terça-feira, setembro 13, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

13 de Setembro

E lá me meti no avião para o Porto, na jornada que me conduziu até Braga. É reconfortante ver a diversidade deste território tão pequeno onde os nossos antepassados se acantonaram, descobrir novos falares, novas formas de estar, outros sorrisos, paisagens tão diferentes. 

Podia ter corrido melhor. Muito melhor. Mas não sei se estando sequestrado como está alguma vez será possível que corra melhor. Também não sei se o sentido da palavra renovação terá para todos o mesmo significado. Pelo que ouvi das intervenções e das conversas de bastidores, e, em especial, já que isso é decisivo para se fazer um juízo, a avaliar pelos nomes que saíram das listas de Seguro e Assis para os órgãos nacionais, renovação deve ser coisa para as calendas. E o sentido que eu, muitos outros militantes e portugueses lhe dão não é o mesmo que eles lhe dão. Tenho pena que assim seja.

Os actuais figurinos de escolha do secretário-geral e do congresso não fazem qualquer sentido. Escolher o líder em directas, dois meses antes do congresso, para de seguida entronizá-lo numa missa, ao mesmo tempo que se vota para os órgãos nacionais, é desmotivante. A eleição do secretário-geral deverá voltar a ser feita em congresso, através dos delegados, por voto secreto, e na sequência de um debate no próprio congresso entre os candidatos e os subscritores das moções que se apresentem. Na sexta-feira cada um dos candidatos à liderança apresentava as suas ideias. No sa´bado discutiam-se as moções e depois votava-se. Isso traria outra motivação à participação e seria mais estimulante para os portugueses que em casa acompanham estes conclaves. Bater-me-ei por isso. Um Congresso, como também me dizia o JMM, não pode ser uma missa, apesar de haver muitos lá dentro com jeito para sacristães. E para seminaristas, digo eu.

Também terá de ser encontrado um outro formato para as intervenções dos delegados. Três minutos não chegam para nada, em particular se as pessoas gastarem o primeiro minuto a saudar a presidente, o secretário-geral, a comissão organizadora e por aí fora, numa ladainha que somadas todas as intervenções deve representar ao final do dia umas três horas de encómios e salamaleques. Basta fazer as contas a cerca de cento e oitenta discursantes. Era preferível que se pré-fixasse um período para as intervenções e depois se aceitasse um número limitado de inscrições, por exemplo quarenta ou cinquenta. Se esse número fosse excedido haveria lugar a sorteio ou, então, já que as novas tecnologias estão na berra, só se aceitariam inscrições feitas por via electrónica até ao número limite admitido. Se possível com o sumário escrito da intervenção. Isto levaria a que só subisse à tribuna quem tem alguma coisa para dizer, ao contrário do que hoje acontece em que muitos há que vão lá só para dizer que lá estiveram, além de que se evitariam eventuais manobras de bastidores e os atropelos aos que querendo intervir e podendo, penso eu, intervir a horas de maior audiência, são atirados para períodos mortos ou, como aconteceu, para uma hora em que as moções já tinham sido votadas, depois de jantar, quando praticamente ninguém estava na sala. Aliás, que sentido faz continuarem as intervenções depois da votação das moções? Não foi o meu caso, que tive a sorte de poder intervir a horas decentes, durante a tarde de sábado, mas outros houve que bem se podem queixar. É certo que o tempo dado só me permitiu sumariar o que nos preocupa e quanto a isso talvez tenha conseguido lá chegar. Explicar porquê seria impossível. E  poucos deviam estar interessados em conhecer as minhas razões.  

Pode-se criticar a presidente do partido pela gestão que fez de alguns tempos, mas admiro-lhe a paciência, a educação e a simpatia, mesmo quando depois de ter pedido às pessoas que não se atrasassem no regresso depois das refeições, e de ter anunciado os nomes dos primeiros a serem chamados, se viu sozinha na mesa de honra esperando os atrasados e dando minutos para a sala se compor. Infelizmente, esta parece ser a regra em qualquer reunião mais alargada que se faça. Há sempre tempo para mais um café e dois dedos de conversa, os outros que esperem que a gente logo há-de aparecer. Falta de educação é o que é.

As negociações para a finalização das listas continuam a ser uma operação semi-clandestina e tenebrosa a que os líderes e os apparatchiks se dedicam. Não sei se nos outros partidos, posto que não os conheço, será assim. No meu não gosto que assim seja. Este ano, com as duas listas, o ideal era Seguro e Assis depois de as terem ordenado terem escolhido duas pessoas da sua confiança, uma por cada uma das listas, para que cortassem na lista do adversário as que lá não deviam figurar. Estou certo que dessa forma se faria uma verdadeira renovação, talvez mesmo uma limpeza, sendo então possível começar tudo de novo. Os compadres e as comadres é que eram capazes de me crucificar, mas isso seria o menos.

Dois bons discursos, a abrir e a fechar, uma excelente intervenção do Assis no sábado e mais uma ou duas notas, como as palavras do António Costa ou do Manuel dos Santos. Mas o fundamental ficou por dizer. Se o Congresso não é o lugar adequado para se discutir o que importa, então onde fazê-lo? Os debates de sexta-feira foram uma nota positiva, talvez mesmo a melhor, pela natureza dos temas e as intervenções a que deram lugar. Porém,  pareceu-me que foi escasso e com pouco eco.

Espero que o Seguro seja capaz de mostrar rapidamente mais do que aquilo que foi prometido. Tirando um ou outro emplastro que vai sempre parar aos órgãos nacionais por amiguismo e compadrio - aí nunca há renovação - há lá gente capaz de pensar por si, de dar um contributo efectivo à mudança se lhe for dado espaço de intervenção.

Estas coisas são lentas, demasiado lentas para o meu gosto. Restar-me-á ter paciência, acreditar, se conseguir, esperar que o actual Governo dure todo o período da legislatura sem fazer disparates que antecipem eleições e nos coloquem num patamar ainda mais baixo do que aquele em que já estamos. Se tal acontecesse seria dantesco, uma tragédia para a nossa sobrevivência. Vamos ter esperança.

sexta-feira, setembro 09, 2011

SINAIS (10)

"O ministro das Finanças recordou em Castelo de Vide que Portugal aceitou voluntariamente as muito severas condições da troika. Mas devia ter acrescentado que a maioria dos portugueses acreditou no que diziam o PSD e o CDS na campanha eleitoral e por isso votou neles.
O Governo tem agora de confrontar-se com recapitulações assassinas daquilo que foi tantas vezes afirmado pelas cúpulas partidárias, o que é muito desconfortável para quem o apoia. Mas quem apoia este Governo tem de ser muito exigente e dizer as coisas com a maior clareza.
Torna-se evidente que as políticas de agressão fiscal directa ou indirecta a uma classe média que é muito mais média baixa do que média alta ou mesmo "média média", vão ao arrepio de tudo o que tinha sido garantido.
O assalto à mão fiscal agora anunciado à queima-roupa acarreta para os portugueses uma situação de escravatura intolerável pela apropriação abusiva dos proventos do trabalho pela voracidade do Estado." - Vasco Graça Moura, Diário de Notícias

NÃO HÁ NADA QUE NÃO LHES ACONTEÇA

Eu no lugar destes ficava em casa e dedicava-me ao bilhar. Isso talvez reduzisse as hipóteses de se espetarem de cada vez que saem à rua.

SINAIS (9)

"Transplantes ninguém os faz por moda ou capricho. Não é o mesmo que meter implantes mamários. Se os hospitais públicos estão a fazer transplantes a mais face à média dos países evoluídos com os quais se devem comparar; ou se o estão a fazer a um preço mais alto e alguém está a aproveitar-se disso - então que o ministro o quantifique e explique. Nem todos vão entender, mas muitos vão compreender. O SNS depende desse bom senso.
Correia de Campos, o ex-ministro da Saúde de Sócrates, fez parte do trabalho difícil. Macedo que faça a outra. Para começar, perceba que fazer uma lipoaspiração ao Estado não equivale a prescindir dos órgãos vitais - é por isso que se chamam vitais." - André Macedo, Diário de Notícias

quinta-feira, setembro 08, 2011

FICA QUASE TUDO DITO

Quando um partido e um governo ficam dependentes de um deputado como Mendes Bota para enaltecerem os seus méritos e atacarem as vozes mais escutadas da sua agremiação fica quase tudo dito. A cara com que Carlos Abreu Amorim escutou a intervenção do deputado da, agora, sua bancada, dir-se-ia temer uma tirada "à Pontal".   

DUAS BOAS NOTÍCIAS

A candidatura de Maria de Belém à presidência do PS e a escolha de Carlos Zorrinho para dirigir a bancada parlamentar do PS são duas boas noticias. É o que se chama uma renovação pelo seguro: limpa e sem telhados de vidro.

