quarta-feira, junho 15, 2011

Diário irregular

15 de Junho



Aunque sepa los caminos
yo nunca llegaré a Córdoba
” – Federico García Lorca, Canción del Jinete

Si pudiera yo vivir
De nuevo esta vida
Sin sufrir por amarte
Preferiria morir
” – Yasmin Levy

É curiosa a forma como evoluem ao longo dos anos os nossos interesses de viagem. Aquilo que nos impeliu um dia a partir raramente se repete. Ainda quando regressamos ao mesmo lugar onde antes tivemos a sorte de um dia, por umas horas, por um momento, ser felizes.

Percorro a Calle Judíos, entre as paredes brancas que reflectem o azul intenso do céu que as protege, e na esquina com Averroes, pouco antes da sinagoga, dou com a Casa de Sefarad. Nesta altura do ano não há muita gente e é possível percorrer tranquila e pachorrentamente os becos da Judiaria.

Escuto ao fundo um trecho que me é vagamente familiar. A sonoridade de alguns instrumentos transporta-nos para um mundo de onde por vezes temos a sensação de nunca termos saído. O som das flautas, da guitarra mourisca e do alaúde confunde-se com uma referência que leio a Carolina de Michäelis a propósito de uma canção que faz parte da herança musical sefardita e que terá por ela sido referida pela primeira vez ao analisar a sua popularidade na época de Gil Vicente. A forma como durante tantos séculos as culturas cristã, árabe e judaica se cruzaram, conviveram e mesclaram na Península é uma fonte inesgotável de descobertas. E de prazer. Um autor, Salvador-Danieli, em 1863, verificou a inexistência de diferenças “significativas” entre as melodias de Afonso X e as mais antigas composições musicais da tradição andaluza, referindo ser essa uma consequência da “surpreendente analogia” entre as escalas musicais árabes e andaluzas e as do canto gregoriano. Que seria de nós sem a herança do Al-Andalus?

Em Portugal foi 10 de Junho, tempo de praia, de "pontes", de condecorações e recriminações várias. Apercebo-me de que há quem queira ajustar contas com o passado recente, com o que foi julgado em 5 de Junho. Talvez o melhor mesmo é começar por julgar o Otelo, que afinal nunca quis meter os fascistas no Campo Pequeno. E depois também o general que apadrinhou o PRD, e o Guterres que se foi embora e permitiu que o Barroso viesse para depois entregar o desgoverno ao Santana Lopes que permitiu a José Sócrates chegar ao poder. Se formos por esse caminho, com sorte, acabaremos a julgar o D. Sebastião. Se os condecoram a título póstumo, sem que o morto seja ouvido sobre a distinção, talvez também devam poder julgá-los nos mesmos termos.

O “El Dia de Córdoba” é um jornal de fácil leitura, simples e honesto, sem grandes pretensões para além da querer manter informados, e formados, os seus leitores. Nele tem uma coluna um senhor chamado Juan Cano Bueso. É o presidente do Conselho Consultivo da Andaluzia, catedrático de direito constitucional, advogado e político. Não posso deixar de pensar nele depois de saber da “chapelada” ocorrida com os votos das nossas legislativas no Brasil. Ainda há dias, Juan Cano Bueso escreveu um interessantíssimo artigo sobre os perigos da ciberdemocracia, texto que descubro agora estar também acessível na Internet (se fosse no Público não seria possível ter-lhe acesso). As dúvidas sobre a ciberdemocracia continuam a ser muitas. E, como se vê pelo que ele escreve, actuais. Facilitar a participação não pode tornar-se na ausência de participação. Para mim, que gosto de cinema e me preocupo com os valores da democracia e da participação, a ciberdemocracia estará para a democracia como o filme que se vê em casa, no sofá, está para uma boa sala de cinema. A dimensão, o encontro, o ritual, podem ser modernizados, “ciberaprofundados”, mas têm de continuar a fazer parte da essência das regras. Há uns anos não pensava assim, mas perante a contínua erosão da participação considero que também aí não se pode facilitar demasiado. A preguiça não pode passar a fazer parte dos hábitos da democracia. Não deverá ser premiada. Como escreve Cano Bueso, não se pode correr o risco da ciberdemocracia se tornar na tumba da democracia representativa. Já bastam os políticos e os comentadores que diariamente a enterram.

Saber crescer política e democraticamente é um exercício como caminhar pelas ruelas de Córdoba. Tão depressa nos perdemos como logo a seguir nos reencontramos. E retomamos o caminho que se faz caminhando. Todos os dias. Respirar tanto céu enquanto te sinto caminhar a meu lado é uma felicidade. Ou tão-só uma forma de liberdade. Um acto de amor.

quarta-feira, junho 08, 2011

DE POUSIO

É como este blogue tem estado. Quem tem ficado a ganhar é o Delito de Opinião. Para a semana este laboratório voltará a funcionar.

terça-feira, maio 31, 2011

A LER

Para quem não percebe nada de sondagens, o Pedro Magalhães, com o alto patrocínio da Fundação Francisco Manuel dos Santos, publicou este pequeno mas útil e bastante completo livro que contém o bê-á- sobre as ditas. Há em qualquer banca de jornais e vale bem os € 3 euros e pouco que paguei por ele.

sexta-feira, maio 20, 2011

FIM-DE-SEMANA "FERRARISTA"

O programa completo está aqui, não faltem à chamada.

MAIS UMA IDEIA PARA O PROGRAMA DE GOVERNO (REFORMULADO) DO DR. PASSOS COELHO

O Dr. Miguel Relvas, homem de confiança do Dr. Passos Coelho, candidato a um lugar num futuro Governo e actual secretário-geral do PSD, que como todos os portugueses sabem vai concorrer às eleições legislativas de 5 de Junho, foi ontem ouvido em tribunal no âmbito do chamado caso Portucale. Nada de especial, portanto. Coisas de agricultores e de hortas.


Mas das declarações por ele produzidas em juízo e reproduzidas na imprensa, declarações que, presumo, terão sido prestadas sob juramento, o Dr. Miguel Relvas, para justificar a sua intervenção na tal história dos sobreiros, produziu, entre outras, a seguinte afirmação: “Saí do Governo para fazer a ligação política com o CDS. A minha intervenção foi visível e passou por tentar acelerar e criar condições para que alguns processos fossem resolvidos”. E ainda acrescentou, numa frase notável, que a sua intervenção era necessária porque nessa altura “estava tudo desmembrado e era tudo muito complicado”. Ao que parece, um dos juízes que integra o colectivo ficou admirado com as respostas dadas e o depoente acabou por concordar que talvez não tivesse sido a melhor a sua actuação (ou a resposta, digo eu).


Em resultado disto, o Público hoje titula, numa pequena notícia das suas páginas interiores, que “Relvas saiu do Governo para agilizar processos”.


Desconheço qual seja a memória dos senhores juízes relativamente ao que se passou em 2004/2005, tantos e tão complicados são os processos que lhes saem em sorte, mas seria bom comparar as respostas ontem dadas por Miguel Relvas para justificar a sua acção com o que ele próprio, enquanto secretário-geral do PSD, afirmou em 2004 sobre o momento que então se vivia. Com a devida vénia, passo a citar: “Num momento em que se cumprem 100 dias de Governo, e com a proposta de Orçamento de Estado (OE) que apresentámos na Assembleia da República, podemos assumir, de forma clara e inequívoca, que ultrapassamos, com êxito, o período de maior austeridade”. Na mesma altura afirmou que “no próximo ano o crescimento vai ser 2,4 por cento, permitindo baixar, com efeitos imediatos, a taxa do IRS para 2005, aumentar as pensões entre 2,5 e 9 por cento e, simultaneamente, fazer crescer os vencimentos dos funcionários públicos, ao ritmo do inflação”. Como se não bastasse, para garantir aos portugueses que tudo estava a correr sobre rodas, ainda acrescentou que “nesta grande maratona que é governar um país, os portugueses podem estar descansados porque o nosso Primeiro-Ministro é um campeão da maratona e o PSD espera estar acompanhado por maratonistas e não por campeões de 100 metros”. O campeão da maratona era o pobre do Dr. Santana Lopes, entenda-se.


