quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Sonhar alto

Imagine-se que eu respondia a um anúncio de recrutamento para presidente do conselho de administração de uma empresa em situação económica difícil, que movimentasse milhões  e com potencial técnico e humano internacionalmente reconhecido como sendo do melhor. No anúncio pediam-me para apresentar um programa, a ser executado no prazo máximo de quatro anos, o qual seria submetido à consideração dos accionistas para aprovação, sendo essa uma das provas de selecção. Depois de apreciada a minha candidatura, fui a uma entrevista, recebi os elogios da maioria dos accionistas ao meu programa e foi-me pedido que começasse a trabalhar. Escolhi a minha equipa entre gente da minha confiança, e na primeira assembleia geral foi tudo aprovado nos termos que eu desejava. Tinha, no entanto, um pequeno problema, do qual eu tivera conhecimento atempado e com o qual teria de contar durante o meu mandato. É que no final do mandato da anterior administração, já depois da publicação do anúncio de recrutamento a que eu respondera, foi necessário contrair um empréstimo junto de entidades externas. Não havia hipótese de obter suprimentos internamente e esse empréstimo era necessário para pagar os salários, a luz e a água dos meses seguintes. Durante a entrevista de selecção foi-me perguntado o que pensava eu das condições daquele empréstimo. Foi-me sugerido que desse a minha opinião, uma vez que a seguir, sendo escolhido para o lugar, estar-me-ia destinado cumprir com as condições acordadas. Na altura, pensei que não iria ser fácil, mas convicto das minhas capacidades e da ajuda divina, dei algumas sugestões. Como não queria perder o lugar, ainda que fosse só por quatro anos e sem grandes perspectivas de carreira, manifestei o meu assentimento aos termos propostos e predispus-me, caso fosse seleccionado, a contar com o cumprimento dessa obrigação. Acontece que quando iniciei funções, percebi que a tarefa seria mais complicada do que pensava, pois que tirando um curto período em que ajudei o caseiro do meu tio a gerir a quinta, não tinha qualquer experiência, mas evidentemente não podia dar parte de fraco. Preparei um orçamento, anunciei despedimentos em massa e aumentei os preços dos serviços que a empresa transaccionava. O ambiente tornou-se mais pesado. Os outros membros do conselho de administração, alguns recém-chegados do estrangeiro, andavam completamente aos papéis, mas lá foram todos remando enquanto metiam mais uma bucha, entre pastéis de nata e franguinhos da Guia. À medida que os dias passavam, e muito embora os compromissos fossem sendo cumpridos, a situação agravava-se: alguns sectores começaram a fazer greves, a mercadoria não se escoava, a administração cortou nas folgas, o refeitório fechou e no seu lugar ficou uma máquina de sumos e sandes de uma outra empresa de um dos accionistas que, entretanto, se mudara para a Holanda. Foi então que eu me lembrei de telefonar para uns amigos chineses a pedir-lhes ajuda. Voltaram a não falhar nessa hora difícil e lá apareceram. Entregaram-me uma mão cheia de yuans que muito jeito me deram, mas ao mesmo tempo os meus amigos tiveram a triste ideia de ir visitar alguns ex-administradores que tinham sido dispensados. Uns por incompetência, outros por terem atingido o limite de idade, e outros ainda por terem mau feitio. E resolveram trazê-los de volta para a empresa. Perguntei-lhes qual era a ideia e quem lhes iria pagar. Disseram-me que não me preocupasse. Era por causa de um torneio de matraquilhos. O pagamento não seria comigo nem com a empresa e eles apenas quiseram corresponder ao pedido de um dos meus colaboradores que solicitara o anonimato e entendia que seria conveniente introduzir alguma alegria no trabalho. Calculei quem fosse e não quis fazer-lhes a desfeita. O problema é que na mesma altura me chegou um cliente antigo, primo do Mantorras, que me pediu para lhe dar uma "fatia do negócio" (sic) e, se possível, arranjar colocação a mais dois ou três familiares que queriam vir viver para Portugal porque estavam fartos de ter de sair do Colombo a correr, cheios de sacos, para apanharem um avião para Luanda. Da última vez um deles perdera as leggings que adquirira para uma amiga do Trópico, por causa do reembolso do IVA no aeroporto, e aquilo acabara tudo num pandemónio à chegada quando o desgraçado se apercebeu que o embrulho ficara na Portela junto com as queijadas de Sintra que ele dera ao tipo da segurança para ver se aliviava o excesso de peso na bagagem. Por causa disso ainda hoje um "tio" dela, que trabalhava nos vistos do consulado, continua a dizer