quinta-feira, dezembro 21, 2006

FRASES QUE ME FAZEM TER SIMPATIA POR QUEM NÃO CONHEÇO


A procuradora-geral adjunta escolhida pelo Procurador-Geral da República para coordenar o processo do “Apito Azul”, perdão, “do “Apito Dourado”, Maria José Morgado, deu uma entrevista à Sábado. Depois da efémera passagem da senhora pela PJ, de quando em vez ouvia falar nela, lia umas linhas aqui outras ali e ouvia-a perorar de tempos a tempos sobre o fenómeno desportivo, a corrupção e o crime de colarinho branco. Embora não tivesse gostado de ler o bilhete que enviou a Adelino Salvado, entendi que lhe devia ser dado o benefício da dúvida. Não é todos os dias que se vêm neste país de brandos costumes e inefável vida, magistrados tesos, incómodos, a falar de forma livre e responsável, sem que com isso puxem os galões das suas corporações.

Com a breve entrevista que deu à Sábado, Maria José Morgado, mostrou que merece bem mais do que o benefício da dúvida. Já não estamos no campo do mero voluntarismo ou da ingenuidade, mas perante uma mulher de corpo e alma entregue ao seu munus. E isso é bom.

Deixo aqui algumas das frases que foram por ela proferidas e que, sinceramente, espero que não venham a ser corrigidas:

O meu tempo é nenhum e para tal vou ser muito exigente

Todos os processos têm alguma solução. A justiça tem de explicar as coisas num tempo definido.”

O mal do Ministério Público é não haver competição, parecermos todos muito, muito bons e muito, muito iguais.”

O sindicalismo em Portugal foi pernicioso, porque apresentou uma magistratura a olhar para o umbigo e preocupada com meios que são instrumentais, e nunca apresentou uma estrutura preocupada em estar ao serviço do cidadão. É contrário à natureza do sindicalismo, é aquilo a que chamo o espírito sindicaleiro

É, pois, reconfortante saber, como cidadão e advogado, que no meu país também há magistrados a pensar assim. Por estas e por outras é que eu, neste país cheio de bananas armados em homens, recordando o Cinatti, continuo a gostar muito de “mulheres ao alto, ao lado, ao fundo e, adormecido, sonhar fora do mundo”.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

TEXTOS DA MINHA VIDA (6)

Le miroir d’un moment

Il dissipe le jour,
Il montre aux hommes les images déliées de l’apparence;
Il enlève aux hommes la possibilité de se distraire.
Il est dur comme la pierre;
La pierre informe,
La pierre du mouvement et de la vue ;
Et son éclat est telle que toutes les armures, tous les masques en sont faussés.
Ce que la main a pris dédaigne même de prendre la forme de la main,
Ce qui a été compris n’existe plus,
L’oiseau s’est confondu avec le vent,
Le ciel avec sa vérité,
L’homme avec sa réalité.

(Paul Eluard, in Capitale de la douleur, Gallimard, 1966)

A COZINHA DA JOANA


Descobri-o hoje, graças a um post de Eduardo Pitta no seu blogue. Chama-se A Cozinha da Joana e vai passar a ser de consulta quase diária. Sugestões, receitas e crítica gastronómica. E a Joana ainda nos dá os endereços de mais cinco (5!) blogues para gourmets (O Avental do Gourmet, Cinco Quartos de Laranja, Elvira's Bistrot, Chucrute com Salsicha e Momentos da Minha Vida).

terça-feira, dezembro 19, 2006

TEXTOS DA MINHA VIDA (5)