Quer isto dizer que ou o Dr. Miguel Relvas tem a memória muito curta e necessita urgentemente de tratamento adequado ou então, hipótese académica em que eu não quero acreditar, salvo o devido respeito, não falou verdade, coisa que, como se vê, até aos melhores e mais qualificados pode acontecer.


Vejamos: se ele saiu do Governo para “agilizar” processos e a sua intervenção se deu numa altura em que, nas suas palavras, “estava tudo desmembrado e era tudo muito complicado”, então por que razão na altura andava ele a dizer aos portugueses, quando já era secretário-geral do PSD, ao fim de 100 dias de Governo PSD/PP, que iamos ter um crescimento de 2,4%, prometendo aumentos de vencimentos dos funcionários públicos ao ritmo da inflação e anunciando descidas do IRS para 2005? E, com tudo “desmembrado”, como poderia ele referir-se ao Dr. Pedro Santana Lopes, que já então não podia com uma gata pelo rabo, como sendo “um campeão da maratona” e que os portugueses podiam estar descansados? Eu só encontro uma de duas respostas possíveis: ou aquilo estava tudo efectivamente “desmembrado”, como ele ontem afirmou em tribunal, ou então andou a enganar os portugueses criando, enquanto secretário-geral do PSD, que ao tempo já era, cenários sem qualquer correspondência com a realidade. Seja num caso ou no outro isso devia ser convenientemente apurado.


Como se sabe, esse Governo foi o resultado de uma coligação com o CDS/PP, também já ao tempo dirigido por Paulo Portas, sendo que tal executivo, embora tenha conseguido celebrar 100 dias (o Povo Livre, que nestas coisas é uma fonte fidedigna, não me deixa mentir nem quanto a esse facto nem quanto às declarações do Dr. Miguel Relvas), não conseguiu sequer chegar aos 365 dias, o que já não teria sido mau pois equivaleria a ¼ de uma legislatura. Peanuts, ou outra coisa, dirá o Prof. Catroga.


Sabendo-se o que depois o Dr. Jorge Sampaio fez (ainda hoje não lhe perdoei a desfeita) e o estado em que o Dr. Bagão Félix deixou as finanças públicas (não confundir com as púbicas que são mais do pelouro do Prof. Catroga), se o Dr. Passos Coelho não toma rapidamente medidas ainda nos arriscamos a ter de novo o Dr. Miguel Relvas a incorrer numa situação idêntica à que aconteceu em 2004/2005.


Temos de evitar isso custe o que custar. Como português, eu ficaria muito incomodado se daqui a alguns anos tivesse outra vez o Dr. Miguel Relvas a depor, sabe-se lá se na mesma posição de testemunha ou se já numa outra condição mais incómoda, por causa dos processos que ele como secretário-geral do PSD andou a ver se ajudava a andarem mais depressa. E desta vez já não como secretário-geral de um infeliz "campeão da maratona" (o que ele se havia de lembrar), mas antes como “agilizador” do programa eleitoral do Dr. Passos Coelho.


É claro que aquilo que o Dr. Miguel Relvas fez e que ontem, candidamente, como é seu timbre, confessou aos senhores juízes que estão a julgar o caso Portucale não foram "favores". Nem se tratou de uma situação de tráfico de influência (esta será para a doutrina uma situação de contornos mais socializantes, o que iliba desde logo o Dr. Relvas da mais leve suspeita). Foi, isso sim, como refere o Público, uma simples intervenção para “agilizar processos”.


Os dicionários não referem a existência do termo “agilizador”, apesar de alguns já mencionarem a existência do verbo transitivo “agilizar”, que significa tornar mais rápido, mais expedito. Se o PSD ganhar as próximas eleições estou certo que o termo, desde que o Dr. Miguel Relvas continue a ser secretário-geral do PSD, evidentemente, ganhará uma nova dimensão, e “agilizador” será mais uma entrada de todos os dicionários. Eventualmente, quem sabe, até como sinónimo de “Miguel Relvas”.


É claro que os senhores juízes também não se lembraram de perguntar ao depoente Miguel Relvas em que ponto dos estatutos do PSD, nos actuais ou nos que ao tempo estavam em vigor, salvo erro no artigo 25º, é que se enquadrava essa actividade “agilizadora” que ele tanto prezava (preza?), já que, como se sabe, a Lei Orgânica do XVI Governo Constitucional, verdade seja dita, ainda não previa a figura do ministro ou secretário de Estado “agilizador” de processos. Contudo, nada impede que a figura ganhe consagração legal num próximo governo PSD/CDS. E com direito a reforma, uma vez que eu admito que o Dr. Moedas (é o que está na linha de sucessão) condescenda nesse ponto.


Tenho pena de não ter sabido em 2004/2005 dessa especial aptidão (e descaramento, que também é preciso) do Dr. Miguel Relvas para "agilizar" processos. Se o soubesse ter-me-ia na altura aconselhado com ele, ou metido uma "cunha" à Dr.ª Paula Teixeira da Cruz, sobre a melhor forma de "agilizar" alguns processos de clientes meus que estavam, e estão (estes tansos dos socialistas não agilizam as coisas como deviam), pendurados em autarquias dirigidas pelo PSD aqui no Algarve. Talvez se tivesse evitado que seguissem o caminho dos tribunais ou, quem sabe, ele me tivesse conseguido umas reuniões com alguns presidentes de Câmara algarvios, por exemplo, ou, pelo menos, ter-me-ia feito o obséquio de insistir com os fulanos para que me respondessem às cartas, aos faxes e aos telefonemas sem que eu e os meus clientes ficássemos eternamente a aguardar resposta. Eu não tenho culpa destas coisas só me acontecerem a mim e aos meus clientes e não me conformo com o facto de saber que se fosse uma dessas sociedades de Lisboa recheadas de estrelas do PSD e que prestam serviços no Algarve às autarquias do seu partido - mesmo às falidas, como é o caso de Faro, cujo presidente vai agora passear-se para a Argentina para “captar investimentos” para o concelho (há uns meses também foi ao Brasil mas ainda não dei pelos investimentos, só pelos processos disciplinares) -, e garanto que não aconteceria o mesmo. E não estou a pensar em ninguém em particular que elas ainda assim são bastantes.


Enfim, eu não estava atento, não fui a tempo. Problema meu. Lixei-me. Para a próxima será melhor.


De qualquer forma, estou convicto de que se os portugueses dessem uma nova oportunidade (muitas não porque isso já cheiraria a fraude socratista) ao Dr. Miguel Relvas, ele ainda prestará uma série de bons serviços a todos aqueles que têm dificuldade em ver os seus processos avançar. Seja junto do Governo da República, nas autarquias do PSD ou na Região Autónoma da Madeira, onde parece que o Dr. Alberto João Jardim só dá ouvidos ao Dr. Garcia Pereira.


Em todo o caso, penso eu, seria conveniente que o Dr. Miguel Relvas abrisse um gabinete na sede do PSD, ou até mesmo em Massamá, para que pudesse receber condignamente todos os que estão “à rasca” com a falta de “agilização” de alguns processos que nem com a porra do Simplex avançam. Pessoas pobres que estão ansiosas por poderem recorrer aos bons ofícios do Dr. Miguel Relvas, como até o Dr. Fernando Nobre lhe poderá confirmar. Alguns desses processos - dizem-me ao ouvido por causa dos tipos do SEF - são de africanos à espera da nacionalidade e que nunca mais vêem a hora do despacho aparecer.


O Dr. Passos Coelho pode ainda não se ter lembrado disto, mas é uma sugestão que aqui lhe deixo para o debate de logo à noite. É a sua oportunidade de dar mais visibilidade, melhor diria transparência, a uma actividade muito apreciada pelos portugueses.


