"Desde o "congresso da unidade" de Braga que os socialistas, que José Sócrates secara e quase silenciara, mostraram que realmente são os calados os mais perigosos, os que "mordem". A votação do Orçamento esta semana - em que uma cadeia de mails que alguns fizeram chegar aos media mostrava não só a divisão mas sobretudo o poder de pressão que os deputados têm sobre o seu líder - e o movimento - perdão, o manifesto - com que Mário Soares voltou a agitar as águas são apenas os últimos exemplos de que a serapilheira que sustém os gatos do PS estará constantemente a rebentar pelas costuras. E que por mais reuniões para desabafar que mande fazer ou por mais eventos das várias correntes rosa a que vá, como tem feito, António José Seguro não evitará arranhões sucessivos dos muitos que estão com as unhas de fora." - Filomena Martins, Diário de Notícias, 03/12/2011
terça-feira, dezembro 06, 2011
segunda-feira, dezembro 05, 2011
Sinais (39)
"A razão por que os deputados da Madeira votaram a favor do Orçamento [do Estado para 2012], embora com a declaração de voto que os senhores conhecem, é que antes da votação o primeiro-ministro lhes disse - aos deputados do PSD e ao deputado do CDS - que a Zona Franca ia para a frente", afirmou Alberto João Jardim" - Jornal de Notícias, 05/12/2011.
sexta-feira, dezembro 02, 2011
Sinais (38)
"O OE 2012, que acaba de ser aprovado, tem um erro de consolidação de 297,4 milhões de euros num importante quadro-síntese de apuramento do défice público, quadro esse que resulta, em grande parte, dos mapas orçamentais. Algo está errado e o Ministério das Finanças deverá esclarecer onde. Ou nas transferências, e aí é necessário saber qual o valor que necessita de ser corrigido e porquê, ou, se estão certas as transferências, o défice público será agravado nesse montante. Errar é humano, mas este erro é importante não só pelo que pode implicar, mas pelo que revela". - Paulo Trigo Pereira, professor do ISEG, Público, 01/12/2011
"Questionado pelo Público, o Ministério das Finanças diz que não está em causa nenhum 'erro', mas sim uma 'discrepância', que 'resulta de diferenças de consolidação entre os diversos sectores da administração pública' e que deveria ter sido imputada à linha de transferências entre as administrações públicas". - Rita Faria, Público, 01/12/2011
DIÁRIO IRREGULAR
2 de Dezembro de 2011
Olho para as pessoas que por mim passam na rua. Em todas o mesmo olhar triste. Amargurado. Até nas mulheres bonitas. À crise soma-se o distúrbio provocado pela fotografia da criança francesa que foi enfiada à força dentro de uma máquina de lavar para ser centrifugada. Nem as crianças escapam. À entrevista confessória do "estripador de Lisboa" seguiu-se o sequestro e o roubo a um vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos e a apresentação dos documentos "originais" dos "originais" relativos à licenciatura de José Sócrates. O passado não traz segurança. O presente é cada vez mais incerto. O Estado,a economia, o poder político, a razão de toda a desconfiança.
A senhora Merkel garante que a solução está próxima. Nicolas Sarkozy, com o seu sorriso idiota e andar apalhaçado, acompanha-a. Agora falam em refundação da Europa, em convergência orçamental e disciplina económica. Tudo em nome da solidariedade europeia. No fundo tudo se resume a uma frase: dêem-nos os vossos recursos que nós trataremos de geri-los sem sobressaltos. Nem para nós, nem para vós, acrescentaria eu.
Pouco edificante, como seria previsível, a negociação que afinal não houve sobre o Orçamento de Estado. A forma e a rapidez como alguns políticos passam a si próprios atestados de desqualificação é assustadora. Os acontecimentos verificados durante a apresentação, debate e votação do Orçamento de Estado, os números circenses que alguns voltaram a protagonizar com o à-vontade de quem ainda não percebeu que os tempos mudaram, fazem-me pensar que tudo aquilo que então escrevi mantém actualidade. Não seria possível mudar a composição do Grupo Parlamentar socialista, mas era perfeitamente evitável que nos órgãos nacionais do partido ficassem os mesmos de sempre. A factura de Seguro já começou a ser paga e há erros que a opinião pública e o eleitorado não perdoam.