aos que lá aparecem que só lhes põe o carimbo nos passaportes se no regresso trouxerem um par das ditas cujas para a fulana. Enfim, lá se arranjaram as coisas, e eu aproveitei a notícia do aumento da produtividade em razão do final das folgas e da abolição do dia da empresa, que se comemorava habitualmente em 5 de Outubro, para convidar uma equipa de um programa de televisão chamado "Tapetes voadores e afins", para vir fazer uma reportagem à empresa, aproveitando a animação provocada pela chegada dos familiares do Mantorras. Estava eu nisto quando me lembrei que tinha uma assembleia geral extraordinária daí a dias. Em causa estava uma eventual reorganização da nossa estratégia de recuperação, de acordo com a proposta de alguns accionistas. Nem queria pensar nisso. Já os tinha aldrabado com o programa que defendera na entrevista de selecção, desculpando-me depois com o encerramento de uma das nossas filiais no Brasil e com as dificuldades do programa informático instalado pela anterior administração, baixara os salários dizendo que a responsabilidade não era minha mas sim do tesoureiro, vendera os camiões da distribuição para poupar nos custos e despedir os motoristas (eram todos comunistas) e cortara na subsidiação das aspirinas e xaropes durante o período das gripes e constipações. Como safar-me na dita assembleia? Pois bem,chegado o dia desfiei o meu rosário: queixei-me da anterior administração, disse que o empréstimo não fora negociado por mim e que houvera uma alteração de circunstâncias - ninguém me perguntou quais - que me fizera abandonar o meu programa. Os números eram incontornáveis. Já havia galinhas mortas debaixo das escadas e nas casas de banho e as fotocopiadoras estavam sem papel. Propuseram-me então reavaliar o programa, renegociar as condições do empréstimo, redireccionar o negócio, voltar a distribuir os nossos produtos. A tudo disse que não. E disse-lhes mais. Disse-lhes que custasse o que custasse o programa, não o que fora aprovado, mas aquele que eu estava a executar, iria ser levado até ao fim. Comigo não havia mudanças, nem renegociações de coisa alguma. Os sacrifícios seriam cumpridos com alegria. E se já havia galinhas mortas a culpa não era minha, quando muito da ASAE que era quem fiscalizava. Que culpa tinha eu que o primo do Mantorras também tivesse trazido um feiticeiro do Huambo, que era quem agora analisava as perspectivas das exportações da nossa empresa, e as usasse para saber qual o caminho que devíamos tomar em função do lado para que ficasse virado o bico delas depois de lhes tirar o sangue para uma cabidela? Nesse momento fui interrompido por um dos minoritários. Um amigo dos meus tempos de militância na jota que passara por um seminário e agora usava fatos castanhos com gravatas lilazes porque era adjunto de um ministro. Bom tipo. E também estafermo desde que passara a ter telemóvel pago pelo gabinete e criara uma base de dados por causa dos números do euromilhões. Vira-se para mim e diz-me que assim vamos ter de fechar a empresa. Os outros olharam-no desconfiados. Eu também. Eu sabia que era uma questão de meses mas não podia dizer-lhes isso. Ainda faltavam dois anos para o Mundial de Futebol e o meu padrinho dissera-me para aguentar. O contacto dele no Rio de Janeiro, um libanês de bigodaça que fora conselheiro de Estado, já lhe tinha garantido que me daria emprego nessa altura. Antes não porque as secretas andavam muito activas e já tinha constado que havia aventais "made in China" com o logotipo da empresa a serem vendidos ao desbarato na Feira da Ladra e na Rotunda do Relógio por uns adeptos do Besiktas que tinham acabado de chegar de Istambul. Coisas do Quaresma. O costume. Vai daí, puxei da minha voz de barítono e disse-lhes: esta empresa não fecha, nós vamos salvá-la. E rematei dizendo, impante, daqui não sai ninguém. Ainda pensei acrescentar "vivo ou morto", mas já não fui a tempo. Vindo das minhas costas, ouviu-se um grito. A sala emudecera. Gelou. Sentiu-se o frisson. Lá atrás, com um facalhão espetado e a pingar numa mão e uma cabeça de porco na outra, a esvair-se em sangue, estava o feiticeiro do Huambo. Tinha uma espécie de orelhas de burro douradas enfiadas no alto da cabeça, e vestia uma tanga de leopardo com setas cor-de laranja de onde pendiam umas fitas verdes e vermelhas. Dos seus olhos esbugalhados, vidrados, saiu uma boca enorme, com os dentes muito brancos, e a frase que me salvou. Recordo-a com emoção. Foi com ela que se encerrou a assembleia geral: "Já não temos galinhas para a cabidela, mas o porco diz-nos que a empresa sobreviverá sem as exportações". Fugiram todos. Até os credores. Até hoje.

