segunda-feira, setembro 26, 2011

ELE TINHA AVISADO


Foi assim em Fevereiro de 2010. Ele avisou mas houve quem fizesse de conta. Era mais cómodo, dava mais votos. Agora pagamos todos.

O MESMO GOVERNO, DOIS DISCURSOS

Na entrevista à RTP da semana passada, o primeiro-ministro, sem dizer que retirava a confiança política a Alberto João Jardim, e sabendo que é o líder do partido de que o segundo, que se vai apresentar a votos no próximo dia 9 de Outubro, é militante, foi claro ao dizer que não caucionava a atitude do presidente do Governo Regional da Madeira, que a considerava grave e que, por essa razão, não iria fazer campanha ao lado de Jardim.
Apesar das meias-palavras houve quem ficasse satisfeito com o que ouviu de Passos Coelho quanto à eventual retirada de confiança política. Marcelo Rebelo de Sousa foi um deles e apressou-se a vir dizer que via nas palavras do primeiro-ministro uma resposta inequívoca ao que fora pedido pelo líder do PS, António José Seguro.
Pois é, mas o problema é que ontem mesmo, à tarde, na sessão de lançamento de um livro sobre a "gloriosa" história da JSD, o ministro dos Assuntos Parlamentares, o inefável Miguel Relvas, com a clareza de quem se afirmou com um campeão da "agilização" de tarefas várias, quando questionado sobre a questão da Madeira disse inequivocamente às televisões, na Livraria Bertrand, que esperava a vitória eleitoral do PSD nas eleições regionais.
Ao dizê-lo, Miguel Relvas não só desmente Marcelo Rebelo de Sousa, já que desejando a vitória do PSD/Madeira nas eleições regionais ele está a dizer que Alberto João Jardim (e a sua tropa) merece ser reeleito e continuar a governar, dessa forma ignorando todas as "trampolinices" em matéria de despesa, como avaliza os métodos de Jardim e se afasta daquela que foi a posição de Passos Coelho na entrevista que concedeu.
O que se impõe agora perguntar é como conciliar um desejo de vitória do PSD/Madeira nas eleições regionais, expresso por Miguel Relvas, com a atitude que Passos Coelho considerou grave e incaucionável das dívidas ocultas da Madeira, que torpedeou os esforços de todos e nos colocou aos olhos da imprensa internacional no mesmo nível dos aldrabões dos gregos.
Perante as inequívocas palavras de Miguel Relvas, Passos Coelho devia deixar-se de meias-tintas e salamaleques e dizer ao País o que pretende ver consagrado nas eleições regionais de 9 de Outubro. Isto é, se admite que há coisas graves que podem ser esquecidas e limpas por uma vitória eleitoral, o que permitirá a Jardim e ao seu pessoal de sempre, no futuro, reincidir, ou se será melhor para a Madeira e o País que o PSD/Madeira perca as eleições regionais ou que seja obrigado a governar, se ainda assim as vencesse, em coligação.
Talvez seja essa a única forma de Passos Coelho mostrar aos portugueses se é ele quem manda ou, se como acredita muita gente, se quem manda é o ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, e ele se limita a ser um mero executor daquilo que o ministro lhe encomenda.

sábado, setembro 24, 2011

SINAIS (14)

"Portugal não pode ser uma experiência na TSU" - Paulo Portas, Expresso, 24/09/2011

"Se Passos quisesse fazer algo de sério e grandioso por Portugal, pedia a Jardim que se retirassee. Dizia a verdade que todos sabemos - que o melhor seria Jardim não voltar a ganhar eleições. O país está acima dos partidos e ter votos não é ter razão, nem coragem, nem virtudes.
Passos poderia perder a Madeira ganhando o país. Mas vai fazer como os outros...Irá?" - Henrique Monteiro, ibidem 

sexta-feira, setembro 23, 2011

VALORES MAIS ALTOS SE LEVANTAM

A decisão do Tribunal Constitucional que foi hoje conhecida vem na linha das dúvidas que eu coloquei e que anteriormente levantei a propósito da retroactividade da lei fiscal, então e uma vez mais contra a corrente e pensamento dominantes sobre essa matéria. E não se trata de uma questão de democracia, como colocou o ano passado o José Gomes André, mas de simples bom senso face circunstâncias excepcionais que o País atravessa.
Percebo que a decisão seja dolorosa e incompreeensível para muita gente, mas o que estava em causa em matéria de retroactividade da lei fiscal - proteccção da confiança, em especial - é, de certa forma e se bem que numa outra perspectiva, também o que aqui se discutiu quanto aos salários na função pública.
Faço votos é de que esta jurisprudência do TC tenha também carácter excepcional e que amanhã, quando as tais circunstâncias excepcionais que a ditaram desaparecerem, se retome a "normalidade", porque os princípios agora postergados são uma conquista civilizacional e assim deverão permanecer na nossa ordem jurídica.  

quinta-feira, setembro 22, 2011

NÃO QUERIAM TRANSFORMAR O ALGARVE NUMA MADEIRA?