A velocidade com que em Portugal caminhamos para o empobrecimento é tal que nos últimos dias me vieram à memória duas frases que marcaram os anos oitenta do século passado. Uma é de um pensador e ensaísta neo-liberal, o francês Guy Sorman, que definiu os regimes socialistas do Leste europeu como sendo "regimes de miséria planificada". O grau de pobreza e de subdesenvolvimento de algumas sociedades comunistas era tão acentuado que Sorman não encontrou melhor forma de defini-los. A outra frase - há quem discuta se foi efectivamente proferida, mas aquele a quem foi atribuída nunca a desmentiu -não é de um liberal, mas de alguém que foi durante mais de duas décadas o homem mais poderoso do regime chinês, ainda hoje por muitos idolatrado. Foi ele quem iniciou a revolução que conduziu a que um país pobre, isolado e fechado, dominado por comunistas corruptos, se tornasse num dos pilares fundamentais para a sustentabilidade do capitalismo moderno e das economias ocidentais. Refiro-me a Deng Xiaoping. Muita gente sorriu, poucos acreditaram, quando lhe atribuíram a frase "poverty is not socialism, to be rich is glorious". Mais de uma dezena de anos após o seu falecimento, depois dos Jogos Olímpicos passarem por Pequim e numa altura em que as grandes empresas americanas, italianas e alemãs, de produtoras de bens de luxo a empresas de refrigerantes que foram símbolos da Guerra Fria, vendem mais na nova China que nos seus próprios países, tudo parece começar a fazer sentido.
Parece mas não faz. Deng já cá não está para comentar o que se está a passar na Europa nem para nos ajudar a perceber as razões para o que acontece. Duvido que, entretanto, alguém se atreva a perguntar a Sorman qual a solução para o caso português, mas estou ciente de que ele duvidaria das conclusões de Passos Coelho. Quando um primeiro-ministro em funções de um país estruturalmente pobre, e que precisa urgentemente de se modernizar, crescer e desenvolver, diz que uma crise grave como a que atravessamos só será ultrapassável empobrecendo ainda mais, qual o papel que fica reservado à esperança? Se o socialismo era o regime da miséria planificada, o "passismo" só poderá ser entendido como uma estratégia de empobrecimento planificado, assente no desmantelamento do Estado e na asfixia tributária dos cidadãos, destinada a criar a ilusão nos portugueses de que um dia será possível sair da miséria crescendo.
O grave é que a miséria não é um adubo. A miséria espalha-se, pode tornar-se endémica, mas não gera crescimento. E ser pobre e esforçado não é uma glória. Nunca foi. Passos Coelho, que apesar de tudo me parece um tipo normal, devia perceber isto. Não é difícil. Bem sei que as universidades de Verão do PSD não ensinam estas coisas, que por lá só se discutem futuros grandiosos e carreiras brilhantes, ouvem-se discursos eloquentes e grita-se "Soares é fixe". E que poucos laranjinhas pensam quando sentem o cheiro do poder. Mas também considero que seria bom que alguém que saiba alguma coisa sobre a miséria, ou que a ela tenha sobrevivido, lhe devia dizer isso. Dar-lhe umas luzes sobre esse tema. E se for um ex-comunista ou um liberal melhor. Quem sabe se Paulo Portas ou Zita Seabra não estarão disponíveis para isso. Pensando bem seriam as pessoas ideais para terem uma conversinha com o primeiro-ministro. Antes que Vítor Gaspar, para compensar o programa de privatizações do Governo e o fiasco da venda do BPN aos patrões angolanos de Mira Amaral, avance com uma proposta de nacionalização da Servilusa. Para depois poder reprivatizá-la. Não convém dar mais ideias a Miguel Relvas. Na miséria e na morte os grupos de trabalho ainda rendem pouco.