Agora estou reformado da vida empresarial. Resolvi sair da minha zona de conforto. Jogo golfe, sou consultor para os países lusófonos e tenho um pequeno negócio de "import-export" para me manter ocupado. Em rigor, exporto leggings para Angola e aventais para o Brasil (era previsível). Na volta recebo divisas, que coloco numa dependência da CGD, nas ilhas Caimão, e vou a programas de rádio e televisão. O feiticeiro, esse, continuo a vê-lo de quando em vez. Deixou de usar tanga e sei que aproveita as horas vagas para organizar workshops com a Maya a pedido do Fisco. Meteu-se na política, conseguiu a nacionalidade e vai ser condecorado.

Obrigado, Maria Flor

A excelente prestação de Maria Flor Pedroso serviu para melhor enquadrar o entrevistado. Não é fácil encontrar vendedores de seguros ou de tapetes com tanta prolixidade, à-vontade, e que se inebriem com tanta facilidade com o seu próprio discurso. Tê-lo como ministro é uma coisa só possível num livro de banda desenhada. Ou em Portugal, como acontece ser o caso. A entrevistadora ainda procurou chamar-lhe a atenção ("O sr. ministro está a ser hábil", ao que o ministro respondeu dizendo que não, "que estava a ser verdadeiro"), trazê-lo à razão, apontar-lhe a realidade. Mas, qual quê, o ministro trazia a cartilha decorada, a arma engatilhada e pronta a disparar sobre tudo o que fosse dito. Não havia nada a fazer. Daquilo que não lhe convém diz nada saber e manda que as perguntas sejam feitas a outros (caso Pedro Rosa Mendes). Noutras vezes atira a responsabilidade para trás das costas, apresentando os factos como irreversíveis (TDT). Ele próprio apresenta-se como um modelo de seriedade, de virtudes e de infalibilidade, de si dizendo ter a "escola da gestão na decisão" (sic). Já ouvi coisas piores, palavrões também, mas na verdade o ministro até é capaz de ter razão. Poucos terão tido tanto sucesso na forma como se chegaram à manjedoura, tiraram partido do sistema e da deméritocracia reinante para gerirem a sua carreira política, obterem um curso a meio do percurso e acederem ao farto mundo dos negócios onde se facturam milhões com um piscar de olhos, o que certamente fará dele um Nobel. Mas o melhor mesmo é ouvir na Antena 1 - a entrevista a Miguel Relvas para poderem fazer o vosso próprio juízo. Há tipos que por mais disfarçados que se apresentem nunca conseguirão esconder a sua pesporrência. Está-lhes na massa do sangue e, pelo que se ouve, aliás, fazem gáudio nisso. Qualquer microfone ou holofote servirá para fazê-la brilhar. E à sua verdadeira natureza. Diz ser amigo do líder do PS. Admito que sim, não tenho razões para duvidar, embora ficasse a pensar para comigo se seria coisa que se aprendesse nas "jotas" ou em Relações Internacionais. António José Seguro lá saberá como  se consegue ser amigo de um tipo assim, sem ser por interesse, e aspirar a governar Portugal.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Nomeações transparentes