SINAIS (8)

"O primeiro-ministro cometeu o pecado capital dos políticos: disse uma coisa para ganhar eleições e faz outra quando está no poder. No caso concreto, prometeu atacar o problema do défice com base no corte da despesa e, para já, os portugueses estão a pagar três aumentos de impostos, dos quais apenas um foi acordado com a ‘troika'. Quanto aos gastos, só metas genéricas e mais promessas de medidas no Orçamento do Estado para 2012.
Esta falha é importante porque mina a confiança das pessoas nos políticos. Acaba por ser uma justificação para a mais injusta das frases: "são todos iguais" - António Costa, Diário Económico
 

SINAIS (7)

"Todas as medidas de corte da despesa tinham que ter sido as primeiras a ser tomadas, para terem efeito neste ano, agora já não há tempo" - Nuno Morais Sarmento

RECORDAÇÕES DE VIAGEM (5)

A ilha de Sveti Stefan, ou de Santo Estevão, faz parte do munícipio de Budva, no Montenegro. Durante muitos anos foi a residência de Verão da rainha sérvia Maria Karadordevic. Depois, no tempo da defunta Jugoslávia, o marechal Tito quis transformá-la numa estância de veraneio apenas acessível aos membros da nomenclatura e aos ocidentais ricos e poderosos que lhe deram nome e prestígio: Orson Welles, Elizabeth Taylor, Sophia Loren, Carlo Ponti ou Kirk Douglas. Os campeões Boris Sapssky e Bobby Fischer também aqui jogaram algumas partidas de xadrez. Com a desintegração da Jugoslávia, a independência do Montenegro e a chegada das máfias do leste europeu, o local perdeu muito do seu charme. Mais recentemente o local voltou a andar nas bocas do mundo pelo facto de ficar a escassos quilómetros do Casino Royal, que deu nome a um filme de James Bond, mas as filmagens acabaram por ter lugar, tanto quanto me informaram, na Holanda. A ilha é agora propriedade da célebre cadeia de hotéis de luxo "Aman Resorts" e apesar de tudo por que passou continua, graças à sua excelente localização, clima e fabulosas águas, a ser um local suficientemente aprazível e acolhedor para se poder gozar uns dias de férias.     

quarta-feira, setembro 07, 2011

RECORDAÇÕES DE VIAGEM (4)

De Dubrovnik à República de Montenegro é um salto rápido e que se faz com gosto. A paisagem é simplesmente impressionante, ao longo de uma costa profundamente recortada. Convém, desde logo, tomar nota de que os croatas têm uma natureza e um espírito totalmente diferentes dos montenegrinos, sendo aqui a influência sérvia e russa muito acentuada. No espírito e, em especial, nas maneiras, mais rudes e grosseiras. Mas descontando esse aspecto, bem como a juventude de um país que não tem meios para emitir moeda e que por isso usa o euro como moeda oficial e em que 1/3 da propriedade da terra pertence a estrangeiros, na sua maioria russos e alguns, poucos, endinheirados ocidentais - Madonna, Michael Douglas ou Sophia Loren -, que escolheram essa parcela da costa adriática como destino de férias, vale a pena atravessar a fronteira para visitar a cidade de Kotor. As suas muralhas, à semelhança do que acontece em Dubrovnik, estão estupendamente conservadas e são o resultado dos tempos áureos da República de Veneza e de todo o seu poderio. Kotor fez parte da República de Veneza entre 1420 e 1797, período interrompido durante os anos da ocupação otomana. Fez parte do Império dos Habsurgos a partir de 1797 e no decurso da I Guerra Mundial foi a base da marinha austro-húngara. Hoje integra merecidamente, como toda a zona da baía de Kotor, o património classificado da Unesco. Lá dentro multiplicam-se os cafés, restaurantes e esplanadas, paredes-meias com algumas belíssimas igrejas como a Catedral Católica, por onde passou João Paulo II, em estilo românico mas com elementos góticos e barrocos, o templo ortodoxo sérvio de São Nicolau ou a belíssima igreja de Santa Maria. De notar são os palácios senhoriais, ao bom estilo veneziano, sinal da opulência e estatuto que algumas das suas famílias gozaram durante os seus tempos mais gloriosos.A sua situação e um porto acolhedor fazem do local destino privilegiado dos mais belos e modernos iates que se podem ver junto à entra principal da cidade, a conhecida Porta Marina. 

SINAIS (6)

" (...) há evidentemente um aspecto em que o Governo não tem sido muito feliz: não tem explicado as coisas com suficiente clareza" - Rui Machete, à TSF

terça-feira, setembro 06, 2011

DAR AS BOAS-VINDAS AOS COWBOYS

Tem um nome mítico - Forte Apache - e reúne alguns nomes de peso da blogosfera nacional. Prometem concorrência aos índios e aos acomodados. Pela minha parte, que não sou um "Touro Sentado", dou-lhes as boas-vindas e espero que o avançar da legislatura não lhes faça perder o humor e a garra com que chegam. 

RECORDAÇÕES DE VIAGEM (3)

A cidade velha comprime-se no interior das suas muralhas. Não fossem estas e as suas parecenças com Veneza seriam ainda maiores. Mas não são mera coincidência. A maior parte do que hoje se vê foi fruto da sua reconstrução após o sismo de 1667. As suas origens remontarão ao século VI, altura em que terá começado a desenvolver-se, mas foi só mo século XII que recebeu o nome de Dubrovnik, tornando-se num centro importante para o comércio e as rotas marítimas na ligação entre o Adriático e o Mediterrâneo. Mercê de acordos pontuais e do pagamento de tributos, conseguiu manter a sua independência, liberdade e relativa autonomia, primeiro com um sistema de natureza comunal e depois transformando-se numa cidade-estado, com poder legislativo total no século XV. Conhecida como Républica de Ragusa, tornou-se num estado patriarcal e aristocrático que assentava numa divisão classista entre nobreza, cidadãos e dependentes, estes últimos na sua maioria camponeses. Era governada pelo "Velijo vijece" ou Conselho Maior, composto pelos seus nobres que depois escolhiam o Conselho Menor e o Consilium Rogatorum. O símbolo máximo da autoridade era o Reitor, que rodava todos os meses e que vivia no Palácio durante o período em que exercia o mandato. A cidade começaria a perder poder e influência com o declínio de Veneza, mas no momento em que tal aconteceu já a escravatura tinha sido abolida no distante ano de 1416. Em duas breves inscrições, uma no Palácio do Reitor e outra no Fort Lovrijenac, residirão as marcas maiores do seu espírito e perenidade, não obtante todas as vicissitudes que culminaram com o cerco sérvio-montenegrino entre 1990/1991. A primeira dessas inscrições reza "Obliti privatorum - Public curate" - "Esqueçam os negócios privados, preocupem-se com os públicos"  - e a segunda diz apenas isto: "Non ben prototo libertas venditur auro". Ou seja, "A liberdade não é para ser vendida, nem por todo o ouro". Bem podíamos fazer delas as nossas divisas.

LÁ PODER PODIA

De facto, é verdade que o Governo poderia comunicar melhor, mas para isso lá está o anúncio a dizer que não seria a mesma coisa. E isto é assim estando a informação centralizada, ou sendo coordenada, pelo ministro dos Assuntos Parlamentares. Agora imaginem o que seria se não estivesse.

SINAIS (5)

"Efectivamente há que atirar forte na redução da despesa, o que não é tão simples quanto a forma como as pessoas dizem ou que se diz quando se está na oposição, porque eu acabo com um instuto público, sim senhor, mas as pessoas existem" - Rui Rio, à TSF

AINDA HOJE É DIA 6 DE SETEMBRO

Desde que a Al-Qaeda e o fundamentalismo islâmico quiseram tomar conta das nossas vidas é isto. Cada ano começa mais cedo. Ontem já vi dois programas na televisão, os jornais já começaram com as primeiras páginas e não se fala noutra coisa que não seja no 11 de Setembro. De novo a repetição das imagens. Começa a haver uma excessiva frivolidade na forma como a comunicação social recorda a efeméride porque de cada vez que a data é recordada também não se traz nada de novo. Dir-se-ia ser mesmo só para vender papel ou preencher os espaços mortos da programação televisiva. A pergunta "Onde estava no dia 11 de Setembro?" até já serve para fazer uma espécie de concursos. Deve haver maneiras mais sérias e instrutivas para lembrar a data e honrar os mortos.

SINAIS (4)

"O Ministério das Finanças é a nova ASAE e eu sou um prato de chop suey nas mãos de Vítor Gaspar. O ministro chega, olha para mim e apreende tudo o que quer" - Ricardo Costa, Expresso, 03/09/2011

segunda-feira, setembro 05, 2011

SINAIS (3)

"Assobiarei para o lado quando me recordarem as palavras do primeiro-ministro no Pontal, quando assegurava que até dia 31 de Agosto o grande plano ia ser apresentado e até Outubro estaria executado. Fingirei que não percebo nada de aritmética quando me falarem de um terço para isto e dois terços para aquilo. Estou disposto a jurar que quando Passos Coelho disse que seria intransigente na questão das deduções dos gastos em educação, habitação e saúde em sede de IRS e jamais as aprovaria, foi mal interpretado e não era isso exactamente que queria dizer" - Pedro Marques Lopes, Diário de Notícias

SINAIS (2)


"Pedro Passos Coelho desafiou ontem os que têm criticado a estratégia de redução do défice e da dívida pública e os sucessivos aumentos de impostos a apresentarem soluções alternativas, do género “quem acha que faz melhor, que se chegue à frente”.
Ora, este era precisamente o argumento que o presidente do PSD usava quando liderava a oposição e quando José Sócrates o desafiava a dizer como seria possível equilibrar as contas públicas sem recorrer aos imposto" - António Costa, Diário Económico

SINAIS (1)

"A firma norte-americana Perella Weinberg Partners, que foi contratada para assessorar o Caixa BI nas privatizações da EDP, Galp e REN, deverá receber até 50% da comissão relativa a estas operações, apurou o Diário Económico. Em causa está um valor que poderá ascender a 9,3 milhões de euros, num contrato que está a causar polémica por se tratar de uma empresa que foi não qualificada em concurso público para participar como assessora nas privatizações" - Diário Económico

RECORDAÇÕES DE VIAGEM (2)

A pouco mais de uma hora de viagem de carro a partir de Dubrovnik, e depois de uma travessia de barco que não dura mais do que 15m, chegamos à ilha de Korculla (pronuncia-se como "ch"). Conhecida como o local de onde Marco Polo partiu em direcção ao Oriente, é uma sucessão de vielas e becos assente num promontório. Mais um paraíso de águas tépidas e cristalinas, acomodado junto a uma muralha onde é fácil encontrar um restaurante acolhedor e com uma vista soberba. Há quem veja nela uma mini-Dubrovnik, mas a mim tal não me pareceu. Korculla tem identidade e encanto próprios e algumas das suas pequenas igrejas valem bem uma visita. É uma das mais bem preservadas vilas medievais do Mediterrâneo e com ou sem lendas, que são imensas, vale bem o tempo de um visita.

domingo, setembro 04, 2011

RECORDAÇÕES DE VIAGEM (1)

Durante séculos a cidade foi sendo alvo de múltiplas ocupações. Umas mais pacíficas, outras mais violentas. Primeiro foram os gregos que se instalaram naquela costa luminosa, encaixada entre o Adriático e os Balcãs. Por lá passaram os eslavos do Norte, os hunos, houve conflitos por causa dos turcos, depois o domínio dos Habsburgos e a influência de Veneza e dos seus doges. Em 1806 chegou Napoleão, que se instalou no local onde hoje existe o Hilton Imperial, depois de ter salvado Dubrovnik dos exércitos da Rússia e do Montenegro. Por sua iniciativa, em 1808, no alto do Monte Srd, coincidindo com o momento em que foi dissolvida a República de Ragusa e a cidade passou a integrar as suas províncias, foi mandado erguer o Forte Imperial. A vista que dele se alcança sobre a cidade e todas as baías, Cavat, as ilhas Elaphiti  e Lokrum, é impressionante. Porém, o que ali mais me marcou foi a visita ao recente Museu da Guerra Civil que ocorreu entre 1991 e 1996, contendo a memória, as fotografias, os vídeos, as armas e equipamentos diversos relacionados com a agressão da Sérvia e do Montenegro. Pouco gente visita o local preferindo ficar pelas varandas da estação do teleférico e por uma visita à renovada cruz que substituiu a que havia sido erigida em 1933 e que acabou destruída durante a agressão de 1991. Vale a pena passar por Forte Imperial, olhar para aquelas paredes e imaginar quão dolorosos terão sido os acontecimentos mais recentes. A guerra acabou, a cidade e o país foram reconstruídos, mas a memória perdurará. Foi então que me dei conta da sorte que nós temos, aqui em Portugal, e do pouco ou nenhum valor que damos a essa sorte.  

