domingo, dezembro 11, 2011

Subscrevo

Contudo, ele e as suas ideias estão aí. Nesta época de desnorte e incerteza em que o chão parece fugir-nos debaixo dos pés, precisamos como nunca de reconhecer e valorizar as nossas melhores referências: Gonçalo Ribeiro Telles é uma delas.” – Fernando Madrinha, Expresso, 10/12/2011

Regresso ao sol (encoberto)

Ele passara por aquele período de idealismo em que por vezes preludia também a formação dos tiranos, e de tal período não restava nele maior vestígio do que o da larva no insecto alado. Poder-se-ia triturar tudo e depois analisar, sem descobrirmos no seu organismo uma só célula forjada para servir outra coisa que não fazer bons negócios.” – Italo Svevo, Una burla riuscita (tradução de Vasco Gato)    

No seu poema “Ressurreição”, de “Máquina de areia”, o imortal Rui Knopfli escreveu nos idos do primeiro semestre de 1963 que

o regresso ao sol é o regresso
 ao princípio, porque o sol tem
 o brilho novo do princípio
 e as coisas têm o ar estranhamente
 fresco do primeiro dia da criação.

Knopfli foi um génio.

Quem conheça Knopfli e o pequeno texto de Italo Svevo acima transcrito e a seguir leia a entrevista que o ministro Miguel Relvas deu ao Expresso dificilmente não concluirá estar na presença do herói falhado de Svevo. Num novo regresso ao sol. 

Quem, com distanciamento, sem falsidade, e um módico de atenção, se der ao trabalho de ler a entrevista será obrigado a nela ver um tremendo exercício de cinismo, de hipocrisia em estado puro, de umbigismo. A entrevista do ministro Relvas não foge daquele que tem sido o modelo seguido desde que há alguns anos se guindou a posições de poder, se tornou influente na estrutura maçónica e se julgou no dever de dar entrevistas para manifestar o seu “pensamento”.

Com a atenção que o assunto merece – o ministro é um modelo do abrilismo pós-revolucionário de vocação mediática e a entrevista uma pequena “maldade” do jornal que toda sua inteligência desprezou –, vale a pena perceber algumas das suas palavras, em especial porque o ministro Relvas tropeça na sua própria sombra e “percurso”. Normalmente, quando assim acontece, não é preciso ler nas entrelinhas. Basta ler o vertido nas folhas do jornal.

Cinismo porque dificilmente alguém que não estivesse subjugado pela imagem e odor do seu poder actual se predisporia a dizer, tendo ascendido às posições que ascendeu da forma que é por de todos conhecida, em resposta a uma pergunta sobre este Governo, que tem dois slogans – “austeridade e reformas” – que foram bandeira de um anterior governo do PSD chefiado por Durão Barroso, e que o próprio Miguel Relvas e Manuela Ferreira Leite integraram, que a diferença entre os dois está em que este, o actual, “tem uma estratégia”. Tão sibilina frase conduz-nos inevitavelmente a secamente concluir que o Executivo que ele antes integrou, chefiado por Durão Barroso, não tinha estratégia. Foi um equívoco. Bom, mas um equívoco, repare-se, dirigido por “um dos políticos mais notáveis da sua geração”. Sim, ele mesmo, Durão Barroso. Imagine-se agora o que teria sido se não tivesse esse estatuto.

Se Relvas fala verdade quando diz que Durão Barroso, “um dos políticos mais notáveis da sua geração”, conseguiu ser presidente do PSD, vencer eleições, formar governo e a seguir ser escolhido como presidente da Comissão Europeia, sem ter sequer uma estratégia de governo, imagine-se o que seria de Portugal neste momento se o homem não tivesse o currículo que tinha.

Incompreensível é que Miguel Relvas, um espírito superior, não se tenha então importado de fazer parte de um Governo que não tinha estratégia. Que hão-de os portugueses pensar de tal atitude? Serviço público? Só pode ser isso, porque o actual ministro, que ao tempo já o era, poderia ter aproveitado esse tempo para prosseguir os estudo, como fez agora José Sócrates, ou incrementar as relações entre Portugal e o Brasil, com as qualificações que já tinha, mas preferiu servir o País num Governo sem estratégia, atrasando as inadiáveis reformas e permitindo a ascensão de José Sócrates. Quem sabe se não foi por isso que estamos como estamos?        

Temo ser mal interpretado, mas o entrevistado foi o mesmo que logo a seguir referiu que as declarações que o Presidente da República tem feito são uma ajuda para Portugal e representam o lado “modular do nosso sistema político”, complementando o discurso do Governo. O Presidente da República a esta hora já deve estar a pensar entregar as suas poupanças ao mesmo banco com o qual o ministro Relvas fez um “contrato de gestão discricionária” (?) da sua conta bancária.