GOVPT

Não passa um dia sem que mais um "boy" seja colocado. Que competências e qualificações tem um professor do ensino secundário, da área de engenharia, para dirigir uma Direcção Regional de Economia? Porventura terá muitas competências mas não as indicadas para o lugar. Se pensarmos que esse "boy" é um conhecido militante do PSD a nível regional, que foi presidente de uma Câmara Municipal, das mais pequenas do Algarve, que se recandidatou com o apoio do então líder regional, o deputado Mendes Bota, e levou um cartão vermelho do eleitorado, sendo até agora vereador nessa autarquia, talvez se compreenda a razão de ser da nomeação. E também a razão para que as qualificações e o currículo não tenham qualquer relevância, sendo o cartão do partido a única e decisiva certeza. Estranha-se é que tendo o senhor já tomado posse do lugar no Portal do Governo continue figurar o nome do anterior director regional, com a indicação de ter transitado do anterior governo? A quem se quererá enganar?

Sinais (60)

"A proposta de abolição dos feriados de 5 de Outubro e 1 de Dezembro constitui uma escandalosa afronta do governo aos valores nacionais. Não há coragem para abolir alguns dos muitos feriados religiosos pelo receio de afrontar a Igreja Católica. Também não há coragem para abolir o feriado municipal com receio de indispor as autarquias. Mas quando estão em causa os feriados que representam a independência nacional e o regime republicano, e que deveriam por isso ser absolutamente intocáveis, é o próprio governo que vem propor a sua abolição.
Pessoalmente assisto a isto com uma grande tristeza. Sempre senti profunda admiração pelo heroísmo dos conjurados do 1º de Dezembro que terminaram com a submissão do país a um rei estrangeiro. E não deixa de ser irónico que se termine com as comemorações da república pouco tempo depois de se ter festejado o seu centenário com pompa e circunstância. Se o governo, pela voz do seu ministro da Economia importado do Canadá, entende que não faz sentido comemorar os dias históricos nacionais, há que perguntar por que razão não entrega o país á gestão dos comissários europeus como a Alemanha propôs recentemente à Grécia. Porque com esta proposta de abolição destes feriados a mensagem que se transmite é que já não somos uma república e perdemos a nossa independência. E isso as gerações futuras nunca nos perdoarão." - Luís Menezes Leitão, no i, aqui.

Sinais (59)

"Muito embora não considere o ensino português deficiente, a taxa de abandono escolar no ensino secundário é invulgarmente alta. O motivo é claro: os pais não vêem no ensino grande benefício, numa sociedade que sentem como pouco acolhedora e onde as cunhas serão sempre determinantes.
Ao sucumbir a um 'esquema' político na nova gestão da CGD, o novo governo demonstrou, quase antes de estar constituído, que permanece profundamente arreigado a este mundo de nepotismo ou àquilo que na prática é uma forma de corrupção profundamente enraizada, e que deixa muitas dúvidas relativamente ao progresso económico. Portugal não constitui caso isolado - o caso da Itália ocorre imediatamente à nossa mente, e certamente o da Grécia - pelo que não se pode depositar grande confiança numa mudança de mentalidades" - Jan Dalhuisen, Professor Catedrático da Universidade de Berkeley (Califórnia), do King's College (Londres) e da Universidade Católica Portuguesa, no i, de ontem.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Rolling Stone Itália

A edição italiana da Rolling Stone faz nove anos e atinge o número 100. Como forma de comemorar o evento e para os apaixonados da música italiana, traz uma lista dos 100 discos mais belos dos últimos 50 anos que ainda vai dar que falar. Ela pode ser vista aqui.

