segunda-feira, outubro 23, 2006

ESTÃO A MATAR A MAGIA DO FUTEBOL

"NEGATIVO: ARBITRAGEM DE CARLOS XISTRA O chorrilho de asneiras de Carlos Xistra e seus assistentes foi de tal ordem que conseguiu estragar o jogo. O Benfica foi o principal prejudicado, tendo ficado duas grandes penalidades por assinalar por faltas sobre Nuno Gomes (22) e Miccoli (72’). E pelo menos dois foras-de-jogo mal assinalados a Miccoli (8’ e 67’) cortaram lances de golo. Xistra acabou de cabeça perdida, a exibir cartões a torto e a direito. Uma lástima." - Correio da Manhã

"Numa noite de equívocos para o juiz de Castelo Branco (esteve mal nos capítulos técnico e disciplinar, mostrando 15 cartões amarelos e três vermelhos), Miccoli foi expulso depois de Rui Duarte o ter agarrado de forma persistente. Carlos Xistra terá visto a reacção de punhos fechados do transalpino à falta sofrida e expulsou-o. Minutos mais tarde, mandou Rui Duarte mais cedo para os balneários após uma falta cometida por Jordão! " - Diário de Notícias

"Simão marcou de grande penalidade e descansou as hostes. Todavia, foi, a partir daqui, que Carlos Xistra estragou, por completo, o espectáculo. A mostrar amarelos por tudo e por nada, o saldo foram 16 amarelos e três vermelhos numa partida que nada teve de violenta. Nem sequer agressiva. A expulsão de Miccoli foi ridícula. No primeiro amarelo, o futebolista nem sequer estava em fora de jogo quando passou a bola a um colega. No segundo, abriu os braços quando estava a ser agarrado por um adversário. Resultado não actua no Estádio do Dragão. " - Jornal de Notícias

"Após o intervalo tudo se precipitou: a vitória do Benfica, inquestionável, e a arbitragem de Carlos Xistra, a descambar para um festival de erros, dos quais o Benfica só tem a lamentar-se, tantos foram os que se verificaram contra si. O segundo golo, de Simão, na transformação de um penalty claríssimo, abriu as portas a um Benfica que dinamizou o ataque e materializou um futebol criativo, rápido, mas oportunidades soberanas para aumentar a vantagem acabaram anuladas por decisões inexplicáveis de Xistra e os seus auxiliares. Foi assim quando Nuno Gomes se isolava (59) e viu o lance anulado por pretenso fora-de-jogo; foi mais descarado ainda o desacerto na arbitragem quando Miccoli (67), sem ninguém pela frente a não ser o guarda-redes viu a jogada interrompida, outra vez por fora-de-jogo inexistente. Como se não bastasse, o atacante italiano levou cartão amarelo. Duas oportunidade para o Benfica dilatar a vantagem, que não passaram disso mesmo. Depois veio o desacerto total de Carlos Xistra: Rui Duarte faz falta sobre Miccoli, vê o amarelo, mas, surpreendemtente, Miccoli também vê a cartolina e é expulso. Ou seja, Miccoli sai prematuramente do campo sem ter feito uma única falta para ver qualquer cartão". - in A Bola.

"A expulsão de Miccoli - viu o primeiro cartão amarelo num lance em que não estava fora-de-jogo; o segundo depois de ter sofrido uma falta dura - acabou mesmo por ser a cereja em cima de um bolo de disparates, que prejudicou ambas as equipas e que coloca o avançado italiano de fora do encontro da próxima no... Estádio do Dragão. " - O JOGO

Que me desculpem os meus amigos, mas perante isto não vale a pena fazer quaisquer outros comentários.

sexta-feira, outubro 20, 2006

DOMINGO, À HORA DO COSTUME!

O Manel já lá não está, mas o balneário é o mesmo.

O SERVIÇO EXPRESSO DA DECO














A DECO, uma associação que é suposto defender os consumidores, agora deu em inundar-me regularmente a caixa do correio com a sua propaganda, embora lá esteja um aviso apedir para não me meterem publicidade.

É claro que não se trata de publicidade igual à do Lidl, do Jumbo ou do Continente. Estes ainda não obtiveram o meu nome nem a minha morada. Mas a DECO obteve. E eu que até sou daqueles que quando me pedem os dados em qualquer lado ponho logo a cruzinha a dizer que não autorizo o fornecimento dos meus dados a terceiros nem quero receber ofertas promocionais das empresas do grupo.