Esse tipo de discurso deve ser ainda um resquício do lado “facilitador da realidade” que Miguel Relvas atribui a António José Seguro e que o entrevistado, sem rodeios, reconhece ser a o papel da oposição. Da oposição, senhor ministro? E o senhor está de acordo?

Não quero ser provocador, mas se é esse o papel que o senhor ministro Relvas atribui à oposição, como conciliar esse “discurso facilitador da realidade” com o discurso da transparência e da verdade que Passos Coelho reivindicou como seu? O mesmo que, segundo ele, justificou uma vitória eleitoral e a chamada de Miguel Relvas ao Governo?

Compreendo tal atitude por parte de quem humildemente confessou ter “uma vida para além da política”. Não tenho dúvidas. A avaliar pelos amigos que ainda recentemente um semanário refere como sendo os do ministro do outro lado do Atlântico. O que o jornalista do Expresso se esqueceu foi de perguntar ao entrevistado que teria sido dele, sem profissão, emprego ou qualificações relevantes, sem a JSD e a política. Ele que em tempos confessou numa outra entrevista ter saído do Parlamento, homem feito, para ir trabalhar, fazer-se à vida, estudar, ganhar dinheiro. Verdade se diga que o fez muito bem. E com rapidez. Reconheçamos-lhe o “mérito”. De quem já foi “convidado para tanta coisa na vida”, outra forma de, digamos, desenrascanço não seria de esperar.  

Quem me dera poder falar assim. Perceberão que não possa fazê-lo. Nem todos se podem dar ao luxo de ser referenciados nos jornais e revistas como sendo membros influentes de uma poderosa loja maçónica e, ao mesmo tempo, com igual transparência afirmar quando questionado sobre a sua eventual filiação maçónica, que “a vida privada de cada um, a cada um diz respeito”, com a displicência de quem logo a seguir e na mesma entrevista, ao ser perguntado sobre se acha bem “figuras públicas pertencerem a sociedades secretas”, asserção que todos os mais recentes grão-mestres contestam, se permite dizer que “hoje em dia tudo é público”. É? Quem diria? Então por que razão não assumiu sem rodeios a sua filiação maçónica? Ser maçónico diz respeito à vida privada? Há alguma coisa que o envergonhe ou lhe impeça numa sociedade livre e democrática de assumir a sua condição  maçónica?

Eu, ao contrário dele, nunca fui convidado para muita coisa. Diria mesmo que, tirando algumas festas de amigos e conhecidos, nunca fui convidado para nada. Vá-se lá saber porquê. Mas, curiosamente, para a Maçonaria, tal como a Assunção, também fui convidado. Logo eu, um pelintra, fora da política, sem ligações a Angola, ao Brasil, à Zona Franca da Madeira ou a Ângelo Correia e com cada vez menos amigos. É verdade que se posso dizer que se (ainda) não aceitei o convite foi por continuar ingénuo e temer encontrar lá um Relvas. E outros como ele. Todos de avental e sorriso acolhedor para avaliarem as minhas “pranchas”. Manias.

Maria Filomena Mónica, com a elegância que se lhe colou à pele e à escrita, escreveu na sua crónica do Expresso: “a reportagem sobre os empenhos que o “Público” publicou, a 27 de Novembro último, é deprimente. Os portugueses aceitam a cunha como natural, o que corrói a alma, mina o esforço e prejudica a economia. Infelizmente, Portugal nunca foi, nem é, um país meritocrático”. De facto, há coisas terríveis.  

Olhei para mim, vi-me reflectido no espelho que estava ao meu lado. Estranhamente, não foi a minha imagem que apareceu. Por momentos vi-me dentro do fato – terno ou paletó - do ministro Miguel Relvas. Ao lado de Passos Coelho e do seu olhar severo, enquanto lia o embuste perfeito de Italo Svevo. Senti-me transparente, incapaz de dissimular o espanto. Há amizades como a do texto de Svevo, entre Mario e o caixeiro-viajante, que nunca deviam conhecer a luz do dia. Para não nos traírem.

Entre a fantasia e a realidade sempre escolhi a liberdade.

A liberdade, como escreveu o Knopfli, “é a ressurreição”. E eu, se um dia fosse membro de um qualquer executivo, não me atreveria a dizer que “se um dia sair do Governo, sei o que vou fazer”. Não saberia. Não me vejo capaz de ressuscitar. Eu nunca teria a lata de dizer que em 2011 “a figura do ano são os portugueses”. Não entrei na política para agilizar negócios, desdenhar dela ou gozar com os portugueses. E até hoje, embora desconte ininterruptamente para ter uma reforma decente há 22 anos, nunca consegui entregar as minhas “poupanças” à “gestão discricionária de um banco”. Nem sequer uma parte. Quem me dera poder fazê-lo. É que sem o respaldo de uma irmandade, laranja ou outra, a mim, os “irmãos”, cidadãos como eu, dentro ou fora da política, pedem-me contas.