Lapsos a mais

Não é por nada, mas a data dos despachos e a da respectiva publicação - 27 de Janeiro - faz-me pensar que há lapsos a mais. Independentemente das razões para as nomeações, que aqui não coloco em causa, se os subsídios não são para serem pagos, pelo menos enquanto durar o programa da troika, por que razão os despachos, que podem ser consultados via internet no original do Diário da República e sem as desagradáveis marcações a vermelho, não tem mais um número a dizer isso mesmo? Se isso fosse feito dissipavam-se muitas dúvidas e eu deixava de receber este tipo de "correspondência" que depois circula por aí e só serve para indispor quem já estava nos serviços e foi brindado com os cortes.
Gabinete da Ministra
Despacho n.º 1210/2012
1 — Nos termos do disposto no n.º 3 do artigo 2.º do Decreto -Lei n.º 262/88, de 23 de julho, nomeio o licenciado Ricardo José Galo Negrão dos Santos, para realizar estudos, trabalhos e prestar conselho técnico ao meu Gabinete no âmbito da área da informática e das novas tecnologias, pelo período de um ano, renovável automática e tacitamente por iguais períodos, podendo a presente nomeação ser revogada a todo o tempo.
2 — Ao nomeado é atribuída a remuneração mensal correspondente a € 3892,82, acrescida dos subsídios de férias e de Natal de igual montante, subsídio de refeição, bem como das despesas de representação fixadas para os adjuntos dos gabinetes dos membros do Governo.
O presente despacho produz efeitos a 1 de janeiro de 2012.
19 de janeiro de 2012. — A Ministra da Justiça,
Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz.                             205646465

segunda-feira, janeiro 30, 2012

Justo destaque

Embora nunca tivesse sido meu professor, lembro-me dele no meu primeiro ano de Direito, pois tive oportunidade de ouvi-lo uma ou outra vez. Mais tarde, a propósito de uma investigação que fiz no âmbito de um mestrado, comecei a acompanhar mais de perto a sua produção científica e, também, a "jornalística". Naturalmente que a forma frontal e cristalina e a justeza de muitas das suas teses, nem sempre consensual, aliada à dimensão enciclopédica dos seus conhecimentos e à sua formação humanista e cívica, granjearam-lhe as merecidas reputação e notoriedade pública. A publicação do Abecedário Simbiótico é mais um passo nesse caminho há tanto trilhado de afirmação do homem e do intelectual. Não é um livro que se leia como um romance. É mais do tipo para se ir lendo e reflectindo, sem pressas, devagar, pelo caminhar dos dias. Afinal a única forma de se ir percebendo e apreciando a beleza das coisas.    

Sinais (58)

" A austeridade que nos estamos a autoinfligir tem dois únicos méritos: a desalavancagem de uma economia demasiado habituada a viver a crédito e a redução da despesa do Estado, que atingiu proporções absurdas na última década. Mas a velocidade a que estamos a tentar atingir esses objetivos está a provocar efeitos colaterais demasiado graves. E, paradoxalmente, vai acabar por pôr em causa a consolidação orçamental. A receita fiscal está condenada a ficar abaixo do previsto pelo Governo". - Ricardo Costa, Expresso, 28/01/2012. 

Sinais (57)

"Sim, é verdade. Tive de me vergar ao Governo da República" - Alberto João Jardim, presidente do Governo Regional da Madeira, em resposta a um jornalista.

A ler

Muitos já escreveram sobre a autárquica aldrabice. Eu também me incluo nesse número e foi com muita atenção que li o texto de Pedro Marques Lopes. Refiro-me ao  artigo do Diário de Notícias que aquele  comentador, assumidamente do PSD e que publicamente confessou apoiar e ter votado nesse partido, hoje fez publicar. Reafirma-se a aldrabice da reforma para "inglês  ver". Pedro Marques Lopes desmascara-a com a incisividade e a honestidade habituais. A direita não são aqueles senhores que transitoriamente ocupam a cadeira do poder. Na direita também há gente séria, gente que pensa e que não vai atrás de cantigas.

sábado, janeiro 28, 2012

Sinais (56)

"Uma outra ‘poll' da Reuters junto de 20 economistas mostra que a economia portuguesa deverá registar uma quebra de 3,2% este ano - pior do que a contracção de 3,1% prevista pelo Banco de Portugal e do que a quebra de 3% antecipada pelo Governo e pela troika - e estagnar em 2013. Na última sondagem realizada em Novembro, os economistas esperavam, em média, uma contracção de 0,9% do PIB no próximo ano." - Diário Económico

