Nestes tempos de crise, faço minhas as palavras de Giovanni Sartori: "Dunque, non dobbiamo spendere soldi che non abbiamo, e al tempo stesso non dobbiamo «spendere male» i soldi che abbiamo". A ler, aqui.
sexta-feira, maio 14, 2010
PARTIU UM CIDADÃO
Um dia, em 1982, numa oral de Finanças Públicas, quando me sentei diante dele para prestar provas, olhou para mim, leu o meu nome e disse-me: "De que é que hoje quer falar? Podemos falar sobre tudo menos sobre inflação. Sobre isso já discutimos o suficiente". É claro que depois falámos de muitas outras coisas, tudo correu normalmente e eu sempre recordei a sua memória prodigiosa.Meses antes tivéramos uma acalorada discussão sobre um trabalho meu. O tema era a inflação e nessa altura eu tinha sido severamente criticado pelas posições que então defendi e que em tudo contrariavam aquilo que ele pensava sobre o assunto.
Numa escola onde ter posições diferentes das dos mestres era muitas vezes meio caminho andado para o chumbo, ele foi um dos poucos que foi capaz de marcar de forma decisiva os meus anos de faculdade. Não só pelo modo como tratava com os alunos, mas em especial pela forma como com eles discutia e os obrigava a defenderem e justificarem as suas próprias posições. Ele obrigava-nos a pensar e mesmo quando discordava era capaz de reconhecer a autonomia do pensamento e a liberdade criativa onde ela existia e merecia ser incentivada. Depois, é evidente que era também preciso saber da matéria, senão nada feito. Não era um daqueles que se deixava enganar com meia dúzia de balelas inconsequentes e coladas com cuspo. Por isso havia quem entre os alunos não gostasse dele. Ele não tolerava a incompetência, nem a falta de honestidade e de rigor intelectual.
Quando esta manhã, ainda meio ensonado, acordei para a triste notícia do seu falecimento, tive alguma dificuldade em acreditar que não voltaria a ouvi-lo, nem a ler novos escritos.
Ainda há dias pensara nele quando o Governo anunciara a tributação retroactiva das mais-valias e estranhava ainda não ter ouvido nenhum comentário dele sobre o assunto. O regime de tributação das mais-valias era mais um dos seus projectos de investigação que ficou a meio.
Hoje, infelizmente, percebi a razão para o silêncio, confirmada há pouco depois de passar pela sua página na Internet.
Morreu José Luís Saldanha Sanches.
Ele, que era pouco dado a lamechices e muito virado para o lado prático das coisas, certamente que encararia este dia como apenas mais um. Eu é que não ficaria de bem com a minha consciência se não deixasse aqui ficar umas breves linhas.
Por muitos que sejam os manuais, as folhas escritas e as palavras gravadas sobre as matérias que ele gostava de tratar e de investigar, mais dia menos dia, com a velocidade de produção legislativa deste país, tudo isso ficará desactualizado.
Porém, há uma coisa que nunca ficará desactualizada nem mudará por mais anos que passem: o exemplo. O exemplo de um homem simples, interessado, senhor de um humor de rara inteligência, de uma extraordinária lucidez e de uma verticalidade e coragem à prova de bala.
O país pode ter perdido um ilustre jurisconsulto, um notável pedagogo e um emérito fiscalista. Não deixará de haver por aí quem tenha capacidade e conhecimentos e esteja disponível para ocupar esse lugar e continuar a notável lição do mestre.
Mas os portugueses, esses, perderam um dos seus. Os portugueses perderam um cidadão. Um dos melhores. E isto é que é dramático. Num país onde são cada vez menos os cidadãos e mais os homens-massa, não há nada nem ninguém que possa fazer esquecê-lo.
quarta-feira, maio 12, 2010
EXCESSOS POUCO REDENTORES
Tenho acompanhado com um misto de curiosidade e espanto a viagem de Bento XVI a Portugal.
Ainda com a imagem bem fresca na minha memória de João Paulo II e da viagem que fiz a Roma e ao Vaticano no ano que antecedeu o seu desaparecimento, confesso que tenho olhado para o pontificado de Ratzinger com uma grande desconfiança. O seu papel enquanto guardião da doutrina oficial e a forma como tem conduzido a Igreja desde que assumiu o seu comando, em nada contribuíram para afastar esse estado de espírito.
