segunda-feira, setembro 19, 2011
DIÁRIO IRREGULAR
18 de Setembro
Quando alguém diz que acredita normalmente não se conhecem, nem se perguntam, as razões por que acredita. Pode ser por convicção no que se ouve, por se acreditar que por trás das palavras há um pouco mais do que a estética do discurso, ou até por inexplicável crença ou simples simpatia. Também há quem acredite por interesse egoístico e oportunístico. Alguns há que acreditam porque são tontos, ingénuos ou imbecis. E sobram ainda outros que não acreditam, que fazem de conta que acreditam e que têm o desplante de querer convencer os outros de que o que vêem é a realidade, sendo capazes de ir buscar os argumentos mais díspares e estrambólicos para justificarem o teatro.
Carlos Abreu Amorim é um neófito da política. Não o é da vida nem do direito. O que, felizmente, não o impediu de ser deputado. E muito bem. Não precisa de um lugar mal remunerado de deputado para viver. Não depende da política para ser gente. Além de ser um homem inteligente. E não foi o facto de muitas vezes discordar das suas opiniões que me levou a estranhar as suas palavras em defesa de Alberto João Jardim. Mas, que diabo, será que CAA não tinha outro argumento para defender as inanidades governativas do Bokassa do Funchal em matéria de finanças e défice público regional do que ir buscar o exemplo e a herança de José Sócrates? Então as asneiras de Sócrates perdoam o descontrolo, os insultos e as canalhices regionais que colocam em causa a nossa imagem internacional? O que se fez no Continente serve de justificação a Jardim? Quando um homem culto e inteligente se coloca no lugar de um serventuário iletrado para fazer dos outros parvos é sinal de que entrou na política por engano. O melhor será sair dela tão rapidamente quanto entrou para não acabar fazendo a figura dos seus pares. Seria terrível se o confundissem com Guilherme Silva.
Houve quem ficasse incomodado com o que escrevi no Delito de Opinião sobre a impreparação de Passos Coelho e a falta de seriedade do triunvirato que dirigiu o PSD até às eleições de 5 de Junho passado. Até houve quem viesse falar em “ressabiamento”, como se eu, que sempre falei pela minha própria voz, correndo em pista própria e seguindo a minha própria cartilha, pudesse sentir-me ressabiado em relação a alguém por quem nunca nutri simpatia. Agora, começa a ficar tudo muito claro. Na semana passada deixei uma pequena nota, que leu quem quis, sobre o fiasco que era anunciar, quase três meses depois do Governo tomar posse, a extinção de mais de uma centena de serviços, sem dizer o que se faria aos funcionários e esquecendo-se que isso representaria uma poupança de apenas 100 milhões. Pensei que estavam a atirar areia para os olhos das pessoas, sabendo-se que em causa está um pedido de ajuda à troika de mais de 80 mil milhões e depois de durante meses termos ouvido dizer que a redução do défice se faria à custa da redução da despesas e não dos aumentos dos aumentos. Um aldrabão de feira não diria melhor. Mas há sempre quem aplauda qualquer número de circo. Então na blogosfera, e desde que começaram a surgir os novos “Abrantes” ao serviço de Passos Coelho, até o chapéu tiram aos farsantes.
Esta noite, Marcelo Rebelo de Sousa veio dizer que os cortes na despesa são “curtinhos” e que dão a ideia de terem sido “feitos em cima do joelho”. Bom, se fosse só a ideia não seria mau. O pior é que foi e é mesmo assim. Marcelo sublinhou que a melhor prova disso foi o Governo ter anunciado a extinção de um organismo internacional que não depende dele e que, por isso mesmo, não pode ser extinto por decreto do Governo. Quem assumirá a paternidade da asneira? Será preciso continuar a dar o benefício da dúvida? É claro que não.
Mas Marcelo foi mais longe, colocando em dúvida que o Governo, isto é Passos Coelho, continue a viajar em classe económica. Também eu vou aguardar o esclarecimento sem deixar de notar que a estratégia que tem vindo a ser seguida por este Governo, dir-se-ia que copia quase na perfeição a de Rocha Vieira em Macau. Também este quando lá chegou começou a cortar nos lápis e no papel higiénico por causa do “despesista” (houve quem lhe chamasse nomes mais feios em privado) Carlos Melancia. Poucos saberão como começou. Hoje todos recordam como acabou, a começar por alguns colaboradores deste Governo que passaram por Macau. Sabem bem do que falo. O saudoso Mário Bettencourt Resendes deixou uma síntese notável no DN um ano depois da criação da RAEM.
Quanto à Caixa Geral de Depósitos, o perfeito disparate que foram as alterações no modelo de gestão e a vontade de satisfazer as clientelas do PSD e do CDS/PP já começam a dar resultados. O Expresso escreveu que “o verniz estalou” e que ninguém se entende na CGD. A escolha da Caixa Banco de Investimento e de uma empresa de nome “Perella” para liderarem um negócio de milhões – as privatizações da REN e da EDP -, à revelia da lista de entidades e dos critérios previamente definidos para escolha das instituições que poderiam acompanhar essa operação, com a aparente conivência do “seminarista” das Finanças – são mais um exemplo da tão apregoada transparência e não podem deixar de nos interrogar sobre a rapidez com que tudo isto está a acontecer.
Enquanto isso, ficamos todos a saber que o único ministério que não vai sofrer “cortes” é o da Administração Interna, dirigido por um dos membros do triunvirato que tomou conta do PSD. Miguel Macedo justifica com as necessidades de segurança. Porém, a razão é bem mais prosaica. Num momento como este que atravessamos a última coisa que o Governo admite – não por qualquer preocupação que se prenda com o interesse nacional, mas tão-só com a sua imagem – é ver polícias ou militares na rua a manifestarem-se. Essa seria a machadada final na credibilidade do Governo e do regime. Pode ser que me engane, mas mais cedo ou mais tarde, talvez mais cedo do que tarde, eles acabarão de novo na rua. Porque o dinheiro não é elástico e não há, como disse Vítor Gaspar, nenhuma receita “milagreira”. Pois não, mas quando o óbvio é tão óbvio, não será difícil perceber que as eleições regionais da Madeira marcarão o ponto de viragem. Qualquer que seja o resultado destas, com ou sem maioria absoluta, Alberto João Jardim será sempre um cadáver político no regaço da maioria.
Entretanto, seria bom que alguém dissesse ao ministro Mota Soares que querer obter a devolução de verbas da Segurança Social que foram atribuídas por erro dos serviços, a quem tendo direito a ser apoiado por essa entidade não teria, em concreto, direito à ínfima parte que lhe foi creditada em excesso, revela uma grande falta de senso e de sentido de justiça, para já não falar na violência de tal medida. É que essas verbas, se foram atribuídas em excesso não o foram por culpa de quem as recebeu, por um lado; e, por outro, porque foram recebidas de boa fé pelos destinatários que as viram creditadas nas suas contas bancárias. E, depois, porque essa gente vive com mil euros por mês estando em situação de carência e tendo filhos para sustentar. Pedir-lhes nesta altura a devolução, ao fim de anos e em relação a gente que chega ao fim do mês com muitas dificuldades para comer – não o gastaram para ir de férias ou comprar acções – não será o mesmo que pedir a Joe Berardo que pague os juros do que pediu emprestado para comprar acções do BCP. Se o objectivo do Governo é dar o exemplo, então que comece por quem pode defender-se. Ou por quem criou problemas a todos actuando dolosamente, de má fé e à revelia da lei, gozando com a nossa cara e com a nossa bolsa.
Já faz um ano. A saudade é a mesma. Por isso voltaria a escrever o que então escrevi. Com um pouco mais de ternura. Porque esta é sempre pouca quando se tem e se pode dar sempre mais do que se dá.
sexta-feira, setembro 16, 2011
MADEIRA: O PROSTÍBULO DO PSD
Enquanto o ministro Relvas vai confraternizando e fortalecendo os laços com os seus amigos do garimpo do outro lado do Atlântico, seria bom que quem por cá ficou fosse pensando em responder às questões que se vão colocando:
1 - Até quando - ou, se quiserem, até que montante - é que o PSD e o primeiro-ministro Passos Coelho estarão dispostos a dar cobertura política a quem dolosamente e ao longo de anos sucessivos "martelou" as contas da Madeira, insultando todos os contribuintes nacionais e delapidando o dinheiro público para sustentar as suas miseráveis clientelas políticas?
2 - Porque estão tão calados os deputados Guilherme Silva e Correia de Jesus? Por solidariedade para com Alberto João Jardim, por estarem comprometidos com a situação ou por simples medo de falar?
3 - Que autoridade tem o presidente do Governo Regional da Madeira, que governa uma "aldeia" de 250 000 pessoas, para criticar os Governos da República, sabendo-se que o buraco que criou nas contas públicas regionais é em termos proporcionais incomensuravelmente maior do que o deixado (o que também não o desculpa) pelo anterior Governo da República?
4 - Qual o valor real da dívida da Madeira?
5 - Uma vitória de Alberto João Jardim nas eleições regionais de Outubro próximo é suficiente para limpar o chiqueiro em que a sua governação transformou as contas públicas da Região Autónoma?
UM FILME A NÃO PERDER
Embora já o tenha visto há um bom par de semanas, ainda não tinha tido oportunidade de vos recomendar este filme-documentário de Andrei Ujica. Notável pela forma como apresenta o ditador, entregando-o à sua própria propaganda e imagem. O contraste entre a opulência e a miséria e as contradições do regime estão lá todas. Ou de como um homem vazio foi elevado à condição de "estadista". O breve diálogo entre ele e a mulher, por ocasião do seu julgamento, quando o procurador o acusa da morte de uma série de estudantes e Elena se vira para ele perguntando-lhe a que estudantes se referia a acusação, dizem quase tudo sobre a forma como a Roménia foi governada. Uma lição a reter. E um filme que convém ver quando se sabe que os líderes dos dois maiores partidos portugueses saíram das fileiras das organizações juvenis dos partidos que lideram e cultivam a imagem como forma de estar na política.
SINAIS (12)
"Governo extingue 137 organismos mas ainda não sabe quantos funcionários saem" - Público, 16/09/2011
"Não se pode saber. A fase seguinte do programa será a aprovação das leis orgânicas de cada ministério e de cada entidade" - Hélder Rosalino, secretário de Estado da Administração Pública
A LER
Nota: Nesta tabanca lê-se sempre o Vasco e qualquer tipo inteligente, de direita, de esquerda ou até do F.C. Porto, desde que quem escreva saiba fazê-lo, não tenha medo das palavras e não seja servil, e não obstante se poder estar em desacordo em relação a muita coisa.
PARABÉNS QUANDO O TALENTO NUNCA É EXCESSIVO
A Eduardo Souto de Moura. Por causa disto.
Se não conhece vá até lá, veja os desconcertantes e geniais trabalhos de Paula Rego e aproveite para tomar um café na acolhedora esplanada interior.
quinta-feira, setembro 15, 2011
FAÇAM O QUE EU DIGO MAS NÃO O QUE EU FAÇO
Em Maio passado o Carmo e a Trindade vieram abaixo porque o ex-ministro Teixeira dos Santos chegou a Bruxelas e acedeu a fazer alguns ajustamentos a um texto previamente negociado e aprovado com a troika, texto que antes dessas alterações era do conhecimento dos partidos políticos.
Na altura, o sempre oportuno Paulo Portas apressou-se, e bem, a pedir explicações ao Governo.
Mas agora, os mesmo que tanto criticaram Teixeira dos Santos resolveram introduzir actualizações - não foram meros ajustamentos - às medidas de austeridade e já ironizam com o facto de ter havido quem tivesse ficado "perplexo" com a desconsideração.
