quinta-feira, abril 21, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

De quando em vez vão saindo no Delito de Opinião alguns textos dispersos e mais algumas páginas. Como hoje aconteceu, com a política a dominar.


RECOMENDA-SE

Não tanto pelos textos, que têm vindo a perder qualidade, mas pelas fotografias da Victoria's Secret e pela reportagem de Francisco Serrano, no Cairo. De qualquer modo, não seria mau que Domingos F. Amaral começasse a pensar em melhorar o painel de "opinadores". Isto é, se quiser fazer uma revista honesta que se deixe ler e ver. Papel já há muito. E mau.

sexta-feira, abril 15, 2011

A LER

ESTREIA HOJE EM ITÁLIA




"Habemus Papam" é o novo filme de Nanni Moretti que estreia hoje nas salas italianas. Com Michel Piccoli, que regressa aos 85 anos no principal papel, é uma viagem pelo Vaticano, pelas suas hierarquias e corredores. É a história de um Papa que se vê confrontado com uma crise existencial depois de eleito para o trono de S. Pedro. Marco Politi, um especialista em questões do Vaticano do jornal "Il fatto" considerou-o um filme genial e aconselhou Bento XVI a vê-lo.

segunda-feira, abril 11, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

10 de Abril de 2011 A sobrecarga do sistema político e dos seus actores por uma penosa administração das trivialidades põe de manifesto a carência dessa capacidade de estabelecer prioridades e discutir a partir de perspectivas amplas sobre o que há a esperar da política. Pois toda a gente sabe que essa sobrecarga culposa não é mais que uma estratégia de fuga à complexidade.” – Daniel Innerarity, A Transformação da Política

Volto ao meu espaço. Um espaço de interioridade partilhado publicamente. A voragem dos dias e da febre mediática não se compadece com o recolhimento da reflexão, com a secura da introspecção. Ademais necessária se queremos mantermo-nos sãos.

Setenta e duas horas depois dos primeiros discursos cumpre perguntar para que serve um congresso? O corrupio de “personalidades”, de “camaradas”, de “militantes” que se deslocou a Matosinhos converge num único ponto: a culpa da crise vem de fora e agravou-se com a atitude da oposição irresponsável que temos.

Um partido feito de meias-verdades, de chavões, de unanimismos e de aplausos nunca será capaz de olhar para si, de se confrontar com a realidade e de modernizar. A um dinossáurio de proveta idade sucedem dinossáurios jovens e prematuramente ancilosados.

Lutar dentro dos partidos é hoje uma quimera. Tudo aquilo é deprimente. Começa no facto de se votarem moções de orientação política desfasadas no tempo, ultrapassadas pelos acontecimentos, quando o que seria aconselhável, depois do que sucedeu, seria suspender o conclave por quinze dias, iniciar um novo período de apresentação de propostas e de formalização de candidaturas. Mas nada disso interessa. Tudo o que seja discutir ideias para o futuro, estratégias de renovação e alargamento da participação é incómodo. O tecido social do partido é cada vez mais formado por caciques locais, delegados de informação médica que viraram autarcas, empresários da construção civil, analfabetos, guindados a administradores hospitalares e dirigentes locais pelos quais passa toda a estratégia, devidamente secundados pelas clientelas habituais. Ana Gomes vai continuar a pregar aos peixinhos. E Almeida Santos continuará a ser o farol do socratismo. Não tem, pois, com que se indignar quando vê os delegados ao congresso saudarem os convidados que ele apresenta com uma vaia. Esta gente que vaia os convidados foi eleita para lá estar. E antes foi formatada por aqueles que de congresso para congresso consideram que ele, Almeida Santos, é a pessoa mais indicada para dirigir os trabalhos. E que não acha mal que não se respeitem horários, que os dirigentes vão jantar e já não apareçam para a continuação dos trabalhos, que o secretário-geral vote depois da hora normal de fecho das urnas e que se remetam as vozes mais críticas para o momento em que a sala está vazia. Nada disso fará confusão aos delegados. A alguns, é claro, aos que enviam cartas para as embaixadas a oferecer os seus préstimos quando a hora aperta, e “conhecimentos”. Não, não me refiro aos académicos, que esses não os têm, mas sim aos outros, aos que movem montanhas em Lisboa e garantem sucatas e sinecuras no país esquecido das SCUT.

No estado em que os partidos estão só há uma certeza: atrás de um Sócrates virá outro, atrás de um coelho virá uma lebre. Norberto Bobbio sabia do que falava: “O custo a pagar pelo empenhamento de poucos é muitas vezes a indiferença de muitos. Ao activismo dos líderes históricos ou não históricos pode corresponder o conformismo das massas”. E o mesmo Bobbio citando Rousseau: “Assim que o serviço público deixa de ser a principal ocupação dos cidadãos e estes começam a preferir servir com a sua bolsa em vez de com a sua pessoa, o Estado encontra-se já próximo da ruína”.

