sexta-feira, março 04, 2011

CARNAVAL EM CASA

Uma obra-prima de Antonello Grimaldi e Nanni Moretti vai estar amanhã à noite, depois das 0.30 h, em exibição na RTP2. É a oportunidade de rever um grande filme e duas fabulosas actrizes: Isabella Ferrari e Valeria Golino.


DIÁRIO IRREGULAR

4 de Março de 2011

Dentro de uma semana, e Vasco Pulido Valente recorda-o na sua crónica do Público, vai ter lugar uma manifestação, um desfile, talvez um happening, de uma autodenominada “geração à rasca”. Eu já me tinha apercebido de que vinha aí coisa grossa. No outro dia ouvi uns moços a apregoarem o evento no “Prós e Prós” de Fátima Campos Ferreira. Fiquei elucidado sobre a natureza do movimento e as motivações deles. Aquilo de que eles hoje se queixam já eu me queixava há 25 anos quando acabei o curso. À rasca viveram sempre todos os que não se tendo filiado em partidos, integrado nas organizações maçónicas ou religiosas ou não beneficiando de cunhas e compadrios vários, uns herdados da outra senhora, outros adquiridos com os vícios trazidos pela revolução de Abril ou transmitidos pelos papás que se safaram no pós-25 de Abril, acabaram por se fazer à vida. Alguns foram mesmo condenados à liberdade e ainda hoje vivem à rasca. Uns dias melhor, outros pior.

A nossa democracia trouxe liberdade, mais mobilidade social, permitiu uma melhor repartição da cultura e do conhecimento, nem sempre devidamente aproveitada pelos seus destinatários, mas continuou a menosprezar os que sempre viveram à rasca. E o problema não foi de parvoeira. Foi de seriedade.

A menina dos “Deolinda” sabe que é parva mas não apresenta alternativas. Limita-se a cantar, bate palmas, e agora, também, quer desfilar na Avenida. É compreensível. Esta manhã já vi desfilar os filhos das meninas e dos meninos dos “Deolinda”, os filhos da “geração à rasca”, todos de bibe e serpentinas. E os seus professores e educadores. A partir de amanhã e até terça-feira vamos ver desfilar os seus pais e avós por esse País de foliões de mau gosto em que nos tornámos. Uns de bigode farfalhudo, mamas postiças e saltos altos. Outros de fio dental e silicone. Depois virá o desfile da "geração à rasca", que será como que uma espécie de baile da Pinhata. O tempo é de Carnaval. A “geração à rasca” e a canção dos “Deolinda” coincidem no tempo.

Ontem, em Faro, ao final da tarde, houve um debate sobre corrupção promovido pelo Correio da Manhã. Os debates prosseguirão pelo País. A corrupção também.

Algumas vozes mais sensatas já perceberam que eleições neste momento não servirão para nada. O problema, como já muitos estudaram, não está na maior ou menor oportunidade da sua realização. Está no sistema político e no sistema eleitoral. Rui Rio marcou pontos apesar de ter confundido o regime com o sistema, mas todos perceberam o que quis dizer. O PS precisava de ter alguém que pudesse responder-lhe com a mesma desenvoltura. Se necessário, um dia, entender-se com ele e que entendesse a sua linguagem. Desenvoltura até há quem a tenha. Credibilidade é que é mais difícil. E ainda assim restará sempre o problema de com o PSD nem o Sporting ser capaz de se entender.

De Cavaco Silva é que não se vê a sombra. Desapareceu atrás da sua marquise numa manhã de nevoeiro. Dizem-me que está a preparar o discurso da tomada de posse. Faz muito bem. Até agora limitou-se, qual Benfica, a dar algum avanço aos mercados que nos andam a lixar. A partir de dia 9 acaba-se a brincadeira. Oxalá não apareça mascarado. E que saiba aproveitar essa oportunidade para referir os reflexos positivos que a sua reeleição já trouxe ao País. Há coisas que podem passar despercebidas. E devem ser lembradas amiúde. Os portugueses precisam de estímulos.

Je ne compte pas mes emprunts, je les pèse”, escreveu nos seus Ensaios. E que bem que ele escreveu. Se os nossos políticos lessem Montaigne nunca teríamos chegado ao estado a que chegámos. Montaigne não sabia de nós. Teve sorte. Não conheceu Cavaco Silva, José Sócrates ou Passos Coelho. Ainda bem que assim foi. Foi poupado. Se os tivesse conhecido ou sabido da nossa existência teria desistido de pensar e de escrever. Seria gestor. Ou inspector do fisco.

[também no Delito de Opinião]

terça-feira, fevereiro 22, 2011

AGORA DÁ-ME PARA ISTO

Nas páginas do Delito de Opinião: o diário irregular.
Quem não tiver paciência pode ir ver as meninas do Miss Reef 2011. É Verão em Viña del Mar, ninguém leva a mal!

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

A RENÚNCIA

Comentei aqui a renúncia de D. José Policarpo. Para quem queira ler.

FERRARI FF

Esá quase a chegar o novo Ferrari FF. Será no dia 23 de Fevereiro a apresnetação mundial, em Maranello. Quem não puder ir pode seguir pela Internet. Estão todos convidados.

sábado, janeiro 29, 2011

AGORA RIEM-SE, AMANHÃ CHORAM

Pelo ar satisfeito dos senhores dir-se-ia que tudo lhes corre bem. A eles talvez, mas não ao futebol português, que a avaliar pela noticia de "A Bola" se prepara para ser chutado para a categoria das repúblicas das bananas.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

VOTAR É TAMBÉM ARRISCAR


Estamos a menos de quarenta e oito horas da abertura das urnas onde serão depositados os votos que irão eleger o próximo Presidente da República.

Um dos grandes políticos da Antiguidade Clássica dizia que aquele que não participa na vida da república não é digno do seu estatuto de cidadania. Eu apenas acrescentaria que não é digno da sua liberdade.

Mais do que um direito regularmente exercido de tempos a tempos, votar é uma obrigação, um apelo à nossa consciência, à dimensão ética, social e cultural das nossas escolhas. Uma prova de vida, de humanidade e de altruísmo. A concretização da responsabilidade individual na dimensão política da Nação. Um acto de solidariedade e uma garantia de perenidade individual e colectiva.

Pelo menos é assim que eu encaro, em toda a sua transcendência, o exercício do direito de voto numa sociedade democrática. Nesta medida também sou um incorrigível.