Além do mais, o Dr. Passos Coelho poderia ganhar mais uns votos dando ao Dr. Miguel Relvas, seu amigo e leal servidor que ontem terá ficado um pouco abatido com o que o juiz lhe disse, o crédito que merece pelos serviços que lhe presta e ao PSD e uma nova oportunidade para brilhar, assim gerando uma nova entrada nos dicionários com a chancela do seu partido. E, mais importante, uma forma mais rápida e expedita de cilindrar José Sócrates, “agilizando” a sua saída.


Não cobro nada pela ideia. E embora eu saiba que o Dr. Passos Coelho não é um ingrato, escusam de depois mandar ex-ministros do PSD agradecerem as ideias que eu vos dou ou pedirem-lhes que me transmitam que fico dispensado de as colocar aqui no Delito de Opinião. Eu sei que não somos todos iguais e quue não tenho os dotes do Dr. Miguel Relvas. Mas sucede que eu gosto de fazer as coisas ainda com mais visibilidade do que ele. Ao que acresce ter uma dívida de gratidão para com os meus parceiros do blogue, pois que é com a sua tolerância e compreensão que eu ainda vou arranjando paciência para ir "agilizando" estas notas.


P.S. para o Dr. Pacheco Pereira: Não me chamo Abrantes, o meu arquivo é de memória.

A LER

A SOLUÇÃO PARA A CRISE GREGA

quinta-feira, abril 21, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

De quando em vez vão saindo no Delito de Opinião alguns textos dispersos e mais algumas páginas. Como hoje aconteceu, com a política a dominar.


RECOMENDA-SE

Não tanto pelos textos, que têm vindo a perder qualidade, mas pelas fotografias da Victoria's Secret e pela reportagem de Francisco Serrano, no Cairo. De qualquer modo, não seria mau que Domingos F. Amaral começasse a pensar em melhorar o painel de "opinadores". Isto é, se quiser fazer uma revista honesta que se deixe ler e ver. Papel já há muito. E mau.

sexta-feira, abril 15, 2011

A LER

ESTREIA HOJE EM ITÁLIA




"Habemus Papam" é o novo filme de Nanni Moretti que estreia hoje nas salas italianas. Com Michel Piccoli, que regressa aos 85 anos no principal papel, é uma viagem pelo Vaticano, pelas suas hierarquias e corredores. É a história de um Papa que se vê confrontado com uma crise existencial depois de eleito para o trono de S. Pedro. Marco Politi, um especialista em questões do Vaticano do jornal "Il fatto" considerou-o um filme genial e aconselhou Bento XVI a vê-lo.

segunda-feira, abril 11, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

10 de Abril de 2011 A sobrecarga do sistema político e dos seus actores por uma penosa administração das trivialidades põe de manifesto a carência dessa capacidade de estabelecer prioridades e discutir a partir de perspectivas amplas sobre o que há a esperar da política. Pois toda a gente sabe que essa sobrecarga culposa não é mais que uma estratégia de fuga à complexidade.” – Daniel Innerarity, A Transformação da Política

Volto ao meu espaço. Um espaço de interioridade partilhado publicamente. A voragem dos dias e da febre mediática não se compadece com o recolhimento da reflexão, com a secura da introspecção. Ademais necessária se queremos mantermo-nos sãos.

Setenta e duas horas depois dos primeiros discursos cumpre perguntar para que serve um congresso? O corrupio de “personalidades”, de “camaradas”, de “militantes” que se deslocou a Matosinhos converge num único ponto: a culpa da crise vem de fora e agravou-se com a atitude da oposição irresponsável que temos.

Um partido feito de meias-verdades, de chavões, de unanimismos e de aplausos nunca será capaz de olhar para si, de se confrontar com a realidade e de modernizar. A um dinossáurio de proveta idade sucedem dinossáurios jovens e prematuramente ancilosados.

Lutar dentro dos partidos é hoje uma quimera. Tudo aquilo é deprimente. Começa no facto de se votarem moções de orientação política desfasadas no tempo, ultrapassadas pelos acontecimentos, quando o que seria aconselhável, depois do que sucedeu, seria suspender o conclave por quinze dias, iniciar um novo período de apresentação de propostas e de formalização de candidaturas. Mas nada disso interessa. Tudo o que seja discutir ideias para o futuro, estratégias de renovação e alargamento da participação é incómodo. O tecido social do partido é cada vez mais formado por caciques locais, delegados de informação médica que viraram autarcas, empresários da construção civil, analfabetos, guindados a administradores hospitalares e dirigentes locais pelos quais passa toda a estratégia, devidamente secundados pelas clientelas habituais. Ana Gomes vai continuar a pregar aos peixinhos. E Almeida Santos continuará a ser o farol do socratismo. Não tem, pois, com que se indignar quando vê os delegados ao congresso saudarem os convidados que ele apresenta com uma vaia. Esta gente que vaia os convidados foi eleita para lá estar. E antes foi formatada por aqueles que de congresso para congresso consideram que ele, Almeida Santos, é a pessoa mais indicada para dirigir os trabalhos. E que não acha mal que não se respeitem horários, que os dirigentes vão jantar e já não apareçam para a continuação dos trabalhos, que o secretário-geral vote depois da hora normal de fecho das urnas e que se remetam as vozes mais críticas para o momento em que a sala está vazia. Nada disso fará confusão aos delegados. A alguns, é claro, aos que enviam cartas para as embaixadas a oferecer os seus préstimos quando a hora aperta, e “conhecimentos”. Não, não me refiro aos académicos, que esses não os têm, mas sim aos outros, aos que movem montanhas em Lisboa e garantem sucatas e sinecuras no país esquecido das SCUT.

No estado em que os partidos estão só há uma certeza: atrás de um Sócrates virá outro, atrás de um coelho virá uma lebre. Norberto Bobbio sabia do que falava: “O custo a pagar pelo empenhamento de poucos é muitas vezes a indiferença de muitos. Ao activismo dos líderes históricos ou não históricos pode corresponder o conformismo das massas”. E o mesmo Bobbio citando Rousseau: “Assim que o serviço público deixa de ser a principal ocupação dos cidadãos e estes começam a preferir servir com a sua bolsa em vez de com a sua pessoa, o Estado encontra-se já próximo da ruína”.

Enfim, há quem pense que isto vai dar a volta, que temos oposição. Não temos. O PSD actual, o do senhor Passos Coelho, não passa da representação teatral de uma realidade vivida. Chain Perelman falou disso na sua dissociação das noções, na contraposição entre a realidade e a aparência. Querem melhor exemplo do que a escolha de Fernando Nobre para cabeça de lista por Lisboa? Não sei se Passos Coelho se aconselhou com Dias Ferreira, o ex-candidato a presidente do Sporting, mas quer-me parecer que Nobre vai ser o Paulo Futre de Passos Coelho. E se não houver um departamento para o chinês há-de haver um para o rei da poncha. Pela freguesia que Jardim teve no congresso do PSD/Madeira, é natural que dentro de dois meses não haja copos que cheguem para todos. Por agora o tom é “criminoso”. Imaginem como será no final de Maio, quando o calor apertar e se chegar à conclusão de que a poncha já não dará para todos. Nem os euros.

sexta-feira, abril 08, 2011

A LER

Porque hoje é sexta-feira.

AS FOTOS ATRASADAS DO WRC PORTUGAL 2011

A Citröen continua a não deixar os seus créditos em mãos alheias. Sempre simpático, sempre disponível, como só os grandes campeões sabem. Profissionalismo foi coisa que na Stobart não faltou. Melhores dias virão.
Sempre a andar, que o finlandês não gosta de perder tempo

Um último retoque e de volta à estrada.
Os ucranianos também não faltaram e pela maneira como andam estão a adaptar-se bem.
As jovens promessas da Academia do WRC vieram abrilhantar a festa.
Nuestros hermanos sempre presentes.