Quem tem uma carreira fora da política, e da função pública, quando sai não consegue recuperá-la. Em particular se der uma entrevista como a do ministro Relvas e não gozar da ajuda de uma “irmandade”, da compreensão de um partido ou das amizades que a política ajudou a criar e cimentar.

Ninguém, em Portugal, que fez da política a sua vida quando ainda usava “cueiros” inicia uma carreira fora da política, à beira dos 40 anos, sem qualificações nem habilitações, no mundo dos negócios, sem tudo o que a política lhe deu. Ter tirado partido disso, enriquecer com isso e não ter a humildade de reconhecê-lo é profundamente aviltante. E pouco sério.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Os palhaços somos nós

Disse do programa o que Maomé não disse do toucinho. Chamou-lhe um "escândalo" e prometeu reformulá-lo porque não passava de uma fraude e de uma "credenciação da ignorância". Entretanto, o rapaz ganhou as eleições neste país desvairado e farto das manigâncias do "socratismo". Os portugueses, palermas e sem alternativa credível, deram-lhe a maioria.

Seis meses volvidos, e depois do actual primeiro-ministro nomear um novo responsável pelo programa que tão desacreditado foi, um tal de Xufre veio dizer que não tem dúvidas de que "o processo deve e vai continuar" e que "um país, por muitas dificuldades que tenha, só começa a sair delas se apostar no seu bem mais precioso, que são as pessoas".

Esta última frase podia ter sido dita por Guterres. Ou por José Sócrates. Mas foi dita pelo tal Xufre, de nome próprio Gonçalo, o homem que Passos Coelho nomeou para presidente da Agência Nacional para a Qualificação. Xufre não só "faz uma avaliação genericamente positiva do programa Novas Oportunidades" como, acrescenta o Público, "da análise que está a ser feita ao Novas Oportunidades já é consensual a ideia de que são necessários novos passos, porque o objectivo foi recuperar para o ensino pessoas e aprendizagens que importava reconhecer". Novos passos? De coelho?

Desconfiado, reli a notícia da página 14 e ainda consegui vislumbrar uma citação, entre aspas, de mais uma frase do homem que Passos Coelho nomeou para acabar com a "credenciação da ignorância": "Esse processo já atingiu o seu pico, o programa é um sucesso, somos vistos como um exemplo por essa Europa fora". Caramba, será que li bem? Parece que sim. O Público refere serem as declarações públicas e terem sido proferidas "no decorrer da cerimónia de entrega de diplomas a cerca de 70 formandos do centro Novas Oportunidades da Secundária Alves Redol, de Vila Franca de Xira". E Gonçalo Xufre ainda esclareceu, para acabar com dúvidas, que "ficou 'convencido' da importância deste processo quando foi convidado por um grupo económico para a entrega de diplomas a cerca de 500 funcionários".

Grupo económico? Quinhentos? Já sabia que há grupos económicos que têm o condão de fazer algumas pessoas ver com outros olhos quando as convidam para qualquer coisa. Também sei que houve quem atribuísse ao PS, por causa desse programa das Novas Oportunidades, o prémio "fraude da década". E até homens sérios e sensatos como os meus amigos do Delito de Opinião, Rui Rocha e João Carvalho, alinharam pelo diapasão de Passos Coelho, criticando e gozando duramente as Novas Oportunidades.

Eu, que sou incréu, desconfiei da excelência e dos defeitos do programa. Antes, durante e depois.

Hoje, após ler as declarações de Gonçalo Xufre, sabendo que estamos a 9 de Dezembro, e não a 1 de Abril, senti remorsos por não ter acreditado logo no que Sócrates dizia. Se gente da confiança de Passos Coelho, nomeada por ele para desmantelar o "escândalo" e acabar com a "credenciação da ignorância", vem dizer, seis meses depois das eleições, que as Novas Oportunidades são "um sucesso", que hei-de pensar dela? E do programa?

Não tenho dúvidas de que entre esta gente haverá pessoas bem intencionadas. E não tenho (ainda) Passos Coelho na conta de um refinado mentiroso ou de um perfeito trafulha (não conto aqui com aquelas cenas, que são mais da categoria do sádico, dos aumentos de impostos e da rejeição do "PEC 4" devido à excessividade dos sacríficios que os "estafermos" dos socialistas queriam impor ao povo português). Mas declarações como as de Gonçalo Xufre ou as do inqualificável Álvaro Santos Pereira, no Parlamento, fazem-me duvidar, ainda mais, da seriedade de quem disse das Novas Oportunidades o que foi dito.