Parece mas não faz. Deng já cá não está para comentar o que se está a passar na Europa nem para nos ajudar a perceber as razões para o que acontece. Duvido que, entretanto, alguém se atreva a perguntar a Sorman qual a solução para o caso português, mas estou ciente de que ele duvidaria das conclusões de Passos Coelho. Quando um primeiro-ministro em funções de um país estruturalmente pobre, e que precisa urgentemente de se modernizar, crescer e desenvolver, diz que uma crise grave como a que atravessamos só será ultrapassável empobrecendo ainda mais, qual o papel que fica reservado à esperança? Se o socialismo era o regime da miséria planificada, o "passismo" só poderá ser entendido como uma estratégia de empobrecimento planificado, assente no desmantelamento do Estado e na asfixia tributária dos cidadãos, destinada a criar a ilusão nos portugueses de que um dia será possível sair da miséria crescendo.
O grave é que a miséria não é um adubo. A miséria espalha-se, pode tornar-se endémica, mas não gera crescimento. E ser pobre e esforçado não é uma glória. Nunca foi. Passos Coelho, que apesar de tudo me parece um tipo normal, devia perceber isto. Não é difícil. Bem sei que as universidades de Verão do PSD não ensinam estas coisas, que por lá só se discutem futuros grandiosos e carreiras brilhantes, ouvem-se discursos eloquentes e grita-se "Soares é fixe". E que poucos laranjinhas pensam quando sentem o cheiro do poder. Mas também considero que seria bom que alguém que saiba alguma coisa sobre a miséria, ou que a ela tenha sobrevivido, lhe devia dizer isso. Dar-lhe umas luzes sobre esse tema. E se for um ex-comunista ou um liberal melhor. Quem sabe se Paulo Portas ou Zita Seabra não estarão disponíveis para isso. Pensando bem seriam as pessoas ideais para terem uma conversinha com o primeiro-ministro. Antes que Vítor Gaspar, para compensar o programa de privatizações do Governo e o fiasco da venda do BPN aos patrões angolanos de Mira Amaral, avance com uma proposta de nacionalização da Servilusa. Para depois poder reprivatizá-la. Não convém dar mais ideias a Miguel Relvas. Na miséria e na morte os grupos de trabalho ainda rendem pouco.
quarta-feira, novembro 30, 2011
The 10 Best Books of 2011
A fotografia é de Todd St. John e a lista é a conceituadíssima do New York Times. Um livro que se deixe ler com gosto é sempre uma excelente oferta.
UMA TRAPALHADA EM 3D
Como se o que tínhamos não fosse suficiente para deslustrar a actuação de quem criou as "Independentes", de quem lhes deu lastro, de quem lá estudou, e de quem por ali investigou, acusou e arquivou, vem agora mais este figurão de uma galeria digna dos melhores "western spaghetti", em mais um incontornável trabalho do Público, dizer que originais são os dele. São? Mas há originais? Quem me garante que nesta história, desde o seu início, há alguma coisa de original? A mim parece-me tudo contrafeito. E mal. Ninguém, nem nada, se salva desta trapalhada "académica".
terça-feira, novembro 29, 2011
QUERERÃO OS MINISTROS DA SAÚDE E DAS FINANÇAS RESPONDER?
Esta notícia, face aos cortes verificados na Saúde e em especial na área dos transplantes, só me leva a formular uma pergunta: quanto vale uma vida?