Ainda por cima as coisas lá para casa vêm sempre a dobrar.

Que a DECO precise de se promover e de aumentar o número de associados é uma coisa. Que nos queira impingir as suas revistas é outra coisa. E que agora também contribua para nos atulhar a caixa do correio ainda outra.

Além do mais, nunca gostei do estilo "Selecções do Readers" que a DECO agora cultiva: "Abra rapidamente, Exmº Sr. Correia para descobrir como receber o seu leitor de mp 3". Mas quem é que lhes disse que eu estou interessado em receber um leitor de Mp3? Ou um original despertador com projecção da hora? E passar a andar com "dezenas de canções no meu bolso"? Ou receber cheques-brinde de desconto? Para começarem a gastar o que gastam em publicidade, ofertas, papel e tintas, que no fim só serve para ir para o lixo, isso só pode significar que estão ricos à custa do consumidor.

Pior do que isso: das poucas vezes que tentei contactar essa prestimosa associação para expor situações do seu interesse e dos seus associados, e não exclusivamente do meu, fui invariavelmente atendido por um gravador de chamadas que me dava música, ao estilo Portugal Telecom. E da única vez que conseguiu falar com alguém veio uma senhora dizer-me que eu tinha que me fazer sócio para apresentar qualquer queixa ou sugestão. É claro que fiquei elucidado.

Não sei quem lhes deu o meu nome. Acho um abuso que agora me enviem correspondência, mas desde já agradeço que não voltem a contactar-me.

NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS


Confesso que, ontem, fiquei estupefacto com as reportagens que vi sobre a futura "Clínica Dois Arcos", que a conhecida casa de Badajoz pretende abrir no centro de Lisboa para a realização de abortos com todo o profissionalismo.
Desde logo, porque estranhei a coincidência das reportagens, na SIC Notícias e, se não estou em erro, na RTP 1, no mesmo dia em que no Parlamento se ia votar o referendo à interrupção voluntária da gravidez.
Depois, porque o ar de confiança e perfeitamente empresarial da senhora Yolanda Hernandez, que publicitou descaradamente os méritos da sua clínica, são pouco compatíveis com a seriedade com que a questão deverá ser tratada.
Em terceiro lugar, porque considerei tais reportagens e a entrevista com a dita senhora, como uma pressão manifestamente ilegítima sobre os portugueses, num momento tão crucial e decisivo. Se este tipo de estratégia vai fazer parte da campanha a favor do sim à IVG, então a coisa começa muito mal. Depois da forma atabalhoada como o PS conduziu o assunto no parlamento e das asneiras que sobre essa matéria têm sido feitas e ditas, só faltava mesmo o toque empresarial.
Se querem que isso seja tratado como uma matéria económica então é dizê-lo. Nesse caso poder-se-á então falar de alteração da moldura penal e de liberalização, nesta última hipótese com o mesmo sentido com que se fala da liberalização das telecomunicações ou da rede eléctrica.
As televisões, sejam elas públicas ou privadas, podem apelar à participação dos portugueses no referendo. Podem e devem contribuir para o debate, para o esclarecimento. Não podem é constituir-se em parte interessada no referendo e promover a publicitação de actos puramente comerciais que nada têm a ver com a essência do problema. Não é a mesma coisa fazer uma reportagem sobre o aborto ou sobre a operação da Lili Caneças na Corporación Dermoestetica.
Se querem que vos diga, as reportagens meteram-me nojo. E eu que não ia fazer campanha até já estou a pensar seriamente em vir a fazê-la.
Mas sobre isso e a minha posição relativamente ao aborto reservo-me para mais tarde. Até lá espero que haja decoro e um mínimo de bom senso.

quarta-feira, outubro 18, 2006

INSTITUIÇÕES QUE FUNCIONAM


O ministro Alberto Costa foi confrontado com a pergunta de um repórter, não me perguntem qual, sobre o chumbo do Conselho Superior do Ministério Público à escolha pelo novo PGR do seu vice.
Em resposta ao que lhe foi perguntado, o ministro achou por bem escusar-se a emitir qualquer opinião ou a fazer interpretações à posição tomada pelo CSMP, manifestando antes a sua confiança no funcionamento das instituições.
Eu sei que só fica bem ao senhor ministro da Justiça manifestar a sua confiança nas instituições, em especial em relação àquelas que estão na sua área, como o CSMP, e com as quais tem de manter as melhores relações, digo eu, institucionais.
Já não sei é se esse raciocínio fará muito sentido em relação a órgãos institucionais, como o CSMP, que podem constituir uma verdadeira força de bloqueio à actuação do novo PGR.
O melhor é mesmo esperar pelos próximos desenvolvimentos para termos a certeza de que o ministro tem razão. E que são as instituições, e não as corporações, que estão a funcionar.