Da competência deles, ou melhor, da sua incompetência, nunca duvidei. Bastava-me saber que os "ex-jotinhas" eram a locomotiva da mudança para perceber qual seria o caminho que nos esperava. Prova-se em cada dia que passa que não era eu quem estava equivocado. Para mal dos nossos pecados. Os palhaços somos nós.  

Sinais (42)

"Com o passar do tempo e o confronto com as medidas tomadas, clarifica-se o conteúdo ideológico de Passos Coelho e a sua intenção política de desarticular o Estado e entregar à plutocracia o que resta. Os exemplos abundam e são diários. Uns, finaceiramente irrelevantes, esmagam moralmente. É o caso do ministro da Economia, que veio voluntariamente para Lisboa mas obteve um subsídio de renda de casa. É legal, mas imoral. Porque ele próprio censurou e acabou com a possibilidade dos velhos viajarem em comboios vazios, pagando apenas metade do bilhete. Porque os funcionários públicos deslocados para trabalharem no país e os mais de 300 mil emigrantes forçados, recentes, não o têm. Porque apra viver bem melhor que os mais de 700 mil desempregados, cujo sofrimento deveria combater com medidas que não toma, não precisa desse subsídio. (...) Passos Coelho ainda não entendeu que a sua estrita visão contabilística poderá proteger o país do aguaceiro presente, mas vai deixá-lo bem mais vulnerável à tempestade do futuro. Nem a escola onde estudou nem a curta experiência de gestão que teve lhe ensinaram que há uma diferença entre o importante e o urgente. Centrou-se no imediato. Abriu-se à plutocracia. É um utilitarista irracional. E não só nos empurra para a penúria, como afirma que esse é o nosso futuro. Se o regime não estivesse podre e a sociedade abúlica, o seu provir seria curto." - Santana Castilho, Público, 07/12/2011 

Sinais (41)

"Quem foi responsável pela concessão da barragem à EDP e quem autorizou a sua construção não foi Passos Coelho nem o seu ministro da Economia, mas há no comportamento dos dois executivos uma mesma mentalidade obreirista e economicista que reduz a riqueza do país a gigawatts ou, no caso a receitas antecipadas que haveremos de pagar com altos juros. (...) O que importou foi concessionar a barragem para obter receitas extraordinárias para o défice. Mesmo que em causa estivesse um aproveitamento que produzirá menos energia do que o simples reforço de potência das barragens do Douro Internacional. À custa do natural interesse da EDP, da irresponsabilidade de José Sócrates e da cumplicidade de alguns autarcas (excepção apra José Silvano, de Mirandela) o Douro Património Mundial corre o risco de perder um dos seus maiores activos" - Editorial, Público, 07/12/2011.

Finou-se

A notícia de uma cisão no Bloco de Esquerda já era aguardada há algum tempo. Tal como eu previra, o resultado de 5 de Junho constituiu a certidão de óbito de um suicídio anunciado e promovido ao longo de meses nos horários mais nobres. A inteligência e a seriedade sempre conviveram mal com o oportunismo serôdio, o apelo mediático e a sobranceria de alguns dirigentes. As coroas deverão ser enviadas ao cuidado de Francisco Louçã e Luís Fazenda.

terça-feira, dezembro 06, 2011

Sinais (40)

"Desde o "congresso da unidade" de Braga que os socialistas, que José Sócrates secara e quase silenciara, mostraram que realmente são os calados os mais perigosos, os que "mordem". A votação do Orçamento esta semana - em que uma cadeia de mails que alguns fizeram chegar aos media mostrava não só a divisão mas sobretudo o poder de pressão que os deputados têm sobre o seu líder - e o movimento - perdão, o manifesto - com que Mário Soares voltou a agitar as águas são apenas os últimos exemplos de que a serapilheira que sustém os gatos do PS estará constantemente a rebentar pelas costuras. E que por mais reuniões para desabafar que mande fazer ou por mais eventos das várias correntes rosa a que vá, como tem feito, António José Seguro não evitará arranhões sucessivos dos muitos que estão com as unhas de fora." - Filomena Martins, Diário de Notícias, 03/12/2011 

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Sinais (39)

"A razão por que os deputados da Madeira votaram a favor do Orçamento [do Estado para 2012], embora com a declaração de voto que os senhores conhecem, é que antes da votação o primeiro-ministro lhes disse - aos deputados do PSD e ao deputado do CDS - que a Zona Franca ia para a frente", afirmou Alberto João Jardim" - Jornal de Notícias, 05/12/2011.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Sinais (38)