E é esta malta que se especializou a "agilizar" processos, e ganhou a visibilidade mediática que as suas competências nunca lhe deram na política e na vida à custa dos partidos, que depois quer ser levada a sério.
DIÁRIO IRREGULAR
15 de Setembro
O meu primo JC faria hoje anos. Foi um dos que partiu sem se despedir. Ou fizeram-no partir, nunca cheguei a saber. Já lá vai um ror de anos e continuo a recordá-lo. Com os bons rapazes é assim.
Estive umas semanas sem a comprar e penso que vai voltar a ser assim. A Sábado, na linha de um certo jornalismo sensacionalista e sem conteúdo útil, vem hoje com uma capa na qual colocou a foto de uma mulher sorridente de coco na mão ao lado do título "A vida fantástica dos portugueses que foram para o Brasil". O subtítulo refere que estes portugueses saíram de Portugal "para fugir à crise" (sic) e "agora vivem em casas de luxo em frente à praia e chegam a ganhar o dobro". A senhora da foto é Mónica Penaguião. Só não dizem que a senhora da foto podia viver numa casa de luxo em qualquer parte do mundo, incluindo em Lisboa. Dizer que ela foi para o Brasil para "fugir à crise" é um insulto para aqueles que cá têm de ficar para serem esfolados pelo senhor que confunde aumento de impostos com redução de despesa pública.
Estava uma noite fantástica, a temperatura amena, a casa cheia, em suma, um ambiente fabuloso. Cânticos, muita cor, muita luz, o voo da águia e o verde húmido do relvado. Depois, durante noventa minutos, uma exibição de grande classe. Vale a pena ver as televisões europeias e ouvir os comentários ao golo de Cardozo. Uma obra de arte. E não foi preciso entoar cânticos a insultar o adversário. É assim que naquela casa se recebem as grandes equipas.
Encontrei ontem o meu amigo JMB no seminário organizado pela DGPJ e o IAPMEI. Fiquei satifeito de poder revê-lo, ainda que apressadamente, e não menos admirado de vê-lo ali. Depois percebi porquê. Disse-me que acabou o exílio. Sorte a dele. O meu continua e não precisei de sair de Portugal.
O director-geral dos impostos veio falar em ética na actuação do fisco, no dever de pagar impostos, com o que eu concordo e aplaudo, e aproveitou para meter uns quadros com barras e curvas a dizer que a carga fiscal das empresas portuguesas está abaixo da média europeia. Do que ele se foi lembrar para justificar o saque. Esqueceu-se de dizer que não temos a Saúde nem a Segurança Social dos suecos ou dos dinamarqueses e que por lá as autoridades não instauram execuções por € 0,19 (dezanove cêntimos) nem tentam cobrar dívidas prescritas. Vá lá que houve alguém que lhe disse que mesmo que a nossa carga fiscal fosse só de 20% e que se todo o dinheiro fosse para pagar os salários na Direcção-Geral dos Impostos ainda assim seria excessiva. Já não tive tempo de lhe perguntar se essa actuação "ética" a que ele se referia englobava aqueles processos entre o fisco e os contribuintes em que os tribunais, o MP e os próprios serviços do fisco já deram razão ao contribuinte e o processo continua em Tribunal porque a jurista que representa a DGI não leu a informação do processo administrativo e ninguém manda nela, continuando o contribuinte a pagar a garantia bancária até que o relator se digne inscrever o processo em tabela no TCA do Sul para resolver de vez um simples problema de aritmética.
O contraste não podia ser maior. Ouvir no mesmo dia Paula Teixeira da Cruz e Álvaro Santos Pereira permite-nos tirar uma rápida conclusão. Ambos podem ser excelentes pessoas e competentes no seu métier. No caso da ministra nunca tive dúvidas disso. Já o mesmo não posso dizer do "Álvaro", embora me possa fiar no seu impressionante currículo. Mas há uma coisa de que eu tenho a certeza: para fazer o que faz com o rigor e a classe com que o faz, Paula Teixeira da Cruz podia ser ministra de qualquer Governo de Portugal. Ele, pelo estilo, só podia ser ministro de Passos Coelho. Ou do Relvas.
Alguém lhe devia ter dito que normalmente as senhoras precedem os cavalheiros e que é melhor cair em graça do que ser engraçado. Não sei se será alguma coisa contagiosa ou apenas uma consequência de lhe ter sido atribuída a pasta da Economia. O outro também era muito afável mas isso não impediu as bojardas. Nem a cena parlamentar dos corninhos. Ontem também não cheguei a perceber se o homem estava a delirar ou se será sempre assim. Por três vezes o "Álvaro" garantiu que no "final de 2012", "muito em breve", Portugal estará em situação de "retoma". E acrescentou que não só tinha a certeza como acreditava "piamente" (sic) nisso. Ficou gravado. Verdade que não explicou como (também não estava ali para isso), mas oxalá que tenha razão. Se eu cá estiver nessa altura não deixarei de recordá-lo. E, sendo verdade, de dar a mão à palmatória.
SINAIS (11)
"Estava escrito nas estrelas que a descida da Taxa Social Única (TSU) daria asneira. Desde a conferência de imprensa da ‘troika’ em Lisboa a 12 de Agosto que ficou claro que existia uma cisma à volta desta medida" - Bruno Proença, Diário Económico
TEMOS EQUIPA
SLB 1 - MANCHESTER UNITED 1
Não sei quem o disse mas há momentos em que é bem verdade: "Deus perdoa, Tacuara não". Grande jogo de futebol, grande exibição, uma noite fantástica. Houve muita classe e emoção no relvado da catedral. O resultado é que soube a pouco. De qualquer modo, fica a certeza de que "o Benfica não é o Bolton". Mesmo quando deixa Saviola no banco. Contem connosco.
terça-feira, setembro 13, 2011
DIÁRIO IRREGULAR
13 de Setembro
E lá me meti no avião para o Porto, na jornada que me conduziu até Braga. É reconfortante ver a diversidade deste território tão pequeno onde os nossos antepassados se acantonaram, descobrir novos falares, novas formas de estar, outros sorrisos, paisagens tão diferentes.
Podia ter corrido melhor. Muito melhor. Mas não sei se estando sequestrado como está alguma vez será possível que corra melhor. Também não sei se o sentido da palavra renovação terá para todos o mesmo significado. Pelo que ouvi das intervenções e das conversas de bastidores, e, em especial, já que isso é decisivo para se fazer um juízo, a avaliar pelos nomes que saíram das listas de Seguro e Assis para os órgãos nacionais, renovação deve ser coisa para as calendas. E o sentido que eu, muitos outros militantes e portugueses lhe dão não é o mesmo que eles lhe dão. Tenho pena que assim seja.
Os actuais figurinos de escolha do secretário-geral e do congresso não fazem qualquer sentido. Escolher o líder em directas, dois meses antes do congresso, para de seguida entronizá-lo numa missa, ao mesmo tempo que se vota para os órgãos nacionais, é desmotivante. A eleição do secretário-geral deverá voltar a ser feita em congresso, através dos delegados, por voto secreto, e na sequência de um debate no próprio congresso entre os candidatos e os subscritores das moções que se apresentem. Na sexta-feira cada um dos candidatos à liderança apresentava as suas ideias. No sa´bado discutiam-se as moções e depois votava-se. Isso traria outra motivação à participação e seria mais estimulante para os portugueses que em casa acompanham estes conclaves. Bater-me-ei por isso. Um Congresso, como também me dizia o JMM, não pode ser uma missa, apesar de haver muitos lá dentro com jeito para sacristães. E para seminaristas, digo eu.
Também terá de ser encontrado um outro formato para as intervenções dos delegados. Três minutos não chegam para nada, em particular se as pessoas gastarem o primeiro minuto a saudar a presidente, o secretário-geral, a comissão organizadora e por aí fora, numa ladainha que somadas todas as intervenções deve representar ao final do dia umas três horas de encómios e salamaleques. Basta fazer as contas a cerca de cento e oitenta discursantes. Era preferível que se pré-fixasse um período para as intervenções e depois se aceitasse um número limitado de inscrições, por exemplo quarenta ou cinquenta. Se esse número fosse excedido haveria lugar a sorteio ou, então, já que as novas tecnologias estão na berra, só se aceitariam inscrições feitas por via electrónica até ao número limite admitido. Se possível com o sumário escrito da intervenção. Isto levaria a que só subisse à tribuna quem tem alguma coisa para dizer, ao contrário do que hoje acontece em que muitos há que vão lá só para dizer que lá estiveram, além de que se evitariam eventuais manobras de bastidores e os atropelos aos que querendo intervir e podendo, penso eu, intervir a horas de maior audiência, são atirados para períodos mortos ou, como aconteceu, para uma hora em que as moções já tinham sido votadas, depois de jantar, quando praticamente ninguém estava na sala. Aliás, que sentido faz continuarem as intervenções depois da votação das moções? Não foi o meu caso, que tive a sorte de poder intervir a horas decentes, durante a tarde de sábado, mas outros houve que bem se podem queixar. É certo que o tempo dado só me permitiu sumariar o que nos preocupa e quanto a isso talvez tenha conseguido lá chegar. Explicar porquê seria impossível. E poucos deviam estar interessados em conhecer as minhas razões.
Pode-se criticar a presidente do partido pela gestão que fez de alguns tempos, mas admiro-lhe a paciência, a educação e a simpatia, mesmo quando depois de ter pedido às pessoas que não se atrasassem no regresso depois das refeições, e de ter anunciado os nomes dos primeiros a serem chamados, se viu sozinha na mesa de honra esperando os atrasados e dando minutos para a sala se compor. Infelizmente, esta parece ser a regra em qualquer reunião mais alargada que se faça. Há sempre tempo para mais um café e dois dedos de conversa, os outros que esperem que a gente logo há-de aparecer. Falta de educação é o que é.
As negociações para a finalização das listas continuam a ser uma operação semi-clandestina e tenebrosa a que os líderes e os apparatchiks se dedicam. Não sei se nos outros partidos, posto que não os conheço, será assim. No meu não gosto que assim seja. Este ano, com as duas listas, o ideal era Seguro e Assis depois de as terem ordenado terem escolhido duas pessoas da sua confiança, uma por cada uma das listas, para que cortassem na lista do adversário as que lá não deviam figurar. Estou certo que dessa forma se faria uma verdadeira renovação, talvez mesmo uma limpeza, sendo então possível começar tudo de novo. Os compadres e as comadres é que eram capazes de me crucificar, mas isso seria o menos.
Dois bons discursos, a abrir e a fechar, uma excelente intervenção do Assis no sábado e mais uma ou duas notas, como as palavras do António Costa ou do Manuel dos Santos. Mas o fundamental ficou por dizer. Se o Congresso não é o lugar adequado para se discutir o que importa, então onde fazê-lo? Os debates de sexta-feira foram uma nota positiva, talvez mesmo a melhor, pela natureza dos temas e as intervenções a que deram lugar. Porém, pareceu-me que foi escasso e com pouco eco.
Espero que o Seguro seja capaz de mostrar rapidamente mais do que aquilo que foi prometido. Tirando um ou outro emplastro que vai sempre parar aos órgãos nacionais por amiguismo e compadrio - aí nunca há renovação - há lá gente capaz de pensar por si, de dar um contributo efectivo à mudança se lhe for dado espaço de intervenção.
Estas coisas são lentas, demasiado lentas para o meu gosto. Restar-me-á ter paciência, acreditar, se conseguir, esperar que o actual Governo dure todo o período da legislatura sem fazer disparates que antecipem eleições e nos coloquem num patamar ainda mais baixo do que aquele em que já estamos. Se tal acontecesse seria dantesco, uma tragédia para a nossa sobrevivência. Vamos ter esperança.
sexta-feira, setembro 09, 2011
SINAIS (10)
"O ministro das Finanças recordou em Castelo de Vide que Portugal aceitou voluntariamente as muito severas condições da troika. Mas devia ter acrescentado que a maioria dos portugueses acreditou no que diziam o PSD e o CDS na campanha eleitoral e por isso votou neles.