Ainda não passou muito tempo desde que Alberto João Jardim alinhava com os mestres de cerimónias algarvios e era por estes apresentado como um exemplo de liderança política e boa governança. Mendes Bota chegou mesmo a afirmar que apoiaria o soba regional para líder do PSD, o mesmo seria dizer que gostaria de vê-lo como primeiro-ministro de Portugal. Macário Correia, o actual presidente da Câmara de Faro, quando iniciou a luta pela capital algarvia foi a correr buscá-lo para a pré-campanha e passeou-o pelo Algarve como se fosse um verdadeiro líder tribal. Via em Alberto João Jardim um exemplo e esperava que o líder regional lhe ensinasse alguma coisa sobre as "vantagens" da regionalização. Como agora se vê, o segredo estava no populismo desbragado, no insulto, no gastar à tripa-forra, no caciquismo, no compadrio, e na rocambolesca e dolosa ocultação de dívida para satisfação das suas clientelas. Quer o deputado Mendes Bota, quer Macário Correia, ficaram famosos por atacarem sem dó o despesismo dos socialistas. Os outros é que eram os maus da fita, eram exímios a criar dívida e a hipotecarem o futuro. Agora, que têm uma boa oportunidade de atacar o criminoso despesismo madeirense ou saírem em defesa de Alberto João Jardim, justificando a sua política de enterro regional e nacional, desapareceram. Então não queriam para o Algarve o mesmo que para a Madeira? Porque estão calados? Perderam o pio? Que têm Mendes Bota e Macário Correia a dizer sobre o que se está a passar na Madeira? O que Jardim fez tem justificação? Falem, homens, manifestem-se agora, não tenham medo, convidem-no para vir ao Algarve, mostrem lá a vossa solidariedade para com quem vos apoiou. Não sejam ingratos, dêem o exemplo.  

quarta-feira, setembro 21, 2011

UMA ESCOLA

(foto Público, Miguel Manso)

