Gosto de cinema. Gosto de uma história bem contada. O filme de Luc Besson é uma história sem pretensões mas que nos vem recordar a luta dessa flor de aço que é Aung San Suu Kyi e o drama que foram os últimos anos da sua vida, dilacerada entre o amor ao seu povo e a fidelidade ao marido. Michael Aris acabaria por falecer vitimado por um cancro, longe da mulher que sempre amou e que ele ajudou a conquistar o Nobel. Vi "The Lady" numa sala em que eramos apenas dois, longe do barulho e do cheiro das pipocas. O filme de Besson e a excelente interpretação da malaia Michelle Yeoh são um grito contra o esquecimento, um alerta para que não nos esqueçamos do drama daquele povo. Visionar "The Lady" é uma forma de censurarmos os crimes dos militares birmaneses e uma justa homenagem ao estoicismo e à beleza da incansável lutadora.
domingo, janeiro 22, 2012
Uma desgraça nunca vem só
Há momentos em que valeria a pena ser cego, surdo e mudo. Na segurança da sua casa um cidadão pode imaginar o que seria esse luxo mantendo todas as suas capacidades. Um Presidente da República não.
Na sexta-feira passada, o País foi abalado por uma declaração de Aníbal Cavaco Silva. Não foi o cidadão quem falou, foi o Presidente da República. O PR aproveitou um encontro com jornalistas, no meio de uma das muitas visitas que faz, para se queixar do valor da sua reforma. É natural que quem não está satisfeito se queixe, que proteste, que vá para as ruas de megafone. E tire partido daqueles que lhe põem à frente. Já não é normal que um Presidente da República em exercício o faça como se fosse um cidadão qualquer, um contestatário anónimo.
Mas, afinal, o que disse o PR? Queixou-se, qual Calimero, do valor da “sua reforma”. A “sua reforma” que, afinal, são três: uma da Caixa Nacional de Pensões, outra do Banco de Portugal e, ainda, uma subvenção vitalícia pelo tempo em que exerceu cargos políticos. Quem em casa o ouviu ficou a pensar que o PR não recebe o salário inerente à função que desempenha, mas apenas uma reforma da Caixa Nacional de Pensões de € 1300,00 (mil e trezentos euros). Só que a dado passo, certamente traído pelo número de microfones, Aníbal Cavaco Silva disse que “tudo somado, o que irei receber do fundo de pensões do Banco de Portugal e da CGA quase de certeza que não dá para pagar as minhas despesas”.
Eu não sei quais serão as despesas do Presidente da República. Também não sei quais serão as despesas do reformado Aníbal Cavaco Silva. Mas todos os portugueses sabem que, fiando-se no que diz, não será homem de vícios. Não bebe, não fuma, não se droga, não consta que frequente lupanares. E qualquer cidadão perceberá facilmente que, enquanto PR, o cidadão Aníbal não paga renda de casa, água, luz, gás, a maior parte das refeições, gasolina, estacionamento ou empregada doméstica. E no dia em que o cidadão Aníbal deixar de ser PR passará a auferir de uma pensão que, “tudo somado”, andará, não pelos € 1.300 que ele insinuou, mas pelos € 9.000,00 (nove mil euros).
Custa perceber o que pode levar o PR, o cidadão Aníbal Cavaco Silva – o mesmo que trepava coqueiros em São Tomé como se fosse um símio, que ajudou a promover gente como Oliveira e Costa, Duarte Lima ou Dias Loureiro, e que mantém como assessor um fulano que depois de andar metido num obsceno caso envolvendo um jornalista do Público acabou há dias a explicar num jornal brasileiro que a sua concepção da democracia, em matéria de liberdade de imprensa, não será muito diferente da de um general birmanês –, a fazer afirmações do jaez da que produziu.
Também não sei se o PR tem a exacta noção do que disse. Sei, todavia, que omitiu aos portugueses uma parte substancial dos seus rendimentos. Induziu-os em erro. Porque quem fala como ele falou sabia do que estava a falar. E se formos a analisar os casos em que este PR andou metido, verificaremos que, para além dos episódios relativamente recentes das escutas e da protecção ao seu assessor Fernando Lima, omitiu aos portugueses, numa outra declaração pública, os seus ganhos em Bolsa por via do BPN e das ligações a Oliveira e Costa ou os dados relevantes sobre a forma como adquiriu uma casa na Urbanização da Coelha. Bastará recordar a forma como fez de conta, enquanto pôde, dos problemas em que Dias Loureiro estava envolvido, disfarçando ser este um homem da sua máxima confiança, para acabar desvirtuando o sentido da sua vitória eleitoral com um discurso que destilou acinte. Era pouco. Por isso, esta semana veio queixar-se dos trocos que tem no bolso. Ou melhor, da sua falta.
Já todos tínhamos desconfiado da sua posição quanto ao corte dos subsídios imposto por um governo da sua cor e confiança. E foi patente a sua falta de nível quando referiu, em plena campanha eleitoral, o valor da reforma da sua mulher. Como se esta fosse uma desgraçadinha enjeitada acolhida por ele. Agora, Cavaco Silva, o PR, desceu a um nível nunca visto. Fê-lo sem decoro. Pior, sem a noção do ridículo.
Não se espera de um PR que faça discursos miserabilistas. Que assuma o papel do desgraçadinho ou que omita deliberadamente factos públicos e notórios relacionados com a sua pessoa só para se proteger. Menos ainda que assuma o papel de um merceeiro avarento para se queixar do valor das reformas que recebe.
Para quem descontou durante os mesmos trinta ou quarenta anos que o PR e recebe uma pensão de 500, 600 ou 1000 euros por mês, será fácil perceber que com valores dessa ordem de grandeza seja difícil pagar as todas as despesas do mês. Para qualquer cidadão será muito mais complicado compreender como é possível receber cerca de € 9.000,00 por mês, não gastar um cêntimo com o exercício ou por causa das suas funções, e no final encontrar justificação para ainda assim se queixar.
O cidadão Aníbal Cavaco Silva não merece ser Presidente da República. Não tem atitudes dignas da função que desempenha. É o meu juízo objectivo. O cidadão em causa, pela forma como exerce as suas competências, pelas declarações miserabilistas que profere, revela não ter, nunca ter tido, estatura para desempenhar o cargo. A vitimização não faz parte da nossa herança histórica. Quem diz o que o PR disse esta semana, da forma como o disse, sem gaguejar, desvirtuando os factos para ganhar a compaixão dos seus concidadãos, ofendendo de forma gratuita e insultuosa a maioria dos portugueses que nem em sonhos terão uma reforma como a dele, demonstra não ser digno da História de Portugal. Os cidadãos que diariamente fazem fila na Segurança Social e no Centro de Emprego de Faro para tentarem obter os meios que lhes permitam pagar a água, a luz ou a escola dos filhos, não percebem o que disse o cidadão Aníbal Cavaco Silva. Nunca perceberão. Ninguém no seu perfeito juízo, à direita ou à esquerda, lavrador ou administrador de empresa, alcança as declarações do PR.
Limito-me a confirmar o que sempre pensei dele. Do cidadão e do político. O que foi dito não constituiu um lapso. É um traço do seu carácter. O seu discurso, mesmo que não pudesse ser visto à luz do seu passado político, é mais do que um simples complexo. Ou uma confissão. É a prova do fracasso da educação na formação do carácter. Os conhecimentos, a mobilidade e a ascensão social que a formação académica lhe proporcionou, foram incapazes de lhe moldar ou alterar o carácter. O seu discurso denota a existência de falhas graves na formação da sua personalidade, com reflexo cada vez mais evidente no desempenho das suas funções políticas. No discurso de Estado. É triste, pois é. Mas como escreveu o insuspeito António Ribeiro Ferreira, “as crises servem para muitas coisas, até para descobrir as pessoas, o seu carácter e a forma como estão na vida. A natureza humana revela-se sempre nestas alturas, no pior e no melhor”. Lamentavelmente, esta crise tem revelado, além de um Presidente da República incapaz de corresponder às exigências do momento, o pior do cidadão Aníbal Cavaco Silva.
Sinto-me envergonhado. Estou triste. E revoltado. Ser um mau Presidente da República é um azar. Pode acontecer a qualquer um que exerça as funções. Na pior das hipóteses dura dois mandatos. É um custo da democracia para o qual todos estão preparados. Já um cidadão com uma personalidade mal formada é para sempre. É um vírus que afecta toda a nação. Um cidadão perdido. Uma alma penada. Nunca se está preparado para uma tragédia.
sexta-feira, janeiro 20, 2012
Já me falta a paciência
Mas este tipo não se enxerga? Olhe, Senhor Presidente, aperte o cinto, mude de hábitos. É o que nós também fazemos. Em vez de ir ao Sueste comer um robalinho, agarre na sua madame e nos netos e vá ao McDonald's comer uns douradinhos. Talvez assim a reforma já lhe chegue. Enxergue-se, homem, tenha vergonha.
Este também foi indicado pelos accionistas?
Não está em causa o mérito do nomeado, de quem aliás sou admirador da escrita e da superior valia cultural e intelectual. Mas politicamente, depois de tudo o que tem acontecido nos últimos dias, será sensato continuar a nomear desta forma? Não há ninguém competente fora da área do Governo? Nem um para a amostra? Só os fundamentalistas ligados ao PSD têm currículo para aceder à manjedoura? A lista de favores nunca mais acaba de ser paga? Lucidez já se viu que é coisa inexistente, mas vergonha também não há? Como é possível pôr o País a tresandar em tão pouco tempo?