sexta-feira, janeiro 27, 2012

Manuel Carvalho da Silva

Durante mais de duas décadas foi o rosto da contestação sindical permanente. Percorreu o país de norte a sul, sozinho, com os seus, às vezes também com os outros. Foi para muitos, durante todo o tempo em que liderou a CGTP, o rosto da desgraça, o mentor da revolta. Irritou muita gente. Outros estar-lhe-ão agradecidos. No intervalo das lutas sindicais aproveitou para crescer como homem. Estudou, doutorou-se. Enquanto liderou falou com todos, com os mais fortes, com os mais fracos, com os mais ricos, com os mais pobres, e também com os outros, com os que vivem abaixo da linha de água. Nunca tive por ele outra  admiração que não fosse a de reconhecer nele um lutador, muitas vezes mesmo pensando que ele estava fora do seu tempo. Ainda hoje creio que assim será em muita coisa. Mas não posso deixar de registar aqui o percurso político e humano de Manuel Carvalho da Silva. Outros enriqueceram no sindicalismo e à custa das lutas sindicais. Ele sai como entrou. Com as convicções de sempre, de mãos e peito aberto, sem medo. Como sempre esteve. Só isso já seria suficiente para merecer duas linhas. Mas numa terra de gente medrosa e onde muitos continuam a ter receio de expor as suas convicções com medo que lhes falte o pão ou que sofram represálias de quem tem a faca e o queijo na mão, é duplamente reconfortante saber que ainda há homens desta têmpera, com carácter. Ainda que quase sempre ele tenha estado num azimute muito diferente do meu. Convém não confundir as coisas. É isso, e só isso, que quero sublinhar aqui.   

Sinais (55)

"PSD e CDS-PP dividem poder na Direcção Regional de Agricultura - Partidos do Governo acedem a lugares-chave à frente das principais instituições da região" - Postal, Semanário Regional, 27/01/2012

Ó Relvas! Então este não era dos vossos?

"Não esperava ter razão tão depressa. Melhor: não esperava que o diagnóstico realizado pelo grupo de trabalho para o serviço público de comunicação social se revelasse tão certeiro tão depressa: é que foi há apenas dois meses que dissemos temer o "modelo de informação que o Governo aparenta defender, por considerarmos que permitirá perpetuar a influência, quando não a interferência, do poder político" na televisão e na rádio públicas. Ora, aí está: por mais justificações pífias que se procurem, não restam muitas dúvidas sobre a relação directa entre um lamentável programa emitido pela RTP a partir de Angola e o fim das crónicas de Pedro Rosa Mendes nas manhãs da Antena 1.

A primeira vergonha começou com a emissão, a partir de Luanda, de um Prós e Contras rebaptizado como Reencontro. Quando conheci o objectivo da produção luandense coreografada por Fátima Campos Ferreira temi o pior - quando assisti à emissão, o pior foi ainda pior. Não fiquei apenas pessoalmente incomodado, senti que a democracia portuguesa saía dali enxovalhada.

Pedro Rosa Mendes, um profundo conhecedor de Angola, foi magistral na sua crítica àquela vergonha. (...)

Por isso não duvido de que Pedro Rosa Mendes não falta à verdade quando revela que lhe foi dito que 'a administração da casa não tinha gostado da última crónica sobre a RTP e Angola'. (...)

Tenho por hábito ser frontal e inconveniente, pelo que não posso fingir que não vejo. E quem, na RTP, deu a cara pelo fim da série de crónicas Este Tempo, que incluía a contribuição de Pedro Rosa Mendes, não foi a administração, pois esta sacudiu rapidamente a água do capote."

"(...) Isso é tanto mais verdade quanto os tempos são de crise e, no país, como disse Rosa Mendes, se instalou "uma noção puramente alimentar da dignidade individual". Ora se isso se traduz em "está caladinho para guardares o trabalhinho", se no país os governos já têm poder a mais, então que não tenham também tanto poder numa área tão sensível como a rádio e a televisão. (...)

"(...) Portugal, infelizmente, não se tem dado ao respeito na sua relação com Angola e com as autoridades de Luanda. O preço que pagamos são humilhações constantes e endoutrinações sobre as virtudes de caminhar de espinha vergada".  