AS FOTOS ATRASADAS DO WRC PORTUGAL 2011

Do Brasil com muita garra. Uma pintura fora do comum para os homens da Sköda que vieram do Báltico.
Os russos começam a ser presença habitual no WRC.
Boa presença do campeão açoreano.
Kuipers, um holandês que também sabe andar depressa.

AS FOTOS ATRASADAS DO WRC PORTUGAL 2011 (2)

A Skoda está de regresso aos bons velhos tempos.

Bruno Magalhães voando a caminho do lugar de melhor português. Peter Solberg com a eficácia com que há muito nos habituou. Um campeão nunca esquece.
O intratável "iceman" Raikkönen num estilo bem diferente daquele que o popularizou na Ferrari.
Um árabe voador para quem é mais fácil andar de Ford do que de camelo.

AS FOTOS ATRASADAS DO WRC PORTUGAL 2011

O Armindo Araújo na primeira passagem por Loulé-2 Em grande estilo o homem da Sobbart O Ford na altura em que ainda andava na luta
O campeoníssimo Löeb
Latvala a andar nos limites, mas perdendo tempo

terça-feira, março 22, 2011

ARTUR AGOSTINHO

(foto do Record)
Vai deixar saudades. Pela educação, pela simpatia e, sobretudo, pelo seu desportivismo à prova de bala. O Sporting perdeu um adepto, o País um senhor. Como benfiquista que o ouviu gritar muitos golos do Eusébio, deixo-lhe aqui a minha modesta homenagem, na esperança de que o seu exemplo perdure.

sábado, março 19, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

19 de Março

Dia do Pai. Quantos pais terão pai? E quantos terão filhos? E quantos não terão? A nossa sociedade tem dias para todos; menos para os que não conseguiram ser pais. E também para os que quiseram ser filhos e nunca conseguiram sê-lo por não encontrarem pai ou não lhes terem dado oportunidade para isso.

Pego na Ípsilon de ontem. Na capa vem uma mulher alourada de fato de treino vermelho e sapatilhas claras. Olho com mais atenção e vejo que é Catherine Deneuve, protagonista do mais recente filme de François Ozon (“Potiche”). Sempre tive horror à “cultura” do fato de treino. Porque há roupa para todas as ocasiões. Ninguém vai fazer jogging de fraque. Aquelas primeiras imagens da democratização do fato de treino, no pós-25 de Abril, marcaram-me para sempre. Eram famílias inteiras, ao sábado e ao domingo, passeando pela cidade, nos mercados, nas cervejarias, nos cinemas e nos cafés, mais tarde nos centros comerciais. Elas com ar desmazelado; eles barrigudos, de bigode, com o maço de SG, o isqueiro e os Ray Ban da Praça de Espanha. Alguns de sapatos. À frente deles os petizes de bola na mão. Todos de fato de treino. Famílias inteiras. Ao ver agora a diva na capa da Ípsilon, de fato treino, vieram-me à memória essas recordações. Só Deus sabe o quanto amei a Deneuve na minha adolescência. Também amei a Bisset, a Tuner, a Antonelli, a Kaprisky, a Fonda, a Muti, e mais umas quantas que até tenho vergonha de confessar. Mas estas eram mais do tipo “flirt”. Nunca foi como a Deneuve. Não há perdão. A Ípsilon devia ser multada. Uma simples imagem da Deneuve de fato de treino e está tudo estragado. Não se pode transformar impunemente uma deusa numa sopeira de fato de treino. Assim se destrói o sonho de uma vida.

Congresso do CDS, em Viseu. As eleições estão à porta. A ruptura com o PSD é, por agora, total. Nuno Melo fez um excelente discurso, mas no melhor pano cai a nódoa. Diz ele que “o País precisa do PS na oposição”. Foi pena Luís Nobre Guedes ter discursado depois dele. É que ele podia ter recordado a Nuno Melo que da última vez que o PS esteve na oposição o CDS e os seus compinchas do PSD deram cabo de dois Governos em três anos, menos do que o tempo de uma só legislatura, e que seis anos depois continua às voltas com os submarinos, com os sobreiros, com umas histórias por causa do seu próprio financiamento e com as chatices de Abel Pinheiro por causa de uns telefonemas. E ainda por cima, dada a rapidez com que o CDS saiu do Governo, ainda teve de aturar com um líder do PS escolhido à pressa para poder ir a votos, sendo certo que por causa disso temos hoje José Sócrates como primeiro-ministro. No lugar de Nuno Melo eu teria sido mais discreto, mais contido, e jamais me atreveria a pedir com aquela veemência o PS na oposição. E muito menos, como fizeram depois outros congressistas, a falar no estado da justiça, em clientelismo e nas nomeações para a CGD. À boa maneira estalinista, o CDS já apagou dos seus registos a “amiga” Celeste Cardona.

No final da manifestação da CGTP, a RTPN entrevista Jerónimo de Sousa. Começa-se a cantar o hino nacional. A entrevista continua. Ao lado dele um rapaz com o boné do Benfica na cabeça. Continuam a cantar o hino. A entrevista prossegue. Os chapéus não saem das cabeças. Há quem acompanhe o hino com punhos fechados. A entrevista avança. Acabam de cantar o hino. Batem palmas. A entrevista também chega ao fim. Antigamente os homens destapavam a cabeça quando se cantava o hino nacional. Lá fora, nos outros países por onde tenho passado, ainda é assim. Na Tunísia até me obrigaram a sair de dentro da piscina quando o hino começou a tocar no seu dia nacional. Em Portugal, o secretário-geral do PCP permite-se continuar uma entrevista no momento em que à sua volta se canta o hino nacional. Se fosse na ex-URSS ou em Cuba tinha ido dentro.

Leio no Expresso, numa interessante rubrica coordenada por Freitas do Amaral chamada “Países como Nós”, que o crescimento real do nosso PIB entre 2000 e 2009 foi de 5,3% e que o da República Checa foi de 33,6%. A CGTP, Mário Nogueira e Carvalho da Silva deviam ser capazes de explicar a diferença. Ganhando os checos muito menos do que nós a diferença na produtividade não deverá estar nos euros.

Um discursa como se tivesse chegado ontem ao poder. Pode falar verdade que ninguém acredita nele. O outro discursa como se nunca tivesse saído do poder. Pode não dizer uma verdade que todos o que escutam acreditam nele. Talvez por essa razão é que o primeiro tenta conter o descalabro e o segundo se prepara, de novo, para crescer eleitoralmente.

Não sei quem é que disse à Mãe que o António (não disse o nome próprio quando se referiu a ele; aliás nunca diz) “é capaz de vir a liderar o PS”. Nos seus oitenta e dois anos deve ter sido a primeira vez que a vi entusiasmada, apesar de disfarçar, com o que se passava num partido à esquerda do CDS/PP. Há pessoas para quem, depois do Santo António, por uma razão ou por outra, quando pensam no país só acreditam em milagres feitos pela família. Nunca hei-de perceber isto. Mas ela, como boa cristã e centrista, não se comove com as minhas perplexidades e já deve estar a pedir por ele. O Portas que não saiba. Deus podia perdoar-lhe, mas ao fim destes anos todos não acredito que o Portas lhe perdoasse. Há coisas que não se dizem. E muito menos se pensam. Quanto mais pedi-las ao Altíssimo.

[também no Delito de Opinião]

quinta-feira, março 10, 2011

TRANSPARÊNCIAS

O processo foi tão transparente que agora deu nisto. Quando a transparência é só para os amigos o resultado só podia ser esse. Mas quanto a isso o PSD/Algarve não pia. A subserviência que têm aos "poderosos" e "importantes" remete-os ao silêncio.

quarta-feira, março 09, 2011

PALAVRAS TARDIAS TAMBÉM SÃO PALAVRAS TRISTES. E HIPÓCRITAS.

