domingo, dezembro 11, 2011

Regresso ao sol (encoberto)

Ele passara por aquele período de idealismo em que por vezes preludia também a formação dos tiranos, e de tal período não restava nele maior vestígio do que o da larva no insecto alado. Poder-se-ia triturar tudo e depois analisar, sem descobrirmos no seu organismo uma só célula forjada para servir outra coisa que não fazer bons negócios.” – Italo Svevo, Una burla riuscita (tradução de Vasco Gato)    

No seu poema “Ressurreição”, de “Máquina de areia”, o imortal Rui Knopfli escreveu nos idos do primeiro semestre de 1963 que

o regresso ao sol é o regresso
 ao princípio, porque o sol tem
 o brilho novo do princípio
 e as coisas têm o ar estranhamente
 fresco do primeiro dia da criação.

Knopfli foi um génio.

Quem conheça Knopfli e o pequeno texto de Italo Svevo acima transcrito e a seguir leia a entrevista que o ministro Miguel Relvas deu ao Expresso dificilmente não concluirá estar na presença do herói falhado de Svevo. Num novo regresso ao sol. 

Quem, com distanciamento, sem falsidade, e um módico de atenção, se der ao trabalho de ler a entrevista será obrigado a nela ver um tremendo exercício de cinismo, de hipocrisia em estado puro, de umbigismo. A entrevista do ministro Relvas não foge daquele que tem sido o modelo seguido desde que há alguns anos se guindou a posições de poder, se tornou influente na estrutura maçónica e se julgou no dever de dar entrevistas para manifestar o seu “pensamento”.

Com a atenção que o assunto merece – o ministro é um modelo do abrilismo pós-revolucionário de vocação mediática e a entrevista uma pequena “maldade” do jornal que toda sua inteligência desprezou –, vale a pena perceber algumas das suas palavras, em especial porque o ministro Relvas tropeça na sua própria sombra e “percurso”. Normalmente, quando assim acontece, não é preciso ler nas entrelinhas. Basta ler o vertido nas folhas do jornal.

Cinismo porque dificilmente alguém que não estivesse subjugado pela imagem e odor do seu poder actual se predisporia a dizer, tendo ascendido às posições que ascendeu da forma que é por de todos conhecida, em resposta a uma pergunta sobre este Governo, que tem dois slogans – “austeridade e reformas” – que foram bandeira de um anterior governo do PSD chefiado por Durão Barroso, e que o próprio Miguel Relvas e Manuela Ferreira Leite integraram, que a diferença entre os dois está em que este, o actual, “tem uma estratégia”. Tão sibilina frase conduz-nos inevitavelmente a secamente concluir que o Executivo que ele antes integrou, chefiado por Durão Barroso, não tinha estratégia. Foi um equívoco. Bom, mas um equívoco, repare-se, dirigido por “um dos políticos mais notáveis da sua geração”. Sim, ele mesmo, Durão Barroso. Imagine-se agora o que teria sido se não tivesse esse estatuto.

Se Relvas fala verdade quando diz que Durão Barroso, “um dos políticos mais notáveis da sua geração”, conseguiu ser presidente do PSD, vencer eleições, formar governo e a seguir ser escolhido como presidente da Comissão Europeia, sem ter sequer uma estratégia de governo, imagine-se o que seria de Portugal neste momento se o homem não tivesse o currículo que tinha.

Incompreensível é que Miguel Relvas, um espírito superior, não se tenha então importado de fazer parte de um Governo que não tinha estratégia. Que hão-de os portugueses pensar de tal atitude? Serviço público? Só pode ser isso, porque o actual ministro, que ao tempo já o era, poderia ter aproveitado esse tempo para prosseguir os estudo, como fez agora José Sócrates, ou incrementar as relações entre Portugal e o Brasil, com as qualificações que já tinha, mas preferiu servir o País num Governo sem estratégia, atrasando as inadiáveis reformas e permitindo a ascensão de José Sócrates. Quem sabe se não foi por isso que estamos como estamos?        

Temo ser mal interpretado, mas o entrevistado foi o mesmo que logo a seguir referiu que as declarações que o Presidente da República tem feito são uma ajuda para Portugal e representam o lado “modular do nosso sistema político”, complementando o discurso do Governo. O Presidente da República a esta hora já deve estar a pensar entregar as suas poupanças ao mesmo banco com o qual o ministro Relvas fez um “contrato de gestão discricionária” (?) da sua conta bancária.

Esse tipo de discurso deve ser ainda um resquício do lado “facilitador da realidade” que Miguel Relvas atribui a António José Seguro e que o entrevistado, sem rodeios, reconhece ser a o papel da oposição. Da oposição, senhor ministro? E o senhor está de acordo?

Não quero ser provocador, mas se é esse o papel que o senhor ministro Relvas atribui à oposição, como conciliar esse “discurso facilitador da realidade” com o discurso da transparência e da verdade que Passos Coelho reivindicou como seu? O mesmo que, segundo ele, justificou uma vitória eleitoral e a chamada de Miguel Relvas ao Governo?

Compreendo tal atitude por parte de quem humildemente confessou ter “uma vida para além da política”. Não tenho dúvidas. A avaliar pelos amigos que ainda recentemente um semanário refere como sendo os do ministro do outro lado do Atlântico. O que o jornalista do Expresso se esqueceu foi de perguntar ao entrevistado que teria sido dele, sem profissão, emprego ou qualificações relevantes, sem a JSD e a política. Ele que em tempos confessou numa outra entrevista ter saído do Parlamento, homem feito, para ir trabalhar, fazer-se à vida, estudar, ganhar dinheiro. Verdade se diga que o fez muito bem. E com rapidez. Reconheçamos-lhe o “mérito”. De quem já foi “convidado para tanta coisa na vida”, outra forma de, digamos, desenrascanço não seria de esperar.  

Quem me dera poder falar assim. Perceberão que não possa fazê-lo. Nem todos se podem dar ao luxo de ser referenciados nos jornais e revistas como sendo membros influentes de uma poderosa loja maçónica e, ao mesmo tempo, com igual transparência afirmar quando questionado sobre a sua eventual filiação maçónica, que “a vida privada de cada um, a cada um diz respeito”, com a displicência de quem logo a seguir e na mesma entrevista, ao ser perguntado sobre se acha bem “figuras públicas pertencerem a sociedades secretas”, asserção que todos os mais recentes grão-mestres contestam, se permite dizer que “hoje em dia tudo é público”. É? Quem diria? Então por que razão não assumiu sem rodeios a sua filiação maçónica? Ser maçónico diz respeito à vida privada? Há alguma coisa que o envergonhe ou lhe impeça numa sociedade livre e democrática de assumir a sua condição  maçónica?

Eu, ao contrário dele, nunca fui convidado para muita coisa. Diria mesmo que, tirando algumas festas de amigos e conhecidos, nunca fui convidado para nada. Vá-se lá saber porquê. Mas, curiosamente, para a Maçonaria, tal como a Assunção, também fui convidado. Logo eu, um pelintra, fora da política, sem ligações a Angola, ao Brasil, à Zona Franca da Madeira ou a Ângelo Correia e com cada vez menos amigos. É verdade que se posso dizer que se (ainda) não aceitei o convite foi por continuar ingénuo e temer encontrar lá um Relvas. E outros como ele. Todos de avental e sorriso acolhedor para avaliarem as minhas “pranchas”. Manias.

Maria Filomena Mónica, com a elegância que se lhe colou à pele e à escrita, escreveu na sua crónica do Expresso: “a reportagem sobre os empenhos que o “Público” publicou, a 27 de Novembro último, é deprimente. Os portugueses aceitam a cunha como natural, o que corrói a alma, mina o esforço e prejudica a economia. Infelizmente, Portugal nunca foi, nem é, um país meritocrático”. De facto, há coisas terríveis.  

Olhei para mim, vi-me reflectido no espelho que estava ao meu lado. Estranhamente, não foi a minha imagem que apareceu. Por momentos vi-me dentro do fato – terno ou paletó - do ministro Miguel Relvas. Ao lado de Passos Coelho e do seu olhar severo, enquanto lia o embuste perfeito de Italo Svevo. Senti-me transparente, incapaz de dissimular o espanto. Há amizades como a do texto de Svevo, entre Mario e o caixeiro-viajante, que nunca deviam conhecer a luz do dia. Para não nos traírem.

Entre a fantasia e a realidade sempre escolhi a liberdade.

A liberdade, como escreveu o Knopfli, “é a ressurreição”. E eu, se um dia fosse membro de um qualquer executivo, não me atreveria a dizer que “se um dia sair do Governo, sei o que vou fazer”. Não saberia. Não me vejo capaz de ressuscitar. Eu nunca teria a lata de dizer que em 2011 “a figura do ano são os portugueses”. Não entrei na política para agilizar negócios, desdenhar dela ou gozar com os portugueses. E até hoje, embora desconte ininterruptamente para ter uma reforma decente há 22 anos, nunca consegui entregar as minhas “poupanças” à “gestão discricionária de um banco”. Nem sequer uma parte. Quem me dera poder fazê-lo. É que sem o respaldo de uma irmandade, laranja ou outra, a mim, os “irmãos”, cidadãos como eu, dentro ou fora da política, pedem-me contas.

Quem tem uma carreira fora da política, e da função pública, quando sai não consegue recuperá-la. Em particular se der uma entrevista como a do ministro Relvas e não gozar da ajuda de uma “irmandade”, da compreensão de um partido ou das amizades que a política ajudou a criar e cimentar.

