quarta-feira, novembro 10, 2010

E QUE TAL UMA REMODELAÇÃO?

Não foi o primeiro a sugeri-lo. Mas talvez tenha sido o primeiro a colocá-lo sob letra de forma em termos tão inequívocos.

Vital Moreira avançou ontem no Público com a ideia do primeiro-ministro efectuar uma remodelação. Vindo de quem vem não se pode dizer que a proposta seja inocente. Confesso que não poderia estar mais de acordo.

Como ainda ontem Helena Matos referia, o Governo é hoje e cada vez mais um órgão unipessoal. O que não será certamente sinónimo de uma boa liderança. Seja por efeito da personalidade de José Sócrates, seja pelos erros tremendos nas escolhas que foram efectuadas - a inclusão num governo minoritário e numa situação de crise de nomes de segunda linha, sem traquejo nem experiência política, rapidamente os transformou em autómatos das decisões do Conselho de Ministros -, o certo é que para além de uma crise económica e financeira grave, estamos a atravessar uma crise de liderança e de autoridade da qual, aliás, Cavaco Silva rapidamente se apercebeu e que lhe tem servido para obter dividendos a tempo da sua reeleição. Eu no lugar dele faria o mesmo, em especial se no horizonte estiver, como acredito que esteja num homem bem intencionado, o interesse nacional.

Num momento em que, não obstante a última sondagem, o PSD continua a dar mostras de uma grande fragilidade interna e de falta de sentido de Estado na sua liderança, José Sócrates não teria nada a perder em fazer rapidamente uma remodelação. O pior erro que um político pode cometer é o de ser capaz de identificar o erro e de não ser capaz de corrigi-lo a tempo de evitar maiores danos para o País e para a sua própria liderança.

Compreendo que José Sócrates esteja cansado, absorvido com as dificuldades imediatas da governação e com a perspectiva, sejamos francos, de ter pela frente, no actual cenário, um resultado menos bom nas presidenciais. São ossos do ofício que não podem servir de desculpa para uma prestação que nalguns domínios da acção governativa já roça o paupérrimo.

Uma remodelação feita já, além de ser prova de atenção e humildade, constituiria uma renovada prova de confiança no País e nas suas potencialidades, um sinal aos mercados da importância que a situação está a merecer e uma forma rápida e indolor de retirar a Cavaco Silva qualquer veleidade de dissolução do Parlamento no pós-presidenciais.

Na verdade, uma remodelação deve ser feita nos momentos de crise, quando importa insuflar sangue novo na corrente e conferir um estímulo acrescido para enfrentar os desafios que se seguem. Uma remodelação feita a tempo e horas, antes das presidenciais, retiraria a Cavaco Silva quaisquer argumentos de dissolver o Parlamento no Verão, tal como é desejo, cada vez menos escondido, da actual liderança do PSD.

É evidente que a remodelação que viesse a ser feita, caso José Sócrates estivesse disposto a correr por essa pista, implicaria um alargamento do campo de recrutamento, trocando figuras apagadas - independentes ou militantes do PS - por gente suficientemente brilhante para, se necessário fosse, ofuscar a sua própria acção, transmitindo ao País a ideia de que ninguém brinca em serviço e que o primeiro-ministro não tem medo da sua própria sombra e da oposição interna.

A valorização da imagem externa do Governo e do País passa também pela capacidade de conferir relevo à crítica oportuna e sagaz, retirando eficácia ao palavroso diz que disse em que a actual liderança do PSD parece estar a especializar-se.

Bem sei que não poder contar com uma oposição credível e decente enfraquece qualquer governo democrático, mas essas também são circunstâncias que escapam à racionalidade e ao controlo dos actores políticos.