DIÁRIO IRREGULAR

4 de Setembro

Há muita coisa que não é agradável de escrever mas que tem de ser escrita se nos abalançamos a escrever alguma coisa, sob pena de se não o fizermos sermos coniventes com homens, políticas e estratégias que contribuem para a ruína nacional. Seria muito mais fácil redigir meia dúzia de banalidades, de elogios e de "chistes" que mantivessem a tranquilidade, o sorriso nos rostos, a afabilidade nos encontros ocasionais e a esperança em quem lê. Fácil, cómodo e susceptível de gerar mais leitores. Não é esse o meu caminho.

Regresso hoje a um espaço de onde nunca saí. O Diário continuará aqui, por onde esporadicamente passou. A minha saída do Delito de Opinião foi pessoalmente dolorosa. A decisão aparentemente precipitada que a promoveu esteve de pousio durante algumas semanas. É mais fácil aguentar meia dúzia de anos de escrita semanal num jornal do que num blogue, em que a rapidez de publicação, a velocidade de apreensão dos conteúdos pelos leitores, a facilidade de interacção entre autor e destinatários, tornam tudo menos equilibrado. Guardarei a memória dos bons momentos e daquilo que é irrepetível: os sorrisos sãos, as palavras sinceras, nem sempre agradáveis, de quem connosco esteve desde o princípio e até ao fim tentou tornar conciliável aquilo que para sê-lo teria de ser desvirtuado. A moderação, o equilíbrio, a constância, tudo isso era, e é, fundamental. Na escrita e nas relações sociais. Na amizade sobretudo. O que não quer dizer que seja viável em todas as circunstâncias. A rejeição de uma dor envolve uma escolha sem que essa opção signifique o fim do sofrimento. Contudo, abre outras perspectivas, transforma as variáveis, protege realidades que nos são queridas e que queremos preservar, obrigando-nos a seguir um outro caminho. Há muitos percursos para nos levarem a um destino comum. Por vezes esses caminhos bifurcam-se mas o importante é chegarmos juntos a esse destino.  

Reconheço que os meus últimos textos foram duros. Tinham de ser. A prova da sua necessidade está nos jornais de ontem e de hoje, nas declarações de alguns comentadores que estão a anos-luz de mim, gente que goza de um estatuto que eu não tenho. As citações ficarão para outra sede, mas quem ouviu ou leu as declarações recentes de Pedro Marques Lopes, Lobo Xavier, Vasco Graça Moura, Marques Mendes, Manuela Ferreira Leite, João Almeida, Pedro Mexia, Rebelo de Sousa, Luís Delgado ou do insuspeito Moreira da Silva, ou escutou os jovens da Universidade de Verão do PSD gritarem um patético “Soares é fixe” numa altura destas, não pode ficar indiferente. Esta gente não ensandeceu, não apela ao regresso de José Sócrates, não passou a ser de esquerda no espaço de três meses. Esta gente ainda pensa, vê, ouve, reflecte. Teme pelo futuro e, logicamente, duvida. Por muito grande que seja, ou tenha sido, a esperança.

Convenhamos que o problema não é de seriedade. Ou de deficiente comunicação, que como todos sabem é “coordenada” pelo ministro dos Assuntos Parlamentares sem que daí saiam resultados visíveis para a acção e popularidade do Governo e de Passos Coelho. O problema é mais de inexperiência, deficiente preparação e incompetência política na torre de comando. Esperteza não chega. E essas pechas não são disfarçáveis com publicitários brasileiros ou mergulhos no Copacabana Palace. O CDS já percebeu isso. A tarimba das “jotas” pode ajudar à ascensão, à chegada ao poder, mas não chega para fazer bons políticos, bons líderes e bons governantes. E o carisma não se encomenda. Quando em causa está a justeza e adequação das políticas só a qualificação, a experiência, o bom senso e o juízo ético importam. A política não é actividade para funcionários.

A reportagem publicada no último número da Visão sobre os amigos brasileiros do ministro Relvas vem demonstrar que o que escrevi nas páginas deste Diário irregular, e que tanta celeuma causou, foi brando. As declarações proferidas no processo dos sobreiros sobre a “agilização” de processos ou as entrevistas que antes aquele deu não me deixaram dúvidas. “Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”, diz o povo. Confirma-se que com toda a probabilidade estaremos perante um novo Dias Loureiro. O GOL vai ter muito que explicar aos “irmãos” se quiser evitar uma dissolução sulfúrica. Imaginar que, sendo verdade o que os jornais relatam, Silva Carvalho não voltou a dirigir as secretas por mero acaso não aumenta a esperança. Impressiona. Preocupa.

Três meses bastaram para o País começar a agitar-se. Na espiral em que se estava era preciso mudar. Mas Portugal não pode depender de estagiários tardios e de tecnocratas insensíveis que pairam sobre a realidade.

sexta-feira, setembro 02, 2011

A LER

Ainda bem que há quem, com a classe e o saber do Vasco Pulido Valente, nos recorde "a natureza do homem que os portugueses puseram em Belém". Imprescindível.

quinta-feira, setembro 01, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

1 de Setembro

Não há maneira de se sair deste fado. Uma rápida leitura dos jornais e revistas nacionais que se foram acumulando revela o que já antes era evidente. Este país, com esta tropa, vai continuar na casa da partida. Será que até agora ainda ninguém viu que andam a encanar a perna à rã? Estava tudo estudado, as contas todas feitas, as equipas prontas a funcionar. No fim, a única coisa que eles garantem, para além da morte no dia e na hora marcada, é a asfixia fiscal. Ah!, e já me esquecia, a criação de grupos de trabalho. Agora, só para o futebol são mais três
. O ministro Relvas de cada vez que participa numa reunião sai de lá com um grupo de trabalho. Ou vários. Um génio, portanto.

Será que se devem fazer anúncios de aumento de tributação no estrangeiro? E de reformas que se supõem sérias em reuniões partidárias para formação de imberbes? Deve ser a isso que eles chamam “sentido de Estado”.

Depois da entrevista que Vítor Gaspar deu há alguma semanas a Judite de Sousa fiquei com a sensação de que o ministro tinha jeito para ardina. Na ocasião contive-me. Fiz bem porque há por aí muito animal feroz sedento de mostrar trabalho aos chefes, de comentar nos blogues e de cascar nos socialistas. Não vale a pena dar-lhes trela. Ontem, sem qualquer esforço, tive a confirmação. Antigamente, no tempo em que havia jornais e vespertinos, havia um ardina na Avenida de Roma que para os vender apregoava em voz alta aos passantes as notícias que supostamente vinham no interior. Não raras vezes eu comprava o jornal, a Capital dos bons velhos tempos ou a República, e depois quando encontrava a notícia não vinha lá nada do que o sujeito anunciara. Ou quando vinha não havia mais nada a acrescentar ao que fora apregoado. Um desconsolo. O ministro das Finanças vai pelo mesmo caminho. Fez-me também recordar uma velha história contada pelo meu padrinho. O meu padrinho exerceu medicina e numa altura da sua vida palmilhou o vale do Limpopo. De quando em vez tinha de pedir ajuda ao enfermeiro que o acompanhava para lhe traduzir os dialectos de alguns pacientes que não falavam português. Um dia, estando o paciente a arengar uma lengalenga qualquer há longos minutos, o meu padrinho interrompeu-o e perguntou ao enfermeiro tradutor de que se queixava o paciente. A resposta foi desconcertante: “Sinhô Dotôr, até agora o homem não disse nada, só está a falar”. Gaspar sofre do mesmo problema. Fala fala e não diz nada. Enrola na areia e nada. Com a agravante de que não necessitando nós de intérprete mais facilmente nos apercebemos do vazio. Anunciou mais 10,8 milhões de cortes na despesa – e já vai na terceira conferência de imprensa – mas lá concretizar o onde, quando e como dos cortes que anuncia é que nada. Para já é só sacar, coisa que como todos se recordam era exclusivo dos antecessores. O silêncio de Catroga e de Leite Campos não podem deixar de fazer pensar. Quanto ao Presidente da República, no seu serafismo, parece-se cada vez mais com um zombie de fato e gravata. Taxar heranças, Senhor Presidente? Nos dias de hoje? Não me diga que ainda está com algum peso na consciência por causa daqueles dinheiros das poupanças no BPN que o seu gestor de conta reinvestiu sem o senhor saber aonde.

A verdade é que, a falar, Vítor Gaspar esteve bem melhor a comentar a situação em que estão as contas da Madeira. Vou aguardar pela resposta do soba. Porém, tudo isto, em especial, o silêncio de Passos Coelho e a forma como se quis contornar o que Bruxelas disse em relação à Madeira, não deixa de ser lamentável. Vergonhoso. Se já se sabia desse desvio nas contas públicas do arquipélago, esse sim colossal atendendo à dimensão da Madeira, e se tal desvio já havia sido contabilizado pelo primeiro-ministro e a sua equipa, por que razão quando Passos Coelho e Vítor Gaspar anunciaram o desvio que encontraram nas contas públicas de 1,8 ou 2 mil milhões de Euros não disseram logo que cerca de 500 milhões eram responsabilidade da Madeira e de Alberto João Jardim? Uma vez mais foi a omissão que imperou, o silêncio, o disfarce, a farpazinha do ministro Relvas, em vez da clareza e da tão apregoada transparência. Se um falava demais e dizia o que não tinha correspondência na realidade, o outro começa a demonstrar diariamente que não passa de um refinado artolas.

