sexta-feira, maio 21, 2010

ESTADO DE DESCONFIANÇA

A discussão e votação da moção de censura apresentada pelo Partido Comunista Português (PCP) pode não ter servido para derrubar o governo de José Sócrates, para mudar o rumo da governação ou melhorar o estado da República, mas serviu para clarificar aos olhos de todos o estado em que esta se encontra e nas mãos de quem é que ela está.

1 - O primeiro ponto que há a sublinhar é a irrelevância dos comunistas. Por muito que se esforce o PCP não consegue ganhar mais protagonismo do que aquele que lhe é conferido pelas regras da democracia que temos. E é este é igual a zero aos olhos da opinião pública. Bernardino Soares queixa-se das políticas de direita que há décadas tomaram conta do país, mas há décadas que os portugueses ja disseram, nas urnas e por repetidas vezes, que apenas contam com o PCP como enfeite do regime nas bancadas de S. Bento. O "povo e os trabalhadores" - convém assinalar que para o PCP não são a mesma realidade - até hoje foram incapazes de dar uma vitória eleitoral ao PCP - não falo em termos autárquicos -; um resultado que pudesse projectá-lo para outro papel social e político. Por essa razão, a importância e o impacto da moção apresentada estão de acordo com a emissão da TVI24, que no exacto momento em que o líder parlamentar do PCP discursava, interrompia a emissão para assinalar a chegada de Cristiano Ronaldo ao estágio da selecção nacional de futebol, na Covilhã. O PCP continua sem entender o esclerosamento do seu discurso político e está convencido de que será com os Bernardinos, as Ritas e outros promissores jovens comunistas com mentalidade de velhos que um dia chegará ao poder.

2 - A moção comunista também permitiu aos portugueses perceberem as virtualidades - se é que não as conheciam já - do discurso parlamentar de Paulo Portas e do CDS/PP. Efectivamente, não fosse o jargão marxista-leninista da moção e Portas teria pedido aos seus que votassem favoravelmente a moção do PCP. Ou seja: para o CDS/PP votar ao lado dos mesmos que apoiaram a lei da interrupção voluntária da gravidez e promoveram o casamento entre pessoas do mesmo sexo até seria irrelevante se a moção apresentada viesse numa linguagem menos esquerdizante. Uma vez mais Paulo Portas mostrou que as suas semelhanças políticas com o falecido Álvaro Cunhal vão para além da mera combatividade e camaleónica capacidade de se ir adaptando às circunstâncias sem mudar de discurso. Só falta agora o líder do CDS/PP vir esclarecer a razão pela qual as últimas decisões da chanceler alemã em matéria fiscal, como todos sabem uma perigosa socialista, são boas para a Alemanha e porquê que idênticas decisões, quando tomadas em relação a Portugal, são más. Notável a todos os títulos.

3 - Outro aspecto a realçar é que o PSD, por mais líder que Passos Coelho seja, e eu não duvido da sua vontade, continua a ter muita dificuldade em assumir-se como verdadeira alternativa ao PS. O PSD é de há muitos anos a esta parte uma das muletas que permite a subsistência de um regime que cada dia que passa é mais fraudulento em relação às promessas e valores constitucionais que proclama. Ainda há dias Passos Coelho sublinhava o sentido de estado do partido que lidera, para logo a seguir se abster na votação da moção do PCP. Para o PSD seria indiferente que a moção do PCP vingasse. Por isso se abstém. Se o Governo caísse, essa seria outra questão, e aqui nem sequer é o discurso comunista que afasta o PSD do PCP. É mais o tacticismo político. As meias-tintas. A falta de coragem e de frontalidade política na hora da separação das águas, um pouco à semelhança do seu deputado Miguel Frasquilho, que nos dias ímpares é capaz de atacar a política do Governo e nos dias pares de exaltá-la nos relatórios que assina e envia para os investidores estrangeiros. Talvez também por estas e outras é que o fundador e militante número 1 do PSD, Francisco Pinto Balsemão, dizia ontem numa entrevista a Judite de Sousa que está mais próximo de Manuel Alegre do que do actual Presidente da República, que se identifica mais com o socialista do que com o prof. Cavaco Silva. Vindo de quem vem, ou seja, de quem não precisa nem depende deste Governo, nem de Manuel Alegre, nem do PSD, nem de Cavaco Silva ou do próximo Presidente da República, para nada, isso não deixa de ser elucidativo da diferença que separa o militante número 1 do PSD do actual líder. E compreende-se por que motivo a bancada parlamentar do PSD suspira pelo anúncio da recandidatura de Cavaco Silva. Talvez aí possa encontrar o cimento que lhe falta em matéria de ideias e de projectos.

4 - Pensarão alguns que depois do que acima escrevi vou agora partir para o discurso laudatório das qualidades do primeiro-ministro. Não se iludam. Este Governo foi o melhor que se arranjou. E José Sócrates foi o líder que o PS escolheu. A bancada parlamentar do PS é o reflexo dessa escolha. Os bons e os maus resultados passam por aí, pelas escolhas que foram feitas. Por muito infelizes que os portugueses estejam, e eu admito que sim, essa é que é a realidade. Convém que tenhamos a noção disso. Se o PS é hoje poder foi porque não havia mais ninguém em quem os portugueses confiassem. A Dr.ª Manuela Ferreira Leite e o Dr. Paulo Portas podem não gostar de ler isto, mas essa foi a verdade. Tivessem sido eles capazes de fazer melhor e não teriam agora motivo de queixa. Se não temos hoje melhores líderes, melhores dirigentes, uma classe política mais capaz, isso também partiu dos próprios portugueses que dão mais importância a Cristiano Ronaldo do que ao cumprimento dos deveres de cidadania. A falta de participação, o desinteresse, o discurso demagógico e populista, a falta de renovação dos partidos e das instituições democráticas, é que nos conduziu até aqui. Ao contrário do que pensa Pacheco Pereira, a culpa não é de José Sócrates, nem do PS, e menos ainda de Mota Amaral. O regime não chegou a este estado por culpa do PS. O regime chegou a este estado porque a democracia foi incapaz de renovar-se, porque as suas estruturas anquilosaram precocemente, porque o importante para as figuras gradas do regime era comprar "BMW's", ter telemóveis da 3ª geração ou ir de férias para Cancun com recurso ao crédito fácil. Por isso hoje continuamos todos de tanga, a mostrar aos amigos os calções de banho comprados na Quinta do Lago e dizendo alto para todos ouvirem que a sangria do Gigi estava magnífica, enquanto se desliga a chamada telefónica do chato do "meu gestor de conta" - o melhor símbolo do novo-riquismo e da parolice em que temos vivido -, que insiste em alerta-nos para a falta de pagamento da prestação do cartão de crédito. Mas num país onde um ex-primeiro-ministro revelou numa entrevista, para justificar o esforço que tinha feito em prol da pátria, que depois de sair do Governo teve de pedir emprestados 50.000 euros à banca para manter o seu nível de vida, de quê que estavam à espera?

5 - Por estas e por outras é que a votação da moção do PCP é mais uma daquelas boutades que não aquecem nem arrefecem. Numa lixeira a céu aberto faz pouca diferença o estar-se ao ar livre porque o cheiro não deixa por isso de ser insuportável. Ao invés do que sonha o meu amigo Pedro Correia, não é o PS nem o primeiro-ministro que estão alheados da realidade. É todo um país que se alheou de si próprio. É todo um país que definha e que há muito perdeu o sentido de si, enquanto os membros da sua classe política mais não fazem do que oferecerem a si próprios a tranquilidade de se imaginarem importantes. Jorge de Sena chamou-lhes uma camarilha. Eu não tenho nem um milésimo da sua autoridade e da sua coragem para colocar as coisas nesses termos. Por isso abstenho de qualificá-los. Não quero ofender ninguém.

Em tempo: Este
post que acabei de ler só confirma o que acima escrevi. O rei vai nu, sabe que vai nu e ainda se diverte com a figura que faz. A minha esperança é que o Ricardo Araújo Pereira também concorra às próximas eleições presidenciais. Já deve ter passado os 35 anos e o Pedro Mexia sempre poderia ser o seu mandatário nacional. Mesmo com a crise isto havia de animar.