Mas, perguntam-me, em quem votar?

Não serei a pessoa indicada para orientar o voto de ninguém. Não me reconheço o talento, menos ainda a habilidade, para orientar consciências, promover escolhas ou zelar pela liberdade dos meus semelhantes. Zelando pela minha não posso deixar de pensar na dos que me rodeiam. E é tudo.

Todos os que de há muito acompanham o que escrevo sabem o que penso sobre quase tudo, embora haja sempre algo que tenha ficado por dizer e que eu tente transmitir no rabisco subsequente.

Por isso dir-vos-ei que escolher é ponderar. Escolher é reflectir. É ser capaz de se projectar no futuro e avaliar as consequências das suas escolhas. Escolher é assumir a liberdade em toda a sua plenitude. Sou um homem livre. Um homem de escolhas.

O problema é que não há candidatos perfeitos.

O homem é feito de muitas subtilezas, um mundo de átomos que permanentemente se distinguem e multiplicam sem jamais se confundirem.

Escolher um Presidente da República consiste, pois, por vezes, em escolher aquele que aos nossos olhos é menos imperfeito, aquele que mais corresponde aos nossos afectos e às nossas preocupações. Aquele que poderá dar mais garantias de futuro. Não a ele próprio ou ao seu clã. À comunidade. À minha liberdade.

Quando no próximo domingo, 23 de Janeiro, chegar a hora de exercermos o nosso direito e cumprirmos a nossa obrigação para com as gerações futuras, importa que sejamos capazes de pensar se é melhor um presidente responsável e consciente das suas limitações ou um tipo que sob o manto diáfano da responsabilidade se convenceu de que sabe tudo, de que pode escolher por mim em toda e qualquer circunstância para eu poupar nas portagens e que se crê sem limitações.

E também importa que tenhamos consciência de que não é a mesma coisa escolher uma pessoa que protegida pela imagem de um aparente rigor e respeito pela legalidade democrática e administrativa se entretém nos intervalos desse rigor a tratar da sua vidinha e da dos seus, escusando-se a esclarecer o como, o quando e o porquê das obscuridades e pantominices da sua vida de cidadão, ou escolher um outro que sem se esconder na sombra ou nos subterfúgios das instituições se predispõe a abrir a porta do seu passado, da sua vida pública e privada, com a hombridade de quem é capaz de reconhecer que não há homens infalíveis e que o super-homem não passou de uma criação de Nietzsche e da banda desenhada.

Como não será indiferente optar por um homem de coragem, por alguém disposto a enfrentar o Adamastor sozinho se necessário for, quando ao seu lado medra o compadrio, o nepotismo, a obscuridade e a falta de verticalidade, pagando o preço da diferença, pagando o preço da honra em defesa de um destino colectivo. Não é a mesma coisa optar por um tipo cinzento, disposto a esconder-se e a proteger os seus pensamentos e frases do escrutínio dos seus semelhantes, alguém que evita comprometer-se com o passado, com o presente ou com o futuro para ir fazendo o seu caminho sem grandes ondas, rasgos ou responsabilidades, garantindo uma confortável reforma ao lado da miséria que grassa.

Na hora de escolher não será preciso levar qualquer cartilha. Bastará olhar para trás, fechar os olhos e pensar no dia de amanhã.

E aos que não forem capazes de fazer isto, então que sejam o mais terra a terra possível. Bastará pensar se é preferível um presidente que desvia o olhar quando confrontado com a vergonha da falta do rigor privada que apregoou em público, que evita ver o que faz a sua mão esquerda quando se benze com a direita, que ignora os bandos de pilantras que se acolhem à sua sombra, dispostos a atentarem seja por que meios for contra o Estado de Direito democrático, enquanto ele próprio vai enriquecendo discretamente, cumprindo as tarefas rotineiras que qualquer robot devidamente programado faria e ao mesmo tempo vai fazendo obras em casa sem licença camarária, nada fazendo para evitar que o protagonismo do seu nome se misture nas andanças camarárias, convivendo com a fantasia dos piruças que o rodeiam e o amiguismo que evita fiscais aborrecidos.

Ou, se ao invés, é preferível alguém capaz de confessar as suas fraquezas, de fazer um esforço permanente para se melhorar e elevar, alguém ciente da sua condição, que é capaz de dizer não a um amigo, de chamá-lo à razão e responsabilizá-lo pelas suas acções sem ter de ostracizá-lo ou renegá-lo. Alguém que sabe é que preciso distinguir a cidadania, combater a corrupção de forma transparente, começando na sua própria casa, e, também, capaz de ultrapassar as suas limitações, de exceder-se e de responder aos apelos da sua consciência em prol da Nação.

Votar é também arriscar. A vida é um risco.

Eu prefiro um homem de coragem que chora a um cara-de-pau medroso. Eu prefiro um homem que se assume, que se revolta, um homem curtido pela fealdade física da vida, um homem que marcou o seu destino a um tipo marcado pelo destino.

Eu quero na Presidência da República um homem capaz de reconhecer a dimensão ética da liberdade. Não quero um banana sem chama ou um tipo desfasado do seu tempo, culturalmente senil e subserviente das maiorias corporativas.

Eu prefiro um homem como eu. Um homem capaz de se reconhecer na adversidade. Capaz de resistir. Um homem à dimensão de Portugal. Um homem como nós.

domingo, janeiro 09, 2011

TARDOU

Finalmente, parece que um deputado tomou consciência da má prestação de serviço da EDP e se interessou pelos "acidentes" que diariamente acontecem. Infelizmente não é só no Algarve. O que se passa a Sul tem continuação na região de Lisboa, no Oeste, no Norte, enfim, por todo o lado. Já não era sem tempo que alguém acordava.

sábado, janeiro 08, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

4 de Janeiro de 2011

Tal como eu já aqui escrevi, e hoje foi sufragado por gente tão diferente como Miguel Sousa Tavares, Camilo Lourenço, Helena Matos ou Manuel Villaverde Cabral, não é pelo facto do candidato Cavaco Silva dizer qualquer coisa do género “hão-de nascer os homens que sejam mais honestos do que eu”, que ele se torna mais sério, mais honesto do que os outros que nasceram depois dele ou que escapa a que lhe sejam feitas perguntas incómodas.