A entrevista que o primeiro-ministro Passos Coelho deu ontem à RTP deixou a imagem de  um homem esforçado. Ao mesmo tempo, foi também a imagem de um homem que transparentemente confessa a sua impotência para controlar as variáveis de que depende o seu sucesso e a nossa sobrevivência. Não apenas as que supostamente seria conhecedor antes das eleições e que o levaram a delirantemente prometer o que com toda a certeza se sabia que não poderia cumprir; como igualmente as que ignorando, ou tendo-lhe sido distorcidas pelos interlocutores, o levaram a contrariar as promessas eleitorais que fez e  que ele candidamente faz de conta que assume assestando a artilharia contra terceiros. Normal.
O estilo afasta-o, e ainda bem, do que foi cultivado pelo seu antecessor. À ferocidade sucedeu uma imagem mais domesticada, mais dócil, tão do agrado das gentes lusas. Afinal o outro lado da nossa passividade, talvez, por vezes, indiferença. Desconfio, contudo, que essa docilidade contribuirá muito pouco para a resolução dos nossos problemas. Nas horas de aperto que aí vêm, a boa imagem, o empenho de que dá mostras, o voluntarismo, tudo isso será receita insuficiente quando se fizer o balanço.
Passos Coelho defendeu-se como pôde e não sei se algum outro faria melhor. Mas a declaração que fez sobre a Madeira e Alberto João Jardim deixaram algo por dizer. A dolência de que deu mostra nas respostas é ao mesmo tempo sinal da sua resignação sobre os últimos trinta anos da nossa história. O mal é geral. Nós, portugueses, não gostamos de acertar as contas com o passado. Evitamo-lo. Ao passado e às contas. Ou porque o desastre seria sempre inevitável - resignação - ou porque se remetermos as contas para o futuro elas tornar-se-ão menos dolorosas. Esta é ainda outra forma de resignação, se bem que disfarçada pelas preocupações - incapacidade - com a gestão do presente.
A entrevista revelou uma outra coisa: revelou um primeiro-ministro tão transparente que deixou transparecer as razões do nosso fracasso.
A má gestão, a incompetência, o abuso, o desleixo, a impreparação de quem governa - hoje como ontem - ou a incompreensão dos que vindo de fora nos quiseram ajudar pode esconder-se atrás de um aumento de impostos. O que aconteceu com o nosso défice público ou na Madeira não difere do que aconteceu com o BPN, com as escutas que misturam operadoras telefónicas com espiões de banda desenhada ou com muitas das operações e negócios de "sucesso" que se foram fazendo nas últimas décadas e que encheram as páginas de jornais e revistas. Dos mais cor-de-rosa aos mais descoloridos. Enquanto uns sonhavam outros corrompiam e corrompiam-se.
Se um dia houve quem visse num par de calções uma tanga e tenha partido em busca de um fraque, hoje vemo-nos todos, tristemente, sem calções ou tanga, mostrando as rugas e a flacidez envelhecida e envergonhada do nosso corpo descoberto. 
Passos Coelho tentará, através da receita dos impostos e da imposição de um regime dietético extremo, que quem envelheceu prematuramente numa vida desregrada, perdendo nesse caminho massa cinzenta, cabelo, dentes, visão e alguns órgãos vitais, rejuvenesça. Vai tentar um milagre.
Não há mal nenhum em que os crentes acreditem em milagres. Mas por muito grande que seja o milagre há uma coisa de que ele devia ter consciência: os impostos, a troika, as privatizações, o emagrecimento do Estado, a viagem ao Brasil do ministro Relvas ou a reforma da justiça podem livrar-nos de uma tragédia grega, restituir-nos alguma dignidade e até trazer-nos um pano limpo para nos cobrimos sem que isso resolva os nossos males. Um primeiro-ministro tem de ter consciência disso. 
Porque o nosso drama, aquele em que todos os antecessores de Passos Coelho falharam será provavelmente o mesmo em que ele também claudicará. Porque há coisas que não se resolvem com mais impostos, melhores leis ou gerindo melhor os nossos escassos recursos. A ocultação de dívida da Madeira não é só um caso de polícia para entreter os procuradores do Dr. Pinto Monteiro. Mais do que isso, é sintoma de uma outra doença que muitos dos nossos antepassados maiores identificaram. A mesma doença que obrigou Pessoa a esconder-se atrás de uma chávena de café do Martinho da Arcada, vendo a sua imagem reflectida no fundo, ou que despachou Jorge de Sena para o Brasil e os confins da Califórnia. Uma doença que nos corrói há séculos, pior do que a corrupção, mais violenta do que o abalo de 1755. Uma doença que até hoje todos temem e ninguém ousa enfrentar. Porque nos come a carne, porque se entranha na alma e reproduz-se mais depressa que as facturas da Madeira. A canalhice. 
Se Portugal um dia quiser triunfar, se Passos Coelho ou qualquer outro que venha a seguir não quiser falhar, terá de começar por aí. Pela canalhice. Em Portugal, a canalhice é uma escola. Um tratado. 
Não é só o Estado que é reformável. A canalhice também é. Com transparência e de acordo com as regras. Reformar a canalhice não implica aumentar os impostos, apresentar um ar compungido perante as televisões ou pedir ajuda à troika
E será o suficiente para de uma forma barata nos livrar dos canalhas que deixaram viver o Dantas, que lixaram o Pessoa, ostracizaram o Jorge de Sena e um dia emitirão as facturas que o Jardim mandou esconder, enquanto eles urram de gozo e o primeiro-ministro é maquilhado para a entrevista.

terça-feira, setembro 20, 2011

UM DISCURSO PASSADO QUE EXPLICA SILÊNCIOS E IMPUNIDADES

"Verifico com alegria que, ao longo das últimas décadas, esta terra se converteu num caso de sucesso económico e social e que o desenvolvimento aqui registado, além de orgulhar todos os Portugueses, deve servir de estímulo para Portugal inteiro. A Madeira mostra-nos que é possível fazer melhor e chegar onde queremos, lá onde a vontade alcança" - Aníbal Cavaco Silva, Discurso à Assembleia Regional da Madeira, em 14 de Abril de 2008. 

segunda-feira, setembro 19, 2011

A LER

Pedro Marques Lopes, João Marcelino e Paulo Baldaia, todos no Diário de Notícias.

E também a entrevista de Santana Castilho ao Correio da Manhã, que deve ter deixado Passos Coelho, de quem foi convidado antes de 5 de Junho, com as orelhas a arder. Não partilho a sua opinião sobre Nuno Crato, mas não deixa de ser curioso ver o que diz sobre a impreparação do primeiro-ministro. 