"O OE 2012, que acaba de ser aprovado, tem um erro de consolidação de 297,4 milhões de euros num importante quadro-síntese de apuramento do défice público, quadro esse que resulta, em grande parte, dos mapas orçamentais. Algo está errado e o Ministério das Finanças deverá esclarecer onde. Ou nas transferências, e aí é necessário saber qual o valor que necessita de ser corrigido e porquê, ou, se estão certas as transferências, o défice público será agravado nesse montante. Errar é humano, mas este erro é importante não só pelo que pode implicar, mas pelo que revela". - Paulo Trigo Pereira, professor do ISEG, Público, 01/12/2011 

"Questionado pelo Público, o Ministério das Finanças diz que não está em causa nenhum 'erro', mas sim uma 'discrepância', que 'resulta de diferenças de consolidação entre os diversos sectores da administração pública' e que deveria ter sido imputada à linha de transferências entre as administrações públicas". - Rita Faria, Público, 01/12/2011

DIÁRIO IRREGULAR

2 de Dezembro de 2011

Olho para as pessoas que por mim passam na rua. Em todas o mesmo olhar triste. Amargurado. Até nas mulheres bonitas. À crise soma-se o distúrbio provocado pela fotografia da criança francesa que foi enfiada à força dentro de uma máquina de lavar para ser centrifugada. Nem as crianças escapam. À entrevista confessória do "estripador de Lisboa" seguiu-se o sequestro e o roubo a um vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos e a apresentação dos documentos "originais" dos "originais" relativos à licenciatura de José Sócrates. O passado não traz segurança. O presente é cada vez mais incerto. O Estado,a economia, o poder político, a razão de toda a desconfiança.

A senhora Merkel garante que a solução está próxima. Nicolas Sarkozy, com o seu sorriso idiota e andar apalhaçado, acompanha-a. Agora falam em refundação da Europa, em convergência orçamental e disciplina económica. Tudo em nome da solidariedade europeia. No fundo tudo se resume a uma frase: dêem-nos os vossos recursos que nós trataremos de geri-los sem sobressaltos. Nem para nós, nem para vós, acrescentaria eu.

Pouco edificante, como seria previsível, a negociação que afinal não houve sobre o Orçamento de Estado. A forma e a rapidez como alguns políticos passam a si próprios atestados de desqualificação é assustadora. Os acontecimentos verificados durante a apresentação, debate e votação do Orçamento de Estado, os números circenses que alguns voltaram a protagonizar com o à-vontade de quem ainda não percebeu que os tempos mudaram, fazem-me pensar que tudo aquilo que então escrevi mantém actualidade. Não seria possível mudar a composição do Grupo Parlamentar socialista, mas era perfeitamente evitável que nos órgãos nacionais do partido ficassem os mesmos de sempre. A factura de Seguro já começou a ser paga e há erros que a opinião pública e o eleitorado não perdoam. 

A velocidade com que em Portugal caminhamos para o empobrecimento é tal que nos últimos dias me vieram à memória duas frases que marcaram os anos oitenta do século passado. Uma é de um pensador e ensaísta neo-liberal, o francês Guy Sorman, que definiu os regimes socialistas do Leste europeu como sendo "regimes de miséria planificada". O grau de pobreza e de subdesenvolvimento de algumas sociedades comunistas era tão acentuado que Sorman não encontrou melhor forma de defini-los. A outra frase  - há quem discuta se foi efectivamente proferida, mas aquele a quem foi atribuída nunca a desmentiu -não é de um liberal, mas de alguém que foi durante mais de duas décadas o homem mais poderoso do regime chinês, ainda hoje por muitos idolatrado. Foi ele quem iniciou a revolução que conduziu a que um país pobre, isolado e fechado, dominado por comunistas corruptos, se tornasse num dos pilares fundamentais para a sustentabilidade do capitalismo moderno e das economias ocidentais. Refiro-me a Deng Xiaoping. Muita gente sorriu, poucos acreditaram, quando lhe atribuíram a frase "poverty is not socialism, to be rich is glorious". Mais de uma dezena de anos após o seu falecimento, depois dos Jogos Olímpicos passarem por Pequim e numa altura em que as grandes empresas americanas, italianas e alemãs, de produtoras de bens de luxo a empresas de refrigerantes que foram símbolos da Guerra Fria, vendem mais na nova China que nos seus próprios países, tudo parece começar a fazer sentido.