Sinais (53)
"Em Portugal, está visto, não basta privatizar uma empresa para que as mãos do governo se afastem do destino dos negócios, e suspeito que de tal não estava a troika à espera. É por isso que temos de fazer muito mais, se quisermos realmente um Portugal diferente deste Portugal paroquial e nepotista que é, de certa forma, o Portugal de sempre" - José Manuel Fernandes, Público, 20/01/2012
Sinais (52)
"Ministro vê "sinais" e "viragem", mas risco de incumprimento está nos 66%"
"Gaspar vê pontos de viragem onde os mercados vêem default"
"As taxas de juro no mercado secundário voltaram a bater recordes"
Público, 20/01/2012
"Gaspar vê pontos de viragem onde os mercados vêem default"
"As taxas de juro no mercado secundário voltaram a bater recordes"
Público, 20/01/2012
A LER
"(...) no fundo ninguém parece levar a sério, sabendo que da 'promoção do empreendedorismo' à 'redução dos custos de contexto' ou a outra qualquer política fantasista e misericordiosa nada passará de conversa para iniciados." - Vasco Pulido Valente, Público
O ANO DO DRAGÃO
Começará à meia-noite de 23 de Janeiro para só terminar no dia 9 de Fevereiro de 2013. Trata-se do quinto signo do zodíaco chinês e significa sorte. E este será um ano do dragão vermelho, o que poderá ser ainda mais auspicioso. É então altura de desejar a todos os leitores e aos meus amigos os melhores votos, e que os deuses lhes tragam tudo aquilo que a troika e Passos Coelho lhes tem tirado. Em especial a esperança num Portugal melhor, numa sociedade que não se envegonhe dos seus cidadãos.
新年愉快! 恭喜發財! 身體健康! 萬事如意!
Kung Hei Fai Choi! Gong Xi Fa Cai!
Regabofe em sessões contínuas
Enquanto o DN continua à espera que sejam reveladas 192 nomeações que não foram publicitadas, melhor seria dizer que foram omitidas, no portal do Governo, nós deparamo-nos com estas pérolas. Neste caso nem valerá a pena tapar o nome. Porque está tudo no Diário da República. A nomeada não tem culpa, mas não deixa de ser estranha a atribuição de dois abonos suplementares em Junho e Novembro. Uns ficam sem os subsídios, outros ganham abonos suplementares. E, curiosamente, o despacho foi agora publicado com efeitos a 28 de Junho do ano passado. Um aldrabão pode ter várias identidades, apresentar um discurso simpático e até merecer o benefício da dúvida. Mas só os tontos se deixam enganar por um par de "jotinhas" alaranjados.
P.S. Como não passou, corrigiram.
P.S. Como não passou, corrigiram.
quinta-feira, janeiro 19, 2012
É por estas e outras ...
Diferenças ideológicas à parte, quase tudo o que Pacheco Pereira diz com a sua habitual frontalidade e eloquência correspondem à verdade. É incómodo? É. Tinha de ser dito? Tinha. Eu próprio já o referi várias vezes, quer aqui, quer no Delito de Opinião, no tempo em que por ali escrevia. Agora Pacheco Pereira vai um pouco mais longe e dá os nomes às coisas. Ainda bem que ele o faz. Não há crise que justifique o adormecimento das consciências, o apagamento da oposição ou que obrigue a tudo engolir como se fossemos, na expressiva linguagem da Clara Ferreira Alves, uns servos da gleba. Se neste país tivéssemos mais meia dúzia, já nem peço mais, de pessoas como ele, à esquerda e à direita, seguramente que não estaríamos no atoleiro em que estamos e entregues a parlapatões. Mas como a frontalidade e a honestidade em política pagam um preço muito elevado, contentemo-nos com a mobília que temos, com os tarecos que nos calharam em sorte.
quarta-feira, janeiro 18, 2012
Às vezes as escolhas dos accionistas dão nisto
(imagem Epa, Enzo Russo)
A explicação que foi dada por Francesco Schettino para abandonar o "Costa Concordia" quando ainda havia centenas ou milhares de passageiros e de tripulantes no navio a aguardarem por auxílio, não fosse dar-se o caso de estarmos perante um tragédia perfeitamente evitável e que acabou por ceifar a vida a uns quantos, deixou outros tantos órfãos e provocou prejuízos de centenas de milhões, para além do susto e da angústia causados em muitos milhares, até nos faria sorrir. Dizer que caiu acidentalmente para um salva-vidas para justificar a fuga é tão absurdo quantas as razões que foram dadas para as escolhas de nomes para o Conselho Geral e de Supervisão da EDP ou as Águas de Portugal. A avaliar pelo nível dos argumentos que quanto a estes últimos foram usados, Schettino tem um padrão de argumentação que, se fosse português, faria dele uma potencial escolha para qualquer uma dessas entidades, para integrar um grupo de trabalho sobre a renovação da marinha mercante ou até ser ministro de um governo de Passos Coelho. O facto da justiça italiana não se comover com a sua sorte, e dele ir agora passar um bom par de anos em velocidade de cruzeiro atrás das grades, no que foi um azar dele, das seguradoras e dos accionistas da empresa armadora, poupa-nos, felizmente, a um cenário desses. Ao menos que por lá se faça justiça, já que aqui isso é coisa de filmes.
terça-feira, janeiro 17, 2012
Vindo dele deve querer dizer alguma coisa, não?
Quando um analista como João Pereira Coutinho, reconhecidamente situado à direita e inteligente, faz uma análise destas, isso deve querer dizer alguma coisa, não?
segunda-feira, janeiro 16, 2012
Boy por boy eu prefiro girls, se possível simpáticas
"O anterior Governo socialista tinha feito o mesmo: colocar naqueles lugares pessoas da sua confiança política, muitas vezes ex-candidatos autárquicos. Algumas dessas pessoas, no passado como hoje, têm ocupado cargos na administração pública e até no universo da segurança social" - Sol
Já muitos o salientaram. De Pacheco Pereira a António Lobo Xavier. De Marques Mendes a Rebelo de Sousa. Mas se não o tivessem feito não seria por essa razão que deixaríamos de ter notado. Em especial as parecenças. Catroga foi escolhido pelos accionistas da mesma forma que anteriormente Vara, na banca, ou Afonso Camões, na Lusa, também tinham sido escolhidos pelos accionistas. Gente estúpida, naturalmente, porque não pensa nas consequências. Na semana passada, numa conferência promovida pelo DN, Passos Coelho em vez de falar do tema do encontro falou de cartões de militantes e de nomeações. Menos de quarenta e oito horas depois, na sequência de vários desmentidos e da risota que a sua intervenção provocou, o site oficial do Governo corrigiu os números do primeiro-ministro: as cento e poucas nomeações como que por milagre passaram a ser 720 novas nomeações. Em sete meses. São menos? Pois são, mas os desempregados também são muitos mais e os que diariamente saem da "zona de conforto" fazem reduzir o número de candidatos dos que aqui ficam. É tudo proporcional à crise. O número de canastrões também. Quanto à inteligência e à vergonha é que seguem agora outra bitola: aumentou a falta de ambas. Os argumentos são os mesmos, já estavam estafados e ainda assim continuam a ser usados. Em vez de se perder tempo a justificar aos portugueses as opções políticas e as escolhas que interessam ao futuro colectivo, discutem-se pastéis de nata e o número de leitões com acesso ao chiqueiro. Nada de novo, portanto. O problema é congénito.
Já muitos o salientaram. De Pacheco Pereira a António Lobo Xavier. De Marques Mendes a Rebelo de Sousa. Mas se não o tivessem feito não seria por essa razão que deixaríamos de ter notado. Em especial as parecenças. Catroga foi escolhido pelos accionistas da mesma forma que anteriormente Vara, na banca, ou Afonso Camões, na Lusa, também tinham sido escolhidos pelos accionistas. Gente estúpida, naturalmente, porque não pensa nas consequências. Na semana passada, numa conferência promovida pelo DN, Passos Coelho em vez de falar do tema do encontro falou de cartões de militantes e de nomeações. Menos de quarenta e oito horas depois, na sequência de vários desmentidos e da risota que a sua intervenção provocou, o site oficial do Governo corrigiu os números do primeiro-ministro: as cento e poucas nomeações como que por milagre passaram a ser 720 novas nomeações. Em sete meses. São menos? Pois são, mas os desempregados também são muitos mais e os que diariamente saem da "zona de conforto" fazem reduzir o número de candidatos dos que aqui ficam. É tudo proporcional à crise. O número de canastrões também. Quanto à inteligência e à vergonha é que seguem agora outra bitola: aumentou a falta de ambas. Os argumentos são os mesmos, já estavam estafados e ainda assim continuam a ser usados. Em vez de se perder tempo a justificar aos portugueses as opções políticas e as escolhas que interessam ao futuro colectivo, discutem-se pastéis de nata e o número de leitões com acesso ao chiqueiro. Nada de novo, portanto. O problema é congénito.
sábado, janeiro 14, 2012
Diário irregular
14 de Janeiro de 2012
“I democratici che non vedono la differenza tra una critica amichevole e una critica ostile della democrazia sono anch’essi imbevuti di spirito totalitário. Il totalitarismo, naturalmente, non può considerare come amichevole alcuna critica, perché il principio dell’autorità finisce necessariamente col contestare il principio dell’ autorità stessa” – Karl Popper, La società aperta e i suoi nemici. Platone totalitário, Roma, Armando Editore, 1973, vol. I, pp. 265.
Volta o Diário quando os dias começam timidamente a prolongar-se pela tarde. Ainda quando o céu sobe e se espraia azul, as sombras permanecem seguindo-nos, inexoráveis, como as algemas que tardam em libertar-se. Portugal tem sido assim. Temo que assim continue por mais uns longos anos.