Dizem-me que Miguel Relvas convidou Mário Crespo para ir, de novo, como correspondente para os Estados Unidos. Não sei se alguém me poderá confirmá-lo. E também se esse tipo de convites, ou abordagens, devem ser feitas pelo ministro ou pelos responsáveis da empresa que “pretende” contratá-lo. Ou se, tal como na função pública, esses cargos deverão ser preenchidos por concurso. Será que ainda alguém se lembra do caso daquela senhora Rosa qualquer coisa que foi para Madrid e por lá continua? Enfim, depois dos relevantes serviços que o pensador Crespo prestou à pátria – dos abusos, dizia o Eça – é natural que o ministro se lembre dele e lhe queira pagar o desvelo, a isenção de que sempre deu provas. Com o ministro Relvas tudo é possível. Se em Macau não conseguiram pôr os porcos a voar, agora é a oportunidade do ministro criar um grupo de trabalho para analisar a hipótese de se lhes dar asas. Aos porcos, evidentemente. Ressalva que faço, expressamente, não vá o apresentador julgar-se ainda mais importante do que acredita ser e pensar que é com ele.

António José Seguro perguntou quem vai pagar o buraco orçamental da Madeira. Então o líder do PS não sabe? O senhor primeiro-ministro, que se prepara para ir a Funchal apelar ao voto, deveria desde já anunciar que essa dívida será paga por todos os residentes na Região Autónoma. Se houvesse justiça isso é que seria equilibrado, já que foram eles, os eleitores locais, quem ao longo de mais de três décadas andou a mamar da poncha. E gastando menos para virem a Lisboa ver um jogo do Benfica do que eu indo do Algarve a Lisboa. Aqui pagávamos nós, como sempre, lá, desta vez, pagavam eles.

Fiquei admirado com o número. Nove milhões por dia a caminho dos paraísos fiscais e das contas offshore não deve ser coisa grave senão o Governo teria feito alguma coisa. Deve ser simples ignorância mas continuo sem perceber por que razão, já que o que importa é aumentar a receita sem olhar a meios, não se introduz uma taxa sobre as transferências de capitais para contas offshore e não se agrava substancialmente o IMI e o IMT sobre os bens imóveis e as transacções imobiliárias em que o detentor ou beneficiário seja uma sociedade offshore. Ou sobre os móveis – carros, barcos e aviões – titulados por sociedades offshore. Mas há alguma justiça fiscal num país em que eu, um teso que não recebe um chavo do Estado e se limita a pagar, suporte 600 euros de IMI e um daqueles fulanos de Vale do Lobo ou da Quinta do Lago pague o mesmo, ande de Ferrari e nem conta bancária ou cartão de Multibanco possuam?

O que se está a passar, e o que já se passou, com as secretas, a rejeição do PSD e do CDS em ouvirem quem sabe das histórias de fio a pavio por causa dos inquéritos em curso, não serve de justificação. Há trampa a mais no ar. O cheiro é fétido. O mais certo é que tudo dê em nada e a única conclusão que se possa tirar seja a de que há por aí muita gente que não presta. À direita e à esquerda, dentro e fora das empresas, dos gabinetes e dos serviços do Estado. E então na Maçonaria o melhor é nem pensar. Quem diria? O Pessoa se fosse vivo não tinha escrito o que escreveu. Ele era homem para castrá-los. Ele sabia que normalmente os estafermos safam-se. Às vezes, raro, sobra alguma coisa para os filhos que não tiveram nada que ver com o caso. Nunca para os da puta. Para os dos outros sempre.

segunda-feira, agosto 08, 2011

CASCAIS MERECIA

Há muito tempo que a minha vila de Cascais merecia uma competição com o nível e a dimensão da America's Cup. Estão de parabéns a organização, a Câmara Municipal de Cascais, que daqui felicito na pessoa do Carlos Carreiras, e os milhares que ao longo da costa e no mar acompanham o evento. 

terça-feira, agosto 02, 2011

HOMEM NÃO ENTRA

Deve ser a primeira vez que um gabinete de um membro do Governo não tem homens. Certamente que em nome da Igualdade.

AS MINHAS ACÇÕES ESTÃO A SUBIR

Um tipo que consegue vender o guarda-redes Roberto ao Saragoça por 8,6 milhões, depois de o ter comprado há uma época por 8,5 milhões e de ter recebido duas mãos cheias de frangos de aviário, devia ser ministro. De qualquer coisa. Ou beatificado, sei lá.

sexta-feira, julho 29, 2011

SATISFAÇÃO

Por saber que o João Silva está de volta ao trabalho e à primeira página do New York Times. É destes exemplos que precisamos para ver os dias que vão passando com outros olhos. Um exemplo de vida que é também de luta e de coragem.

quinta-feira, julho 28, 2011

COMEÇOU A NOVA ÉPOCA

É o regresso à normalidade. A foto é de Vítor Mota no CM e ilustra o momento em que Nolito abriu a contagem,. Depois veio mais uma obra de arte de Nico Gaitán. Para já, SLB - 2, Trabzonspor - 0. Agora vamos esperar por dia 3 para ver o segundo acto.  

segunda-feira, julho 25, 2011

AGRADECIMENTO

Maria Lúcia Lepecki
(Araxá, 1941 - Lisboa, 2011)
"Eu sempre achei que o acordo ortográfico não é preciso: um brasileiro lê perfeitamente a ortografia portuguesa e um português lê perfeitamente a ortografia brasileira"
Obrigado, Maria Lúcia, por tudo o que fizeste por nós.

quarta-feira, julho 20, 2011

VIA DO INSTANTE

O título que encima este texto não é da minha autoria. Ele faz parte de uma campanha publicitária de uma conhecida marca de bebidas, e visava utilizar o nome da única via de circulação longitudinal do Algarve que não tem rotundas nem semáforos, para promover a facilidade de abertura de uma garrafa de cerveja. Mas esse mesmo título poderia ser utilizado para ilustrar a facilidade com que se morre nessa pretensa "auto-estrada" onde em breve irão passar a ser cobradas portagens.

O Algarve é uma região das mais belas e acolhedoras de Portugal, lembrada uma vez por cada doze meses e que todos os anos salta para as páginas dos jornais e os noticiários pelas piores razões. Ora pelos disparates da silly season, o desemprego que não pára de crescer, a criminalidade importada, as apreensões de droga, o desaparecimento de menores, as violações de turistas, as alterações aos PDM, as violações urbanísticas e a megalomania imobiliária, ora pelas declarações estapafúrdias de alguns dirigentes ou, como hoje aconteceu, pelos acidentes rodoviários. Dir-se-ia que o Algarve, terra de gente contemplativa e que foge dos problemas como o diabo da cruz, de mar azul e bom vinho - sim, o Algarve produz algum do melhor vinho que se pode beber em Portugal - é um antro de vícios e desgraças. Quem nele honestamente vive e paga os seus impostos não merecia que assim fosse.

Ontem, dois autarcas que se especializaram no ataque aos governos socialistas e que há menos de três meses abençoavam jornadas de luta contra as portagens na Via do Infante, também conhecida como A22, vieram considerar uma "inevitabilidade" a entrada em vigor das cobranças nessa estrada. Nem de propósito, tal aconteceu no mesmo dia em que uma mãe deixou três filhos órfãos entre Boliqueime e Albufeira.

Muitos dirão que o problema terá sido o excesso de velocidade, só que sendo a A22 considerada uma auto-estrada, continua-se a ignorar que essa via em muitos dos seus locais não tem condições para que se circule a 120 km/hora, tantos são os perigos e as ratoeiras.

Se o chamado princípio do utilizador/pagador tem a sua lógica e deve ser aplicado em todo o espaço nacional, quer em razão da situação financeira do país, quer por razões de igualdade, não será menos correcto dizer que há razões que derivam da aplicação do princípio da igualdade que impedem a cobrança de portagens na A22 nas mesmas condições em que já estão e irão ser cobradas noutros locais.

Convirá recordar as condições em que essa estrada foi construída, a forma precipitada como ela foi acabada, reflectida, aliás, no rápido aparecimento de desníveis e de abatimentos do piso, a péssima qualidade do seu revestimento em muitíssimos locais, visível nas mudanças de tonalidade e textura, sinal também da forma como o cavaquismo promoveu obras de fachada e patos-bravos, sempre mais preocupado na obtenção de dividendos eleitorais de curto prazo do que em concretizar obra de qualidade e durabilidade.

O resultado de tudo isso, conjugado com uma péssima manutenção e um piso ultra-remendado, criou uma via de circulação ruidosa e perigosa, utilizada indistintamente por motociclos, ligeiros e pesados, que tem contribuído para a multiplicação de acidentes e desgraças, custos que duvido alguma vez tenham sido devidamente contabilizados mas que todos pagam.

Para além disso, circular de Inverno na A22, num dia de chuva, com ou sem nevoeiro, e em especial à noite, é uma espécie de roleta russa, face à inexistência de sinalização adequada e de reflectores ao longo da estrada que cumpram minimamente a sua função, em razão da elevada intensidade de trânsito nalguns percursos, múltiplas poças de água que geram efeito de aquaplaning, túneis com iluminação inadequada, separadores centrais perigosíssimos e que nem sequer conseguem evitar o encadeamento provocado pelos faróis dos carros que circulam em sentido contrário, insuficiente largura da estrada e das bermas em vários locais, o que obriga a suster a respiração quando se encetam manobras de ultrapassagem de alguns camiões ou autocarros que circulam a mais de 100km/hora e se tem na traseira uma carrinha de distribuição ou de turismo que insiste em aproveitar o nosso cone de ar para ganhar embalagem para a subida seguinte e não descansa de fazer sinais de luzes enquanto não tem via aberta, enfim, curvas mal desenhadas, desníveis não assinalados a meio dessas mesmas curvas e que assustam qualquer turista menos prevenido que acabe de entrar na região logo após a travessia da Ponte do Guadiana, mais um sem número de outros problemas que só quem circula nessa estrada diariamente e em quaisquer condições atmosféricas tem verdadeira noção. Se a isto somarmos a falta de escapatórias, a falta de vedação e de rails em muitos locais e a falta de marcações visíveis no pavimento, temos já um conjunto de razões que impediriam um Estado e um Governo sérios e de boa fé, fosse socialista, social-democrata ou não catalogável, de cobrar portagens na A22 em condições idênticas às das outras SCUT.