"Meu caro jovem poeta
Pedem-me que lhe escreva, como se o amigo tivesse começado por enviar-me poemas seus, solicitando a minha opinião. Pedem-me também que o considere o jovem poeta ideal, aquele que imaginamos o certo para escutar-nos. Pedem-me enfim — embora isso não seja dito — que eu me suponha o Rilke escrevendo a um jovem que não seja o medíocre a quem ele dizia tão belas coisas. Creio que é pedir demasiado.
De um modo geral, os poetas de reputação firmada, ou que se julgam ou são julgados tais (ninguém tem a sua reputação firmada em literatura, nem depois de séculos de ninguém nos ler e de todos repetirem que somos génios, a não ser que isso importe aos interesses ou desinteresses de alguns professores e críticos), costumam receber poemas ou poetas jovens que solicitam opinião. O poeta "velho" toma tal facto como uma vénia, um reconhecimento, que ele teme perder, por parte da juventude. Mas o que o poeta jovem na verdade procura não é bem uma opinião de alguém mais experiente (qual o poeta jovem que, no fundo, se não sente superior a qualquer mesmo admirado poeta "velho"?), mas sim uma oportunidade de entrar, pela mão de alguém, naquele mundo maravilhoso dos poetas vivos, da poesia pessoalmente, etc., que ele descobrirá ser um sórdido e torpe mundo, inteiramente igual, se não pior (porque se sustenta de uma importância que realmente não tem), àquele, tão comum e familiar, que, nas suas frustrações juvenis, o poeta jovem julga que detesta. Instintivamente, ele sabe que, se não pedir a bênção de alguém, dificilmente fará sem amarguras o seu caminho. Porque a vida literária é uma maçonaria como qualquer outra, onde é escusado imaginar-se que alguém entra forçando as portas. Tudo, na vida, funciona por camarilhas que oferecem a seus membros a tranquilidade de se imaginarem importantes ou, mais ainda, a ilusão de que estão vivos.
Se um conselho, ab initio, se pode e deve dar a um jovem poeta, é o de que perca a inocência juvenil, se venda, se prostitua (o próprio corpo, se necessário for, porque às vezes lho cobiçarão), se dedique à adulação da mediocridade triunfante, ouça respeitosamente as opiniões dos críticos mais influentes porque mais cretinos, e receba em troca a paz triunfal dos sucessos mundanos e literários. Se, depois disto, puder continuar a ser o poeta que havia nele ou que ele sonhava que seria, é um outro caso — mas, por esse segredo, poderá estar certo que ninguém perguntará. Forçar as portas, com um livro, dois livros, uma crítica, duas, muitas, dirigidas contra a infecta pesporrância dos estabelecidos; pedir justiça, em vez de amabilidade; exigir inteligência, em lugar de um comércio de retribuições; procurar a camaradagem limpa, e não aceitar os gestos dúbios; enfim, tudo o que diz respeito à dignidade humana e da poesia, em vez da complacência com tudo e todos — não rende. Nem em vida, nem na morte. Porque as histórias literárias, com raras excepções arquivo de tudo o que a mediocridade alguma vez disse sem ter lido, guardarão longamente, em benefício da posteridade, todo o veneno que os contemporâneos lançaram sobre aquele que, por pretender ser uma pessoa, e um poeta, lhes ameaçava, só por isso, a segurança. Ao jovem poeta, é preciso dizer-se que desconfie do grande poeta vivo que receba consagração geral. Se a recebe, é porque algo está podre naquele reino da Dinamarca.
Quanto aos seus poemas, meu caro poeta, como V. é um poeta inexistente, cujos poemas são imaginários, e como eu não acredito na Poesia, com maiúscula, preexistente aos poemas em que ela exista, que lhe direi? Eu não faço ideia alguma da espécie de poeta que o meu amigo é. Cultiva as imagens e as metáforas, no seu anseio juvenil de seguir uma das modas, e de parecer que diz coisas extremamente profundas, sem na verdade dizer nada? Ou prefere as palavras despedaçadas, uma letra para cada canto, ou os graciosos joguinhos do pata, peta, pita, pota, etc? Isso também se usa muito, e granjeia grande prestígio. Acaso faz ou não faz sonetos, pelo melhor modelo (que é o que funda a tradição parnasiana, um pouco erótica, para a masturbação em família, com os ornamentos do mais safado mas sempre brilhante gongorismo)? Ou está preocupado com os destinos do mundo ou os da pátria, e confunde-os com aquela inacabável tradição que manda os poetas imitar os Nerudas & C.a? Ou a sua poesia é extremamente vaga e diáfana, confortavelmente distante de qualquer afirmação excessiva, neste duvidoso mundo? Ou, pelo contrário, é amplamente discursiva, transbordante de riqueza (termo este muito usado pelos críticos em petição de matéria substantiva)? Como vê, meu amigo, não posso mais que aventar hipóteses, segundo as linhagens mais ilustres do momento. Oh, mas esquecia-me de outra: acaso será herdeiro do surrealismo, com alguma tintura de beatniks e de psiquedélicos da Califórnia e arredores, e compraz-se em insultar o mundo, insinuando perversões horríveis, e despejando sobre ele os palavrões sagrados, por extenso? Não? Não?! Então, meu caro amigo, das duas uma: ou a sua poesia é um regresso aos velhos padrões arcádico-românticos, e sem dúvida terá êxito ainda nos salões de uma profunda província, ou, na verdade, o senhor é um poeta. E, sendo poeta, é-o de tal modo, que a sua poesia não pode ser reconhecida, nem o senhor tem o direito de esperar que ela o seja. Daqui a vinte ou trinta anos, quando estiver alquebrado, exausto, esgotado, descrente da poesia a que sacrificou a sua vida e a de quantos tiveram a desgraça de depender de si, talvez então comecem a reconhecer que o senhor existe. Claro que muito a contragosto, muito de má vontade, com muita reticência... Eles, meu caro, serão sempre os génios; o senhor será também um génio, um génio imenso, um génio enorme, mas um génio mas, um génio adversativo. E pode ter a certeza de que assim ficará nas histórias literárias: sempre com um mas tanto maior, quanto pior seja o génio que não possam negar-lhe.