O Governo tem agora de confrontar-se com recapitulações assassinas daquilo que foi tantas vezes afirmado pelas cúpulas partidárias, o que é muito desconfortável para quem o apoia. Mas quem apoia este Governo tem de ser muito exigente e dizer as coisas com a maior clareza.
Torna-se evidente que as políticas de agressão fiscal directa ou indirecta a uma classe média que é muito mais média baixa do que média alta ou mesmo "média média", vão ao arrepio de tudo o que tinha sido garantido.
O assalto à mão fiscal agora anunciado à queima-roupa acarreta para os portugueses uma situação de escravatura intolerável pela apropriação abusiva dos proventos do trabalho pela voracidade do Estado." - Vasco Graça Moura, Diário de Notícias
NÃO HÁ NADA QUE NÃO LHES ACONTEÇA
Eu no lugar destes ficava em casa e dedicava-me ao bilhar. Isso talvez reduzisse as hipóteses de se espetarem de cada vez que saem à rua.
SINAIS (9)
"Transplantes ninguém os faz por moda ou capricho. Não é o mesmo que meter implantes mamários. Se os hospitais públicos estão a fazer transplantes a mais face à média dos países evoluídos com os quais se devem comparar; ou se o estão a fazer a um preço mais alto e alguém está a aproveitar-se disso - então que o ministro o quantifique e explique. Nem todos vão entender, mas muitos vão compreender. O SNS depende desse bom senso.
Correia de Campos, o ex-ministro da Saúde de Sócrates, fez parte do trabalho difícil. Macedo que faça a outra. Para começar, perceba que fazer uma lipoaspiração ao Estado não equivale a prescindir dos órgãos vitais - é por isso que se chamam vitais." - André Macedo, Diário de Notícias
quinta-feira, setembro 08, 2011
FICA QUASE TUDO DITO
Quando um partido e um governo ficam dependentes de um deputado como Mendes Bota para enaltecerem os seus méritos e atacarem as vozes mais escutadas da sua agremiação fica quase tudo dito. A cara com que Carlos Abreu Amorim escutou a intervenção do deputado da, agora, sua bancada, dir-se-ia temer uma tirada "à Pontal".
DUAS BOAS NOTÍCIAS
A candidatura de Maria de Belém à presidência do PS e a escolha de Carlos Zorrinho para dirigir a bancada parlamentar do PS são duas boas noticias. É o que se chama uma renovação pelo seguro: limpa e sem telhados de vidro.
SINAIS (8)
"O primeiro-ministro cometeu o pecado capital dos políticos: disse uma coisa para ganhar eleições e faz outra quando está no poder. No caso concreto, prometeu atacar o problema do défice com base no corte da despesa e, para já, os portugueses estão a pagar três aumentos de impostos, dos quais apenas um foi acordado com a ‘troika'. Quanto aos gastos, só metas genéricas e mais promessas de medidas no Orçamento do Estado para 2012.
Esta falha é importante porque mina a confiança das pessoas nos políticos. Acaba por ser uma justificação para a mais injusta das frases: "são todos iguais" - António Costa, Diário Económico
SINAIS (7)
"Todas as medidas de corte da despesa tinham que ter sido as primeiras a ser tomadas, para terem efeito neste ano, agora já não há tempo" - Nuno Morais Sarmento
RECORDAÇÕES DE VIAGEM (5)
A ilha de Sveti Stefan, ou de Santo Estevão, faz parte do munícipio de Budva, no Montenegro. Durante muitos anos foi a residência de Verão da rainha sérvia Maria Karadordevic. Depois, no tempo da defunta Jugoslávia, o marechal Tito quis transformá-la numa estância de veraneio apenas acessível aos membros da nomenclatura e aos ocidentais ricos e poderosos que lhe deram nome e prestígio: Orson Welles, Elizabeth Taylor, Sophia Loren, Carlo Ponti ou Kirk Douglas. Os campeões Boris Sapssky e Bobby Fischer também aqui jogaram algumas partidas de xadrez. Com a desintegração da Jugoslávia, a independência do Montenegro e a chegada das máfias do leste europeu, o local perdeu muito do seu charme. Mais recentemente o local voltou a andar nas bocas do mundo pelo facto de ficar a escassos quilómetros do Casino Royal, que deu nome a um filme de James Bond, mas as filmagens acabaram por ter lugar, tanto quanto me informaram, na Holanda. A ilha é agora propriedade da célebre cadeia de hotéis de luxo "Aman Resorts" e apesar de tudo por que passou continua, graças à sua excelente localização, clima e fabulosas águas, a ser um local suficientemente aprazível e acolhedor para se poder gozar uns dias de férias.
quarta-feira, setembro 07, 2011
RECORDAÇÕES DE VIAGEM (4)
De Dubrovnik à República de Montenegro é um salto rápido e que se faz com gosto. A paisagem é simplesmente impressionante, ao longo de uma costa profundamente recortada. Convém, desde logo, tomar nota de que os croatas têm uma natureza e um espírito totalmente diferentes dos montenegrinos, sendo aqui a influência sérvia e russa muito acentuada. No espírito e, em especial, nas maneiras, mais rudes e grosseiras. Mas descontando esse aspecto, bem como a juventude de um país que não tem meios para emitir moeda e que por isso usa o euro como moeda oficial e em que 1/3 da propriedade da terra pertence a estrangeiros, na sua maioria russos e alguns, poucos, endinheirados ocidentais - Madonna, Michael Douglas ou Sophia Loren -, que escolheram essa parcela da costa adriática como destino de férias, vale a pena atravessar a fronteira para visitar a cidade de Kotor. As suas muralhas, à semelhança do que acontece em Dubrovnik, estão estupendamente conservadas e são o resultado dos tempos áureos da República de Veneza e de todo o seu poderio. Kotor fez parte da República de Veneza entre 1420 e 1797, período interrompido durante os anos da ocupação otomana. Fez parte do Império dos Habsurgos a partir de 1797 e no decurso da I Guerra Mundial foi a base da marinha austro-húngara. Hoje integra merecidamente, como toda a zona da baía de Kotor, o património classificado da Unesco. Lá dentro multiplicam-se os cafés, restaurantes e esplanadas, paredes-meias com algumas belíssimas igrejas como a Catedral Católica, por onde passou João Paulo II, em estilo românico mas com elementos góticos e barrocos, o templo ortodoxo sérvio de São Nicolau ou a belíssima igreja de Santa Maria. De notar são os palácios senhoriais, ao bom estilo veneziano, sinal da opulência e estatuto que algumas das suas famílias gozaram durante os seus tempos mais gloriosos.A sua situação e um porto acolhedor fazem do local destino privilegiado dos mais belos e modernos iates que se podem ver junto à entra principal da cidade, a conhecida Porta Marina.
SINAIS (6)
" (...) há evidentemente um aspecto em que o Governo não tem sido muito feliz: não tem explicado as coisas com suficiente clareza" - Rui Machete, à TSF
terça-feira, setembro 06, 2011
DAR AS BOAS-VINDAS AOS COWBOYS
Tem um nome mítico - Forte Apache - e reúne alguns nomes de peso da blogosfera nacional. Prometem concorrência aos índios e aos acomodados. Pela minha parte, que não sou um "Touro Sentado", dou-lhes as boas-vindas e espero que o avançar da legislatura não lhes faça perder o humor e a garra com que chegam.
RECORDAÇÕES DE VIAGEM (3)
A cidade velha comprime-se no interior das suas muralhas. Não fossem estas e as suas parecenças com Veneza seriam ainda maiores. Mas não são mera coincidência. A maior parte do que hoje se vê foi fruto da sua reconstrução após o sismo de 1667. As suas origens remontarão ao século VI, altura em que terá começado a desenvolver-se, mas foi só mo século XII que recebeu o nome de Dubrovnik, tornando-se num centro importante para o comércio e as rotas marítimas na ligação entre o Adriático e o Mediterrâneo. Mercê de acordos pontuais e do pagamento de tributos, conseguiu manter a sua independência, liberdade e relativa autonomia, primeiro com um sistema de natureza comunal e depois transformando-se numa cidade-estado, com poder legislativo total no século XV. Conhecida como Républica de Ragusa, tornou-se num estado patriarcal e aristocrático que assentava numa divisão classista entre nobreza, cidadãos e dependentes, estes últimos na sua maioria camponeses. Era governada pelo "Velijo vijece" ou Conselho Maior, composto pelos seus nobres que depois escolhiam o Conselho Menor e o Consilium Rogatorum. O símbolo máximo da autoridade era o Reitor, que rodava todos os meses e que vivia no Palácio durante o período em que exercia o mandato. A cidade começaria a perder poder e influência com o declínio de Veneza, mas no momento em que tal aconteceu já a escravatura tinha sido abolida no distante ano de 1416. Em duas breves inscrições, uma no Palácio do Reitor e outra no Fort Lovrijenac, residirão as marcas maiores do seu espírito e perenidade, não obtante todas as vicissitudes que culminaram com o cerco sérvio-montenegrino entre 1990/1991. A primeira dessas inscrições reza "Obliti privatorum - Public curate" - "Esqueçam os negócios privados, preocupem-se com os públicos" - e a segunda diz apenas isto: "Non ben prototo libertas venditur auro". Ou seja, "A liberdade não é para ser vendida, nem por todo o ouro". Bem podíamos fazer delas as nossas divisas.
LÁ PODER PODIA
De facto, é verdade que o Governo poderia comunicar melhor, mas para isso lá está o anúncio a dizer que não seria a mesma coisa. E isto é assim estando a informação centralizada, ou sendo coordenada, pelo ministro dos Assuntos Parlamentares. Agora imaginem o que seria se não estivesse.
SINAIS (5)
"Efectivamente há que atirar forte na redução da despesa, o que não é tão simples quanto a forma como as pessoas dizem ou que se diz quando se está na oposição, porque eu acabo com um instuto público, sim senhor, mas as pessoas existem" - Rui Rio, à TSF
AINDA HOJE É DIA 6 DE SETEMBRO
Desde que a Al-Qaeda e o fundamentalismo islâmico quiseram tomar conta das nossas vidas é isto. Cada ano começa mais cedo. Ontem já vi dois programas na televisão, os jornais já começaram com as primeiras páginas e não se fala noutra coisa que não seja no 11 de Setembro. De novo a repetição das imagens. Começa a haver uma excessiva frivolidade na forma como a comunicação social recorda a efeméride porque de cada vez que a data é recordada também não se traz nada de novo. Dir-se-ia ser mesmo só para vender papel ou preencher os espaços mortos da programação televisiva. A pergunta "Onde estava no dia 11 de Setembro?" até já serve para fazer uma espécie de concursos. Deve haver maneiras mais sérias e instrutivas para lembrar a data e honrar os mortos.
SINAIS (4)
"O Ministério das Finanças é a nova ASAE e eu sou um prato de chop suey nas mãos de Vítor Gaspar. O ministro chega, olha para mim e apreende tudo o que quer" - Ricardo Costa, Expresso, 03/09/2011
segunda-feira, setembro 05, 2011
SINAIS (3)
"Assobiarei para o lado quando me recordarem as palavras do primeiro-ministro no Pontal, quando assegurava que até dia 31 de Agosto o grande plano ia ser apresentado e até Outubro estaria executado. Fingirei que não percebo nada de aritmética quando me falarem de um terço para isto e dois terços para aquilo. Estou disposto a jurar que quando Passos Coelho disse que seria intransigente na questão das deduções dos gastos em educação, habitação e saúde em sede de IRS e jamais as aprovaria, foi mal interpretado e não era isso exactamente que queria dizer" - Pedro Marques Lopes, Diário de Notícias
SINAIS (2)
"Pedro Passos Coelho desafiou ontem os que têm criticado a estratégia de redução do défice e da dívida pública e os sucessivos aumentos de impostos a apresentarem soluções alternativas, do género “quem acha que faz melhor, que se chegue à frente”.