“As natas”, diz o fulano. Fala “delas” sem que eu o perceba. Alguém a meu lado traduz e diz-me que se refere a pastéis. Pastéis de nata. Não os imaginava no feminino, mas se calhar o homem até tem razão. Se há quem mude de género porque não gosta ou teve azar naquele que lhe saiu em sorte, por que não também os pastéis? Com tanto videirinho e chico-esperto a ocupar a pantalha só faltava entrar um patusco para dar cor e animação ao enredo.
Atropelam-se nas justificações, tropeçam nas suas próprias palavras. Há uma forma totalitária de olhar para os outros nas palavras e nas acções. Ao totalitarismo estatal que a todos se impõe e que é atrofiante da mais ligeira ousadia sucede-lhe agora o totalitarismo dos gangues. O Estado a gente sabe como combater. Os gangues não. E tudo se torna mais difícil quando não se percebe de onde eles chegam. A percepção é a de que saem do nada. Aparecem na lista e pronto.
Não vale a pena olhar para o que está a acontecer focalizando. Neste caso, a focagem retira a visão de conjunto, tende a estriar a atenção entre sulcos paralelos. Convém perceber a forma como tudo se articula e conjuga na aparência do desconhecimento, da casualidade, da conjugação astral. Felizmente que nem todos são tolos.
Os magistrados queixam-se de que não são respeitados, de que não lhes dão ouvidos. O poder político tem sido medíocre nessa relação mas são cada vez mais os que não se dão ao respeito. Se é verdade o que o JN hoje escreve na primeira página, é incompreensível que alguém, que pelo menos aos olhos da lei e da imprensa é apresentado como sendo do sexo masculino, deponha num tribunal de cabeça tapada, com um barrete de leopardo enfiado até às orelhas. A justiça não devia ser um circo ainda que os palhaços aí sejam ouvidos. Um tribunal não é um bordel.
Os anos que passei com os chineses, trabalhando entre, com chineses e não raras vezes em exclusivo para eles, convivendo com empresários, militares, artistas e simples batoteiros ou vigaristas, permitiram-me perceber a lógica deles melhor do que o prof. Catroga. Este diz que ficou “agradado com a lista”. Para ele foi tudo claro, simples, linear. Tudo se resumiu a uma questão de caras conhecidas. A um ex-ministro com o seu currículo devia ser proibido fazer figuras tristes. O homem parece não se importar. Antes não se importou de fazer de bibelot para dar a ideia de que o Governo de José Sócrates não nomeava só os da sua cor para as empresas públicas. Agora esqueceu-se de dizer que foi por um triz que Jaime Pacheco, o treinador de futebol do ano no Beijing Goan, não foi parar ao Conselho de Supervisão da EDP. Imagine-se o que seria, segundo a sua percepção do critério dos chineses, se Júlia Pinheiro, Teresa Guilherme ou uma daquelas aventesmas que regularmente passa pelos seus programas fossem conhecidas na China? Estariam agora sentadas entre o ex-patrão do primeiro-ministro e o general reformado Rocha Vieira a tratar dos “pintelhos” das eólicas.
A nomeação de Catroga, Rocha Vieira, Paulo Teixeira Pinto, Ilídio Pinho ou Celeste Cardona – esta senhora devia estar presa por ser a responsável pela pior e mais maléfica reforma que alguma vez se fez na Justiça, a da acção executiva, e que em muito foi responsável pela chegada da troika – é escabrosa.
Mas mais escabroso é que tipos com a situação financeira de Catroga – a receber uma reforma de quase uma dezena de milhar de euros –, de Rocha Vieira – que embolsou milhões em Macau, mais um subsídio de integração no final do mandato e agora goza os prazeres de uma reforma de muitos milhares na Quinta Patiño –, de Ilídio Pinho – milionário – ou de Paulo Teixeira Pinto – ex-presidente do BCP reformado por doença e a receber uma pensão vitalícia de centenas de milhares de euros – ainda vão receber mais uns milhares para o tal Conselho de Supervisão. Se Cristo descesse à terra mandava-os crucificar no alto de um monte alentejano. Por falta de solidariedade cristã para com o seu semelhante. Por ainda não terem dito uma palavra de renúncia em relação àquilo que vão receber, sem que precisem ou lhes faça falta para viverem confortavelmente, a favor de instituições de apoio à pobreza. É nestes momentos que se vê quem enche a boca com a doutrina social da Igreja e quem a pratica. Os portugueses que sofrem com as actuais condições do País precisam de gestos simples, de palavras oportunas, em especial de exemplos decentes.
A ministra da Justiça está preocupada com a Maçonaria. Se um dia fizer parte dessa ou de outra organização congénere serei o primeiro a referi-lo na minha declaração de interesses. Quanto a isso podem ficar tranquilos. Mas a senhora ministra, que é uma pessoa estimável, ao contrário do que pensa o meu bastonário, está equivocada quanto à essência do problema. Bastar-lhe-ia ter passado por Macau para ter percebido que há uma diferença entre a fidelidade a princípios e a valores e a fidelidade a grupos. A destes é irracional, canina, mais dificilmente perceptível porque mascara a realidade. Pergunte ao seu chefe de gabinete como foi Macau no “último terço da transição”. Estou certo de que o meu amigo João Miguel Barros lhe explicará com toda a paciência, como é seu timbre, que há ligações transparentes bem mais perigosas e menos higiénicas para uma democracia do que a falta de escrutínio de algumas consciências de que se desconfia.
quinta-feira, janeiro 12, 2012
Sinais (51)
"Nós precisamos de "despartidarizar" a nossa a administração" - gritava então o Dom Sebastião de Massamá , corria o bonito dia 12 de Maio de 2011. Com os ventos de mudança a soprarem a favor, tudo o que saía daquela boca parecia ser sincero, habituados a ser aldrabados todo o santo dia - de há seis anos aquela parte - era sopinha no mel . Outra pérola do senhor Primeiro Ministro, na altura ainda candidato ao cargo e em data que não me recordo, rezava assim: "eu não quero ser primeiro ministro para dar empregos ao PSD" e "não vamos andar a nomear os boys do PSD". - Tiago Mesquita, no Expresso
Nem tanto à terra...
Não, caro Pedro Santana Lopes, lamento desiludi-lo mas vossemecê, além de já não ter idade para ser um boy, já experimentou quase tudo. Quando muito diria que é um dandy. Todos os governos têm os seus.
quarta-feira, janeiro 11, 2012
Aplauso
Esteve bem, muito bem, o Prof. José Adelino Maltez, ontem na SIC-Notícias, com Mário Crespo, e depois na TVI24, com José Alberto Carvalho, Vera Jardim e Marques Mendes. É com intervenções como a dele que se desmistifica o fenómeno maçónico, se combate a ignorância, o atavismo, o populismo fácil e o preconceito.
segunda-feira, janeiro 09, 2012
Sinais (50)
"Por esta lógica, ainda veremos Ângelo Correia ou José Luis Arnaut assomarem numa das próximas nomeações (a próxima é já a Portugal Telecom). O problema é que, enquanto isso, milhões de portugueses estão a perder salários, empregos, a pagar mais impostos, mais pelas rendas ou pela saúde. Estas nomeações são uma provocação social. Porque enquanto muitos tratam da sua vida, alguns tratam da sua vidinha.
As nomeações da EDP, como antes as da Caixa, são um mau sinal dentro da EDP e da Caixa, e são um mau sinal do País. Já não é descaramento, é descarrilamento. A indignação durará uns dias, depois passa, cai o pano sobre a nódoa. A nódoa fica." - Pedro Santos Guerreiro, no Jornal de Negócios
As nomeações da EDP, como antes as da Caixa, são um mau sinal dentro da EDP e da Caixa, e são um mau sinal do País. Já não é descaramento, é descarrilamento. A indignação durará uns dias, depois passa, cai o pano sobre a nódoa. A nódoa fica." - Pedro Santos Guerreiro, no Jornal de Negócios
domingo, janeiro 08, 2012
Uma nomeação que é um insulto à China e aos portugueses
A escolha pelo Governo das personalidades que irão integrar o Conselho de Supervisão da EDP é a prova de como ao fim de seis meses Passos Coelho já perdeu todo o controlo do Executivo. Já não bastava o caso das Secretas e das suas inacreditáveis ligações à Ongoing e aos falhados da Loja Mozart49. Faltava a cereja no topo do bolo com a escolha de seis acólitos da sua área política e governativa, alguns dos quais sem quaisquer indicações que aconselhassem a sua nomeação para tão importante órgão numa altura crucial em que era fundamental dar ao País sinais de mudança. Mas chegar ao ponto de escolher Vasco Rocha Vieira, o último governador de Macau, para tal Conselho, é a prova acabada de que Passos Coelho perdeu o norte. E o tino. Um homem que foi desconsiderado, insultado e humilhado pelos chineses em múltiplas ocasiões, e que deixou o seu nome indelevelmente ligado a uma fundação constituída da mais forma mais vergonhosa de que há memória, a Fundação Jorge Álvares, ser nomeado para o Conselho de Supervisão da EDP só demonstra a inexperiência, incompetência e ignorância de quem o nomeou. Há gente no gabinete de Miguel Relvas que deve estar varada com a nomeação. Afinal a evidência de que seis meses bastaram para que Passos Coelho e a sua trupe de videirinhos se rendessem a quem fez do nepotismo e da distribuição de benesses com o dinheiro dos contribuintes a sua imagem de marca. Uma nomeação que define quem o nomeou. Os chineses devem estar a rir-se. A coisa começa bem. E promete.