Enfim, há quem pense que isto vai dar a volta, que temos oposição. Não temos. O PSD actual, o do senhor Passos Coelho, não passa da representação teatral de uma realidade vivida. Chain Perelman falou disso na sua dissociação das noções, na contraposição entre a realidade e a aparência. Querem melhor exemplo do que a escolha de Fernando Nobre para cabeça de lista por Lisboa? Não sei se Passos Coelho se aconselhou com Dias Ferreira, o ex-candidato a presidente do Sporting, mas quer-me parecer que Nobre vai ser o Paulo Futre de Passos Coelho. E se não houver um departamento para o chinês há-de haver um para o rei da poncha. Pela freguesia que Jardim teve no congresso do PSD/Madeira, é natural que dentro de dois meses não haja copos que cheguem para todos. Por agora o tom é “criminoso”. Imaginem como será no final de Maio, quando o calor apertar e se chegar à conclusão de que a poncha já não dará para todos. Nem os euros.

sexta-feira, abril 08, 2011

A LER

Porque hoje é sexta-feira.

AS FOTOS ATRASADAS DO WRC PORTUGAL 2011

A Citröen continua a não deixar os seus créditos em mãos alheias. Sempre simpático, sempre disponível, como só os grandes campeões sabem. Profissionalismo foi coisa que na Stobart não faltou. Melhores dias virão.
Sempre a andar, que o finlandês não gosta de perder tempo

Um último retoque e de volta à estrada.
Os ucranianos também não faltaram e pela maneira como andam estão a adaptar-se bem.
As jovens promessas da Academia do WRC vieram abrilhantar a festa.
Nuestros hermanos sempre presentes.

AS FOTOS ATRASADAS DO WRC PORTUGAL 2011

Do Brasil com muita garra. Uma pintura fora do comum para os homens da Sköda que vieram do Báltico.
Os russos começam a ser presença habitual no WRC.
Boa presença do campeão açoreano.
Kuipers, um holandês que também sabe andar depressa.

AS FOTOS ATRASADAS DO WRC PORTUGAL 2011 (2)

A Skoda está de regresso aos bons velhos tempos.

Bruno Magalhães voando a caminho do lugar de melhor português. Peter Solberg com a eficácia com que há muito nos habituou. Um campeão nunca esquece.
O intratável "iceman" Raikkönen num estilo bem diferente daquele que o popularizou na Ferrari.
Um árabe voador para quem é mais fácil andar de Ford do que de camelo.

AS FOTOS ATRASADAS DO WRC PORTUGAL 2011

O Armindo Araújo na primeira passagem por Loulé-2 Em grande estilo o homem da Sobbart O Ford na altura em que ainda andava na luta
O campeoníssimo Löeb
Latvala a andar nos limites, mas perdendo tempo

terça-feira, março 22, 2011

ARTUR AGOSTINHO

(foto do Record)
Vai deixar saudades. Pela educação, pela simpatia e, sobretudo, pelo seu desportivismo à prova de bala. O Sporting perdeu um adepto, o País um senhor. Como benfiquista que o ouviu gritar muitos golos do Eusébio, deixo-lhe aqui a minha modesta homenagem, na esperança de que o seu exemplo perdure.

sábado, março 19, 2011

DIÁRIO IRREGULAR

19 de Março

Dia do Pai. Quantos pais terão pai? E quantos terão filhos? E quantos não terão? A nossa sociedade tem dias para todos; menos para os que não conseguiram ser pais. E também para os que quiseram ser filhos e nunca conseguiram sê-lo por não encontrarem pai ou não lhes terem dado oportunidade para isso.

Pego na Ípsilon de ontem. Na capa vem uma mulher alourada de fato de treino vermelho e sapatilhas claras. Olho com mais atenção e vejo que é Catherine Deneuve, protagonista do mais recente filme de François Ozon (“Potiche”). Sempre tive horror à “cultura” do fato de treino. Porque há roupa para todas as ocasiões. Ninguém vai fazer jogging de fraque. Aquelas primeiras imagens da democratização do fato de treino, no pós-25 de Abril, marcaram-me para sempre. Eram famílias inteiras, ao sábado e ao domingo, passeando pela cidade, nos mercados, nas cervejarias, nos cinemas e nos cafés, mais tarde nos centros comerciais. Elas com ar desmazelado; eles barrigudos, de bigode, com o maço de SG, o isqueiro e os Ray Ban da Praça de Espanha. Alguns de sapatos. À frente deles os petizes de bola na mão. Todos de fato de treino. Famílias inteiras. Ao ver agora a diva na capa da Ípsilon, de fato treino, vieram-me à memória essas recordações. Só Deus sabe o quanto amei a Deneuve na minha adolescência. Também amei a Bisset, a Tuner, a Antonelli, a Kaprisky, a Fonda, a Muti, e mais umas quantas que até tenho vergonha de confessar. Mas estas eram mais do tipo “flirt”. Nunca foi como a Deneuve. Não há perdão. A Ípsilon devia ser multada. Uma simples imagem da Deneuve de fato de treino e está tudo estragado. Não se pode transformar impunemente uma deusa numa sopeira de fato de treino. Assim se destrói o sonho de uma vida.