A sensação que neste momento se tem de que o País é um barco em dificuldades perante a fúria das vagas, em que a tripulação se reveza a tirar baldes de água das cabines, enquanto o armador (Cavaco Silva) assiste em terra a tudo o que se está a passar fazendo comentários via rádio que são escutados pelas tripulações de todas as embarcações (mercado) que circulam nas redondezas, tem sido altamente contraproducente. José Sócrates pode ter, e seguramente que tem, neste momento uma imagem muito desgastada. E já não falo dos problemas pessoais que o afectaram por causa das guerras da sua licenciatura ou do Freeport. Mas entre a sua tripulação talvez seja possível encontrar gente menos cansada, com experiência de navegação longe da costa e em mares bravios, que seja capaz de lhe dar a mão. Quando está em causa o interesse nacional não se pode ter receio de liderar. Essa seria uma prova de grandeza. Um bom imediato, um chefe de máquinas competente e meia dúzia de tripulantes com provas dadas podem fazer toda a diferença. Acredito que seja essa a forma mais acertada de dar corpo à afirmação feita por Pedro Silva Pereira, na entrevista que recentemente deu ao Acção Socialista, de que os militantes do PS podem estar seguros de que os responsáveis sabem quais são as prioridades. Admito que sim, mas para mim a única prioridade que importa é Portugal e esta é uma prioridade que exige clarividência e coragem. Não há que ter medo de corrigir os erros de navegação e mudar o rumo, sob pena dos êxitos diplomáticos obtidos serem rapidamente desvalorizados externamente pela falta de liderança interna.

Talvez seja tempo, por tudo isso, de José Sócrates aproveitar a quadra que se aproxima para encontrar uma solução que garanta governabilidade nos próximos doze meses e estabilidade e eficácia ao programa de austeridade.

Pelo caminho (este é o meu lado utópico a falar), talvez não fosse má ideia livrar-se da tralha que na confusão da vaga o socratismo trouxe para bordo, evitando situações que sendo na aparência perfeitamente legais, como dizem, são na essência altamente reprováveis e que só servem para aumentar a desconfiança dos cidadãos na seriedade das suas instituições, na dos seus dirigentes e, desde logo, na dos partidos políticos, sem os quais a democracia jamais sobreviverá.

segunda-feira, novembro 08, 2010

A LER

"Em todos esses momentos, eu tentava calar com ruído o ruído que trazia dentro de mim, que me constituía"


"Calei-me perante este simples raciocínio. O homem era um sábio ou talvez um cretino. Não o teria podido afirmar ao certo; mas calei-me. O que ele aqui dizia, tinha-o eu pensado muitas vezes".

sábado, novembro 06, 2010

COM UMA SEMANA DE ATRASO

Graças à generosidade do F.F.M., da Ducati e de um patrocinador nacional, tive o privilégio de acompanhar o Grande Prémio de Portugal de Moto GP por dentro. Aqui ficam algumas fotografias, pese embora o atraso.






























sexta-feira, outubro 22, 2010

GARANTO QUE NÃO FUI EU

Esta notícia do Público, e o despacho que lhe deu origem, têm corrido mundo.
Aguardo as reacções dos sindicatos da praxe à divulgação pública destes factos humilhantes para a já tão desacreditada justiça portuguesa.

RECONHECIMENTO

No Benfica ou no Sporting aquilo que consegui teria outra dimensão” Vítor Baía, antigo guarda-redes do Porto, no CM.

É o problema de se jogar em clubes de bairro. Por maiores que sejam os feitos nunca se deixa de ser um puto do bairro. Nunca se é levado a sério.

sexta-feira, outubro 15, 2010

A LER

Vasco Pulido Valente na edição de hoje do Público. Também a não perder o artigo assinado por Medina Carreira, Henrique Neto, João Salgueiro e Luís Campos e Cunha. Para serem lidos com atenção, distanciamento e a memória dos tempos mais recentes.

domingo, outubro 10, 2010

DÚVIDA A DESTEMPO

Com um resultado destes, a confirmar-se no terreno, como estará ele a pensar aprovar o Orçamento de Estado de 2011? Com os votos do Bloco de Esquerda? Ou com os do PS?

sexta-feira, outubro 08, 2010

RIP CURL PRO 2010 EM PENICHE

Este fim-de-semana, se puder, não deixe de dar uma saltada a Peniche para ver as melhores estrelas do Mundial de Surf e apoiar o nosso Tiago Pires. Mais informação aqui.