Jaime Gama ainda tentou atalhar ao que se seguiu, mas já não foi a tempo. Quis lembrar que o Presidente da República não é o Governo, nem o líder da oposição, e aconselhou uma "magistratura arbitral" e uma "cooperação tranquila". Era tarde. O discurso já estava escrito.

Num remake do seu discurso de vitória em 23 de Janeiro, Cavaco Silva mostrou que além de ser hoje um homem amargo e amargurado, numa perspectiva simpática, é um presidente sem memória. Palavras tardias são palavras fora do tempo, desenquadradas. Palavras sem memória. É mau que assim seja.

Lamento, mas depois de tudo o que se passou no último ano e meio do seu mandato, e da campanha que fez, era previsível que as coisas se passassem desta forma.

Apelar a medidas conjunturais de combate ao desemprego não custa se não se disser quais. Apelar aos jovens e a um sobressalto cívico depois de ter enxameado o país de universidades de vão de escada quando foi primeiro-ministro, instituindo a cultura do salve-se quem puder e se puder tente salvar-se à sombra de um partido com um diploma obtido sabe-se lá como, não é bonito. Falar em reformas depois de ter estado mais de uma década no poder como primeiro-ministro e após cinco anos em Belém, falhando as reformas de que o país nessa altura, como hoje, carecia, deixando-o envolto em sombras, escândalos e entregue aos BMW do bloco central dos interesses que geraram os BPN e BPP da nossa desgraça recente, para vir agora fazer um discurso como o que produziu, deixa antever o pior. Ignorar o que aconteceu em Wall Street, na Irlanda ou na Grécia, revela a existência de uma agenda própria. E falar em transparência do Estado e das instituições é de quem já se esqueceu do caso das escutas, da protecção aos amigos e da falta de esclarecimentos sobre os negócios em que andou metido com Oliveira e Costa e o clã da Coelha. Pagar impostos todos pagamos, mas nem todos o conseguem fazer pelas razões que ele o fez, mesmo que o quisessem.

A um longo silêncio seguiu-se uma ainda mais longa recriminação e a desculpabilização de toda a sua geração. Tanto tempo em silêncio para isto.

Na sua ancestral sabedoria Lao Tse dizia "sincere words are not elegant; elegant words are not sincere".

O discurso de posse do Presidente da República podia ter sido uma coisa ou outra. Mas não foi. O Presidente da República conseguiu ficar a meio caminho entre a verdade e a sinceridade, sendo sempre profundamente deselegante. Era a última coisa que os portugueses necessitava para enfrentar os tempos difíceis que atravessamos. Um Presidente desmemoriado e azedo a trocar os papéis só pode deixar os portugueses mais inquietos. E tristes.  

sexta-feira, março 04, 2011

CARNAVAL EM CASA

Uma obra-prima de Antonello Grimaldi e Nanni Moretti vai estar amanhã à noite, depois das 0.30 h, em exibição na RTP2. É a oportunidade de rever um grande filme e duas fabulosas actrizes: Isabella Ferrari e Valeria Golino.


DIÁRIO IRREGULAR

4 de Março de 2011

Dentro de uma semana, e Vasco Pulido Valente recorda-o na sua crónica do Público, vai ter lugar uma manifestação, um desfile, talvez um happening, de uma autodenominada “geração à rasca”. Eu já me tinha apercebido de que vinha aí coisa grossa. No outro dia ouvi uns moços a apregoarem o evento no “Prós e Prós” de Fátima Campos Ferreira. Fiquei elucidado sobre a natureza do movimento e as motivações deles. Aquilo de que eles hoje se queixam já eu me queixava há 25 anos quando acabei o curso. À rasca viveram sempre todos os que não se tendo filiado em partidos, integrado nas organizações maçónicas ou religiosas ou não beneficiando de cunhas e compadrios vários, uns herdados da outra senhora, outros adquiridos com os vícios trazidos pela revolução de Abril ou transmitidos pelos papás que se safaram no pós-25 de Abril, acabaram por se fazer à vida. Alguns foram mesmo condenados à liberdade e ainda hoje vivem à rasca. Uns dias melhor, outros pior.

A nossa democracia trouxe liberdade, mais mobilidade social, permitiu uma melhor repartição da cultura e do conhecimento, nem sempre devidamente aproveitada pelos seus destinatários, mas continuou a menosprezar os que sempre viveram à rasca. E o problema não foi de parvoeira. Foi de seriedade.

A menina dos “Deolinda” sabe que é parva mas não apresenta alternativas. Limita-se a cantar, bate palmas, e agora, também, quer desfilar na Avenida. É compreensível. Esta manhã já vi desfilar os filhos das meninas e dos meninos dos “Deolinda”, os filhos da “geração à rasca”, todos de bibe e serpentinas. E os seus professores e educadores. A partir de amanhã e até terça-feira vamos ver desfilar os seus pais e avós por esse País de foliões de mau gosto em que nos tornámos. Uns de bigode farfalhudo, mamas postiças e saltos altos. Outros de fio dental e silicone. Depois virá o desfile da "geração à rasca", que será como que uma espécie de baile da Pinhata. O tempo é de Carnaval. A “geração à rasca” e a canção dos “Deolinda” coincidem no tempo.

Ontem, em Faro, ao final da tarde, houve um debate sobre corrupção promovido pelo Correio da Manhã. Os debates prosseguirão pelo País. A corrupção também.

Algumas vozes mais sensatas já perceberam que eleições neste momento não servirão para nada. O problema, como já muitos estudaram, não está na maior ou menor oportunidade da sua realização. Está no sistema político e no sistema eleitoral. Rui Rio marcou pontos apesar de ter confundido o regime com o sistema, mas todos perceberam o que quis dizer. O PS precisava de ter alguém que pudesse responder-lhe com a mesma desenvoltura. Se necessário, um dia, entender-se com ele e que entendesse a sua linguagem. Desenvoltura até há quem a tenha. Credibilidade é que é mais difícil. E ainda assim restará sempre o problema de com o PSD nem o Sporting ser capaz de se entender.

De Cavaco Silva é que não se vê a sombra. Desapareceu atrás da sua marquise numa manhã de nevoeiro. Dizem-me que está a preparar o discurso da tomada de posse. Faz muito bem. Até agora limitou-se, qual Benfica, a dar algum avanço aos mercados que nos andam a lixar. A partir de dia 9 acaba-se a brincadeira. Oxalá não apareça mascarado. E que saiba aproveitar essa oportunidade para referir os reflexos positivos que a sua reeleição já trouxe ao País. Há coisas que podem passar despercebidas. E devem ser lembradas amiúde. Os portugueses precisam de estímulos.

Je ne compte pas mes emprunts, je les pèse”, escreveu nos seus Ensaios. E que bem que ele escreveu. Se os nossos políticos lessem Montaigne nunca teríamos chegado ao estado a que chegámos. Montaigne não sabia de nós. Teve sorte. Não conheceu Cavaco Silva, José Sócrates ou Passos Coelho. Ainda bem que assim foi. Foi poupado. Se os tivesse conhecido ou sabido da nossa existência teria desistido de pensar e de escrever. Seria gestor. Ou inspector do fisco.

[também no Delito de Opinião]

terça-feira, fevereiro 22, 2011

AGORA DÁ-ME PARA ISTO

Nas páginas do Delito de Opinião: o diário irregular.
Quem não tiver paciência pode ir ver as meninas do Miss Reef 2011. É Verão em Viña del Mar, ninguém leva a mal!

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

A RENÚNCIA

Comentei aqui a renúncia de D. José Policarpo. Para quem queira ler.