[também no Delito de Opinião]

quarta-feira, maio 19, 2010

UMA MONARQUIA EM CHAMAS


A imagem divulgada pela Reuters da capital da Tailândia em chamas diz tudo sobre o papel desempenhado por algumas monarquias nos tempos modernos. A crise que dura há meses e se arrasta numa espiral interminável de violência, ilustra bem a dificuldade que há em pôr termo à loucura que tomou conta das ruas.
A Tailândia está há muitos anos na mãos de generais e de elites ocidentalizadas. A corrupção há muito que é conhecida. O seu povo venera o Rei, mas ciclicamente lá vêm os tanques para a rua.
É a prova, se é que ainda seria necessária, de que a violência tanto atinge repúblicas como monarquias e que estas não são garantia de estabilidade, paz e progresso. Há boas e más repúblicas como há boas e más monarquias e não é a natureza republicana ou monárquica do Estado que faz a diferença. São os homens e as regras.
Se a Tailândia fosse hoje uma república não faltariam por cá os nossos monárquicos, que se especializaram em acções de "palhaçada urbana", para apontarem o dedo à desgraça dos tailandeses. Como é uma monarquia mantêm-se silenciosos, certamente à espera que tudo volte à normalidade. Nem que seja à lei da bala e muitos mortos depois.

terça-feira, maio 18, 2010

UMA VISÃO ECONOMICISTA DA VIDA

O Pedro Correia, neste mesmo espaço e com a independência que lhe é reconhecida, já lhe chamou um "notável exercício de hipocrisia política". Eu acho que é bem mais do que isso e que é a imagem de uma certa maneira de estar na vida e na política que já nos custou ter chegado até aqui.
Com efeito, a declaração de ontem do Presidente da República mais não foi do que uma tentativa, espúria, de salvar o que resta do seu atabalhoado mandato, onde tudo se tem misturado: as questões importantes com as marginais, a lamúria com a constatação da incapacidade de acção e a irrenunciabilidade dos poderes presidenciais.
O Presidente da República veio utilizar um argumento económico numa questão que para a Igreja, para muitos portugueses e para ele próprio, pelo menos até ontem, era uma questão fundamental na forma como concebem a família, a sociedade e o direito que nos rege. E digo até ontem porque a partir do momento em que o Presidente da República preferiu contornar a legitimidade constitucional e democrática do veto político para evitar ser confrontado com uma decisão da Assembleia da República, que colocaria definitivamente em xeque a sua recandidatura, tornou mais clara a sua posição e os seus interesses.
Veio então o Presidente falar de consenso, dizendo que preferiria que os partidos com assento parlamentar tivessem encontrado uma solução mais do seu agrado, que beliscasse menos as concepções por si defendidas. Está no seu direito apelar ao consenso, mas ao fazê-lo o Presidente da República esquece que Portugal só está na situação em que está, que o país só atravessa a crise que hoje vivemos porque há uma coisa chamada consenso que tem servido para tudo e para nada. É o consenso a causa do nosso atraso secular, da inoperância, da falta de músculo no combate à corrupção, do laxismo das instituições e do abastardamento da ética da responsabilidade a que ele ontem também se referiu.
O convívio em democracia assenta em regras, em valores, em princípios. A vida política é feita de combates, de opções claras e determinadas. Quando em nome de um hipotético e malogrado consenso e de uma crise económica e financeira, o mais alto magistrado da Nação está disposto a abdicar daquilo em que acredita para se colocar à margem da discussão política, está apenas a dar uma triste imagem de si e do seu papel.
A interiorização das regras do Estado constitucional e o adequado funcionamento do seu sistema de pesos e contrapesos não podem ficar dependentes da acção dos especuladores ou das taxas de juro.
Ao promulgar a lei sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo com o argumento de que não pretendia desviar as atenções, fazendo-o quatro dias depois da saída do Papa Bento XVI de Portugal, o Presidente da República revelou as dificuldades que tem em conviver com o elementar da democracia e do funcionamento das instituições.
Cada um acredita no que quer e escolhe para si as razões por que há-de ficar na história em cada momento. Cavaco Silva escolheu as do prato de lentilhas. As mesmas que serviram para tornar razoável perante alguns espíritos 48 anos de autoritarismo e um golpe de estado consensual promovido por militares descontentes com as suas carreiras. E também as mesmas que serviram para afastar e recolocar um assessor da sua entourage caído em desgraça perante a opinião pública.
Em termo práticos, a consequência do veto seria o reenvio da lei para a Assembleia da República. Tratar-se-ia de um procedimento meramente burocrático destinado a cumprir com as exigências constitucionais. O desviar de atenções não seria maior do que aquele que foi proporcionado durante uma longa semana pela vitória do Benfica no campeonato ou pela visita do Papa. E seguramente que ficaria muito aquém daquilo que acontecerá dentro de menos de um mês quando Portugal iniciar na África do Sul a sua participação no Mundial de futebol.
Refugiando-se nos argumentos que escolheu, o Presidente da República mostrou claramente as dificuldades que dilaceram o seu espírito e tornou evidente o seu desconforto quando se trata de escolher entre uma ética de valores ou uma ética de conveniências e, tristemente, acabou por escolher a segunda. Entre o arrojo da política e a defesa dos ideais ou a manutenção do status quo e da paz podre do regime, o Presidente da República escolheu o actual estado de coisas.
Pode ser que um dia todos venhamos a reconhecer que a promulgação desta lei é uma vitória dos valores da civilização. Pode ser que amanhã todos já nos tenhamos esquecido da polémica. Pode ser que tudo volte a cair no esquecimento. Mas mesmo que isso não venha a acontecer de uma coisa tenho já a certeza: a atitude do Presidente da República mostrou por que razão Portugal continuará a ser um país adiado, atrasado, acomodado e sem esperança.

[também no Delito de Opinião]

segunda-feira, maio 17, 2010

NOVO ÊXITO


Integrado na equipa oficial BMW, Pedro Lamy somou mais um êxito, a antever uma excelente jornada para Le Mans.
Depois do sucesso em SPA Francochamps, de novo a vitória nas exigentes 24 horas de Nürburgring.
Bem se pode dizer que ele e José Mourinho só sabem mesmo ganhar. Para bem deles e das cores nacionais.
A notícia mais desenvolvida poderá ser encontrada no Autosport, de onde também veio a fotografia que ilustra este post e que com a devida vénia aqui reproduzo.

PORTUGAL, MACAU, LIBERDADE DE EXPRESSÃO E ANONIMATO VIRTUAL

João Paulo Meneses e o Ponto Final, um honesto jornal de Macau com o qual colaborei durante alguns anos e a que um dia será feita a devida justiça, resolveram assinalar os dez anos do Fórum Macau com um interessante artigo. Ou a melhor prova de que o anonimato na Internet tenderá a ser cada vez mais efémero. Ainda bem.

HABANA DAY

Como depois dos touros virá alguém proibir os charutos, aqui fica o convite para que passem um excelente dia entre charutos, boa comida e bons vinhos.
No próximo dia 22 de Maio terá lugar o Casino Estoril o "Habana Day". O programa começa logo às 9.30 e inclui palestras sobre a "Génese das marcas e da denominação Habanos", "Um olhar sobre as marcas mais importantes na história dos Habanos", "Um olhar sobre a história e cultura de Cuba", workshops com a presença de mestres enroladores cubanos, provas dedicadas ao "Montecristo Petit Edmundo" (emparelhado com uma reserva especial de 2001 da Casa Ferreirinha), ao "Montecristo Open Eagle" (emparelhado com um Ferreira Vintage de 2007) e ao "Montecristo n.º 2" (emparelhado com o soberbo Glenrothes Select Reserve) e um almoço buffet. O melhor estará reservado para o jantar. Na ementa, para além dos aperitivos da praxe (mojitos e daiquiris do Havana Club), haverá sopa de peixe de rio Dona Helena, tornedó de vitela com molho de canela e whisky e delícia fria de chocolate com coração fondante (?) de amêndoa.
Se forem capazes de esquecer que por detrás da iniciativa também estará uma jornada de propaganda (daí a presença do "compañero" Embaixador de Cuba no evento), estou certo de que passarão um dia magnífico.
E não se esqueçam de dizer que vão da parte deste vosso amigo.

DE NOVO A FESTA BRAVA

(foto EPA)
Bem sei que o tema é suficientemente polémico, fracturante como alguns iluminados gostam de dizer, que as posições estão há muito radicalizadas, e que intervenções de organizações como a Associação Animal, em vez de trazerem argumentos inteligentes e ponderados ao debate apenas têm servido para extremá-lo ainda mais.
Mario Vargas Llosa é um homem que dispensa apresentações e não será pelo facto de estar ao lado dos adeptos da festa brava que vai deixar de ser lido ou respeitado, por muito que a aprtir de agora o queiram votar ao ostracismo.
Ninguém poderá ficar indiferente quando se diz que "Chi vuole proibire la tauromachia, in molti casi, e adesso nel caso di Barcellona, lo fa solitamente per ragioni che hanno a che fare più con l’ideologia e la politica che con l’amore verso gli animali".
Proibir a festa brava poderia ser neste momento não menos infame do que proibir o consumo de marisco, mas não é nesse ponto que o debate deverá centrar-se.
Tal como escreve Vargas llosa, pelas restrições à liberdade que uma proibição implica, convirá ter sempre presente que "a imposição autoritária no âmbito do prazer e da paixão, é uma coisa que mina um fundamento essencial da vida democrática: a liberdade de escolha".
Muitos haverá que discordam do ponto de vista do escritor. Eu próprio tenho dúvidas em aceitar determinado tipo de atitudes e a força de certos argumentos, mas confesso que o da liberdade de escolha, enquanto pilar estruturante da nossa vida em comunidade tem muita força e não será fácil encontrar o justo equilíbrio entre posições extremas.
Quem já viveu o silêncio sepulcral da Maestranza e sentiu um fio de suor a escorrer-lhe pelas costas numa tarde quente e solarenga, quem leu Ortega y Gasset, Unamuno ou Hemingway, viu alguns desenhos de Francisco de Goya, percebe do que falo e da importância do tema.
É que, pessoalmente, também tenho muita dificuldade em compreender alguns adeptos da tese proibicionista que depois não se coíbem de levar os seu próprios cães para a praia, deixando-os soltos e a fazerem as necessidades em qualquer lado, indiferentes à falta de higiene e de respeito inerente a tal atitude e ao desconforto que provocam nos demais utentes do espaço público, obrigados a coabitarem com a satisfação canina e o alheamento irresponsável dos seu donos.
Por tudo isso é importante ler o que saiu no Corriere della Sera, depois de já ter sido publicado em Espanha, no El Pais, e trazer de novo o debate para a praça pública.
Somos nós, cidadãos, que temos de decidir até onde queremos que vá a nossa liberdade. Antes que um fundamentalista qualquer decida de hoje para amanhã que estaremos condenados a comer batatas com acelgas, a deixar de tomar banho para não gastarmos água ou a acatar a "decisão" do rafeiro do vizinho que resolveu aliviar-se na priemira toalha de praia que encontrou.