A imagem do Papa, para além daquilo que é transmitido pelo próprio nas suas fugazes aparições, textos e discursos, é muitas vezes a que resulta do que é transmitido pelos seus adjuntos e secretários e da forma como as suas mensagens são filtradas até chegarem ao exterior. E é exactamente por aqui que as coisas têm claudicado. Sucessivos escândalos, declarações evasivas e pouco esclarecedoras sobre os mesmos, uma certa complacência com os poderosos e um perdão sempre pronto em relação a situações de extrema gravidade, deram alimento às vozes que fazem do ataque às religiões e, em especial, ao catolicismo, uma bandeira de afirmação no contexto mundial.
A Igreja perdeu força e protagonismo com Bento XVI mas parece que aos poucos começa de novo a recuperar a sua influência e a resgatar uma credibilidade que tão mal tratada tem sido.
A melhor prova dessa recuperação é dada pelas corajosas palavras que proferiu no voo que o trouxe até Lisboa. Ao condenar de forma tão clara e directa os erros cometidos, ao afirmar e reconhecer que os maiores inimigos da Igreja estão dentro dela, Bento XVI assume de novo o protagonismo e garante que está atento ao que se passou e está a passar. Essa é a maior e melhor mensagem de esperança e de confiança no futuro que poderia transmitir.
Como católico e cidadão esse é um estímulo poderoso para o trabalho futuro. A fortificação do espírito numa muralha ética, a coragem de enfrentar os desafios, o ser capaz de olhar para dentro e de ajuizar qual o melhor caminho a seguir, percebendo que é a Igreja que terá de se adaptar aos novos tempos e não o contrário, é o papel e o que se espera de um líder com a dimensão religiosa e política do sucessor de S. Pedro.
Mas o conforto que isso me dá não me descansa o espírito noutras vertentes.
Percebo e reconheço a importância e o interesse para todos da viagem a Portugal de Bento XVI, numa altura de crise internacional e interna, num momento em que todos os esforços serão sempre insuficientes e ficarão aquém do necessário para minorar o sofrimento de muitos milhões, mas tenho muita dificuldade em aceitar alguns excessos, venham eles de onde vierem.
Dou de barato as complicações estradais, a tolerância de ponto decretada pelo Governo ou os milhares que foram gastos na preparação da visita e no alindamento de Lisboa. Estou certo de que os católicos portugueses não chorarão a contribuição que os seus impostos irão dar para as despesas da visita, embora qualquer pessoa de bom senso e no seu perfeito juízo possa pensar que setenta e cinco milhões de euros para serem "derretidos" em três dias é uma verba excessiva para com a contenção, e a discrição, que a fé também reclama e de que a Igreja deveria ser a primeira a dar exemplo.
Incomoda-me a ostentação excessiva, a forma bajuladora e até certo ponto subserviente como as instituições da República e os seus titulares se comportam nalgumas cerimónias públicas; o tempo dado pelos canais públicos de rádio e de televisão à visita, e, em especial, determinado tipo de manifestações que apenas servem para rebaixar o evento, o seu interesse ecuménico e político e conferir natureza folclórica àquilo que era suposto ser sério. A oferta de camisolas de equipas de futebol em pleno Terreiro do Paço é um exemplo disso mesmo.
Seria bom que momentos como esse, e que eu sinceramente espero não ver repetidos, não servissem para desvalorizar a importância desta visita e que, naquilo que ainda falta cumprir, as instituições da República e os seus titulares não se comportassem como meros serventuários da Santa Sé ou dos secretários de Bento XVI. Tudo o que é excessivo é contraproducente. Tudo o que é forçado é ridículo. A Igreja e a República não podem em momento algum ser confundidas e seria bom que isso não passasse despercebido. Para bem de uma e de outra instituição.
Ainda com a imagem bem fresca na minha memória de João Paulo II e da viagem que fiz a Roma e ao Vaticano no ano que antecedeu o seu desaparecimento, confesso que tenho olhado para o pontificado de Ratzinger com uma grande desconfiança. O seu papel enquanto guardião da doutrina oficial e a forma como tem conduzido a Igreja desde que assumiu o seu comando, em nada contribuíram para afastar esse estado de espírito.
A imagem do Papa, para além daquilo que é transmitido pelo próprio nas suas fugazes aparições, textos e discursos, é muitas vezes a que resulta do que é transmitido pelos seus adjuntos e secretários e da forma como as suas mensagens são filtradas até chegarem ao exterior. E é exactamente por aqui que as coisas têm claudicado. Sucessivos escândalos, declarações evasivas e pouco esclarecedoras sobre os mesmos, uma certa complacência com os poderosos e um perdão sempre pronto em relação a situações de extrema gravidade, deram alimento às vozes que fazem do ataque às religiões e, em especial, ao catolicismo, uma bandeira de afirmação no contexto mundial.