FERRARI FF

Esá quase a chegar o novo Ferrari FF. Será no dia 23 de Fevereiro a apresnetação mundial, em Maranello. Quem não puder ir pode seguir pela Internet. Estão todos convidados.

sábado, janeiro 29, 2011

AGORA RIEM-SE, AMANHÃ CHORAM

Pelo ar satisfeito dos senhores dir-se-ia que tudo lhes corre bem. A eles talvez, mas não ao futebol português, que a avaliar pela noticia de "A Bola" se prepara para ser chutado para a categoria das repúblicas das bananas.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

VOTAR É TAMBÉM ARRISCAR


Estamos a menos de quarenta e oito horas da abertura das urnas onde serão depositados os votos que irão eleger o próximo Presidente da República.

Um dos grandes políticos da Antiguidade Clássica dizia que aquele que não participa na vida da república não é digno do seu estatuto de cidadania. Eu apenas acrescentaria que não é digno da sua liberdade.

Mais do que um direito regularmente exercido de tempos a tempos, votar é uma obrigação, um apelo à nossa consciência, à dimensão ética, social e cultural das nossas escolhas. Uma prova de vida, de humanidade e de altruísmo. A concretização da responsabilidade individual na dimensão política da Nação. Um acto de solidariedade e uma garantia de perenidade individual e colectiva.

Pelo menos é assim que eu encaro, em toda a sua transcendência, o exercício do direito de voto numa sociedade democrática. Nesta medida também sou um incorrigível.

Mas, perguntam-me, em quem votar?

Não serei a pessoa indicada para orientar o voto de ninguém. Não me reconheço o talento, menos ainda a habilidade, para orientar consciências, promover escolhas ou zelar pela liberdade dos meus semelhantes. Zelando pela minha não posso deixar de pensar na dos que me rodeiam. E é tudo.

Todos os que de há muito acompanham o que escrevo sabem o que penso sobre quase tudo, embora haja sempre algo que tenha ficado por dizer e que eu tente transmitir no rabisco subsequente.

Por isso dir-vos-ei que escolher é ponderar. Escolher é reflectir. É ser capaz de se projectar no futuro e avaliar as consequências das suas escolhas. Escolher é assumir a liberdade em toda a sua plenitude. Sou um homem livre. Um homem de escolhas.

O problema é que não há candidatos perfeitos.

O homem é feito de muitas subtilezas, um mundo de átomos que permanentemente se distinguem e multiplicam sem jamais se confundirem.

Escolher um Presidente da República consiste, pois, por vezes, em escolher aquele que aos nossos olhos é menos imperfeito, aquele que mais corresponde aos nossos afectos e às nossas preocupações. Aquele que poderá dar mais garantias de futuro. Não a ele próprio ou ao seu clã. À comunidade. À minha liberdade.

Quando no próximo domingo, 23 de Janeiro, chegar a hora de exercermos o nosso direito e cumprirmos a nossa obrigação para com as gerações futuras, importa que sejamos capazes de pensar se é melhor um presidente responsável e consciente das suas limitações ou um tipo que sob o manto diáfano da responsabilidade se convenceu de que sabe tudo, de que pode escolher por mim em toda e qualquer circunstância para eu poupar nas portagens e que se crê sem limitações.

E também importa que tenhamos consciência de que não é a mesma coisa escolher uma pessoa que protegida pela imagem de um aparente rigor e respeito pela legalidade democrática e administrativa se entretém nos intervalos desse rigor a tratar da sua vidinha e da dos seus, escusando-se a esclarecer o como, o quando e o porquê das obscuridades e pantominices da sua vida de cidadão, ou escolher um outro que sem se esconder na sombra ou nos subterfúgios das instituições se predispõe a abrir a porta do seu passado, da sua vida pública e privada, com a hombridade de quem é capaz de reconhecer que não há homens infalíveis e que o super-homem não passou de uma criação de Nietzsche e da banda desenhada.

Como não será indiferente optar por um homem de coragem, por alguém disposto a enfrentar o Adamastor sozinho se necessário for, quando ao seu lado medra o compadrio, o nepotismo, a obscuridade e a falta de verticalidade, pagando o preço da diferença, pagando o preço da honra em defesa de um destino colectivo. Não é a mesma coisa optar por um tipo cinzento, disposto a esconder-se e a proteger os seus pensamentos e frases do escrutínio dos seus semelhantes, alguém que evita comprometer-se com o passado, com o presente ou com o futuro para ir fazendo o seu caminho sem grandes ondas, rasgos ou responsabilidades, garantindo uma confortável reforma ao lado da miséria que grassa.

Na hora de escolher não será preciso levar qualquer cartilha. Bastará olhar para trás, fechar os olhos e pensar no dia de amanhã.

E aos que não forem capazes de fazer isto, então que sejam o mais terra a terra possível. Bastará pensar se é preferível um presidente que desvia o olhar quando confrontado com a vergonha da falta do rigor privada que apregoou em público, que evita ver o que faz a sua mão esquerda quando se benze com a direita, que ignora os bandos de pilantras que se acolhem à sua sombra, dispostos a atentarem seja por que meios for contra o Estado de Direito democrático, enquanto ele próprio vai enriquecendo discretamente, cumprindo as tarefas rotineiras que qualquer robot devidamente programado faria e ao mesmo tempo vai fazendo obras em casa sem licença camarária, nada fazendo para evitar que o protagonismo do seu nome se misture nas andanças camarárias, convivendo com a fantasia dos piruças que o rodeiam e o amiguismo que evita fiscais aborrecidos.

Ou, se ao invés, é preferível alguém capaz de confessar as suas fraquezas, de fazer um esforço permanente para se melhorar e elevar, alguém ciente da sua condição, que é capaz de dizer não a um amigo, de chamá-lo à razão e responsabilizá-lo pelas suas acções sem ter de ostracizá-lo ou renegá-lo. Alguém que sabe é que preciso distinguir a cidadania, combater a corrupção de forma transparente, começando na sua própria casa, e, também, capaz de ultrapassar as suas limitações, de exceder-se e de responder aos apelos da sua consciência em prol da Nação.

Votar é também arriscar. A vida é um risco.

Eu prefiro um homem de coragem que chora a um cara-de-pau medroso. Eu prefiro um homem que se assume, que se revolta, um homem curtido pela fealdade física da vida, um homem que marcou o seu destino a um tipo marcado pelo destino.

Eu quero na Presidência da República um homem capaz de reconhecer a dimensão ética da liberdade. Não quero um banana sem chama ou um tipo desfasado do seu tempo, culturalmente senil e subserviente das maiorias corporativas.

Eu prefiro um homem como eu. Um homem capaz de se reconhecer na adversidade. Capaz de resistir. Um homem à dimensão de Portugal. Um homem como nós.

domingo, janeiro 09, 2011

TARDOU

Finalmente, parece que um deputado tomou consciência da má prestação de serviço da EDP e se interessou pelos "acidentes" que diariamente acontecem. Infelizmente não é só no Algarve. O que se passa a Sul tem continuação na região de Lisboa, no Oeste, no Norte, enfim, por todo o lado. Já não era sem tempo que alguém acordava.

sábado, janeiro 08, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

4 de Janeiro de 2011

Tal como eu já aqui escrevi, e hoje foi sufragado por gente tão diferente como Miguel Sousa Tavares, Camilo Lourenço, Helena Matos ou Manuel Villaverde Cabral, não é pelo facto do candidato Cavaco Silva dizer qualquer coisa do género “hão-de nascer os homens que sejam mais honestos do que eu”, que ele se torna mais sério, mais honesto do que os outros que nasceram depois dele ou que escapa a que lhe sejam feitas perguntas incómodas.

Se o candidato Cavaco Silva não quiser responder às perguntas é lá com ele. Alberto João Jardim ou Pinto da Costa também só respondem ao que lhes convém. E não ao que a seriedade, a transparência da vida pública ou o respeito pelas instituições obriga. Nisso, Cavaco Silva não se distingue de nenhum desses dois. Desconversa.