A poesia, querido amigo, não é o que pensa, não. Ela não lhe pode trazer, se verdadeira for, essa satisfação que transparece da sua tão trémula confiança em si mesmo. Isso, se me permite que lhe diga, é uma ilusão da sua juventude. A poesia não é essa alegria de fazer alguma coisa que nem todos os outros fazem, e que eles aliás desprezam. Não é também esse prazer enganoso de que possui com palavras o amor que lhe escapa, as coisas que não consegue, as ideias que perpassam na sua cabeça, antes ou depois da solidão. A poesia, caríssimo, é a solidão mesma: não a que vivemos, não a que sofremos, não a que possamos imaginar, mas a solidão em si, vivendo-se à sua custa. Já pensou no que isso é? Por ela, o senhor será egoísta, sendo altruísta; será mesquinho, sendo nobre; trairá tudo, para ser fiel a si mesmo. Por ela, o senhor ficará completamente só. E, quando, de horror, penetrar lá onde supõe que o "si mesmo" está para lhe fazer companhia, verificará, em pânico, a que ponto ele não existe, ou já não existe, ou nunca existiu senão como uma miragem, ou existiu, sim, mas também ele o senhor vendeu à poesia, a isso que não tem qualquer realidade senão como abstracção do que o senhor pensa e escreve, e que, por sua vez, é já uma abstracção do que o senhor viveu ou não. Medite um pouco no significado terrível deste ou não, e nunca mais escreva versos ou prosa poética, ou lá que é que escreve para se julgar poeta.
Se for um poeta de verdade, meu caro, o melhor é com efeito não escrevê-los, e deixar de o ser. Porque a única alternativa é pavorosa: ou prostituta, dando à cauda, entre as madamas; ou monstro solitário, rangendo os dentes na treva, ainda quando só tenha visões de anjos tocando flauta, numa apoteose (ou epifania, que é mais elegante, e era o que o Joyce dizia). Guarde os versos, rasgue os versos, esmague os versos, arrase com eles. É isso o que pretende: ranger os dentes, mesmo postiços, pelo resto da vida? Se é, meu caro amigo, então não mande os seus versos a ninguém, não peça opiniões que ninguém pode dar-lhe, não espere conselhos de uma experiência que é pessoal e intransmissível, não solicite uma atenção que não haverá quem lha conceda. A menos que, para fim de festa, pretenda tirar, para seu uso, a contraprova de que a humanidade como humanidade, os povos como povos, as nações como nações, as classes como classes, os grupos como grupos são sempre colecções mais ou menos numerosas de infames bestas. Ou a contraprova de que, individualmente, ninguém vale para além do orgasmo, ou do olhar de simpatia, ou do gesto de ternura. Ainda quando sejam poetas, meu caro, ainda quando o sejam.
Não lhe estou dizendo que não publique os versos, uma vez que tenha ânimo e força para aguentar-se no equilíbrio instável entre a condição de prostituta e a condição de mons­tro. Na verdade, se a tentação que sente é irresistível de escrevê-los, se não procura a fama ou o proveito, se a dor de escrevê-los só se cura com a dor maior de escrever outros, se se sente vazio e triste quando eles estão escritos, e sofre de sentir-se vazio quando vai escrevê-los, e não sabe nunca o que vai escrever, e acha horrível tudo o que escreveu mas não é capaz de destruí-lo, então publique-os, publique-os sempre. E mande-os a toda a gente. Toda. Mas não peça opiniões ou conselhos a ninguém. Deixe que eles todos fiquem amarrados, para sempre, à culpa de o não terem lido, de o não terem sentido, de o não terem admirado. Dê-lhes, se a glória tiver de ser sua, o castigo da sua glória, implacavelmente. No fim das contas, lá onde nas trevas os dentes lhe rangem furiosamente, que isto lhe sirva de alguma consolação: todos eles passarão, como os ratos passam. Mas alguma coisa não passará, por mais que na morte, no silêncio, na paz dos túmulos ou das histórias literárias, se desfaçam em tranquila cinza: essa culpa que, dentro de alguns anos, será tudo o que se recordará deles todos tão poetas, tão aplaudidos, tão queridos das damas e/ou dos efebos, e tão estudados, tão bibliografados, tão comemorados, tão tudo o que lhe terão recusado entre dois abraços e dois sorrisos. Outros ratos virão — mas a culpa fica. Bem sei, meu caro, que não adianta muito, sobretudo se a gente não acredita na imortalidade, ou mesmo que acredite. Consola porém alguma coisa. E dá coragem à gente até ao poema seguinte. É quanto basta. Ou tem de bastar, porque não há mais nada.
Sempre seu (que o manda para o Inferno que é nossa província)
Jorge de Sena"