Ninguém, em Portugal, que fez da política a sua vida quando ainda usava “cueiros” inicia uma carreira fora da política, à beira dos 40 anos, sem qualificações nem habilitações, no mundo dos negócios, sem tudo o que a política lhe deu. Ter tirado partido disso, enriquecer com isso e não ter a humildade de reconhecê-lo é profundamente aviltante. E pouco sério.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Os palhaços somos nós

Disse do programa o que Maomé não disse do toucinho. Chamou-lhe um "escândalo" e prometeu reformulá-lo porque não passava de uma fraude e de uma "credenciação da ignorância". Entretanto, o rapaz ganhou as eleições neste país desvairado e farto das manigâncias do "socratismo". Os portugueses, palermas e sem alternativa credível, deram-lhe a maioria.

Seis meses volvidos, e depois do actual primeiro-ministro nomear um novo responsável pelo programa que tão desacreditado foi, um tal de Xufre veio dizer que não tem dúvidas de que "o processo deve e vai continuar" e que "um país, por muitas dificuldades que tenha, só começa a sair delas se apostar no seu bem mais precioso, que são as pessoas".

Esta última frase podia ter sido dita por Guterres. Ou por José Sócrates. Mas foi dita pelo tal Xufre, de nome próprio Gonçalo, o homem que Passos Coelho nomeou para presidente da Agência Nacional para a Qualificação. Xufre não só "faz uma avaliação genericamente positiva do programa Novas Oportunidades" como, acrescenta o Público, "da análise que está a ser feita ao Novas Oportunidades já é consensual a ideia de que são necessários novos passos, porque o objectivo foi recuperar para o ensino pessoas e aprendizagens que importava reconhecer". Novos passos? De coelho?

Desconfiado, reli a notícia da página 14 e ainda consegui vislumbrar uma citação, entre aspas, de mais uma frase do homem que Passos Coelho nomeou para acabar com a "credenciação da ignorância": "Esse processo já atingiu o seu pico, o programa é um sucesso, somos vistos como um exemplo por essa Europa fora". Caramba, será que li bem? Parece que sim. O Público refere serem as declarações públicas e terem sido proferidas "no decorrer da cerimónia de entrega de diplomas a cerca de 70 formandos do centro Novas Oportunidades da Secundária Alves Redol, de Vila Franca de Xira". E Gonçalo Xufre ainda esclareceu, para acabar com dúvidas, que "ficou 'convencido' da importância deste processo quando foi convidado por um grupo económico para a entrega de diplomas a cerca de 500 funcionários".

Grupo económico? Quinhentos? Já sabia que há grupos económicos que têm o condão de fazer algumas pessoas ver com outros olhos quando as convidam para qualquer coisa. Também sei que houve quem atribuísse ao PS, por causa desse programa das Novas Oportunidades, o prémio "fraude da década". E até homens sérios e sensatos como os meus amigos do Delito de Opinião, Rui Rocha e João Carvalho, alinharam pelo diapasão de Passos Coelho, criticando e gozando duramente as Novas Oportunidades.

Eu, que sou incréu, desconfiei da excelência e dos defeitos do programa. Antes, durante e depois.

Hoje, após ler as declarações de Gonçalo Xufre, sabendo que estamos a 9 de Dezembro, e não a 1 de Abril, senti remorsos por não ter acreditado logo no que Sócrates dizia. Se gente da confiança de Passos Coelho, nomeada por ele para desmantelar o "escândalo" e acabar com a "credenciação da ignorância", vem dizer, seis meses depois das eleições, que as Novas Oportunidades são "um sucesso", que hei-de pensar dela? E do programa?

Não tenho dúvidas de que entre esta gente haverá pessoas bem intencionadas. E não tenho (ainda) Passos Coelho na conta de um refinado mentiroso ou de um perfeito trafulha (não conto aqui com aquelas cenas, que são mais da categoria do sádico, dos aumentos de impostos e da rejeição do "PEC 4" devido à excessividade dos sacríficios que os "estafermos" dos socialistas queriam impor ao povo português). Mas declarações como as de Gonçalo Xufre ou as do inqualificável Álvaro Santos Pereira, no Parlamento, fazem-me duvidar, ainda mais, da seriedade de quem disse das Novas Oportunidades o que foi dito.

Da competência deles, ou melhor, da sua incompetência, nunca duvidei. Bastava-me saber que os "ex-jotinhas" eram a locomotiva da mudança para perceber qual seria o caminho que nos esperava. Prova-se em cada dia que passa que não era eu quem estava equivocado. Para mal dos nossos pecados. Os palhaços somos nós.  

Sinais (42)

"Com o passar do tempo e o confronto com as medidas tomadas, clarifica-se o conteúdo ideológico de Passos Coelho e a sua intenção política de desarticular o Estado e entregar à plutocracia o que resta. Os exemplos abundam e são diários. Uns, finaceiramente irrelevantes, esmagam moralmente. É o caso do ministro da Economia, que veio voluntariamente para Lisboa mas obteve um subsídio de renda de casa. É legal, mas imoral. Porque ele próprio censurou e acabou com a possibilidade dos velhos viajarem em comboios vazios, pagando apenas metade do bilhete. Porque os funcionários públicos deslocados para trabalharem no país e os mais de 300 mil emigrantes forçados, recentes, não o têm. Porque apra viver bem melhor que os mais de 700 mil desempregados, cujo sofrimento deveria combater com medidas que não toma, não precisa desse subsídio. (...) Passos Coelho ainda não entendeu que a sua estrita visão contabilística poderá proteger o país do aguaceiro presente, mas vai deixá-lo bem mais vulnerável à tempestade do futuro. Nem a escola onde estudou nem a curta experiência de gestão que teve lhe ensinaram que há uma diferença entre o importante e o urgente. Centrou-se no imediato. Abriu-se à plutocracia. É um utilitarista irracional. E não só nos empurra para a penúria, como afirma que esse é o nosso futuro. Se o regime não estivesse podre e a sociedade abúlica, o seu provir seria curto." - Santana Castilho, Público, 07/12/2011 

Sinais (41)

"Quem foi responsável pela concessão da barragem à EDP e quem autorizou a sua construção não foi Passos Coelho nem o seu ministro da Economia, mas há no comportamento dos dois executivos uma mesma mentalidade obreirista e economicista que reduz a riqueza do país a gigawatts ou, no caso a receitas antecipadas que haveremos de pagar com altos juros. (...) O que importou foi concessionar a barragem para obter receitas extraordinárias para o défice. Mesmo que em causa estivesse um aproveitamento que produzirá menos energia do que o simples reforço de potência das barragens do Douro Internacional. À custa do natural interesse da EDP, da irresponsabilidade de José Sócrates e da cumplicidade de alguns autarcas (excepção apra José Silvano, de Mirandela) o Douro Património Mundial corre o risco de perder um dos seus maiores activos" - Editorial, Público, 07/12/2011.

Finou-se

A notícia de uma cisão no Bloco de Esquerda já era aguardada há algum tempo. Tal como eu previra, o resultado de 5 de Junho constituiu a certidão de óbito de um suicídio anunciado e promovido ao longo de meses nos horários mais nobres. A inteligência e a seriedade sempre conviveram mal com o oportunismo serôdio, o apelo mediático e a sobranceria de alguns dirigentes. As coroas deverão ser enviadas ao cuidado de Francisco Louçã e Luís Fazenda.

terça-feira, dezembro 06, 2011

Sinais (40)

"Desde o "congresso da unidade" de Braga que os socialistas, que José Sócrates secara e quase silenciara, mostraram que realmente são os calados os mais perigosos, os que "mordem". A votação do Orçamento esta semana - em que uma cadeia de mails que alguns fizeram chegar aos media mostrava não só a divisão mas sobretudo o poder de pressão que os deputados têm sobre o seu líder - e o movimento - perdão, o manifesto - com que Mário Soares voltou a agitar as águas são apenas os últimos exemplos de que a serapilheira que sustém os gatos do PS estará constantemente a rebentar pelas costuras. E que por mais reuniões para desabafar que mande fazer ou por mais eventos das várias correntes rosa a que vá, como tem feito, António José Seguro não evitará arranhões sucessivos dos muitos que estão com as unhas de fora." - Filomena Martins, Diário de Notícias, 03/12/2011 

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Sinais (39)

"A razão por que os deputados da Madeira votaram a favor do Orçamento [do Estado para 2012], embora com a declaração de voto que os senhores conhecem, é que antes da votação o primeiro-ministro lhes disse - aos deputados do PSD e ao deputado do CDS - que a Zona Franca ia para a frente", afirmou Alberto João Jardim" - Jornal de Notícias, 05/12/2011.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Sinais (38)

"O OE 2012, que acaba de ser aprovado, tem um erro de consolidação de 297,4 milhões de euros num importante quadro-síntese de apuramento do défice público, quadro esse que resulta, em grande parte, dos mapas orçamentais. Algo está errado e o Ministério das Finanças deverá esclarecer onde. Ou nas transferências, e aí é necessário saber qual o valor que necessita de ser corrigido e porquê, ou, se estão certas as transferências, o défice público será agravado nesse montante. Errar é humano, mas este erro é importante não só pelo que pode implicar, mas pelo que revela". - Paulo Trigo Pereira, professor do ISEG, Público, 01/12/2011 

"Questionado pelo Público, o Ministério das Finanças diz que não está em causa nenhum 'erro', mas sim uma 'discrepância', que 'resulta de diferenças de consolidação entre os diversos sectores da administração pública' e que deveria ter sido imputada à linha de transferências entre as administrações públicas". - Rita Faria, Público, 01/12/2011

DIÁRIO IRREGULAR

2 de Dezembro de 2011

Olho para as pessoas que por mim passam na rua. Em todas o mesmo olhar triste. Amargurado. Até nas mulheres bonitas. À crise soma-se o distúrbio provocado pela fotografia da criança francesa que foi enfiada à força dentro de uma máquina de lavar para ser centrifugada. Nem as crianças escapam. À entrevista confessória do "estripador de Lisboa" seguiu-se o sequestro e o roubo a um vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos e a apresentação dos documentos "originais" dos "originais" relativos à licenciatura de José Sócrates. O passado não traz segurança. O presente é cada vez mais incerto. O Estado,a economia, o poder político, a razão de toda a desconfiança.