Em tempo: Há para aí uns espertalhões que dizem que as escolhas não são da responsabilidade do Governo ou de Passos Coelho mas sim dos accionistas da EDP. Formalmente até têm razão, mas o argumento de tão medíocre nem resposta merece. Com os filmes reais mas de péssima realização que temos andado a ver desde 21 de Junho pp., só um mentecapto poderá estar em condições de acreditar que as propostas desses nomes partiram livremente dos accionistas da empresa e que não foram "sopradas" com toda a força e mais alguma por um dos gangues que agora manda.
Em tempo: Há para aí uns espertalhões que dizem que as escolhas não são da responsabilidade do Governo ou de Passos Coelho mas sim dos accionistas da EDP. Formalmente até têm razão, mas o argumento de tão medíocre nem resposta merece. Com os filmes reais mas de péssima realização que temos andado a ver desde 21 de Junho pp., só um mentecapto poderá estar em condições de acreditar que as propostas desses nomes partiram livremente dos accionistas da empresa e que não foram "sopradas" com toda a força e mais alguma por um dos gangues que agora manda.
sábado, janeiro 07, 2012
A LER
"«Tipo esquisito...», pensou Jasselin quando ele saiu, e, como acontecera anteriormente muitas vezes, pensou em todas aquelas pessoas que coexistem no coração de uma mesma cidade sem razão especial, sem interesses nem preocupações comuns, seguindo trajectórias incomensuráveis e separadas, por vezes reunidas (cada vez mais raramente) pelo sexo ou (cada vez mais frequentemente) pelo crime. Mas pela primeira vez este pensamento - que no princípio da sua carreira de polícia o fascinava, que lhe dava vontade de averiguar, de saber mais, de penetrar ao fundo nessas relações humanas - já só provocaca nele obscuro cansaço" - Michel Houellebecq
Recebeu o Goncourt, foi traduzido por Pedro Tamen e a 1ª edição data de Outubro de 2011. Os encómios são mais que muitos e foi aclamado por essa Europa fora. Pela que sabe ler e pensar. A sociedade contemporânea com olhos de ver.
sexta-feira, janeiro 06, 2012
Chegaram os ouriços
Já chegou há alguns dias mas confesso que só hoje tive tempo para andar por lá. E para já gostei. Espero que nos proporcione bons momentos e não nos pique em demasia. Chama-se O Ouriço e pela amostra promete. Um Bom Ano, uma longa vida, é o que vos desejo.
quinta-feira, janeiro 05, 2012
Diz-me com quem andas
Bem que gostaria de poder corresponder a tão amável e generoso convite, mas por cada dia que passa menos vontade tenho. Enquanto não houver uma limpeza que separe as águas, nada feito. Isto anda tudo ligado porque são sempre os mesmos e os critérios de selecção e recrutamento foram idênticos. Diz-se que tudo tem que ver com princípios e valores porque, em boa verdade, nada tem que ver com princípios e valores. E é pena, porque eu acredito em ambos. A políticos de treta correspondem hoje maçons da tanga. E isto aplica-se a todos indistintamente. O resultado só poderia ser aquele que se vê.
Se Mozart imaginasse que à sombra do seu nome, em vez de se albergar o génio e o talento, se iriam reunir uns tipos obscuros à procura de ascensão social, de poder, formal e informal, do vil metal e de honrarias várias, teria proposto a Salieri trocarem de nome.
Sinais (49)
"Hoje, há maçons envergonhados entre canalhas, trambiqueiros, lobistas e corruptos. Ministros e deputados, juízes e procuradores, polícias e altos funcionários dos serviços de informações convivem – no segredo de algumas lojas! – com o crime a seu lado." - Manuel Catarino, Correio da Manhã, 05/01/2012
terça-feira, janeiro 03, 2012
Acabadinho de sair
Com a publicação deste "ensaio" ficam respondidas as minhas dúvidas abaixo colocadas. Espero conseguir comprar um exemplar antes da edição se esgotar.
Estas coisas não podem passar despercebidas
Tratando-se de números oficiais (vale a pena "clicar" na imagem para se ver melhor), é evidente que estas "barrinhas" tinham de ter aqui eco. Já basta os "irmãos" do ministro da propaganda mandarem emendar os relatórios dos senhores deputados para se proteger a "organização".
P.S. O valor atribuído a Durão Barroso/Santana Lopes, atendendo ao curto período em que estiveram em funções, permite imaginar o que teria sido se lá tivessem ficado até ao final da legislatura.
P.S. O valor atribuído a Durão Barroso/Santana Lopes, atendendo ao curto período em que estiveram em funções, permite imaginar o que teria sido se lá tivessem ficado até ao final da legislatura.
Mais uma contribuição para o empobrecimento nacional
É legítimo mudar a sede fiscal de uma empresa para uma jurisdição onde a carga fiscal é inferior por razões de mera conjuntura política, financeira e fiscal quando se tem responsabilidades empresariais e sociais? É legítimo fazê-lo quando no passado por diversas vezes se foi contundente nas críticas à ineficiência e incompetência do poder político? É legítimo fazê-lo quando se institui uma fundação que, entre outras coisas, se dedica à publicação de pequenos ensaios destinados a estimularem o conhecimento, a cidadadania, a participação e uma intervenção cívica responsável? E é legítimo concretizá-lo numa altura de profunda crise económica e de valores quando seria mais importante dar sinais de solidariedade, de esperança e de conforto a quem não goza dos mesmos meios e prerrogativas? E se essa deslocalização não tem por base razões fiscais, admitindo-se que outras há, será que estas são suficientes para justificarem a bondade de tal atitude?
Quando exemplos como o da deslocalização da sede fiscal são dados por uma entidade e um grupo empresarial com a responsabilidade social da Jerónimo Martins, pouco poderá ser exigido a quem convida e empurra os portugueses para os braços da emigração.
Gostava de ouvir o que António Barreto pensa sobre isto, ele que dirige a Fundação Manuel dos Santos, a mesma onde foi publicado "Justiça Fiscal", do meu saudoso mestre Saldanha Sanches. Afinal, tal como este ali escreveu, citando as conclusões de Miguel Poiares Maduro no caso "Halifax" (C-255/02), "o direito fiscal não deve tornar-se numa espécie de faroeste jurídico, em que praticamente todo o tipo de comportamento oportunista tem de ser tolerado desde que seja conforme com uma interpretação formalista estrita das disposições fiscais relevantes e que o legislador não tenha expressamente tomado medidas para impedir esse comportamento".
O grupo Jerónimo Martins acabou de dar uma valiosa contribuição a Passos Coelho e a Vítor Gaspar para o empobrecimento nacional. E um exemplo daquele tipo de atitudes que o responsável máximo desse grupo tanto criticava em José Sócrates. O sr. Soares dos Santos acabou de perder toda a autoridade ética e moral para se insurgir contra todos aqueles que de uma forma ou de outra e usando de expedientes vários deixam de contribuir para a satisfação das responsabilidades do Estado.
Cícero desdenharia comprar nas lojas do grupo Jerónimo Martins. Eu também. Não suporto hipócritas.
sábado, dezembro 31, 2011
Nem de propósito
Ao rever algumas imagens retrospectivas de 2011, dei comigo a ouvir o discurso do "Sr. Pritzker", Souto Moura, perante Obama, quando recebeu o prémio que o consagrou com um dos melhores entre os génios da arquitectura mundial. Curiosamente, ele que tinha todas as razões para discursar em inglês fê-lo em português.
Por cá, como ali abaixo sublinhei, o ministro das Finanças, que tinha todas as razões e mais algumas para discursar em português, até por razões institucionais, resolveu discursar em inglês numa cerimónia de uma empresa privada. Ante o olhar condescendente e subserviente dos ministros da Economia e dos Negócios Estrangeiros. E logo do MNE que tem a mania que é mais patriota que os outros.
Aos poucos se percebe a natureza do silicone de que se fez a coluna dos "Álvaros" que nos governam. O bom ainda é impermeável, mas o que ali usaram é demasiado poroso e permeável. Por dinheiro até o pino fazem. 2011 não deixa mesmo grandes recordações para Portugal.
Sinais (48)
"Não pode haver confiança quando alguém, com dolo ou por ignorância, se compromete com uma coisa na oposição e faz o contrário no poder. (...) não pode haver confiança quando, estando o Governo a eliminar dias de férias e a exigir mais meia hora de trabalho diário, ou tendo decidido, muito acertadamente, não conceder tolerâncias de ponto no Natal e Ano Novo, os deputados da nação ignoram alegremente tudo isso e partem para umas longas férias iguais às que sempre fizeram. Não pode haver confiança quando o Governo corta metade do subsídio de Natal e depois se verifica que em empresas públicas e serviços do estado com regimes especiais, essa regra não é aplicada. Não pode haver confiança quando se atacam em todas as frentes os mais fracos e sem poder reivindicativo, mas se cede aos aparelhos partidários instalados nas autarquias, autorizando-os a mais endividamento e contratações, depois de se ter anunciado que isso lhes estaria vedado. (...)" - Fernando Madrinha, Expresso, 30/12/2011
Leitura
Um livro para ler junto ao aconchego da lareira, para antecipar um final de ano distante, frio e imensamente triste. Como nenhum de que me lembre.
sexta-feira, dezembro 30, 2011
A ler
"Vale a pena pensar, com melancolia, no fim deste ano de 2011, que o Portugal da democracia não aprendeu nada".