Parece mas não faz. Deng já cá não está para comentar o que se está a passar na Europa nem para nos ajudar a perceber as razões para o que acontece. Duvido que, entretanto, alguém se atreva a perguntar a Sorman qual a solução para o caso português, mas estou ciente de que ele duvidaria das conclusões de Passos Coelho. Quando um primeiro-ministro em funções de um país estruturalmente pobre, e que precisa urgentemente de se modernizar, crescer e desenvolver, diz que uma crise grave como a que atravessamos só será ultrapassável empobrecendo ainda mais, qual o papel que fica reservado à esperança? Se o socialismo era o regime da miséria planificada, o "passismo" só poderá ser entendido como uma estratégia de empobrecimento planificado, assente no desmantelamento do Estado e na asfixia tributária dos cidadãos, destinada a criar a ilusão nos portugueses de que um dia será possível sair da miséria crescendo.

O grave é que a miséria não é um adubo. A miséria espalha-se, pode tornar-se endémica, mas não gera crescimento. E ser pobre e esforçado não é uma glória. Nunca foi. Passos Coelho, que apesar de tudo me parece um tipo normal, devia perceber isto. Não é difícil. Bem sei que as universidades de Verão do PSD não ensinam estas coisas, que por lá só se discutem futuros grandiosos e carreiras brilhantes, ouvem-se discursos eloquentes e grita-se "Soares é fixe". E que poucos laranjinhas pensam quando sentem o cheiro do poder. Mas também considero que seria bom que alguém que saiba alguma coisa sobre a miséria, ou que a ela tenha sobrevivido, lhe devia dizer isso. Dar-lhe umas luzes sobre esse tema. E se for um ex-comunista ou um liberal melhor. Quem sabe se Paulo Portas ou Zita Seabra não estarão disponíveis para isso. Pensando bem seriam as pessoas ideais para terem uma conversinha com o primeiro-ministro. Antes que Vítor Gaspar, para compensar o programa de privatizações do Governo e o fiasco da venda do BPN aos patrões angolanos de Mira Amaral, avance com uma proposta de nacionalização da Servilusa. Para depois poder reprivatizá-la. Não convém dar mais ideias a Miguel Relvas. Na miséria e na morte os grupos de trabalho ainda rendem pouco.   

quarta-feira, novembro 30, 2011

The 10 Best Books of 2011

A fotografia é de Todd St. John e a lista é a conceituadíssima do New York Times. Um livro que se deixe ler com gosto é sempre uma excelente oferta.

UMA TRAPALHADA EM 3D

Como se o que tínhamos não fosse suficiente para deslustrar a actuação de quem criou as "Independentes", de quem lhes deu lastro, de quem lá estudou, e de quem por ali investigou, acusou e arquivou, vem agora mais este figurão de uma galeria digna dos melhores "western spaghetti", em mais um incontornável trabalho do Público, dizer que originais são os dele. São? Mas há originais? Quem me garante que nesta história, desde o seu início, há alguma coisa de original? A mim parece-me tudo contrafeito. E mal. Ninguém, nem nada, se salva desta trapalhada "académica".

terça-feira, novembro 29, 2011

domingo, novembro 27, 2011

O LIVRO DE QUE SE FALA

"A auto-imagem que temos de nós próprios leva, por vezes, a aceitar a afirmação de que o "offshore da Madeira é diferente dos outros". Pura fantasia política para enganar tolos. É parte do sistema mundial de desresponsabilização social, fraude e branqueamento de capitais. Algo que existe se vantagens para a economia portuguesa, antes pelo contrário. Algo que nem impacto tem sobre o desenvolvimento regional do arquipélago" - Carlos Pimenta, Catedrático da Faculdade de Economia do Porto e presidente do Observatório de Economia e Gestão de Fraude

Pode-se sempre esperar mais de uma obra, mas confesso que não deve ser fácil compilar mais informação em termos tão acessíveis. Tem, ademais, o mérito de constituir a primeira investigação ao offshore da Madeira, pondo a nu a aberração que essa coisa é. O livro irritou Alberto João Jardim e é revelador da coragem do seu autor. É, pois, de leitura obrigatória. Se quiser ter um cheirinho do que está lá dentro poderá ouvir a entrevista que o economista João Pedro Martins deu à Antena 1, acessível aqui. Por momentos pensei que o entrevistado estivesse a falar de Angola ou da Somália. Depois percebi que era mesmo connosco.  

sábado, novembro 26, 2011

V FESTIVAL DE ÓRGÃO

Termina hoje em Faro mais um Festival de Órgão, com um espectáculo na Igreja da Sé, pelas 21h 30. O convidado é José L. González Uriol, antigo professor catedrático de órgão e cravo no Conservatória de Saragoça e personagem mundialmente reconhecida como  especialista em Música Antiga de Tecla. Irá interpretar peças de Andrés de Sola, Buxtehude, Johann Kaspar Ferdinand Fischer, Speth, Giovanni Pescetti e Pablo Bruna. O órgão da Sé de Faro data de 1715/16 e foi integralmente revisto em 2006 por Dinarte Machado.
Espero que em próximas edições o Festival possa aumentar o seu prestígio internacional e merecer adequada promoção, a qual, até agora, não tem estado ao nível das interpretações.

sexta-feira, novembro 25, 2011

25 DE NOVEMBRO


"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!” - Salgueiro Maia, 25 de Abril de 1974 

O estado a que chegámos é por estes dias exactamente o mesmo. Só já não temos o Salgueiro Maia. 