P.S. É bom que se saiba que sou um apaixonado por animais, cães e touros incluidos
.

sábado, maio 15, 2010

FAÇO MINHAS AS PALAVRAS DO FERREIRA FERNANDES

Se a Bruna andasse nos copos, a dar uns chutos, a fumar uns charros à socapa ou a prestar serviços nocturnos ao domicilio, não haveria problema. Como resolveu ganhar umas coroas honestamente e não fez disso segredo, caem-lhe em cima os ayatollahs. Essa pode ter sido a oportunidade da "stôra" para sair do buraco e livrar-se da hipocrisia.

sexta-feira, maio 14, 2010

EM PRIMEIRA MÃO


Este é o Spider 4C, o carro que a Alfa Romeo escolheu para lançar no Ano do Centenário. Podem começar a sonhar.

NEM MAIS

Nestes tempos de crise, faço minhas as palavras de Giovanni Sartori: "Dunque, non dobbiamo spendere soldi che non abbiamo, e al tempo stesso non dobbiamo «spendere male» i soldi che abbiamo". A ler, aqui.

PARTIU UM CIDADÃO

Um dia, em 1982, numa oral de Finanças Públicas, quando me sentei diante dele para prestar provas, olhou para mim, leu o meu nome e disse-me: "De que é que hoje quer falar? Podemos falar sobre tudo menos sobre inflação. Sobre isso já discutimos o suficiente". É claro que depois falámos de muitas outras coisas, tudo correu normalmente e eu sempre recordei a sua memória prodigiosa.
Meses antes tivéramos uma acalorada discussão sobre um trabalho meu. O tema era a inflação e nessa altura eu tinha sido severamente criticado pelas posições que então defendi e que em tudo contrariavam aquilo que ele pensava sobre o assunto.
Numa escola onde ter posições diferentes das dos mestres era muitas vezes meio caminho andado para o chumbo, ele foi um dos poucos que foi capaz de marcar de forma decisiva os meus anos de faculdade. Não só pelo modo como tratava com os alunos, mas em especial pela forma como com eles discutia e os obrigava a defenderem e justificarem as suas próprias posições. Ele obrigava-nos a pensar e mesmo quando discordava era capaz de reconhecer a autonomia do pensamento e a liberdade criativa onde ela existia e merecia ser incentivada. Depois, é evidente que era também preciso saber da matéria, senão nada feito. Não era um daqueles que se deixava enganar com meia dúzia de balelas inconsequentes e coladas com cuspo. Por isso havia quem entre os alunos não gostasse dele. Ele não tolerava a incompetência, nem a falta de honestidade e de rigor intelectual.
Quando esta manhã, ainda meio ensonado, acordei para a triste notícia do seu falecimento, tive alguma dificuldade em acreditar que não voltaria a ouvi-lo, nem a ler novos escritos.
Ainda há dias pensara nele quando o Governo anunciara a tributação retroactiva das mais-valias e estranhava ainda não ter ouvido nenhum comentário dele sobre o assunto. O regime de tributação das mais-valias era mais um dos seus projectos de investigação que ficou a meio.
Hoje, infelizmente, percebi a razão para o silêncio, confirmada há pouco depois de passar pela sua página na Internet.
Morreu José Luís Saldanha Sanches.
Ele, que era pouco dado a lamechices e muito virado para o lado prático das coisas, certamente que encararia este dia como apenas mais um. Eu é que não ficaria de bem com a minha consciência se não deixasse aqui ficar umas breves linhas.
Por muitos que sejam os manuais, as folhas escritas e as palavras gravadas sobre as matérias que ele gostava de tratar e de investigar, mais dia menos dia, com a velocidade de produção legislativa deste país, tudo isso ficará desactualizado.
Porém, há uma coisa que nunca ficará desactualizada nem mudará por mais anos que passem: o exemplo. O exemplo de um homem simples, interessado, senhor de um humor de rara inteligência, de uma extraordinária lucidez e de uma verticalidade e coragem à prova de bala.
O país pode ter perdido um ilustre jurisconsulto, um notável pedagogo e um emérito fiscalista. Não deixará de haver por aí quem tenha capacidade e conhecimentos e esteja disponível para ocupar esse lugar e continuar a notável lição do mestre.
Mas os portugueses, esses, perderam um dos seus. Os portugueses perderam um cidadão. Um dos melhores. E isto é que é dramático. Num país onde são cada vez menos os cidadãos e mais os homens-massa, não há nada nem ninguém que possa fazer esquecê-lo.

[também no Delito de Opinião]

quarta-feira, maio 12, 2010

EXCESSOS POUCO REDENTORES

Tenho acompanhado com um misto de curiosidade e espanto a viagem de Bento XVI a Portugal.
Ainda com a imagem bem fresca na minha memória de João Paulo II e da viagem que fiz a Roma e ao Vaticano no ano que antecedeu o seu desaparecimento, confesso que tenho olhado para o pontificado de Ratzinger com uma grande desconfiança. O seu papel enquanto guardião da doutrina oficial e a forma como tem conduzido a Igreja desde que assumiu o seu comando, em nada contribuíram para afastar esse estado de espírito.
A imagem do Papa, para além daquilo que é transmitido pelo próprio nas suas fugazes aparições, textos e discursos, é muitas vezes a que resulta do que é transmitido pelos seus adjuntos e secretários e da forma como as suas mensagens são filtradas até chegarem ao exterior. E é exactamente por aqui que as coisas têm claudicado. Sucessivos escândalos, declarações evasivas e pouco esclarecedoras sobre os mesmos, uma certa complacência com os poderosos e um perdão sempre pronto em relação a situações de extrema gravidade, deram alimento às vozes que fazem do ataque às religiões e, em especial, ao catolicismo, uma bandeira de afirmação no contexto mundial.
A Igreja perdeu força e protagonismo com Bento XVI mas parece que aos poucos começa de novo a recuperar a sua influência e a resgatar uma credibilidade que tão mal tratada tem sido.
A melhor prova dessa recuperação é dada pelas corajosas palavras que proferiu no voo que o trouxe até Lisboa. Ao condenar de forma tão clara e directa os erros cometidos, ao afirmar e reconhecer que os maiores inimigos da Igreja estão dentro dela, Bento XVI assume de novo o protagonismo e garante que está atento ao que se passou e está a passar. Essa é a maior e melhor mensagem de esperança e de confiança no futuro que poderia transmitir.
Como católico e cidadão esse é um estímulo poderoso para o trabalho futuro. A fortificação do espírito numa muralha ética, a coragem de enfrentar os desafios, o ser capaz de olhar para dentro e de ajuizar qual o melhor caminho a seguir, percebendo que é a Igreja que terá de se adaptar aos novos tempos e não o contrário, é o papel e o que se espera de um líder com a dimensão religiosa e política do sucessor de S. Pedro.
Mas o conforto que isso me dá não me descansa o espírito noutras vertentes.
Percebo e reconheço a importância e o interesse para todos da viagem a Portugal de Bento XVI, numa altura de crise internacional e interna, num momento em que todos os esforços serão sempre insuficientes e ficarão aquém do necessário para minorar o sofrimento de muitos milhões, mas tenho muita dificuldade em aceitar alguns excessos, venham eles de onde vierem.
Dou de barato as complicações estradais, a tolerância de ponto decretada pelo Governo ou os milhares que foram gastos na preparação da visita e no alindamento de Lisboa. Estou certo de que os católicos portugueses não chorarão a contribuição que os seus impostos irão dar para as despesas da visita, embora qualquer pessoa de bom senso e no seu perfeito juízo possa pensar que setenta e cinco milhões de euros para serem "derretidos" em três dias é uma verba excessiva para com a contenção, e a discrição, que a fé também reclama e de que a Igreja deveria ser a primeira a dar exemplo.
Incomoda-me a ostentação excessiva, a forma bajuladora e até certo ponto subserviente como as instituições da República e os seus titulares se comportam nalgumas cerimónias públicas; o tempo dado pelos canais públicos de rádio e de televisão à visita, e, em especial, determinado tipo de manifestações que apenas servem para rebaixar o evento, o seu interesse ecuménico e político e conferir natureza folclórica àquilo que era suposto ser sério. A oferta de camisolas de equipas de futebol em pleno Terreiro do Paço é um exemplo disso mesmo.
Seria bom que momentos como esse, e que eu sinceramente espero não ver repetidos, não servissem para desvalorizar a importância desta visita e que, naquilo que ainda falta cumprir, as instituições da República e os seus titulares não se comportassem como meros serventuários da Santa Sé ou dos secretários de Bento XVI. Tudo o que é excessivo é contraproducente. Tudo o que é forçado é ridículo. A Igreja e a República não podem em momento algum ser confundidas e seria bom que isso não passasse despercebido. Para bem de uma e de outra instituição.

segunda-feira, maio 10, 2010

OPORTUNA LEMBRANÇA


FOTO DEL GIORNO

É a imagem que corre mundo. A fotografia é da ANSA, mas a notícia veio de Itália. É assim o Benfica: grande cá dentro e lá fora.