A senhora Merkel garante que a solução está próxima. Nicolas Sarkozy, com o seu sorriso idiota e andar apalhaçado, acompanha-a. Agora falam em refundação da Europa, em convergência orçamental e disciplina económica. Tudo em nome da solidariedade europeia. No fundo tudo se resume a uma frase: dêem-nos os vossos recursos que nós trataremos de geri-los sem sobressaltos. Nem para nós, nem para vós, acrescentaria eu.

Pouco edificante, como seria previsível, a negociação que afinal não houve sobre o Orçamento de Estado. A forma e a rapidez como alguns políticos passam a si próprios atestados de desqualificação é assustadora. Os acontecimentos verificados durante a apresentação, debate e votação do Orçamento de Estado, os números circenses que alguns voltaram a protagonizar com o à-vontade de quem ainda não percebeu que os tempos mudaram, fazem-me pensar que tudo aquilo que então escrevi mantém actualidade. Não seria possível mudar a composição do Grupo Parlamentar socialista, mas era perfeitamente evitável que nos órgãos nacionais do partido ficassem os mesmos de sempre. A factura de Seguro já começou a ser paga e há erros que a opinião pública e o eleitorado não perdoam. 

A velocidade com que em Portugal caminhamos para o empobrecimento é tal que nos últimos dias me vieram à memória duas frases que marcaram os anos oitenta do século passado. Uma é de um pensador e ensaísta neo-liberal, o francês Guy Sorman, que definiu os regimes socialistas do Leste europeu como sendo "regimes de miséria planificada". O grau de pobreza e de subdesenvolvimento de algumas sociedades comunistas era tão acentuado que Sorman não encontrou melhor forma de defini-los. A outra frase  - há quem discuta se foi efectivamente proferida, mas aquele a quem foi atribuída nunca a desmentiu -não é de um liberal, mas de alguém que foi durante mais de duas décadas o homem mais poderoso do regime chinês, ainda hoje por muitos idolatrado. Foi ele quem iniciou a revolução que conduziu a que um país pobre, isolado e fechado, dominado por comunistas corruptos, se tornasse num dos pilares fundamentais para a sustentabilidade do capitalismo moderno e das economias ocidentais. Refiro-me a Deng Xiaoping. Muita gente sorriu, poucos acreditaram, quando lhe atribuíram a frase "poverty is not socialism, to be rich is glorious". Mais de uma dezena de anos após o seu falecimento, depois dos Jogos Olímpicos passarem por Pequim e numa altura em que as grandes empresas americanas, italianas e alemãs, de produtoras de bens de luxo a empresas de refrigerantes que foram símbolos da Guerra Fria, vendem mais na nova China que nos seus próprios países, tudo parece começar a fazer sentido.

Parece mas não faz. Deng já cá não está para comentar o que se está a passar na Europa nem para nos ajudar a perceber as razões para o que acontece. Duvido que, entretanto, alguém se atreva a perguntar a Sorman qual a solução para o caso português, mas estou ciente de que ele duvidaria das conclusões de Passos Coelho. Quando um primeiro-ministro em funções de um país estruturalmente pobre, e que precisa urgentemente de se modernizar, crescer e desenvolver, diz que uma crise grave como a que atravessamos só será ultrapassável empobrecendo ainda mais, qual o papel que fica reservado à esperança? Se o socialismo era o regime da miséria planificada, o "passismo" só poderá ser entendido como uma estratégia de empobrecimento planificado, assente no desmantelamento do Estado e na asfixia tributária dos cidadãos, destinada a criar a ilusão nos portugueses de que um dia será possível sair da miséria crescendo.

O grave é que a miséria não é um adubo. A miséria espalha-se, pode tornar-se endémica, mas não gera crescimento. E ser pobre e esforçado não é uma glória. Nunca foi. Passos Coelho, que apesar de tudo me parece um tipo normal, devia perceber isto. Não é difícil. Bem sei que as universidades de Verão do PSD não ensinam estas coisas, que por lá só se discutem futuros grandiosos e carreiras brilhantes, ouvem-se discursos eloquentes e grita-se "Soares é fixe". E que poucos laranjinhas pensam quando sentem o cheiro do poder. Mas também considero que seria bom que alguém que saiba alguma coisa sobre a miséria, ou que a ela tenha sobrevivido, lhe devia dizer isso. Dar-lhe umas luzes sobre esse tema. E se for um ex-comunista ou um liberal melhor. Quem sabe se Paulo Portas ou Zita Seabra não estarão disponíveis para isso. Pensando bem seriam as pessoas ideais para terem uma conversinha com o primeiro-ministro. Antes que Vítor Gaspar, para compensar o programa de privatizações do Governo e o fiasco da venda do BPN aos patrões angolanos de Mira Amaral, avance com uma proposta de nacionalização da Servilusa. Para depois poder reprivatizá-la. Não convém dar mais ideias a Miguel Relvas. Na miséria e na morte os grupos de trabalho ainda rendem pouco.   

quarta-feira, novembro 30, 2011

The 10 Best Books of 2011

A fotografia é de Todd St. John e a lista é a conceituadíssima do New York Times. Um livro que se deixe ler com gosto é sempre uma excelente oferta.

UMA TRAPALHADA EM 3D

Como se o que tínhamos não fosse suficiente para deslustrar a actuação de quem criou as "Independentes", de quem lhes deu lastro, de quem lá estudou, e de quem por ali investigou, acusou e arquivou, vem agora mais este figurão de uma galeria digna dos melhores "western spaghetti", em mais um incontornável trabalho do Público, dizer que originais são os dele. São? Mas há originais? Quem me garante que nesta história, desde o seu início, há alguma coisa de original? A mim parece-me tudo contrafeito. E mal. Ninguém, nem nada, se salva desta trapalhada "académica".

terça-feira, novembro 29, 2011

domingo, novembro 27, 2011

O LIVRO DE QUE SE FALA

"A auto-imagem que temos de nós próprios leva, por vezes, a aceitar a afirmação de que o "offshore da Madeira é diferente dos outros". Pura fantasia política para enganar tolos. É parte do sistema mundial de desresponsabilização social, fraude e branqueamento de capitais. Algo que existe se vantagens para a economia portuguesa, antes pelo contrário. Algo que nem impacto tem sobre o desenvolvimento regional do arquipélago" - Carlos Pimenta, Catedrático da Faculdade de Economia do Porto e presidente do Observatório de Economia e Gestão de Fraude

Pode-se sempre esperar mais de uma obra, mas confesso que não deve ser fácil compilar mais informação em termos tão acessíveis. Tem, ademais, o mérito de constituir a primeira investigação ao offshore da Madeira, pondo a nu a aberração que essa coisa é. O livro irritou Alberto João Jardim e é revelador da coragem do seu autor. É, pois, de leitura obrigatória. Se quiser ter um cheirinho do que está lá dentro poderá ouvir a entrevista que o economista João Pedro Martins deu à Antena 1, acessível aqui. Por momentos pensei que o entrevistado estivesse a falar de Angola ou da Somália. Depois percebi que era mesmo connosco.  

sábado, novembro 26, 2011

V FESTIVAL DE ÓRGÃO

Termina hoje em Faro mais um Festival de Órgão, com um espectáculo na Igreja da Sé, pelas 21h 30. O convidado é José L. González Uriol, antigo professor catedrático de órgão e cravo no Conservatória de Saragoça e personagem mundialmente reconhecida como  especialista em Música Antiga de Tecla. Irá interpretar peças de Andrés de Sola, Buxtehude, Johann Kaspar Ferdinand Fischer, Speth, Giovanni Pescetti e Pablo Bruna. O órgão da Sé de Faro data de 1715/16 e foi integralmente revisto em 2006 por Dinarte Machado.
Espero que em próximas edições o Festival possa aumentar o seu prestígio internacional e merecer adequada promoção, a qual, até agora, não tem estado ao nível das interpretações.

sexta-feira, novembro 25, 2011

25 DE NOVEMBRO


"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!” - Salgueiro Maia, 25 de Abril de 1974 

O estado a que chegámos é por estes dias exactamente o mesmo. Só já não temos o Salgueiro Maia. 

SINAIS (37)

"Esta greve é uma prova de vida num tempo em que a relação de forças no mundo laboral se apresenta difusa, quase inorgânica, casuística e, não raro, muito desigual.
Um alerta para o Governo que deve interpretar os sinais desta greve na sua dimensão intrinsecamente humana, que é o que conta por detrás da visão macroscópica da crise. A austeridade exige ainda mais um justo equilíbrio entre personalismo laboral, coesão social, justiça distributiva, sensibilidade familiar e competitivdade económica". - António Bagão Félix, Público, 25/11/2011

quinta-feira, novembro 24, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

24 de Novembro de 2011

A greve é um direito. Para alguns, como o meu falecido avô e distinto anarco-sindicalista do primeiro quartel do século passado, Miguel Maria de Almeida Correia, seria mais um dever. Uma obrigação do operariado quando a degradação das suas condições de vida e de trabalho colocasse em risco princípios básicos de justiça e de liberdade e a sua sobrevivência pessoal e colectiva. Nesta perspectiva, a greve de hoje seria um dever do movimento sindical português do século XXI.