UM PAÍS DE AGENTES CULTURAIS!

Estava eu muito quietinho a almoçar, quando vi aparecer na pantalha da minha televisão um senhor, por detrás de um gradeamento, num local que dizem ser o Teatro Rivoli, a afirmar que era um "agente cultural" e que ele e mais uns quantos "agentes culturais" estavam à espera que a senhora ministra da Cultura desse uma mãozinha na resolução do problema em curso. O problema em curso é, ao que parece, a obtenção de uma garantia de que aquele espaço, depois de ser entregue pela Câmara Municipal do Porto à gestão privada, continuará a servir o interesse público.
Veio depois a dita ministra dizer que o assunto não era com ela e que nas atribuições do seu ministério não se inseria a gestão desse espaço. Manifestou, no entanto, disponibilidade para conversar com quem estava do outro lado das grades se as abrissem e fossem à sua vida.
Tenho dúvidas que os "agentes culturais" do Rivoli dêem ouvidos à ministra. A senhora é do Porto e costuma-se dizer que "em casa de ferreiro, espeto de pau".
É claro que ao fim destes dias todos a ouvir falar no Rivoli, a ver os tais "agentes culturais" e umas madames de beata na mão a darem entrevistas do outro lado das grades, todos muito preocupados com o interesse público, já me começo a sentir também um verdadeiro "agente cultural".
Eu admiro esta gente que consegue estar desde domingo enfiada no Rivoli. Queixam-se do frio, da comida, do senhor Rui Rio...
Só não ouvi nenhum deles queixar-se da falta do banho.
P.S. Se alguém me souber dizer o que é preciso fazer para se ser um "agente cultural" agradeço. Pode ser que esteja também interessado. Mas aviso já que eu não passo sem o banho.

POIS, A CULPA É SEMPRE DO OUTRO!



Revela a SIC on line, e repetem as rádios, que "O secretário de Estado Adjunto da Indústria e da Inovação, António Castro Guerra, declarou que "a culpa" do aumento de 15,7 por cento da electricidade para os consumidores domésticos em 2007 é do próprio consumidor, porque esteve vários anos a pagar menos do que devia".

Eu não sei quem é o infeliz que diz uma boutade destas numa altura como aquela que atravessamos, com o orçamento no parlamento à espera de ser discutido e em que se pede aos portugueses, uma vez mais, para apertarem o cinto e colaborarem no esforço de contenção do governo.

Sei é que um tipo que diz uma besteira destas devia ser imediatamente posto a andar, já que revela despropósito, falta de senso, impreparação para o exercício de funções políticas de responsabilidade e a mais absoluta insensibilidade.
Só é pena que quando o disse, o fulano não tenha também pensado que, em rigor, também são os consumidores os responsáveis pelo facto de ele exercer funções de secretário de Estado. É que se não fossem os imbecis dos consumidores, nunca o PS teria ganho eleições nem o engenheiro Sócrates chegaria a primeiro-ministro.
P.S. Não tem nada a ver com isto, mas aproveito para agradecer as simpáticas palavras que alguns parceiros da Blogosfera me têm dirigido. Em especial, ao Paulo Gorjão (Bloguítica), ao Rui Castro (Incontinentes Verbais) e ao meu velho amigo Pedro Correia (Corta Fitas), que já não vejo há uns anos mas que demonstra continuar informado e em grande forma.

terça-feira, outubro 17, 2006

FORÇA BENFICA!


Hoje é dia de "São Benfica".

Em Glasgow, em Vancouver, em Macau, em Lisboa, no Porto, em Luanda ou em Moscovo, há todo um mundo que fala português, que se revê na simplicidade e na magia do pequeno bombardeiro e torce pela papoilas saltitantes.
Força Benfica! Força Benfica! Força Benfica!