Ora, este era precisamente o argumento que o presidente do PSD usava quando liderava a oposição e quando José Sócrates o desafiava a dizer como seria possível equilibrar as contas públicas sem recorrer aos imposto" - António Costa, Diário Económico
SINAIS (1)
"A firma norte-americana Perella Weinberg Partners, que foi contratada para assessorar o Caixa BI nas privatizações da EDP, Galp e REN, deverá receber até 50% da comissão relativa a estas operações, apurou o Diário Económico. Em causa está um valor que poderá ascender a 9,3 milhões de euros, num contrato que está a causar polémica por se tratar de uma empresa que foi não qualificada em concurso público para participar como assessora nas privatizações" - Diário Económico
RECORDAÇÕES DE VIAGEM (2)
A pouco mais de uma hora de viagem de carro a partir de Dubrovnik, e depois de uma travessia de barco que não dura mais do que 15m, chegamos à ilha de Korculla (pronuncia-se como "ch"). Conhecida como o local de onde Marco Polo partiu em direcção ao Oriente, é uma sucessão de vielas e becos assente num promontório. Mais um paraíso de águas tépidas e cristalinas, acomodado junto a uma muralha onde é fácil encontrar um restaurante acolhedor e com uma vista soberba. Há quem veja nela uma mini-Dubrovnik, mas a mim tal não me pareceu. Korculla tem identidade e encanto próprios e algumas das suas pequenas igrejas valem bem uma visita. É uma das mais bem preservadas vilas medievais do Mediterrâneo e com ou sem lendas, que são imensas, vale bem o tempo de um visita.
domingo, setembro 04, 2011
RECORDAÇÕES DE VIAGEM (1)
Durante séculos a cidade foi sendo alvo de múltiplas ocupações. Umas mais pacíficas, outras mais violentas. Primeiro foram os gregos que se instalaram naquela costa luminosa, encaixada entre o Adriático e os Balcãs. Por lá passaram os eslavos do Norte, os hunos, houve conflitos por causa dos turcos, depois o domínio dos Habsburgos e a influência de Veneza e dos seus doges. Em 1806 chegou Napoleão, que se instalou no local onde hoje existe o Hilton Imperial, depois de ter salvado Dubrovnik dos exércitos da Rússia e do Montenegro. Por sua iniciativa, em 1808, no alto do Monte Srd, coincidindo com o momento em que foi dissolvida a República de Ragusa e a cidade passou a integrar as suas províncias, foi mandado erguer o Forte Imperial. A vista que dele se alcança sobre a cidade e todas as baías, Cavat, as ilhas Elaphiti e Lokrum, é impressionante. Porém, o que ali mais me marcou foi a visita ao recente Museu da Guerra Civil que ocorreu entre 1991 e 1996, contendo a memória, as fotografias, os vídeos, as armas e equipamentos diversos relacionados com a agressão da Sérvia e do Montenegro. Pouco gente visita o local preferindo ficar pelas varandas da estação do teleférico e por uma visita à renovada cruz que substituiu a que havia sido erigida em 1933 e que acabou destruída durante a agressão de 1991. Vale a pena passar por Forte Imperial, olhar para aquelas paredes e imaginar quão dolorosos terão sido os acontecimentos mais recentes. A guerra acabou, a cidade e o país foram reconstruídos, mas a memória perdurará. Foi então que me dei conta da sorte que nós temos, aqui em Portugal, e do pouco ou nenhum valor que damos a essa sorte.
DIÁRIO IRREGULAR
4 de Setembro
Há muita coisa que não é agradável de escrever mas que tem de ser escrita se nos abalançamos a escrever alguma coisa, sob pena de se não o fizermos sermos coniventes com homens, políticas e estratégias que contribuem para a ruína nacional. Seria muito mais fácil redigir meia dúzia de banalidades, de elogios e de "chistes" que mantivessem a tranquilidade, o sorriso nos rostos, a afabilidade nos encontros ocasionais e a esperança em quem lê. Fácil, cómodo e susceptível de gerar mais leitores. Não é esse o meu caminho.
Regresso hoje a um espaço de onde nunca saí. O Diário continuará aqui, por onde esporadicamente passou. A minha saída do Delito de Opinião foi pessoalmente dolorosa. A decisão aparentemente precipitada que a promoveu esteve de pousio durante algumas semanas. É mais fácil aguentar meia dúzia de anos de escrita semanal num jornal do que num blogue, em que a rapidez de publicação, a velocidade de apreensão dos conteúdos pelos leitores, a facilidade de interacção entre autor e destinatários, tornam tudo menos equilibrado. Guardarei a memória dos bons momentos e daquilo que é irrepetível: os sorrisos sãos, as palavras sinceras, nem sempre agradáveis, de quem connosco esteve desde o princípio e até ao fim tentou tornar conciliável aquilo que para sê-lo teria de ser desvirtuado. A moderação, o equilíbrio, a constância, tudo isso era, e é, fundamental. Na escrita e nas relações sociais. Na amizade sobretudo. O que não quer dizer que seja viável em todas as circunstâncias. A rejeição de uma dor envolve uma escolha sem que essa opção signifique o fim do sofrimento. Contudo, abre outras perspectivas, transforma as variáveis, protege realidades que nos são queridas e que queremos preservar, obrigando-nos a seguir um outro caminho. Há muitos percursos para nos levarem a um destino comum. Por vezes esses caminhos bifurcam-se mas o importante é chegarmos juntos a esse destino.
Reconheço que os meus últimos textos foram duros. Tinham de ser. A prova da sua necessidade está nos jornais de ontem e de hoje, nas declarações de alguns comentadores que estão a anos-luz de mim, gente que goza de um estatuto que eu não tenho. As citações ficarão para outra sede, mas quem ouviu ou leu as declarações recentes de Pedro Marques Lopes, Lobo Xavier, Vasco Graça Moura, Marques Mendes, Manuela Ferreira Leite, João Almeida, Pedro Mexia, Rebelo de Sousa, Luís Delgado ou do insuspeito Moreira da Silva, ou escutou os jovens da Universidade de Verão do PSD gritarem um patético “Soares é fixe” numa altura destas, não pode ficar indiferente. Esta gente não ensandeceu, não apela ao regresso de José Sócrates, não passou a ser de esquerda no espaço de três meses. Esta gente ainda pensa, vê, ouve, reflecte. Teme pelo futuro e, logicamente, duvida. Por muito grande que seja, ou tenha sido, a esperança.
Convenhamos que o problema não é de seriedade. Ou de deficiente comunicação, que como todos sabem é “coordenada” pelo ministro dos Assuntos Parlamentares sem que daí saiam resultados visíveis para a acção e popularidade do Governo e de Passos Coelho. O problema é mais de inexperiência, deficiente preparação e incompetência política na torre de comando. Esperteza não chega. E essas pechas não são disfarçáveis com publicitários brasileiros ou mergulhos no Copacabana Palace. O CDS já percebeu isso. A tarimba das “jotas” pode ajudar à ascensão, à chegada ao poder, mas não chega para fazer bons políticos, bons líderes e bons governantes. E o carisma não se encomenda. Quando em causa está a justeza e adequação das políticas só a qualificação, a experiência, o bom senso e o juízo ético importam. A política não é actividade para funcionários.
A reportagem publicada no último número da Visão sobre os amigos brasileiros do ministro Relvas vem demonstrar que o que escrevi nas páginas deste Diário irregular, e que tanta celeuma causou, foi brando. As declarações proferidas no processo dos sobreiros sobre a “agilização” de processos ou as entrevistas que antes aquele deu não me deixaram dúvidas. “Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”, diz o povo. Confirma-se que com toda a probabilidade estaremos perante um novo Dias Loureiro. O GOL vai ter muito que explicar aos “irmãos” se quiser evitar uma dissolução sulfúrica. Imaginar que, sendo verdade o que os jornais relatam, Silva Carvalho não voltou a dirigir as secretas por mero acaso não aumenta a esperança. Impressiona. Preocupa.
Três meses bastaram para o País começar a agitar-se. Na espiral em que se estava era preciso mudar. Mas Portugal não pode depender de estagiários tardios e de tecnocratas insensíveis que pairam sobre a realidade.
sexta-feira, setembro 02, 2011
A LER
Ainda bem que há quem, com a classe e o saber do Vasco Pulido Valente, nos recorde "a natureza do homem que os portugueses puseram em Belém". Imprescindível.
quinta-feira, setembro 01, 2011
DIÁRIO IRREGULAR
1 de Setembro
Não há maneira de se sair deste fado. Uma rápida leitura dos jornais e revistas nacionais que se foram acumulando revela o que já antes era evidente. Este país, com esta tropa, vai continuar na casa da partida. Será que até agora ainda ninguém viu que andam a encanar a perna à rã? Estava tudo estudado, as contas todas feitas, as equipas prontas a funcionar. No fim, a única coisa que eles garantem, para além da morte no dia e na hora marcada, é a asfixia fiscal. Ah!, e já me esquecia, a criação de grupos de trabalho. Agora, só para o futebol são mais três
. O ministro Relvas de cada vez que participa numa reunião sai de lá com um grupo de trabalho. Ou vários. Um génio, portanto.
. O ministro Relvas de cada vez que participa numa reunião sai de lá com um grupo de trabalho. Ou vários. Um génio, portanto.
Será que se devem fazer anúncios de aumento de tributação no estrangeiro? E de reformas que se supõem sérias em reuniões partidárias para formação de imberbes? Deve ser a isso que eles chamam “sentido de Estado”.
Depois da entrevista que Vítor Gaspar deu há alguma semanas a Judite de Sousa fiquei com a sensação de que o ministro tinha jeito para ardina. Na ocasião contive-me. Fiz bem porque há por aí muito animal feroz sedento de mostrar trabalho aos chefes, de comentar nos blogues e de cascar nos socialistas. Não vale a pena dar-lhes trela. Ontem, sem qualquer esforço, tive a confirmação. Antigamente, no tempo em que havia jornais e vespertinos, havia um ardina na Avenida de Roma que para os vender apregoava em voz alta aos passantes as notícias que supostamente vinham no interior. Não raras vezes eu comprava o jornal, a Capital dos bons velhos tempos ou a República, e depois quando encontrava a notícia não vinha lá nada do que o sujeito anunciara. Ou quando vinha não havia mais nada a acrescentar ao que fora apregoado. Um desconsolo. O ministro das Finanças vai pelo mesmo caminho. Fez-me também recordar uma velha história contada pelo meu padrinho. O meu padrinho exerceu medicina e numa altura da sua vida palmilhou o vale do Limpopo. De quando em vez tinha de pedir ajuda ao enfermeiro que o acompanhava para lhe traduzir os dialectos de alguns pacientes que não falavam português. Um dia, estando o paciente a arengar uma lengalenga qualquer há longos minutos, o meu padrinho interrompeu-o e perguntou ao enfermeiro tradutor de que se queixava o paciente. A resposta foi desconcertante: “Sinhô Dotôr, até agora o homem não disse nada, só está a falar”. Gaspar sofre do mesmo problema. Fala fala e não diz nada. Enrola na areia e nada. Com a agravante de que não necessitando nós de intérprete mais facilmente nos apercebemos do vazio. Anunciou mais 10,8 milhões de cortes na despesa – e já vai na terceira conferência de imprensa – mas lá concretizar o onde, quando e como dos cortes que anuncia é que nada. Para já é só sacar, coisa que como todos se recordam era exclusivo dos antecessores. O silêncio de Catroga e de Leite Campos não podem deixar de fazer pensar. Quanto ao Presidente da República, no seu serafismo, parece-se cada vez mais com um zombie de fato e gravata. Taxar heranças, Senhor Presidente? Nos dias de hoje? Não me diga que ainda está com algum peso na consciência por causa daqueles dinheiros das poupanças no BPN que o seu gestor de conta reinvestiu sem o senhor saber aonde.