A Igreja perdeu força e protagonismo com Bento XVI mas parece que aos poucos começa de novo a recuperar a sua influência e a resgatar uma credibilidade que tão mal tratada tem sido.
A melhor prova dessa recuperação é dada pelas corajosas palavras que proferiu no voo que o trouxe até Lisboa. Ao condenar de forma tão clara e directa os erros cometidos, ao afirmar e reconhecer que os maiores inimigos da Igreja estão dentro dela, Bento XVI assume de novo o protagonismo e garante que está atento ao que se passou e está a passar. Essa é a maior e melhor mensagem de esperança e de confiança no futuro que poderia transmitir.
Como católico e cidadão esse é um estímulo poderoso para o trabalho futuro. A fortificação do espírito numa muralha ética, a coragem de enfrentar os desafios, o ser capaz de olhar para dentro e de ajuizar qual o melhor caminho a seguir, percebendo que é a Igreja que terá de se adaptar aos novos tempos e não o contrário, é o papel e o que se espera de um líder com a dimensão religiosa e política do sucessor de S. Pedro.
Mas o conforto que isso me dá não me descansa o espírito noutras vertentes.
Percebo e reconheço a importância e o interesse para todos da viagem a Portugal de Bento XVI, numa altura de crise internacional e interna, num momento em que todos os esforços serão sempre insuficientes e ficarão aquém do necessário para minorar o sofrimento de muitos milhões, mas tenho muita dificuldade em aceitar alguns excessos, venham eles de onde vierem.
Dou de barato as complicações estradais, a tolerância de ponto decretada pelo Governo ou os milhares que foram gastos na preparação da visita e no alindamento de Lisboa. Estou certo de que os católicos portugueses não chorarão a contribuição que os seus impostos irão dar para as despesas da visita, embora qualquer pessoa de bom senso e no seu perfeito juízo possa pensar que setenta e cinco milhões de euros para serem "derretidos" em três dias é uma verba excessiva para com a contenção, e a discrição, que a fé também reclama e de que a Igreja deveria ser a primeira a dar exemplo.
Incomoda-me a ostentação excessiva, a forma bajuladora e até certo ponto subserviente como as instituições da República e os seus titulares se comportam nalgumas cerimónias públicas; o tempo dado pelos canais públicos de rádio e de televisão à visita, e, em especial, determinado tipo de manifestações que apenas servem para rebaixar o evento, o seu interesse ecuménico e político e conferir natureza folclórica àquilo que era suposto ser sério. A oferta de camisolas de equipas de futebol em pleno Terreiro do Paço é um exemplo disso mesmo.
Seria bom que momentos como esse, e que eu sinceramente espero não ver repetidos, não servissem para desvalorizar a importância desta visita e que, naquilo que ainda falta cumprir, as instituições da República e os seus titulares não se comportassem como meros serventuários da Santa Sé ou dos secretários de Bento XVI. Tudo o que é excessivo é contraproducente. Tudo o que é forçado é ridículo. A Igreja e a República não podem em momento algum ser confundidas e seria bom que isso não passasse despercebido. Para bem de uma e de outra instituição.
terça-feira, maio 11, 2010
segunda-feira, maio 10, 2010
FOTO DEL GIORNO
É a imagem que corre mundo. A fotografia é da ANSA, mas a notícia veio de Itália. É assim o Benfica: grande cá dentro e lá fora. CAMPEÃO É QUEM CHEGA NO FIM À FRENTE
Trinta jogos depois, com mais de cem golos marcados, setenta e seis pontos amealhados, o melhor marcador do campeonato e cinco pontos de diferença em relação ao segundo classificado. Ali ao lado dediquei o título a quem gostava de futebol. Agora é hora de celebrar cá em casa, com a minha gente, serenamente, em paz. Campeões, pois claro. E não é que desta vez o campeão da pré-época foi o mesmo que ganhou a Liga Sagres? sexta-feira, maio 07, 2010
CADA VEZ MAIS LATINOS
Para quem aqui há uns anos advogava a alteração do nosso sistema de representação proporcional para um sistema maioritário do tipo britânico, com o argumento de que dessa forma seriam geradas maiorias fortes e governos estáveis, o resultado das eleições legislativas de ontem no Reino Unido não deixa de ser uma lição para quem sempre se preocupou mais do que devia com a estabilidade. O problema, como se vê, não está no sistema eleitoral. Só há bons ou maus governos e normalmente os maus é que criam problemas, qualquer que seja o sistema. Acontece por lá do mesmo modo que acontece por cá. O povo é que sabe.