segunda-feira, novembro 28, 2011
domingo, novembro 27, 2011
O LIVRO DE QUE SE FALA
"A auto-imagem que temos de nós próprios leva, por vezes, a aceitar a afirmação de que o "offshore da Madeira é diferente dos outros". Pura fantasia política para enganar tolos. É parte do sistema mundial de desresponsabilização social, fraude e branqueamento de capitais. Algo que existe se vantagens para a economia portuguesa, antes pelo contrário. Algo que nem impacto tem sobre o desenvolvimento regional do arquipélago" - Carlos Pimenta, Catedrático da Faculdade de Economia do Porto e presidente do Observatório de Economia e Gestão de Fraude
Pode-se sempre esperar mais de uma obra, mas confesso que não deve ser fácil compilar mais informação em termos tão acessíveis. Tem, ademais, o mérito de constituir a primeira investigação ao offshore da Madeira, pondo a nu a aberração que essa coisa é. O livro irritou Alberto João Jardim e é revelador da coragem do seu autor. É, pois, de leitura obrigatória. Se quiser ter um cheirinho do que está lá dentro poderá ouvir a entrevista que o economista João Pedro Martins deu à Antena 1, acessível aqui. Por momentos pensei que o entrevistado estivesse a falar de Angola ou da Somália. Depois percebi que era mesmo connosco.
Pode-se sempre esperar mais de uma obra, mas confesso que não deve ser fácil compilar mais informação em termos tão acessíveis. Tem, ademais, o mérito de constituir a primeira investigação ao offshore da Madeira, pondo a nu a aberração que essa coisa é. O livro irritou Alberto João Jardim e é revelador da coragem do seu autor. É, pois, de leitura obrigatória. Se quiser ter um cheirinho do que está lá dentro poderá ouvir a entrevista que o economista João Pedro Martins deu à Antena 1, acessível aqui. Por momentos pensei que o entrevistado estivesse a falar de Angola ou da Somália. Depois percebi que era mesmo connosco.
sábado, novembro 26, 2011
V FESTIVAL DE ÓRGÃO
Termina hoje em Faro mais um Festival de Órgão, com um espectáculo na Igreja da Sé, pelas 21h 30. O convidado é José L. González Uriol, antigo professor catedrático de órgão e cravo no Conservatória de Saragoça e personagem mundialmente reconhecida como especialista em Música Antiga de Tecla. Irá interpretar peças de Andrés de Sola, Buxtehude, Johann Kaspar Ferdinand Fischer, Speth, Giovanni Pescetti e Pablo Bruna. O órgão da Sé de Faro data de 1715/16 e foi integralmente revisto em 2006 por Dinarte Machado.
Espero que em próximas edições o Festival possa aumentar o seu prestígio internacional e merecer adequada promoção, a qual, até agora, não tem estado ao nível das interpretações.
sexta-feira, novembro 25, 2011
25 DE NOVEMBRO
"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!” - Salgueiro Maia, 25 de Abril de 1974
O estado a que chegámos é por estes dias exactamente o mesmo. Só já não temos o Salgueiro Maia.
SINAIS (37)
"Esta greve é uma prova de vida num tempo em que a relação de forças no mundo laboral se apresenta difusa, quase inorgânica, casuística e, não raro, muito desigual.
Um alerta para o Governo que deve interpretar os sinais desta greve na sua dimensão intrinsecamente humana, que é o que conta por detrás da visão macroscópica da crise. A austeridade exige ainda mais um justo equilíbrio entre personalismo laboral, coesão social, justiça distributiva, sensibilidade familiar e competitivdade económica". - António Bagão Félix, Público, 25/11/2011
quinta-feira, novembro 24, 2011
DIÁRIO IRREGULAR
24 de Novembro de 2011
A greve é um direito. Para alguns, como o meu falecido avô e distinto anarco-sindicalista do primeiro quartel do século passado, Miguel Maria de Almeida Correia, seria mais um dever. Uma obrigação do operariado quando a degradação das suas condições de vida e de trabalho colocasse em risco princípios básicos de justiça e de liberdade e a sua sobrevivência pessoal e colectiva. Nesta perspectiva, a greve de hoje seria um dever do movimento sindical português do século XXI.