DIÁLOGO DE SURDOS



Se dúvidas houvesse sobre as limitações e os constrangimentos do poder autárquico em Portugal, elas ficaram dissipadas no último Prós e Contras (RTP1, 16/10/06).

Se a Associação Nacional de Municípios Portugueses e o conjunto dos autarcas se revêem nas intervenções de Fernando Ruas e Ribau Esteves, então estas tiveram o indiscutível mérito de revelar, para além da demagogia óbvia do respectivo discurso, que a grande maioria dos autarcas tem uma concepção errada da natureza e extensão dos poderes que lhes estão atribuídos. Este défice torna-se mais evidente quando se vê que aqueles responsáveis da ANMP demonstram uma tremenda incapacidade para compreender os discursos de António Costa e Saldanha Sanches.

Não é o facto de serem excelentes pessoas, empenhadas, conhecedoras das suas regiões e militantes das estruturas locais dos partidos, que os habilita e autoriza a falarem, à boca cheia, em nome das suas populações quando se trata de confrontar as mais do que discutíveis opções autárquicas com uma política global para as autarquias, vertida numa lei que pretende ser um modelo de rigor, de transparência e um factor acrescido de coesão nacional.

Foi confrangedor ver a forma como Fernando Ruas pretendia atacar Saldanha Sanches e António Costa, depois de todos termos visto que aquele não percebeu, ou fez que não percebeu, embora eu me incline mais para a primeira hipótese, as claríssimas intervenções dos seus oponentes e a justeza dos argumentos carreados para o debate. Incapaz de falar a mesma linguagem, a ANMP refugia-se no discurso fácil, redondo, enganador, desprovido de factos e de soluções.

Os autarcas insistem em falar uma linguagem exclusiva, virada para dentro e para o seu próprio umbigo, diferente daquela que o país fala e os portugueses compreendem, convencidos como estão que foram ungidos com o exclusivo da defesa das "suas populações". Pena foi, e isso era importante que tivesse sido esclarecido, que não se ficasse a saber por que razão algumas das Câmaras mais ricas do país apresentam endividamentos astronómicos não se vendo nessas terras obra que se veja. Faro é uma dessas evidências e um dos casos mais gritantes. Bem sei que em matéria de Direito das Sucessões os herdeiros só aceitam as heranças que querem, e podem fazê-lo a benefício de inventário, coisa que não se passa quando se assume a direcção de um município. Mas este é um dos ónus da actividade política e a contrapartida do poder que exercem e das responsabilidades que é suposto assumirem.

E quando Ribau Esteves vem falar nos custos das Scut's apenas está a disparar contra si e os seus associados, dando de bandeja toda a razão ao Governo. Porque se o custo das Scut´s pode servir de moeda de troca ou de justificação para tentarem exigir mais dinheiro da Administração Central e menos responsabilidades - aquela de quererem a tutela do Tribunal de Contas a toda a hora dentro das autarquias a fiscalizar os disparates que fazem foi de antologia -, então o melhor talvez seja começar por aí e, nessa altura, eu quero ver se os autarcas do Algarve vão aceitar a renovação do piso e a melhoria das condições de circulação da A22 contra o pagamento de portagens (ainda que diferenciadas para residentes e não residentes) que façam face aos custos de manutenção desta via estruturante do Algarve.

A democracia é uma operação aritmética mais complexa do que aquilo que imaginam a maioria dos nossos autarcas, não se esgotando na preparação de campanhas eleitorais ou na distribuição a eito de almoços, jantares, convites para o teatro ou para a bola, empregos para os amigos, contratos para os empreiteiros da região e outras benesses avulsas.

E por esse motivo é que enquanto muitos dos nossos autarcas persistirem em querer confundir a legitimidade autárquica com a que vem de eleições nacionais, misturando alhos com bugalhos para melhor confundirem os eleitores e esconderem a sua impreparação, eles e os dirigentes da ANMP continuarão a dar trunfos a todos os que os criticam. Ou eu me engano muito ou muitos deles vão acabar a falar sozinhos.