SINAIS (37)

"Esta greve é uma prova de vida num tempo em que a relação de forças no mundo laboral se apresenta difusa, quase inorgânica, casuística e, não raro, muito desigual.
Um alerta para o Governo que deve interpretar os sinais desta greve na sua dimensão intrinsecamente humana, que é o que conta por detrás da visão macroscópica da crise. A austeridade exige ainda mais um justo equilíbrio entre personalismo laboral, coesão social, justiça distributiva, sensibilidade familiar e competitivdade económica". - António Bagão Félix, Público, 25/11/2011

quinta-feira, novembro 24, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

24 de Novembro de 2011

A greve é um direito. Para alguns, como o meu falecido avô e distinto anarco-sindicalista do primeiro quartel do século passado, Miguel Maria de Almeida Correia, seria mais um dever. Uma obrigação do operariado quando a degradação das suas condições de vida e de trabalho colocasse em risco princípios básicos de justiça e de liberdade e a sua sobrevivência pessoal e colectiva. Nesta perspectiva, a greve de hoje seria um dever do movimento sindical português do século XXI.

Estamos muito longe das lutas sindicais dos ferroviários portugueses da I República, que foram severamente reprimidas e antecederam a chegada ao poder do movimento que culminou em 28 de Maio de 1926. Mas em causa, então como agora, estavam e estão o desgoverno político e o agravamento das condições de vida dos portugueses. Do que se seguiu a 1926 já nós sabemos. Do que se vai seguir à greve de hoje ninguém sabe. Em qualquer caso, sendo diferentes as condições da democracia naquele final da I República (antes de 28 de Maio já tinham ocorrido golpes e ameaças) das que hoje vivemos, não será difícil pensar que se algo de idêntico acontecesse, já não por força das armas que os tempos são outros, mas por via de uma revolução tecnocrática assente no poder de uma qualquer troika, teríamos uma versão mais moderna, mais cativante e mais bem composta do “Botas”.

O problema é que esse modelo, agora repescado em diversos países, não garante, por esta ordem, uma injecção de confiança nos mercados, uma melhoria da reputação dos governantes, um aumento de credibilidade externa, uma retoma económica que permitisse a reversão dos números do desemprego até um patamar comportável para o Estado e a sociedade e o incremento das exportações, enfim, os instrumentos necessários à ultrapassagem da crise.

Bem pelo contrário. Os exemplos que nos chegam revelam um estado de cegueira global, à semelhança do romance de Saramago, que tendo começado nas grandes instituições financeiras e económicas, alastrou aos mercados, inundou os países e sequestrou a política. Quer isto dizer que neste momento não se afigura provável um qualquer 28 de Maio pela simples razão de que o golpe já aconteceu, está em curso e disseminado por toda a Europa.

Mais grave do que a Fitch ou uma agência chinesa de notação atribuírem a Portugal a classificação de lixo – que muitos milhões de portugueses fazendo fé nas promessas e garantias que lhes foram dadas acreditavam ser impossível de acontecer depois de terem dado a vitória nas presidenciais a Cavaco Silva e de terem elegido Passos Coelho para o lugar do desacreditado e impotente José Sócrates –, é o facto da Alemanha, o farol do Banco Central Europeu e fiel da estabilidade continental, ser incapaz de transmitir aos tais mercados a confiança de que estes necessitariam para arrematarem a totalidade da emissão de dívida que ontem realizou. Ao colocar apenas 60% daquilo que pretendia e a um juro que roça os 2%, os sinos alemães tocaram a rebate. As chamas começam a aproximar-se perigosamente de Berlim e a senhora Merkel se não foi capaz até agora de modernizar o seu guarda-roupa já não terá daqui em diante muitas hipóteses de fazê-lo.