Acontece ainda que, para além do que ficou referido, a A22 não resiste a uma comparação com qualquer uma das restantes SCUT que vão ser objecto da cobrança de portagens, tão más e deficientes são as suas condições de circulação. A que se soma o facto de não existir no Algarve outra via de circulação, pelo menos tão má como aquela, que permita a deslocação de pessoas e bens entre localidades sem maiores sustos e paragens constantes, isto é, sem semáforos, rotundas e entroncamentos a cada cem metros, com peões e animais atravessando e deambulando pela via, de noite e de dia, faça chuva ou faça sol, seja Inverno ou Verão.

Ademais, a EN125 continua imersa num longo e preocupante, pela morosidade, processo de requalificação, cheia de pinos, marcações a amarelo, sinalização sem sentido, cruzamentos perigosos e desvios inexplicáveis, sendo os automobilistas tão depressa surpreendidos pela bicicleta de um miúdo que cruza despreocupadamente a estrada nos locais mais perigosos, como pelos britânicos que se aventuram a conduzir carros alugados assim que saem do aeroporto, encostados ao meio da via e a passo de caracol, ou pelas betoneiras que a partir das bermas levantam pó e projectam pedras sobre os outros veículos, sem esquecer as carrinhas que invertem a marcha por cima dos traços contínuos ou os pinos que surgem no meio da estrada, sem aviso prévio, em zonas de finalização de ultrapassagens e à entrada de curvas, como é o caso no troço Faro/Almancil próximo do cruzamento de São Lourenço.

Percebe-se que os dirigentes e autarcas do PSD/Algarve, depois de terem quase instigado os algarvios à revolta popular, tenham de repente emudecido, rendido e desistido de lutar, assim mostrando a sua face troca-tintas e ignorando aquilo que mais do que um anseio é uma razão de justiça que devia mobilizar todo o País. Seria muito fácil explicá-lo e demonstrá-lo aos outros portugueses, cidadãos como os residentes no Algarve, que como todos os demais trabalham, pagam impostos e vão suportar as SCUT.

Uma avaliação séria do princípio da igualdade, em especial na sua "dimensão correctiva", analisando as possíveis "medidas de acção afirmativa [...] de modo a atenuar ou corrigir desigualdades reais no exercício de certos direitos ou na sua fruição de certos bens públicos", ou a consideração do modo seria possível dar corpo a uma "obrigação de diferenciação" destinada a corrigir e compensar "a desigualdade de oportunidades", que levando à intervenção dos poderes públicos desse sentido a um conjunto de medidas capazes de minorarem as "desigualdades fácticas de natureza social, económica e cultural" entre o Algarve e outras regiões nacionais, era o mínimo que esses dirigentes deviam ter feito antes de terem vergonhosamente claudicado.

O Algarve, bem mais do que a Madeira, onde continua a não faltar dinheiro para a poncha, o foguetório e as sambistas rechonchudas, tem pago um preço elevadíssimo pela sua distância em relação aos centros de decisão. E aqueles que só se lembram da região para apanharem sol, garantirem votos e posições de poder, que recorrentemente se mostram incapazes de exercer devido à sua incompetência e distanciamento em relação àquele que é o interesse público, há muito que deviam ter assumido o desafio da melhoria das condições de circulação da A22, à semelhança do que acontece actualmente com a EN125. Só que em vez de o fazerem de uma forma organizada, coerente e sustentada, preferiram defender as couves dos seus quintais, entregando a defesa dos interesses do Algarve às casas de pasto que frequentam e a anónimas associações de utentes, que sem meios, formação ou acesso aos megafones institucionais, pouco mais podem fazer do manifestar o seu "direito à indignação".

A posição ontem assumida por Macário Correia e Desidério Silva não foi só uma rendição incondicional aos interesses do PSD ou aos ditames da "troika". Ela é a imagem da subserviência e falta de imputabilidade política de muitos dirigentes, dos actuais mas também dos que os antecederam, afinal uma demonstração, mais uma, de que mais importante do que a defesa, com números e argumentos objectivos dos interesses dos contribuintes - dos nacionais e dos estrangeiros que pelas nossas estradas circulam, e também morrem, deixando órfãos e famílias desfeitas em todas as estações do ano -, é garantir posições de simpatia junto de quem poderá amanhã oferecer um lugar de deputado, um cargo na administração de uma empresa ou distribuir as lentilhas que os agiotas nos deixarem.


segunda-feira, julho 18, 2011

sexta-feira, julho 15, 2011

UMA DISCUSSÃO NECESSÁRIA

"Queremos que este aprofundamento democrático se faça com a introdução de eleições primárias, em que participem militantes, simpatizantes e eleitores, para o efeito registados. Iniciaremos este processo com a escolha dos presidentes de câmaras municipais nas já próximas eleições autárquicas" - Francisco Assis, "A Força das Ideias"

Quem leia a moção de Francisco Assis, para além de lá encontrar o óbvio e a habitual proclamação de boas intenções deste género de textos, também lê a dado passo o trecho acima transcrito. Consciente da designação escolhida para título da moção, quero aqui deixar uma sumária reflexão sobre uma ideia que tem feito correr alguma tinta e gerado trocas de palavras mais exaltadas entre os candidatos à liderança do PS.

E para não misturar os planos, vou esquecer que Francisco Assis foi líder do grupo parlamentar do PS, membro do secretariado de José Sócrates, figura de proa das anteriores legislaturas e seu apoiante no já esquecido XVII Congresso que catapultou o PS para o pior resultado dos últimos 20 anos, garantiu a perda de mais de um milhão de votos e entregou a maioria absoluta de 2005 á maioria CDS/PP que agora, com toda a legitimidade, nos governa. Quero com isto dizer que o facto da proposta ser avançada por um candidato à liderança do PS que não é por mim apoiado, não me inibe de apreciar a sua proposta sem qualquer parti pris. Estou de acordo com Francisco Assis quando ele diz que "a vida dos partidos diz respeito a todos, militantes, simpatizantes, cidadãos" e que é uma "questão de cidadania", mas essa generosa ideia não deverá perder-se em propostas que pela forma como foram apresentadas têm na sua essência tanto de populistas como de mirabolantes.

Tenho para mim que Francisco Assis é um homem sério e inteligente e que ao avançar com a sua proposta de primárias, nos termos tão amplos quanto ela tem vindo a ser por ele desenvolvida nas suas intervenções, dado que a sua moção é nesse ponto, como noutros, particularmente vaga e sucinta, terá pensado nas suas consequências.

É, ademais, curioso, que essa proposta venha de um candidato que ao longo destes anos não avançou, que eu saiba e espero não estar a ser injusto, com nenhuma proposta de alargamento, em concreto, da participação, como forma de obviar ao crescente desinteresse e afastamento da política e dos partidos quer dos militantes quer dos cidadãos. A prática dos últimos anos e a forma como o PS foi dirigido pelos secretariados de José Sócrates cavou um fosso entre os militantes e a sua direcção que Francisco Assis pretende agora remediar com uma abertura praticamente sem limites aos que se predisponham a dizer que são simpatizantes e assinem uma ficha de inscrição.

Nas associações é normal que se diferenciem várias categorias de associados, de fundadores a honorários e a efectivos, de ordinários a extraordinários, independentemente da designação dada. Mas essa não é uma prática consagrada entre os partidos, em especial no PS, que faz da igualdade de direitos e de deveres entre todos um dos seus princípios basilares. Ao querer fazer participar na escolha dos próprios dirigentes e candidatos gente de fora, que querendo eventualmente participar nunca se predispôs a tal, Francisco Assis retira aos militantes, uma vez mais e por sinal os mesmos a quem foi retirada a palavra dentro do partido nos últimos anos, o mais elementar dos direitos que lhes assiste, colocando tal escolha nas mãos de quem, sem que se saiba de onde vem e para onde quer ir, por força de circunstancialismos oportunistas, se considere no direito de escolher e impor aos militantes opções que estes não desejam e sobre as quais deixam de ter qualquer influência. Substituir a imposição de nomes escolhidos pelo secretário-geral por nomes impostos pelos vizinhos, por muito boas pessoas que estes sejam, não parece ser a melhor solução. A não ser que Francisco Assis considere normal que numa família de pai, mãe e cinco filhos, onde até hoje foi sempre o pai quem escolheu por todos os outros e estes sistematicamente se queixam de não serem ouvidos nas decisões que a todos dizem respeito, esse mesmo pai num gesto magnânimo venha agora dizer que a partir do próximo ano as decisões passarão a ser mais participadas, remetendo a escolha do destino de férias da família não para os seus membros, como estes esperariam, mas para umas primárias do condomínio ou do bairro, através das quais os vizinhos dissessem qual o destino mais apropriado para aquela família. Imagine-se o que seria se os vizinhos dissessem que o destino apropriado era a Cochinchina só com bilhete de ida. O exemplo é tão aberrante quanto a proposta que tem vindo ser transmitida por Francisco Assis nas suas intervenções.

E não será o facto da sua proposta não ter qualquer historial na Europa que nos deverá fazer rejeitá-la à partida. A força de uma ideia não está na maior parte das vezes na própria ideia, como Assis bem sabe, nem no modo decidido e mais ou menos enérgico como ela é defendida quando surge a desconfiança dos seus destinatários, sem que para demonstrá-lo seja preciso ir buscar exemplos recentes que o candidato ainda recordará da anterior legislatura. Essa força só residirá na forma como a ideia poderá ser trabalhada e desenvolvida para poder ganhar alguma consistência e sentido útil. Era bom que isto tivesse sido feito antes e não que essa ideia fossse apresentada em termos tão pueris e desgarrados como os que ficaram a constar da sua moção.