CAMPEÃO É QUEM CHEGA NO FIM À FRENTE

Trinta jogos depois, com mais de cem golos marcados, setenta e seis pontos amealhados, o melhor marcador do campeonato e cinco pontos de diferença em relação ao segundo classificado. Ali ao lado dediquei o título a quem gostava de futebol. Agora é hora de celebrar cá em casa, com a minha gente, serenamente, em paz. Campeões, pois claro. E não é que desta vez o campeão da pré-época foi o mesmo que ganhou a Liga Sagres?

sexta-feira, maio 07, 2010

CADA VEZ MAIS LATINOS

Para quem aqui há uns anos advogava a alteração do nosso sistema de representação proporcional para um sistema maioritário do tipo britânico, com o argumento de que dessa forma seriam geradas maiorias fortes e governos estáveis, o resultado das eleições legislativas de ontem no Reino Unido não deixa de ser uma lição para quem sempre se preocupou mais do que devia com a estabilidade. O problema, como se vê, não está no sistema eleitoral. Só há bons ou maus governos e normalmente os maus é que criam problemas, qualquer que seja o sistema. Acontece por lá do mesmo modo que acontece por cá. O povo é que sabe.

quarta-feira, maio 05, 2010

QUALQUER COISA

Duas linhas aqui a anunciar outras duas no Delito de Opinião, que hoje bateu todos os recordes e se tornou no primeiro blogue nacional em termos de audiência. É só para vos dizer que estou vivo e de boa saúde. Não tarda estarei de volta.

quinta-feira, abril 29, 2010

EXEMPLAR

A imagem é do Guardian (Andres Kudacki/AP), mas podia ser de qualquer outro jornal europeu. Em Inglaterra, em França, em Espanha, em Itália (Corriere dello Sport, Gazzetta dello Sport), onde é recebido como um herói, por toda a Europa, o nome de José Mourinho é hoje idolatrado. Só um grande treinador, com uma equipa de dispensados de outras equipas, de jogadores em final de carreira e de alguns que se querem finalmente afirmar, se poderia dar ao luxo de eliminar o Barcelona, campeão europeu e mundial, em sua própria casa. Depois de um super Inter de ataque em Milão, tivemos um super Inter a defender. A 2ª Taça da Liga dos Campeões está mesmo ali ao lado, em Madrid. Um exemplo de profissionalismo, inteligência e mestria táctica. É bom saber que há portugueses assim.

quinta-feira, abril 15, 2010

IMPRESSIONANTES

As impressionantes imagens da actividade de um vulcão, aparentemente adormecido há décadas, vêm de novo alertar para as mudanças que a Terra está a sofrer e que diariamente se manifestam, quer nas alterações climáticas e fenómenos metereológicos associados, quer na agitação que se verifica no seu centro e de que constituem notícia os mais recentes e devastadores terramotos do Chile à China, da Califórnia à Itália.

VOLTAR AO TOPO

Não é por acaso, nem à custa de milagres, que se chega . Tudo tem um caminho.
Aguardemos por Coimbra para ver se a cidade mantém o mesmo encanto na hora da partida.

REFÉNS DAS PRESIDENCIAIS

As notícias desencontradas, como esta, que todos os dias inundam as redacções dos jornais sobre o eventual apoio do PS a Manuel Alegre já fedem e começam a dar do PS, dos seus dirigentes e dos seus múltiplos, e alguns putativos, porta-vozes a imagem de um partido refém.
É evidente que a situação económica e financeira do país aconselhava alguma cautela no "ataque" às presidenciais. O atraso na preparação do Orçamento, as negociações relativas ao PEC e a necessidade de estabilização parlamentar, aconselhavam moderação no discurso e em especial a contenção dos apparatchiks.
Manuel Alegre, como cidadão estimado e respeitado por portugueses de todos os quadrantes, entendeu iniciar movimentações junto dos seus apoiantes e avançar com a sua candidatura presidencial. Outros também o fizeram sem que por isso fossem criticados. Não há aí nada de mal, de grave, de ilegal ou de ilegítimo. Alegre não sofre de qualquer capitis deminutio que o impeça de ter vida pública, de se pronunciar sobre os temas de actualidade quando muito bem entende ou de apresentar a sua candidatura presidencial no momento que considere mais oportuno.
De igual modo, o facto de haver quem se precipite no apoio a um candidato para daí retirar dividendos políticos imediatos, cavalgando a onda do descontentamento enquanto pode, tirando partido da ambiguidade do discurso e da indecisão política de terceiros, pode ser criticável, mas é algo com que em democracia e em política se tem de contar.
Tenho ouvido dizer que cada um tem o seu tempo e que o tempo dos candidatos não é necessariamente o tempo dos partidos. Até aí estamos todos de acordo. Cada um gere o seu tempo como melhor lhe convém. Convirá também é que o faça, enquanto dirigente político e responsável partidário, de acordo não com a suas conveniências pessoais mas em função do interesse nacional e do interesse do partido, que não sendo obrigatoriamente coincidentes aconselham a que seja dada prevalência ao primeiro em todas as circunstâncias.
A multiplicação de intervenções contraditórias sobre as presidenciais, a insistência e o à-vontade com que alguns dirigentes menores, sem currículo e sem história, se têm revezado nas críticas a um eventual apoio à candidatura de Manuel Alegre, e as ignóbeis tentativas de silenciamento e refreamento nas manifestações de apoio ao candidato por parte de um núcleo conhecido da elite dirigente do PS, que não esconde a soberba nem a diletância, tão querida dos medíocres, quando critica a agenda de Manuel Alegre, tentando condicionar o apoio do PS ao seu candidato natural; o que vão fazendo com ameaças veladas de futuro não apoio - como se o seu eventual apoio enobrecesse o PS, alguém ou alguma causa -, indicam que o tempo para a direcção do partido se pronunciar está a chegar ao fim.
A chegar ao fim, bem entendido, se essa mesma direcção ainda quiser evitar uma nova dêbacle eleitoral, uma humilhação de cariz idêntico à que, há quatro anos, quando alheia ao país e ao partido, promoveu a candidatura de Mário Soares. Se for este o sentido do silêncio da direcção do partido então fica compreendido qual o seu tempo e qual a razão para que militantes como José Lello, Capoulas Santos ou Renato Sampaio se permitam fazer afirmações desconsiderantes e que roçam o insulto ao candidato e à inteligência dos militantes, sem que ninguém com responsabilidades, alguém que não dependa do "aparelho" e das gentes do "aparelho" para ter um lugar em S. Bento, à frente de uma concelhia ou de um instituto público para poder ser reconhecido na rua, se pronuncie.
Não será por quererem encostar Manuel Alegre ao Bloco de Esquerda que este deixará de ter a estatura e a dimensão que tem. Ou que o PS deixará de ser o partido que sempre foi, ainda que por circunstâncias conjunturais possa dar a ideia de estar refém das presidenciais e sob sequestro dos seus apparatchiks, sem que a sua classe dirigente mostre ter a força e a coragem, porque é disso mesmo que se trata, de acabar com a vozearia insensata, que até nos assuntos mais prementes se manifesta, em razão de uma tremenda falta de decisão e inabilidade na condução dos processos mais sensíveis, que, em rigor, só serve para desprestigiar o partido, dar cartas às oposições, desvalorizar as presidenciais e enaltecer o papel do actual Presidente da República.
A miopia em política paga-se caro. E com juros muito altos. E normalmente saem ambos a perder: o país e o partido.

quarta-feira, abril 14, 2010

A MAGIA DO TANGO

Por esta magnífica foto de Nacho Doce (Reuters) se percebe a inclinação do Estádio da Luz. E a inclinação, como resulta da posição dos jogadores, é para sul. Houve até quem tivesse que se deitar dentro da baliza para não sair borda fora.
Gente fraca tem sempre que ter alguma coisa a que se agarrar para justificar a sua própria incompetência. Quantos são, quantos são? 26!

domingo, abril 11, 2010

SALVAGUARDAR O REGIME

O caso que aí está é de outra natureza. E é um caso porque reforça a suspeita de que em qualquer negócio do Estado há sempre quem aproveite para meter dinheiro ao bolso. Essa miséria moral endémica, aliada a uma Justiça incapaz de cumprir o seu papel e que alastra a todos os níveis de decisão, comprometendo muitas vezes decisores políticos, é a doença mais grave deste regime que se desacredita processo após processo, sem que ninguém pague por eles” – Fernando Madrinha, Expresso, p. 9