Se o candidato Cavaco Silva não quiser responder às perguntas é lá com ele. Alberto João Jardim ou Pinto da Costa também só respondem ao que lhes convém. E não ao que a seriedade, a transparência da vida pública ou o respeito pelas instituições obriga. Nisso, Cavaco Silva não se distingue de nenhum desses dois. Desconversa.

Escrevi, por diversas vezes, o que pensava sobre Cavaco Silva. Quem leu dever-se-á ter apercebido de que a partir do caso das escutas e da óbvia protecção dada a Fernando Lima passei a colocá-lo ao nível de um Rocha Vieira (mais um da Comissão de Honra). Por alguma razão Fernando Lima era também visita assídua em Macau – cruzei-me várias vezes com ele no Mandarim Oriental – e beneficiou do seu apoio e do de Jorge Rangel para publicar o que dificilmente publicaria noutro lado. Um promoveu em Macau os negócios dos "protegidos" – houve quem sendo director de um serviço público fosse nomeado por urgente conveniência de serviço para assinar um contrato, em representação do Governo de Macau, com uma sociedade anónima por acções, da qual também era accionista e administrador, enquanto funcionário público, e acabasse condecorado, logo a seguir, no 10 de Junho pelos bons serviços prestdos (o general Eanes não devia saber disto quando escreveu o prefácio do livro da Gradiva) –, o outro, sendo professor de Economia e ex-primeiro-ministro, acha normal gastar € 100.000,00 (cem mil euros) – uma bagatela que qualquer reformado tem debaixo do colchão para ir ao pão – a comprar acções não cotadas em bolsa de um banco onde pontificavam correligionários do partido, acções que vendeu com um lucro substancial sem que agora considere sequer admissível que se lhe pergunte como as comprou (por sugestão de quem, por intermédio de quem?) e a quem vendeu (pôs anúncio no jornal ou tratou de falar com um gestor de conta "amigo" para lhe arranjar comprador?), embora seja candidato presidencial e Presidente da República, e em que condições (cheque, dinheiro vivo, transferência bancária, e de quem?), remetendo as respostas às explicações que deve dar, a bem da transparência e da seriedade do regime, para textos esotéricos cozinhados no recato do seu gabinete, que religiosamente publica na Internet e que nada esclarecem sobre aquilo que importa, fazendo de conta que os outros, além de cegos, mudos e surdos, são parvos.

Um homem sério não remete para os textos que publicou in illo tempore num qualquer local da Internet a defesa da sua honra, dos seus pontos de vista e das suas convicções. Ou, pior um pouco, para as declarações que depositou no Tribunal Constitucional e que nada esclarecem sobre os negócios que andou a fazer antes de depositá-las, princípio que também aplico a qualquer outro político, chame-se Valentim Loureiro ou Jerónimo de Sousa.

Os desempregados, os pobres e os reformados, cuja defesa o candidato Cavaco Silva reclama em exclusivo, não têm banda larga no Sapo e dificilmente terão acesso a um computador para ler as declarações publicadas no site da Presidência da República. Quando muito irão à Internet para procurar trabalho, saber da melhor forma como recorrer a um subsídio da Segurança Social ou imprimir um formulário para esse efeito.

Admito que aquilo que o candidato Cavaco Silva disse sobre a gestão do BPN pós-nacionalização, conduzida por alguns dos senhores da sua comissão de honra (eu bem dizia que estavam lá todos), e seguramente que já motivado pela antevisão dos “orgasmos” que os banhos de multidão do companheiro Jardim sempre lhe proporcionam numa deslocação à Madeira, digeridas que estavam as antigas críticas do anfitrião ao “Sr. Silva” (é preciso estômago!), retive as palavras desta noite de Fernando Ulrich sobre as críticas do candidato à acção do Governo no caso BPN: “Eu não sou um apoiante deste primeiro-ministro, mas penso que eles não cometeram tantos erros como os que estão implícitos na sua pergunta” (de Ana Lourenço, na SIC).

Eu também não sou (apoiante do primeiro-ministro, entenda-se, e não sou do Bloco de Esquerda). Nem nunca fui. Apesar de em tempos lhe ter dado o benefício da dúvida e até a minha confiança. Como dou a qualquer homem de bem antes de ver desmentidas as suas palavras pelas "alhadas" em que se mete.

Porém, como entretanto também não andei a comprar nem a vender acções, fosse do BPN, do BCP ou da Mota-Engil, continuo a pensar que tenho direito, como qualquer cidadão, a saber se as acções que Cavaco Silva tinha na SLN/BPN foram vendidas a um “veículo”, a uma offshore de um dos seus “compagnons de route” do cavaquismo, ou se o foram ao Manuel dos Anzóis, reformado, residente na Musgueira, que viu o anúncio da “venda de acções da família C. Silva”, por “motivo à vista”, num painel do Pingo Doce quando buscava “uma companheira para amizade sincera”.

É que a diferença entre mim, contribuinte, que vou pagar com os meus impostos os milhares de milhões do buraco do BPN, e o candidato Cavaco Silva, que como eu vai pagar com os seus impostos os milhares de milhões do buraco do BPN, é que ele ganhou umas dezenas de milhares de euros a comprar e vender acções da SLN/BPN e a seguir nomeou Dias Loureiro para o Conselho de Estado, e a mim ninguém me perguntou se as queria comprar e vender um ano depois com os proventos, que para lhe serem pagos, a ele e a outros como ele – fora da bolsa e pelos valores que foram – nos deixaram agora, a todos, de calças na mão. Ou se achava bem a nomeação de Dias Loureiro para o Conselho de Estado.

Não é por se ter libertado do escândalo antes do escândalo se tornar num caso de polícia que as coisas fazem diferença. Fá-lo-iam se Cavaco Silva falasse verdade aos portugueses em vez de se refugiar nas meias-palavras.

Isto não tem nada a ver com o que se passou em Inglaterra, na Irlanda, com as escutas, com o Freeport, com a licenciatura de José Sócrates ou com os robalos de um sucateiro.

Em causa estão apenas os "activos" de uma candidatura presidencial que em vez de motivarem verdade, transparência e respeito pelos eleitores, geram pesporrência paternalista e dúvidas sobre a capacidade do candidato em distanciar-se dos "veículos" que o trouxeram até aqui.