quarta-feira, maio 05, 2010
QUALQUER COISA
Duas linhas aqui a anunciar outras duas no Delito de Opinião, que hoje bateu todos os recordes e se tornou no primeiro blogue nacional em termos de audiência. É só para vos dizer que estou vivo e de boa saúde. Não tarda estarei de volta.
quinta-feira, abril 29, 2010
EXEMPLAR
A imagem é do Guardian (Andres Kudacki/AP), mas podia ser de qualquer outro jornal europeu. Em Inglaterra, em França, em Espanha, em Itália (Corriere dello Sport, Gazzetta dello Sport), onde é recebido como um herói, por toda a Europa, o nome de José Mourinho é hoje idolatrado. Só um grande treinador, com uma equipa de dispensados de outras equipas, de jogadores em final de carreira e de alguns que se querem finalmente afirmar, se poderia dar ao luxo de eliminar o Barcelona, campeão europeu e mundial, em sua própria casa. Depois de um super Inter de ataque em Milão, tivemos um super Inter a defender. A 2ª Taça da Liga dos Campeões está mesmo ali ao lado, em Madrid. Um exemplo de profissionalismo, inteligência e mestria táctica. É bom saber que há portugueses assim.terça-feira, abril 20, 2010
quinta-feira, abril 15, 2010
IMPRESSIONANTES
As impressionantes imagens da actividade de um vulcão, aparentemente adormecido há décadas, vêm de novo alertar para as mudanças que a Terra está a sofrer e que diariamente se manifestam, quer nas alterações climáticas e fenómenos metereológicos associados, quer na agitação que se verifica no seu centro e de que constituem notícia os mais recentes e devastadores terramotos do Chile à China, da Califórnia à Itália.
VOLTAR AO TOPO
Não é por acaso, nem à custa de milagres, que se chega lá. Tudo tem um caminho.
Aguardemos por Coimbra para ver se a cidade mantém o mesmo encanto na hora da partida.
REFÉNS DAS PRESIDENCIAIS
As notícias desencontradas, como esta, que todos os dias inundam as redacções dos jornais sobre o eventual apoio do PS a Manuel Alegre já fedem e começam a dar do PS, dos seus dirigentes e dos seus múltiplos, e alguns putativos, porta-vozes a imagem de um partido refém.
É evidente que a situação económica e financeira do país aconselhava alguma cautela no "ataque" às presidenciais. O atraso na preparação do Orçamento, as negociações relativas ao PEC e a necessidade de estabilização parlamentar, aconselhavam moderação no discurso e em especial a contenção dos apparatchiks.
Manuel Alegre, como cidadão estimado e respeitado por portugueses de todos os quadrantes, entendeu iniciar movimentações junto dos seus apoiantes e avançar com a sua candidatura presidencial. Outros também o fizeram sem que por isso fossem criticados. Não há aí nada de mal, de grave, de ilegal ou de ilegítimo. Alegre não sofre de qualquer capitis deminutio que o impeça de ter vida pública, de se pronunciar sobre os temas de actualidade quando muito bem entende ou de apresentar a sua candidatura presidencial no momento que considere mais oportuno.
De igual modo, o facto de haver quem se precipite no apoio a um candidato para daí retirar dividendos políticos imediatos, cavalgando a onda do descontentamento enquanto pode, tirando partido da ambiguidade do discurso e da indecisão política de terceiros, pode ser criticável, mas é algo com que em democracia e em política se tem de contar.
Tenho ouvido dizer que cada um tem o seu tempo e que o tempo dos candidatos não é necessariamente o tempo dos partidos. Até aí estamos todos de acordo. Cada um gere o seu tempo como melhor lhe convém. Convirá também é que o faça, enquanto dirigente político e responsável partidário, de acordo não com a suas conveniências pessoais mas em função do interesse nacional e do interesse do partido, que não sendo obrigatoriamente coincidentes aconselham a que seja dada prevalência ao primeiro em todas as circunstâncias.
A multiplicação de intervenções contraditórias sobre as presidenciais, a insistência e o à-vontade com que alguns dirigentes menores, sem currículo e sem história, se têm revezado nas críticas a um eventual apoio à candidatura de Manuel Alegre, e as ignóbeis tentativas de silenciamento e refreamento nas manifestações de apoio ao candidato por parte de um núcleo conhecido da elite dirigente do PS, que não esconde a soberba nem a diletância, tão querida dos medíocres, quando critica a agenda de Manuel Alegre, tentando condicionar o apoio do PS ao seu candidato natural; o que vão fazendo com ameaças veladas de futuro não apoio - como se o seu eventual apoio enobrecesse o PS, alguém ou alguma causa -, indicam que o tempo para a direcção do partido se pronunciar está a chegar ao fim.