É MESMO...


Com as minhas limitações e miopias, (…) procurei sempre, (..), ser um homem independente de espírito. Entre parêntesis, exercício particularmente difícil num país como o nosso onde todos se conhecem, se cumprimentam, se abraçam, se felicitam, se elogiam, se invejam e se recomendam”.

(Marcello Duarte Mathias, in Diário de Paris 2001-2003, p. 180)

PRESSÕES ILEGÍTIMAS OU EXERCÍCIO DO DIREITO DE DEFESA?


Sobre a notícia, que me foi agora transmitida e que pude confirmar no Diário Digital, de que o primeiro-ministro tinha escrito uma carta para o Tribunal Constitucional a juntar 5 pareceres de diversos constitucionalistas, no que foi encarado por alguns actores políticos como um acto ilegítimo de pressão sobre o tribunal e os seus juízes, transcreve-se o n.º 1 do artº 63º da Lei 28/82, de 15 de Novembro (Lei sobre a Organização, Funcionamento e Processo do Tribunal Constitucional), de acordo com as alterações introduzidas pela Lei 143/85, de 26 de Novembro, pela Lei n.º 85/89, de 7 de Setembro, pela Lei n.º 88/95, de 1 de Setembro, e pela Lei n.º 13-A/98, de 26 de Fevereiro:

Artigo 63º(Debate preliminar e distribuição)
1. Junta a resposta do órgão de que emanou a norma, ou decorrido o prazo fixado para o efeito sem que haja sido recebida, é entregue uma cópia dos autos a cada um dos juízes, acompanhada de um memorando onde são formuladas pelo Presidente do Tribunal as questões prévias e de fundo a que o Tribunal há-de responder, bem como de quaisquer elementos documentais reputados de interesse.