SINAIS (13)

"O que começa torto, tarde ou nunca se endireita, já diz o povo. É o que se passa no banco público, e não era necessário que se passasse assim" - António Costa, Diário Económico

DIÁRIO IRREGULAR

18 de Setembro

Quando alguém diz que acredita normalmente não se conhecem, nem se perguntam, as razões por que acredita. Pode ser por convicção no que se ouve, por se acreditar que por trás das palavras há um pouco mais do que a estética do discurso, ou até por inexplicável crença ou simples simpatia. Também há quem acredite por interesse egoístico e oportunístico. Alguns há que acreditam porque são tontos, ingénuos ou imbecis. E sobram ainda outros que não acreditam, que fazem de conta que acreditam e que têm o desplante de querer convencer os outros de que o que vêem é a realidade, sendo capazes de ir buscar os argumentos mais díspares e estrambólicos para justificarem o teatro.
Carlos Abreu Amorim é um neófito da política. Não o é da vida nem do direito. O que, felizmente, não o impediu de ser deputado. E muito bem. Não precisa de um lugar mal remunerado de deputado para viver. Não depende da política para ser gente. Além de ser um homem inteligente. E não foi o facto de muitas vezes discordar das suas opiniões que me levou a estranhar as suas palavras em defesa de Alberto João Jardim. Mas, que diabo, será que CAA não tinha outro argumento para defender as inanidades governativas do Bokassa do Funchal em matéria de finanças e défice público regional do que ir buscar o exemplo e a herança de José Sócrates? Então as asneiras de Sócrates perdoam o descontrolo, os insultos e as canalhices regionais que colocam em causa a nossa imagem internacional? O que se fez no Continente serve de justificação a Jardim? Quando um homem culto e inteligente se coloca no lugar de um serventuário iletrado para fazer dos outros parvos é sinal de que entrou na política por engano. O melhor será sair dela tão rapidamente quanto entrou para não acabar fazendo a figura dos seus pares. Seria terrível se o confundissem com Guilherme Silva.
Houve quem ficasse incomodado com o que escrevi no Delito de Opinião sobre a impreparação de Passos Coelho e a falta de seriedade do triunvirato que dirigiu o PSD até às eleições de 5 de Junho passado. Até houve quem viesse falar em “ressabiamento”, como se eu, que sempre falei pela minha própria voz, correndo em pista própria e seguindo a minha própria cartilha, pudesse sentir-me ressabiado em relação a alguém por quem nunca nutri simpatia. Agora, começa a ficar tudo muito claro. Na semana passada deixei uma pequena nota, que leu quem quis, sobre o fiasco que era anunciar, quase três meses depois do Governo tomar posse, a extinção de mais de uma centena de serviços, sem dizer o que se faria aos funcionários e esquecendo-se que isso representaria uma poupança de apenas 100 milhões. Pensei que estavam a atirar areia para os olhos das pessoas, sabendo-se que em causa está um pedido de ajuda à troika de mais de 80 mil milhões e depois de durante meses termos ouvido dizer que a redução do défice se faria à custa da redução da despesas e não dos aumentos dos aumentos. Um aldrabão de feira não diria melhor. Mas há sempre quem aplauda qualquer número de circo. Então na blogosfera, e desde que começaram a surgir os novos “Abrantes” ao serviço de Passos Coelho, até o chapéu tiram aos farsantes.
Esta noite, Marcelo Rebelo de Sousa veio dizer que os cortes na despesa são “curtinhos” e que dão a ideia de terem sido “feitos em cima do joelho”. Bom, se fosse só a ideia não seria mau. O pior é que foi e é mesmo assim. Marcelo sublinhou que a melhor prova disso foi o Governo ter anunciado a extinção de um organismo internacional que não depende dele e que, por isso mesmo, não pode ser extinto por decreto do Governo. Quem assumirá a paternidade da asneira? Será preciso continuar a dar o benefício da dúvida? É claro que não.
Mas Marcelo foi mais longe, colocando em dúvida que o Governo, isto é Passos Coelho, continue a viajar em classe económica. Também eu vou aguardar o esclarecimento sem deixar de notar que a estratégia que tem vindo a ser seguida por este Governo, dir-se-ia que copia quase na perfeição a de Rocha Vieira em Macau. Também este quando lá chegou começou a cortar nos lápis e no papel higiénico por causa do “despesista” (houve quem lhe chamasse nomes mais feios em privado) Carlos Melancia. Poucos saberão como começou. Hoje todos recordam como acabou, a começar por alguns colaboradores deste Governo que passaram por Macau. Sabem bem do que falo. O saudoso Mário Bettencourt Resendes deixou uma síntese notável no DN um ano depois da criação da RAEM.
Quanto à Caixa Geral de Depósitos, o perfeito disparate que foram as alterações no modelo de gestão e a vontade de satisfazer as clientelas do PSD e do CDS/PP já começam a dar resultados. O Expresso escreveu que “o verniz estalou” e que ninguém se entende na CGD. A escolha da Caixa Banco de Investimento e de uma empresa de nome “Perella” para liderarem um negócio de milhões – as privatizações da REN e da EDP -, à revelia da lista de entidades e dos critérios previamente definidos para escolha das instituições que poderiam acompanhar essa operação, com a aparente conivência do “seminarista” das Finanças – são mais um exemplo da tão apregoada transparência e não podem deixar de nos interrogar sobre a rapidez com que tudo isto está a acontecer.
Enquanto isso, ficamos todos a saber que o único ministério que não vai sofrer “cortes” é o da Administração Interna, dirigido por um dos membros do triunvirato que tomou conta do PSD. Miguel Macedo justifica com as necessidades de segurança. Porém, a razão é bem mais prosaica. Num momento como este que atravessamos a última coisa que o Governo admite – não por qualquer preocupação que se prenda com o interesse nacional, mas tão-só com a sua imagem – é ver polícias ou militares na rua a manifestarem-se. Essa seria a machadada final na credibilidade do Governo e do regime. Pode ser que me engane, mas mais cedo ou mais tarde, talvez mais cedo do que tarde, eles acabarão de novo na rua. Porque o dinheiro não é elástico e não há, como disse Vítor Gaspar, nenhuma receita “milagreira”. Pois não, mas quando o óbvio é tão óbvio, não será difícil perceber que as eleições regionais da Madeira marcarão o ponto de viragem. Qualquer que seja o resultado destas, com ou sem maioria absoluta, Alberto João Jardim será sempre um cadáver político no regaço da maioria.
Entretanto, seria bom que alguém dissesse ao ministro Mota Soares que querer obter a devolução de verbas da Segurança Social que foram atribuídas por erro dos serviços, a quem tendo direito a ser apoiado por essa entidade não teria, em concreto, direito à ínfima parte que lhe foi creditada em excesso, revela uma grande falta de senso e de sentido de justiça, para já não falar na violência de tal medida. É que essas verbas, se foram atribuídas em excesso não o foram por culpa de quem as recebeu, por um lado; e, por outro, porque foram recebidas de boa fé pelos destinatários que as viram creditadas nas suas contas bancárias. E, depois, porque essa gente vive com mil euros por mês estando em situação de carência e tendo filhos para sustentar. Pedir-lhes nesta altura a devolução, ao fim de anos e em relação a gente que chega ao fim do mês com muitas dificuldades para comer – não o gastaram para ir de férias ou comprar acções – não será o mesmo que pedir a Joe Berardo que pague os juros do que pediu emprestado para comprar acções do BCP. Se o objectivo do Governo é dar o exemplo, então que comece por quem pode defender-se. Ou por quem criou problemas a todos actuando dolosamente, de má fé e à revelia da lei, gozando com a nossa cara e com a nossa bolsa.
Já faz um ano. A saudade é a mesma. Por isso voltaria a escrever o que então escrevi. Com um pouco mais de ternura. Porque esta é sempre pouca quando se tem e se pode dar sempre mais do que se dá.

