e, embora discreto, carisma. Não concordo com muitas das suas ideias, mas a forma como ele é capaz de expô-las e defendê-las marca a diferença. Num sistema de políticos anódinos, sem qualificações ou mérito profissional relevante, inconsistentes, cujo carácter é feito de plasticina e esperteza saloia, será difícil resistir a um político como Rio. Por não depender da política tem liberdade e autoridade para falar como fala. E não deixa de ser curioso que sejam os líderes das duas maiores autarquias do País aqueles que ainda conseguem dar alguma confiança aos portugueses. Tudo o que estes dois têm - Rui Rio e António Costa - não têm os outros. Oxalá não se fartem da política e os portugueses ainda possam contar com eles durante muitos e longos anos.
2 - A "reforma" autárquica do ministro Relvas continua a dar que falar. Como se viu pelo editorial do Público desta manhã, já aqui abaixo transcrito, o homem não tem emenda e pensa que todos os outros são parvos. É um caso perdido de incompetência política e pesporrência. E o entendimento de PSD e PS relativamente à interpretação da limitação de mandatos, com a peregrina tese de que o impedimento se aplica ao território e não à função, vai permitir a troca de cadeiras e de lugares entre os profissionais da política. Como já anteriormente escrevi, trata-se da cartelização do sistema político e do pior da partidocracia em todo o seu esplendor. O conluio e a interacção entre os principais partidos é por demais evidente. Para mal do sistema político, degradação do regime e continuação da acelerada perda de qualidade da democracia. E o argumento usado pelos partidos para subscreverem essa entorse aos princípios não colhe porque não será a primeira vez que um presidente de câmara salta de uma autarquia para outra levando consigo o seu pessoal político, toda a sua equipa de autarcas e de assessores, bem como todas as empresas que antes gravitavam na autarquia de onde saíram e que, graças a este expediente do ministro Relvas acolhido pelo PS "renovado" de António José Seguro, poderão continuar a fazer negócios na autarquia para onde se mudar o seu "homem". Não pode haver renovação enquanto os actores políticos de sempre se forem revezando nos cargos e nos órgãos, saltitando de uns para outros com a benesse dos partidos políticos. O que irá acontecer nas autarquias será exactamente o mesmo que já acontece hoje dentro dos partidos. Quando esgotam o prazo de validade num órgão mudam para outro, isto é, mudam para o poleiro do lado. Tudo com a maior transparência e na paz do Senhor. O povo e a democracia que se lixem.
3 - O Presidente da República fez hoje uma declaração, mais uma, de tarar. Foi no Congresso dos Magistrados do Ministério Público. De acordo com a Lusa, Cavaco Silva chamou a atenção do poder político "para a necessidade de reforçar o prestígio dos magistrados através de uma "cuidada reafirmação do seu estatuto de independência e autonomia". Uma vez mais o Presidente da República esqueceu-se de que não será essa a via pela qual se reforçará o prestígio dos magistrados. o que o Estado, através do poder político, tem de fazer é de melhorar as condições de funcionamento dos tribunais e simplificar a teia legislativa, eliminando as armadilhas, os "esquemas" e toda a série de artimanhas que têm impedindo que a justiça se faça a tempo e horas. Fazendo uma reforma ao estilo da que foi feita para os Tribunais Administrativos, do ponto de vista processual. Porque quanto ao mais, quanto ao prestígio dos magistrados, este só poderá ser reforçado por via do exercício das suas próprias funções, por via da legitimação das suas decisões junto da opinião pública através da produção de promoções, despachos e sentenças claras, fundamentadas e o mais justas possível. Mas para isso é necessário ter gente de carácter, gente que assuma o risco das suas decisões, gente de espírito livre, gente que não se deixe condicionar pelo poder político ou económico e que não passe a vida a fazer queixinhas. Gente que seja capaz de se distinguir pelo trabalho, pelo brio e pelo mérito com que o desempenha, gente que não tenha a mentalidade do funcionário e que se predisponha a despachar apenas para fazer circular o processo ou se livrar dele porque é incómodo. E se acima dos magistrados os Conselhos funcionarem, e forem capazes de exercer as suas competências, com toda a liberdade e plenitude, então teremos tudo para que eles se prestigiem e sejam olhados de uma forma diferente daquela com que os cidadãos cada vez mais os olham, isto é, com desconfiança. Compreendo que estas coisas sejam difíceis de compreender para um Presidente da República que tem dificuldade em assumir-se como tal e que renunciou ao vencimento da função que exerce, embora não tenha também renunciado às ajudas de custo respectivas, para receber umas reformas que lhe davam mais ao final do mês. É que as ajudas de custo da função presidencial são atribuídas também em função do vencimento que o Presidente aufere pelo exercício dessa função e não para que sejam acumuladas com as reformas por que optou. Quem assim actua e por essa forma desprestigia o exercício da função não tem qualquer autoridade moral ou ética para depois vir pedir o que pediu.