Não me foi passada procuração pelo engenheiro Sócrates, mas quaisquer outros comentários são despiciendos. Se a parte visada não se puder defender perante o tribunal, então perante quem se há-de defender?
Adenda: António José Teixeira lembrou ontem (19/12/06) na SIC Notícias que os pareceres foram pedidos antes da aprovação da lei e que situação idêntica ocorreu durante o governo de Durão Barroso. Tomo por boa essa informação, que aliás não foi desmentida, e fico-me por aqui.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

SÓ ATÉ 7 DE JANEIRO

(Pedro de Camprobín, Cesto con melocotones y ciruelas)

A exposição "Lo Fingido Verdadero" ou "The Imitation of the Real" estará patente ao público até 7 de Janeiro de 2007, no Museu Nacional do Prado. Os quadros que compõem esta mostra foram recentemente incorporados nas colecções do Museu do Prado. Constituem a famosa colecção de D. Rosendo Naseiro (Villalba, Lugo, 1935) e foram dados ao Estado espanhol por via de uma dação para pagamento de impostos do Banco Bilbao Vizcaya Argentaria. A não perder.

NÃO É SÓ NO CORTA-FITAS QUE É SEXTA-FEIRA


A fantástica Heidi Klum com umas meias que andam a fazer furor por aí. A ver se os pés não lhe arrrefecem.

UMA MÁ NOTÍCIA


A notícia hoje publicada no Público de que foi declarada a extinção dos golfinhos brancos que habitavam o rio Yangtsé (China). Quem há mais de uma dúzia de anos procurava defender a espécie e teve o privilégio de apoiar, ainda que apenas adquirindo t-shirts e envergando-as, as primeiras campanhas de protecção do WWF, não pode ficar indiferente a essa notícia. Como amante da natureza, mergulhador e apaixonado dos golfinhos brancos, hoje é um dia muito triste para mim. Oxalá seja apenas mais uma má notícia sem confirmação. E que dentro de alguns dias, meses ou anos, eles voltem a dar sinal da sua alegria.

UMA BOA NOTÍCIA

A nomeação de Maria José Morgado para coordenar a investigação do processo “Apito Dourado” é a todos os títulos uma boa notícia.

Desde logo, porque vamos todos ficar a saber, até que ponto a senhora procuradora tinha razão quando se queixava da falta de meios da PJ e da ineficácia de algumas investigações.

Depois, porque se não houver agora novas queixas quanto aos meios colocados ao seu dispor, será possível perceber até onde vai a capacidade de coordenação e a operacionalidade da senhora magistrada.

Em terceiro lugar, porque sendo a investigação coordenada por um dos magistrados reconhecidamente mais capazes e competentes da corporação, com largo currículo e experiência na área do combate à corrupção e ao crime económico, se não forem obtidos resultados aceitáveis num prazo razoável, não poderá depois o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público vir dizer que a investigação foi dirigida por gente de fora pouco habilitada.

E, finalmente, em quarto lugar, é ainda uma boa notícia porque dá sinal da atenção e importância dedicada ao caso pela hierarquia da Procuradoria, da vontade do senhor Procurador-Geral da República de envolver a estrutura do MP na sua acção e de não serem dadas tréguas à corrupção e ao actual clima de impunidade, suspeição e promiscuidade que, varrendo todas as estruturas do futebol português, acaba salpicando a magistratura e poder político.

Vamos aguardar pelos próximos capítulos.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

A SEGUIR COM ATENÇÃO

O jornal Tribuna de Macau (JTM) revela hoje, a propósito da detenção na passada semana do ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas do executivo da RAEM, que "Pequim tem sido sempre uma sombra muito presente sobre o processo de Ao Man Long". Acrescenta o referido jornal que "a dúvida prende-se com a própria extensão do envolvimento do Governo Central no início do processo" e que o matutino “South China Morning Post”, de Hong Kong, "escrevia, na semana passada, que a Comissão Independente contra a Corrupção de Hong Kong (ICAC na sigla inglesa), ao deparar-se com alegados movimentos financeiros suspeitos, colocou Pequim ao corrente do caso". De acordo com o referido jornal, "teriam sido as autoridades do Governo Central que pressionaram o Executivo de Macau para que fosse levada a cabo a detenção de Ao Man Long". A notícia não pôde ainda ser confirmada pelo JTM, mas não deixa de suscitar preocupação.
A ser verdade, isso significaria uma intromissão grave de Pequim na vida política, judicial e administrativa de Macau, enquanto Região Administrativa Especial da RP da China. E, nesse caso, o Governo Português teria que tomar uma posição. Tal intromissão representaria uma clara e flagrante violação da Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre o Futuro de Macau, assinada em 1987, pelo hoje presidente, então primeiro-ministro, Cavaco Silva. Mais um caso a seguir com muita atenção, não vá o diabo tecê-las.