sexta-feira, setembro 16, 2011

MADEIRA: O PROSTÍBULO DO PSD

Enquanto o ministro Relvas vai confraternizando e fortalecendo os laços com os seus amigos do garimpo do outro lado do Atlântico, seria bom que quem por cá ficou fosse pensando em responder às questões que se vão colocando:

1 - Até quando - ou, se quiserem, até que montante - é que o PSD e o primeiro-ministro Passos Coelho estarão dispostos a dar cobertura política a quem dolosamente e ao longo de anos sucessivos "martelou" as contas da Madeira, insultando todos os contribuintes nacionais e delapidando o dinheiro público para sustentar as suas miseráveis clientelas políticas?

2 - Porque estão tão calados os deputados Guilherme Silva e Correia de Jesus? Por solidariedade para com Alberto João Jardim, por estarem comprometidos com a situação ou por simples medo de falar?

3 - Que autoridade tem o presidente do Governo Regional da Madeira, que governa uma "aldeia" de 250 000 pessoas, para criticar os Governos da República, sabendo-se que o buraco que criou nas contas públicas regionais é em termos proporcionais incomensuravelmente maior do que o deixado (o que também não o desculpa) pelo anterior Governo da República?

4 - Qual o valor real da dívida da Madeira?

5 - Uma vitória de Alberto João Jardim nas eleições regionais de Outubro próximo é suficiente para limpar o chiqueiro em que a sua governação transformou as contas públicas da Região Autónoma?