O que Fernando Madrinha lucidamente escreve, mais do que uma simples constatação é, pela força do meio em que o faz e com a acutilância e o desassombro que marcam a diferença entre um espírito acomodado e um homem livre, mais um pungente alerta para a situação em que estamos.
Para o caso, é absolutamente inócuo saber se essa miséria moral endémica de que ele fala é ela própria uma consequência dessa confrangedora incapacidade do poder judicial para se fazer ouvir em termos tais que possa ser reconhecido, respeitado e querido pelos seus destinatários, ou se o poder judicial é o reverso de uma moeda que tem na outra face o rosto dessa miséria moral.
Sabemos que são os homens que fazem as leis e, entre nós, também sabemos que elas são muitas, más, confusas e que obedecem a uma lógica de “motorização da produção legislativa”, para fazer uso da feliz expressão de Carla Amado Gomes, que em nada contribui para contrariar tal incapacidade.
Como escrevia Aristóteles, “de nada aproveitará uma legislação, por muito útil que seja e aprovada unanimemente por todos os cidadãos, se estes não adquirirem os hábitos nem forem educados segundo o espírito do regime estabelecido”.
É que tal miséria moral endémica, ainda para voltar a pegar na obra recuperada por Sula de uma velha cave de Scepsis em 80 a.C., será o resultado de nas democracias os homens se conduzirem de acordo com aquilo que pretendem e, dizia ele citando Eurípides, “para onde o impulso os conduz”, o que será também uma das manifestações da liberdade. Aristóteles dizia ser esta uma situação iníqua, porque “viver de acordo com o estabelecido pelo regime não deve ser considerado uma servidão”.
Mas basta olhar para as nossas elites políticas e judiciais e perguntar ao cidadão comum como as vê para se compreender que hoje o regime vive no limbo. Não no limbo da liberdade ou do caos. Mas num limbo ético e moral que subsiste e fervilha nas secções dos partidos, nos gabinetes técnicos das autarquias, em muitas das sentenças e despachos proferidos no seio das magistraturas, na forma como se fazem e desfazem comissões parlamentares e no seio delas se depõe, no modo como se veicula para o exterior a simples informação do que por lá se passa ou, ainda num outro patamar, no estilo como os visados mais proeminentes comentam as críticas que a seu respeito se ouvem no espaço público.
Enquanto a maioria dos cidadãos deste país considerar que viver de acordo com o estabelecido pelo regime, isto é, de acordo com as suas leis, constitui uma servidão, uma canga que diariamente se suporta nas repartições, nas escolas, nos serviços ou até em frente de uma televisão, canga que anualmente se espelha nas declarações do IRS da maioria dos cidadãos, a salvaguarda do regime terá falhado, terá sido posta em xeque.
E assim continuará até ao dia em que os indigentes éticos sejam expulsos do regime, tarefa que terá de ser feita por todos os homens de bem – porque ainda os há –, que dentro dos partidos, em todos os ambientes e corporações onde essa miséria moral endémica se instalou e minou os alicerces do regime, ainda acreditam que não existem fatalismos.
Não o fazer será tornarmo-nos coniventes com os coveiros do regime e dizermos às gerações mais novas, singelamente, que não há presente porque nos limitámos a matar o futuro.

[também no Delito de Opinião]

sexta-feira, abril 09, 2010

UMA ALEGRIA

Foi hoje publicada a portaria que vai corrigir o défice educacional e civilizacional dos portugueses, ensinar-lhes a comprar submarinos, eliminar a corrupção nas câmaras, e fazer a alegria dos petizes, dos papás e das mamãs. Agora é que vai valer a pena a malta ir à escola.

ISTO É RELEVANTE

Saber que este fulano é sócio do FC Porto não é relevante. Deve haver lá muitos como ele, do mesmo modo como nos outros clubes também há.Marques Guedes fez o que pôde para atalhar a mais este desconchavo, só que já não foi a tempo. E também por isso não retiro uma vírgula ao que antes escrevi sobre o seu papel à frente dessa comissão. Mas é relevante saber que em Portugal uma comissão parlamentar perde tempo a ouvir um tipo dizer estas inanidades. Isso é relevante. E é bom que os portugueses o saibam. Pelo menos para que isto não volte a acontecer.

P.S. Também não me parece bem que o Benfica ande a escrever cartas aos sócios do FC Porto.

quarta-feira, abril 07, 2010

COMEÇAR A PAGAR

Para quem ainda, praticamente, não deu sinal de liderança e tem um congresso pela frente dentro de alguns dias, não deixa de ser curiosa a rápida resposta de Passos Coelho ao convite do deputado Mendes Bota.
Marcar a diferença em relação à liderança anterior é evidentemente importante, tanto mais que a senhora que está de saída não pôs os pés em tão afamada e suarenta festarola. Que isso seja feito neste momento com tamanha prontidão aparenta ser mais de bombeiro do que de líder.
Confesso que tenho muita dificuldade em alcançar como pretende impor-se um líder cujo primeiro acto de liderança, anunciado aos quatro ventos, é garantir a presença no "evento mais carismático e tradicional do PSD no continente de Portugal", como afirma exuberante e palavroso o magnânimo chefe do PSD/Algarve, certamente para gáudio do meu amigo João Carvalho que com esta notícia poderá "rever em alta" as suas perspectivas para o Verão.
Desde Weber que eu sabia da existência de líderes carismáticos. Pela confirmação da aceitação do convite ficamos a saber que o carisma é extensivo a eventos no "continente de Portugal", o que por si só dá uma ideia da incontinência que aí vem.
Dirão alguns que com a chuva que caiu as barragens algarvias estão cheias e que se trata de uma antecipação da silly season. Eu penso que não.
Sabendo dos resultados de Passos Coelho no Algarve, e dos apoios que cada um dos candidatos tinha na região, não custa perceber por onde é que passa o rumo da nova liderança.
Como pôde comprovar Aguiar Branco pelos resultados alcançados, nem sempre o que parece é, e há passeatas, como a que ele fez no Verão passado à Quarteira, que de tão "carismáticas" se podem transformar rapidamente em "asnáticas".
A falta de controlo da verborreia dos acólitos regionalistas poderá não ser um primeiro sinal do carisma que aí vem. Porém, é uma certeza quanto ao local por onde vai começar a ser paga a factura das laranjas.

terça-feira, abril 06, 2010

PARA QUEM PUDER


Está aí mesmo a chegar o 5º Festival de Jazz de Casablanca. Começará a 11 de Abril e durará uma semana. Quem puder ir até ao lado de lá do estreito, o melhor é começar por ver o programa e comprar os bilhetes antes que esgotem.

quinta-feira, abril 01, 2010

TEMPO PASCAL

Não sei se é por ser dia 1 de Abril, mas como penso que há algumas coisas com as quais não se deve brincar, nem no dia 1 de Abril nem nunca, escrevi este post no Delito de Opinião. Para que conste. Espero que passem uma boa Páscoa e que as amêndoas não vos amarguem. Eu voltarei um destes dias.

quarta-feira, março 31, 2010

NOVELA SEM FIM À VISTA?

É o título do pequeno texto que deixei esta manhã no Delito de Opinião sobre o pagamento das viagens da deputada Inês de Medeiros.

CONSELHEIRA REGIONAL DA LOMBARDIA

Chama-se Nicole Minetti, tem 25 anos, e é uma das vencedoras das eleições regionais italianas. Candidata nas listas do partido de Silvio Berlusconi, depois de lhe ter tratado da boca enquanto higienista oral, nem o facto de ser uma adepta do Inter de Milão a impediu de ser eleita.

Quando o Inter ganhou o ano passado o título fez questão de se deixar pintar com as cores da equipa de Mourinho. A Itália pode não ficar mais bem representada, mas ficará certamente mais colorida.

segunda-feira, março 29, 2010

A CARTILHA DAS ANTAS

Domingos Paciência, que foi um atacante mediano e é hoje um belíssimo treinador, quando questionado no final do passado sábado sobre o resultado do jogo Benfica - Braga, para além de não ter visto as oportunidades de golo desperdiçadas por Saviola e Cardozo, veio dizer que o golo de Luisão foi meramente fortuito. Como se houvesse golos fortuitos quando se está no meio da pequena área da equipa adversária, a cinco metros de uma baliza e se remata à procura de um golo. Pior do que isso foi que se tivesse vindo queixar de um golo marcado no final da 1ª parte, bem dentro do tempo de desconto, esquecendo-se que o jogo só termina quando o árbitro apita. Mas mais grave é que tenha considerado ser essa a razão da derrota quando depois o Braga teve mais 45 minutos para recuperar. E que não tenha falado no golo de Alan que deu a vitória ao Braga no jogo com o Olhanense, golo que foi marcado aos 94 minutos. Na altura ninguém ouviu o treinador do Braga queixar-se de que já passavam 4 minutos da hora.

[também no Delito de Opinião]

sexta-feira, março 26, 2010

O DR.PÔNCIO É QUE DEVE TER TIDO A IDEIA

"As penalizações a Hulk e Sapunaru também teriam sido substancialmente mais curtas, caso o FC Porto não tivesse introduzido nos regulamentos no último defeso a regra da suspensão automática. Nesse cenário, os dois jogadores ficariam suspensos por um prazo máximo de 12 dias e, se o inquérito se prolongasse para além dessa data, poderiam continuar a jogar até conhecerem as penas efectivas" - Público, 26 de Março de 2010.