Estamos muito longe das lutas sindicais dos ferroviários portugueses da I República, que foram severamente reprimidas e antecederam a chegada ao poder do movimento que culminou em 28 de Maio de 1926. Mas em causa, então como agora, estavam e estão o desgoverno político e o agravamento das condições de vida dos portugueses. Do que se seguiu a 1926 já nós sabemos. Do que se vai seguir à greve de hoje ninguém sabe. Em qualquer caso, sendo diferentes as condições da democracia naquele final da I República (antes de 28 de Maio já tinham ocorrido golpes e ameaças) das que hoje vivemos, não será difícil pensar que se algo de idêntico acontecesse, já não por força das armas que os tempos são outros, mas por via de uma revolução tecnocrática assente no poder de uma qualquer troika, teríamos uma versão mais moderna, mais cativante e mais bem composta do “Botas”.

O problema é que esse modelo, agora repescado em diversos países, não garante, por esta ordem, uma injecção de confiança nos mercados, uma melhoria da reputação dos governantes, um aumento de credibilidade externa, uma retoma económica que permitisse a reversão dos números do desemprego até um patamar comportável para o Estado e a sociedade e o incremento das exportações, enfim, os instrumentos necessários à ultrapassagem da crise.

Bem pelo contrário. Os exemplos que nos chegam revelam um estado de cegueira global, à semelhança do romance de Saramago, que tendo começado nas grandes instituições financeiras e económicas, alastrou aos mercados, inundou os países e sequestrou a política. Quer isto dizer que neste momento não se afigura provável um qualquer 28 de Maio pela simples razão de que o golpe já aconteceu, está em curso e disseminado por toda a Europa.

Mais grave do que a Fitch ou uma agência chinesa de notação atribuírem a Portugal a classificação de lixo – que muitos milhões de portugueses fazendo fé nas promessas e garantias que lhes foram dadas acreditavam ser impossível de acontecer depois de terem dado a vitória nas presidenciais a Cavaco Silva e de terem elegido Passos Coelho para o lugar do desacreditado e impotente José Sócrates –, é o facto da Alemanha, o farol do Banco Central Europeu e fiel da estabilidade continental, ser incapaz de transmitir aos tais mercados a confiança de que estes necessitariam para arrematarem a totalidade da emissão de dívida que ontem realizou. Ao colocar apenas 60% daquilo que pretendia e a um juro que roça os 2%, os sinos alemães tocaram a rebate. As chamas começam a aproximar-se perigosamente de Berlim e a senhora Merkel se não foi capaz até agora de modernizar o seu guarda-roupa já não terá daqui em diante muitas hipóteses de fazê-lo.

Em parte, o facto das preocupações chegarem à Alemanha poderá parecer-nos, a nós europeus do Sul, uma pequena vingança dos deuses, fartos de nos verem ser tratados pelo acrónimo “pigs” pela “big sister” teutónica e os seus amigos do Norte. Porém, essa aparente satisfação não contribui em nada para resolver o nosso problema, dar mais sentido à greve de hoje, amenizar a amputação dos subsídios de Natal ou os obscenos aumentos de impostos, uns mais às claras outros encapotados, com que o triunvirato Coelho/Gaspar/Relvas nos tem fustigado. De uma forma ou de outra, já que com o Presidente da República, eterno funcionário agarrado às suas reformas e às poupanças que um bando de pantomineiros e criminosos ajudou a fazer crescer, os portugueses sabem que não poderão contar, para além de palavras de circunstância e de boas intenções.

Resta o tal triunvirato. É com ele que teremos de contar, pese embora seja claro que com um primeiro-ministro estagiário, um tecnocrata em comissão de serviço e um especialista em grupos de trabalho doutorado em práticas ocultas e artes várias, ninguém se poderá sentir protegido.

Durante meses a fio os juros subiram. Depois corremos com Sócrates, sem prejuízo de termos ficado com alguns monos plantados em São Bento e no Largo do Rato. Seguiu-se a descoberta dos “buracos” legados pelos anteriores governantes e os que tinham sido devidamente ajardinados pelos sociais-democratas da Madeira. Entretanto, a troika instalou-se, chegaram ordens travestidas de conferências de imprensa, e os peritos em contabilidade pública escolhidos pelo Dr. Coelho apresentaram o OE para 2012. Convencidos de que esse documento era a “Nó Górdio” que nos iria livrar dos terroristas das agências e dos especuladores, os deputados da maioria aprovaram-no sem pestanejar. E sem pensar. Para quem se recorda, a verdadeira “Nó Górdio”, a de Kaúlza de Arriaga, custou-nos os olhos da cara e durou sete meses, deixando no terreno centenas de mortos e milhares de feridos e estropiados.

A operação que está em curso e que levou a que nos fosse atribuída a categoria de lixo (junk) talvez devesse ser apropriadamente chamada “Nó Tróiko”, nome do golpe que o triunvirato Coelho/Gaspar/Relvas, com o apoio do Presidente da República, nos aplicou. Porquê? Porque há coisas de que já temos a certeza neste momento: a “Nó Tróiko” vai ser mais cara do que a original de Kaúlza, vai durar anos em vez de meses e não consegue desalojar os terroristas das suas bases nas agências de rating, permitindo que eles agora nos entrem pela casa. Ficará por apurar o que ainda não conseguimos prever neste momento. Isto é, quantos mortos, feridos e estropiados ficarão pelo caminho. E quando terá lugar um novo 25 de Abril que nos tire este peso de cima e nos devolva a dignidade. Sim, eu sei, não vou tão longe quanto o Luiz Pacheco, não os mando para onde eles mereciam. Mas há uma razão: eu ainda acredito.

Se Ângelo Correia, que é um santo, acreditou em Duarte Lima e depois em Passos Coelho, e a ambos deu a mão, por que razão é que nós, portugueses, que não temos as capacidades dele de prever o futuro, não havemos de dar a mão, ou até as mãos, as duas, ao esforçado Passos Coelho e ao seu primeiro-ministro? Dir-me-ão que Miguel Relvas não tem a preparação de Duarte Lima para poder ser primeiro-ministro. Pois não, não tem. Mas tem amigos. Muitos. Até brasileiros. Eu ainda tenho fé que um deles nos venha safar. Duvido que o outro possa dizer o mesmo.

quarta-feira, novembro 23, 2011

A LER

Os partidos políticos foram fundamentais para a consolidação das democracias contemporâneas. Eles constituem um instrumento incontornável para a realização da democracia, que sem eles não existirá. Não obstante muitos dos dirigentes terem contribuído para o seu descrédito, e em consequência da própria democracia, não foi por causa disso que o seu papel se tornou menos importante. O Marco Lisi, que ao fim destes anos de convivência connosco já é quase português, continua a produzir óptima "literatura" sobre a sua área de investigação e tem contribuído para que nos conheçamos um pouco melhor, dedicando-se àquilo para que muitos académicos não têm tempo nem paciência. Não é o caso dele, que desta vez nos brindou com um estudo sobre os partidos nacionais numa perspectiva comparada, acrescentando-lhe, como ele próprio refere, "uma panorâmica longitudinal sobre a evolução dos partidos portugueses, apresentando dados empíricos sistemáticos sobre os principais partidos". Como português e ex-colega do Marco, só tenho a agradecer-lhe o tempo que tem despendido connosco. E espero que não sendo nós um povo de ingratos saibamos reconhecer-lhe o mérito, o empenho e a qualidade da investigação, encontrando tempo para o lermos e discutirmos as conclusões a que chegou. Pela minha parte, ainda não desisti da ideia de trazê-lo a Faro para nos falar das coisas que ele sabe.  

SINAIS (36)

"Proposta da maioria elimina a obrigação de um parecer prévio do ministro das Finanças nas contratações das regiões autónomas" - Diário Económico

terça-feira, novembro 22, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

22 de Novembro de 2011

Ver é uma das coisas mais baratas da vida. Também uma das que dá mais prazer, mas uma tarefa das mais difíceis para quem não sabe fazê-lo. É mais fácil, mais simples, infinitamente mais cómodo e relaxante simplesmente olhar. Olhar o dia e a noite. Olhar o caminho que se nos depara, olhar a paisagem, olhar a árvore e a floresta. Gosto de olhar. Penso que todos gostamos. Mas não é a mesma coisa que ver. 

Os olhos e o olhar têm sido motivo para muitos e belos textos. Houve mesmo quem poeticamente escrevesse que se poderia perder o olhar e a luz, não a cor e o brilho de alguns olhos. O poeta não o disse, mas para se perder o olhar e não se perder os olhos é preciso ver. Paradoxalmente, dois dos homens que melhor me ensinaram a ver cegaram, o que me remete para um belo texto do poeta e teólogo José Tolentino de Mendonça que a dado passo escreve só isto:

"os teus olhos são o que resta
dos livros sagrados
e da grande pintura perdida" (in De profundis).

Mesmo quando não podem olhar, medir as distâncias ou perspectivar, esses olhos continuam a ver. Vêem na distância. Quando são capazes, sempre que se esforçam. Por isso, um dos homens a quem acima me referi costumava dizer do fundo da sua atroz cegueira, revoltado, que "eles têm olhos mas não vêem". Ele perdeu os olhos, não a capacidade de ver.

Infelizmente vivemos e estamos rodeados de homens e mulheres que não vêem. De gente que há muito perdeu a capacidade de ver e que se limita preguiçosamente a olhar, a seguir os outros com o olhar, a deixar seguir o olhar atrás dos outros. Perigosamente. Ver é uma outra forma de pensar. Pensar dá trabalho, quase tanto como ver. Daí que poucos queiram esforçar-se a ver.