A verdade é que, a falar, Vítor Gaspar esteve bem melhor a comentar a situação em que estão as contas da Madeira. Vou aguardar pela resposta do soba. Porém, tudo isto, em especial, o silêncio de Passos Coelho e a forma como se quis contornar o que Bruxelas disse em relação à Madeira, não deixa de ser lamentável. Vergonhoso. Se já se sabia desse desvio nas contas públicas do arquipélago, esse sim colossal atendendo à dimensão da Madeira, e se tal desvio já havia sido contabilizado pelo primeiro-ministro e a sua equipa, por que razão quando Passos Coelho e Vítor Gaspar anunciaram o desvio que encontraram nas contas públicas de 1,8 ou 2 mil milhões de Euros não disseram logo que cerca de 500 milhões eram responsabilidade da Madeira e de Alberto João Jardim? Uma vez mais foi a omissão que imperou, o silêncio, o disfarce, a farpazinha do ministro Relvas, em vez da clareza e da tão apregoada transparência. Se um falava demais e dizia o que não tinha correspondência na realidade, o outro começa a demonstrar diariamente que não passa de um refinado artolas.
Dizem-me que Miguel Relvas convidou Mário Crespo para ir, de novo, como correspondente para os Estados Unidos. Não sei se alguém me poderá confirmá-lo. E também se esse tipo de convites, ou abordagens, devem ser feitas pelo ministro ou pelos responsáveis da empresa que “pretende” contratá-lo. Ou se, tal como na função pública, esses cargos deverão ser preenchidos por concurso. Será que ainda alguém se lembra do caso daquela senhora Rosa qualquer coisa que foi para Madrid e por lá continua? Enfim, depois dos relevantes serviços que o pensador Crespo prestou à pátria – dos abusos, dizia o Eça – é natural que o ministro se lembre dele e lhe queira pagar o desvelo, a isenção de que sempre deu provas. Com o ministro Relvas tudo é possível. Se em Macau não conseguiram pôr os porcos a voar, agora é a oportunidade do ministro criar um grupo de trabalho para analisar a hipótese de se lhes dar asas. Aos porcos, evidentemente. Ressalva que faço, expressamente, não vá o apresentador julgar-se ainda mais importante do que acredita ser e pensar que é com ele.
António José Seguro perguntou quem vai pagar o buraco orçamental da Madeira. Então o líder do PS não sabe? O senhor primeiro-ministro, que se prepara para ir a Funchal apelar ao voto, deveria desde já anunciar que essa dívida será paga por todos os residentes na Região Autónoma. Se houvesse justiça isso é que seria equilibrado, já que foram eles, os eleitores locais, quem ao longo de mais de três décadas andou a mamar da poncha. E gastando menos para virem a Lisboa ver um jogo do Benfica do que eu indo do Algarve a Lisboa. Aqui pagávamos nós, como sempre, lá, desta vez, pagavam eles.
Fiquei admirado com o número. Nove milhões por dia a caminho dos paraísos fiscais e das contas offshore não deve ser coisa grave senão o Governo teria feito alguma coisa. Deve ser simples ignorância mas continuo sem perceber por que razão, já que o que importa é aumentar a receita sem olhar a meios, não se introduz uma taxa sobre as transferências de capitais para contas offshore e não se agrava substancialmente o IMI e o IMT sobre os bens imóveis e as transacções imobiliárias em que o detentor ou beneficiário seja uma sociedade offshore. Ou sobre os móveis – carros, barcos e aviões – titulados por sociedades offshore. Mas há alguma justiça fiscal num país em que eu, um teso que não recebe um chavo do Estado e se limita a pagar, suporte 600 euros de IMI e um daqueles fulanos de Vale do Lobo ou da Quinta do Lago pague o mesmo, ande de Ferrari e nem conta bancária ou cartão de Multibanco possuam?
O que se está a passar, e o que já se passou, com as secretas, a rejeição do PSD e do CDS em ouvirem quem sabe das histórias de fio a pavio por causa dos inquéritos em curso, não serve de justificação. Há trampa a mais no ar. O cheiro é fétido. O mais certo é que tudo dê em nada e a única conclusão que se possa tirar seja a de que há por aí muita gente que não presta. À direita e à esquerda, dentro e fora das empresas, dos gabinetes e dos serviços do Estado. E então na Maçonaria o melhor é nem pensar. Quem diria? O Pessoa se fosse vivo não tinha escrito o que escreveu. Ele era homem para castrá-los. Ele sabia que normalmente os estafermos safam-se. Às vezes, raro, sobra alguma coisa para os filhos que não tiveram nada que ver com o caso. Nunca para os da puta. Para os dos outros sempre.
segunda-feira, agosto 08, 2011
CASCAIS MERECIA
Há muito tempo que a minha vila de Cascais merecia uma competição com o nível e a dimensão da America's Cup. Estão de parabéns a organização, a Câmara Municipal de Cascais, que daqui felicito na pessoa do Carlos Carreiras, e os milhares que ao longo da costa e no mar acompanham o evento.
sexta-feira, agosto 05, 2011
JÁ NÃO SE FAZEM MILAGRES COMO DANTES
"Comigo a Câmara pagará sempre a horas" - Jornal de Campanha de Macário Correia, Junho de 2009
terça-feira, agosto 02, 2011
HOMEM NÃO ENTRA
Deve ser a primeira vez que um gabinete de um membro do Governo não tem homens. Certamente que em nome da Igualdade.
AS MINHAS ACÇÕES ESTÃO A SUBIR
Um tipo que consegue vender o guarda-redes Roberto ao Saragoça por 8,6 milhões, depois de o ter comprado há uma época por 8,5 milhões e de ter recebido duas mãos cheias de frangos de aviário, devia ser ministro. De qualquer coisa. Ou beatificado, sei lá.
sexta-feira, julho 29, 2011
SATISFAÇÃO
Por saber que o João Silva está de volta ao trabalho e à primeira página do New York Times. É destes exemplos que precisamos para ver os dias que vão passando com outros olhos. Um exemplo de vida que é também de luta e de coragem.
quinta-feira, julho 28, 2011
COMEÇOU A NOVA ÉPOCA
É o regresso à normalidade. A foto é de Vítor Mota no CM e ilustra o momento em que Nolito abriu a contagem,. Depois veio mais uma obra de arte de Nico Gaitán. Para já, SLB - 2, Trabzonspor - 0. Agora vamos esperar por dia 3 para ver o segundo acto.
segunda-feira, julho 25, 2011
AGRADECIMENTO
(Araxá, 1941 - Lisboa, 2011)
"Eu sempre achei que o acordo ortográfico não é preciso: um brasileiro lê perfeitamente a ortografia portuguesa e um português lê perfeitamente a ortografia brasileira"
Obrigado, Maria Lúcia, por tudo o que fizeste por nós.
quarta-feira, julho 20, 2011
VIA DO INSTANTE
O título que encima este texto não é da minha autoria. Ele faz parte de uma campanha publicitária de uma conhecida marca de bebidas, e visava utilizar o nome da única via de circulação longitudinal do Algarve que não tem rotundas nem semáforos, para promover a facilidade de abertura de uma garrafa de cerveja. Mas esse mesmo título poderia ser utilizado para ilustrar a facilidade com que se morre nessa pretensa "auto-estrada" onde em breve irão passar a ser cobradas portagens.O Algarve é uma região das mais belas e acolhedoras de Portugal, lembrada uma vez por cada doze meses e que todos os anos salta para as páginas dos jornais e os noticiários pelas piores razões. Ora pelos disparates da silly season, o desemprego que não pára de crescer, a criminalidade importada, as apreensões de droga, o desaparecimento de menores, as violações de turistas, as alterações aos PDM, as violações urbanísticas e a megalomania imobiliária, ora pelas declarações estapafúrdias de alguns dirigentes ou, como hoje aconteceu, pelos acidentes rodoviários. Dir-se-ia que o Algarve, terra de gente contemplativa e que foge dos problemas como o diabo da cruz, de mar azul e bom vinho - sim, o Algarve produz algum do melhor vinho que se pode beber em Portugal - é um antro de vícios e desgraças. Quem nele honestamente vive e paga os seus impostos não merecia que assim fosse.
Ontem, dois autarcas que se especializaram no ataque aos governos socialistas e que há menos de três meses abençoavam jornadas de luta contra as portagens na Via do Infante, também conhecida como A22, vieram considerar uma "inevitabilidade" a entrada em vigor das cobranças nessa estrada. Nem de propósito, tal aconteceu no mesmo dia em que uma mãe deixou três filhos órfãos entre Boliqueime e Albufeira.
Muitos dirão que o problema terá sido o excesso de velocidade, só que sendo a A22 considerada uma auto-estrada, continua-se a ignorar que essa via em muitos dos seus locais não tem condições para que se circule a 120 km/hora, tantos são os perigos e as ratoeiras.
Se o chamado princípio do utilizador/pagador tem a sua lógica e deve ser aplicado em todo o espaço nacional, quer em razão da situação financeira do país, quer por razões de igualdade, não será menos correcto dizer que há razões que derivam da aplicação do princípio da igualdade que impedem a cobrança de portagens na A22 nas mesmas condições em que já estão e irão ser cobradas noutros locais.
Convirá recordar as condições em que essa estrada foi construída, a forma precipitada como ela foi acabada, reflectida, aliás, no rápido aparecimento de desníveis e de abatimentos do piso, a péssima qualidade do seu revestimento em muitíssimos locais, visível nas mudanças de tonalidade e textura, sinal também da forma como o cavaquismo promoveu obras de fachada e patos-bravos, sempre mais preocupado na obtenção de dividendos eleitorais de curto prazo do que em concretizar obra de qualidade e durabilidade.
O resultado de tudo isso, conjugado com uma péssima manutenção e um piso ultra-remendado, criou uma via de circulação ruidosa e perigosa, utilizada indistintamente por motociclos, ligeiros e pesados, que tem contribuído para a multiplicação de acidentes e desgraças, custos que duvido alguma vez tenham sido devidamente contabilizados mas que todos pagam.
Para além disso, circular de Inverno na A22, num dia de chuva, com ou sem nevoeiro, e em especial à noite, é uma espécie de roleta russa, face à inexistência de sinalização adequada e de reflectores ao longo da estrada que cumpram minimamente a sua função, em razão da elevada intensidade de trânsito nalguns percursos, múltiplas poças de água que geram efeito de aquaplaning, túneis com iluminação inadequada, separadores centrais perigosíssimos e que nem sequer conseguem evitar o encadeamento provocado pelos faróis dos carros que circulam em sentido contrário, insuficiente largura da estrada e das bermas em vários locais, o que obriga a suster a respiração quando se encetam manobras de ultrapassagem de alguns camiões ou autocarros que circulam a mais de 100km/hora e se tem na traseira uma carrinha de distribuição ou de turismo que insiste em aproveitar o nosso cone de ar para ganhar embalagem para a subida seguinte e não descansa de fazer sinais de luzes enquanto não tem via aberta, enfim, curvas mal desenhadas, desníveis não assinalados a meio dessas mesmas curvas e que assustam qualquer turista menos prevenido que acabe de entrar na região logo após a travessia da Ponte do Guadiana, mais um sem número de outros problemas que só quem circula nessa estrada diariamente e em quaisquer condições atmosféricas tem verdadeira noção. Se a isto somarmos a falta de escapatórias, a falta de vedação e de rails em muitos locais e a falta de marcações visíveis no pavimento, temos já um conjunto de razões que impediriam um Estado e um Governo sérios e de boa fé, fosse socialista, social-democrata ou não catalogável, de cobrar portagens na A22 em condições idênticas às das outras SCUT.