Sinais (47)
"Hospital de Faro com novo conselho de administração
"Presidido pelo ex-bastonário da Ordem dos Médicos Pedro Nunes e tendo como vogais executivos Graça Pereira e Luís Miguel Costa Cunha Martins, ligados respectivamente ao PSD de Alcoutim e Portimão, tomou posse na quarta-feira.
Graça Pereira é licenciada em Economia (...). Integrou a última lista do PSD Algarve para a Asembleia da República. Por sua vez Luís Miguel Costa Cunha Martins, advogado, é membro da bancada do PSD da Assembleia Municipal de Portimão" - O Algarve, 30/12/2011
Confundir cortesia com servilismo
A assinatura do acordo que selou a entrada da Three Gorges no capital da EDP teve lugar esta manhã. Já aqui tinha anteriormente defendido a escolha do Governo português; por isso mesmo fiquei satisfeito por ver a operação chegar a bom porto antes do final de 2011.
Do que não gostei mesmo for de ver o inglês erigido em língua oficial do Estado português. Que em reuniões internacionais se fale em inglês ou noutra língua que faça a ponte com o outro lado, tudo bem. Que o presidente da EDP se dirija em inglês aos visitantes e seus futuros patrões que não falam português, também compreendo. O que já eu não entendo de todo é que um ministro das Finanças, que é institucionalmente o número dois do Governo da República, entenda também discursar em inglês numa cerimónia privada a que entendeu emprestar o brilho da sua presença e em que também estão outros ministros do mesmo Governo e secretários de Estado.
Ao contrário do que se disse, não se tratou de um acto de cortesia para com o presidente da empresa chinesa, mas de um acto de aviltante servilismo por parte do Estado português. Não me recordo de alguma vez, em Macau, ter ouvido ministros de Portugal ou os Governadores, em cerimónias oficiais ou privadas a que entendessem associar-se, a discursarem em inglês.
Habituados a vergarem a cerviz perante quaisquer empresários, banqueiros e o capital financeiro, os tecnocratas do Governo não distinguem o Estado de uma simples empresa, mesmo muito rica. E deram assim, tristemente, mais uma prova da sua inexperiência política, falta de sentido de Estado e, ainda mais, incontornável provincianismo.
Quem ficou mal na fotografia não foi Vítor Gaspar. Nem foi "o Álvaro". Foi o Estado português. Fomos nós.
O regresso da musa
A Gentlemens Quarterly Portugal, vulgo edição nacional da GQ, encerra 2011 e começa 2012 com o número 100. Para quem se tinha habituado a ler as edições de outros países, 2011 confirmou a qualidade da produção nacional. Este é um número para ler e guardar. Para além das rubricas habituais e dos textos que algumas mulheres escrevem para homens, a revista que foi considerada a "Melhor Revista Masculina do Ano", comemora o momento trazendo para as suas páginas aquela que já deve ser a portuguesa, depois de Mariza, mais conhecida do mundo. Luísa Beirão, um dos novos rostos da Triumph, enche as páginas com os seus olhos, que dão vida às geniais fotografias de Pedro Ferreira e aos nossos próprios olhos. Prova de que mesmo após a intervenção da troika a mulher portuguesa, sem necessidade de uma embalagem extra, continua a dispensar silicone francês, photoshop alemão, estilista italiano ou qualquer outra ajuda externa para se impor, bastando-lhe continuar a exalar sedução e beleza por todos os poros.
quinta-feira, dezembro 22, 2011
quarta-feira, dezembro 21, 2011
Subtilezas
Há uma pequenina diferença entre emigrar voluntariamente, solteiro e sem responsabildiades, para aquisição de uma experiência de vida, melhores competências, novos horizontes e alargamento dos que existem, com um bom contrato à saída de Lisboa e boas condições de recepção à chegada ao destino, e emigrar obrigado, por empurrão, saindo à procura de qualquer coisa apenas para tentar sobreviver, sem perspectiva de regresso no curto prazo ou médio prazo e de nesse dia, se um dia a perspectiva se tornar no regresso que acontece, já não se encontrar quem aqui se deixou. É isto, só isto, que alguns são incapazes de ver. E que fazem de conta que não percebem. Além de que uma coisa é emigrar aos vinte ou aos trinta anos e outra, bem diferente, emigrar aos cinquenta porque este País os descartou.
terça-feira, dezembro 20, 2011
Perfeitos imbecis
Eu e a minha mulher, entre os dois, temos mais de 21 anos de ausência de Portugal. Quando em 1999 decidi regressar, fi-lo em virtude de algumas razões pelas quais eu entendia dever regressar. Porque os nosso pais estavam mais velhos e doentes e tinham o direito ao nosso convívio nos seus anos mais tristes. Porque gostava de ter um filho que nascesse e crescesse em Portugal e que, ao contrário de mim, não tivesse andado em bolandas durante décadas entre África e Portugal e depois acabasse emigrado no Extremo Oriente. Nessa altura eu já tinha acabado o meu curso e tinha iniciado o meu estágio, que interrompi quando fui à procura de uma nova vida e de outras hipóteses de trabalho que já então aqui não abundavam. Com a mesma idade tinha o ministro Miguel Relvas o 12º ano e começava a sua carreira política como deputado do PSD. Tentei uma primeira vez sem grande sucesso o regresso. Com poucos ou nenhuns conhecimentos, depois de alguns anos fora, teria sido mais cómodo continuar lá por fora. Mas eu quis regressar. De pouco me valeu acreditar porque três anos depois estava de novo de saída. E lá por fora fiquei durante mais seis anos. Teimoso, insisti em novo regresso e, apesar das dificuldades, por cá continuo. E continuo porque entendo que há combates que devem ser travados na própria terra. E não no estrangeiro. O combate por um Portugal melhor tem de ser travado em Portugal e não num qualquer exílio mais ou menos dourado. E porque como qualquer outro cidadão tenho o direito de aqui viver. De aqui pagar os meus impostos. Por isso regressei e melhor ou pior, ultimamente pior, por cá me fui acomodando. Para tanto tive inclusivamente de deixar de viver na terra onde mais tempo passei, onde tenho a família e amigos e me fiz homem. Só que continuando por cá, no rectângulo, e sendo o país pequeno isso também não seria grave. Entretanto, tipos como o actual primeiro-ministro ou o seu ministro dos Assuntos Parlamentares convidam agora os portugueses a emigrar. Fazem-no em razão de um sistema de selecção, recrutamento e ascensão dentro da classe política, que permitiu que os melhores saíssem da política e nela ficassem cábulas como eles que singraram à custa da política e dos conhecimentos que nela adquiriram para chegarem onde chegaram. Porque foi esse sistema "demeritocrático", como escreveu recentemente um autor italiano, que lhes permitiu ascender até onde ascenderam. Foi devido à incompetência e falta de visão de políticos como eles, que permitiram o desbaratamento dos fundos comunitários, a destruição do tecido produtivo nacional, das pescas à agricultura, o enraizamento de fenómenos como a corrupção e o tráfico de influências, a delapidação do erário público com uma máquina administrativa improdutiva e ineficiente, para já não falar na evasão fiscal e nas mordomias e reformas de estalo outorgadas a políticos semi-analfabetos, entre outros males menores, que chegámos até aqui e que homens como eles se permitem hoje convidar os melhores e os mais capazes (não falo de mim) a emigrem, a procurarem no estrangeiro aquilo que mais de trinta anos de vida democrática foram incapazes de construir. Por mim, enquanto puder resistirei. Porque as razões que me fizeram antes voltar permanecem quase todas válidas e são as mesmas que me motivam a ficar. Porque há combates que mais do que nunca têm de ser travados em Portugal, sob pena deste país ficar entregue aos mercenários da política, a demagogos e a traficantes de influências. O meu avô Miguel Correia passou pelo Tarrafal e acabou deportado em Moçambique. Por esse motivo o meu pai nasceu em Cabo Verde e está registado no Barreiro, acabando a viver em Moçambique, onde eu nasci. O meu tio João morreu no Brasil porque daqui foi escorraçado no tempo da ditadura. O meu tio José morreu em Inglaterra. Outros ficaram pela África do Sul ou Moçambique. E foi daqui, como de Angola ou de Timor que também alguns de nós, muitos de nós, foram recambiados para Portugal. Em 1999 decidi voltar. Aqui me têm. Por cá ficarei resistindo. Por muito que isso me custe. Quanto mais não seja até que Passos Coelho e Miguel Relvas me digam como poderei explicar a um pai com oitenta e três anos, numa cadeira de rodas e semi-paralisado por um avc, a uma mãe doente com oitenta e cinco, e a um padrinho cego com noventa e cinco, a quem devo quase tudo o que aprendi e a quem acabaram de rapar mais uns pozinhos da reforma, que se eu amanhã saísse de Portugal provavelmente não me voltariam a ver e abraçar durante o pouco tempo de vida que lhes resta.
Era escusado um Comissário Europeu ter vindo dizer isto. Há propostas, como diria um amigo meu, que nem ao maior filho da puta se fazem. Mas eles foram capazes de pensar numa dessas propostas e dizê-la. E ainda se deram ao luxo de pesporrrentemente querer justificá-la perante as televisões. Como se todos pudessem emigrar para Moçambique tendo por sócio Nuno Morais Sarmento. Ou para Angola tendo por patrão a família "dos Santos". Um dia poderei perdoar-lhes. Esquecê-lo jamais.
Então e os outros?
Espero que a proposta das indemnizações por despedimento, que implica a redução destas para 8 a 12 dias, se é para ser levada a sério, não deixe de fora os gestores públicos nem todos aqueles que ocupando cargos políticos ou de nomeação política têm até agora usufruído de confortáveis subsídios de reintegração e de indemnizações por cessação antecipada das respectivas funções.