O REALISMO DE FREI VENTURA

Podemos não concordar mas vale a pena ouvir, quanto mais não seja para depois se reflectir no que ele diz de forma tão singela. Via De Rerum Natura.

UMA BOA NOTÍCIA


A escolha de Liu Xiaobo pela academia sueca do Nobel para Prémio Nobel da Paz é uma boa notícia. O facto de ter sido uma opção unânime só acentua a justeza da escolha.

Escritor, comentador político e activista dos direitos humanos num país onde qualquer actividade política que fuja aos cânones dos senhores do partido é vista como uma ameaça ao regime, o galardoado tem tido uma vida em que tão depressa está atrás das grades como logo a seguir é libertado sem que se compreendam as razões para um e outro acto por parte das autoridades chinesas.

A atribuição do prémio constitui um desafio ao novo império do meio, incapaz de fazer acompanhar a modernização económica de uma abertura política mínima, mas é também a garantia de que a luta daqueles que tombaram em Tiananmen defendendo o direito à opinião e à livre expressão do pensamento não será esquecida.

A repressão poder-se-á acentuar a partir deste momento, mas a alma dos povos que constituem a grande nação chinesa sairá fortalecida

quarta-feira, outubro 06, 2010

RASCAS? NÃO, REALISTAS.

Os resultados desta sondagem da Marktest são a melhor prova de que as raparigas e os rapazes do 31 da Armada pararam no tempo. Eles e Fernando Nobre.

MEIA-CONFISSÃO

A rapidez com que eles vestem a camisola é impressionante. Dir-se-ia que se despersonalizam. Ao ruivinho desbragado só faltou dizer o resto: que o Vitória foi esportulado de uma grande penalidade. Assim, o mea culpa foi apenas meia-confissão. Entre gente pequenina é normal que assim seja.

domingo, outubro 03, 2010

FALTA DE SALDO

Está visto que o Gouveia ficou sem saldo. Já passa das 23.15 e ainda não mandou nenhum sms. Espero que não seja por causa disto.
Percebe-se agora que o sr. Pinto da Costa falava verdade quando dizia, no dia em que depôs a favor de Carlos Queiroz no inquérito da FPF, que era normal que no futebol as pessoas se tratassem por filho da p...

sexta-feira, outubro 01, 2010

terça-feira, setembro 21, 2010

EM DIA DE ANIVERSÁRIO


O aniversário d' O Bacteriófago e da T. foi celebrado com os meus amigos do Delito de Opinião. Mas também convosco que há quatro anos me seguem pela blogosfera: aqui.

sexta-feira, setembro 17, 2010

A MINHA VISÃO DO ESTADO SOCIAL

Resolvi deixar aqui a minha visão do Estado Social. Para que não haja equívocos. Logo a seguir à fotografia da Scarlett Johansson que o Pedro encontrou para alegrar o dia de hoje.

FIA GT1 EM PORTIMÂO

Este fim-de-semana há mais uma prova do Campeonato do Mundo de GT1, da Federação Internacional de Automobilismo, no Autódromo de Portimão. Para quem se queixa do centralismo de Lisboa, é uma oportunidade para ver o que os lisboetas não vêem: Pedro Lamy a guiar o Aston Martin da Younger Driver Team e Miguel Ramos a evoluir ao volante do Maserati C12 da Vitaphone que nos treinos desta manhã fez o segundo tempo, atrás do Ford GT. Se não quiser vê-los de traseira, nem estacionados, o melhor mesmo é pôr-se a caminho. Por menos de metade do custo de um bilhete de futebol, tem os melhores pilotos e as melhores máquinas a andarem só para si numa pista de antologia.

O programa completo e a evolução dos tempos pode ser acompanhada no site da FIA ou no do Autódromo Internacional de Portimão.

Ò PEDRO, POSSO ACENDER UM CHARUTO NAS SUAS ORELHAS?