REGIONALIZAÇÃO MUSICAL


Anuncia-se, com toda a pompa e circunstância, a estreia absoluta do "Hino do Algarve", que tem música do maestro Armando Mota e a letra do senhor vice-presidente e arquitecto que dirige os destinos da cultura da Câmara de Vila Real de Santo António. Só gostava de saber se os ouvintes vão ter de se levantar e os homens de destapar a cabeça. É que com o frio que está...

... e depois ainda falam em regionalização.


YOLANDA CASTAÑO


A senhora que está na imagem podia ser um modelo. Mas não é. Trata-se de Yolanda Castaño, poetisa, escritora, cronista e critica literária. Natural de Santiago de Compostela, onde nasceu em 1977, além de ser uma mulher belíssima, escreve admiravelmente. Foi secretária da asociação de escritores de língua galega e recebeu o prémio da crítica espanhola em 1998. "Elevar as pálpebras", "Delicias", "Vivimos no ciclo das erofanías", "Edénica" e o "Libro da egoísta" são os títulos das suas obras. Um nome a reter no actual contexto da nova poesia que vem de Espanha. Ah!, já me esquecia, este mês passou a colaborar com a GQ. A edição espanhola está claro.

A NÃO PERDER



Começou dia 5 de Dezembro e vai terminar no dia 4 de Março de 2007. Para quem aprecia estas coisas, os desenhos espanhóis da Sociedade Hispânica da América são fantásticos. Do Século de Ouro a Goya. No Museu do Prado.

MADRID ME MATA (2)



O Plato Y Placer fica numa das zonas mais castiças de Madrid, próximo da estacão de metro de La Latina e da Plaza de La Paja, em plena Calle de La Morería, 9. Cozinha de autor de bom nível, decoração curiosa, uma boa carta de vinhos e sobremesas excepcionais. Recomendo vivamente as alcachofras com presunto e ovos de codorniz e o arroz de lavagante (bogavante). O chefe de mesa não é particularmente simpático, em especial se chegar atrasado, mas se não lhe fizer caso ele manda outra pessoa atendê-lo.



O Ølsen é um restaurante de inspiração nórdica, com cadeirões confortáveis, uma carta de dezenas de vodkas de diferentes sabores macerados artesanalmente. A música é de Josep Arrom. Tem um site em http://www.olsenmadrid.com/. Quanto à comida apenas se pode dizer que é excelente. Das entradas de queijo de cabra com beterraba ao melão com salmão e caviar vermelho, dos raviolis de veado ao lombo de porco com frutos silvestres, sem esquecer as sobremesas e os vinhos, tudo num ambiente desempoeirado e atencioso. Fica logo ali, na Calle Prado, 15.

TEXTOS DA MINHA VIDA (4)



















(Extracto de uma tradução do Rui Knopfli)
(…)
V

Se a palavra perdida perdida é, se a palavra proferida proferida é
Se a ensurdecida, emudecida palavra
Está emudecida, ensurdecida;
Inerte é a palavra emudecida, o Verbo ensurdecido,
O Verbo sem palavra, o Verbo dentro
Do mundo e para o mundo;
E fez-se luz nas trevas e
Contra o Verbo o mundo perturbado ainda rodopiava
Em torno do Verbo silencioso

Ó meu povo, que fiz eu de ti.