4 - Tive ontem o privilégio de voltar a ouvir António Vitorino falar sobre a Europa com a categoria a que me habituou, como ele próprio simpaticamente recordou, desde "os bancos da faculdade". A iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Faro e o seu actual presidente, engº. Macário Correia, tem tanto de meritória quanto de propaganda, aliás na linha de uma campanha de renovação de imagem que em tempo de crise custou mais uns milhares ao erário público e aproveitou para acabar com as cegonhas no logotipo da cidade. Mas o que aqui importa sublinhar é a importância da iniciativa. Aquilo que a Câmara Municipal de Faro está a fazer devia ser a regra e não a excepção. E devia ser levado a cabo pelos próprios partidos políticos. Porque é fundamental dar novos instrumentos de participação aos cidadãos, porque é fundamental ter cidadãos esclarecidos e interessados, porque é fundamental criar oportunidades de participação e pôr as pessoas a pensar e a discutir os problemas em voz alta. E sem uma abertura do espaço público à cidadania tudo permanecerá como até aqui. Não há que ter medo, há que ousar, atirar as palas do partido para trás das costas e tomar a iniciativa. Seria bom que idênticas iniciativas tivessem tido lugar no passado, mas quanto a este ponto o actual presidente não tem culpa do que os outros que o antecederam não se lembraram, não fizeram ou não quiseram fazer.
3 - O Presidente da República fez hoje uma declaração, mais uma, de tarar. Foi no Congresso dos Magistrados do Ministério Público. De acordo com a Lusa, Cavaco Silva chamou a atenção do poder político "para a necessidade de reforçar o prestígio dos magistrados através de uma "cuidada reafirmação do seu estatuto de independência e autonomia". Uma vez mais o Presidente da República esqueceu-se de que não será essa a via pela qual se reforçará o prestígio dos magistrados. o que o Estado, através do poder político, tem de fazer é de melhorar as condições de funcionamento dos tribunais e simplificar a teia legislativa, eliminando as armadilhas, os "esquemas" e toda a série de artimanhas que têm impedindo que a justiça se faça a tempo e horas. Fazendo uma reforma ao estilo da que foi feita para os Tribunais Administrativos, do ponto de vista processual. Porque quanto ao mais, quanto ao prestígio dos magistrados, este só poderá ser reforçado por via do exercício das suas próprias funções, por via da legitimação das suas decisões junto da opinião pública através da produção de promoções, despachos e sentenças claras, fundamentadas e o mais justas possível. Mas para isso é necessário ter gente de carácter, gente que assuma o risco das suas decisões, gente de espírito livre, gente que não se deixe condicionar pelo poder político ou económico e que não passe a vida a fazer queixinhas. Gente que seja capaz de se distinguir pelo trabalho, pelo brio e pelo mérito com que o desempenha, gente que não tenha a mentalidade do funcionário e que se predisponha a despachar apenas para fazer circular o processo ou se livrar dele porque é incómodo. E se acima dos magistrados os Conselhos funcionarem, e forem capazes de exercer as suas competências, com toda a liberdade e plenitude, então teremos tudo para que eles se prestigiem e sejam olhados de uma forma diferente daquela com que os cidadãos cada vez mais os olham, isto é, com desconfiança. Compreendo que estas coisas sejam difíceis de compreender para um Presidente da República que tem dificuldade em assumir-se como tal e que renunciou ao vencimento da função que exerce, embora não tenha também renunciado às ajudas de custo respectivas, para receber umas reformas que lhe davam mais ao final do mês. É que as ajudas de custo da função presidencial são atribuídas também em função do vencimento que o Presidente aufere pelo exercício dessa função e não para que sejam acumuladas com as reformas por que optou. Quem assim actua e por essa forma desprestigia o exercício da função não tem qualquer autoridade moral ou ética para depois vir pedir o que pediu.