DIÁRIO IRREGULAR

2 de Janeiro de 2011

Uma das coisas em que este país melhorou a olhos vistos foi na qualidade do seu design. Falo de objectos de decoração, de utensílios e de mobiliário. A qualidade do design é boa. O gosto e a funcionalidade continuam, todavia, muito discutíveis. Há muita coisa feita em Portugal, mas as melhores continuam a vir de fora. O design pode ser nacional, os materiais parecem-me aceitáveis para a função a que se destinam, só que a qualidade do acabamento é seguramente chinesa. E se depois a limpeza for assegurada por uma dessas espaventosas que deixam tudo lascado e riscado, o melhor é desistir da compra. A forma como hoje em dia se fazem as coisas aflige-me. Não é só nas tarefas domésticas ou nos escritórios. Acontece o mesmo nas lojas, na oficina do carro ou na lavandaria. O problema é cultural. Esta gente não tem formação e a culpa não é das insuficiências da escola pública porque os das privadas são iguais. Não lhes ensinam, não aprendem e muitos também não querem saber. Se não for o esforço individual a fazer a selecção torna-se impossível distingui-los entre si pela maneira como usam o brinco, põem o chapéu ou mostram o pneu a sair das calças.

A entrada na corrida presidencial do madeirense José Manuel Coelho pode vir a fazer a diferença. O homem não quer apenas chocar. E parecendo-me um tipo minimamente inteligente e com sentido de humor – só num registo humorístico se pode interpretar aquela cena da bandeira nazi no parlamento regional da Madeira – não me admiraria se houvesse gente abstencionista a ir às urnas por sua causa. Uma coisa é certa: o cinzentismo macambúzio que ficou dos monólogos a dois do mês de Dezembro vai ser substituído pela irritação de alguns dos protagonistas. O facto dele não se levar muito a sério só abona a seu favor e permite-lhe dizer coisas sérias a brincar e sem esforço. Ao Alegre não causará grade mossa, mas não estou tão certo que Cavaco Silva não venha a ser penalizado com uma tão súbita quanto inesperada entrada em cena. A comparação que fez entre a mensagem de Ano Novo do Presidente da República e as declarações de circunstância das meninas nos concursos de beleza foi um mimo a prometer mais.

O empregado que hoje nos atendeu ao almoço era nepalês. De Pokhara. Ficou admirado por saber que eu conhecia o belíssimo lago da terra dele onde vi o pico do Annapurna reflectido na superfície das águas espelhadas. Veio direitinho para o Happy Family. Fiquei elucidado sobre quão miserável devia ser a sua existência quando com uma desarmante simpatia e simplicidade me disse não conhecer Katmandu nem os arredores. Só conhecia Pokhara. Não sei como veio cá parar, nem o que terá passado até aqui. O facto de ele estar entre nós devia ser motivo de satisfação e não nos pode deixar indiferentes ao fenómeno da emigração. Oxalá que seja feliz por cá.

O ruivinho perdeu em casa. Pinto da Costa começa o ano engasgado. Amanhã deverá vir dizer que a taça da liga é uma competição menor. Em parte é verdade. Só em parte, porque também lá estão. Assim, só posso pensar que 2011 entrou bem.

domingo, janeiro 02, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

1 de Janeiro de 2011

Com excepção do dia em que jurei a mim mesmo deixar de fumar (cigarros, regularmente, em 1 de Janeiro de 1993), coisa que pegou no dia em o Miguel V. me xingou a viagem toda de Casal Velho para Lisboa por causa do fumo dentro do carro e do frio que entrava pela janela, não sou de fazer juras em cada dia primeiro de Janeiro. Só tenho força de vontade para aquilo que considero verdadeiramente importante. Deixar de fumar foi uma delas. Começar a escrever estas linhas foi outra.

Antes de prosseguir quero avisar a quem vier a ler estas linhas de que nesta coisa dos diários sou um neófito, com todos os prejuízos e danos para a minha imagem que daí podem advir. Como escreveu Marcello Duarte Mathias (cada vez gosto de mais de relê-lo porque há poucos, muito poucos, como ele, na elegância, no estilo e na simplicidade com que trata a língua), “não há coisa pior do que os neófitos: seja de Deus, do sexo ou da política”, mas de uma coisa tenho a certeza, é que amanhã já não serei neófito. E depois, à medida que este diário público e em letra de forma for surgindo, as pessoas ir-se-ão habituando. Esquecendo.

Um diário é datado e a datação limita-o. É a sua marca genética. Mesmo quando alguns anos depois o relemos, sem prejuízo de podermos transportá-lo para o presente, ele permanece encaixado num ponto que foi. Em todo o caso, quando a memória começa a falhar, e ela amiúde já falha, permite-nos manter um referencial em relação a nós mesmos.

Registar factos é próprio de outro tipo de homens, é coisa de especialistas. Eu prefiro ir registando as minhas dúvidas, as minhas perplexidades, as minhas convicções. Para que não me esqueça delas. Não me perdoaria esquecer aquilo que para mim foi importante. Pequenas rotinas, lampejos de um momento, a memória. A memória é uma espécie de beijo. E numa terra de beijoqueiros há que ser selectivo. Na memória só podem ficar registados os bons. Ou os que marcam por uma razão ou por outra.

Não penso que esta quadra, ano após ano repetida de acordo com o calendário judicial, que aos poucos foi substituindo o religioso, suspendendo prazos e trocando-os por cartões de Boas Festas, sms cheios de “k” e notificações do Fisco, faça esquecer o verdadeiro sentido do Natal, a anteceder a entrada de um Novo Ano e a caminhada dos Reis Magos. A comunhão que a quadra envolve, o sentido de recolhimento e partilha que vejo nela (muito mais do que os embrulhos de circunstância e o final de concursos televisivos medíocres) faz-me repetir, apesar de tudo, alguns momentos que reservo para mim depois dos outros se recolherem. Há o disco que se repete (sublimes os duetos de Aznavour com Sting e com Nana Mouskouri), o livro que se relê, o charuto que em cada ano regressa enquanto o seu fumo persegue a vela que teima em arder aromatizada pelas fragrâncias da moda.

Ouvi de relance a Clara Ferreira Alves (há mulheres que nos fazem gostar mais das mulheres) referir esta noite qualquer coisa como “a carteira de cumplicidades do BPN”. Parece que ela gostava de vê-la esclarecida. Eu também. Mas da maneira que este país está, perguntar a Cavaco Silva (ele que até já fala na "ética republicana") o que o levou (e já agora à sua filha) a comprar acções do BPN/SLN não cotadas em bolsa, tentar esclarecer quem as recomendou (e quem foi o figurão que tratou da burocracia) e como as coisas se processaram entre o momento da aquisição e a decisão de venda, incluindo as verdadeiras razões da respectiva valorização, é mais ou menos o mesmo que acontecia há uns meses quando se perguntava por uns desenhos da Cova da Beira, umas licenciaturas “esquisitas” ou umas offshore impertinentes. Qualquer que seja a cor, o fundamentalismo é sempre o mesmo quando por detrás dele está a subserviência enfatuada ou a crença na infalibilidade do testemunho.