Vale a pena ler os dois textos de José Manuel Fernandes, no Público, de hoje, intitulados, respectivamente, "RTP, episódios de uma eterna servidão" e "Não ganhamos nada com a vassalagem a Angola" . Seis meses bastaram, seis delirantes meses com Miguel Relvas a baralhar e a dar jogo. Foi o suficiente para se acabar o stock de Haze e a pocilga começar a feder. Quem não os conheça que os compre. E falavam eles dos outros...
(imagem "surripiada" no Alto Hama)

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Sete décadas gloriosas

Podia ter sido maior do que o mundo. Podia ter sido presidente da República, rei, princípe, administrador de empresas, maçon, banqueiro, político, sei lá, o que ele quisesse. Mas não foi nada disso. Foi apenas tudo e mais alguma coisa. Para além das botas de ouro, das taças dos campeões europeus, dos campeonatos e das taças de Portugal, foi um excelente professor de geografia e homem como poucos: nas lições de vida, no exemplo, no profissionalismo, na sinceridade, na humildade, nos grandes e nos pequenos momentos da vida. Dele será pouco provável que o ouçamos queixar-se de alguma coisa, menos ainda do valor da sua reforma. Por isso é que setenta anos depois temos todos o dever e também a sorte de podermos festejar os seus setenta anos. O seu nome marcou uma era. Em Portugal há um futebol a.E. e um d.E. Há um antes de Eusébio e um depois de Eusébio. Depois dele nada ficou igual. Por isso podia ter sido tudo. Não quis. Preferiu continuar a ser apenas o Eusébio. E isso, no caso dele, é tudo. O suficiente para fazer dele um imortal. Parabéns, patrício. Que Deus e a Luz te continuem a iluminar.

terça-feira, janeiro 24, 2012

Sem emenda

Já perdi a conta ao número de vezes que o PR teve de vir esclarecer o que tinha dito antes. Uma vez mais escusava ter-se dado ao trabalho. Para dizer o que disse não valia a pena. Porque todos percebemos muito bem o sentido das suas pausadas e ponderadas palavras. Admito que o PR não queira ficar à margem dos sacrifícios exigidos a todos os portugueses. Ninguém quer ficar mal visto aos olhos dos seus concidadãos. Ele não é diferente destes. Mas o ideal seria que quem tem de fazê-lo o fizesse de modo a que não fosse necessário mexer nas suas próprias pensões. Foi o que eu percebi do esclarecimento. Não é por nada, mas creio que isso já tinha ficado bem claro. Isso e mais algumas coisas que não foi preciso esclarecer.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

A ler

O artigo de Pedro Marques Lopes no Diário de Notícias. É a queda de um mito. De latão.

Sinais (54)

"O rigor de sempre deu lugar a uma frase demagógica que podia ter sido dita por qualquer membro do governo de Sócrates. Há cerca de um ano, mais precisamente no dia 12 de Janeiro de 2011, o governo português acordou a tremer com uma notícia do "Financial Times Deutschland" que garantia que Bruxelas tinha preparado um pacote de resgate para Portugal. Mas, nessa mesma manhã, Portugal conseguiu emitir 1200 milhões de euros de dívida pública e o gabinete de Sócrates garantiu que aquela emissão era um momento de viragem. Viu-se..."

"Espero, e acredito, que numa segunda fase promovam crescimento, igualdade de oportunidades, e justiça. Mas até lá, por favor, não falem em sinais que não existem." - Ricardo Costa, Expresso, 21/01/2012  

domingo, janeiro 22, 2012

Orquídea de aço

Gosto de cinema. Gosto de uma história bem contada. O filme de Luc Besson é uma história sem pretensões mas que nos vem recordar a luta dessa flor de aço que é Aung San Suu Kyi e o drama que foram os últimos anos da sua vida, dilacerada entre o amor ao seu povo e a fidelidade ao marido. Michael Aris acabaria por falecer vitimado por um cancro, longe da mulher que sempre amou e que ele ajudou a conquistar o Nobel. Vi "The Lady" numa sala em que eramos apenas dois, longe do barulho e do cheiro das pipocas. O filme de Besson e a excelente interpretação da malaia Michelle Yeoh são um grito contra o esquecimento, um alerta para que não nos esqueçamos do drama daquele povo. Visionar "The Lady" é uma forma de censurarmos os crimes dos militares birmaneses e uma justa homenagem ao estoicismo e à beleza da incansável lutadora.