Acontece ainda que, para além do que ficou referido, a A22 não resiste a uma comparação com qualquer uma das restantes SCUT que vão ser objecto da cobrança de portagens, tão más e deficientes são as suas condições de circulação. A que se soma o facto de não existir no Algarve outra via de circulação, pelo menos tão má como aquela, que permita a deslocação de pessoas e bens entre localidades sem maiores sustos e paragens constantes, isto é, sem semáforos, rotundas e entroncamentos a cada cem metros, com peões e animais atravessando e deambulando pela via, de noite e de dia, faça chuva ou faça sol, seja Inverno ou Verão.
Ademais, a EN125 continua imersa num longo e preocupante, pela morosidade, processo de requalificação, cheia de pinos, marcações a amarelo, sinalização sem sentido, cruzamentos perigosos e desvios inexplicáveis, sendo os automobilistas tão depressa surpreendidos pela bicicleta de um miúdo que cruza despreocupadamente a estrada nos locais mais perigosos, como pelos britânicos que se aventuram a conduzir carros alugados assim que saem do aeroporto, encostados ao meio da via e a passo de caracol, ou pelas betoneiras que a partir das bermas levantam pó e projectam pedras sobre os outros veículos, sem esquecer as carrinhas que invertem a marcha por cima dos traços contínuos ou os pinos que surgem no meio da estrada, sem aviso prévio, em zonas de finalização de ultrapassagens e à entrada de curvas, como é o caso no troço Faro/Almancil próximo do cruzamento de São Lourenço.
Percebe-se que os dirigentes e autarcas do PSD/Algarve, depois de terem quase instigado os algarvios à revolta popular, tenham de repente emudecido, rendido e desistido de lutar, assim mostrando a sua face troca-tintas e ignorando aquilo que mais do que um anseio é uma razão de justiça que devia mobilizar todo o País. Seria muito fácil explicá-lo e demonstrá-lo aos outros portugueses, cidadãos como os residentes no Algarve, que como todos os demais trabalham, pagam impostos e vão suportar as SCUT.
Uma avaliação séria do princípio da igualdade, em especial na sua "dimensão correctiva", analisando as possíveis "medidas de acção afirmativa [...] de modo a atenuar ou corrigir desigualdades reais no exercício de certos direitos ou na sua fruição de certos bens públicos", ou a consideração do modo seria possível dar corpo a uma "obrigação de diferenciação" destinada a corrigir e compensar "a desigualdade de oportunidades", que levando à intervenção dos poderes públicos desse sentido a um conjunto de medidas capazes de minorarem as "desigualdades fácticas de natureza social, económica e cultural" entre o Algarve e outras regiões nacionais, era o mínimo que esses dirigentes deviam ter feito antes de terem vergonhosamente claudicado.
O Algarve, bem mais do que a Madeira, onde continua a não faltar dinheiro para a poncha, o foguetório e as sambistas rechonchudas, tem pago um preço elevadíssimo pela sua distância em relação aos centros de decisão. E aqueles que só se lembram da região para apanharem sol, garantirem votos e posições de poder, que recorrentemente se mostram incapazes de exercer devido à sua incompetência e distanciamento em relação àquele que é o interesse público, há muito que deviam ter assumido o desafio da melhoria das condições de circulação da A22, à semelhança do que acontece actualmente com a EN125. Só que em vez de o fazerem de uma forma organizada, coerente e sustentada, preferiram defender as couves dos seus quintais, entregando a defesa dos interesses do Algarve às casas de pasto que frequentam e a anónimas associações de utentes, que sem meios, formação ou acesso aos megafones institucionais, pouco mais podem fazer do manifestar o seu "direito à indignação".
A posição ontem assumida por Macário Correia e Desidério Silva não foi só uma rendição incondicional aos interesses do PSD ou aos ditames da "troika". Ela é a imagem da subserviência e falta de imputabilidade política de muitos dirigentes, dos actuais mas também dos que os antecederam, afinal uma demonstração, mais uma, de que mais importante do que a defesa, com números e argumentos objectivos dos interesses dos contribuintes - dos nacionais e dos estrangeiros que pelas nossas estradas circulam, e também morrem, deixando órfãos e famílias desfeitas em todas as estações do ano -, é garantir posições de simpatia junto de quem poderá amanhã oferecer um lugar de deputado, um cargo na administração de uma empresa ou distribuir as lentilhas que os agiotas nos deixarem.
segunda-feira, julho 18, 2011
sexta-feira, julho 15, 2011
UMA DISCUSSÃO NECESSÁRIA
"Queremos que este aprofundamento democrático se faça com a introdução de eleições primárias, em que participem militantes, simpatizantes e eleitores, para o efeito registados. Iniciaremos este processo com a escolha dos presidentes de câmaras municipais nas já próximas eleições autárquicas" - Francisco Assis, "A Força das Ideias"
Quem leia a moção de Francisco Assis, para além de lá encontrar o óbvio e a habitual proclamação de boas intenções deste género de textos, também lê a dado passo o trecho acima transcrito. Consciente da designação escolhida para título da moção, quero aqui deixar uma sumária reflexão sobre uma ideia que tem feito correr alguma tinta e gerado trocas de palavras mais exaltadas entre os candidatos à liderança do PS.
E para não misturar os planos, vou esquecer que Francisco Assis foi líder do grupo parlamentar do PS, membro do secretariado de José Sócrates, figura de proa das anteriores legislaturas e seu apoiante no já esquecido XVII Congresso que catapultou o PS para o pior resultado dos últimos 20 anos, garantiu a perda de mais de um milhão de votos e entregou a maioria absoluta de 2005 á maioria CDS/PP que agora, com toda a legitimidade, nos governa. Quero com isto dizer que o facto da proposta ser avançada por um candidato à liderança do PS que não é por mim apoiado, não me inibe de apreciar a sua proposta sem qualquer parti pris. Estou de acordo com Francisco Assis quando ele diz que "a vida dos partidos diz respeito a todos, militantes, simpatizantes, cidadãos" e que é uma "questão de cidadania", mas essa generosa ideia não deverá perder-se em propostas que pela forma como foram apresentadas têm na sua essência tanto de populistas como de mirabolantes.
Tenho para mim que Francisco Assis é um homem sério e inteligente e que ao avançar com a sua proposta de primárias, nos termos tão amplos quanto ela tem vindo a ser por ele desenvolvida nas suas intervenções, dado que a sua moção é nesse ponto, como noutros, particularmente vaga e sucinta, terá pensado nas suas consequências.
É, ademais, curioso, que essa proposta venha de um candidato que ao longo destes anos não avançou, que eu saiba e espero não estar a ser injusto, com nenhuma proposta de alargamento, em concreto, da participação, como forma de obviar ao crescente desinteresse e afastamento da política e dos partidos quer dos militantes quer dos cidadãos. A prática dos últimos anos e a forma como o PS foi dirigido pelos secretariados de José Sócrates cavou um fosso entre os militantes e a sua direcção que Francisco Assis pretende agora remediar com uma abertura praticamente sem limites aos que se predisponham a dizer que são simpatizantes e assinem uma ficha de inscrição.
Nas associações é normal que se diferenciem várias categorias de associados, de fundadores a honorários e a efectivos, de ordinários a extraordinários, independentemente da designação dada. Mas essa não é uma prática consagrada entre os partidos, em especial no PS, que faz da igualdade de direitos e de deveres entre todos um dos seus princípios basilares. Ao querer fazer participar na escolha dos próprios dirigentes e candidatos gente de fora, que querendo eventualmente participar nunca se predispôs a tal, Francisco Assis retira aos militantes, uma vez mais e por sinal os mesmos a quem foi retirada a palavra dentro do partido nos últimos anos, o mais elementar dos direitos que lhes assiste, colocando tal escolha nas mãos de quem, sem que se saiba de onde vem e para onde quer ir, por força de circunstancialismos oportunistas, se considere no direito de escolher e impor aos militantes opções que estes não desejam e sobre as quais deixam de ter qualquer influência. Substituir a imposição de nomes escolhidos pelo secretário-geral por nomes impostos pelos vizinhos, por muito boas pessoas que estes sejam, não parece ser a melhor solução. A não ser que Francisco Assis considere normal que numa família de pai, mãe e cinco filhos, onde até hoje foi sempre o pai quem escolheu por todos os outros e estes sistematicamente se queixam de não serem ouvidos nas decisões que a todos dizem respeito, esse mesmo pai num gesto magnânimo venha agora dizer que a partir do próximo ano as decisões passarão a ser mais participadas, remetendo a escolha do destino de férias da família não para os seus membros, como estes esperariam, mas para umas primárias do condomínio ou do bairro, através das quais os vizinhos dissessem qual o destino mais apropriado para aquela família. Imagine-se o que seria se os vizinhos dissessem que o destino apropriado era a Cochinchina só com bilhete de ida. O exemplo é tão aberrante quanto a proposta que tem vindo ser transmitida por Francisco Assis nas suas intervenções.
E não será o facto da sua proposta não ter qualquer historial na Europa que nos deverá fazer rejeitá-la à partida. A força de uma ideia não está na maior parte das vezes na própria ideia, como Assis bem sabe, nem no modo decidido e mais ou menos enérgico como ela é defendida quando surge a desconfiança dos seus destinatários, sem que para demonstrá-lo seja preciso ir buscar exemplos recentes que o candidato ainda recordará da anterior legislatura. Essa força só residirá na forma como a ideia poderá ser trabalhada e desenvolvida para poder ganhar alguma consistência e sentido útil. Era bom que isto tivesse sido feito antes e não que essa ideia fossse apresentada em termos tão pueris e desgarrados como os que ficaram a constar da sua moção.
Porém, essa infelicidade, que eu atribuo à rapidez com que Assis se predispôs a avançar para a corrida à liderança, que duvido seja o resultado de uma consulta prévia aos simpatizantes e cidadãos não militantes, não me faz rejeitar liminarmente a ideia e acredito que ela merece ser trabalhada. Eu próprio, pensando nos modos de alargamento da participação, em termos mais modestos é certo do que os de Francisco Assis, posto que não tenho no currículo o peso de ter sido presidente de câmara aos vinte e quatro anos, não sou filósofo nem tenho pretensões a sê-lo, admito que esse desiderato terá de ser conseguido fazendo entrar sangue novo nos partidos e na vida pública. A dificuldade está em conseguir articular essa renovação, que todos desejam e tão fundamental se mostra para a melhoria da qualidade da democracia, com a letargia em que caíram os partidos. A começar pelo próprio PS.
Não se esperará que o militante de base empenhado, que mesmo nas mais adversas condições não deixa de aparecer e de pagar quotas, que está sempre desejoso de participar, de ser ouvido e de ter uma palavra na estratégia e nas escolhas, se predisponha a ver entrar pela porta do Largo do Rato uma espécie de claques organizadas, à laia futebolística, com o propósito de dizerem ao secretariado do partido a composição das listas. Voltando a um exemplo extremo, nada impediria então que um qualquer Avelino Ferreira Torres ou um Alberto João Jardim se apresentassem como "candidatos" nessas primárias.