UM FILME A NÃO PERDER

Embora já o tenha visto há um bom par de semanas, ainda não tinha tido  oportunidade de vos recomendar este filme-documentário de Andrei Ujica. Notável pela forma como apresenta o ditador, entregando-o à sua própria propaganda e imagem. O contraste entre a opulência e a miséria e as contradições do regime estão lá todas. Ou de como um homem vazio foi elevado  à condição de "estadista". O breve diálogo entre ele e a mulher, por ocasião do seu julgamento, quando o procurador o acusa da morte de uma série de estudantes e Elena se vira para ele perguntando-lhe a que estudantes se referia a acusação, dizem quase tudo sobre a forma como a Roménia foi governada. Uma lição a reter. E um filme que convém ver quando se sabe que os líderes dos dois maiores partidos portugueses saíram das fileiras das organizações juvenis dos partidos que lideram e cultivam a imagem como forma de estar na política.

SINAIS (12)

"Governo extingue 137 organismos mas ainda não sabe quantos funcionários saem" - Público, 16/09/2011

"Não se pode saber. A fase seguinte do programa será a aprovação das leis orgânicas de cada ministério e de cada entidade" - Hélder Rosalino, secretário de Estado da Administração Pública

A LER


Nota: Nesta tabanca lê-se sempre o Vasco e qualquer tipo inteligente, de direita, de esquerda ou até do F.C. Porto, desde que quem escreva saiba fazê-lo, não tenha medo das palavras e não seja servil, e não obstante se poder estar em desacordo em relação a muita coisa.

PARABÉNS QUANDO O TALENTO NUNCA É EXCESSIVO

A Eduardo Souto de Moura. Por causa disto.
Se não conhece vá até lá, veja os desconcertantes e geniais trabalhos de Paula Rego e aproveite para tomar um café na acolhedora esplanada interior.

quinta-feira, setembro 15, 2011

FAÇAM O QUE EU DIGO MAS NÃO O QUE EU FAÇO

Em Maio passado o Carmo e a Trindade vieram abaixo porque o ex-ministro Teixeira dos Santos chegou a Bruxelas e acedeu a fazer alguns ajustamentos a um texto previamente negociado e aprovado com a troika, texto que antes dessas alterações era do conhecimento dos partidos políticos.
Na altura, o sempre oportuno Paulo Portas apressou-se, e bem, a pedir explicações ao Governo.
Mas agora, os mesmo que tanto criticaram Teixeira dos Santos resolveram introduzir actualizações - não foram meros ajustamentos - às medidas de austeridade e já ironizam com o facto de ter havido quem tivesse ficado "perplexo" com a desconsideração
E é esta malta que se especializou a "agilizar" processos, e ganhou a visibilidade mediática que as suas competências nunca lhe deram na política e na vida à custa dos partidos, que depois quer ser levada a sério.

DIÁRIO IRREGULAR

15 de Setembro

O meu primo JC faria hoje anos. Foi um dos que partiu sem se despedir. Ou fizeram-no partir, nunca cheguei a saber. Já lá vai um ror de anos e continuo a recordá-lo. Com os bons rapazes é assim.

Estive umas semanas sem a comprar e penso que vai voltar a ser assim. A Sábado, na linha de um certo jornalismo sensacionalista e sem conteúdo útil, vem hoje com uma capa na qual colocou a foto de uma mulher sorridente de coco na mão ao lado do título "A vida fantástica dos portugueses que foram para o Brasil". O subtítulo refere que estes portugueses saíram de Portugal "para fugir à crise" (sic) e "agora vivem em casas de luxo em frente à praia e chegam a ganhar o dobro". A senhora da foto é Mónica Penaguião. Só não dizem que a senhora da foto podia viver numa casa de luxo em qualquer parte do mundo, incluindo em Lisboa. Dizer que ela foi para o Brasil para "fugir à crise" é um insulto para aqueles que cá têm de ficar para serem esfolados pelo senhor que confunde aumento de impostos com redução de despesa pública.

Estava uma noite fantástica, a temperatura amena, a casa cheia, em suma, um ambiente fabuloso. Cânticos, muita cor, muita luz, o voo da águia e o verde húmido do relvado. Depois, durante noventa minutos, uma exibição de grande classe. Vale a pena ver as televisões europeias e ouvir os comentários ao golo de Cardozo. Uma obra de arte. E não foi preciso entoar cânticos a insultar o adversário. É assim que naquela casa se recebem as grandes equipas. 

Encontrei ontem o meu amigo JMB no seminário organizado pela DGPJ e o IAPMEI. Fiquei satifeito de poder revê-lo, ainda que apressadamente, e não menos admirado de vê-lo ali. Depois percebi porquê. Disse-me que acabou o exílio. Sorte a dele. O meu continua e não precisei de sair de Portugal.