Pedro Marques Lopes, participante no mesmo fórum da Clara, dizia que o caso BPN vai ser uma espécie de “Vale e Azevedo 2”; para logo a seguir acrescentar que “foram feitas vigarices absolutamente gigantescas” (sic na SIC-N), recusando-se a acreditar que “aquilo” fosse obra de um homem só.

Eu também não acredito. Penso que ambos têm a razão. A Clara mais do que o Pedro.

Por vezes gostaria de ter mais distância. A distância dá-nos outra liberdade, mesmo quando teimamos em querer manter a lucidez. E se eu prezo a lucidez. Dá-me outra liberdade. Não é fácil. Em especial quando, como também escreveu “o” Marcello – os autores que apreciamos tornam-se íntimos ao fim de algumas obras: eles partilham a escrita; nós, leitores, vamos sublinhando-lhes as frases, as metáforas, as hipérboles, e, no caso dele, a serena e elevada lucidez que há tantos anos o acompanha –, se vive num país que é “uma coutada de compinchas”, de “valores entendidos que se ajudam e promovem mutuamente”, que não admite “que alguém que não lhes preste vassalagem nem navegue nas mesmas águas, possa ter mais talento do que eles sem deles depender”. O general Rocha Vieira também era assim em Macau, coisa que o general Eanes não sabe, não percebe nem conhece, quando lhe prefacia os livros de tom laudatório e adolescente que a Gradiva edita (o Guilherme é um homem bom e inteligente mas livros daqueles dão a ideia de que está a agradecer os serviços que prestou ao tipo).

Abomino tanto a presunção quanto a avareza e a pelintrice.

Enfim, há alturas em que tudo se torna mais verdade. Também mais doloroso. E desta vez, raio de lembrança, a Lusa e o Afonso Camões não têm culpa do estado a que tudo isto chegou. Seria injusto negá-lo. Já não é Natal. Mas quem diria que foi 1 de Janeiro?

sexta-feira, dezembro 31, 2010

2011: ANO DA CIDADANIA

Como dizia o criador da pantera cor-de-rosa, a vida é um estado de espírito e isso exige que saibamos encará-la em 2011, com ou sem crises, na exacta medida dos nossos sonhos, fazendo da intervenção cívica um grito ao serviço da comunidade e do Estado de direito. Sem este não há democracia, nem estado social, nem liberdade. E a cidadania acabará por definhar e fenecer. Por isso desde já declaro 2011 o ano da cidadania.

Mas se por qualquer razão 2011 fizer de nós todos cartoons, então que o sejamos respirando saúde e lucidez.

terça-feira, dezembro 21, 2010

JUSTO PRÉMIO PARA UM CAMPEÃO

É ele o escolhido para "Personalidade do Ano de 2010" do WRC. É português e foi o primeiro a renovar o título de campeão do mundo de ralis de carros de produção. Chama-se Armindo Araújo e faz parte da galeria dos meus heróis. Justo prémio ao trabalho, ao talento e à perseverança.

MUDANÇAS

Há dois coisas que me deixam completamente sem jeito: a falta de saúde e mudanças. A primeira nem sempre depende de nós. A segunda tento encará-la como algo de positivo, independentemente dos contratempos que nos causa, a começar pela mudança de configurações do computador e do pó que se levanta quando se muda uma estante.

Estas coisas devem ser feitas quando importa fazer balanços. No final de cada ano ou no início de um novo ciclo. Enfim, nestas ocasiões vale sempre a pena citar Kierkegaard: "a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para a frente". É o que vou fazer uma vez mais, com toda a fé do mundo e a utopia de sempre, ainda que não saia do mesmo sítio e as traças voltem sempre aos mesmos livros. E seja o que Deus quiser.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

ESTÁ FEITO O MAL

Sobre a promulgação pelo Presidente da República da nova lei de financiamento dos partidos políticos, disse no Delito de Opinião o que tinha a dizer.
Há alturas em que é preciso falar grosso. Preto no branco. Para que não nos confundam com a maralha serventuária.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

A LER

QUEM PAGA?

Aquilo que aconteceu com a barra da Fuzeta, incapaz de resistir durante um inverno que fosse à fúria do mar, depois de ali ter sido derretido quase um milhão de euros contra aquele que era o entendimento dos pescadores, não deixa de ser sintomático sobre a forma como alguns tecnocratas insistem em (não) resolver os problemas aumentando a despesa. A única pergunta que importa formular é a de saber quem paga o prejuízo, visto que a culpa, como todos sabemos, neste país ficou para tia.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

A LER

Vasco Pulido Valente sabe do que fala. E hoje em dia são tão poucos aqueles de quem se pode dizer isto que continua a ser fundamental ler o que ele escreve.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

CHRISTMAS LIGHTS

O último dos Coldplay em versão natalícia.

A MARTA MUDOU-SE

As presidenciais começam a mexer. Eu de vez em quando também. Desta vez foi no Delito de Opinião.

ASSIM VAI O PSD/ALGARVE

O sinal já tinha sido dado com a aprovação do orçamento e a posição tomada pelos acólitos de Alberto João Jardim na Assembleia da República.

Passos Coelho quer uma maioria absoluta. As sondagens dizem que ele caminha para lá. O PSD de Cavaco teve a sua dose. O PS de Sócrates também com resultados que me escuso de comentar.

O Presidente da República e actual candidato presidencial tem defendido a existência de maiorias absolutas como garantia de estabilidade e de governabilidade.

Estabilidade e governabilidade são duas coisas que não têm faltado ao PSD/Algarve. E, de facto, os resultados são tudo menos brilhantes, não obstante a forma mandarinal como durante décadas o Dr. Mendes Bota instruiu a sua tropa. Enquanto em Loulé se assinam protocolos de forma "totalmente transparente" com a IKEA, em Faro um ex-presidente de câmara que lá foi posto com o apoio do PSD e deixou a autarquia muito próximo do estado em que hoje se encontra, acusa Macário Correia de ser um "vendedor de ilusões". Ao mesmo tempo, em Albufeira, um presidente do PSD com maioria absoluta vê chumbadas pelo seu próprio partido as propostas que apresenta.