Estamos muito longe das lutas sindicais dos ferroviários portugueses da I República, que foram severamente reprimidas e antecederam a chegada ao poder do movimento que culminou em 28 de Maio de 1926. Mas em causa, então como agora, estavam e estão o desgoverno político e o agravamento das condições de vida dos portugueses. Do que se seguiu a 1926 já nós sabemos. Do que se vai seguir à greve de hoje ninguém sabe. Em qualquer caso, sendo diferentes as condições da democracia naquele final da I República (antes de 28 de Maio já tinham ocorrido golpes e ameaças) das que hoje vivemos, não será difícil pensar que se algo de idêntico acontecesse, já não por força das armas que os tempos são outros, mas por via de uma revolução tecnocrática assente no poder de uma qualquer troika, teríamos uma versão mais moderna, mais cativante e mais bem composta do “Botas”.
O problema é que esse modelo, agora repescado em diversos países, não garante, por esta ordem, uma injecção de confiança nos mercados, uma melhoria da reputação dos governantes, um aumento de credibilidade externa, uma retoma económica que permitisse a reversão dos números do desemprego até um patamar comportável para o Estado e a sociedade e o incremento das exportações, enfim, os instrumentos necessários à ultrapassagem da crise.
Bem pelo contrário. Os exemplos que nos chegam revelam um estado de cegueira global, à semelhança do romance de Saramago, que tendo começado nas grandes instituições financeiras e económicas, alastrou aos mercados, inundou os países e sequestrou a política. Quer isto dizer que neste momento não se afigura provável um qualquer 28 de Maio pela simples razão de que o golpe já aconteceu, está em curso e disseminado por toda a Europa.
Mais grave do que a Fitch ou uma agência chinesa de notação atribuírem a Portugal a classificação de lixo – que muitos milhões de portugueses fazendo fé nas promessas e garantias que lhes foram dadas acreditavam ser impossível de acontecer depois de terem dado a vitória nas presidenciais a Cavaco Silva e de terem elegido Passos Coelho para o lugar do desacreditado e impotente José Sócrates –, é o facto da Alemanha, o farol do Banco Central Europeu e fiel da estabilidade continental, ser incapaz de transmitir aos tais mercados a confiança de que estes necessitariam para arrematarem a totalidade da emissão de dívida que ontem realizou. Ao colocar apenas 60% daquilo que pretendia e a um juro que roça os 2%, os sinos alemães tocaram a rebate. As chamas começam a aproximar-se perigosamente de Berlim e a senhora Merkel se não foi capaz até agora de modernizar o seu guarda-roupa já não terá daqui em diante muitas hipóteses de fazê-lo.
Em parte, o facto das preocupações chegarem à Alemanha poderá parecer-nos, a nós europeus do Sul, uma pequena vingança dos deuses, fartos de nos verem ser tratados pelo acrónimo “pigs” pela “big sister” teutónica e os seus amigos do Norte. Porém, essa aparente satisfação não contribui em nada para resolver o nosso problema, dar mais sentido à greve de hoje, amenizar a amputação dos subsídios de Natal ou os obscenos aumentos de impostos, uns mais às claras outros encapotados, com que o triunvirato Coelho/Gaspar/Relvas nos tem fustigado. De uma forma ou de outra, já que com o Presidente da República, eterno funcionário agarrado às suas reformas e às poupanças que um bando de pantomineiros e criminosos ajudou a fazer crescer, os portugueses sabem que não poderão contar, para além de palavras de circunstância e de boas intenções.
Resta o tal triunvirato. É com ele que teremos de contar, pese embora seja claro que com um primeiro-ministro estagiário, um tecnocrata em comissão de serviço e um especialista em grupos de trabalho doutorado em práticas ocultas e artes várias, ninguém se poderá sentir protegido.