Após ser entrevistado por Judite de Sousa, onde aproveitou para responder à pergunta sobre se não queria eleições antecipadas com um enigmático “não é isso que quero dizer”, cimentando dessa forma a ideia de que o nove de Setembro foi o seu harakiri político, Pedro Passos Coelho deve ter depois pensado que a Quadratura do Círculo, na SIC-N, era uma extensão do eixo do mal. De António Costa e Lobo Xavier já todos sabem o que esperar, mas não era previsível que Pacheco Pereira, a três anos de distância das legislativas calendarizadas, fosse tão demolidor para com a direcção do seu partido, em matéria de revisão constitucional.
Em meia dúzia de palavras, no mesmo dia em que Miguel Macedo fazia a entrega da versão final do projecto do PSD a Jaime Gama, Pacheco Pereira desancava – não há outro termo que se adeqúe – no documento. Refutando-o em razão das circunstâncias, do método e do conteúdo, criticando as mudanças no que concerne ao conceito de justa causa e às alterações sugeridas na Saúde, Pacheco Pereira só não chamou incompetente à direcção do PSD e ao directório de sábios que preparou o projecto talvez porque só o tenha recebido sete minutos depois de ter começado a reunião do grupo parlamentar do PSD destinada a apreciá-lo. Nem a eventual criação de uma região-piloto no Algarve, reduzindo de forma simplista a regionalização a um problema de carros, escapou ao seu juízo.
Enfim, tudo foi tão mau para Pacheco Pereira nas propostas de alteração que o projecto contém, a começar pelo reconehcimento de que o papel dos deputados é apenas para fazerem figura de corpor presente, que uma simples frase resumiu o trabalho dos génios que a prepararam: “ou foram mal pensadas há dois meses ou foram mal pensadas agora”.