Porém, essa infelicidade, que eu atribuo à rapidez com que Assis se predispôs a avançar para a corrida à liderança, que duvido seja o resultado de uma consulta prévia aos simpatizantes e cidadãos não militantes, não me faz rejeitar liminarmente a ideia e acredito que ela merece ser trabalhada. Eu próprio, pensando nos modos de alargamento da participação, em termos mais modestos é certo do que os de Francisco Assis, posto que não tenho no currículo o peso de ter sido presidente de câmara aos vinte e quatro anos, não sou filósofo nem tenho pretensões a sê-lo, admito que esse desiderato terá de ser conseguido fazendo entrar sangue novo nos partidos e na vida pública. A dificuldade está em conseguir articular essa renovação, que todos desejam e tão fundamental se mostra para a melhoria da qualidade da democracia, com a letargia em que caíram os partidos. A começar pelo próprio PS.

Não se esperará que o militante de base empenhado, que mesmo nas mais adversas condições não deixa de aparecer e de pagar quotas, que está sempre desejoso de participar, de ser ouvido e de ter uma palavra na estratégia e nas escolhas, se predisponha a ver entrar pela porta do Largo do Rato uma espécie de claques organizadas, à laia futebolística, com o propósito de dizerem ao secretariado do partido a composição das listas. Voltando a um exemplo extremo, nada impediria então que um qualquer Avelino Ferreira Torres ou um Alberto João Jardim se apresentassem como "candidatos" nessas primárias.

É possível fazer com que todos participem nas escolhas, mediante a apresentação de propostas e de sugestões, sem que todos e mais um entrem pela porta do partido. Nesta medida, e uma vez que não imagino que no PS passe a haver militantes de segunda e de terceira, a acrescer aos de primeira que sempre houve em todos os partidos e que nalguns locais são entredentes designados como "caciques", considero que seria saudável que antes de serem efectuadas as escolhas, por exemplo, para os candidatos às autarquias, se abrisse um período de recolha de opiniões junto das populações, durante o qual seriam apresentados nomes de cidadãos que as pessoas gostassem de ver à frente das suas autarquias. Cada cidadão eleitor que quisesse participar identificar-se-ia, dando o respectivo nome e número de eleitor ou cartão do cidadão, como estão habituados que aconteça em qualquer concurso que dê brindes embora aqui sem outro prémio que não seja o direito à participação, emitiria a sua opinião, exporia as suas razões e indicaria o nome ou os nomes que gostaria de ver a dirigir a sua autarquia ou integrando uma lista. Terminado o período de recolha de opiniões/sugestões, os órgãos do partido estariam em condições de poder escolher três ou quatro nomes que seriam depois levados a sufrágio entre os militantes, saindo dessa escolha os candidatos do partido. Tudo o que for além disso desvaloriza o papel dos militantes e coloca-os em pé de igualdade com respeitáveis simpatizantes e cidadãos que, como hoje sucede com alguns militantes e dirigentes, só apareceriam na hora da formação das listas ou para justificarem aos descontentes as escolhas feitas em Lisboa sem que os destinatários dessas escolhas fossem tidos ou achados.

Um processo do tipo que referi é coisa totalmente diferente das primárias propostas por Francisco Assis. Pelo processo que eu proponho seria possível fazer participar nas escolhas um número alargado de pessoas, eliminando as golpadas oportunistas e deixando na mão dos militantes a última palavra. Dessa forma se legitimaria o procedimento e validariam as escolhas. E todos seriam co-responsáveis pelas decisões que viessem a ser tomadas e pelos resultados, bons ou maus, que viessem a ser obtidos.

Por mim, estou aberto a considerar, trabalhar e apoiar, qualquer que seja o próximo secretário-geral, todas as ideias que tenham alguma consistência e que possam contribuir para uma maior democraticidade interna e aproximação entre os militantes e a direcção do partido e entre estes e os cidadãos eleitores.

É verdade que estou convencido de que isso não será fácil de fazer por parte de quem ainda hoje assume a postura de que o resultado de 5 de Junho, para além da situação internacional, se ficou a dever a uma insuficiente "pedagogia da crise". E está convencido de que a democracia exige uma "defesa radical" a partir de "casa". Confesso que nestas coisas sou mais terra a terra do que Francisco Assis e que depois de tudo o que aconteceu no PS, nos últimos seis anos, com a estratégia e a escolha de candidatos para as mais variadas eleições, já não peço uma "defesa radical da democracia". A mim bastar-me-á que haja uma democracia participada. Simples, honesta, verdadeira. Para radicalismos já me bastaram os últimos três anos (não sou injusto ao ponto de ir aos seis) e o resultado, também ele radical e muito pouco filosófico, das últimas eleições.

quinta-feira, julho 14, 2011

DECLARAÇÃO DE INTERESSES

Algumas razões que me levam a apoiar António José Seguro:

1 - A defesa dos valores de democracia e da liberdade, tendo presentes as exigências de uma ética de responsabilidade política e a necessidade de preparar o PS para o futuro, dotando-o de uma estrutura e de uma liderança à altura do século XXI e de um novo ciclo livre de fantasmas e dos constrangimentos do passado.

2 - Porque acredito que a candidatura de António José Seguro seja capaz de trazer e enquadrar um maior número de pessoas, reforçando a diluição das fronteiras entre os militantes e os eleitores, de maneira a que estes possam participar num processo de reconstrução colectiva encabeçado pelo PS.

3 - Os modelos de liderança autocráticos, personalizados e centralizados contribuíram para a marginalização dos militantes, das estruturas partidárias e dos próprios dirigentes locais, pelo que importa inverter o modelo clientelar e burocrático que tem sido utilizado para a obtenção de unanimidades de duvidosa utilidade, as quais se têm revelado incompreensíveis para os militantes e eleitores e prejudiciais para o Partido e o País.

4 - O incremento da participação e a realização de um debate político sério e consequente é indissociável de uma nova forma de fazer política e da vontade que todos têm de ajudar à reconstrução do PS.

5 - A marginalização dos militantes e das bases do PS por parte dos seus órgãos de direcção, incluindo os regionais e locais, afastando-os da formulação das políticas, do desenho das estratégias e da selecção dos candidatos, conduziu à criação de lealdades difusas e a uma grave erosão do princípio da responsabilidade, aliás espelhadas na centralização do aparelho, na autonomia que gozam os dirigentes, na ausência de mecanismos internos de controlo da sua acção e na falta de um debate regular e participado.

6 - O PS perdeu autonomia e capacidade de intervenção junto da sociedade, os seus militantes tornaram-se números destinados à legitimação do controlo interno e chamados a participar apenas quando há actos eleitorais e campanhas políticas, o que é inaceitável num partido que se quer moderno e estruturante do tecido social.

7 - Porque quero um partido que seja capaz de combater a propensão oligárquica e nepotista e suficientemente forte para dizer não à descaracterização ideológica que o transformou numa amálgama.

8 - Entendo que a participação dos militantes tem de se fazer um quadro de contribuição para a definição das linhas de acção do Partido e não como uma participação limitada à legitimação das decisões previamente tomadas sem debate por uma qualquer coligação dominante.

9 - Um partido renovado não se alcança apenas com a eleição de uma nova liderança e a substituição de alguns protagonistas, mas sem uma nova liderança e a substituição dos protagonistas de sempre não será possível abrir o PS à sociedade.

10 - Se os protagonistas forem os que nos trouxeram até aqui e se limitam a alinhavar ideias vagas e confusas para não se comprometerem demasiado e estarem sempre disponíveis para ocuparem lugares na liderança seguinte, será escusado pensar em mudar.

11 - Entendo que é possível mudar com critério, fazer mais e melhor do que tem sido feito, sem ostracizar ninguém, mas também sem abdicar dos nossos valores fundamentais, sem necessidade do uso de malabarismos verbais ou do recurso a éticas duvidosas para a afirmação política.

12 - Porque acredito que é possível vencer lutando, trabalhar sem “esquemas” e sem que as vozes independentes e críticas tenham de permanecer silenciosamente na sombra para garantirem "solidariedade na asneira".

LIDO

"Mas se é mesmo assim - e se a troika aprovou as contas -, porque dizer, como disse Passos anteontem, que herdou "um desvio colossal" nas contas do Estado? Colossal é um adjectivo que ocupa espaço, fica a matar nos relatórios da Moody's (justifica a palavra lixo) e, no futebol, também serve para descrever um erro que resulta em autogolo. Como diria o ex-jogador João Pinto: "O clube estava à beira do precipício, mas tomou a decisão certa: deu um passo em frente." Que colossal sentido de oportunidade." - André Macedo, aqui no DN

terça-feira, julho 05, 2011

MAIS DUAS

Continuamos a conviver muito mal com a liberdade de imprensa porque este continua a ser o país do respeitinho e da gente importante que se assoa na gravata. O O'Neill já cá não está para ler as decisões do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, mas se as lesse iria sentir vergonha, como eu também senti e sinto de cada vez que vejo o Estado português ser recriminado e condenado pela caturrice. O caso Letria e Pinto Coelho já tiveram decisão. Não há maneira dos nossos magistrados encontrarem um meio-termo e se adaptarem à liberdade.

segunda-feira, julho 04, 2011

ENTRADAS DE LEÃO...

... para uma saída de sendeiro.


A "utilidade" ao País da sua intervenção esgotou-se num ápice. E em termos práticos que ganharam Portugal, a democracia e a cidadania? Eu respondo: nada.

sexta-feira, julho 01, 2011

VIA VERDE

Para já, do que ouvi, só dois ministros têm via verde: Paula Teixeira da Cruz e Nuno Crato. Em comum têm a frontalidade, a independência de espírito, o rigor e o bom senso. A mim não me importa que sejam laranjas, tangerinas, mandarinas ou outro citrino qualquer. Espero é que tenham força suficiente para cumprir os respectivos programas nas áreas da Justiça e da Educação e que não percam a sua identidade no meio da massa de "yes men". E se por qualquer razão, das que todos conhecemos e ninguém diz, as corporações e os sindicatos do costume lhes quiserem travar o passo, podem desde já contar com o meu apoio e estímulo, que sei que conta muito pouco, para fazerem as reformas que todos exigem nessas áreas.