Ver pode ser demasiado incómodo. Porque quando se vê passa-se muitas vezes por cima do olhar. É preciso ignorá-lo. Porque o olhar turva, o olhar modifica as cores, ilude. Para ver é preciso contornar, afastar cortinas, levantar estores, destravar portadas, abrir os olhos e depois de olhar fechá-los lentamente, retendo nesse movimento tudo o que não se pode perder, tudo o que nos irá ajudar a ver. Depois, calmamente, é preciso arrumar o que se vê, situá-lo no tempo e no espaço, memorizá-lo, até que de novo, muito lentamente, as pálpebras comecem a mover-se e os olhos recuperem a claridade. Nesse percurso, silencioso, individual, profundamente solitário, confrontamo-nos connosco. Encontramos os nossos medos e ilusões, por vezes os sonhos de que fugimos. Acima de tudo vislumbramos o contorno perfeito da vida, vemos passar a nossa própria existência, o correr dos anos, o sentido do gesto, a textura da palavra.

Ver é o burilar incessante do que os nossos olhos alcançam. Ver é uma outra forma de buscar a perfeição. A imortalidade.

TURBO

Continuando a ser uma revista imprescindível para quem gosta de automóveis, a Turbo consegue reinventar-se todos os meses. O número de Dezembro não foge à regra. Só que desta vez, para além das rubricas habituais e tomando como pretexto o futuro Alfa 4C, traz um especial Alfa Romeo. A capa é lindíssima e já diz muito sobre o que está lá dentro: a crise está fora das páginas da revista porque lá dentro sonha-se e dá-se as boas vindas ao futuro. Antes que o ministro das Finanças se lembre de criar um imposto especial sobre os sonhos, o melhor é ir comprar a revista e aproveitar. 

O ÓBVIO

O presidente da Comissão Europeia veio hoje dizer que nos mercados financeiros não costuma haver milagres. Pois não, mas também não consta que os santos andem por lá.

segunda-feira, novembro 21, 2011

OXALÁ QUE TENHAM AVISADO O ÁLVARO

(foto de Nuno Ferreira Santos, Público)

Ao saber que o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, anunciou uma previsão ainda mais gravosa da recessão para 2012, com uma contracção do PIB para 3%, só me lembrei de hilariante Álvaro Santos Pereira e do que este afirmou há uma semana quanto ao fim, ou o princípio do fim, da crise em 2012. Espero que desta vez não o tenham deixado ficar à margem das previsões, não vá ele lembrar-se de também corrigir as suas e anunciar-nos o fim da crise já para o Natal deste ano. 

CONTINUA O REGABOFE

O Público noticia em primeira página que o soba da Madeira se prepara para gastar três milhões de euros, que poderão ascender a cinco milhões, em iluminações de Natal. Numa altura de crise como a que atravessamos, é natural que na Madeira se continue a gastar à tripa-forra e que, na sequência da anulação de um concruso público, se promova a adjudicação directa, tanto mais que a empresa adjudicatária - Luzosfera - é pertença de um ex-deputado regional do PSD que por essa via irá receber mais meio milhão de euros do que o valor constante da sua proposta inicial. Nada de escabroso, portanto.
O Público acrescenta ainda que desde 1996 que a empresa desse senhor consegue o negócio da adjudicação das luzes coloridas e que a Luzosfera faz parte do grupo Siram, entidade que é também a responsável pelas campanhas eleitorais do PSD/Madeira. A notícia esclarece que Luís Marques Mendes, o ex-líder do PSD que agora perora regularmente na TVI24, era um dos "empregados" de Sílvio Santos.
Mas para completar a notícia só faltou dizer aos leitores que Marques Mendes e um ex-secretário de Estado do Turismo, também do PSD, entre outras funções, foram vice-presidentes do Grupo Siram SGPS, S.A. e membros da sua Comissão Executiva,  bem como da SIRAM - EWE, Energy, Water & Environment SGPS, S.A, cargos para os quais haviam sido designados em 4/1/2008, conforme é público pela consulta do registo das 179 publicações do Ministério da Justiça, atinentes a empresas do referido grupo.
Tenho a certeza de que este não será mais um lamentável caso de tráfico de influências, mas apenas mais um dos muitos de puro e simples regabofe, o mesmo que Marques Mendes tantas vezes criticou em relação aos governos de José Sócrates, pelo que ficarei à espera que Marques Mendes tenha agora oportunidade de comentá-lo com a mesma desenvoltura com que habitualmente se refere, por exemplo, às SCUT e às PPP, num dos seus próximos programas.
E, já agora, que esclareça essa especial apetência do grupo SIRAM para dar emprego a ex-governantes ou ex-deputados do PSD quando ficam desocupados. Transparência, pois claro.

domingo, novembro 20, 2011

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA SEM PEDIR LICENÇA

Miguel Relvas é o homem que manda neste momento em Portugal” – Clara Ferreira Alves, Eixo do Mal, 20/11/2011

NÃO SE ESQUEÇAM DELE NO DEZ DE JUNHO, NÃO HÁ AVENÇAS QUE PAGUEM OS SEUS PRÉSTIMOS

Miguel Relvas, actual ministro do Governo de Passos Coelho, colaborou com o Banco Efisa do grupo BPN antes de este ter sido nacionalizado. Relvas era então deputado do PSD e apoiou uma operação financeira com o Brasil. O ex-presidente do Efisa diz que Relvas o ajudou a abrir algumas portas”;
Antes da nacionalização, o então deputado Miguel Relvas intermediou para o Banco Efisa, do grupo BPN, um negócio da ordem de 500 milhões de dólares, que envolveu o município do Rio de Janeiro, Abdool Vakil, ex-presidente do Efisa, confirmou ao Público que Relvas, na altura membro da bancada parlamentar do PSD, o ajudou ‘a abrir portas no Brasil’, mas o actual ministro explica que a sua colaboração ocorreu sempre ‘no quadro’ da Kapaconsult, onde era administrador, e que teve um único cliente: o banco de negócios do BPN-Efisa”
“Em declarações ao Público, Abdool Vakil, o ex-presidente do Banco Efisa, começou por dizer que “o dr. Miguel Relvas nunca trabalhou com a Efisa”. Mas inquirido sobre se o então deputado prestou directamente consultoria ao banco, disse: ‘Isso já é verdade’. Vakil acrescentou que ‘o dr. Miguel Relvas prestou serviços muito úteis, pois abriu-nos portas no Brasil, mas nunca foi quadro do grupo’. ‘Ele tinha muitos conhecimentos no Brasil e que eram importantes para quem quer fazer negócio e abriu-nos portas’, especificou. O ex-presidente da Efisa e ex-administrador do BPN lamentou que Relvas, cujas relações com altas esferas da política e dos negócios brasileiros são conhecidas – tendo mesmo contacto directo com o ex-ministro de Lula da Silva José Dirceu – ‘esteja agora muito ocupado e sem tempo para os amigos”’.
“Formado em Relações Internacionais, Miguel Relvas (…) No seu curriculum, apresenta-se como gestor e consultor de empresas. Antes da nomeação para o Governo, o nome do actual ministro surgia já ligado a várias entidades, como seja o Conselho de Curadores da Fundação Luso-Brasileira, criada por João Rendeiro.”
(…)
“Relvas é o responsável pela área da comunicação do Governo que tem em mãos um dossier polémico (BPN) herdado do executivo anterior e que já gerou um prejuízo para o erário público de cinco mil milhões de euros. A venda da área comercial do banco ao BIC continua por resolver, assim como o Banco Efisa.” – Público, 19/11/2011

E ALBERTO JOÃO JARDIM SABE?

 PSD-Madeira está tecnicamente falido e já devia mais de 4,5 milhões em 2008” – Público, 19/11/2011

O SUBSÍDIO DAVA JEITO PARA A MULTA

No dia em que tomou posse como ministro da Administração Interna (21 de Junho), Miguel Macedo, na qualidade de secretário-geral do PSD, foi multado pelo Tribunal Constitucional em 3600 euros e o partido numa coima de 65 mil, devido a irregularidades da estrutura da Madeira nas contas relativas a 2006, entre as quais a inclusão de 3,9 milhões da subvenção recebida da assembleia regional, um ‘financiamento público desprovido de suporte legal” – Público, 19/11/2011

MAL? NÃO, NEM PENSAR. PARA O RELVAS FOI PRO BONO E A MALTA DIVERTIU-SE A LER O RELATÓRIO E A OUVIR PAULO PORTAS

O sr. Ministro Relvas que já várias vezes conseguiu embaraçar o Governo com declarações fora de propósito, resolveu nomear uma comissão para avaliar o serviço público que a RTP presta, a 300 milhões de euros por ano (mais do que recebem, por exemplo, a Câmara de Lisboa ou a Câmara Municipal de Loures). Embora nessa comissão estivessem amigos meus, sempre achei que a coisa ia por força acabar mal.” – Vasco Pulido Valente, Público, 19/11/2011

ENTÃO E AGORA? A JSD NÃO QUERERÁ PROCESSÁ-LO? AO DANIEL NÃO, A CAVACO SILVA

A Associação Empresarial Portuguesa decidiu construir um parque de exposição em Santa Maria da Feira. Agora, os bancos executaram o aval do Estado a este projecto de 35 milhões. Porque Cavaco Silva, quando era primeiro-ministro, comprometeu dinheiros públicos no empreendimento de Ludgero Marques”.- Daniel Oliveira, Expresso, 19/11/2011

O MELHOR É AGILIZAR O NEGÓCIO COM O RELVAS; É LICENCIADO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Não cheguei a acordo sobre essa matéria” – Mira Amaral, 19/11/2011, a propósito do BPN

“ASSUNÇÃO: ISTO É CONSIGO?”