segunda-feira, setembro 06, 2010

UMA MEDIDA PROFILÁCTICA

Na vida não é normal julgar as pessoas sem as conhecermos. Na política também não. Na vida, às vezes, temos a possibilidade de conhecê-las. Na política, na vida pública, na maioria das vezes, acabamos por nunca conhecê-las. Pensamos conhecê-las. O que não quer dizer que ao fim de alguns anos (ou horas) não as conheçamos de ginjeira.
Acontece que nessa mesma política o que fica registado dos que não conhecemos pessoalmente são as suas intervenções, as suas declarações, as suas entrevistas, os seus diplomas e os seus currículos. Isto é, dos que os têm. São essas pequenas coisas, esses detalhes, por vezes umas frases desgarradas, que nos permitem que os conheçamos melhor. Um pouco como se passa com os treinadores de futebol. Veja-se o que se está a passar com Carlos Queiroz, em que com excepção do próprio, que apenas considerou deselegante, e de Pinto da Costa, que achou normal, ninguém pensou que o seleccionador nacional se lembrasse de falar na mãe de um dos médicos da Autoridade Antidopagem de Portugal nos termos em que falou. Pode ser injusto, mas toda a gente se irá recordar disto, dos sopapos com que brindou um comentador em pleno aeroporto ou da forma como confundiu um polvo siciliano com uma taça de farófias.
Os exemplos na política são imensos. Alguns políticos há que conseguem ser mais conhecidos dos que outros. Seja por defenderem o sexo na horizontal, passarem a tese ao papel sob a forma de “poema” ou publicitarem os condomínios da linha de Sintra nas praias algarvias. O caso do neófito líder do PSD, Passos Coelho, arrisca-se a bater todos os recordes. Quando a uma pose de estadista e uma inteligência fulgurante se junta o privilégio de uma entrevista cristalina ao Expresso, o povo agradece, embora desconfie da esmola.
Durante anos resguardado da incidência directa das luzes, na sombra do partido, de Ângelo Correia ou de uma empresa, tomando cafés em bairros da periferia, Passos Coelho conseguiu ser político profissional, estudar, fazer uma “carreira” e disputar a liderança nos congressos do PSD até sair vencedor. Pelo caminho preparou-se para ser primeiro-ministro. Já o ouvi sublinhar. E por esta ordem. O que não será muito normal, apesar de haver quem considere isso mais meritório do que andar a assinar papéis na Câmara de Castelo Branco. A começar por todos aqueles que aceitaram ser liderados por ele e a acabar naquela equipa de sábios que integrou a comissão que apresentou uma proposta, projecto, ante-projecto, sei lá, uma coisa dessas, de revisão constitucional do PSD.
Este fim-de-semana, o Expresso ajudou-nos a conhecer um pouco melhor o homem que, criticando o actual primeiro-ministro, quer ocupar a cadeira do poder. Se quanto à crítica estamos de acordo, embora no meu caso isso me possa causar, e vá causando, alguns olhares reprovadores (enquanto não mandarem o Ramos Preto tratar de mim estou safo), já quanto à troca de lugares não estarei tão certo.
Vejamos então, alguns excertos, a todos os títulos notáveis, dessa peça, dada por quem fez questão de esclarecer publicamente que andou durante anos a preparar-se para ser primeiro-ministro:
Já houve uma moção de censura e podíamos tê-la votado. Se quiséssemos derrubar o Governo ele já tinha caído”. A lógica desta afirmação é irrepreensível. Denota um esforço de adaptação do seu discurso ao estilo que ele próprio tem vindo a censurar em José Sócrates. A teoria do “se” que Passos Coelho aqui desenvolve aproxima-se da teoria da conditio sine qua non em matéria verificação do nexo de causalidade na responsabilidade civil. Paulo Teixeira Pinto ou Duarte Lima já lhe deverão ter explicado o que isto é na fase preparatória do seu líder. Seria o equivalente a José Sócrates dizer que “já houve uma diminuição no desemprego; se quiséssemos acabar com ele, o desemprego já não existiria”. Mas num contexto destes para que serviria uma moção de censura votada pelo PSD?
A resposta vem logo a seguir: porque é claro que quem não quer fazer cair o Governo, quem não quer assumir essa responsabilidade, não o faz cair. Pede a outro que o faça. Pede a alguém que por ele assuma as responsabilidades. Daí que quando questionado sobre a hipótese que deixou no ar de uma noite algarvia de eleições antecipadas tenha prontamente esclarecido que “foi uma intervenção profiláctica”.
Aqui está mais uma coisa em que Passos Coelho demonstra boa preparação. Todos sabem que uma intervenção profiláctica visa evitar um mal maior. Logo, quando Passos Coelho está a colocar condições (são só duas) para aprovar o próximo orçamento ou agitar o fantasma da dissolução do parlamento, está apenas a procurar evitar males maiores. Quer dizer; a ter intervenções profilácticas, porque na verdade ele não quer, no seu íntimo e no dos que o apoiam, chumbar o orçamento (“um, dois, três, longe vá o agoiro”, costuma dizer bem alto ao Zeca Mendonça, não vá Cavaco Silva ouvi-lo por interposta pessoa), nem quer que o parlamento seja dissolvido e haja eleições antecipadas. Por isso apelou à intervenção do Presidente da República e fixou-lhe (é de homem) nove de Setembro como data-limite para promover eleições antecipadas, assim acautelando a eventual não aprovação do orçamento. A data, alcança-se do raciocínio de Passos Coelho, é também ela uma data profiláctica. Comprovar-se-á esta tese dentro de três dias, visto que nem ele, nem ninguém (salvo José Lello, mas todos perceberam que isso é por causa de Manuel Alegre), quer eleições antes de 2013. Ele mesmo já confessou não ter pressa em chegar ao poder, confissão profiláctica que a todos no tranquiliza (e ao professor Marcelo) porque antes de 2013 não haverá eleições.