4 - Tive ontem o privilégio de voltar a ouvir António Vitorino falar sobre a Europa com a categoria a que me habituou, como ele próprio simpaticamente recordou, desde "os bancos da faculdade". A iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Faro e o seu actual presidente, engº. Macário Correia, tem tanto de meritória quanto de propaganda, aliás na linha de uma campanha de renovação de imagem que em tempo de crise custou mais uns milhares ao erário público e aproveitou para acabar com as cegonhas no logotipo da cidade. Mas o que aqui importa sublinhar é a importância da iniciativa. Aquilo que a Câmara Municipal de Faro está a fazer devia ser a regra e não a excepção. E devia ser levado a cabo pelos próprios partidos políticos. Porque é fundamental dar novos instrumentos de participação aos cidadãos, porque é fundamental ter cidadãos esclarecidos e interessados, porque é fundamental criar oportunidades de participação e pôr as pessoas a pensar e a discutir os problemas em voz alta. E sem uma abertura do espaço público à cidadania tudo permanecerá como até aqui. Não há que ter medo, há que ousar, atirar as palas do partido para trás das costas e tomar a iniciativa. Seria bom que idênticas iniciativas tivessem tido lugar no passado, mas quanto a este ponto o actual presidente não tem culpa do que os outros que o antecederam não se lembraram, não fizeram ou não quiseram fazer.
Lido e registado
"A cada dia que passa percebe-se melhor que o Governo avançou com a reforma da administração local apenas porque tinha de ter alguma coisa na mão para aliviar a pressão da troika. Por isso, Miguel Relvas confunde as exigências do memorando de entendimento com a sua própria proposta, o que o leva até a acusar o PS de ter assinado o acordo para agora fugir às suas responsabilidades. Que se saiba, a troika pediu mexidas nas autarquias como o fez na Grécia, mas enquanto a Grécia extinguiu municípios para criar autarquias regionais, Portugal atacou o elo mais fraco: as freguesias. Com que objectivo? A proposta vai ter infíma contribuição para a redução do défice, vai anular a presença do Estado nas zonas mais frágeis do país e não vai no sentido da mudança de um Estado hipercentralizado para um Estado moderno. É uma reforma para alemão ver. (...)" - Editorial, Público, 02/03/2012.
quinta-feira, março 01, 2012
terça-feira, fevereiro 28, 2012
E vão 108 gloriosos anos
O grande Jaime Graça escolheu partir hoje. Podia ter sido ontem. Ou anteontem. Mas aconteceu hoje. No mesmo dia em que cá em baixo se apaga mais uma vela, lá em cima uma mais se acende. Para continuar a zelar por nós. E uma coisa podemos já prometer ao Jaime, a quem agradeço o quanto fez por nós, e pelos outros: para o ano celebraremos mais um. Serão então cento e nove. E celebraremos de novo com todos os que cá estarão, com ele e com todos os que de lá de cima nos iluminam, e também com os que vêm a caminho para se juntarem a nós e que, como ele sabe, são muitos mais do que os que já cá estão.
sexta-feira, fevereiro 24, 2012
Só espero que ele não tenha sido enganado
"A venda da Tóbis mostra como o Estado está disposto a vender seja em que condições for. O secretário de Estado da Cultura reconheceu que a venda foi feita "às escuras": do comprador só se sabe que tem capitais angolanos e nunca se negociou directamente com a companhia. Nem pode garantir que o comprador é o mesmo com quem foi iniciado o processo. Como é isto possível?" - Público, Sobe e Desce, 24/02/2012
É por estas e outras que me desgosta ver indivíduos como ele metidos nestas camisas-de-forças da política nacional.