Durante meses a fio os juros subiram. Depois corremos com Sócrates, sem prejuízo de termos ficado com alguns monos plantados em São Bento e no Largo do Rato. Seguiu-se a descoberta dos “buracos” legados pelos anteriores governantes e os que tinham sido devidamente ajardinados pelos sociais-democratas da Madeira. Entretanto, a troika instalou-se, chegaram ordens travestidas de conferências de imprensa, e os peritos em contabilidade pública escolhidos pelo Dr. Coelho apresentaram o OE para 2012. Convencidos de que esse documento era a “Nó Górdio” que nos iria livrar dos terroristas das agências e dos especuladores, os deputados da maioria aprovaram-no sem pestanejar. E sem pensar. Para quem se recorda, a verdadeira “Nó Górdio”, a de Kaúlza de Arriaga, custou-nos os olhos da cara e durou sete meses, deixando no terreno centenas de mortos e milhares de feridos e estropiados.
A operação que está em curso e que levou a que nos fosse atribuída a categoria de lixo (junk) talvez devesse ser apropriadamente chamada “Nó Tróiko”, nome do golpe que o triunvirato Coelho/Gaspar/Relvas, com o apoio do Presidente da República, nos aplicou. Porquê? Porque há coisas de que já temos a certeza neste momento: a “Nó Tróiko” vai ser mais cara do que a original de Kaúlza, vai durar anos em vez de meses e não consegue desalojar os terroristas das suas bases nas agências de rating, permitindo que eles agora nos entrem pela casa. Ficará por apurar o que ainda não conseguimos prever neste momento. Isto é, quantos mortos, feridos e estropiados ficarão pelo caminho. E quando terá lugar um novo 25 de Abril que nos tire este peso de cima e nos devolva a dignidade. Sim, eu sei, não vou tão longe quanto o Luiz Pacheco, não os mando para onde eles mereciam. Mas há uma razão: eu ainda acredito.
Se Ângelo Correia, que é um santo, acreditou em Duarte Lima e depois em Passos Coelho, e a ambos deu a mão, por que razão é que nós, portugueses, que não temos as capacidades dele de prever o futuro, não havemos de dar a mão, ou até as mãos, as duas, ao esforçado Passos Coelho e ao seu primeiro-ministro? Dir-me-ão que Miguel Relvas não tem a preparação de Duarte Lima para poder ser primeiro-ministro. Pois não, não tem. Mas tem amigos. Muitos. Até brasileiros. Eu ainda tenho fé que um deles nos venha safar. Duvido que o outro possa dizer o mesmo.
quarta-feira, novembro 23, 2011
A LER
Os partidos políticos foram fundamentais para a consolidação das democracias contemporâneas. Eles constituem um instrumento incontornável para a realização da democracia, que sem eles não existirá. Não obstante muitos dos dirigentes terem contribuído para o seu descrédito, e em consequência da própria democracia, não foi por causa disso que o seu papel se tornou menos importante. O Marco Lisi, que ao fim destes anos de convivência connosco já é quase português, continua a produzir óptima "literatura" sobre a sua área de investigação e tem contribuído para que nos conheçamos um pouco melhor, dedicando-se àquilo para que muitos académicos não têm tempo nem paciência. Não é o caso dele, que desta vez nos brindou com um estudo sobre os partidos nacionais numa perspectiva comparada, acrescentando-lhe, como ele próprio refere, "uma panorâmica longitudinal sobre a evolução dos partidos portugueses, apresentando dados empíricos sistemáticos sobre os principais partidos". Como português e ex-colega do Marco, só tenho a agradecer-lhe o tempo que tem despendido connosco. E espero que não sendo nós um povo de ingratos saibamos reconhecer-lhe o mérito, o empenho e a qualidade da investigação, encontrando tempo para o lermos e discutirmos as conclusões a que chegou. Pela minha parte, ainda não desisti da ideia de trazê-lo a Faro para nos falar das coisas que ele sabe.
SINAIS (36)
"Proposta da maioria elimina a obrigação de um parecer prévio do ministro das Finanças nas contratações das regiões autónomas" - Diário Económico
terça-feira, novembro 22, 2011
DIÁRIO IRREGULAR
22 de Novembro de 2011
Ver é uma das coisas mais baratas da vida. Também uma das que dá mais prazer, mas uma tarefa das mais difíceis para quem não sabe fazê-lo. É mais fácil, mais simples, infinitamente mais cómodo e relaxante simplesmente olhar. Olhar o dia e a noite. Olhar o caminho que se nos depara, olhar a paisagem, olhar a árvore e a floresta. Gosto de olhar. Penso que todos gostamos. Mas não é a mesma coisa que ver.