A LER



Incontornável e verdadeiro.

terça-feira, junho 21, 2011

CLASSE

A eleição de Assunção Esteves para Presidente da Assembleia da República e a forma limpa e enxuta como foi eleita reforçam a ideia do erro grave que constituiu a anterior indicação de Fernando Nobre por parte do PSD. Fez um excelente discurso, à altura do momento e com o indispensável cunho filosófico. Uma escolha que indicia um ambiente mais desempoeirado, uma saudável mudança de estilo no Parlamento e perspectivas de um trabalho profícuo.

quinta-feira, junho 16, 2011

FINALMENTE, UM POUCO DE LÚCIDA SENSATEZ

1 - "A saída voluntária de Sócrates foi um ato de bom senso e abriu a porta a dois candidatos a líder que têm a vantagem de ser pessoas inteligentes, experientes e honestas". Sublinho, em especial, a utilização por Mário Soares do substantivo. Para bom entendedor estará tudo dito, por isso eu apenas pergunto se era necessário termos chegado até aqui da forma por que chegámos?


2 - A situação foi manifestamente grave, visto que a democracia e o estado de direito são acima de tudo o cumprimento das regras (coisa que pelos lados do CEJ parece haver alguma dificuldade em entender sem que, todavia, se saiba se o expediente agora utilizado não teria já sido antes usado noutras ocasiões pelos mesmos figurões do "dez"). Assim, convirá referir que qualquer outra atitude, contrária ao que Francisco Assis já disse e António José Seguro reafirmou, seria mais um acto imbecil e inútil. Eu sei que nos últimos anos faltou muita lucidez, bom senso, inteligência e seriedade. E também sei que sobrou esperteza. Muita, como continua a ver-se. Mas esses votos não interessam neste momento para nada e agora há que seguir em frente. A não ser que se queira dar mais corda a alguns corvídeos que têm primado pela miopia e pela estupidez. Há, também e muito naturalmente, que não deixar de tomar as iniciativas, legislativas e políticas, que impeçam a repetição da "tourada" com os votos e os partidos do arco da governação deverão ser os primeiros interessados nisso. Mesmo que isso tenha custos para o Presidente da República. Cada coisa tem o seu tempo e a sua oportunidade.

quarta-feira, junho 15, 2011

Diário irregular

15 de Junho



Aunque sepa los caminos
yo nunca llegaré a Córdoba
” – Federico García Lorca, Canción del Jinete

Si pudiera yo vivir
De nuevo esta vida
Sin sufrir por amarte
Preferiria morir
” – Yasmin Levy

É curiosa a forma como evoluem ao longo dos anos os nossos interesses de viagem. Aquilo que nos impeliu um dia a partir raramente se repete. Ainda quando regressamos ao mesmo lugar onde antes tivemos a sorte de um dia, por umas horas, por um momento, ser felizes.

Percorro a Calle Judíos, entre as paredes brancas que reflectem o azul intenso do céu que as protege, e na esquina com Averroes, pouco antes da sinagoga, dou com a Casa de Sefarad. Nesta altura do ano não há muita gente e é possível percorrer tranquila e pachorrentamente os becos da Judiaria.

Escuto ao fundo um trecho que me é vagamente familiar. A sonoridade de alguns instrumentos transporta-nos para um mundo de onde por vezes temos a sensação de nunca termos saído. O som das flautas, da guitarra mourisca e do alaúde confunde-se com uma referência que leio a Carolina de Michäelis a propósito de uma canção que faz parte da herança musical sefardita e que terá por ela sido referida pela primeira vez ao analisar a sua popularidade na época de Gil Vicente. A forma como durante tantos séculos as culturas cristã, árabe e judaica se cruzaram, conviveram e mesclaram na Península é uma fonte inesgotável de descobertas. E de prazer. Um autor, Salvador-Danieli, em 1863, verificou a inexistência de diferenças “significativas” entre as melodias de Afonso X e as mais antigas composições musicais da tradição andaluza, referindo ser essa uma consequência da “surpreendente analogia” entre as escalas musicais árabes e andaluzas e as do canto gregoriano. Que seria de nós sem a herança do Al-Andalus?

Em Portugal foi 10 de Junho, tempo de praia, de "pontes", de condecorações e recriminações várias. Apercebo-me de que há quem queira ajustar contas com o passado recente, com o que foi julgado em 5 de Junho. Talvez o melhor mesmo é começar por julgar o Otelo, que afinal nunca quis meter os fascistas no Campo Pequeno. E depois também o general que apadrinhou o PRD, e o Guterres que se foi embora e permitiu que o Barroso viesse para depois entregar o desgoverno ao Santana Lopes que permitiu a José Sócrates chegar ao poder. Se formos por esse caminho, com sorte, acabaremos a julgar o D. Sebastião. Se os condecoram a título póstumo, sem que o morto seja ouvido sobre a distinção, talvez também devam poder julgá-los nos mesmos termos.

O “El Dia de Córdoba” é um jornal de fácil leitura, simples e honesto, sem grandes pretensões para além da querer manter informados, e formados, os seus leitores. Nele tem uma coluna um senhor chamado Juan Cano Bueso. É o presidente do Conselho Consultivo da Andaluzia, catedrático de direito constitucional, advogado e político. Não posso deixar de pensar nele depois de saber da “chapelada” ocorrida com os votos das nossas legislativas no Brasil. Ainda há dias, Juan Cano Bueso escreveu um interessantíssimo artigo sobre os perigos da ciberdemocracia, texto que descubro agora estar também acessível na Internet (se fosse no Público não seria possível ter-lhe acesso). As dúvidas sobre a ciberdemocracia continuam a ser muitas. E, como se vê pelo que ele escreve, actuais. Facilitar a participação não pode tornar-se na ausência de participação. Para mim, que gosto de cinema e me preocupo com os valores da democracia e da participação, a ciberdemocracia estará para a democracia como o filme que se vê em casa, no sofá, está para uma boa sala de cinema. A dimensão, o encontro, o ritual, podem ser modernizados, “ciberaprofundados”, mas têm de continuar a fazer parte da essência das regras. Há uns anos não pensava assim, mas perante a contínua erosão da participação considero que também aí não se pode facilitar demasiado. A preguiça não pode passar a fazer parte dos hábitos da democracia. Não deverá ser premiada. Como escreve Cano Bueso, não se pode correr o risco da ciberdemocracia se tornar na tumba da democracia representativa. Já bastam os políticos e os comentadores que diariamente a enterram.

Saber crescer política e democraticamente é um exercício como caminhar pelas ruelas de Córdoba. Tão depressa nos perdemos como logo a seguir nos reencontramos. E retomamos o caminho que se faz caminhando. Todos os dias. Respirar tanto céu enquanto te sinto caminhar a meu lado é uma felicidade. Ou tão-só uma forma de liberdade. Um acto de amor.

quarta-feira, junho 08, 2011

DE POUSIO

É como este blogue tem estado. Quem tem ficado a ganhar é o Delito de Opinião. Para a semana este laboratório voltará a funcionar.

terça-feira, maio 31, 2011

A LER

Para quem não percebe nada de sondagens, o Pedro Magalhães, com o alto patrocínio da Fundação Francisco Manuel dos Santos, publicou este pequeno mas útil e bastante completo livro que contém o bê-á- sobre as ditas. Há em qualquer banca de jornais e vale bem os € 3 euros e pouco que paguei por ele.

sexta-feira, maio 20, 2011

FIM-DE-SEMANA "FERRARISTA"

O programa completo está aqui, não faltem à chamada.

MAIS UMA IDEIA PARA O PROGRAMA DE GOVERNO (REFORMULADO) DO DR. PASSOS COELHO

O Dr. Miguel Relvas, homem de confiança do Dr. Passos Coelho, candidato a um lugar num futuro Governo e actual secretário-geral do PSD, que como todos os portugueses sabem vai concorrer às eleições legislativas de 5 de Junho, foi ontem ouvido em tribunal no âmbito do chamado caso Portucale. Nada de especial, portanto. Coisas de agricultores e de hortas.


Mas das declarações por ele produzidas em juízo e reproduzidas na imprensa, declarações que, presumo, terão sido prestadas sob juramento, o Dr. Miguel Relvas, para justificar a sua intervenção na tal história dos sobreiros, produziu, entre outras, a seguinte afirmação: “Saí do Governo para fazer a ligação política com o CDS. A minha intervenção foi visível e passou por tentar acelerar e criar condições para que alguns processos fossem resolvidos”. E ainda acrescentou, numa frase notável, que a sua intervenção era necessária porque nessa altura “estava tudo desmembrado e era tudo muito complicado”. Ao que parece, um dos juízes que integra o colectivo ficou admirado com as respostas dadas e o depoente acabou por concordar que talvez não tivesse sido a melhor a sua actuação (ou a resposta, digo eu).


Em resultado disto, o Público hoje titula, numa pequena notícia das suas páginas interiores, que “Relvas saiu do Governo para agilizar processos”.


Desconheço qual seja a memória dos senhores juízes relativamente ao que se passou em 2004/2005, tantos e tão complicados são os processos que lhes saem em sorte, mas seria bom comparar as respostas ontem dadas por Miguel Relvas para justificar a sua acção com o que ele próprio, enquanto secretário-geral do PSD, afirmou em 2004 sobre o momento que então se vivia. Com a devida vénia, passo a citar: “Num momento em que se cumprem 100 dias de Governo, e com a proposta de Orçamento de Estado (OE) que apresentámos na Assembleia da República, podemos assumir, de forma clara e inequívoca, que ultrapassamos, com êxito, o período de maior austeridade”. Na mesma altura afirmou que “no próximo ano o crescimento vai ser 2,4 por cento, permitindo baixar, com efeitos imediatos, a taxa do IRS para 2005, aumentar as pensões entre 2,5 e 9 por cento e, simultaneamente, fazer crescer os vencimentos dos funcionários públicos, ao ritmo do inflação”. Como se não bastasse, para garantir aos portugueses que tudo estava a correr sobre rodas, ainda acrescentou que “nesta grande maratona que é governar um país, os portugueses podem estar descansados porque o nosso Primeiro-Ministro é um campeão da maratona e o PSD espera estar acompanhado por maratonistas e não por campeões de 100 metros”. O campeão da maratona era o pobre do Dr. Santana Lopes, entenda-se.