A ler
"Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca." - Carta aberta ao primeiro-ministro de Portugal, publicada aqui, Entre as brumas da memória
A ler
"Não percebo de que maneira tendo o governo assinado um compromisso não o vai cumprir. Não sei como vai resolver em futuras negociações com a troika esta inversão em relação à aquilo com que se comprometeu. Depois não creio que a extinção de freguesias por si só resolva muitos problemas. Podemos dizer que num território mais bem organizado a redução de freguesias faz sentido. Por exemplo, é óbvio que uma racionalização delas em Lisboa podia ter um ganho em termos de gestão do território. Agora cortar apenas no território das freguesias não permite ganhar economias de escala a um nível mais relevante. Não defendo uma diminuição enorme dos municípios existentes, acho é que os que existem actualmente impedem a adopção de políticas mais racionais e que permitam optimizar, por exemplo, a gestão financeira. A reforma que o governo propõe parece-me ainda incompleta por não prever, além da reorganização dos municípios, uma escala supramunicipal." - Marta Rebelo, em entrevista ao jornal i, 20/12/2011
segunda-feira, dezembro 19, 2011
Sinais (46)
"Como programa político defende que só saímos desta situação empobrecendo. Em entrevista à SIC Notícias arrepiou caminho mas não deu alternativas: «o emobrecimento não é uma via para sair da crise. É uma consequência». Como é que isto motiva alguém a lutar, a sacrificar-se, a exceder-se para dar a volta à situação?
Passos chegou ao poder e disse tudo o que estava mal. Não referiu uma única coisa que estivesse bem. Aliás, Passos carrega sempre nas tintas. Se pensamos que 2012 vai ser um ano péssimo, ele acrescenta que será dramático. Se consideramos que as coisas estão más, ele acrescenta que vão ficar piores. Passos não motiva os cidadãos nem aumenta a sua confiança. Pelo contrário, acrescenta desalento ao desalento, desânimo ao desânimo, fraqueza à fraqueza e instila em todos nós um sentimento de culpabiidade pelo que nos está a acontecer.
Passos está obcecado - e muito bem - pelo cumprimento do acordo com a troika. Mas não faz a gestão emocional da crise, nem nenhum esforço para manter as tropas moralizadas. Passos dá sempre a impressão de estar mais do lado dos credores do que do nosso. Não se preocupa minimamente em transmitir otimismo e esperança, nem em mostrar a luz ao fundo do túnel.
Desde que chegou ao Governo, fez várias promessa importantes que desdisse. E numa situação destas isso é um erro dramático. Quando agora afirma que não haverá novo aumento de impostos em 2012, já ninguém acredita. E é por isso que Passos corre dois enormes riscos. O primeiro é levar-nos a todos para um lugar de miséria e desesperança. O segundo é descobrir que está sozinho quando necessitar de tropas para a batalha." - Nicolau Santos, Expresso, 17/12/2011
A diferença
"La primera [directriz fundamental do Programa de Governo], estimular el crecimiento y potenciar la creación de empleo.
Señorías, un país, en el que cada día que pasa se destruyen miles de empleos, no puede permitirse vacilaciones a la hora de señalar prioridades.
Me propongo, pues, dedicar toda la capacidad del Gobierno y todas las fuerzas de la Nación a detener la sangría del paro, estimular el crecimiento y acelerar el regreso de la creación de empleo.
Esto es lo que exigen las urnas, esto es lo que demanda Europa, esto es lo que España requiere con urgencia, y ésta, Señorías, es la única piedra angular que puede sustentar la tarea de nuestra recuperación.
Que surjan empleos significa que aumente la actividad económica, que el Estado recupere ingresos, que la Seguridad Social ensanche su base y sus cotizaciones, que los pensionistas respiren tranquilos, que podamos mejorar la educación y financiar la sanidad…
No existe ninguna posibilidad de enderezar la marcha de la Nación que no comience por crear las condiciones que permitan a los españoles que no tienen trabajo ponerse a trabajar.
(...)
Cuando se crea empleo, el país se estabiliza, se afirma la confianza, se reparte mejor la dignidad, los derechos se concretan, los sueños se vuelven accesibles, y cada individuo recupera la capacidad de administrar su propia vida. Cuando se crea empleo, Señorías, crece la libertad.
Empezaremos por aquí, por lo más importante y lo más difícil. Debemos sembrar con urgencia, si queremos que brote lo antes posible la nueva cosecha de empleos en España.
(...)
Sabíamos –y sabemos- lo que nos espera y sabíamos. Y sabemos- que se nos juzgará por lo que consigamos, y no por lo que intentemos, o por cómo nos hayamos encontrado las cosas." - Mariano Rajoy, Discurso de Investidura, 19/12/2011
Quem não tenha ouvido o discurso de investidura do novo primeiro-ministro espanhol poderá ao menos lê-lo. E escuso-me a transcrever aqui mais passagens do mesmo, visto que estas já são mais do que suficientes para mostrarem a diferença entre aquele que tem sido o desconchavo governativo do Governo da troika interna - Passos Coelho, Miguel Relvas, Miguel Macedo - e aquela que irá ser a postura do PP de Rajoy.
Aquilo que em Espanha será a primeira das prioridades - o combate ao flagelo do desemprego - continua a ser por cá uma miragem.
Lá privilegia-se a criação de emprego como alavanca para o crescimento e o pleno emprego. Cá tem-se privilegiado o empobrecimento generalizado da comunidade através do aumento obsceno de impostos e de taxas, o encerramento de empresas, o aumento do trabalho sem contrapartidas, em vez de se melhorar a produtividade fazendo uso de incentivos ao trabalho e de uma gestão mais eficiente e racional, e convida-se os cidadãos a emigrar.
São ambos governos catalogados como sendo de direita, pertencentes à mesma família política, mas enquanto um é dirigido por quem adquiriu formação académica e profissional e alguma experiência de vida antes da política, o outro é dirigido por alguém que só adquiriu habilitações académicas quando interrompeu a carreira política e ganhou experiência profisional graças às muletas que a política lhe deu.
E se fizermos uma comparação com o ministro dos Assuntos Parlamentares verificaremos que com a mesma idade - 24 anos - com que Rajoy iniciou a sua carreira profissional como conservador do registo predial, já licenciado em Direito por Santiago de Compostela, iniciava o nosso ministro a sua carreira na Assembleia da República com ... o 12º ano, adquirindo as competências para agilizar processos, intermediar negócios de milhões e nomear grupos de trabalho.
São pormenores destes que fazem toda a diferença entre os que lá vão governar e os que por cá vão desgovernando antes de se voltarem a dedicar a uma vida folgada nos negócios com os conhecimentos que uma vida na política caseira proporciona.
Quem não tenha ouvido o discurso de investidura do novo primeiro-ministro espanhol poderá ao menos lê-lo. E escuso-me a transcrever aqui mais passagens do mesmo, visto que estas já são mais do que suficientes para mostrarem a diferença entre aquele que tem sido o desconchavo governativo do Governo da troika interna - Passos Coelho, Miguel Relvas, Miguel Macedo - e aquela que irá ser a postura do PP de Rajoy.
Aquilo que em Espanha será a primeira das prioridades - o combate ao flagelo do desemprego - continua a ser por cá uma miragem.
Lá privilegia-se a criação de emprego como alavanca para o crescimento e o pleno emprego. Cá tem-se privilegiado o empobrecimento generalizado da comunidade através do aumento obsceno de impostos e de taxas, o encerramento de empresas, o aumento do trabalho sem contrapartidas, em vez de se melhorar a produtividade fazendo uso de incentivos ao trabalho e de uma gestão mais eficiente e racional, e convida-se os cidadãos a emigrar.
São ambos governos catalogados como sendo de direita, pertencentes à mesma família política, mas enquanto um é dirigido por quem adquiriu formação académica e profissional e alguma experiência de vida antes da política, o outro é dirigido por alguém que só adquiriu habilitações académicas quando interrompeu a carreira política e ganhou experiência profisional graças às muletas que a política lhe deu.
E se fizermos uma comparação com o ministro dos Assuntos Parlamentares verificaremos que com a mesma idade - 24 anos - com que Rajoy iniciou a sua carreira profissional como conservador do registo predial, já licenciado em Direito por Santiago de Compostela, iniciava o nosso ministro a sua carreira na Assembleia da República com ... o 12º ano, adquirindo as competências para agilizar processos, intermediar negócios de milhões e nomear grupos de trabalho.
São pormenores destes que fazem toda a diferença entre os que lá vão governar e os que por cá vão desgovernando antes de se voltarem a dedicar a uma vida folgada nos negócios com os conhecimentos que uma vida na política caseira proporciona.
Patético
O anúncio oficial da morte do ditador norte-coreano Kim Jong-il, com origem na televisão estatal da ditadura, que tem vindo a ser passado nas televisões ocidentais, e as imagens e sons que nos chegam de Pyongyang de uma população em doloroso pranto, sem deixarem de corresponder a um espectáulo patético, podem não passar de mais uma encenação propagandística do regime comunista para abafar as circunstâncias da morte do ditador. Isso mesmo é dado conta numa notícia desta manhã do Korea Times, na qual se refere, citando An Chan-il, um conhecido politólogo do Sul, que o líder comunista poderá ter sido assassinado, acompanhando dessa forma o rumor de que um oficial norte-coreano de elevada patente teria sido assassinado a tiro. Por agora, e sem prejuízo de Bernardino Soares nos trazer a sua versão oficial dos factos, o mais prudente será aguardar que comecem a chegar informações de fonte segura antes de se especular. A foto é do jornal citado e foi tirada em 10 de Outubro de 2010, por ocasião das celebrações dos 65 anos do Partido dos Trabalhadores, nela podendo ver-se o falecido e o líder "comunista" que será entronizado, o "terceiro na linha de sucessão ao trono".