O director-geral dos impostos veio falar em ética na actuação do fisco, no dever de pagar impostos, com o que eu concordo e aplaudo, e aproveitou para meter uns quadros com barras e curvas a dizer que a carga fiscal das empresas portuguesas está abaixo da média europeia. Do que ele se foi lembrar para justificar o saque. Esqueceu-se de dizer que não temos a Saúde nem a Segurança Social dos suecos ou dos dinamarqueses e que por lá as autoridades não instauram execuções por € 0,19 (dezanove cêntimos) nem tentam cobrar dívidas prescritas. Vá lá que houve alguém que lhe disse que mesmo que a nossa carga fiscal fosse só de 20% e que se todo o dinheiro fosse para pagar os salários na Direcção-Geral dos Impostos ainda assim seria excessiva. Já não tive tempo de lhe perguntar se essa actuação "ética" a que ele se referia englobava aqueles processos entre o fisco e os contribuintes em que os tribunais, o MP e os próprios serviços do fisco já deram razão ao contribuinte e o processo continua em Tribunal porque a jurista que representa a DGI não leu a informação do processo administrativo e ninguém manda nela, continuando o contribuinte a pagar a garantia bancária até que o relator se digne inscrever o processo em tabela no TCA do Sul para resolver de vez um simples problema de aritmética.

O contraste não podia ser maior. Ouvir no mesmo dia Paula Teixeira da Cruz e Álvaro Santos Pereira permite-nos tirar uma rápida conclusão. Ambos podem ser excelentes pessoas e competentes no seu métier. No caso da ministra nunca tive dúvidas disso. Já o mesmo não posso dizer do "Álvaro", embora me possa fiar no seu impressionante currículo. Mas há uma coisa de que eu tenho a certeza: para fazer o que faz com o rigor e a classe com que o faz, Paula Teixeira da Cruz podia ser ministra de qualquer Governo de Portugal. Ele, pelo estilo, só podia ser ministro de Passos Coelho. Ou do Relvas.

Alguém lhe devia ter dito que normalmente as senhoras precedem os cavalheiros e que é melhor cair em graça do que ser engraçado. Não sei se será alguma coisa contagiosa ou apenas uma consequência de lhe ter sido atribuída a pasta da Economia. O outro também era muito afável mas isso não impediu as bojardas. Nem a cena parlamentar dos corninhos.  Ontem também não cheguei a perceber se o homem estava a delirar ou se será sempre assim. Por três vezes o "Álvaro" garantiu que no "final de 2012", "muito em breve", Portugal estará em situação de "retoma". E acrescentou que não só tinha a certeza como acreditava "piamente" (sic) nisso. Ficou gravado. Verdade que não explicou como (também não estava ali para isso), mas oxalá que tenha razão. Se eu cá estiver nessa altura não deixarei de recordá-lo. E, sendo verdade, de dar a mão à palmatória.

SINAIS (11)


"Estava escrito nas estrelas que a descida da Taxa Social Única (TSU) daria asneira. Desde a conferência de imprensa da ‘troika’ em Lisboa a 12 de Agosto que ficou claro que existia uma cisma à volta desta medida" - Bruno Proença, Diário Económico

TEMOS EQUIPA


SLB 1 - MANCHESTER UNITED 1

Não sei quem o disse mas há momentos em que é bem verdade: "Deus perdoa, Tacuara não". Grande jogo de futebol, grande exibição, uma noite fantástica. Houve muita classe e emoção no relvado da catedral. O resultado é que soube a pouco. De qualquer modo, fica a certeza de que "o Benfica não é o Bolton". Mesmo quando deixa Saviola no banco. Contem connosco.

terça-feira, setembro 13, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

13 de Setembro

E lá me meti no avião para o Porto, na jornada que me conduziu até Braga. É reconfortante ver a diversidade deste território tão pequeno onde os nossos antepassados se acantonaram, descobrir novos falares, novas formas de estar, outros sorrisos, paisagens tão diferentes. 

Podia ter corrido melhor. Muito melhor. Mas não sei se estando sequestrado como está alguma vez será possível que corra melhor. Também não sei se o sentido da palavra renovação terá para todos o mesmo significado. Pelo que ouvi das intervenções e das conversas de bastidores, e, em especial, já que isso é decisivo para se fazer um juízo, a avaliar pelos nomes que saíram das listas de Seguro e Assis para os órgãos nacionais, renovação deve ser coisa para as calendas. E o sentido que eu, muitos outros militantes e portugueses lhe dão não é o mesmo que eles lhe dão. Tenho pena que assim seja.

Os actuais figurinos de escolha do secretário-geral e do congresso não fazem qualquer sentido. Escolher o líder em directas, dois meses antes do congresso, para de seguida entronizá-lo numa missa, ao mesmo tempo que se vota para os órgãos nacionais, é desmotivante. A eleição do secretário-geral deverá voltar a ser feita em congresso, através dos delegados, por voto secreto, e na sequência de um debate no próprio congresso entre os candidatos e os subscritores das moções que se apresentem. Na sexta-feira cada um dos candidatos à liderança apresentava as suas ideias. No sa´bado discutiam-se as moções e depois votava-se. Isso traria outra motivação à participação e seria mais estimulante para os portugueses que em casa acompanham estes conclaves. Bater-me-ei por isso. Um Congresso, como também me dizia o JMM, não pode ser uma missa, apesar de haver muitos lá dentro com jeito para sacristães. E para seminaristas, digo eu.