ONDE ISTO JÁ VAI

Se este fulano chegar a presidente da Liga de Clubes, Pinto da Costa já poderá aspirar a ser primeiro-ministro deste país.

PROMETE

Se a capa de uma revista ou a primeira página de um jornal são uma pequena amostra do que virá lá dentro, a edição da GQ que tem na capa Soraia Chaves promete bastante. A GQ já é uma excelente revista. Mas se ao lado dos textos de Miguel Sousa Tavares, Miguel Esteves Cardoso e Maria Filomena Mónica tivermos a Soraia Chaves, o melhor mesmo é o ministro Teixeira dos Santos começar a oferecê-la nas repartições de finanças. Haviam de ver a corrida que era para pagar o IRS e regularizar os atrasos ao fisco.

NOTAS BREVES NO DELITO

Acordei a pensar no Rui Knopfli, no Paulo Portas e em Carlos Drummond de Andrade. Dei conta disso mesmo na minha outra casa, no Delito de Opinião.

quarta-feira, março 24, 2010

MAIS INSÓLITO É DIFÍCIL

Um ganês dá ao seu filho o nome de Silvio Berlusconi, a quem, segundo crê, deve a autorização de residência em Itália. O miúdo tem 5 anos, é adepto do Milan, está convencido que o outro Sílvio é seu avô. O pai, na sua ingenuidade, espera que ele, o filho, venha a fazer política. Daqui a uns anos saberemos se o partido de Berlusconi, il vero, o aceitou nas suas fileiras. Até lá, o Silvio Berlusconi Boahene continuará a brincar e a jogar à bola nas ruas de Modena.

segunda-feira, março 22, 2010

NUNCA SE ESQUECE UM CAMPEÃO

Para mim será sempre o modelo da exigência, do rigor, da responsabilidade, da capacidade introspectiva, da coragem. Foi o único capaz de se superar, capaz de superar os limites do imaginável e voltar depois ao convívio de todos nós com a mesma humildade e a mesma simplicidade. Faria hoje 50 anos. Conheci-o ainda ele andava nos karts e eu sonhava ser também um campeão. Os anos passaram e habituei-me a vê-lo pelas pistas do mundo, na fórmula ford, depois na fórmula 3, em Inglaterra e em Macau, a seguir na fórmula 1, até atingir o firmamento. O Luís Vaconcelos e o Autosport, de onde saiu a imagem que ilustra este post, prestam-lhe uma bonita homenagem. Eu não poderia ficar indiferente. Nunca se esquece um campeão.

[também no Delito de Opinião]

PROVINCIANISMO

O João Carvalho já tinha feito o favor de sublinhar. Mas eu confesso que é algo que ultrapassa a minha capacidade de compreensão.

Jesualdo Ferreira sempre me pareceu um homem sério e razoável, que via futebol com alguma distância e suficiente capacidade de análise para perceber quando é que a sua equipa jogava bem ou jogava mal. Saiu do Benfica da forma que nenhum treinador gosta, mas depois disso fez um bom trabalho em Braga, antes de ingressar no FC Porto.

O problema é que à medida que os anos foram passando, Jesualdo foi-se tornando mais num adepto dos Superdragões do que num treinador de futebol com estatuto e currículo. Começou a não fazer as digestões e de cada que a sua equipa não rendia queixava-se da arbitragem e de tudo e mais alguma coisa. As entradas violentas e à margem das leis do jogo de Bruno Alves, de Meireles e de muitos outros, incluindo Rodriguez, passaram a ser sempre perdoadas. A culpa era dos outros.

Esta época, depois de perder com o Sporting, de ter feito um jogo miserável com o Olhanense e de ter levado 5 do Arsenal, veio dizer que a culpa era do cansaço.

Ontem o FC Porto encaixou mais 3 de um Benfica que vinha de duas deslocações difíceis à Madeira e a Marselha, onde despachou um dos grandes de França com toda a limpeza na 5ª feira passada. Se alguém se podia queixar de cansaço nesta altura era o Benfica.

No Estádio Algarve, a equipa de Jesualdo Ferreira levou um verdadeiro banho de futebol, não conseguiu construir uma jogada que se visse de bom futebol, beneficiou da escandalosa complacência do árbitro, árbitro do Porto, convém não esquecê-lo, que abusou da dualidade de critérios, sempre em prejuízo do Benfica, manteve em campo Bruno Alves - tenho vergonha como português de ter um tipo destes na selecção nacional - depois das violentíssimas entradas sobre os jogadores do Benfica, e ainda mostrou cartões amarelos com o maior despropósito, como aconteceu com Aimar.

No fim, Jesualdo Ferreira veio dizer que "nenhuma equipa se superiorizou à outra". Pois não, mais 3 ou menos 3 é exactamente a mesma coisa. A isto chama-se provincianismo, pequenez, mediocridade. As gentes do Porto mereciam melhor.

sexta-feira, março 19, 2010

APLAUSOS, MUITOS APLAUSOS

Para Isabel Alçada e Jaime Gama. A primeira pela volta que pretende dar ao regime das faltas dos alunos, pelo seu empenho em querer restaurar a autoridade onde ela faz mais falta, dentro da escola, e reforçar a intervenção preventiva da escola e dos seus responsáveis nos casos de violência. O segundo porque ao contrário do que alguns pensam não acordou mal disposto e fez aquilo que se espera de um presidente da Assembleia da República. Quem nasceu e foi criado na liberdade, na responsabilidade e no respeito, e não necessariamente por esta ordem, não pode deixar de entender e de aplaudi-los.

[também aqui, no Delito de Opinião]

CADERNO DE MEMÓRIAS COLONIAIS

Francisco José Viegas, Eduardo Pitta, Gustavo Rubim e muitos mais, em termos que eu nunca serei capaz de dizer, já enalteceram a obra. Eu só agora a consegui ler. Podia ter sido o meu caderno se eu fosse mulher, se eu tivesse vivido em Lourenço Marques e se fosse filho do pai dela. Mas eu, que por mero acaso saí da Beira antes do 25 de Abril e fui apanhado pela revolução, encontrei sempre aí, nesse destino, o motivo para responder quando alguém, sabendo as minhas origens, pretendia catalogar-me de "retornado". Nessa altura eu andava no liceu Camões e ia ouvindo os relatos do que por lá se passava com outros do meu sangue. Apesar de tudo, a Beira foi sempre diferente. Mesmo com a eufemística DGS, o ambiente sempre foi mais aberto, mais tolerante, menos violento. A oposição democrática tinha aí outra força, outro saber. As pessoas tinham outra maneira de estar. E talvez até de dizer.
A linguagem é crua, por vezes mesmo violenta, convém dizê-lo. Não há paninhos quentes nem lamechiche. Mas está lá tudo. O cheiro das pessoas, a cor da terra, o hálito do ar, as brincadeiras de criança. Numa prosa esamgadora, que se quer lida e relida. Com muita atenção. Em especial por todos aqueles que nunca conheceram África. E nunca a hão-de conhecer.

"A metrópole era suja, feia, pálida, gelada. Os portugueses da metrópole eram pequeninos de ideias, tão pequeninos e estúpidos e atrasados e alcoviteiros. Feios, cheios de cieiro, e pele de galinha, as extremidades do corpo rebentadas de frio e excesso de toucinho com couves. Que triste gente! Divertiam-se a mofar connosco, atirando-nos à cara que estava difícil, pois estava, que aqui não havia pretinhos para nos lavarem os pés e o rabinho, tínhamos de trabalhar, os preguiçosos de merda, que nunca fizeram a ponta de um corno pela vida, que nunca souberam o que era construir uma vida e perdê-la, os tristes, os pequeninos, os conformados. Sabiam lá eles o que eram os pretos, e o que éramos nós e o que tínhamos acabado de viver, cobardes filhos de uma puta brava. Insignificantes cabrõezinhos, se eu havia de dizer a verdade, se eu havia alguma vez de dizer a verdade. Os lerdos das ideias, lentos, com conta no Montepio, doentes dos olhos por olhar de viés para esses gajos que vêm cá roubar o pouco que é da gente, que a gente cá tem, esses retornados, tão altivos como príncipes que perderam o trono, e que hão-de recuperá-lo, julgam eles, oh, se não!, porque nada atiça as ganas como perder, e perder bem, à americana. Tão feios, tão pobres de espírito esses portugueses que ficaram, esses portugueses de Portugal, curtidos de vinho do garrafão. Feios, sombrios, pobres, sem luz no rosto nem nas mãos. Pequenos".

Infelizmente, ainda há muitos assim. Mas um dia isto muda.

DROIT AU BUT

L'Olympique de Marseille a finalement obtenu son droit au but.

OLYMPIQUE MARSEILLE -1 BENFICA - 2

Um ambiente de sonho, uma pressão incrível, uma exibição fantástica. Exibição de classe, diz a UEFA, "L'OM s'est écroulé", escreve o La Provence. Nada disso. Foi apenas uma derradeira e justíssima homenagem ao Julinho, o herói da Taça Latina. Ele merecia um jogo assim. E nós também.

quarta-feira, março 10, 2010

LEITURAS

Um dos novos que sabe escrever português de gente e merece ser lido.