Sinais (45)
"O clima económico e social degrada-se a olhos vistos, o desemprego não para de subir, as condições de vida pioram para todos. Vamos empobrecer, como diz o primeiro-ministro. E este processo nunca foi experimentado pelas atuais gerações de europeus, filhas do pós-guerra. Mesmo no caso de Portugal, sempre um dos parentes mais pobres, temos uma revolução pela frente porque uma coisa é ser-se pobre e outra, muito diferente, é tornar-se pobre - ou ainda mais pobre." - Fernando Madrinha, Expresso, 17/12/2011
sábado, dezembro 17, 2011
Sodade, tanta sodade
Vida tem um só vida.
Obrigado, amiga. E até sempre, Cesária, até sempre, a gente vai voltar a encontrar-se.
sexta-feira, dezembro 16, 2011
Uma entrevista que é todo um tratado
A entrevista que o secretário de Estado da Administração Local, Paulo Júlio, deu a Leonete Botelho e Margarida Gomes é, com todo o respeito, um verdadeiro tratado. Um guião de ilusionismo político.
O Público percebeu-o e dá conta disso no seu Editorial de hoje, aqui citado um pouco mais abaixo.
Com efeito, trata-se de uma "reforma administrativa" que se assemelha a uma fraude política destinada a criar a convicção junto da opinião pública de que de uma reforma se trata. Na verdade, como se depreende das palavras do secretário de Estado, a "reforma" até permite que autarcas que estavam impedidos de se recandidatarem por terem excedido o limite de mandatos possam vir a fazê-lo desde que haja, repare-se na subtileza, "mudança de circunscrição geográfica", isto é, "se uma freguesia ficar com mais ou menos território, por exemplo, o autarca já se pode recandidatar". Porque, explica a eminência, "não se trata já da mesma freguesia". Pois não. Será isso, aliás, que no futuro irá fazer a diferença entre uma qualquer "freguesia de S. Pedro" pré-reforma, à qual o actual presidente de junta de nome Pedro não se poderia voltar a recandidatar, e a futura "freguesia do Pedro", esta pós-reforma, onde aquele poderá começar do princípio a contagem dos seus mandatos.
Em concreto, no exemplo dado pelo secretário de Estado, estamos perante mais uma chico-espertice para contornar a lei de limitação dos mandatos que não indigna todos aqueles que antes criticavam, com razão, a falta de reformas de fundo dos Governos, e foram vários, anteriores.
A este quadro juntam-se afirmações tão profundas como a de que "temos de ser eficazes a descentralizar", ou mais ou menos graves, para quem fala de reforma, como a de que "este não é o momento político para se discutir a regionalização", que "o Governo deixa em aberto a fusão de municípios" e que "o número de municípios em Portugal é muito inferior à média europeia", sem que se perceba se com esta última se está a deixar a porta aberta para que amanhã, algumas das freguesias que se vão fundir, nome suficientemente feio para fazer muita gente espumar sem que haja necessidade de usar outros, se poderão vir a transformar num novo município para satisfação das sempre atentas clientelas locais.
Ou, ainda, uma afirmação tão estranha nos dias de hoje como a de que "o objectivo do Governo não é diminuir aquilo que é transferido para as autarquias (municípios e freguesias)".
Confirma-se que tudo fica pela cosmética, por um pequeno rearranjo que baixe o endividamento em 150 milhões de euros e não "chateie" muito os municípios, porque é nestes que o Sr. Relvas e o PSD têm alguma força e muito poder e não convém amanhã ser vaiado por quem garante o funcionamento da máquina e satisfaz as clientelas partidárias.
Mas se é para isto que se vai fazer uma reforma, então o melhor era ter ficado quieto. Porque fazer uma reforma só para dizer que se fez uma reforma, não reduzindo as transferências do OE, permitindo a eternização no poder autárquico de políticos que já estavam com guia de marcha, por via do expediente do redimensionamento de algumas freguesias, ou deixando de pagar a presidentes de junta para depois andar a pagar às "duas ou três pessoas de cada uma das freguesias agregadas" que irão integrar o "Conselho Social", "de modo a prosseguir a política de proximidade" - pro bono e a tempo inteiro? - que já é hoje levada a cabo, e com bons resultados pelas freguesias, como irem "buscar os medicamentos e levantar dinheiro", não é uma verdadeira reforma. Não é uma proposta séria nem é para ser levada a sério por ninguém. A não ser pelos novos "cromos" que o ministro vai desencantando para compor os grupos de trabalho.
Se o objectivo é fazer uma reforma, e ninguém duvida que ela seja necessária, então pense-se tudo com critério e rigor, incluindo a regionalização, o número e a dimensão dos municípios e as atribuições e meios que a cada um devem estar atribuídos no quadro de uma verdadeira reforma da Administração Local que melhore a governança impedindo o governanço público e notório a que temos assistido de uns quantos.
Estabeleçam-se primeiro os objectivos e a forma de alcançá-los com eficácia e em termos eficientes de um ponto de vista económico. A seguir calendarize-se e a partir daí cumpra-se, fazendo a adequada monitorização.
O secretário de Estado não tem culpa. Ele cumpre o que quem o nomeou lhe manda fazer. E confesso que depois da apressada extinção da IGAL e de se ter corrido com o seu inspector da forma que todos conhecem, não esperava outra coisa. O ministro é que, depois de ler a entrevista do seu secretário de Estado, devia pintar-se de preto, embora duvide que houvesse nas freguesias tinta disponível que chegasse para esse efeito. Mas entre todos alguma coisa se haveria de arranjar. Pro bono.
Sinais (44)
"E, para que não restem dúvidas, Paulo Júlio trata de o confirmar, quando admite que as assembleias de freguesia poderão nomear um conselho social que terá "duas ou três pessoas" de modo a prosseguir "aquilo que pode ser o trabalho de proximidade". Ou seja, deixa-se de pagar ao presidente de junta para se pagar aos membros do conselho. Depois, é difícil conceber por que razão a redução de freguesias ajuda a "planear o teritório" ou a "estruturar investimentos". Talvez essa tese faça sentido para a construção de fontanários, mas para os grandes equipamentos talvez façam falta as regiões administrativas - que no projecto do Governo ficarão a marinar" - Editorial, Público, 16/12/2011
Diário irregular
Não há declaração infeliz, aparte ordinário, dito jocoso ou simples calinada que não dê para justificar horas e horas de tempo de antena. Analisa-se o emissor, o perfil, o currículo, as implicações políticas e, depois, espreme-se tudo muito bem a ver se sai algum sumo. Em matéria de informação televisiva e de espaço de debate, seja político ou desportivo, perdeu-se a noção de tempo em televisão. Já não se trata de informar ou debater mas de apenas escaranfunchar. E alguns houve que se especializaram nisso. O que também revela a dimensão do seu carácter e a sua impreparação para desempenharem as funções que exercem nos mais nobres horários televisivos. O despropósito das questões, a forma como estas são colocadas, tantas vezes sibilinamente, não para que o esclarecimento ou a compreensão dos destinatários aumente mas tão-só para melhorar a audiência, o share, encontrar as respostas que se pretende para condicionar quem ouve e vê, e enaltecer o dislate, dando-lhe dimensão e importância nacional, fazem parte dessa forma de fazer jornalismo. Não admira que ande tudo histérico.
Reiniciou-se o período de produção legislativa acelerada. Os ciclos sucedem-se e de cada vez que muda o Governo é isto. Será que esta gente não entende que a estabilização do tecido legislativo é fundamental para o País se poder concentrar numa série de assuntos igualmente importantes a que urge dar solução? Só deixarão marca positiva aqueles que tiverem uma perspectiva de futuro.
O embaixador da Argentina deu uma excelente entrevista ao jornal i. Para lá do bom futebol, do tango, das mulheres deslumbrantes e de uma literatura de nível quase estratosférico pela qualidade dos seus autores, a Argentina continua a ser um daqueles países com muito para dar ao mundo. E tirando aqueles momentos em que vejo os argentinos demasiado parecidos connosco, o que talvez explique a distância em que os nossos dois povos têm vivido, é um daqueles países em que continua a valer a pena acreditar. A forma como saíram do curralito e do curralón e se desenvencilharam da crise de há uma década devia servir para aprendermos alguma coisa.
Daniel Oliveira disse ontem uma frase, a respeito do nosso servilismo perante o FMI e a Alemanha e a vontade que os nossos dirigentes têm de a tudo dizerem ámen, que tem tanto de simples quanto de magnífica: "a credibilidade do devedor mede-se pelos resultados económicos". Os nosso partidos, e em particular os actores políticos, têm dificuldade em entender isto. Por isso perdem tanto tempo a insultarem-se, a discutirem o sexo dos anjos e a bajularem os agiotas em nome da nação.