Onde se achará a palavra, onde ressoará
A palavra? Não aqui, aqui não há silêncio bastante
Nem no mar ou nas ilhas, nem
Na terra firme, no deserto ou nas regiões pluviosas,
Para aqueles que caminham nas trevas
Tanto durante o dia como durante a noite
A hora certa e o lugar certo não são aqui
Não há lugar de conforto para os que evitam o rosto
Não há hora de júbilo para os que caminham por entre o ruído
E renunciam à voz. (...)


(…)
V

If the lost word is lost, if the spent word is spent
If the unheard, unspoken
Word is unspoken, unheard;
Still is the unspoken word, the Word unheard,
The Word without a word, the Word within
The world and for the world;
And the light shone in darkness and
Against the Word the unstilled world still whirled
About the centre of the silent Word.

O my people, what have I done unto thee.

Where shall the word be found, where will the word
Resound? Not here, there is not enough silence
Not on the sea or on the islands, not
On the mainland, in the desert or in the rain land,
For those who walk in darkness
Both in the day time and in the night time
The right time and the right place are not here
No place of grace for those who avoid the face
No time to rejoice for those who walk among noise
And deny the voice. (…)

(T.S. Elliot, in Ash-Wednesday, 1930)

terça-feira, dezembro 12, 2006

O DILEMA DA LUZ


Onde é que eu já vi este filme?


“El dilema de la luz

La revisión de las tarifas eléctricas par 2007 ha situado al Gobierno en una situación confusa y delicada. Así se desprende tras el vodevilesco episodio de la semana pasada. Primero se informó de una subida media del 10% y después se rectificó con promesas de que el encarecimiento se acompasaría al IPC. El fondo de la cuestión es más fácil de explicar que de creer: el actual sistema de fijación de tarifas genera cada año un déficit cuantioso – 3800 millones en 2005 y unos 4.000 millones en 2006 –, producido por la diferencia entre los ingresos que se obtiene en función de la tarifa que fija ele Gobierno y el dinero que reciben por ley las empresas, que se calcula en función de los costes; para evitar el déficit, la tarifa tendría que aumentar en torno al 20% o 25%, lo cual es políticamente impensable; y si se autorizan aumentos más moderados, el déficit obligará a pagos aplazados durante los siguientes 15 o 20 años, de forma que pagarán la factura las generaciones posteriores.

El equipo económico se encuentra ante una decisión conflictiva. Un encarecimiento significativo de la luz tendría una comparición desfavorable con las rebajas de tarifa aplicadas durante los primeros años de gestión económica del PP e incluso con las subidas por debajo del IPC decididas en 2003 y 2004. Las eléctricas soportaron las rebajas iniciales y las moderadas subidas posteriores debido a la reducción de costes derivados del descenso de los tipos de interés, al petróleo barato y a la bolsa de Costes de Transición a la Competencia (CTC), graciosamente donada por ele primer Gobierno de Aznar. La situación hoy, con el precio del dinero y del petróleo subiendo, es distinta y se advierten los efectos perniciosos de la Ley Eléctrica aprobada por ele PP en 1998, una combinación extravagante de tarifas públicas con un remedo de mercado cuyo precio de referencia pueden manipular fácilmente las empresas.

Lo más correcto seria subir las tarifas de forma sustancial. Por dos motivos: el consumidor debe hacer frente al aumento de los costes de la electricidad, y el precio más caro de la luz puede tener un efecto disuasorio sobre el consumo. Pero no sólo hay que actuar directamente sobre los precios. También hay que cambiar la Ley Eléctrica y desmantelar el seudomercado mayorista, insuficiente y manipulado, por el procedimiento de fijar precios de referencia de volúmenes crecientes de producción eléctrica mediante contratos a largo plazo.”
(Editorial, El Pais, 11/9/2006)

GQ



A edição de Dezembro da GQ espanhola é um portento pela qualidade da imagem e de alguns textos. Para além das fantásticas fotografias de Heidi Klum, das novidades literárias e gastronómicas, há uma entrevista com Francis Obikwelu, esse novo fruto da globalização e da luta contra a adversidade, e um texto sobre Lorca, poeta do século XXI, da autoria de Manuel Francisco Reina. Para quem de quando em vez lê as congéneres portuguesas que por aí pululam, com fotografias de sopeiras armadas em rainhas da moda e textos cujo estilo e conteúdo são de arrepiar, não há nada como ler este número da GQ.