Escrevi, por diversas vezes, o que pensava sobre Cavaco Silva. Quem leu dever-se-á ter apercebido de que a partir do caso das escutas e da óbvia protecção dada a Fernando Lima passei a colocá-lo ao nível de um Rocha Vieira (mais um da Comissão de Honra). Por alguma razão Fernando Lima era também visita assídua em Macau – cruzei-me várias vezes com ele no Mandarim Oriental – e beneficiou do seu apoio e do de Jorge Rangel para publicar o que dificilmente publicaria noutro lado. Um promoveu em Macau os negócios dos "protegidos" – houve quem sendo director de um serviço público fosse nomeado por urgente conveniência de serviço para assinar um contrato, em representação do Governo de Macau, com uma sociedade anónima por acções, da qual também era accionista e administrador, enquanto funcionário público, e acabasse condecorado, logo a seguir, no 10 de Junho pelos bons serviços prestdos (o general Eanes não devia saber disto quando escreveu o prefácio do livro da Gradiva) –, o outro, sendo professor de Economia e ex-primeiro-ministro, acha normal gastar € 100.000,00 (cem mil euros) – uma bagatela que qualquer reformado tem debaixo do colchão para ir ao pão – a comprar acções não cotadas em bolsa de um banco onde pontificavam correligionários do partido, acções que vendeu com um lucro substancial sem que agora considere sequer admissível que se lhe pergunte como as comprou (por sugestão de quem, por intermédio de quem?) e a quem vendeu (pôs anúncio no jornal ou tratou de falar com um gestor de conta "amigo" para lhe arranjar comprador?), embora seja candidato presidencial e Presidente da República, e em que condições (cheque, dinheiro vivo, transferência bancária, e de quem?), remetendo as respostas às explicações que deve dar, a bem da transparência e da seriedade do regime, para textos esotéricos cozinhados no recato do seu gabinete, que religiosamente publica na Internet e que nada esclarecem sobre aquilo que importa, fazendo de conta que os outros, além de cegos, mudos e surdos, são parvos.

Um homem sério não remete para os textos que publicou in illo tempore num qualquer local da Internet a defesa da sua honra, dos seus pontos de vista e das suas convicções. Ou, pior um pouco, para as declarações que depositou no Tribunal Constitucional e que nada esclarecem sobre os negócios que andou a fazer antes de depositá-las, princípio que também aplico a qualquer outro político, chame-se Valentim Loureiro ou Jerónimo de Sousa.

Os desempregados, os pobres e os reformados, cuja defesa o candidato Cavaco Silva reclama em exclusivo, não têm banda larga no Sapo e dificilmente terão acesso a um computador para ler as declarações publicadas no site da Presidência da República. Quando muito irão à Internet para procurar trabalho, saber da melhor forma como recorrer a um subsídio da Segurança Social ou imprimir um formulário para esse efeito.

Admito que aquilo que o candidato Cavaco Silva disse sobre a gestão do BPN pós-nacionalização, conduzida por alguns dos senhores da sua comissão de honra (eu bem dizia que estavam lá todos), e seguramente que já motivado pela antevisão dos “orgasmos” que os banhos de multidão do companheiro Jardim sempre lhe proporcionam numa deslocação à Madeira, digeridas que estavam as antigas críticas do anfitrião ao “Sr. Silva” (é preciso estômago!), retive as palavras desta noite de Fernando Ulrich sobre as críticas do candidato à acção do Governo no caso BPN: “Eu não sou um apoiante deste primeiro-ministro, mas penso que eles não cometeram tantos erros como os que estão implícitos na sua pergunta” (de Ana Lourenço, na SIC).

Eu também não sou (apoiante do primeiro-ministro, entenda-se, e não sou do Bloco de Esquerda). Nem nunca fui. Apesar de em tempos lhe ter dado o benefício da dúvida e até a minha confiança. Como dou a qualquer homem de bem antes de ver desmentidas as suas palavras pelas "alhadas" em que se mete.

Porém, como entretanto também não andei a comprar nem a vender acções, fosse do BPN, do BCP ou da Mota-Engil, continuo a pensar que tenho direito, como qualquer cidadão, a saber se as acções que Cavaco Silva tinha na SLN/BPN foram vendidas a um “veículo”, a uma offshore de um dos seus “compagnons de route” do cavaquismo, ou se o foram ao Manuel dos Anzóis, reformado, residente na Musgueira, que viu o anúncio da “venda de acções da família C. Silva”, por “motivo à vista”, num painel do Pingo Doce quando buscava “uma companheira para amizade sincera”.

É que a diferença entre mim, contribuinte, que vou pagar com os meus impostos os milhares de milhões do buraco do BPN, e o candidato Cavaco Silva, que como eu vai pagar com os seus impostos os milhares de milhões do buraco do BPN, é que ele ganhou umas dezenas de milhares de euros a comprar e vender acções da SLN/BPN e a seguir nomeou Dias Loureiro para o Conselho de Estado, e a mim ninguém me perguntou se as queria comprar e vender um ano depois com os proventos, que para lhe serem pagos, a ele e a outros como ele – fora da bolsa e pelos valores que foram – nos deixaram agora, a todos, de calças na mão. Ou se achava bem a nomeação de Dias Loureiro para o Conselho de Estado.

Não é por se ter libertado do escândalo antes do escândalo se tornar num caso de polícia que as coisas fazem diferença. Fá-lo-iam se Cavaco Silva falasse verdade aos portugueses em vez de se refugiar nas meias-palavras.

Isto não tem nada a ver com o que se passou em Inglaterra, na Irlanda, com as escutas, com o Freeport, com a licenciatura de José Sócrates ou com os robalos de um sucateiro.

Em causa estão apenas os "activos" de uma candidatura presidencial que em vez de motivarem verdade, transparência e respeito pelos eleitores, geram pesporrência paternalista e dúvidas sobre a capacidade do candidato em distanciar-se dos "veículos" que o trouxeram até aqui.

DIÁRIO IRREGULAR

2 de Janeiro de 2011

Uma das coisas em que este país melhorou a olhos vistos foi na qualidade do seu design. Falo de objectos de decoração, de utensílios e de mobiliário. A qualidade do design é boa. O gosto e a funcionalidade continuam, todavia, muito discutíveis. Há muita coisa feita em Portugal, mas as melhores continuam a vir de fora. O design pode ser nacional, os materiais parecem-me aceitáveis para a função a que se destinam, só que a qualidade do acabamento é seguramente chinesa. E se depois a limpeza for assegurada por uma dessas espaventosas que deixam tudo lascado e riscado, o melhor é desistir da compra. A forma como hoje em dia se fazem as coisas aflige-me. Não é só nas tarefas domésticas ou nos escritórios. Acontece o mesmo nas lojas, na oficina do carro ou na lavandaria. O problema é cultural. Esta gente não tem formação e a culpa não é das insuficiências da escola pública porque os das privadas são iguais. Não lhes ensinam, não aprendem e muitos também não querem saber. Se não for o esforço individual a fazer a selecção torna-se impossível distingui-los entre si pela maneira como usam o brinco, põem o chapéu ou mostram o pneu a sair das calças.

A entrada na corrida presidencial do madeirense José Manuel Coelho pode vir a fazer a diferença. O homem não quer apenas chocar. E parecendo-me um tipo minimamente inteligente e com sentido de humor – só num registo humorístico se pode interpretar aquela cena da bandeira nazi no parlamento regional da Madeira – não me admiraria se houvesse gente abstencionista a ir às urnas por sua causa. Uma coisa é certa: o cinzentismo macambúzio que ficou dos monólogos a dois do mês de Dezembro vai ser substituído pela irritação de alguns dos protagonistas. O facto dele não se levar muito a sério só abona a seu favor e permite-lhe dizer coisas sérias a brincar e sem esforço. Ao Alegre não causará grade mossa, mas não estou tão certo que Cavaco Silva não venha a ser penalizado com uma tão súbita quanto inesperada entrada em cena. A comparação que fez entre a mensagem de Ano Novo do Presidente da República e as declarações de circunstância das meninas nos concursos de beleza foi um mimo a prometer mais.