O estado da democracia
Promovido pela Cívis - Associação para o Aprofundamento da Cidadania. É hoje, com a presença de Martins Goulart (Coordenador da União dos Sindicatos do Algarve da CGTP), do Almirante Martins Guerreiro (Associação 25 de Abril) e de Nuno António (Associação Movimento Juvenil de Olhão). Eu junto-me a tão ilustre grupo graças a um simpático convite da organização e represento-me a mim próprio. Para não comprometer ninguém, como aliás é apanágio dos homens livres.
segunda-feira, fevereiro 20, 2012
Devia ser de leitura obrigatória nas escolas
A entrevista que Manuel António Pina deu ao jornal i é um documento de uma assombrosa lucidez e actualidade. Um verdadeiro testamento poético, jornalístico e cívico. Em particular, por um sentido da humildade, da tolerância e da decência só ao alcance de espíritos absolutamente excepcionais. Para ler, reler, guardar e ir muitas vezes buscar à gaveta de cada vez que eu estiver a pensar dizer ou escrever qualquer coisa que venha com o nome à frente. Não será por falta de coragem, acreditem, mas para desfulanizar a coisa. Um dia seremos todos pó e, de facto, não vale a pena que sejamos nós a colocar os que vemos como "canalhas" nas páginas da história. Ainda que depois acabemos a embrulhar o peixe com as folhas onde ficou impresso o seu nome. Basta sinalizar os factos. Cada um que julgue por si. Os peixes também não precisam de saber quem são eles. Ficarem sujos com a tinta do jornal onde se escreveu o nome daqueles de cada vez que são embrulhados já é um castigo bastante.
quarta-feira, fevereiro 15, 2012
É Carnaval...
Não tarda virá aí alguém justificar o gasto com o mesmo ar entediado com que o ministro responde aos jornalistas de cada vez que o questionam sobre os gastos da RTP ou de qualquer outro serviço público. De quem agora deu em dar lições de moral aos portugueses e lhes prega sobre a melhor forma de poupar e emigrar não está nada mal. Normalmente começa sempre assim. Primeiro põe-se um ar sério e aponta-se o dedo a todos, tal como Rocha Vieira fez quando chegou a Macau; depois sai-se pela porta dos fundos deixando um mar de caricaturas para trás. Bem prega Frei Tomás.
sexta-feira, fevereiro 10, 2012
De que serve a liberdade
Bertolt Brecht
(10/02/1898 - 14/08/1956)
"De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?"
Não é normal
Não é normal que um Presidente da República se queixe do que recebe e que para o fazer não se iniba de esconder os rendimentos que aufere e a verdadeira razão para o lamento. Não é normal que um candidato a primeiro-ministro com um mínimo de seriedade faça promessas que sabe não poder cumprir, por muito grande que seja a fé, seja quanto ao número de empregos cuja criação anuncia a troco de votos, seja quanto ao nível da pressão tributária que se propõe manter ou baixar logo que chegue ao poder. Como não é normal que um partido político sério utilize quando está no poder argumentos diferentes daqueles que usou quando era oposição e que resolveu desvalorizar apenas para se furtar ao escrutínio político e ao incómodo de ter de responder a perguntas cujas respostas se presume seriam desagradáveis e inoportunas para a sua imagem pública e a reputação que se esforça por construir. E também não é normal que numa sociedade democrática livre e transparente se ande permanentemente a iludir e enganar a opinião pública, enquanto se mantém uma postura pública incompatível com os jogos de bastidores. De igual modo, não é normal que conversas reservadas sejam escutadas à revelia dos intervenientes, à margem da lei, sem o seu conhecimento ou consentimento prévio, tenham essas conversas lugar através de uma linha telefónica ou ocorram numa parcela do espaço público. E também penso, já agora, que não é normal que um ministro das Finanças que também é a segunda figura do Governo de um Estado soberano, revele nos contactos com os seus hómologos europeus uma postura de tal forma subserviente e agradecida que se transforme na imagem de um mero serventuário, num funcionário público