A chegar ao fim, bem entendido, se essa mesma direcção ainda quiser evitar uma nova dêbacle eleitoral, uma humilhação de cariz idêntico à que, há quatro anos, quando alheia ao país e ao partido, promoveu a candidatura de Mário Soares. Se for este o sentido do silêncio da direcção do partido então fica compreendido qual o seu tempo e qual a razão para que militantes como José Lello, Capoulas Santos ou Renato Sampaio se permitam fazer afirmações desconsiderantes e que roçam o insulto ao candidato e à inteligência dos militantes, sem que ninguém com responsabilidades, alguém que não dependa do "aparelho" e das gentes do "aparelho" para ter um lugar em S. Bento, à frente de uma concelhia ou de um instituto público para poder ser reconhecido na rua, se pronuncie.
Não será por quererem encostar Manuel Alegre ao Bloco de Esquerda que este deixará de ter a estatura e a dimensão que tem. Ou que o PS deixará de ser o partido que sempre foi, ainda que por circunstâncias conjunturais possa dar a ideia de estar refém das presidenciais e sob sequestro dos seus apparatchiks, sem que a sua classe dirigente mostre ter a força e a coragem, porque é disso mesmo que se trata, de acabar com a vozearia insensata, que até nos assuntos mais prementes se manifesta, em razão de uma tremenda falta de decisão e inabilidade na condução dos processos mais sensíveis, que, em rigor, só serve para desprestigiar o partido, dar cartas às oposições, desvalorizar as presidenciais e enaltecer o papel do actual Presidente da República.
A miopia em política paga-se caro. E com juros muito altos. E normalmente saem ambos a perder: o país e o partido.
É evidente que a situação económica e financeira do país aconselhava alguma cautela no "ataque" às presidenciais. O atraso na preparação do Orçamento, as negociações relativas ao PEC e a necessidade de estabilização parlamentar, aconselhavam moderação no discurso e em especial a contenção dos apparatchiks.
Manuel Alegre, como cidadão estimado e respeitado por portugueses de todos os quadrantes, entendeu iniciar movimentações junto dos seus apoiantes e avançar com a sua candidatura presidencial. Outros também o fizeram sem que por isso fossem criticados. Não há aí nada de mal, de grave, de ilegal ou de ilegítimo. Alegre não sofre de qualquer capitis deminutio que o impeça de ter vida pública, de se pronunciar sobre os temas de actualidade quando muito bem entende ou de apresentar a sua candidatura presidencial no momento que considere mais oportuno.
De igual modo, o facto de haver quem se precipite no apoio a um candidato para daí retirar dividendos políticos imediatos, cavalgando a onda do descontentamento enquanto pode, tirando partido da ambiguidade do discurso e da indecisão política de terceiros, pode ser criticável, mas é algo com que em democracia e em política se tem de contar.
Tenho ouvido dizer que cada um tem o seu tempo e que o tempo dos candidatos não é necessariamente o tempo dos partidos. Até aí estamos todos de acordo. Cada um gere o seu tempo como melhor lhe convém. Convirá também é que o faça, enquanto dirigente político e responsável partidário, de acordo não com a suas conveniências pessoais mas em função do interesse nacional e do interesse do partido, que não sendo obrigatoriamente coincidentes aconselham a que seja dada prevalência ao primeiro em todas as circunstâncias.
A multiplicação de intervenções contraditórias sobre as presidenciais, a insistência e o à-vontade com que alguns dirigentes menores, sem currículo e sem história, se têm revezado nas críticas a um eventual apoio à candidatura de Manuel Alegre, e as ignóbeis tentativas de silenciamento e refreamento nas manifestações de apoio ao candidato por parte de um núcleo conhecido da elite dirigente do PS, que não esconde a soberba nem a diletância, tão querida dos medíocres, quando critica a agenda de Manuel Alegre, tentando condicionar o apoio do PS ao seu candidato natural; o que vão fazendo com ameaças veladas de futuro não apoio - como se o seu eventual apoio enobrecesse o PS, alguém ou alguma causa -, indicam que o tempo para a direcção do partido se pronunciar está a chegar ao fim.