Congresso do CDS, em Viseu. As eleições estão à porta. A ruptura com o PSD é, por agora, total. Nuno Melo fez um excelente discurso, mas no melhor pano cai a nódoa. Diz ele que “o País precisa do PS na oposição”. Foi pena Luís Nobre Guedes ter discursado depois dele. É que ele podia ter recordado a Nuno Melo que da última vez que o PS esteve na oposição o CDS e os seus compinchas do PSD deram cabo de dois Governos em três anos, menos do que o tempo de uma só legislatura, e que seis anos depois continua às voltas com os submarinos, com os sobreiros, com umas histórias por causa do seu próprio financiamento e com as chatices de Abel Pinheiro por causa de uns telefonemas. E ainda por cima, dada a rapidez com que o CDS saiu do Governo, ainda teve de aturar com um líder do PS escolhido à pressa para poder ir a votos, sendo certo que por causa disso temos hoje José Sócrates como primeiro-ministro. No lugar de Nuno Melo eu teria sido mais discreto, mais contido, e jamais me atreveria a pedir com aquela veemência o PS na oposição. E muito menos, como fizeram depois outros congressistas, a falar no estado da justiça, em clientelismo e nas nomeações para a CGD. À boa maneira estalinista, o CDS já apagou dos seus registos a “amiga” Celeste Cardona.

No final da manifestação da CGTP, a RTPN entrevista Jerónimo de Sousa. Começa-se a cantar o hino nacional. A entrevista continua. Ao lado dele um rapaz com o boné do Benfica na cabeça. Continuam a cantar o hino. A entrevista prossegue. Os chapéus não saem das cabeças. Há quem acompanhe o hino com punhos fechados. A entrevista avança. Acabam de cantar o hino. Batem palmas. A entrevista também chega ao fim. Antigamente os homens destapavam a cabeça quando se cantava o hino nacional. Lá fora, nos outros países por onde tenho passado, ainda é assim. Na Tunísia até me obrigaram a sair de dentro da piscina quando o hino começou a tocar no seu dia nacional. Em Portugal, o secretário-geral do PCP permite-se continuar uma entrevista no momento em que à sua volta se canta o hino nacional. Se fosse na ex-URSS ou em Cuba tinha ido dentro.

Leio no Expresso, numa interessante rubrica coordenada por Freitas do Amaral chamada “Países como Nós”, que o crescimento real do nosso PIB entre 2000 e 2009 foi de 5,3% e que o da República Checa foi de 33,6%. A CGTP, Mário Nogueira e Carvalho da Silva deviam ser capazes de explicar a diferença. Ganhando os checos muito menos do que nós a diferença na produtividade não deverá estar nos euros.

Um discursa como se tivesse chegado ontem ao poder. Pode falar verdade que ninguém acredita nele. O outro discursa como se nunca tivesse saído do poder. Pode não dizer uma verdade que todos o que escutam acreditam nele. Talvez por essa razão é que o primeiro tenta conter o descalabro e o segundo se prepara, de novo, para crescer eleitoralmente.

Não sei quem é que disse à Mãe que o António (não disse o nome próprio quando se referiu a ele; aliás nunca diz) “é capaz de vir a liderar o PS”. Nos seus oitenta e dois anos deve ter sido a primeira vez que a vi entusiasmada, apesar de disfarçar, com o que se passava num partido à esquerda do CDS/PP. Há pessoas para quem, depois do Santo António, por uma razão ou por outra, quando pensam no país só acreditam em milagres feitos pela família. Nunca hei-de perceber isto. Mas ela, como boa cristã e centrista, não se comove com as minhas perplexidades e já deve estar a pedir por ele. O Portas que não saiba. Deus podia perdoar-lhe, mas ao fim destes anos todos não acredito que o Portas lhe perdoasse. Há coisas que não se dizem. E muito menos se pensam. Quanto mais pedi-las ao Altíssimo.

[também no Delito de Opinião]