zeloso sem outra ambição que não seja a de cumprir agradando às suas chefias e aos credores do país. E normal não será que um ministro da Defesa e as chefias militares sejam publicamente enxovalhadas por comunicados de organizações para-sindicais dos seus subordinados e ainda os comentem. Nada disto é normal. Tudo isso é pouco sério e nada gratificante para o Estado, para o regime, para os partidos políticos ou os titulares do órgãos do poder político. Mas talvez por nada ser normal é que tudo seja aceite com tanta normalidade. E se resuma a uma luta política entre líderes (medíocres) de juventudes partidárias e filhos do regime que nunca foram capazes de deixar de o ser porque se recusaram a emancipar-se, porque rejeitaram as responsabilidades e os comportamentos da maioridade. A normalidade em Portugal é cada vez mais a anormalidade do dia-a-dia. Da forma como se vive, se respira e de como alguns conseguirão chegar a velhos. Se lá chegarem. Não tardará, por este andar, por esta resignação cega e contemplativa, por este sofrer que se aceita silencioso e reconhecido, que nos tornemos todos num país de anormais. Nesse dia tudo será normal porque a máscara se terá fundido com o rosto. E, por essa via, ter-se-á integrado na alma. No dia em que isso acontecer espero que a minha alma já se tenha libertado destas grilhetas. Se possível evaporado. Que parta comigo. Não sou o Poeta, por isso não pretendo que ela parta gentil para que eu viva cá na terra sempre triste. Porque nada é mais anormal nesta vida do que viver vendo a alma presa na terra e entre o povo que se ama só porque toda uma geração desgraçada nos conduziu a tão deprimente destino. E persiste.
quinta-feira, fevereiro 09, 2012
A ler
"(...) os portugueses não elegeram um primeiro-ministro, elegeram um comandante do corpo de fuzileiros. O resultado foi este regime híbrido que combina a democracia com a ditadura militar. Portugal fez um intervalo na sua existência como país e passou a ser uma caserna. Há dez milhões de recrutas que necessitam de formação e Pedro Passos Coelho berra-lhes aos ouvidos exactamente as mesmas palavras de incentivo que todos os soldados ouvem durante a recruta. A diferença é que o tratamento é mais bruto do que na tropa e as condições de vida são piores. (...) É duro, mas tem de ser. Porque Passos Coelho sabe melhor do que ninguém o que acontece àqueles portugueses menos esforçados, cuja capacidade de trabalho lhes permite arranjar emprego apenas nas empresas dos amigos, e que por opção, e não por necessidade, deixam a conclusão da licenciatura lá para os 37 anos: podem chegar a primeiro-ministro. E esse é um destino trágico que ele não deseja aos seus compatriotas." - Ricardo Araújo Pereira, Visão, 09/02/2012
A magnífica reforma do ministro Relvas
"Agora, enfim, nas eleições de 2013, não se poderão recandidatar cerca de 150 presidentes de Câmara e não sei quantos de Junta. Mas, face às previstas alterações no mapa autárquico, surgiu a extraordinária hipótese de, onde elas se verificarem, tal impossibilidade deixar de existir. Exemplo: três ou quatro freguesias fundem-se ou agrupam-se e o presidente de qualquer uma (que pode ter mais eleitores do que todas as outras somadas), poderia recandidatar-se. O que, em meu juízo, mais do que uma finta seria uma autêntica fraude à lei." - José Carlos de Vasconcelos, Visão, 09/02/2012
quarta-feira, fevereiro 08, 2012
Para quem tivesse dúvidas
"Numa avaliação feita aos primeiros 6 meses de governação de Pedro Passos Coelho, o Barómetro Político da Marktest revela que 70% da população considera que o novo Governo não tomou medidas importantes para o desenvolvimento económico do País e mais de metade acredita que o Governo de Pedro Passos Coelho não está a fazer o que é necessário para Portugal sair da crise."
Se os estudos deles eram bons até 5 de Junho de 2011, quando se tratou de correr com os outros, agora também devem continuar a ser, não? A isto chama-se a prova dos "pastéis de nata".
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