O ANTES E O DEPOIS

O regresso de Londres pela pena magnífica do Henrique Monteiro e aqui reproduzido com a devida vénia.
A caminho do Emirates Stadium com a serôdia cagança dos Supermorcões.

sexta-feira, março 05, 2010

DE FACTO, ELE TEM RAZÃO

Sim, na verdade, muitos há que extravasam largamente aquilo que é o desempenho da sua actividade profissional, fazendo mais do que papéis para o fisco. Não são os únicos. De actas de sociedades a contratos de trabalho e de arrendamento, mediação imobiliária, contratos de sociedade, partilhas, aconselhamento jurídico e por aí fora, há quem faça de tudo e sem qualquer controlo. Mas só o fazem porque vivemos num país de brandos costumes. E quando a coisa dá para o torto mandam os clientes para o advogado. Pode ser que com a Ordem as coisas melhorem e haja menos gente a queixar-se.

INSÓLITO

(foto Correio da Manhã)

Graças a este vídeo da Lusa, mesmo quem não esteve lá pôde ter acesso às imagens desta baleia-de-barbas que hoje deu à costa em Quarteira. É mais uma a juntar às demais baleias, lontras e focas, das mais diversas origens, formas e feitios, que de fio dental infestam aquelas águas e areias durante os meses de Verão. Por essas e outras é que aquela outrora simpática vila piscatória está cada vez mais parecida com o Entroncamento, outra terra de fenómenos.

FANTÁSTICA EDIÇÃO

A edição de hoje do Público, que me foi graciosamente oferecida no quiosque onde habitualmente compro os meus jornais, é para guardar. Não só porque assinala os 20 anos do jornal, mas porque foi excepcionalmente dirigida por António Barreto e contém um conjunto de textos e de números absolutamente imprescindíveis. No entanto, como não posso aqui colocar todo o jornal, escolhi para aqui vos deixar a coluna de Vasco Pulido Valente. VPV é de todos os que escrevem no jornal aquele que melhor reflecte o seu espírito. Goste-se ou odeie-se a sua opinião, a sua escrita limpa, depurada e cristalina e a actualidade dos temas escolhidos fazem dele um dos incontornáveis da nossa democracia. Vinte anos depois é impossível pensar o Público sem VPV. É impossível discutir e pensar a actualidade da nossa vida pública sem conhecer os textos do VPV. A crónica de hoje é a melhor homenagem que ele poderia prestar ao jornal, ao país e, por estranho que possa parecer, ao PSD.

VINTE ANOS

Associo-me hoje aos 20 anos do Público e a tudo aquilo que o jornal nos tem proporcionado nestas duas décadas. Com todos os defeitos que se lhe possam apontar, é inegável que o jornal se impôs pela qualidade da análise, pela profundidade dos seus textos, pelo nível da maioria dos seus textos e excelente nível dos seus articulistas. Habituei-me a ver no Público uma opinião plural e mesmo quando alguns textos revelavam falta de objectividade e de isenção, não confundi a posição e o mau trabalho desse jornalista com o jornal. Vinte anos depois, como leitor atento e interessado, tenho de agradecer ao Eng. Belmiro e aos accionistas do jornal os excelentes momentos de leitura que me deram, a oportunidade da informação e o contributo que deram para a consolidação democrática e aprofundamento do espírito de cidadania e intervenção da uma opinião pública mais consciente. De tudo, lamento apenas a posição assumida pela sua direcção aquando da declaração de guerra ao Iraque, pelos efeitos nefastos que isso teve para todos nós. Mas seguramente que não será esse pecadilho, que acredito tenha sido gerado por pura convicção, com tudo o mais de bom que aos portugueses foi oferecido. O Público está por isso mesmo de parabéns e espero que dentro de vinte anos possamos comemorar a sua entrada na meia idade. O facto de ser hoje dirigido por uma mulher significa que o jornal já passou o Rubicão, amadureceu e tornou irreversível o seu compromisso com a liberdade e a modernidade.

quinta-feira, março 04, 2010

A LENDA

Aproveitando a lembrança do João Carvalho e a magnífica foto do 8C, bem como o lançamento do novo Spider, aqui fica mais alguma coisa sobre uma das minhas favoritas. Nasce-se alfista e ferrarista como se nasce benfiquista. O resto é conversa.

quarta-feira, março 03, 2010

FOI PARA O DELITO

A ficção foi para o Delito de Opinião. Aqui, como já devem ter reparado, começa a só haver lugar para a realidade e o sonho.

SEM PALAVRAS

É assim, lindíssimo, fulgurante, com curvas únicas e duplamente confortáveis. É a magia do novo Spider da Alfa Romeo. Aqui na casa já se pensa no dia em que ele chegará ao stand. Quem quiser saber mais sobre esta nova máquina de Pininfarina é só clicar aqui.

terça-feira, março 02, 2010

LEITURAS

"O epicentro do terramoto está no Norte ou está no Sul? Mas eu oiço a terra tremer. Às vezes, enjoo. Às vezes, o tremor dura mais do que o normal e as pessoas põem-se debaixo das portas ou das escadas ou saem a correr para a rua. Isto tem solução? Vejo as pessoas a correr pelas ruas. Vejo as pessoas a entrar no metro e nos cinemas. Vejo as pessoas a comprar o jornal. E às vezes estremece e tudo fica parado por instantes. E então pergunto-me: onde está o jovem envelhecido?, porque se foi embora? e, pouco a pouco, a verdade começa a emergir como um cadáver. Um cadáver que sobe do fundo do mar ou do fundo de um barranco"
"Pela minha cabeça passaram imagens absurdas que faziam mal. Pensei propor a Ingeborg partimos para o Sul, até Andaluzia, ou que fôssemos a Portugal, ou que, sem traçarmos qualquer rota, nos perdêssemos pelas estradas do interior de Espanha, ou dar um salto até Marrocos..."Agora que saiu "O Terceiro Reich", na esteira do aclamado 2666, nada melhor do que antes recordar o "Nocturno Chileno", primeira obra de Bolaño editada entre nós, que data de 2000 (Gótica) e pela qual melhor se compreende a razão para a vida ser "uma sucessão de equívocos que nos conduzem à verdade final, a única verdade".

domingo, fevereiro 28, 2010

FUERZA, CHILE

Quando uma coisa destas acontece, quando tudo rui, a fé deve ser mesmo a única coisa a que uma pessoa se pode agarrar. Esta foto vale mais que mil palavras e a única coisa que aqui posso dizer é Fuerza, Chile.

CINCO PERGUNTAS APENAS

Como perguntar não ofende, deixei aqui ficar cinco perguntazinhas, a ver se alguém me dá uma resposta satisfatória. É nestas alturas que a minha militância e a admiração por Cícero me impedem de ficar em silêncio.

CONTINUA A CRISE

Para os lados da EDP. Pelo que vi hoje na televisão, só lá para cima é quase um milhão de consumidores a queixar-se. Bastam meia dúzia de rajadas e um pouco de chuva para a rede vir por aí abaixo. E é esta uma empresa de referência. E de excelência, dizem eles. O que seria se não fosse.

P.S. O que está hoje a acontecer só reforça o que aqui escrevi.

DIA DE ANIVERSÁRIO

(A Bola)
É aqui que se celebra, com uma prenda a condizer (SLB-4 Leixões-0), mais um aniversário do glorioso Sport Lisboa e Benfica. Mas não podia deixar de ser recordado também aqui. Para quem não seja muito dado à estatística, numa semana foram só 8 (oito) golos sem sofrer nenhum. Não há granizo nem chuva que pare o Benfica. E hoje vamos todos estar de taça na mão a ver os outros esgadanharem-se.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

BOA FÉ

É um dos princípios basilares do nosso Direito.
A pedra de toque de qualquer negociação para gente séria e honrada, para gente com uma ética acima de qualquer suspeita.
Mas se isto que aqui está entre aspas for verdade ("A ideia", explica, "era que Figo gravasse um vídeo publicitário no primeiro ano - e as principais coisas da campanha - e depois denunciava-se o contrato para não lhe pagar o acordado, nos restantes anos.") isso ainda desqualifica mais quem um dia o PS permitiu que fosse gente.