Quer isto dizer que ou o Dr. Miguel Relvas tem a memória muito curta e necessita urgentemente de tratamento adequado ou então, hipótese académica em que eu não quero acreditar, salvo o devido respeito, não falou verdade, coisa que, como se vê, até aos melhores e mais qualificados pode acontecer.


Vejamos: se ele saiu do Governo para “agilizar” processos e a sua intervenção se deu numa altura em que, nas suas palavras, “estava tudo desmembrado e era tudo muito complicado”, então por que razão na altura andava ele a dizer aos portugueses, quando já era secretário-geral do PSD, ao fim de 100 dias de Governo PSD/PP, que iamos ter um crescimento de 2,4%, prometendo aumentos de vencimentos dos funcionários públicos ao ritmo da inflação e anunciando descidas do IRS para 2005? E, com tudo “desmembrado”, como poderia ele referir-se ao Dr. Pedro Santana Lopes, que já então não podia com uma gata pelo rabo, como sendo “um campeão da maratona” e que os portugueses podiam estar descansados? Eu só encontro uma de duas respostas possíveis: ou aquilo estava tudo efectivamente “desmembrado”, como ele ontem afirmou em tribunal, ou então andou a enganar os portugueses criando, enquanto secretário-geral do PSD, que ao tempo já era, cenários sem qualquer correspondência com a realidade. Seja num caso ou no outro isso devia ser convenientemente apurado.


Como se sabe, esse Governo foi o resultado de uma coligação com o CDS/PP, também já ao tempo dirigido por Paulo Portas, sendo que tal executivo, embora tenha conseguido celebrar 100 dias (o Povo Livre, que nestas coisas é uma fonte fidedigna, não me deixa mentir nem quanto a esse facto nem quanto às declarações do Dr. Miguel Relvas), não conseguiu sequer chegar aos 365 dias, o que já não teria sido mau pois equivaleria a ¼ de uma legislatura. Peanuts, ou outra coisa, dirá o Prof. Catroga.


Sabendo-se o que depois o Dr. Jorge Sampaio fez (ainda hoje não lhe perdoei a desfeita) e o estado em que o Dr. Bagão Félix deixou as finanças públicas (não confundir com as púbicas que são mais do pelouro do Prof. Catroga), se o Dr. Passos Coelho não toma rapidamente medidas ainda nos arriscamos a ter de novo o Dr. Miguel Relvas a incorrer numa situação idêntica à que aconteceu em 2004/2005.


Temos de evitar isso custe o que custar. Como português, eu ficaria muito incomodado se daqui a alguns anos tivesse outra vez o Dr. Miguel Relvas a depor, sabe-se lá se na mesma posição de testemunha ou se já numa outra condição mais incómoda, por causa dos processos que ele como secretário-geral do PSD andou a ver se ajudava a andarem mais depressa. E desta vez já não como secretário-geral de um infeliz "campeão da maratona" (o que ele se havia de lembrar), mas antes como “agilizador” do programa eleitoral do Dr. Passos Coelho.


É claro que aquilo que o Dr. Miguel Relvas fez e que ontem, candidamente, como é seu timbre, confessou aos senhores juízes que estão a julgar o caso Portucale não foram "favores". Nem se tratou de uma situação de tráfico de influência (esta será para a doutrina uma situação de contornos mais socializantes, o que iliba desde logo o Dr. Relvas da mais leve suspeita). Foi, isso sim, como refere o Público, uma simples intervenção para “agilizar processos”.


Os dicionários não referem a existência do termo “agilizador”, apesar de alguns já mencionarem a existência do verbo transitivo “agilizar”, que significa tornar mais rápido, mais expedito. Se o PSD ganhar as próximas eleições estou certo que o termo, desde que o Dr. Miguel Relvas continue a ser secretário-geral do PSD, evidentemente, ganhará uma nova dimensão, e “agilizador” será mais uma entrada de todos os dicionários. Eventualmente, quem sabe, até como sinónimo de “Miguel Relvas”.


É claro que os senhores juízes também não se lembraram de perguntar ao depoente Miguel Relvas em que ponto dos estatutos do PSD, nos actuais ou nos que ao tempo estavam em vigor, salvo erro no artigo 25º, é que se enquadrava essa actividade “agilizadora” que ele tanto prezava (preza?), já que, como se sabe, a Lei Orgânica do XVI Governo Constitucional, verdade seja dita, ainda não previa a figura do ministro ou secretário de Estado “agilizador” de processos. Contudo, nada impede que a figura ganhe consagração legal num próximo governo PSD/CDS. E com direito a reforma, uma vez que eu admito que o Dr. Moedas (é o que está na linha de sucessão) condescenda nesse ponto.


Tenho pena de não ter sabido em 2004/2005 dessa especial aptidão (e descaramento, que também é preciso) do Dr. Miguel Relvas para "agilizar" processos. Se o soubesse ter-me-ia na altura aconselhado com ele, ou metido uma "cunha" à Dr.ª Paula Teixeira da Cruz, sobre a melhor forma de "agilizar" alguns processos de clientes meus que estavam, e estão (estes tansos dos socialistas não agilizam as coisas como deviam), pendurados em autarquias dirigidas pelo PSD aqui no Algarve. Talvez se tivesse evitado que seguissem o caminho dos tribunais ou, quem sabe, ele me tivesse conseguido umas reuniões com alguns presidentes de Câmara algarvios, por exemplo, ou, pelo menos, ter-me-ia feito o obséquio de insistir com os fulanos para que me respondessem às cartas, aos faxes e aos telefonemas sem que eu e os meus clientes ficássemos eternamente a aguardar resposta. Eu não tenho culpa destas coisas só me acontecerem a mim e aos meus clientes e não me conformo com o facto de saber que se fosse uma dessas sociedades de Lisboa recheadas de estrelas do PSD e que prestam serviços no Algarve às autarquias do seu partido - mesmo às falidas, como é o caso de Faro, cujo presidente vai agora passear-se para a Argentina para “captar investimentos” para o concelho (há uns meses também foi ao Brasil mas ainda não dei pelos investimentos, só pelos processos disciplinares) -, e garanto que não aconteceria o mesmo. E não estou a pensar em ninguém em particular que elas ainda assim são bastantes.


Enfim, eu não estava atento, não fui a tempo. Problema meu. Lixei-me. Para a próxima será melhor.


De qualquer forma, estou convicto de que se os portugueses dessem uma nova oportunidade (muitas não porque isso já cheiraria a fraude socratista) ao Dr. Miguel Relvas, ele ainda prestará uma série de bons serviços a todos aqueles que têm dificuldade em ver os seus processos avançar. Seja junto do Governo da República, nas autarquias do PSD ou na Região Autónoma da Madeira, onde parece que o Dr. Alberto João Jardim só dá ouvidos ao Dr. Garcia Pereira.


Em todo o caso, penso eu, seria conveniente que o Dr. Miguel Relvas abrisse um gabinete na sede do PSD, ou até mesmo em Massamá, para que pudesse receber condignamente todos os que estão “à rasca” com a falta de “agilização” de alguns processos que nem com a porra do Simplex avançam. Pessoas pobres que estão ansiosas por poderem recorrer aos bons ofícios do Dr. Miguel Relvas, como até o Dr. Fernando Nobre lhe poderá confirmar. Alguns desses processos - dizem-me ao ouvido por causa dos tipos do SEF - são de africanos à espera da nacionalidade e que nunca mais vêem a hora do despacho aparecer.


O Dr. Passos Coelho pode ainda não se ter lembrado disto, mas é uma sugestão que aqui lhe deixo para o debate de logo à noite. É a sua oportunidade de dar mais visibilidade, melhor diria transparência, a uma actividade muito apreciada pelos portugueses.


Além do mais, o Dr. Passos Coelho poderia ganhar mais uns votos dando ao Dr. Miguel Relvas, seu amigo e leal servidor que ontem terá ficado um pouco abatido com o que o juiz lhe disse, o crédito que merece pelos serviços que lhe presta e ao PSD e uma nova oportunidade para brilhar, assim gerando uma nova entrada nos dicionários com a chancela do seu partido. E, mais importante, uma forma mais rápida e expedita de cilindrar José Sócrates, “agilizando” a sua saída.


Não cobro nada pela ideia. E embora eu saiba que o Dr. Passos Coelho não é um ingrato, escusam de depois mandar ex-ministros do PSD agradecerem as ideias que eu vos dou ou pedirem-lhes que me transmitam que fico dispensado de as colocar aqui no Delito de Opinião. Eu sei que não somos todos iguais e quue não tenho os dotes do Dr. Miguel Relvas. Mas sucede que eu gosto de fazer as coisas ainda com mais visibilidade do que ele. Ao que acresce ter uma dívida de gratidão para com os meus parceiros do blogue, pois que é com a sua tolerância e compreensão que eu ainda vou arranjando paciência para ir "agilizando" estas notas.


P.S. para o Dr. Pacheco Pereira: Não me chamo Abrantes, o meu arquivo é de memória.

A LER

A SOLUÇÃO PARA A CRISE GREGA

quinta-feira, abril 21, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

De quando em vez vão saindo no Delito de Opinião alguns textos dispersos e mais algumas páginas. Como hoje aconteceu, com a política a dominar.


RECOMENDA-SE

Não tanto pelos textos, que têm vindo a perder qualidade, mas pelas fotografias da Victoria's Secret e pela reportagem de Francisco Serrano, no Cairo. De qualquer modo, não seria mau que Domingos F. Amaral começasse a pensar em melhorar o painel de "opinadores". Isto é, se quiser fazer uma revista honesta que se deixe ler e ver. Papel já há muito. E mau.

sexta-feira, abril 15, 2011

A LER

ESTREIA HOJE EM ITÁLIA




"Habemus Papam" é o novo filme de Nanni Moretti que estreia hoje nas salas italianas. Com Michel Piccoli, que regressa aos 85 anos no principal papel, é uma viagem pelo Vaticano, pelas suas hierarquias e corredores. É a história de um Papa que se vê confrontado com uma crise existencial depois de eleito para o trono de S. Pedro. Marco Politi, um especialista em questões do Vaticano do jornal "Il fatto" considerou-o um filme genial e aconselhou Bento XVI a vê-lo.