segunda-feira, outubro 16, 2006

ALMEIDA SANTOS E AS QUASE MEMÓRIAS


A CASA DAS LETRAS continua a publicar bons livros. Recentemente editou "Maquiavel em Democracia" de Edouard Balladur e as "Quase Memórias - Do Colonialismo e da Descolonização" de António Almeida Santos.
Este último constitui um notável documento, pese embora o seu aparecimento tardio e num momento em que muitos dos actores referidos já nos deixaram, sobre uma série de factos e de circunstâncias que rodearam os últimos anos do regime deposto em 25 de Abril de 1974 e os conturbados anos que precederam a aprovação da Constituição de 76, quer em Portugal quer nas ex-colónias.
Seria deveras interessante saber o que pensam, do que escreveu Almeida Santos, aqueles que ainda estão vivos, designadamente todos os que foram seus colegas de Governo, ou os que em Moçambique e Angola acompanharam muitos dos acontecimentos relatados. Spínola já não poderá defender-se, mas outros haverá que, sendo visados, ainda o poderão fazer e defender a sua honra.
Sem isso será impossível fazer com seriedade o tão necessário debate. E a verdade que, como ele enfaticamente diz, lhe pertence, continuará a ser dele em vez de a todos pertencer. Era natural que Almeida Santos, mais cedo ou mais tarde, se quisesse defender de alguns dos excessos que lhe foram imputados, ao longo dos anos, por tudo o que de mau ocorreu durante o processo de descolonização, em especial por muitos dos ex-residentes ultramarinos. Todos esperavam que ele já o tivesse feito há mais tempo. Mas mais vale tarde do que nunca.
Importante é que o debate se faça com factos, já que de factos se trata e é com factos que a História se faz. E não com o chorrilho de insultos e a destemperança por parte de quem nada sabendo tudo sabe de cada vez que se fala em descolonização.

P.S. Para quando um "Prós e Contras" sobre a descolonização? Talvez seja altura de começar a pensar nisso.

PERGUNTAS INOCENTES




1. Há alguma razão especial para que a Câmara Municipal de Sintra publique os seus anúncios no Sol? Essa decisão foi objecto de deliberação camarária?

2. Por que razão a partir da página 28 do caderno principal o Sol inicia uma série de páginas dedicadas ao "mundo real"? Até aí era só imaginação?

3. A publicação de anúncios do tipo "ESPANHA tratamos da constituição de empresas tlm 91 6024031" (p. 13 do Sol, edição de 14/10/06) constitui, ou não, uma forma de promoção ilícita de actividades reservadas por lei aos advogados e solicitadores?

E ELE VAI RECEBÊ-LO?


O Sol, semanário que não perde a oportunidade de nos dar a conhecer os grandes do país em que vive o arquitecto Saraiva, brindou-nos (edição de 14/10/06, p. 14) com uma reportagem/entrevista com Hermínio Loureiro, o todo-poderoso deputado do PSD e presidente da Liga de Clubes. Diz esta sumidade, que aos 41 anos ainda não teve tempo para acabar o curso, que pediu uma audiência ao Procurador Geral da República. Parece que o sujeito quer ir falar com o conselheiro Pinto Monteiro da corrupção no desporto.
Eu já me tinha apercebido, por aquilo que vi dele enquanto deputado, como secretário de Estado em dois governos do PSD e pela entrevista que, recentemente, na qualidade de presidente da Liga de Clubes, deu nas escadarias de São Bento, que o homem não sabe o que é a noção do ridículo.
Agora, espero apenas que o conselheiro Pinto Monteiro tenha o bom senso de não perder tempo com protagonismos e dedique o seu tempo a coisas sérias (a começar pela tal "Bwin" ou ex-"Betandwin").

VINAGRETE MISTÉRIO


Quem será o ilustre articulista que assinou a coluna "Vinagrete", que tem por título "A Salomé de Portas", na página 47, da edição do Sol do passado sábado (14/10/06), com as iniciais "P.B.". É que da ficha técnica do jornal (p. 68) não consta ninguém com essas iniciais.

A GENTE VAI TOMANDO NOTA



Depois de Manuela Ferreira Leite, de Eduardo Catroga, de Luís Nobre Guedes, de Luís Delgado, e de tantos mais que agora não recordo, veio o incansável prof. Marcelo dizer que o Governo Sócrates fez, em matéria de Segurança Social, o que os últimos governos não fizeram: "Reforma importante dos últimos anos da democracia portuguesa" (RTP 1, 15/10/06). Imagino a cara de Marques Mendes, de Bagão Félix e de Luís Pais Antunes a ouvirem semelhante coisa da boca de um prestigiado militante do PSD e ex-líder do partido. Pelo andar da carruagem ainda acabam todos a pregar para os peixinhos.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Manuel Laranjeira