MEMÓRIA CURTA

Ele sofre do mesmo mal que sofre o País.
Ainda não foi eleito líder do partido e aos poucos vão-se sabendo as verdades que queria esconder. Porquê? Será que sente vergonha do facto de ter sido militante do CDS/PP durante cerca de 3 anos? Que diabo, não foi propriamente uma inscrição feita na adolescência, quando a barba começava a despontar, mas uma opção numa idade em que já era presumível alguma maturidade. A não ser que Rangel considere que aos 28 anos ainda não tinha acordado para a política.
Depois de ter enganado os eleitores e ter criticado outros candidatos, dizendo que estaria de pedra e cal em Bruxelas; depois de há 3 meses ter reafirmado que queria ficar em Bruxelas e de assegurar a todos que estava empenhado nesse projecto; depois de muito ter criticado o primeiro-ministro e de lhe ter apontado falhas de carácter; depois de ter dito que não se recordava se tinha chegado a estar inscrito no CDS, eis mais dois factos que abonam muito pouco o carácter (já que é este um dos pontos essenciais em que ele quer fazer assentar as diferenças em relação a José Sócrates) do candidato a líder do PSD.
Paulo Rangel não só esteve inscrito no CDS/PP como depois formalizou a sua renúncia e reafirmou essa decisão em 2002. Como é possível que se tenha esquecido disto?
Eu já tinha percebido que o estilo cantinfleiro por ele cultivado não augurava nada de bom. Quem ainda não tinha certezas pode começar a tê-las. Rangel é apenas mais um disposto a tudo para chegar onde sonha, nem que para isso tenha que mentir e enganar os portugueses.
Quem mente por tão pouco, que por tão pouco procura esconder a verdade dos factos, até onde poderá chegar?
Pacheco Pereira, que tanto tem atacado o carácter de José Sócrates, poderá sair a terreiro para justificar estas "falhas de carácter" de Paulo Rangel, poderá vir desvalorizá-las. Mas os militantes do PSD que dentro de dias escolherão um novo líder não poderão depois vir dizer que não foram avisados. Pela boca morre o peixe.

[também no Delito de Opinião]

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

QUE NINGUÉM FALTE À CHAMADA

No próximo dia 23 de Fevereiro, pelas 17 horas, a UEFA e Michel Platini vão homenagear Eusébio. Eu não faltarei à chamada e espero que a casa esteja cheia e vestida de gala, como convém quando se recebem os reis que são eternos.

ESTES TIPOS SÃO DOIDOS

É ESTRANHO?

O melhor é ele ir-se habituando à estranheza. Agora com todos os planos que aí estão a ser preparados de combate à corrupção e pela transparência, deverá ser mais difícil aos senhores do apito irem de férias para o Brasil com tudo pago ou frequentarem os bordéis galegos com a impunidade de outrora.

UMA PERGUNTA PERTINENTE

Poder-se-á não concordar com a conclusão, mas sendo a pergunta pertinente eu estaria tentado a dizer que estamos no final de mais um ciclo. O tempo vai correr célere até às presidenciais e depois novos dias chegarão.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

PARA PRESIDENTE NÃO ESTÁ MAL...

Via Albergue Espanhol e Carlos Abreu Amorim, cheguei aqui. Depois do interviu do Dr. Mendes Bota, faltava o "façarei" do Prof. de Economia. O Manuel Alegre deve ter ficado pasmado ao ouvir o Presidente conjugar o verbo desta forma.

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

DISPONIBILIDADE

Só espero que esta inusitada disponibilidade demonstrada por Joe Berardo para adquirir a golden share do Estado na PT não seja parte do enredo. Não é por nada, mas a gente já não sabe quando é que se trata de vontade empresarial genuína, de um jeito, de um verdadeiro negócio ou do simples pagamento de favores. A coisa começa a tresandar.

E NÃO É POR SER CARNAVAL

Algumas considerações sobre o polvo e o regime estão no Delito de Opinião.

domingo, fevereiro 14, 2010

PASSAR PELO DELITO

Publiquei mais dois textos no Delito de Opinião. Quem o quer tramar? e Ele desta vez tem razão são os títulos respectivos. Para quem estiver interessado.

SEM COMENTÁRIOS

"Para começo de conversa: a liberdade de imprensa não está em perigo em Portugal. Obviamente. Quem o diz, quem organiza petições online e mnifs, nunca antes, quando o perigo real existiu, se fez ouvir. Não há um único grande jornalista português que ande por aí aos gritos em defesa da liberdade pretensamente ameaçada. Não conheço ninguém que não diga e não escreva o que quer e que não tenha tribuna para ser escutado. Sim, há, como haverá sempre, os que têm medo, os que hesitam e os que medem as consequências: mas a cobradia individual não é defeito público. Convém, pois, não confundir liberdade com irresponsabilidade, não confundir vaidades individuais, desejos de protagonismo e aproveitamentos políticos com a situação real, como um todo";

"Mal, muito mal, andou, pois, Paulo Rangel, com aquele seu infeliz, quase ridículo, discurso no Parlamento Europeu, querendo justificar num minuto a ditadura que se viveria em Portugal. (...) exagerou, generalizou, mentiu. Fiquei a pensar que, se é este o amigo da liberdade de imprensa, que avancem os inimigos";

"Nada, jamais, me fará deixar de lado o nojo que me causa a revelação destas 'verdade' arrancadas à custa da divulgação de conversas telefónicas ou presenciais privadas, do atropelo sem vergonha do segredo de justiça";

"Já faltou mais para que, qualquer dia, tenhamos os dirigentes sindicais dos magistrados a ditarem sentenças que devem ser aplicadas";

"E, preto no branco: no lugar do director do 'JN', José Leite Pereira, eu também não teria consentido a publicação da crónica de Mário Crespo. Porque não aceito como regra deontológica do jornalismo, a publicação de notícias fundadas numa fonte anónima que escutou conversas privadas, mesmo em local público. E porque também não o aceito como regra de educação. Nunca o fiz e nunca o farei - e também o poderia fazer abunddantemente. E sinto asco quando vejo o director do 'Sol' vir agora revelar o suposto teor de uma conversa com Sócrates, num almoço em que foi como convidado a S. Bento e onde o PM lhe teria feito confidências gravíssimas. Com gente desta não quero almoçar. (Não deixo, aliás, de achar extraordinário que o mesmo 'Sol' ande aí a gritar aos quatro ventos que o Governo português quis comprar a sua liberdade, aproveitando as dificuldades financeiras do jornal, quando, tanto quanto sei, eles se abriram, directa ou indirectamente, aos dinheiros do mais corrupto Governo do planeta)".

Miguel Sousa Tavares
, no Expresso de 13 de Fevereiro de 2010, "Oito passos em direcção ao fim".

ANTÁRCTIDA 2010

Continuam a chegar imagens fantásticas da expedição do Miguel Lacerda à Antárctida. Quem quiser ver as fotos é vir até aqui.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

KUNG HEI FAT CHOI

Um Próspero Ano do Tigre é o que desejo a todos os leitores deste blogue e ao meu país, que bem precisa.

COM QUE ENTÃO O CARÁCTER?

(graças ao Blasfémias)

Para quem tanto criticou o carácter dos outros, o excesso de protagonismo, o populismo, o arraial, não deixa de ser curioso vê-lo agora a apelar à desistência de Aguiar-Branco. Rangel quebrou uma promessa eleitoral três meses depois de ter garantido a Judite de Sousa, peremptoriamente, que não seria candidato e que estava interessado em cumprir o contrato que celebrara com os eleitores por ocasião das eleições europeias. Fê-lo depois de uma espaventosa declaração em Bruxelas, para inglês ver, com a qual não se importou de denegrir, miseravelmente, a imagem internacional de Portugal, colocando-a ao nível do Burundi, para dois dias depois, em plena discussão do Orçamento de Estado na Assembleia da República, vir anunciar a sua candidatura à liderança do PSD, única forma para tentar tirar o tapete a Aguiar-Branco, de quem foi secretário de Estado e que há muito preparava a sua própria candidatura. Se estes são os métodos que JPP aprova, percebe-se hoje melhor a energia com que criticava o carácter dos outros. Mentiroso? Não, apenas mais um chico-esperto.

MAIS UMA D' IL CAVALIERI

O primeiro-ministro albanês está de visita a Itália e foi recebido por Berlusconi no Palazzo Chigi. Como já vem sendo habitual, depois de dizer que o seu homólogo falava italiano porque o tinha aprendido pela televisão, quando aquele se referiu ao problema dos albaneses que saíam clandestinamente do seu país em frágeis barcaças, à procura de uma vida melhor, sublinhando ser seu objectivo acabar com as mortes no canal de Otranto e pôr termo aos fluxos criminais em direcção a Itália, cometeu o lapso de falar em "moratória" no masculino, quando em italiano a palavra é feminina. Logo Berlusconi o corrigiu, esclarecendo que a palavra era feminina mas que Berisha era um macho e pouco depois acrescentava que em matéria de clandestinos seria aberta uma excepção para as embarcações onde viessem albanesas, porque são umas "belas mulheres". Assim, sem mais nem menos, rematando com um "si sa chi sono single". O Carnaval chegou em força. Quem quiser saber o resto poderá fazê-lo aqui.

LIBERDADE DE IMPRENSA

Foi para aqui. Mas também está neste blogue. Como sempre, aliás, mas sem comentários.

LOGO VI...

... que este gajo tinha de ser do Porto. E logo dragão de ouro! Está explicada a razão para tanta desgraça: continuam a ser escolhidos a dedo. Razão tem a Ana Gomes: "Com bóis destes, para que servem ao PS os boys?".

NÃO HÁ NADA COMO A LIBERDADE DE IMPRENSA

Desta vez é que eles ultrapassam o Expresso. Não há nada como encontrar um filão para salvar a mediocridade da falência. Bem podem agradecer a José Sócrates e a todos os incompetentes que já enterraram o PSD e estão agora a enterrar o PS e a democracia portuguesa.