Não sei se teremos em Albufeira mais um caso que acabará como os de Gondomar ou Oeiras, mas se um primeiro-ministro promovesse a aprovação de um diploma pela Assembleia da República, numa situação de maioria absoluta, diploma que fosse depois rejeitado pelo seu próprio partido, que diriam Passos Coelho e Cavaco Silva?

Se são estes os exemplos que o PSD de Passos Coelho consegue dar ao País nesta fase em que ainda tenta chegar ao poder, imaginem o que será quando o Dr. Miguel Relvas começar a negociar o orçamento com o Dr. Alberto João Jardim e a distribuir os tachos que os "jotinhas" aguardam. Maioria absoluta, pois claro

quarta-feira, novembro 24, 2010

EM DIA DE GREVE GERAL

Por causa disto, que mais não é do que aquilo que eu sem rodeios e genuinamente penso, fui obrigado a escrever isto. Não tenho pachorra para certo tipo de comentários bafientos (poupo-vos ao comentário).

sexta-feira, novembro 19, 2010

UM ESCLARECIMENTO ESCLARECEDOR

A leitura deste comunicado do Gabinete de Imprensa do Ministério da Justiça é sintomático sobre o trabalho que o ministro Alberto Martins e a sua equipa têm pela frente. É claro que destinando-se o texto a profissionais não precisará de ser posto em "português claro", mas elucida, e bem, sobre o que ali foi deixado pelos anteriores "reformistas".

TEXTOS NO DELITO DE OPINIÃO

Não é só a cimeira da NATO que antecipa o final da semana. A crise também nos vai pregando partidas, por isso hoje comecei a escrever mais cedo. Aqui foi o Bloco de Esquerda que foi notícia. Aqui foram o CDS/PP e uma coligação deste com o PSD na Junta de Freguesia da Parede que deram o mote. Mais logo sairá mais alguma coisa, no mesmo local.

segunda-feira, novembro 15, 2010

CAMPEONATO DE PORTUGAL GT E SPORT PROTÓTIPOS 2010

Mais uma jornada, a final, do Campeonato de Portugal de GT e de Sport Protótipos 2010, teve lugar na espectacular pista de Portimão. Pena foi a chuva, que terá afastado o já pouco público que vai acompanhando e dando algum brilho às provas nacionais.
O João Luís com o Renault Spyder do La Cigale foi um dos vencedores.
Os vencedores estavam muito justamente satisfeitos com a sua prestação.
Não foi fácil apanhá-lo aqui.
Um dos Porsche com as cores da Vodafone.
Dir-se-ia que o Renault ia a passar o Porsche, mas foi exactamente ao contrário. Cada um na sua classe.
Correu sozinho, venceu sozinho, mas não deixa de ser um dos vencedores do dia.
Boa estreia para o BMW M3 de Paulo Pinheiro e Roger Green.
Pormenor do cockpit do carro dos novos campeões nacionais de Sport Protótipos.
Pormenor da traseira do M3
O Porsche da SIGG.
Os clássicos também andaram por Portimão, no seu estilo inconfundível. Aqui um dos Alfas que mostrou continuar competitivo.
Quem aprendeu não esquece e os Porsches estavam lá para mostrar isso mesmo.

ÁS DE TRUNFO

"Os conceitos de moral mudam conforme as circunstâncias e se, em teoria, reconhecemos serem as cunhas lesivas da justa justiça, quando sacodem para o lado um pedido nosso dói como um pontapé por baixo. Rodolfo Lucas, o fura-vidas que se abrasileirou levando com ele Eva Teresa, a fogosa Rosália e sua senhora, dona Clotilde, dizia, a respeito: para os amigos não há favores, só a obrigação de puxarmos por eles quanto pudermos. Nessas alturas, eu retorquia, enfatuado, que tráfico de influências, nome fino e grave, era sinal maior da atávica pedinchice portuguesa. Tivesse imaginado os acontecimentos posteriores e, decerto, acrescentaria que há excepções, família é família".

Graças a mais uma excelente iniciativa do Pátio das Letras e da sua activa dinamizadora, que me confidenciou ter o nosso António Manuel Venda passado por ali há relativamente pouco tempo, tive o privilégio de ouvir e trocar algumas palavras com Mário Zambujal, no sábado passado, por ocasião da apresentação do seu mais recente romance.

Mantendo a bonomia e simpatia de sempre, o autor lá foi discorrendo com os seus leitores, contando histórias curiosas, e deliciosas, do seu percurso de vida. O Mário Zambujal continua a ter um estilo muito próprio de comunicar, ao mesmo tempo discreto e perspicaz, pontuado pelo humor de quem sabe que o melhor desta vida são as pessoas.

E se é certo que no diálogo travado foi possível ficar a saber da relação distante que ele mantém com as máquinas, muito em particular com os computadores, não foi todavia conseguido que nos desvendasse quem era a dama de espadas.

Não foi grave. Nem o será enquanto pudermos contar com a escrita do Mário Zambujal e o conforto que a sua presença sempre transmite. Um verdadeiro ás de trunfo de uma geração do jornalismo que marcou a literatura portuguesa contemporânea e que vai continuar a marcar, a avaliar por mais este livro que agora nos trouxe.

domingo, novembro 14, 2010

BICAMPEÃO DO MUNDO

Portugal volta a estar de parabéns: Armindo Araújo acabou de revalidar o título de campeão mundial, na classe de produção, com o 18º lugar que conseguiu no Rali de Gales.