"E não me assusta a morte! Só me assusta
ter tido tanta fé na vida injusta ...
e não saber sequer pra que a vivi!"
Para que não me venham perguntar outra vez quem era o Laranjeira, de quem eu não sou particular amante, mas cuja escrita muito me impressionou quando o conheci, aqui fica, com a devida vénia, graças à Universal (www.universal.pt)

Laranjeira, Manuel(1877 - 1912)
"Poeta, dramaturgo e articulista português, médico de profissão, natural de Vergada, Vila da Feira. Amigo e correspondente de Miguel de Unamuno, relacionou-se com alguns dos maiores vultos da cultura portuguesa do princípio do século XX: Amadeo de Souza Cardoso, António Carneiro, António Patrício. Viveu uma existência solitária e dramática, de que a sua poesia e as suas cartas são o reflexo. Sabendo-se consumido por uma sífilis congénita, suicidou-se aos trinta e cinco anos de idade. É autor de um livro de poemas, Comigo – Versos dum Solitário (1912), que, apesar da simplicidade métrica – constituído quase só por hendecassílabos e redondilhas –, do vocabulário incaracterístico e do ritmo pouco musical, vale sobretudo como documento da sensibilidade torturada e complexa de um homem angustiado em busca do sentido da vida. Publicou, ainda, o ensaio A Cartilha Maternal e a Fisiologia (1909).
O melhor da sua erudição e do seu espírito crítico encontra-se nas Cartas (1943, prefaciadas por Unamuno), publicadas postumamente. Publicou também o prólogo dramático Amanhã (1902) e do seu espólio fazem ainda parte três peças de teatro conservadas inéditas: As Feras, Naquele Engano de Alma, e Almas Românticas, esta última inacabada. Postumamente foram também publicados o Diário Íntimo (1957), as Prosas Perdidas (1958) e os Poemas Dispersos (1997). Nos artigos que escreveu para o jornal O Norte (1907-1908), compilados em volume, em 1955, fez uma análise, extremamente lúcida, do que era o «pessimismo nacional», afirmando que o atraso português tinha como causa o fosso existente entre os intelectuais e a restante população."

OS GRANDES PORTUGUESES? NÃO, MAIS UMA GRANDE CHULICE!


Começo a achar verdadeiramente abomináveis estes pseudo-concursos e sondagens com votações via sms ou pelo telefone em que os promotores, além de se utilizarem da ignorância, falta de senso e atraso cultural de quase dez milhões de portugueses, ainda por cima lhes cobram o valor da sua participação a preços de agiota. Eu recuso-me a participar neste tipo de operações, agora muito na moda e a que a televisão pública, mas cada vez mais púbica, se associa com regularidade. A moda pegou e pelos vistos é como rezava aquele anúncio: veio para ficar.
Se um sms custa entre 8 a 12 cêntimos numa rede móvel normal, por que raio é que a participação num concurso há-de ser taxada a 50 cêntimos? Então e uma chamada taxada a 60 cêntimos mais IVA? Reparem no pormenor: os sms vêm com IVA, as chamadas ainda têm o IVA por cima dos sessenta cêntimos, ficando pela módica quantia de setenta e dois cêntimos, ou seja, mais de 140 paus!
Depois do "roubo" do 118 e congéneres (12118 e 1820), em que um tipo paga couro e cabelo por uma mísera informação que devia ser gratuita e que muitas vezes se é obrigado a obter através desses malfadados números porque os serviços se esqueceram de inserir o assinante na lista telefónica, passando pela choldra que foram as chamadas de valor acrescentado em que muitos pobres de espírito e muitos pais quase se arruinaram com contas de milhares de euros, sem esquecer os bilhetes para o futebol e as camisolas desportivas que são oferecidas a cada 300 chamadas (uma camisola custa em média 60 euros), e os toques polifónicos e as imagens porno que levam os miúdos a gastar todo o crédito dos telemóveis, agora vem a televisão pública chular o zé povinho para poder pagar os chorudos ordenados da Maria Elisa (é boa jornalista, sublinho), da Alberta e de mais uma catrefa de gente.
E ainda por cima vêm chular o povinho com um concurso em que até se esqueceram de incluir o Manuel Laranjeira, figura incontornável no pensamento de Unamuno.
Pois fiquem a saber que comigo não contam para estes progamas "culturais" que só servem para sacar mais uns cobres aos incautos e manter o povo nas trevas da ignorância.
P.S. Ouvi agora que qualquer português pode ser escolhido e que é tudo uma questão de votos. Este facto só vem dar razão ao post anterior. A menção aos votos confirma as hipóteses do presidente do Gil Vicente vir a ser o escohido. Basta que se predisponha a gastar no envio de sms e na realização de chamadas telefónicas o mesmo que gastou no clube nos últimos anos.