A selecção e recrutamento das nossas elites continua a dar bons exemplos do que não devia acontecer. A distorção é tal que até gente com alguma preparação e uma qualidade que se trabalhada poderia dar bons frutos se perde em situações caricatas. Tristes e que dão que pensar. Pessoalmente tenho horror a sessões de doutrinação partidária, mas de vez em quando os partidos, e o PS não foge à regra, mandam os seus dirigentes pelo país fora para, sob o pretexto de explicarem os méritos da acção governativa - quando estão no poder -, ou os desafios da oposição - sempre que perdem o poder -, pregarem aos militantes, manterem o tecido partidário mobilizado e tentarem que este se mantenha em sintonia com as posições das respectivas direcções. O caso que ocorreu com o deputado vice-presidente da bancada parlamentar do PS mostra como o actual sistema de partidos está errado. Aliás, o que sucedeu com Pedro Nuno Santos já aconteceu com outros dirigentes e de outros partidos, caso do PSD, do CDS ou do Bloco de Esquerda, e até com autarcas, em reuniões idênticas. Há sempre um jornalista "infiltrado" que aparece depois a fazer o relato do que por lá se disse. Não raras vezes são desmentidos, mas quando há gravação o desmentido é mais complicado. Invariavelmente, os dirigentes quando são apanhados apressam-se a corrigir o sentido da interpretação das suas declarações - no caso vertente risíveis - quando não há nada para esclarecer ou corrigir. Está dito, toda a gente percebeu, foi clarinho como a água, para quê insistir?
Normal seria assumirem o erro, mas não é o que acontece. Em regra, a emenda é pior do que o soneto. Uma vez mais assim foi. E o mais grave nem é a forma tão liminar como a si próprios se desqualificam, aumentando a desconfiança que já existe em relação à classe política. Não há nisso qualquer coragem ou gesto que mereça ser enaltecido. Manuel Alegre equivocou-se quanto a este ponto ainda que lhe fique bem a defesa. O que deve ser sublinhado e condenado não são as declarações infelizes, inócuas e infantis do autor, irrelevantes até pelo número de vice-presidentes da bancada do PS, mas sim que há dirigentes políticos que cândida e publicamente assumem possuir um discurso para dentro do partido e outro para fora. Como se isso fosse normal, politicamente aconselhado ou servisse para alguma coisa.
A duplicidade discursiva, a admissão de diferentes registos consoante as conveniências, um para comensais e crentes e outro para "infiltrados", agnósticos e ateus, constitui uma marca da forma como os partidos são hoje geridos. Do seu fechamento e da pouca conta em que têm os seus militantes ou os destinatários da mensagem. E, a avaliar pela idade desta última "vítima" da comunicação social, mais um sinal de pouca esperança na mudança de mentalidades.
O problema, em rigor, releva mais do foro da ética e da moral. E vem de trás, de muito lá para trás. Ou, se quisermos, mais do exercício da cidadania do que propriamente da politica, que acaba por ser uma extensão daquela onde tudo se reflecte e tem consequências,para nós e para os outros, se não estivermos preparados para a exercermos em bases sãs.
De qualquer modo, não será por isso que deixarei de resistir. E de lutar pela mudança de mentalidades. Dentro e fora das agremiações a que pertenço. Privado é só o que penso, guardo para mim e não exteriorizo. Ou o que se passa para lá da porta da minha casa e que não tem interesse, relevância nem repercussão pública. Tudo o mais é público. E transparente. Dos afectos aos discursos, da crítica ao elogio. Porque só assim nos poderemos conhecer melhor. E reciprocamente nos respeitarmos no consenso e na dissensão.
Normal seria assumirem o erro, mas não é o que acontece. Em regra, a emenda é pior do que o soneto. Uma vez mais assim foi. E o mais grave nem é a forma tão liminar como a si próprios se desqualificam, aumentando a desconfiança que já existe em relação à classe política. Não há nisso qualquer coragem ou gesto que mereça ser enaltecido. Manuel Alegre equivocou-se quanto a este ponto ainda que lhe fique bem a defesa. O que deve ser sublinhado e condenado não são as declarações infelizes, inócuas e infantis do autor, irrelevantes até pelo número de vice-presidentes da bancada do PS, mas sim que há dirigentes políticos que cândida e publicamente assumem possuir um discurso para dentro do partido e outro para fora. Como se isso fosse normal, politicamente aconselhado ou servisse para alguma coisa.
A duplicidade discursiva, a admissão de diferentes registos consoante as conveniências, um para comensais e crentes e outro para "infiltrados", agnósticos e ateus, constitui uma marca da forma como os partidos são hoje geridos. Do seu fechamento e da pouca conta em que têm os seus militantes ou os destinatários da mensagem. E, a avaliar pela idade desta última "vítima" da comunicação social, mais um sinal de pouca esperança na mudança de mentalidades.
O problema, em rigor, releva mais do foro da ética e da moral. E vem de trás, de muito lá para trás. Ou, se quisermos, mais do exercício da cidadania do que propriamente da politica, que acaba por ser uma extensão daquela onde tudo se reflecte e tem consequências,para nós e para os outros, se não estivermos preparados para a exercermos em bases sãs.
De qualquer modo, não será por isso que deixarei de resistir. E de lutar pela mudança de mentalidades. Dentro e fora das agremiações a que pertenço. Privado é só o que penso, guardo para mim e não exteriorizo. Ou o que se passa para lá da porta da minha casa e que não tem interesse, relevância nem repercussão pública. Tudo o mais é público. E transparente. Dos afectos aos discursos, da crítica ao elogio. Porque só assim nos poderemos conhecer melhor. E reciprocamente nos respeitarmos no consenso e na dissensão.
Um nível muito crespo
"Até podemos passar outra vez o homem" - Mário Crespo, SIC-N, ontem pelas 22h e 25m, quando "moderava" um debate entre Pedro Marques Lopes e Daniel Oliveira, ao referir-se às declarações de um deputado.
quinta-feira, dezembro 15, 2011
Sinais (43)
"Pelo menos uma pessoa do PSD: José Biscaia, antigo presidente da Câmara de Manteigas (já aposentado), não demorou a vir a público assumir que ele próprio já fora «indigitado» para aquele posto. «O ministro escolheu-me. Não quero admitir que houve manobras de corredor que tenham influenciado o senhor ministro», lamentou o atual vereador da mesma autarquia" - Visão, 15/12/2011
Paradoxos
Foi, indiscutivelmente, uma das mulheres mais atraentes, caprichosas e belas da história do cinema. Por ela muitos se perderam, outros perderam-se e reencontraram-se. Teve quase tudo aquilo, entre alegrias e desgostos, que se pode ter em vida. Mas nada justifica que num período como aquele que atravessamos, com uma crise económica e financeira de proporções dantescas, com refugiados espalhados um pouco por todo o mundo e milhões que não têm um tecto para se abrigarem ou meios para comer ou vestir, haja alguém no seu perfeito juízo que gaste quantias como as que foram despendidas num leilão de jóias em segunda ou terceira mão. Ou que deixe fortunas de dezenas de milhões a gatos (os gatos depois, com o que lhes sobrar, fazem testamento a favor de quem?). Não sei quantas pessoas podiam ser alimentadas, quantas escolas construídas ou empregos criados com tantos milhões, mas sei que o sofrimento de muita gente poderia ter sido minorado. E também sei que gastar quatro, cinco ou nove milhões de euros numa jóia ou legar quantias dessas a favor de gatos e cães pode dar imenso gozo a quem os tem sem deixar, todavia, de ser um acto abjecto e profundamente obsceno.
E que tal segurá-lo?
Será que alguém pode fazer o favor de dizer a este jovem que está na altura de "pôr-se fino" e de "piar mais fino" antes que a coisa piore?
quarta-feira, dezembro 14, 2011
Não vai ser fácil
Face a tudo aquilo que já foi dito em relação à privatização da EDP, com os concorrentes apurados e em plena corrida, e tendo presentes as ofertas de cada grupo e as declarações dos concorrentes, isto é, as promessas quanto ao futuro, penso que não vai ser fácil arranjar argumentos para afastar os chineses da corrida. Conhecendo o excelente entendimento entre portugueses e chineses noutras circunstâncias, confesso que a minha preferência pende para o lado chinês. Além de serem fiáveis, normalmente não têm pressa, predispondo-se a limar as arestas que forem necessárias até que tudo esteja a contento de todas as partes. E isso é bom quando se trata de pensar no futuro, de salvaguardar os interesses nacionais e de querer fazer bons negócios. Samba e sambistas já cá temos que baste e para meter água chegaram os submarinos.
terça-feira, dezembro 13, 2011
Aguardo explicações adicionais
Bem sei que quem saiu gostava de lançar primeiras pedras e de anunciar projectos grandiosos. O que não invalida que tenham sido feitas algumas coisas que não nos envergonham. A aposta nos automóveis eléctricos pareceu-me ter pernas para andar. Mais convencido fiquei depois de ver alguns membros do anterior Governo deslocarem-se em carros eléctricos. A desistência do projecto de Cacia, nos termos em que foi feita pelos seus responsáveis, um português incluído, deixa muitas perguntas no ar. Atenta a dimensão e importância do investimento que antes foi propagandeado, quer pelo Governo, quer pela Renault/Nissan que a tal se associou, seria bom que este assunto fosse investigado e se percebessem as verdadeiras razões que estiveram na base da decisão. Não acredito que os custos de produção nas restantes unidades do Reino Unido, de França, dos EUA ou do Japão sejam inferiores aos nossos. Espero, por isso mesmo, uma explicação decente por parte do ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, que não só traga alguma luz ao assunto como esclareça que fez o Ministério para evitar este desfecho. Se é que houve oportunidade para fazer alguma coisa. E espero que algum jornalista se interesse pelo caso. Um projecto daquela dimensão está muito para além da simples propaganda ou de uma opção ideológica e diz respeito a todos nós. Sob pena de se isto não for devidamente clarificado o Governo português, qualquer que ele seja, andar a fazer figura de otário. Antes, durante e depois. E isso seria inaceitável numa perspectiva nacional.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

