quinta-feira, novembro 11, 2010

3 VEZES A

A de Angola - Hoje é dia 11 de Novembro. Passa mais um aniversário da independência de Angola. A data não podia passar despercebida, em especial entre nós, depois da magnífica entrevista dada à TSF por Rafael Marques, um homem livre e corajoso que não hesita em dar a cara e o nome em defesa de uma cidadania justa e livre no seu país. Passado o tempo da guerra civil, iniciada a recuperação dos estropiados, e aberta uma nova página na sua história, é tempo de Angola se reabilitar. Em democracia. Não apenas na vertente externa, seja no âmbito da CPLP, das Nações Unidas ou no seio das demais nações africanas. Angola necessita urgentemente de se reabilitar internamente, muito em particular precisa de reabilitar as suas elites dirigentes. Para que o combate à fome e a erradicação da probreza, das doenças e do analfabetismo possa ter um sentido útil e não seja apenas mais uma fachada polida de um regime avesso à crítica e mais dado aos jogos de bastidores da sua diplomacia. Jamais se construirá um Estado justo e equilibrado enquanto a corrupção e o nepotismo continuarem a medrar em cada esquina, no bolso dos generais ou dos antigos combatentes que se aburguesaram protegidos pelas luzes do Futungo de Belas. Angola tem tudo para ser feliz: imenso capital humano, riquezas naturais e alegria. E se assim é, então seria bom que as suas elites dirigentes, a começar pelo seu Presidente, mostrassem que mais importantes do que as palavras são os actos genuínos e sinceros. Talvez que um bom sinal fosse começar por dar uma resposta franca e de rosto humano à carta que a Associação 27 de Maio lhe escreveu. Há gente que continua a sofrer e se o povo de Angola não é insensível a isso, então que os seus dirigentes dêem o sinal. Pode ser já hoje.

A de Algarve - Os noticiários e os jornais de hoje sublinham o despedimento colectivo de 336 pessoas na empresa Groundforce. Todas essas pessoas estavam ao serviço no Aeroporto de Faro. Algumas há mais de duas décadas. E sendo compreensíveis as razões avançadas pela administração da empresa, não deixa de ser estranho que só agora se tenha dado pelo colapso iminente e não se tenha anteriormente tomado as medidas que podiam ter evitado este fim. Não conheço o problema da Groundforce em particular. Sei o que todos lêem e ouvem. Mas conheço e tenho a noção da situação extremamente difícil que o Algarve atravessa. Não é só um problema de má gestão crónica de alguns dos seus empresários ou de dificuldades económicas e financeiras de conjuntura. O tecido social da região entrou, há mais de cinco anos, em desagregação, sem que ninguém em Lisboa se tenha dado conta do que se estava a passar. Foi logo a seguir ao Euro. Mesmo aqueles que se arrogam porta-vozes da região e que mais não têm feito do que se promoverem à custa desta, foram incapazes de perceber o que qualquer pessoa que andasse na rua sabia que iria acontecer. O agravamento das condições de segurança foi apenas um primeiro aviso. De nada serviu. Agora que a ministra do Trabalho, confrontada com a verdadeira dimensão da crise laboral e social que o Algarve atravessa, veio dizer que a situação ocorrida na Groundforce vai ser devidamente investigada, seria bom que também se investigassem todas aquelas situações em que as empresas recorreram a outros métodos, mais discretos, para se irem livrando do pessoal efectivo ao seu serviço. Refiro-me a extinções encapotadas de postos de trabalho e a acordos negociados individualmente com os trabalhadores, que os empurraram para o subsídio de desemprego, sendo que em muitos casos esses foram substituídos por outros, contratados a prazo ou a recibos verdes, menos qualificados para as mesmas funções. E, senhora Ministra, se ler estas linhas, há uma coisa que lhe digo: não é aceitável que uma empresa faça um acordo de rescisão amigável com um trabalhador, lhe passe os documentos para que ele se candidate ao subsídio de desemprego, com fundamento na extinção do posto de trabalho, e depois contrate um substituto. E se a ACT sabe que esse foi um expediente usado pelo patrão, não é aceitável que o Estado feche os olhos e faça de conta que a fraude a lei é um expediente legal para alguns continuarem a andar de Porsche enquanto outros não têm dinheiro para pagar a escola dos filhos. Se for necessário mexer na lei, então que se mexa de uma vez por todas e de forma clara, de maneira a que não seja depois necessário fazer um resumo em "português claro" no Diário da República. O português é por natureza claro. As sumidades é que o escurecem.

A de Advogado - O debate que teve lugar no Casino da Figueira da Foz mostrou claramente as clivagens hoje existentes na advocacia portuguesa. O limbo em que a profissão se encontra, algures entre o cobrador de fraque e o paquete para todo o serviço, limbo na qual se tem desprestigiado, desvalorizado e desestruturado, muito por força dos lobbies que coexistem no seu seio e da actuação de um Estado irresponsável, aconselha uma mudança. Faço, pois, aqui e desde já, a minha declaração de interesses. Vou apoiar Fernando Fragoso Marques porque acredito que uma advocacia serena, firme, empenhada, séria e esclarecida vale mais do que mil discursos. Porque continuo a pensar que a advocacia é uma profissão de homens livres e não de assalariados de empresas ou de colegas, actuem eles a título individual ou protegidos por esses empórios especializados na publicação de brochuras coloridas e que de autarquia em autarquia vão angariando clientela, tecendo verdadeiras redes e cimentando o seu poder. Os portugueses merecem uma advocacia à altura das suas tradições de luta e intervenção cívica. E é nos momentos difíceis, nas alturas de maior crise ética e moral, nos momentos em que são desferidos os ataques mais cegos de que há memória à cidadania, ao papel do advogado numa sociedade moderna, à justiça e às magistraturas, ataques que só servem para corroer ainda mais o sistema de justiça, que se vê a fibra de um advogado. É fundamental que haja alguém que seja capaz de olhar na distância, de projectar o futuro. Depois do encontro de ontem na Figueira da Foz dissiparam-se todas as dúvidas. Fragoso Marques chegou-se à frente. É o homem com quem os advogados contam para os liderar num combate que não é apenas pela advocacia e que é cada vez mais um combate pela decência. Porque, como ele diz, a Ordem não pode continuar a perder.

[também no Delito de Opinião]

quarta-feira, novembro 10, 2010

E QUE TAL UMA REMODELAÇÃO?

Não foi o primeiro a sugeri-lo. Mas talvez tenha sido o primeiro a colocá-lo sob letra de forma em termos tão inequívocos.

Vital Moreira avançou ontem no Público com a ideia do primeiro-ministro efectuar uma remodelação. Vindo de quem vem não se pode dizer que a proposta seja inocente. Confesso que não poderia estar mais de acordo.