É possível fazer com que todos participem nas escolhas, mediante a apresentação de propostas e de sugestões, sem que todos e mais um entrem pela porta do partido. Nesta medida, e uma vez que não imagino que no PS passe a haver militantes de segunda e de terceira, a acrescer aos de primeira que sempre houve em todos os partidos e que nalguns locais são entredentes designados como "caciques", considero que seria saudável que antes de serem efectuadas as escolhas, por exemplo, para os candidatos às autarquias, se abrisse um período de recolha de opiniões junto das populações, durante o qual seriam apresentados nomes de cidadãos que as pessoas gostassem de ver à frente das suas autarquias. Cada cidadão eleitor que quisesse participar identificar-se-ia, dando o respectivo nome e número de eleitor ou cartão do cidadão, como estão habituados que aconteça em qualquer concurso que dê brindes embora aqui sem outro prémio que não seja o direito à participação, emitiria a sua opinião, exporia as suas razões e indicaria o nome ou os nomes que gostaria de ver a dirigir a sua autarquia ou integrando uma lista. Terminado o período de recolha de opiniões/sugestões, os órgãos do partido estariam em condições de poder escolher três ou quatro nomes que seriam depois levados a sufrágio entre os militantes, saindo dessa escolha os candidatos do partido. Tudo o que for além disso desvaloriza o papel dos militantes e coloca-os em pé de igualdade com respeitáveis simpatizantes e cidadãos que, como hoje sucede com alguns militantes e dirigentes, só apareceriam na hora da formação das listas ou para justificarem aos descontentes as escolhas feitas em Lisboa sem que os destinatários dessas escolhas fossem tidos ou achados.
Um processo do tipo que referi é coisa totalmente diferente das primárias propostas por Francisco Assis. Pelo processo que eu proponho seria possível fazer participar nas escolhas um número alargado de pessoas, eliminando as golpadas oportunistas e deixando na mão dos militantes a última palavra. Dessa forma se legitimaria o procedimento e validariam as escolhas. E todos seriam co-responsáveis pelas decisões que viessem a ser tomadas e pelos resultados, bons ou maus, que viessem a ser obtidos.
Por mim, estou aberto a considerar, trabalhar e apoiar, qualquer que seja o próximo secretário-geral, todas as ideias que tenham alguma consistência e que possam contribuir para uma maior democraticidade interna e aproximação entre os militantes e a direcção do partido e entre estes e os cidadãos eleitores.
É verdade que estou convencido de que isso não será fácil de fazer por parte de quem ainda hoje assume a postura de que o resultado de 5 de Junho, para além da situação internacional, se ficou a dever a uma insuficiente "pedagogia da crise". E está convencido de que a democracia exige uma "defesa radical" a partir de "casa". Confesso que nestas coisas sou mais terra a terra do que Francisco Assis e que depois de tudo o que aconteceu no PS, nos últimos seis anos, com a estratégia e a escolha de candidatos para as mais variadas eleições, já não peço uma "defesa radical da democracia". A mim bastar-me-á que haja uma democracia participada. Simples, honesta, verdadeira. Para radicalismos já me bastaram os últimos três anos (não sou injusto ao ponto de ir aos seis) e o resultado, também ele radical e muito pouco filosófico, das últimas eleições.
Quem leia a moção de Francisco Assis, para além de lá encontrar o óbvio e a habitual proclamação de boas intenções deste género de textos, também lê a dado passo o trecho acima transcrito. Consciente da designação escolhida para título da moção, quero aqui deixar uma sumária reflexão sobre uma ideia que tem feito correr alguma tinta e gerado trocas de palavras mais exaltadas entre os candidatos à liderança do PS.
E para não misturar os planos, vou esquecer que Francisco Assis foi líder do grupo parlamentar do PS, membro do secretariado de José Sócrates, figura de proa das anteriores legislaturas e seu apoiante no já esquecido XVII Congresso que catapultou o PS para o pior resultado dos últimos 20 anos, garantiu a perda de mais de um milhão de votos e entregou a maioria absoluta de 2005 á maioria CDS/PP que agora, com toda a legitimidade, nos governa. Quero com isto dizer que o facto da proposta ser avançada por um candidato à liderança do PS que não é por mim apoiado, não me inibe de apreciar a sua proposta sem qualquer parti pris. Estou de acordo com Francisco Assis quando ele diz que "a vida dos partidos diz respeito a todos, militantes, simpatizantes, cidadãos" e que é uma "questão de cidadania", mas essa generosa ideia não deverá perder-se em propostas que pela forma como foram apresentadas têm na sua essência tanto de populistas como de mirabolantes.
Tenho para mim que Francisco Assis é um homem sério e inteligente e que ao avançar com a sua proposta de primárias, nos termos tão amplos quanto ela tem vindo a ser por ele desenvolvida nas suas intervenções, dado que a sua moção é nesse ponto, como noutros, particularmente vaga e sucinta, terá pensado nas suas consequências.
É, ademais, curioso, que essa proposta venha de um candidato que ao longo destes anos não avançou, que eu saiba e espero não estar a ser injusto, com nenhuma proposta de alargamento, em concreto, da participação, como forma de obviar ao crescente desinteresse e afastamento da política e dos partidos quer dos militantes quer dos cidadãos. A prática dos últimos anos e a forma como o PS foi dirigido pelos secretariados de José Sócrates cavou um fosso entre os militantes e a sua direcção que Francisco Assis pretende agora remediar com uma abertura praticamente sem limites aos que se predisponham a dizer que são simpatizantes e assinem uma ficha de inscrição.
Nas associações é normal que se diferenciem várias categorias de associados, de fundadores a honorários e a efectivos, de ordinários a extraordinários, independentemente da designação dada. Mas essa não é uma prática consagrada entre os partidos, em especial no PS, que faz da igualdade de direitos e de deveres entre todos um dos seus princípios basilares. Ao querer fazer participar na escolha dos próprios dirigentes e candidatos gente de fora, que querendo eventualmente participar nunca se predispôs a tal, Francisco Assis retira aos militantes, uma vez mais e por sinal os mesmos a quem foi retirada a palavra dentro do partido nos últimos anos, o mais elementar dos direitos que lhes assiste, colocando tal escolha nas mãos de quem, sem que se saiba de onde vem e para onde quer ir, por força de circunstancialismos oportunistas, se considere no direito de escolher e impor aos militantes opções que estes não desejam e sobre as quais deixam de ter qualquer influência. Substituir a imposição de nomes escolhidos pelo secretário-geral por nomes impostos pelos vizinhos, por muito boas pessoas que estes sejam, não parece ser a melhor solução. A não ser que Francisco Assis considere normal que numa família de pai, mãe e cinco filhos, onde até hoje foi sempre o pai quem escolheu por todos os outros e estes sistematicamente se queixam de não serem ouvidos nas decisões que a todos dizem respeito, esse mesmo pai num gesto magnânimo venha agora dizer que a partir do próximo ano as decisões passarão a ser mais participadas, remetendo a escolha do destino de férias da família não para os seus membros, como estes esperariam, mas para umas primárias do condomínio ou do bairro, através das quais os vizinhos dissessem qual o destino mais apropriado para aquela família. Imagine-se o que seria se os vizinhos dissessem que o destino apropriado era a Cochinchina só com bilhete de ida. O exemplo é tão aberrante quanto a proposta que tem vindo ser transmitida por Francisco Assis nas suas intervenções.
E não será o facto da sua proposta não ter qualquer historial na Europa que nos deverá fazer rejeitá-la à partida. A força de uma ideia não está na maior parte das vezes na própria ideia, como Assis bem sabe, nem no modo decidido e mais ou menos enérgico como ela é defendida quando surge a desconfiança dos seus destinatários, sem que para demonstrá-lo seja preciso ir buscar exemplos recentes que o candidato ainda recordará da anterior legislatura. Essa força só residirá na forma como a ideia poderá ser trabalhada e desenvolvida para poder ganhar alguma consistência e sentido útil. Era bom que isto tivesse sido feito antes e não que essa ideia fossse apresentada em termos tão pueris e desgarrados como os que ficaram a constar da sua moção.
Porém, essa infelicidade, que eu atribuo à rapidez com que Assis se predispôs a avançar para a corrida à liderança, que duvido seja o resultado de uma consulta prévia aos simpatizantes e cidadãos não militantes, não me faz rejeitar liminarmente a ideia e acredito que ela merece ser trabalhada. Eu próprio, pensando nos modos de alargamento da participação, em termos mais modestos é certo do que os de Francisco Assis, posto que não tenho no currículo o peso de ter sido presidente de câmara aos vinte e quatro anos, não sou filósofo nem tenho pretensões a sê-lo, admito que esse desiderato terá de ser conseguido fazendo entrar sangue novo nos partidos e na vida pública. A dificuldade está em conseguir articular essa renovação, que todos desejam e tão fundamental se mostra para a melhoria da qualidade da democracia, com a letargia em que caíram os partidos. A começar pelo próprio PS.
Não se esperará que o militante de base empenhado, que mesmo nas mais adversas condições não deixa de aparecer e de pagar quotas, que está sempre desejoso de participar, de ser ouvido e de ter uma palavra na estratégia e nas escolhas, se predisponha a ver entrar pela porta do Largo do Rato uma espécie de claques organizadas, à laia futebolística, com o propósito de dizerem ao secretariado do partido a composição das listas. Voltando a um exemplo extremo, nada impediria então que um qualquer Avelino Ferreira Torres ou um Alberto João Jardim se apresentassem como "candidatos" nessas primárias.
É possível fazer com que todos participem nas escolhas, mediante a apresentação de propostas e de sugestões, sem que todos e mais um entrem pela porta do partido. Nesta medida, e uma vez que não imagino que no PS passe a haver militantes de segunda e de terceira, a acrescer aos de primeira que sempre houve em todos os partidos e que nalguns locais são entredentes designados como "caciques", considero que seria saudável que antes de serem efectuadas as escolhas, por exemplo, para os candidatos às autarquias, se abrisse um período de recolha de opiniões junto das populações, durante o qual seriam apresentados nomes de cidadãos que as pessoas gostassem de ver à frente das suas autarquias. Cada cidadão eleitor que quisesse participar identificar-se-ia, dando o respectivo nome e número de eleitor ou cartão do cidadão, como estão habituados que aconteça em qualquer concurso que dê brindes embora aqui sem outro prémio que não seja o direito à participação, emitiria a sua opinião, exporia as suas razões e indicaria o nome ou os nomes que gostaria de ver a dirigir a sua autarquia ou integrando uma lista. Terminado o período de recolha de opiniões/sugestões, os órgãos do partido estariam em condições de poder escolher três ou quatro nomes que seriam depois levados a sufrágio entre os militantes, saindo dessa escolha os candidatos do partido. Tudo o que for além disso desvaloriza o papel dos militantes e coloca-os em pé de igualdade com respeitáveis simpatizantes e cidadãos que, como hoje sucede com alguns militantes e dirigentes, só apareceriam na hora da formação das listas ou para justificarem aos descontentes as escolhas feitas em Lisboa sem que os destinatários dessas escolhas fossem tidos ou achados.
Um processo do tipo que referi é coisa totalmente diferente das primárias propostas por Francisco Assis. Pelo processo que eu proponho seria possível fazer participar nas escolhas um número alargado de pessoas, eliminando as golpadas oportunistas e deixando na mão dos militantes a última palavra. Dessa forma se legitimaria o procedimento e validariam as escolhas. E todos seriam co-responsáveis pelas decisões que viessem a ser tomadas e pelos resultados, bons ou maus, que viessem a ser obtidos.
Por mim, estou aberto a considerar, trabalhar e apoiar, qualquer que seja o próximo secretário-geral, todas as ideias que tenham alguma consistência e que possam contribuir para uma maior democraticidade interna e aproximação entre os militantes e a direcção do partido e entre estes e os cidadãos eleitores.