 Ministério poupadinho? O ministério que quis ser dos primeiros a dar um exemplo de poupança, autorizando os funcionários a irem trabalhar sem gravata durante os meses de Verão para assim reduzirem o consumo de ar condicionado, é o que tem os assessores de imprensa mais bem pagos do Governo. Acima até, dos do primeiro-ministro. Contradições do poder…” – Gente, Expresso, 19/11/2011

SERÁ QUE RAJOY PODERÁ FACILITAR OS NEGÓCIOS COM A MALTA DO BRASIL QUE NÃO CAIU NO MENSALÃO?

Ao Expresso, o ministro da Presidência não só dá de barato a eleição de Mariano Rajoy, amanhã, para o cargo de primeiro-ministro de Espanha, como não esconde o entusiasmo do Governo de Lisboa: “Não encaramos a vitória de Rajoy como um mero pro forma. É algo que vemos com alegria” – Expresso, 19/11/2011

RICARDO: VÊ LÁ SE METES ESTE GAJO NA ORDEM ANTES QUE O RELVAS O CONVIDE PARA UM GRUPO DE TRABALHO

Este Governo tem um método peculiar de pôr a debate as suas opções políticas, em especial as mais polémicas: primeiro faz uma lista de nomes favoráveis às suas posições de princípio, depois indica-os para um grupo de trabalho e a seguir, se não lhe convém, desvaloriza publicamente o trabalho desse grupo.”
(…)
Mal o relatório foi conhecido, já o ‘Público’ noticiava que o Executivo não iria aceitar a sugestão de se acabar com a RTP Informação. Em seguida, o ministro da tutela, Miguel Relvas, teve que vir em defesa da informação da estação do Estado, maltratada de forma implícita num relatório feito de banalidades e preconceitos, não contra os defeitos do atual, mas contra a existência de qualquer serviço público. Por fim, a proposta de fusão da RTP-África e da RTP-Internacional num canal único concebido como ‘um instrumento de política externa’ na dependência do MNE – ‘a bem da Nação’ como indicou na TSF o lastimável porta-voz do grupo, João Duque – recebeu do jornalista Paulo Portas o que parece ser rejeição frontal do ministro Paulo Portas. Em menos de dois dias, o Governo reduziu a lixo o relatório em que, durante dois meses, o grupo esforçou ingloriamente as meninges”
(…)
“Não é um departamento fácil em tempo de vacas magras. Mas o menos que se espera é que o ministro Álvaro complique ainda mais a sua situação com intervenções alheias ao mais elementar tato político. Em quatro meses, são tantas as gaffes que Passos Coelho já deve rezar para que o seu superministro fique calado.” – Fernando Madrinha, Expresso, 19/11/2011.  

TELEFONEM AO PINTO DA COSTA QUE ELE DÁ-LHE UMAS LIÇÕES

Ele não tem falta de experiência política. Tem falta de experiência de vida” – Deputado do PSD, Expresso, 19/11/2011, a propósito d’ “o Álvaro”.

“PROJECTO PESSOAL”? ENTÃO ISSO DIZ-SE?

E há aqui um ponto de divergência ideológica essencial: eu sou a favor de um serviço público de televisão a sério, enquanto que desconfio que, entre os elementos do grupo de trabalho (com excepção dos que se demitiram et pour cause) não há ninguém que defenda tal coisa com convicção: eles foram escolhidos quase a dedo por isso mesmo”
(…)
“A ideia da privatização é um projecto pessoal do ministro Miguel Relvas e aquilo que me espanta é que ele possa ir avante, com a tranquilidade dos factos consumados, sem nenhuma discussão séria na sociedade, no Parlamento ou até no Governo. Quem, digam-me lá quem, é que sente necessidade de mais televisão generalista?” – Miguel Sousa Tavares, Expresso, 19/11/2011

SERÁ MAIS UM PROBLEMA DE COMUNICAÇÃO?

Presidente da República incrédulo com proposta de redução de salários no privado” – Público, 19/11/2011

PORQUE NÃO ME OUVISTE, MANUEL?

Houve ali um momento em que devia ter ido para casa” – Manuel Alegre, 19/11/2011, SIC

SINAIS (35)

"Ruas assegura que as dívidas do Estado às autarquias passam os 100 milhões de euros e contradiz Miguel Relvas"

"O ministro dos Assuntos Parlamentares tinha dito no Parlamento que a dívida era de 50 milhões de euros" - Público, 18/11/2011 

sábado, novembro 19, 2011

SINAIS (34)

"O ministro da Economia é o elo mais fraco do Governo" - António Saraiva, presidente da CIP, no congresso da organização a que preside

sexta-feira, novembro 18, 2011

58º GRANDE PRÉMIO DE MACAU

É este fim-de-semana, a não perder, como sempre, onde quer que se esteja. Para já fiquem com a magia de Tom Coronel no Circuito da Guia e não fiquem inebriados com o cheirinho da borracha.

SINAIS (33)

"Estou desiludido com o Presidente e com o Governo" - Belmiro de Azevedo, no matutino "i"

quinta-feira, novembro 17, 2011

HABEMUS NANNI!

Finalmente, entre nós e com legendas, a última obra-prima de Nanni Moretti, tal como eu a havia apresentado aqui, em Abril. Estreará dia 24 de Novembro.

MUITO BEM, ADOLFO

Nada como assumir as suas próprias convicções. Perante as inenarráveis linhas que constam do relatório, confesso que este é o tipo de atitude que esperava de um deputado da nova geração e que chegou à política sem vícios. Os tipos são tão fundamentalistas e obcecados que não enxergam o disparate. Parafraseando Mao Tse Tung, que floresçam mil Adolfos, da direita à esquerda. 

quarta-feira, novembro 16, 2011

ET VOILÀ

Primeira página do L'Équipe de hoje, 16 de Novembro. Não têm nada que agradecer. Foi um prazer.

E AGORA É ARRUMAR A CASA


PORTUGAL - 6     BOSNIA-HERZEGOVINA -2

Uma vitória com sabor especial e que, espero, deverá ser convenienemente digerida por Carlos Queirós e Scolari, o tal que dizia que devíamos estar mal habituados.

terça-feira, novembro 15, 2011

AS VOLTAS QUE A VIDA DÁ

Não deixou de ser curioso ouvir, na última emissão do programa da TVI24 de Judite de Sousa e Medina Carreira, o presidente da Associação de Bancos, o prof. António Sousa, falar de nacionalizações e queixar-se de que os banqueiros não gostaram de ver um projecto de diploma destinado a regular a sua recapitalização com partes em branco. Quem diria que os bancos, depois de terem andado durante décadas a engordar e a imporem cláusulas leoninas a particulares e empresas, não raras vezes obrigando-os a darem avales e a assinarem letras em branco, que os bancos depois livremente preenchiam contra a vontade dos mutuários, quando entendessem conveniente e com os montantes que eles próprios decidiam, cláusulas e documentos que só muito recentemente começaram a ser declarados ilegais pelos tribunais e ainda assim com a oposição desses mesmo bancos, se venham agora queixar do mesmo, isto é, de não saberem qual será a factura final a pagar ao Estado que vai entrar com a massa. Independentemente da razão que lhes possa assistir quanto a esse ponto específico, e assiste, não há nada como os bancos provarem do seu próprio veneno para descerem à terra. Talvez assim seja possível recuperar algum do equilíbrio  perdido nas últimas décadas nas relações entre a banca e os seus clientes menos abonados que foram obrigados a recorrer aos seus serviços para fazerem face às contigências da vida.

THE IDES OF MARCH

Com uma realização de grande nível e um elenco do melhor, onde pontificam, para além do próprio realizador e actor George Clooney, os nomes de Ryan Gosling, Philip Seymour-Hoffman, Paul Giamatti - que ainda recentemente esteve no Lisbon and Estoril Film Festival, tendo dado uma excelente entrevista - e a sempre belíssima Marisa Tomei, acompanhada por uma banda sonora irrepreensível, The Ides of March 

será seguramente um dos filmes do ano. Numa viagem aos bastidores das primárias nos Estados Unidos da América, tema actualíssimo numa altura em que começam as movimentações e os debates para as presidencias que aí vêm e se volta a discutir a sua introdução nos estatutos do Partido Socialista, e num estilo que até certo ponto o aproxima de Eastwood, Clooney questiona a forma como se faz política nos dias de hoje, o modo como se ascende ao poder e se fazem as escolhas dos homens que mandam, não deixando de criticar a hipocrisia e o neo-conservadorismo de uma certa sociedade norte-americana que teima em ignorar a realidade circundante. Um grande filme político, imprescindível para quem se interessa pela coisa pública e anda na, ou pensa vir a fazer, política em Portugal.    

DO RELATÓRIO ENCOMENDADO PELO MINISTRO RELVAS, APÓS 3 DEMISSÕES


"5. Os trabalhos deste GT decorreram num período de intensa actividade no âmbito dos operadores de serviço público, por força da sua inclusão, pela primeira vez, no Orçamento de Estado, obrigando a tutela a intervir e a dar explicações públicas. Nesse sentido, a «aprovação do plano de sustentabilidade económica e financeira da RTP» (PSEF) pelo Governo, no passado dia 24 de Outubro, alterou as condições de elaboração do relatório do GT. Ao declarar oficialmente que pretende «salvaguardar a “marca RTP” enquanto referencial histórico-cultural» e ao anunciar, desde já, a decisão de manter um canal generalista “não-residual” de informação e entretenimento, o Ministro-Adjunto e dos Assuntos Parlamentares fez suas as propostas do PSEF da RTP, incluindo a de que «a RTP continuará a sua actividade num mercado altamente concorrencial, não podendo abdicar de objectivos de audiências [que] garanta[m] as receitas de publicidade que lhe[s] estão associadas» (pág. 7 do PSEF). Esta declaração de princípios ultrapassa largamente o âmbito temporal do plano, para 2012, do mesmo modo que o empenho político num canal de informação da RTP, hoje chamado RTP Informação, pode corresponder a uma estratégia governamental para a sua instrumentalização.