Como ainda ontem Helena Matos referia, o Governo é hoje e cada vez mais um órgão unipessoal. O que não será certamente sinónimo de uma boa liderança. Seja por efeito da personalidade de José Sócrates, seja pelos erros tremendos nas escolhas que foram efectuadas - a inclusão num governo minoritário e numa situação de crise de nomes de segunda linha, sem traquejo nem experiência política, rapidamente os transformou em autómatos das decisões do Conselho de Ministros -, o certo é que para além de uma crise económica e financeira grave, estamos a atravessar uma crise de liderança e de autoridade da qual, aliás, Cavaco Silva rapidamente se apercebeu e que lhe tem servido para obter dividendos a tempo da sua reeleição. Eu no lugar dele faria o mesmo, em especial se no horizonte estiver, como acredito que esteja num homem bem intencionado, o interesse nacional.

Num momento em que, não obstante a última sondagem, o PSD continua a dar mostras de uma grande fragilidade interna e de falta de sentido de Estado na sua liderança, José Sócrates não teria nada a perder em fazer rapidamente uma remodelação. O pior erro que um político pode cometer é o de ser capaz de identificar o erro e de não ser capaz de corrigi-lo a tempo de evitar maiores danos para o País e para a sua própria liderança.

Compreendo que José Sócrates esteja cansado, absorvido com as dificuldades imediatas da governação e com a perspectiva, sejamos francos, de ter pela frente, no actual cenário, um resultado menos bom nas presidenciais. São ossos do ofício que não podem servir de desculpa para uma prestação que nalguns domínios da acção governativa já roça o paupérrimo.

Uma remodelação feita já, além de ser prova de atenção e humildade, constituiria uma renovada prova de confiança no País e nas suas potencialidades, um sinal aos mercados da importância que a situação está a merecer e uma forma rápida e indolor de retirar a Cavaco Silva qualquer veleidade de dissolução do Parlamento no pós-presidenciais.

Na verdade, uma remodelação deve ser feita nos momentos de crise, quando importa insuflar sangue novo na corrente e conferir um estímulo acrescido para enfrentar os desafios que se seguem. Uma remodelação feita a tempo e horas, antes das presidenciais, retiraria a Cavaco Silva quaisquer argumentos de dissolver o Parlamento no Verão, tal como é desejo, cada vez menos escondido, da actual liderança do PSD.

É evidente que a remodelação que viesse a ser feita, caso José Sócrates estivesse disposto a correr por essa pista, implicaria um alargamento do campo de recrutamento, trocando figuras apagadas - independentes ou militantes do PS - por gente suficientemente brilhante para, se necessário fosse, ofuscar a sua própria acção, transmitindo ao País a ideia de que ninguém brinca em serviço e que o primeiro-ministro não tem medo da sua própria sombra e da oposição interna.

A valorização da imagem externa do Governo e do País passa também pela capacidade de conferir relevo à crítica oportuna e sagaz, retirando eficácia ao palavroso diz que disse em que a actual liderança do PSD parece estar a especializar-se.

Bem sei que não poder contar com uma oposição credível e decente enfraquece qualquer governo democrático, mas essas também são circunstâncias que escapam à racionalidade e ao controlo dos actores políticos.

A sensação que neste momento se tem de que o País é um barco em dificuldades perante a fúria das vagas, em que a tripulação se reveza a tirar baldes de água das cabines, enquanto o armador (Cavaco Silva) assiste em terra a tudo o que se está a passar fazendo comentários via rádio que são escutados pelas tripulações de todas as embarcações (mercado) que circulam nas redondezas, tem sido altamente contraproducente. José Sócrates pode ter, e seguramente que tem, neste momento uma imagem muito desgastada. E já não falo dos problemas pessoais que o afectaram por causa das guerras da sua licenciatura ou do Freeport. Mas entre a sua tripulação talvez seja possível encontrar gente menos cansada, com experiência de navegação longe da costa e em mares bravios, que seja capaz de lhe dar a mão. Quando está em causa o interesse nacional não se pode ter receio de liderar. Essa seria uma prova de grandeza. Um bom imediato, um chefe de máquinas competente e meia dúzia de tripulantes com provas dadas podem fazer toda a diferença. Acredito que seja essa a forma mais acertada de dar corpo à afirmação feita por Pedro Silva Pereira, na entrevista que recentemente deu ao Acção Socialista, de que os militantes do PS podem estar seguros de que os responsáveis sabem quais são as prioridades. Admito que sim, mas para mim a única prioridade que importa é Portugal e esta é uma prioridade que exige clarividência e coragem. Não há que ter medo de corrigir os erros de navegação e mudar o rumo, sob pena dos êxitos diplomáticos obtidos serem rapidamente desvalorizados externamente pela falta de liderança interna.

Talvez seja tempo, por tudo isso, de José Sócrates aproveitar a quadra que se aproxima para encontrar uma solução que garanta governabilidade nos próximos doze meses e estabilidade e eficácia ao programa de austeridade.

Pelo caminho (este é o meu lado utópico a falar), talvez não fosse má ideia livrar-se da tralha que na confusão da vaga o socratismo trouxe para bordo, evitando situações que sendo na aparência perfeitamente legais, como dizem, são na essência altamente reprováveis e que só servem para aumentar a desconfiança dos cidadãos na seriedade das suas instituições, na dos seus dirigentes e, desde logo, na dos partidos políticos, sem os quais a democracia jamais sobreviverá.

segunda-feira, novembro 08, 2010

A LER

"Em todos esses momentos, eu tentava calar com ruído o ruído que trazia dentro de mim, que me constituía"


"Calei-me perante este simples raciocínio. O homem era um sábio ou talvez um cretino. Não o teria podido afirmar ao certo; mas calei-me. O que ele aqui dizia, tinha-o eu pensado muitas vezes".

sábado, novembro 06, 2010

COM UMA SEMANA DE ATRASO

Graças à generosidade do F.F.M., da Ducati e de um patrocinador nacional, tive o privilégio de acompanhar o Grande Prémio de Portugal de Moto GP por dentro. Aqui ficam algumas fotografias, pese embora o atraso.






























sexta-feira, outubro 22, 2010

GARANTO QUE NÃO FUI EU

Esta notícia do Público, e o despacho que lhe deu origem, têm corrido mundo.
Aguardo as reacções dos sindicatos da praxe à divulgação pública destes factos humilhantes para a já tão desacreditada justiça portuguesa.

RECONHECIMENTO

No Benfica ou no Sporting aquilo que consegui teria outra dimensão” Vítor Baía, antigo guarda-redes do Porto, no CM.

É o problema de se jogar em clubes de bairro. Por maiores que sejam os feitos nunca se deixa de ser um puto do bairro. Nunca se é levado a sério.