É verdade que estou convencido de que isso não será fácil de fazer por parte de quem ainda hoje assume a postura de que o resultado de 5 de Junho, para além da situação internacional, se ficou a dever a uma insuficiente "pedagogia da crise". E está convencido de que a democracia exige uma "defesa radical" a partir de "casa". Confesso que nestas coisas sou mais terra a terra do que Francisco Assis e que depois de tudo o que aconteceu no PS, nos últimos seis anos, com a estratégia e a escolha de candidatos para as mais variadas eleições, já não peço uma "defesa radical da democracia". A mim bastar-me-á que haja uma democracia participada. Simples, honesta, verdadeira. Para radicalismos já me bastaram os últimos três anos (não sou injusto ao ponto de ir aos seis) e o resultado, também ele radical e muito pouco filosófico, das últimas eleições.
quinta-feira, julho 14, 2011
DECLARAÇÃO DE INTERESSES
Algumas razões que me levam a apoiar António José Seguro:
1 - A defesa dos valores de democracia e da liberdade, tendo presentes as exigências de uma ética de responsabilidade política e a necessidade de preparar o PS para o futuro, dotando-o de uma estrutura e de uma liderança à altura do século XXI e de um novo ciclo livre de fantasmas e dos constrangimentos do passado.
2 - Porque acredito que a candidatura de António José Seguro seja capaz de trazer e enquadrar um maior número de pessoas, reforçando a diluição das fronteiras entre os militantes e os eleitores, de maneira a que estes possam participar num processo de reconstrução colectiva encabeçado pelo PS.
3 - Os modelos de liderança autocráticos, personalizados e centralizados contribuíram para a marginalização dos militantes, das estruturas partidárias e dos próprios dirigentes locais, pelo que importa inverter o modelo clientelar e burocrático que tem sido utilizado para a obtenção de unanimidades de duvidosa utilidade, as quais se têm revelado incompreensíveis para os militantes e eleitores e prejudiciais para o Partido e o País.
4 - O incremento da participação e a realização de um debate político sério e consequente é indissociável de uma nova forma de fazer política e da vontade que todos têm de ajudar à reconstrução do PS.
5 - A marginalização dos militantes e das bases do PS por parte dos seus órgãos de direcção, incluindo os regionais e locais, afastando-os da formulação das políticas, do desenho das estratégias e da selecção dos candidatos, conduziu à criação de lealdades difusas e a uma grave erosão do princípio da responsabilidade, aliás espelhadas na centralização do aparelho, na autonomia que gozam os dirigentes, na ausência de mecanismos internos de controlo da sua acção e na falta de um debate regular e participado.
6 - O PS perdeu autonomia e capacidade de intervenção junto da sociedade, os seus militantes tornaram-se números destinados à legitimação do controlo interno e chamados a participar apenas quando há actos eleitorais e campanhas políticas, o que é inaceitável num partido que se quer moderno e estruturante do tecido social.
7 - Porque quero um partido que seja capaz de combater a propensão oligárquica e nepotista e suficientemente forte para dizer não à descaracterização ideológica que o transformou numa amálgama.
8 - Entendo que a participação dos militantes tem de se fazer um quadro de contribuição para a definição das linhas de acção do Partido e não como uma participação limitada à legitimação das decisões previamente tomadas sem debate por uma qualquer coligação dominante.
9 - Um partido renovado não se alcança apenas com a eleição de uma nova liderança e a substituição de alguns protagonistas, mas sem uma nova liderança e a substituição dos protagonistas de sempre não será possível abrir o PS à sociedade.
10 - Se os protagonistas forem os que nos trouxeram até aqui e se limitam a alinhavar ideias vagas e confusas para não se comprometerem demasiado e estarem sempre disponíveis para ocuparem lugares na liderança seguinte, será escusado pensar em mudar.
11 - Entendo que é possível mudar com critério, fazer mais e melhor do que tem sido feito, sem ostracizar ninguém, mas também sem abdicar dos nossos valores fundamentais, sem necessidade do uso de malabarismos verbais ou do recurso a éticas duvidosas para a afirmação política.
12 - Porque acredito que é possível vencer lutando, trabalhar sem “esquemas” e sem que as vozes independentes e críticas tenham de permanecer silenciosamente na sombra para garantirem "solidariedade na asneira".
1 - A defesa dos valores de democracia e da liberdade, tendo presentes as exigências de uma ética de responsabilidade política e a necessidade de preparar o PS para o futuro, dotando-o de uma estrutura e de uma liderança à altura do século XXI e de um novo ciclo livre de fantasmas e dos constrangimentos do passado.
2 - Porque acredito que a candidatura de António José Seguro seja capaz de trazer e enquadrar um maior número de pessoas, reforçando a diluição das fronteiras entre os militantes e os eleitores, de maneira a que estes possam participar num processo de reconstrução colectiva encabeçado pelo PS.
3 - Os modelos de liderança autocráticos, personalizados e centralizados contribuíram para a marginalização dos militantes, das estruturas partidárias e dos próprios dirigentes locais, pelo que importa inverter o modelo clientelar e burocrático que tem sido utilizado para a obtenção de unanimidades de duvidosa utilidade, as quais se têm revelado incompreensíveis para os militantes e eleitores e prejudiciais para o Partido e o País.
4 - O incremento da participação e a realização de um debate político sério e consequente é indissociável de uma nova forma de fazer política e da vontade que todos têm de ajudar à reconstrução do PS.
5 - A marginalização dos militantes e das bases do PS por parte dos seus órgãos de direcção, incluindo os regionais e locais, afastando-os da formulação das políticas, do desenho das estratégias e da selecção dos candidatos, conduziu à criação de lealdades difusas e a uma grave erosão do princípio da responsabilidade, aliás espelhadas na centralização do aparelho, na autonomia que gozam os dirigentes, na ausência de mecanismos internos de controlo da sua acção e na falta de um debate regular e participado.
6 - O PS perdeu autonomia e capacidade de intervenção junto da sociedade, os seus militantes tornaram-se números destinados à legitimação do controlo interno e chamados a participar apenas quando há actos eleitorais e campanhas políticas, o que é inaceitável num partido que se quer moderno e estruturante do tecido social.
7 - Porque quero um partido que seja capaz de combater a propensão oligárquica e nepotista e suficientemente forte para dizer não à descaracterização ideológica que o transformou numa amálgama.
8 - Entendo que a participação dos militantes tem de se fazer um quadro de contribuição para a definição das linhas de acção do Partido e não como uma participação limitada à legitimação das decisões previamente tomadas sem debate por uma qualquer coligação dominante.
9 - Um partido renovado não se alcança apenas com a eleição de uma nova liderança e a substituição de alguns protagonistas, mas sem uma nova liderança e a substituição dos protagonistas de sempre não será possível abrir o PS à sociedade.
10 - Se os protagonistas forem os que nos trouxeram até aqui e se limitam a alinhavar ideias vagas e confusas para não se comprometerem demasiado e estarem sempre disponíveis para ocuparem lugares na liderança seguinte, será escusado pensar em mudar.
11 - Entendo que é possível mudar com critério, fazer mais e melhor do que tem sido feito, sem ostracizar ninguém, mas também sem abdicar dos nossos valores fundamentais, sem necessidade do uso de malabarismos verbais ou do recurso a éticas duvidosas para a afirmação política.
12 - Porque acredito que é possível vencer lutando, trabalhar sem “esquemas” e sem que as vozes independentes e críticas tenham de permanecer silenciosamente na sombra para garantirem "solidariedade na asneira".
LIDO
"Mas se é mesmo assim - e se a troika aprovou as contas -, porque dizer, como disse Passos anteontem, que herdou "um desvio colossal" nas contas do Estado? Colossal é um adjectivo que ocupa espaço, fica a matar nos relatórios da Moody's (justifica a palavra lixo) e, no futebol, também serve para descrever um erro que resulta em autogolo. Como diria o ex-jogador João Pinto: "O clube estava à beira do precipício, mas tomou a decisão certa: deu um passo em frente." Que colossal sentido de oportunidade." - André Macedo, aqui no DN
terça-feira, julho 05, 2011
MAIS DUAS
Continuamos a conviver muito mal com a liberdade de imprensa porque este continua a ser o país do respeitinho e da gente importante que se assoa na gravata. O O'Neill já cá não está para ler as decisões do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, mas se as lesse iria sentir vergonha, como eu também senti e sinto de cada vez que vejo o Estado português ser recriminado e condenado pela caturrice. O caso Letria e Pinto Coelho já tiveram decisão. Não há maneira dos nossos magistrados encontrarem um meio-termo e se adaptarem à liberdade.
segunda-feira, julho 04, 2011
ENTRADAS DE LEÃO...
... para uma saída de sendeiro.
A "utilidade" ao País da sua intervenção esgotou-se num ápice. E em termos práticos que ganharam Portugal, a democracia e a cidadania? Eu respondo: nada.
sexta-feira, julho 01, 2011
VIA VERDE
Para já, do que ouvi, só dois ministros têm via verde: Paula Teixeira da Cruz e Nuno Crato. Em comum têm a frontalidade, a independência de espírito, o rigor e o bom senso. A mim não me importa que sejam laranjas, tangerinas, mandarinas ou outro citrino qualquer. Espero é que tenham força suficiente para cumprir os respectivos programas nas áreas da Justiça e da Educação e que não percam a sua identidade no meio da massa de "yes men". E se por qualquer razão, das que todos conhecemos e ninguém diz, as corporações e os sindicatos do costume lhes quiserem travar o passo, podem desde já contar com o meu apoio e estímulo, que sei que conta muito pouco, para fazerem as reformas que todos exigem nessas áreas.
terça-feira, junho 21, 2011
CLASSE
A eleição de Assunção Esteves para Presidente da Assembleia da República e a forma limpa e enxuta como foi eleita reforçam a ideia do erro grave que constituiu a anterior indicação de Fernando Nobre por parte do PSD. Fez um excelente discurso, à altura do momento e com o indispensável cunho filosófico. Uma escolha que indicia um ambiente mais desempoeirado, uma saudável mudança de estilo no Parlamento e perspectivas de um trabalho profícuo.quinta-feira, junho 16, 2011
FINALMENTE, UM POUCO DE LÚCIDA SENSATEZ
1 - "A saída voluntária de Sócrates foi um ato de bom senso e abriu a porta a dois candidatos a líder que têm a vantagem de ser pessoas inteligentes, experientes e honestas". Sublinho, em especial, a utilização por Mário Soares do substantivo. Para bom entendedor estará tudo dito, por isso eu apenas pergunto se era necessário termos chegado até aqui da forma por que chegámos?
2 - A situação foi manifestamente grave, visto que a democracia e o estado de direito são acima de tudo o cumprimento das regras (coisa que pelos lados do CEJ parece haver alguma dificuldade em entender sem que, todavia, se saiba se o expediente agora utilizado não teria já sido antes usado noutras ocasiões pelos mesmos figurões do "dez"). Assim, convirá referir que qualquer outra atitude, contrária ao que Francisco Assis já disse e António José Seguro reafirmou, seria mais um acto imbecil e inútil. Eu sei que nos últimos anos faltou muita lucidez, bom senso, inteligência e seriedade. E também sei que sobrou esperteza. Muita, como continua a ver-se. Mas esses votos não interessam neste momento para nada e agora há que seguir em frente. A não ser que se queira dar mais corda a alguns corvídeos que têm primado pela miopia e pela estupidez. Há, também e muito naturalmente, que não deixar de tomar as iniciativas, legislativas e políticas, que impeçam a repetição da "tourada" com os votos e os partidos do arco da governação deverão ser os primeiros interessados nisso. Mesmo que isso tenha custos para o Presidente da República. Cada coisa tem o seu tempo e a sua oportunidade.
Subscrever:
Mensagens (Atom)