6. Em consequência das declarações e factos ocorridos neste período, o GT teme em especial pelo modelo de informação que o Governo aparenta defender, por considerarmos que permitirá perpetuar a influência, quando não a interferência, do poder político, quer na televisão e na rádio públicas, quer na agência de notícias. Parece-nos por isso perniciosa a orientação pressuposta no PSEF quanto às modalidades do serviço de informação do operador público e quanto à definição do modelo institucional e seus canais, assim como quanto à continuação da publicidade, que não só prejudica todo o sector, como inevitavelmente contamina os conteúdos e a programação.


7. Considerando-se ultrapassado nas suas funções, o GT ouviu do Sr. Ministro que, quaisquer acções suas neste contexto, nomeadamente as relativas ao PSEF da RTP e ao seu comunicado a este propósito, se referiam exclusivamente ao horizonte temporal de 2011-2012 e que, por isso, em nada feriam a missão deste GT; e que, ao lidar com a redefinição de serviço público, o GT iria produzir um conjunto de recomendações, agora consubstanciadas neste Relatório, que seriam elemento essencial da definição da política e actuação futura do Governo neste domínio. Nesse sentido, o Grupo de Trabalho resolveu contornar os condicionalismos expostos e prosseguiu a preparação deste documento como prova do seu serviço.


32. Em resumo, consideramos que, em Portugal e em 2011, se deve considerar como serviço público de comunicação social aquele e só aquele que cria e distribui à população conteúdos que contribuem para a formação das pessoas e para o seu enriquecimento cultural, impulsionados, estruturados e distribuídos sob supervisão pública e resultando de uma gestão racional e proporcionada dos recursos públicos.
(...)
56. A actual visão de que é preciso o Estado produzir informação como garante do pluralismo não faz sentido nem na TV nem rádio, como não faz sentido na imprensa escrita, dado que esse pluralismo é garantido pelo próprio funcionamento do mundo da comunicação social em democracia. Os serviços informativos do Estado devem, em consequência, limitar-se aos serviços indispensáveis ao equilíbrio da programação dos diferentes canais e à garantia da expressão das minorias presentes na sociedade.
Em resumo, o Grupo de Trabalho manifesta a esperança de que se alcance finalmente uma informação nos operadores públicos livre da intervenção ilegítima ou eticamente reprovável do poder político.

57. Consideramos que a decisão, apresentada no programa do actual governo, de alienar a concessão de um canal de TV do Estado, não prejudica à partida as missões de serviço público a que o Estado está comprometido. A eventual redução dos canais do Estado de dois para um permitiria reestruturar o canal subsistente de acordo com os princípios, valores e recomendações quanto a conteúdos aqui enunciados.
(...)
64. Quanto à RTP África e à RTP Internacional, consideramos que o Estado deve manter um serviço internacional, nos termos adiante indicados em 3.5. A falta de meios e a falta de empenho do operador público nestes canais levaram a que o primeiro deixasse de ser um canal de carácter nacional e que o segundo se transformasse numa montra totalmente desajustada do Portugal de hoje. Consideramos que o serviço deve realizar-se em apenas um canal, o que é suficiente para manter e desenvolver a presença externa do país e exponenciar o que melhor for produzido no operador público e também, como vem acontecendo, com conteúdos dos operadores privados.
(...)
66. Consideramos que a decisão de privatizar a concessão de um canal generalista do Estado pode ter consequências indesejáveis para os operadores privados. O Estado deve pois encontrar a melhor forma de conciliar os interesses dos cidadãos e o uso regrado dos seus impostos com a necessidade de preservar um tecido empresarial viável no sector da comunicação social, única forma de garantir uma oferta plural e abrangente. Nesse sentido, consideramos que o Governo deve ponderar o timing
das medidas que vier a tomar, procurar soluções de privatização que não ponham em causa as condições em que a concorrência se processa neste mercado, devendo ainda acautelar cuidadosamente os interesses do Estado num qualquer novo contrato de concessão.
(...)
81. O Estado tem sido o principal accionista da única agência nacional, por não haver recursos ou interesse na sociedade para uma agência privada; por não haver apetite dos accionistas privados em assumirem o controle total da agência; mas também pela ligação do trabalho jornalístico à política externa e, inevitavelmente, pelo interesse dos governos em poderem dispor, em cada momento, de um canal de difusão rápido e generalizado das mensagens que pretendem passar. Assim, na agência de notícias têm convivido, por um lado, um trabalho jornalístico normal e em parte único e de interesse público; por outro lado, a instrumentalização directa por parte do governo do momento, no sentido de influenciar a agenda política e colocar as suas mensagens. Esta última utilização da agência pelo poder político é condenável e de novo implica a utilização de recursos públicos para propaganda.

82. Consideramos aconselhável reformular o modelo institucional da agência de modo a impedir a sua utilização ilegítima ou eticamente reprovável pelo poder político e também de forma a prevenir uma confusão entre missões jornalísticas e de política externa. Idealmente, o controlo da agência devia ser assumido pelos seus accionistas privados, seguindo um modelo muito comum noutros países e sem prejuízo de o Estado manter um contrato de prestação de serviços públicos e a respectiva comparticipação financeira
."

Das conclusões:"Os objectivos estratégicos do serviço internacional serão definidos pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, que para o efeito criará uma funcionalidade adequada, que terá a incumbência principal de definição, coordenação, acompanhamento de execução do contratoprograma, incluindo a parte financeira, quer no montante alocado quer no controle das despesas".

Para ler na íntegra em http://static.publico.pt/docs/media/relatorioGTCS_141111.pdf

SÓ AO PRESIDENTE PODIA LEMBRAR

Como bem notou esta manhã o viajante e surfista Gonçalo Cadilhe, aos microfones da TVI24, ir aos Estados Unidos da América, que é uma "terra de oportunidades", dizer que "Portugal é uma terra de oportunidades", como fez o Presidente da República, é quase a mesma coisa que ir ao Nepal dizer que temos neve na Serra da Estrela.

SINAIS (32)

"E ontem, foi a vez de Álvaro Santos Pereira cair em tentação: "2012 será um ano determinante para Portugal e para a economia portuguesa", pois "certamente irá marcar o fim da crise e será o ano da retoma para o crescimento de 2013 e 2014". E caso alguém estranhasse, o ministro vincou:"Que não exista qualquer dúvida!" - Editorial, Diário de Notícias, 15/11/2011

segunda-feira, novembro 14, 2011

ADORO ESTA LINGUAGEM "IMPLEMENTADORA"

Foi hoje publicada em Diário da República a Resolução n.º 46/2011, do Conselho de Ministros. Desta vez é a criação de um Grupo de Projecto para as Tecnologias da Informação e da Comunicação que está em causa. Estranho que o ministro Miguel Relvas não o tenha anunciado perante as câmaras das televisões. Mas da leitura do texto percebe-se que, entre outras coisas, se destina a "implementar as medidas contidas no plano global estratégico que lhe caibam realizar directamente" e "acompanhar e assegurar a correcta e atempada implementação das medidas do plano global estratégico que fiquem a cargo de outras entidades". O Conselho de Ministros determinou ainda que "a implementação das medidas contidas no plano global estratégico será efectuada pelos membros da Rede Interministerial TIC, criada pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 109/2009, de 2 de Outubro". Com tanta implementação em tão poucas linhas, não admira que fique na dependência do gabinete do Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares. O homem, para além de um doutoramento em "agilização",  deve ter também um mestrado em "implementação". A gente é que não sabe. 

UM SENHOR

"Mas eu não gostava, aliás, ninguém do meu bairro gostava do Sporting. Sabem porquê? Porque era um clube de elite, um clube da polícia, que não gostava das pessoas de cor, era racista!Mas os meus amigos queriam lá ir treinar e um dia lá fomos e jogámos todos na mesma equipa contra os que lá estavam: acabámos com aquela porcaria [risos]! Demos uns sete ou oito e já não voltámos a casa a pé, mas na carrinha Volkswagen do clube".

"Depois, já em Portugal, três meses depois de me verem a treinar no campo do Campo Grande, os do Sporting viram que eu era bom. Pensaram: "Como é que agora vamos descalçar esta bota?" Inventaram o rapto. Eu nem do Sporting de lá gosto, quanto mais do de cá. Tudo o que hoje sou é graças a mim, aos meus colegas e ao Benfica. Fui melhor jogador do mundo, melhor marcador do mundo, da Europa, fiz tudo, só não ganhei um Mundial". 

sexta-feira, novembro 11, 2011

A PARTIR DE AGORA SERÁ SEMPRE COM ELES

A aprovação do Orçamento de Estado é uma excelente notícia. A partir deste momento o passado ficou definitivamente a pertencer ao passado. Tudo o que acontecer daqui para a frente será da responsabilidade do triunvirato Passos Coelho, Gaspar, Relvas. Por esta ordem, como resultou do debate parlamentar. Execução orçamental, controlo do défice, futuros buracos, números do desemprego, computadores "Magalhães", as melhoras de Hugo Chávez, as privatizações, os desmandos do offshore da Madeira, e tudo o que mais houver, será com eles. No fim, também serão eles, e Paulo Portas e a sua gente, que lá por estar longe não passará despercebido, quem terá de prestar contas. Agora é que a gente vai ver se eles serão capazes de enterrar a "herança socratista" e construir alguma coisa ou se "o Álvaro" vai continuar de lápis atrás da orelha a fazer a contabilidade da mercearia.