A chegar ao fim, bem entendido, se essa mesma direcção ainda quiser evitar uma nova dêbacle eleitoral, uma humilhação de cariz idêntico à que, há quatro anos, quando alheia ao país e ao partido, promoveu a candidatura de Mário Soares. Se for este o sentido do silêncio da direcção do partido então fica compreendido qual o seu tempo e qual a razão para que militantes como José Lello, Capoulas Santos ou Renato Sampaio se permitam fazer afirmações desconsiderantes e que roçam o insulto ao candidato e à inteligência dos militantes, sem que ninguém com responsabilidades, alguém que não dependa do "aparelho" e das gentes do "aparelho" para ter um lugar em S. Bento, à frente de uma concelhia ou de um instituto público para poder ser reconhecido na rua, se pronuncie.
Não será por quererem encostar Manuel Alegre ao Bloco de Esquerda que este deixará de ter a estatura e a dimensão que tem. Ou que o PS deixará de ser o partido que sempre foi, ainda que por circunstâncias conjunturais possa dar a ideia de estar refém das presidenciais e sob sequestro dos seus apparatchiks, sem que a sua classe dirigente mostre ter a força e a coragem, porque é disso mesmo que se trata, de acabar com a vozearia insensata, que até nos assuntos mais prementes se manifesta, em razão de uma tremenda falta de decisão e inabilidade na condução dos processos mais sensíveis, que, em rigor, só serve para desprestigiar o partido, dar cartas às oposições, desvalorizar as presidenciais e enaltecer o papel do actual Presidente da República.
A miopia em política paga-se caro. E com juros muito altos. E normalmente saem ambos a perder: o país e o partido.
quarta-feira, abril 14, 2010
A MAGIA DO TANGO
Por esta magnífica foto de Nacho Doce (Reuters) se percebe a inclinação do Estádio da Luz. E a inclinação, como resulta da posição dos jogadores, é para sul. Houve até quem tivesse que se deitar dentro da baliza para não sair borda fora. Gente fraca tem sempre que ter alguma coisa a que se agarrar para justificar a sua própria incompetência. Quantos são, quantos são? 26!
domingo, abril 11, 2010
SALVAGUARDAR O REGIME
“O caso que aí está é de outra natureza. E é um caso porque reforça a suspeita de que em qualquer negócio do Estado há sempre quem aproveite para meter dinheiro ao bolso. Essa miséria moral endémica, aliada a uma Justiça incapaz de cumprir o seu papel e que alastra a todos os níveis de decisão, comprometendo muitas vezes decisores políticos, é a doença mais grave deste regime que se desacredita processo após processo, sem que ninguém pague por eles” – Fernando Madrinha, Expresso, p. 9
O que Fernando Madrinha lucidamente escreve, mais do que uma simples constatação é, pela força do meio em que o faz e com a acutilância e o desassombro que marcam a diferença entre um espírito acomodado e um homem livre, mais um pungente alerta para a situação em que estamos.
Para o caso, é absolutamente inócuo saber se essa miséria moral endémica de que ele fala é ela própria uma consequência dessa confrangedora incapacidade do poder judicial para se fazer ouvir em termos tais que possa ser reconhecido, respeitado e querido pelos seus destinatários, ou se o poder judicial é o reverso de uma moeda que tem na outra face o rosto dessa miséria moral.
Sabemos que são os homens que fazem as leis e, entre nós, também sabemos que elas são muitas, más, confusas e que obedecem a uma lógica de “motorização da produção legislativa”, para fazer uso da feliz expressão de Carla Amado Gomes, que em nada contribui para contrariar tal incapacidade.
Como escrevia Aristóteles, “de nada aproveitará uma legislação, por muito útil que seja e aprovada unanimemente por todos os cidadãos, se estes não adquirirem os hábitos nem forem educados segundo o espírito do regime estabelecido”.
É que tal miséria moral endémica, ainda para voltar a pegar na obra recuperada por Sula de uma velha cave de Scepsis em 80 a.C., será o resultado de nas democracias os homens se conduzirem de acordo com aquilo que pretendem e, dizia ele citando Eurípides, “para onde o impulso os conduz”, o que será também uma das manifestações da liberdade. Aristóteles dizia ser esta uma situação iníqua, porque “viver de acordo com o estabelecido pelo regime não deve ser considerado uma servidão”.
Mas basta olhar para as nossas elites políticas e judiciais e perguntar ao cidadão comum como as vê para se compreender que hoje o regime vive no limbo. Não no limbo da liberdade ou do caos. Mas num limbo ético e moral que subsiste e fervilha nas secções dos partidos, nos gabinetes técnicos das autarquias, em muitas das sentenças e despachos proferidos no seio das magistraturas, na forma como se fazem e desfazem comissões parlamentares e no seio delas se depõe, no modo como se veicula para o exterior a simples informação do que por lá se passa ou, ainda num outro patamar, no estilo como os visados mais proeminentes comentam as críticas que a seu respeito se ouvem no espaço público.