Em parte, o facto das preocupações chegarem à Alemanha poderá parecer-nos, a nós europeus do Sul, uma pequena vingança dos deuses, fartos de nos verem ser tratados pelo acrónimo “pigs” pela “big sister” teutónica e os seus amigos do Norte. Porém, essa aparente satisfação não contribui em nada para resolver o nosso problema, dar mais sentido à greve de hoje, amenizar a amputação dos subsídios de Natal ou os obscenos aumentos de impostos, uns mais às claras outros encapotados, com que o triunvirato Coelho/Gaspar/Relvas nos tem fustigado. De uma forma ou de outra, já que com o Presidente da República, eterno funcionário agarrado às suas reformas e às poupanças que um bando de pantomineiros e criminosos ajudou a fazer crescer, os portugueses sabem que não poderão contar, para além de palavras de circunstância e de boas intenções.

Resta o tal triunvirato. É com ele que teremos de contar, pese embora seja claro que com um primeiro-ministro estagiário, um tecnocrata em comissão de serviço e um especialista em grupos de trabalho doutorado em práticas ocultas e artes várias, ninguém se poderá sentir protegido.

Durante meses a fio os juros subiram. Depois corremos com Sócrates, sem prejuízo de termos ficado com alguns monos plantados em São Bento e no Largo do Rato. Seguiu-se a descoberta dos “buracos” legados pelos anteriores governantes e os que tinham sido devidamente ajardinados pelos sociais-democratas da Madeira. Entretanto, a troika instalou-se, chegaram ordens travestidas de conferências de imprensa, e os peritos em contabilidade pública escolhidos pelo Dr. Coelho apresentaram o OE para 2012. Convencidos de que esse documento era a “Nó Górdio” que nos iria livrar dos terroristas das agências e dos especuladores, os deputados da maioria aprovaram-no sem pestanejar. E sem pensar. Para quem se recorda, a verdadeira “Nó Górdio”, a de Kaúlza de Arriaga, custou-nos os olhos da cara e durou sete meses, deixando no terreno centenas de mortos e milhares de feridos e estropiados.

A operação que está em curso e que levou a que nos fosse atribuída a categoria de lixo (junk) talvez devesse ser apropriadamente chamada “Nó Tróiko”, nome do golpe que o triunvirato Coelho/Gaspar/Relvas, com o apoio do Presidente da República, nos aplicou. Porquê? Porque há coisas de que já temos a certeza neste momento: a “Nó Tróiko” vai ser mais cara do que a original de Kaúlza, vai durar anos em vez de meses e não consegue desalojar os terroristas das suas bases nas agências de rating, permitindo que eles agora nos entrem pela casa. Ficará por apurar o que ainda não conseguimos prever neste momento. Isto é, quantos mortos, feridos e estropiados ficarão pelo caminho. E quando terá lugar um novo 25 de Abril que nos tire este peso de cima e nos devolva a dignidade. Sim, eu sei, não vou tão longe quanto o Luiz Pacheco, não os mando para onde eles mereciam. Mas há uma razão: eu ainda acredito.

Se Ângelo Correia, que é um santo, acreditou em Duarte Lima e depois em Passos Coelho, e a ambos deu a mão, por que razão é que nós, portugueses, que não temos as capacidades dele de prever o futuro, não havemos de dar a mão, ou até as mãos, as duas, ao esforçado Passos Coelho e ao seu primeiro-ministro? Dir-me-ão que Miguel Relvas não tem a preparação de Duarte Lima para poder ser primeiro-ministro. Pois não, não tem. Mas tem amigos. Muitos. Até brasileiros. Eu ainda tenho fé que um deles nos venha safar. Duvido que o outro possa dizer o mesmo.

quarta-feira, novembro 23, 2011

A LER

Os partidos políticos foram fundamentais para a consolidação das democracias contemporâneas. Eles constituem um instrumento incontornável para a realização da democracia, que sem eles não existirá. Não obstante muitos dos dirigentes terem contribuído para o seu descrédito, e em consequência da própria democracia, não foi por causa disso que o seu papel se tornou menos importante. O Marco Lisi, que ao fim destes anos de convivência connosco já é quase português, continua a produzir óptima "literatura" sobre a sua área de investigação e tem contribuído para que nos conheçamos um pouco melhor, dedicando-se àquilo para que muitos académicos não têm tempo nem paciência. Não é o caso dele, que desta vez nos brindou com um estudo sobre os partidos nacionais numa perspectiva comparada, acrescentando-lhe, como ele próprio refere, "uma panorâmica longitudinal sobre a evolução dos partidos portugueses, apresentando dados empíricos sistemáticos sobre os principais partidos". Como português e ex-colega do Marco, só tenho a agradecer-lhe o tempo que tem despendido connosco. E espero que não sendo nós um povo de ingratos saibamos reconhecer-lhe o mérito, o empenho e a qualidade da investigação, encontrando tempo para o lermos e discutirmos as conclusões a que chegou. Pela minha parte, ainda não desisti da ideia de trazê-lo a Faro para nos falar das coisas que ele sabe.