COMEÇOU MAL

Pois é, começou mal, uma vez mais, começou muito mal o Congresso dos Advogados. E mais lamento dizê-lo, senhor Bastonário, porque a senhora ministra da Justiça, ao contrário de V. Exª ou do senhor do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, esteve muito bem. Há muitas maneiras de dizer as coisas, mas só há um caminho para se mudar alguma coisa: o do respeito, do bom senso, do diálogo e da contenção verbal.  

quinta-feira, novembro 10, 2011

TRÊS MOMENTOS QUE FALAM POR SI

1º momento: Uma secretária de Estado dependente do ministro Miguel Relvas quis justificar a trapalhada do atraso na discussão do Orçamento de Estado dizendo peremptoriamente que o Governo entregara a proposta das Grandes Opções do Plano ao Conselho Económico e Social em 8 de Outubro. Um ex-ministro do PSD, a presidir a tal Conselho, desmentiu-a de imediato. Na sequência desse atraso, a Comissão de Orçamento e Finanças suspendeu uma reunião anteriormente agendada porque o documento que era suposto ser apreciado só lhe chegou na manhã do dia 26 de Outubro. Por essa razão a discussão do Orçamento de Estado só hoje começou. Quando confrontado com o facto o ministro Miguel Relvas desvalorizou-o, esquecendo que houve unanimidade por parte de todos os partidos quanto à necessidade de adiamento por ter sido desrespeitado pelo Governo um requisito constitucional.

2º momento: Há quatro dias, o ministro Miguel Relvas, aproveitando um almoço de homenagem ao presidente da Câmara de Cascais, elogiou a atitude do PS relativamente ao Orçamento de Estado, sublinhando-a como positiva e construtiva e mostrou-se disponível para analisar as propostas que fossem apresentadas, sendo que a mais importante das que se anunciava era a relativa à devolução de um dos subsídios aos funcionários públicos e reformados. Antes  mesmo de se iniciar a discussão do Orçamento na Assembleia o ministro veio dizer que não havia margem de negociação nessa matéria e que não havia nenhuma "almofada".

3º momento: Sem que terminassem os trabalhos e fosse apresentado qualquer relatório, três membros de um dos grupos de trabalho que o ministro Relvas nomeou apresentaram a sua demissão. Esse grupo destinava-se a estudar o serviço público de televisão e os trinta por cento que "desertaram" foram João Amaral, Francisco Sarsfield Cabral e Felisbela Lopes. O primeiro alegou razões pessoais, a terceira justificou a demissão com a proposta de redução do serviço de informação do canal público. O segundo, ex-director de informação da Rádio Renascença, personalidade sobejamente reputada, respeitada e de reconhecida seriedade, foi ainda mais directo e disse que se demitia devido à “falta de sentido que foi apresentar o plano de reestruturação da RTP quando ainda o grupo de trabalho não tinha terminado as suas propostas”.

terça-feira, novembro 08, 2011

SINAIS (31)

"A ausência de diálogo entre o Governo e os bancos no que respeita à intervenção estatal no sistema financeiro está a gerar uma reacção negativa por parte de responsáveis do sector, que temem ainda que as condições fixadas para o recurso à linha de recapitalização venham a configurar um quadro de quase nacionalização, algo que Passos Coelho tinha dito que não faria. Fontes do sector representadas na Associação Portuguesa de Bancos (APB) admitiram ao PÚBLICO que as relações com o executivo entraram agora numa nova fase, pautada por "desconfiança"" - Público, 08/11/11.

segunda-feira, novembro 07, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

7 de Novembro de 2011
Caminhamos a passos largos para o Natal. Não são passos tão escorreitos como os que damos para a nossa recuperação económica, que em grande parte depende mais das condições que os mercados externos estejam dispostas a proporcionar-nos do que do servilismo que Vítor Gaspar e Passos Coelho sejam capazes de demonstrar aos senhores da troika. Mas tão ou mais importante do que dar alguns passos para responder às exigências da troika e sanearmos as nossas contas públicas seria bom que também fossemos dando alguns passos, tímidos que fossem, no sentido da recuperação da qualidade da democracia, das nossas instituições, da credibilidade da política e de uma cultura cívica decente. Há quem continue a esforçar-se por isso, é certo, os resultados é que não aparecem. Bem pelo contrário.
Os exemplos que antes nos chegavam de cima eram maus pela sobranceria e pesporrência. E por nos remeterem a uma condição aparentada à de um idiota. Os senhores que passaram agora a marcar a agenda continuam a esbugalhar os olhos quando falam às televisões para nos convencerem da inevitabilidade das suas propostas. Se deixámos de ser tratados como idiotas, passámos agora a ser vistos como parolos aos olhos dos estrangeirados de Bruxelas, de Vancouver ou da Avenida da Liberdade. Mas tão ou mais inevitáveis quanto a falta de sentido das obscenas propostas que vão fazendo ao país, é a depressão permanente que elas contêm, a natureza estouvada que apresentam.
Poderia ser mais do que isso. Lamentavelmente não é. À cegueira sucedeu uma conjugação infeliz de amadorismo, inexperiência e ignorância. De quem se predispôs a assumir o poder em condições particularmente graves e difíceis sem ter consciência da sua impreparação. Ou, numa variante benigna, tendo-a convenceu-se de que os seus dotes oratórios e meia dúzia de grupos de trabalho seriam suficientes para disfarçar a frivolidade das suas ambições, estudar as questões e apresentar soluções pertinentes. 
Os portugueses, os que acreditaram, os que ainda em Junho deram os votos a Passos Coelho e Paulo Portas, e todos os que não lhes tendo dado os votos nem acreditado invadirão as ruas na próxima semana, numa sucessão de greves e manifestações de que já não havia memória desde os tempos do fenecimento cavaquista, não percebem como é possível ter saído José Sócrates e entrar esta colecção de jarras e corifeus que, para além de se dedicar a constituir grupos de trabalho destinados a ocupar os amigos e a estudar os problemas que já deviam estar estudados antes de terem ido a votos, dá continuidade à política de nomeação de afilhados, mistifica concursos públicos e processos de privatização, convida os portugueses a emigrarem como forma de reduzir os números do desemprego e a despesa do Estado, ao mesmo tempo que promove a venda dos computadores “Magalhães” popularizados pelo antecessor. Ver Paulo Portas na Venuezela, dita bolivariana e revolucionária, de braço dado com os homens do demagogo populista Hugo Chavéz – o tal que era amigo do José e agora também é dele, não deixa de ser irónico. Para quem tão duramente criticou os negócios venezuelanos de Sócrates, Portas veio apenas confirmar o que Carvalho da Silva sempre disse: que para a medíocre direita deste país o dinheiro não tem cor nem ideologia e que se for preciso trocar valores por dólares e engolir alguns sapos o seu chefe de fila será o primeiro a fazê-lo, se necessário invocando o interesse nacional. Não tivesse Kadahfi caído e ainda teríamos Paulo Portas a tomar chá numa qualquer tenda beduína com o infeliz facínora de Sirte.
Tudo isto aconteceu num curtíssimo espaço de tempo. Tudo isto aconteceu com o mesmo desplante com que se anunciaram aos portugueses desvios orçamentais de milhares de milhões de euros sem que se identificasse a origem e o responsável por cada um desses desvios. E com o mesmo cinismo com que com o ar mais infeliz do mundo se disse ser inevitável o corte nos subsídios de férias e de Natal e nas pensões de reforma. Ainda ontem Marcelo Rebelo de Sousa perguntava como poderá o País acreditar amanhã num ministro das Finanças que com a mesma candura com que diz não haver margem para introduzir alterações às suas propostas orçamentais se predispõe a negociar com a oposição e a rever uma medida que vale cerca de mil milhões de euros. É a história de Pedro e do lobo repetida por vários ministros, e até pelo próprio primeiro-ministro, em diferentes versões.
Diferentes versões porque estamos na presença de um guião escrito a várias mãos por amadores temerários. Gente que para dar credibilidade ao enredo juntou aos habituais figurões do charlatanismo político e empresarial alguns académicos e ingénuos bem-intencionados, seguidistas míopes e daltónicos por convicção. Enfim, gente em quem os portugueses têm confiado. E que, vê-se, poderão continuar a confiar.
Ainda há quem esteja convencido de que para fazer bom vinho basta juntar uvas, convidar os amigos e passar uma semana na quinta do padrinho a provar as garrafas das colheitas anteriores. Daqui a uns anos, se não for tarde e o Prof. Medina Carreira ainda cá estiver para lhes explicar, os portugueses perceberão qual o custo de terem dado as melhores vindimas aos meninos que levaram os anos entre as minis do bar da faculdade, a ociosidade dos cafés da Avenida de Roma e os contactos na sede do partido para adquirirem, entre outras coisas, a honorabilidade que lhes permitisse ganhar estatuto e poder.
Qualquer homem experiente sabe que não se começa uma casa pelo telhado. Como não se conhecem elites capazes saídas de um aviário. Porque o frango, mesmo de fraque e perfumado, se um dia chegar a galo terá sempre aquele sabor enjoativo a aviário. A vida muda-se. O sabor dos frangos de aviário não. E havendo males que vêm por bem, não há nada como uma boa crise para ajudar o remediado a distinguir os frangos.