O brilhantismo do diagnóstico de Passos Coelho e da sua receita, que nisso leva a palma em relação aos que o antecederam na última década à frente do PSD, já se tinha feito sentir aquando da aprovação do PEC.
Os idiotas dos jornalistas ainda acreditaram que nessa ocasião o PSD estava preocupado com a situação do país, com o interesse nacional, e que por isso deixara passar o PEC. Até neste blogue houve quem ingenuamente acreditasse. A começar por mim. Nada de mais errado: “os deputados do PSD não aprovaram o PEC, abstiveram-se”. E, acrescentou, “deixaram claro que só o faziam por razões que tinham que ver com a nossa imagem externa”. Aqui temos uma outra vertente do seu pensamento. O país ficou a pensar que a abstenção do PSD, no tão criticado pacote que a todos nos lixou, era genuína. Nada de mais errado. Passos Coelho quis desfazer já todas as dúvidas. Trata-se de uma variante da forma como ele assume as suas responsabilidades: a abstenção profiláctica mantém o país na ignorância porque na sua essência estavam apenas preocupações de imagem. Externa. O importante é a imagem de José Sócrates na GQ, de Ferreira Leite na Vanity Fair, de Idália Moniz na Vogue e a de Cavaco Silva na Hola.
E o estilo profiláctico não deixou de fora a revisão constitucional. Ninguém esperaria outra coisa de um político deste jaez. Como também sublinhou na referida entrevista, a revisão só não foi avante porque “é verdade que o PSD não tinha o processo concluído”. E era suposto ter?, pergunto eu. Todos perceberam que se tratou de uma proposta profiláctica. O que o PSD queria era pôr as pessoas a discutir. Tanto assim que “o PSD empenhou-se pouco a explicar a revisão constitucional”. É óbvio. Só os imbecis do PS, do Bloco de Esquerda e do PCP é que não viram isto. Vá lá que o CDS desconfiou e ficou nas lonas. O faro político de Portas já então percebera a natureza profiláctica do debate. E o seu oportuníssimo timing. O CDS resguardou-se para os referendos. É que se o PSD se tivesse empenhado tinha requisitado Fernando Lima a Belém e o Mário Crespo à SIC, antes de colocar a proposta em “debate”. Foi o que ficou por dizer sobre esta matéria.
E tudo é tão claro que Passos Coelho esclareceu a razão de ser das alterações – profilácticas – que pretende introduzir em matéria laboral: “a maior parte dos empregadores associa à lei laboral uma morosidade tal para despedir alguém que prefere manter a precariedade a ficar amarrado aos contratos sem termo”. Como é que ainda não tinham visto isto? O Nuno Rogeiro anda numa visita guiada a Loulé, mas, que diabo, e o Pedro Lomba? Dorme na forma? Como foi possível? O que Passos Coelho quis dizer é que como os empregadores não querem gastar dinheiro a pagar indemnizações, sempre que querem despedir alguém sem justa causa, preferem optar por extinções “amigáveis” de postos de trabalho para depois contratarem, para desempenhar as funções extintas, uns fulanos a recibos verdes. Só que depois vêm os tipos dos sindicatos, das comissões de trabalhadores e da ACT e fica tudo encalacrado. É uma porra! Um patrão nunca mais de livra da embrulhada e arrisca-se a acabar como aquele empresário da Alisuper, irmão de uma senhora que governa Silves há uma data de anos com um olho no Castelo e outro na Fábrica do Inglês, metido em tribunais e com os bancos à perna. Uma chatice.
Pedro Santana Lopes deve sentir-se pequenino ao lado de um líder desta estirpe. Passos Coelho está tão bem preparado para ser primeiro-ministro que até o “defunto”, salvo seja, Marques Mendes já anda a fazer maratonas no caminho de e para a praia. Quem diria, o pequenino. E Nogueira Leite sentenciou os blogues ao ostracismo. A confiança num líder em ascensão é uma coisa linda. Percebe-se, pois, que Passos Coelho concluísse a entrevista ao Expresso com uma frase magistral, uma frase que reflecte a sua valia e constitui uma farpa em José Sócrates, uma verdadeira súmula do seu pensamento político: “só tenho convicções das coisas que conheço”.
Eu também. Das que não conheço proponho medidas profilácticas. E rezo. E quando ainda assim não é suficiente meto uma “cunha” ao ministro Teixeira dos Santos, peço € 100,00 emprestados ao BPN, e marco uma consulta no professor Bambo (não convém que se saiba, por causa do professor Leite Campos, mas quando estou à rasca o Bambo não me cobra o IVA). É que a gente nunca sabe o que nos espera. Por muito que nos preparemos.

[também no Delito de Opinião]