Os olhos e o olhar têm sido motivo para muitos e belos textos. Houve mesmo quem poeticamente escrevesse que se poderia perder o olhar e a luz, não a cor e o brilho de alguns olhos. O poeta não o disse, mas para se perder o olhar e não se perder os olhos é preciso ver. Paradoxalmente, dois dos homens que melhor me ensinaram a ver cegaram, o que me remete para um belo texto do poeta e teólogo José Tolentino de Mendonça que a dado passo escreve só isto:
"os teus olhos são o que resta
dos livros sagrados
e da grande pintura perdida" (in De profundis).
Mesmo quando não podem olhar, medir as distâncias ou perspectivar, esses olhos continuam a ver. Vêem na distância. Quando são capazes, sempre que se esforçam. Por isso, um dos homens a quem acima me referi costumava dizer do fundo da sua atroz cegueira, revoltado, que "eles têm olhos mas não vêem". Ele perdeu os olhos, não a capacidade de ver.
Infelizmente vivemos e estamos rodeados de homens e mulheres que não vêem. De gente que há muito perdeu a capacidade de ver e que se limita preguiçosamente a olhar, a seguir os outros com o olhar, a deixar seguir o olhar atrás dos outros. Perigosamente. Ver é uma outra forma de pensar. Pensar dá trabalho, quase tanto como ver. Daí que poucos queiram esforçar-se a ver.
Ver pode ser demasiado incómodo. Porque quando se vê passa-se muitas vezes por cima do olhar. É preciso ignorá-lo. Porque o olhar turva, o olhar modifica as cores, ilude. Para ver é preciso contornar, afastar cortinas, levantar estores, destravar portadas, abrir os olhos e depois de olhar fechá-los lentamente, retendo nesse movimento tudo o que não se pode perder, tudo o que nos irá ajudar a ver. Depois, calmamente, é preciso arrumar o que se vê, situá-lo no tempo e no espaço, memorizá-lo, até que de novo, muito lentamente, as pálpebras comecem a mover-se e os olhos recuperem a claridade. Nesse percurso, silencioso, individual, profundamente solitário, confrontamo-nos connosco. Encontramos os nossos medos e ilusões, por vezes os sonhos de que fugimos. Acima de tudo vislumbramos o contorno perfeito da vida, vemos passar a nossa própria existência, o correr dos anos, o sentido do gesto, a textura da palavra.
Ver é o burilar incessante do que os nossos olhos alcançam. Ver é uma outra forma de buscar a perfeição. A imortalidade.
TURBO
Continuando a ser uma revista imprescindível para quem gosta de automóveis, a Turbo consegue reinventar-se todos os meses. O número de Dezembro não foge à regra. Só que desta vez, para além das rubricas habituais e tomando como pretexto o futuro Alfa 4C, traz um especial Alfa Romeo. A capa é lindíssima e já diz muito sobre o que está lá dentro: a crise está fora das páginas da revista porque lá dentro sonha-se e dá-se as boas vindas ao futuro. Antes que o ministro das Finanças se lembre de criar um imposto especial sobre os sonhos, o melhor é ir comprar a revista e aproveitar.
O ÓBVIO
O presidente da Comissão Europeia veio hoje dizer que nos mercados financeiros não costuma haver milagres. Pois não, mas também não consta que os santos andem por lá.
segunda-feira, novembro 21, 2011
OXALÁ QUE TENHAM AVISADO O ÁLVARO
(foto de Nuno Ferreira Santos, Público)
Ao saber que o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, anunciou uma previsão ainda mais gravosa da recessão para 2012, com uma contracção do PIB para 3%, só me lembrei de hilariante Álvaro Santos Pereira e do que este afirmou há uma semana quanto ao fim, ou o princípio do fim, da crise em 2012. Espero que desta vez não o tenham deixado ficar à margem das previsões, não vá ele lembrar-se de também corrigir as suas e anunciar-nos o fim da crise já para o Natal deste ano.