Enquanto a maioria dos cidadãos deste país considerar que viver de acordo com o estabelecido pelo regime, isto é, de acordo com as suas leis, constitui uma servidão, uma canga que diariamente se suporta nas repartições, nas escolas, nos serviços ou até em frente de uma televisão, canga que anualmente se espelha nas declarações do IRS da maioria dos cidadãos, a salvaguarda do regime terá falhado, terá sido posta em xeque.
E assim continuará até ao dia em que os indigentes éticos sejam expulsos do regime, tarefa que terá de ser feita por todos os homens de bem – porque ainda os há –, que dentro dos partidos, em todos os ambientes e corporações onde essa miséria moral endémica se instalou e minou os alicerces do regime, ainda acreditam que não existem fatalismos.
Não o fazer será tornarmo-nos coniventes com os coveiros do regime e dizermos às gerações mais novas, singelamente, que não há presente porque nos limitámos a matar o futuro.
O que Fernando Madrinha lucidamente escreve, mais do que uma simples constatação é, pela força do meio em que o faz e com a acutilância e o desassombro que marcam a diferença entre um espírito acomodado e um homem livre, mais um pungente alerta para a situação em que estamos.
Para o caso, é absolutamente inócuo saber se essa miséria moral endémica de que ele fala é ela própria uma consequência dessa confrangedora incapacidade do poder judicial para se fazer ouvir em termos tais que possa ser reconhecido, respeitado e querido pelos seus destinatários, ou se o poder judicial é o reverso de uma moeda que tem na outra face o rosto dessa miséria moral.
Sabemos que são os homens que fazem as leis e, entre nós, também sabemos que elas são muitas, más, confusas e que obedecem a uma lógica de “motorização da produção legislativa”, para fazer uso da feliz expressão de Carla Amado Gomes, que em nada contribui para contrariar tal incapacidade.
Como escrevia Aristóteles, “de nada aproveitará uma legislação, por muito útil que seja e aprovada unanimemente por todos os cidadãos, se estes não adquirirem os hábitos nem forem educados segundo o espírito do regime estabelecido”.
É que tal miséria moral endémica, ainda para voltar a pegar na obra recuperada por Sula de uma velha cave de Scepsis em 80 a.C., será o resultado de nas democracias os homens se conduzirem de acordo com aquilo que pretendem e, dizia ele citando Eurípides, “para onde o impulso os conduz”, o que será também uma das manifestações da liberdade. Aristóteles dizia ser esta uma situação iníqua, porque “viver de acordo com o estabelecido pelo regime não deve ser considerado uma servidão”.
Mas basta olhar para as nossas elites políticas e judiciais e perguntar ao cidadão comum como as vê para se compreender que hoje o regime vive no limbo. Não no limbo da liberdade ou do caos. Mas num limbo ético e moral que subsiste e fervilha nas secções dos partidos, nos gabinetes técnicos das autarquias, em muitas das sentenças e despachos proferidos no seio das magistraturas, na forma como se fazem e desfazem comissões parlamentares e no seio delas se depõe, no modo como se veicula para o exterior a simples informação do que por lá se passa ou, ainda num outro patamar, no estilo como os visados mais proeminentes comentam as críticas que a seu respeito se ouvem no espaço público.
Enquanto a maioria dos cidadãos deste país considerar que viver de acordo com o estabelecido pelo regime, isto é, de acordo com as suas leis, constitui uma servidão, uma canga que diariamente se suporta nas repartições, nas escolas, nos serviços ou até em frente de uma televisão, canga que anualmente se espelha nas declarações do IRS da maioria dos cidadãos, a salvaguarda do regime terá falhado, terá sido posta em xeque.
E assim continuará até ao dia em que os indigentes éticos sejam expulsos do regime, tarefa que terá de ser feita por todos os homens de bem – porque ainda os há –, que dentro dos partidos, em todos os ambientes e corporações onde essa miséria moral endémica se instalou e minou os alicerces do regime, ainda acreditam que não existem fatalismos.
Não o fazer será tornarmo-nos coniventes com os coveiros do regime e dizermos às gerações mais novas, singelamente, que não há presente porque nos limitámos a matar o futuro.
[também no Delito de Opinião]
sexta-feira, abril 09, 2010
UMA ALEGRIA
Foi hoje publicada a portaria que vai corrigir o défice educacional e civilizacional dos portugueses, ensinar-lhes a comprar submarinos, eliminar a corrupção nas câmaras, e fazer a alegria dos petizes, dos papás e das mamãs. Agora é que vai valer a pena a malta ir à escola.