O empregado que hoje nos atendeu ao almoço era nepalês. De Pokhara. Ficou admirado por saber que eu conhecia o belíssimo lago da terra dele onde vi o pico do Annapurna reflectido na superfície das águas espelhadas. Veio direitinho para o Happy Family. Fiquei elucidado sobre quão miserável devia ser a sua existência quando com uma desarmante simpatia e simplicidade me disse não conhecer Katmandu nem os arredores. Só conhecia Pokhara. Não sei como veio cá parar, nem o que terá passado até aqui. O facto de ele estar entre nós devia ser motivo de satisfação e não nos pode deixar indiferentes ao fenómeno da emigração. Oxalá que seja feliz por cá.

O ruivinho perdeu em casa. Pinto da Costa começa o ano engasgado. Amanhã deverá vir dizer que a taça da liga é uma competição menor. Em parte é verdade. Só em parte, porque também lá estão. Assim, só posso pensar que 2011 entrou bem.

domingo, janeiro 02, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

1 de Janeiro de 2011

Com excepção do dia em que jurei a mim mesmo deixar de fumar (cigarros, regularmente, em 1 de Janeiro de 1993), coisa que pegou no dia em o Miguel V. me xingou a viagem toda de Casal Velho para Lisboa por causa do fumo dentro do carro e do frio que entrava pela janela, não sou de fazer juras em cada dia primeiro de Janeiro. Só tenho força de vontade para aquilo que considero verdadeiramente importante. Deixar de fumar foi uma delas. Começar a escrever estas linhas foi outra.

Antes de prosseguir quero avisar a quem vier a ler estas linhas de que nesta coisa dos diários sou um neófito, com todos os prejuízos e danos para a minha imagem que daí podem advir. Como escreveu Marcello Duarte Mathias (cada vez gosto de mais de relê-lo porque há poucos, muito poucos, como ele, na elegância, no estilo e na simplicidade com que trata a língua), “não há coisa pior do que os neófitos: seja de Deus, do sexo ou da política”, mas de uma coisa tenho a certeza, é que amanhã já não serei neófito. E depois, à medida que este diário público e em letra de forma for surgindo, as pessoas ir-se-ão habituando. Esquecendo.

Um diário é datado e a datação limita-o. É a sua marca genética. Mesmo quando alguns anos depois o relemos, sem prejuízo de podermos transportá-lo para o presente, ele permanece encaixado num ponto que foi. Em todo o caso, quando a memória começa a falhar, e ela amiúde já falha, permite-nos manter um referencial em relação a nós mesmos.

Registar factos é próprio de outro tipo de homens, é coisa de especialistas. Eu prefiro ir registando as minhas dúvidas, as minhas perplexidades, as minhas convicções. Para que não me esqueça delas. Não me perdoaria esquecer aquilo que para mim foi importante. Pequenas rotinas, lampejos de um momento, a memória. A memória é uma espécie de beijo. E numa terra de beijoqueiros há que ser selectivo. Na memória só podem ficar registados os bons. Ou os que marcam por uma razão ou por outra.

Não penso que esta quadra, ano após ano repetida de acordo com o calendário judicial, que aos poucos foi substituindo o religioso, suspendendo prazos e trocando-os por cartões de Boas Festas, sms cheios de “k” e notificações do Fisco, faça esquecer o verdadeiro sentido do Natal, a anteceder a entrada de um Novo Ano e a caminhada dos Reis Magos. A comunhão que a quadra envolve, o sentido de recolhimento e partilha que vejo nela (muito mais do que os embrulhos de circunstância e o final de concursos televisivos medíocres) faz-me repetir, apesar de tudo, alguns momentos que reservo para mim depois dos outros se recolherem. Há o disco que se repete (sublimes os duetos de Aznavour com Sting e com Nana Mouskouri), o livro que se relê, o charuto que em cada ano regressa enquanto o seu fumo persegue a vela que teima em arder aromatizada pelas fragrâncias da moda.

Ouvi de relance a Clara Ferreira Alves (há mulheres que nos fazem gostar mais das mulheres) referir esta noite qualquer coisa como “a carteira de cumplicidades do BPN”. Parece que ela gostava de vê-la esclarecida. Eu também. Mas da maneira que este país está, perguntar a Cavaco Silva (ele que até já fala na "ética republicana") o que o levou (e já agora à sua filha) a comprar acções do BPN/SLN não cotadas em bolsa, tentar esclarecer quem as recomendou (e quem foi o figurão que tratou da burocracia) e como as coisas se processaram entre o momento da aquisição e a decisão de venda, incluindo as verdadeiras razões da respectiva valorização, é mais ou menos o mesmo que acontecia há uns meses quando se perguntava por uns desenhos da Cova da Beira, umas licenciaturas “esquisitas” ou umas offshore impertinentes. Qualquer que seja a cor, o fundamentalismo é sempre o mesmo quando por detrás dele está a subserviência enfatuada ou a crença na infalibilidade do testemunho.

Pedro Marques Lopes, participante no mesmo fórum da Clara, dizia que o caso BPN vai ser uma espécie de “Vale e Azevedo 2”; para logo a seguir acrescentar que “foram feitas vigarices absolutamente gigantescas” (sic na SIC-N), recusando-se a acreditar que “aquilo” fosse obra de um homem só.

Eu também não acredito. Penso que ambos têm a razão. A Clara mais do que o Pedro.

Por vezes gostaria de ter mais distância. A distância dá-nos outra liberdade, mesmo quando teimamos em querer manter a lucidez. E se eu prezo a lucidez. Dá-me outra liberdade. Não é fácil. Em especial quando, como também escreveu “o” Marcello – os autores que apreciamos tornam-se íntimos ao fim de algumas obras: eles partilham a escrita; nós, leitores, vamos sublinhando-lhes as frases, as metáforas, as hipérboles, e, no caso dele, a serena e elevada lucidez que há tantos anos o acompanha –, se vive num país que é “uma coutada de compinchas”, de “valores entendidos que se ajudam e promovem mutuamente”, que não admite “que alguém que não lhes preste vassalagem nem navegue nas mesmas águas, possa ter mais talento do que eles sem deles depender”. O general Rocha Vieira também era assim em Macau, coisa que o general Eanes não sabe, não percebe nem conhece, quando lhe prefacia os livros de tom laudatório e adolescente que a Gradiva edita (o Guilherme é um homem bom e inteligente mas livros daqueles dão a ideia de que está a agradecer os serviços que prestou ao tipo).

Abomino tanto a presunção quanto a avareza e a pelintrice.

Enfim, há alturas em que tudo se torna mais verdade. Também mais doloroso. E desta vez, raio de lembrança, a Lusa e o Afonso Camões não têm culpa do estado a que tudo isto chegou. Seria injusto negá-lo. Já não é Natal. Mas quem diria que foi 1 de Janeiro?

sexta-feira, dezembro 31, 2010

2011: ANO DA CIDADANIA

Como dizia o criador da pantera cor-de-rosa, a vida é um estado de espírito e isso exige que saibamos encará-la em 2011, com ou sem crises, na exacta medida dos nossos sonhos, fazendo da intervenção cívica um grito ao serviço da comunidade e do Estado de direito. Sem este não há democracia, nem estado social, nem liberdade. E a cidadania acabará por definhar e fenecer. Por isso desde já declaro 2011 o ano da cidadania.

Mas se por qualquer razão 2011 fizer de nós todos cartoons, então que o sejamos respirando saúde e lucidez.

terça-feira, dezembro 21, 2010

JUSTO PRÉMIO PARA UM CAMPEÃO

É ele o escolhido para "Personalidade do Ano de 2010" do WRC. É português e foi o primeiro a renovar o título de campeão do mundo de ralis de carros de produção. Chama-se Armindo Araújo e faz parte da galeria dos meus heróis. Justo prémio ao trabalho, ao talento e à perseverança.