CONTINUA O REGABOFE
O Público noticia em primeira página que o soba da Madeira se prepara para gastar três milhões de euros, que poderão ascender a cinco milhões, em iluminações de Natal. Numa altura de crise como a que atravessamos, é natural que na Madeira se continue a gastar à tripa-forra e que, na sequência da anulação de um concruso público, se promova a adjudicação directa, tanto mais que a empresa adjudicatária - Luzosfera - é pertença de um ex-deputado regional do PSD que por essa via irá receber mais meio milhão de euros do que o valor constante da sua proposta inicial. Nada de escabroso, portanto.
O Público acrescenta ainda que desde 1996 que a empresa desse senhor consegue o negócio da adjudicação das luzes coloridas e que a Luzosfera faz parte do grupo Siram, entidade que é também a responsável pelas campanhas eleitorais do PSD/Madeira. A notícia esclarece que Luís Marques Mendes, o ex-líder do PSD que agora perora regularmente na TVI24, era um dos "empregados" de Sílvio Santos.
Mas para completar a notícia só faltou dizer aos leitores que Marques Mendes e um ex-secretário de Estado do Turismo, também do PSD, entre outras funções, foram vice-presidentes do Grupo Siram SGPS, S.A. e membros da sua Comissão Executiva, bem como da SIRAM - EWE, Energy, Water & Environment SGPS, S.A, cargos para os quais haviam sido designados em 4/1/2008, conforme é público pela consulta do registo das 179 publicações do Ministério da Justiça, atinentes a empresas do referido grupo.
Tenho a certeza de que este não será mais um lamentável caso de tráfico de influências, mas apenas mais um dos muitos de puro e simples regabofe, o mesmo que Marques Mendes tantas vezes criticou em relação aos governos de José Sócrates, pelo que ficarei à espera que Marques Mendes tenha agora oportunidade de comentá-lo com a mesma desenvoltura com que habitualmente se refere, por exemplo, às SCUT e às PPP, num dos seus próximos programas.
E, já agora, que esclareça essa especial apetência do grupo SIRAM para dar emprego a ex-governantes ou ex-deputados do PSD quando ficam desocupados. Transparência, pois claro.
O Público acrescenta ainda que desde 1996 que a empresa desse senhor consegue o negócio da adjudicação das luzes coloridas e que a Luzosfera faz parte do grupo Siram, entidade que é também a responsável pelas campanhas eleitorais do PSD/Madeira. A notícia esclarece que Luís Marques Mendes, o ex-líder do PSD que agora perora regularmente na TVI24, era um dos "empregados" de Sílvio Santos.
Mas para completar a notícia só faltou dizer aos leitores que Marques Mendes e um ex-secretário de Estado do Turismo, também do PSD, entre outras funções, foram vice-presidentes do Grupo Siram SGPS, S.A. e membros da sua Comissão Executiva, bem como da SIRAM - EWE, Energy, Water & Environment SGPS, S.A, cargos para os quais haviam sido designados em 4/1/2008, conforme é público pela consulta do registo das 179 publicações do Ministério da Justiça, atinentes a empresas do referido grupo.
Tenho a certeza de que este não será mais um lamentável caso de tráfico de influências, mas apenas mais um dos muitos de puro e simples regabofe, o mesmo que Marques Mendes tantas vezes criticou em relação aos governos de José Sócrates, pelo que ficarei à espera que Marques Mendes tenha agora oportunidade de comentá-lo com a mesma desenvoltura com que habitualmente se refere, por exemplo, às SCUT e às PPP, num dos seus próximos programas.
E, já agora, que esclareça essa especial apetência do grupo SIRAM para dar emprego a ex-governantes ou ex-deputados do PSD quando ficam desocupados. Transparência, pois claro.
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