ISTO É RELEVANTE
Saber que este fulano é sócio do FC Porto não é relevante. Deve haver lá muitos como ele, do mesmo modo como nos outros clubes também há.Marques Guedes fez o que pôde para atalhar a mais este desconchavo, só que já não foi a tempo. E também por isso não retiro uma vírgula ao que antes escrevi sobre o seu papel à frente dessa comissão. Mas é relevante saber que em Portugal uma comissão parlamentar perde tempo a ouvir um tipo dizer estas inanidades. Isso é relevante. E é bom que os portugueses o saibam. Pelo menos para que isto não volte a acontecer.
P.S. Também não me parece bem que o Benfica ande a escrever cartas aos sócios do FC Porto.
quarta-feira, abril 07, 2010
COMEÇAR A PAGAR
Para quem ainda, praticamente, não deu sinal de liderança e tem um congresso pela frente dentro de alguns dias, não deixa de ser curiosa a rápida resposta de Passos Coelho ao convite do deputado Mendes Bota.
Marcar a diferença em relação à liderança anterior é evidentemente importante, tanto mais que a senhora que está de saída não pôs os pés em tão afamada e suarenta festarola. Que isso seja feito neste momento com tamanha prontidão aparenta ser mais de bombeiro do que de líder.
Confesso que tenho muita dificuldade em alcançar como pretende impor-se um líder cujo primeiro acto de liderança, anunciado aos quatro ventos, é garantir a presença no "evento mais carismático e tradicional do PSD no continente de Portugal", como afirma exuberante e palavroso o magnânimo chefe do PSD/Algarve, certamente para gáudio do meu amigo João Carvalho que com esta notícia poderá "rever em alta" as suas perspectivas para o Verão.
Desde Weber que eu sabia da existência de líderes carismáticos. Pela confirmação da aceitação do convite ficamos a saber que o carisma é extensivo a eventos no "continente de Portugal", o que por si só dá uma ideia da incontinência que aí vem.
Dirão alguns que com a chuva que caiu as barragens algarvias estão cheias e que se trata de uma antecipação da silly season. Eu penso que não.
Sabendo dos resultados de Passos Coelho no Algarve, e dos apoios que cada um dos candidatos tinha na região, não custa perceber por onde é que passa o rumo da nova liderança.
Como pôde comprovar Aguiar Branco pelos resultados alcançados, nem sempre o que parece é, e há passeatas, como a que ele fez no Verão passado à Quarteira, que de tão "carismáticas" se podem transformar rapidamente em "asnáticas".
A falta de controlo da verborreia dos acólitos regionalistas poderá não ser um primeiro sinal do carisma que aí vem. Porém, é uma certeza quanto ao local por onde vai começar a ser paga a factura das laranjas.
Marcar a diferença em relação à liderança anterior é evidentemente importante, tanto mais que a senhora que está de saída não pôs os pés em tão afamada e suarenta festarola. Que isso seja feito neste momento com tamanha prontidão aparenta ser mais de bombeiro do que de líder.
Confesso que tenho muita dificuldade em alcançar como pretende impor-se um líder cujo primeiro acto de liderança, anunciado aos quatro ventos, é garantir a presença no "evento mais carismático e tradicional do PSD no continente de Portugal", como afirma exuberante e palavroso o magnânimo chefe do PSD/Algarve, certamente para gáudio do meu amigo João Carvalho que com esta notícia poderá "rever em alta" as suas perspectivas para o Verão.
Desde Weber que eu sabia da existência de líderes carismáticos. Pela confirmação da aceitação do convite ficamos a saber que o carisma é extensivo a eventos no "continente de Portugal", o que por si só dá uma ideia da incontinência que aí vem.
Dirão alguns que com a chuva que caiu as barragens algarvias estão cheias e que se trata de uma antecipação da silly season. Eu penso que não.
Sabendo dos resultados de Passos Coelho no Algarve, e dos apoios que cada um dos candidatos tinha na região, não custa perceber por onde é que passa o rumo da nova liderança.
Como pôde comprovar Aguiar Branco pelos resultados alcançados, nem sempre o que parece é, e há passeatas, como a que ele fez no Verão passado à Quarteira, que de tão "carismáticas" se podem transformar rapidamente em "asnáticas".
A falta de controlo da verborreia dos acólitos regionalistas poderá não ser um primeiro sinal do carisma que aí vem. Porém, é uma certeza quanto ao local por onde vai começar a ser paga a factura das laranjas.
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