MADRID ME MATA (1)


Voltar a Madrid é sempre uma festa. Há sempre qualquer coisa de novo, de diferente, de único. Na Gran Via 11 abriu um hotel. Até aí nada de especial. Esse hotel tem um restaurante. Quase todos o têm. O que foge à regra é ser um hotel com livros, que logo à entrada do elevador tem uma citação de Júlio Cortazar. E de ter um restaurante com livros que é um verdadeiro deleite para os sentidos. Ao lado do guardanapo um cartão simpático com um curto conto de Natal, alusão à época, de Ray Bradbury. Depois, a decoração é toda ela em tons de laca preta e vermelha, vidros, aço, luzes discretas, mesas negras, design irrepreensível, com um bar simpático, gente bonita, confecção e apresentação exemplares, pessoal atencioso, vinhos de altíssimo gabarito, uma música agradável e o preço…uma agradável surpresa. Para quem gosta de fazer vida de sibarita, nem que seja por apenas um dia, vale a pena ir ao hotel e restaurante “De las Letras” ou, como é mais conhecido “DL’s”.
Aliás, em que outro sitio do mundo me poderiam dar um cartão com o nome do restaurante e uma citação extraída dos Ensaios de Montaigne? Para que não nos esqueçamos que esta vida (e espero que também a outra) está repleta de livros aos quais nem sempre damos a devida atenção. “DL’s” definitivamente.

DE LUVA BRANCA


Mas não foi só em Portugal que aconteceram coisas. Ou, como dizia o poeta, que o mundo pulou e avançou como bola colorida entre as mãos de uma criança. Em Macau, foi detido e exonerado o secretário para os Transportes e Obras Públicas do Governo de Macau. Ao Man Long foi engavetado com mais uma dezena de pessoas, incluindo um irmão e uma cunhada e mais uma série de gente ligada às obras públicas, com funções de responsabilidade. Bastaram 150 horas e uma denúncia para a investigação apresentar resultados. Num dia o secretário apresentava as linhas de acção governativa na Assembleia Legislativa, no outro era detido. Entre outras coisas, as autoridades apanharam-lhe mais de cem mil patacas e dólares de Hong Kong numa gaveta, títulos diversos e com a colaboração da poderosa autoridade de luta anti-corrupção de Hong Kong conseguiram chegar a diversas contas bancárias, imóveis e sociedades ligadas ao ex-governante. Dizem os jornais que nalgumas das suas contas até foram depositados cheques dos casinos de Macau. O seu advogado, o ex-juiz desembargador Mendonça de Freitas, que foi também director da Polícia Judiciária de Macau e Alto Comissário Contra a Corrupção e a Ilegalidade Administrativa no tempo da anterior adminsitração, queixou-se da exposição pública do caso. Fica-lhe bem.

Mas ao dar este sinal, a Região Administrativa Especial de Macau demonstra não estar disposta a pactuar com o espírito e a atitude contemporizadora da antiga Administração portuguesa em matéria de corrupção. Durante décadas, em especial entre 1989 e 1999, Portugal foi incapaz de fazer aquilo que o avolumar e adensar de múltiplas e públicas suspeitas exigiam. Dessa forma se minou aos olhos dos chineses a imagem, a credibilidade e a reputação de Portugal, dos governantes portugueses e da trabalhadora comunidade portuguesa de Macau.

Agora, a RAEM em vez de fugir do problema encarou-o de frente. A China sabe que décadas de laxismo, nepotismo e peculato só serviram para institucionalizar práticas corruptivas no território e desvirtuar alguns costumes chineses.

Edmund Ho continua a dar cartas e depois do caso da Fundação Jorge Álvares esta é mais uma bofetada de luva branca que vai inteirinha para Jorge Sampaio, para o general Rocha Vieira e para antiga potência administrante. Há lições que tardam mas acabam por chegar. Pena é que quem devia não o tivesse visto a tempo.