Também terá de ser encontrado um outro formato para as intervenções dos delegados. Três minutos não chegam para nada, em particular se as pessoas gastarem o primeiro minuto a saudar a presidente, o secretário-geral, a comissão organizadora e por aí fora, numa ladainha que somadas todas as intervenções deve representar ao final do dia umas três horas de encómios e salamaleques. Basta fazer as contas a cerca de cento e oitenta discursantes. Era preferível que se pré-fixasse um período para as intervenções e depois se aceitasse um número limitado de inscrições, por exemplo quarenta ou cinquenta. Se esse número fosse excedido haveria lugar a sorteio ou, então, já que as novas tecnologias estão na berra, só se aceitariam inscrições feitas por via electrónica até ao número limite admitido. Se possível com o sumário escrito da intervenção. Isto levaria a que só subisse à tribuna quem tem alguma coisa para dizer, ao contrário do que hoje acontece em que muitos há que vão lá só para dizer que lá estiveram, além de que se evitariam eventuais manobras de bastidores e os atropelos aos que querendo intervir e podendo, penso eu, intervir a horas de maior audiência, são atirados para períodos mortos ou, como aconteceu, para uma hora em que as moções já tinham sido votadas, depois de jantar, quando praticamente ninguém estava na sala. Aliás, que sentido faz continuarem as intervenções depois da votação das moções? Não foi o meu caso, que tive a sorte de poder intervir a horas decentes, durante a tarde de sábado, mas outros houve que bem se podem queixar. É certo que o tempo dado só me permitiu sumariar o que nos preocupa e quanto a isso talvez tenha conseguido lá chegar. Explicar porquê seria impossível. E  poucos deviam estar interessados em conhecer as minhas razões.  

Pode-se criticar a presidente do partido pela gestão que fez de alguns tempos, mas admiro-lhe a paciência, a educação e a simpatia, mesmo quando depois de ter pedido às pessoas que não se atrasassem no regresso depois das refeições, e de ter anunciado os nomes dos primeiros a serem chamados, se viu sozinha na mesa de honra esperando os atrasados e dando minutos para a sala se compor. Infelizmente, esta parece ser a regra em qualquer reunião mais alargada que se faça. Há sempre tempo para mais um café e dois dedos de conversa, os outros que esperem que a gente logo há-de aparecer. Falta de educação é o que é.

As negociações para a finalização das listas continuam a ser uma operação semi-clandestina e tenebrosa a que os líderes e os apparatchiks se dedicam. Não sei se nos outros partidos, posto que não os conheço, será assim. No meu não gosto que assim seja. Este ano, com as duas listas, o ideal era Seguro e Assis depois de as terem ordenado terem escolhido duas pessoas da sua confiança, uma por cada uma das listas, para que cortassem na lista do adversário as que lá não deviam figurar. Estou certo que dessa forma se faria uma verdadeira renovação, talvez mesmo uma limpeza, sendo então possível começar tudo de novo. Os compadres e as comadres é que eram capazes de me crucificar, mas isso seria o menos.

Dois bons discursos, a abrir e a fechar, uma excelente intervenção do Assis no sábado e mais uma ou duas notas, como as palavras do António Costa ou do Manuel dos Santos. Mas o fundamental ficou por dizer. Se o Congresso não é o lugar adequado para se discutir o que importa, então onde fazê-lo? Os debates de sexta-feira foram uma nota positiva, talvez mesmo a melhor, pela natureza dos temas e as intervenções a que deram lugar. Porém,  pareceu-me que foi escasso e com pouco eco.

Espero que o Seguro seja capaz de mostrar rapidamente mais do que aquilo que foi prometido. Tirando um ou outro emplastro que vai sempre parar aos órgãos nacionais por amiguismo e compadrio - aí nunca há renovação - há lá gente capaz de pensar por si, de dar um contributo efectivo à mudança se lhe for dado espaço de intervenção.

Estas coisas são lentas, demasiado lentas para o meu gosto. Restar-me-á ter paciência, acreditar, se conseguir, esperar que o actual Governo dure todo o período da legislatura sem fazer disparates que antecipem eleições e nos coloquem num patamar ainda mais baixo do que aquele em que já estamos. Se tal acontecesse seria dantesco, uma tragédia para a nossa sobrevivência. Vamos ter esperança.