AFINAL A ANACOM EXISTE!



O Diário de Notícias e o Diário Económico, pelo menos estes que ainda não li os restantes, dão-nos conta da decisão da ANACOM (Autoridade Nacional de Comunicações) de, finalmente, definir parâmetros de qualidade para as empresas que prestam serviço de internet.
Eu confesso que já não vejo o dia em que vou deixar deixar de receber mensagens de erro da Telepac, de ficar horas a fio à espera numa linha telefónica ou de, ao fim de mais de cinquenta minutos, em que estou a pagar pela reclamação e pela avaria, ser remetido para uma empresa associada que se predispõe a resolver o problema no meu computador quando o problema não era do meu computador mas da rede.
Quem fala da Telepac também pode falar da Vodafone para a qual, em matéria de carregamentos, os dias não têm 24 horas e os meses em vez de 30 dias têm 29 dias e algumas horas, ou da TVcabo, essa inqualificável entidade quando chega a hora de reclamar pelo mau serviço ou pela facturação abusiva.
Esta é uma questão fundamental para a tão apregoada desmaterialização dos actos na Justiça ou para que as pessoas possam fazer tudo através da net. Enquanto o sistema não for definitivamente fiável, justo e transparente, não haverá revolução tecnológica que funcione. Vamos a ver se é desta

DÉFICE DE PRESIDÊNCIA?


Mário Soares continua a efectuar promoções, saldos e rebaixas dos seus mais preciosos bens. Desde que abandonou Belém ainda não foi capaz de perder a mania do penacho e a pretexto de uma intervenção de cidadania vai-nos brindando com uma série de disparates e dichotes que começam a meter dó e em nada engrandecem o seu passado e o prestigío que acumulou durante décadas.
Agora foi a propósito do lançamento de um livro do ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso. Soares, que depois do retumbante desastre das presidenciais, da falta de chá de que deu mostras durante a campanha e da forma pouco democrática como assumiu a derrota, devia de ter alguma, já não digo muita porque eu, por vezes, também padeço do mesmo mal, contenção verbal, ao invés, continua a aproveitar todas as oportunidades em que tem um microfone à frente para asneirar.
A vítima foi Cavaco Silva, a quem acusou de estar condicionado na sua actuação pelas corporações. Para quem protegeu Melancia da forma que protegeu e depois acabou nomeando Rocha Vieira para Governador de Macau...
A partir de determinada idade é bom termos alguém que nos acompanhe. A Soares faltou-lhe alguém quando quis ir para a presidência do Parlamento Europeu e depois deu no que deu. Voltou a faltar-lhe quando lhe disseram que contavam com ele para se recandidatar a um terceiro mandato presidencial. Cada dia que passa o caso assume proporções mais graves. O défice não é de presidência. É antes de lucidez.

quinta-feira, outubro 12, 2006

JÁ FIZ OS TRABALHOS DE CASA!


O dr. Marques Mendes, o excelso líder que comanda a oposição ao engº Sócrates, agora deu em apresentar-nos os trabalhos de casa de cada vez que o presidente Cavaco fala.
O problema é que ele me faz lembrar aqueles alunos que não sabendo matemática e desconhecendo as fórmulas, acabam por conseguir fazer os exercícios e apresentar um resultado igual ao que vem nas soluções, sendo no entanto incapazes de explicar o caminho seguido ou de reconstruir o raciocínio utilizado para lá chegar.
Ou é por causa do déficit, em que alterna com o dr. Frasquilho, ou por causa da Justiça, e aí recorre amiúde ao dr. Marques Guedes, ou por causa das Finanças Locais, em que nos atira com um remake do "Bando dos Quatro" (Arnaldo Matos, A. J. Jardim, J. Ramos e Guilherme Silva), ou é por causa dos números da Segurança Social... Enfim, o homem desdobra-se em soluções e propostas, no que é generosamente acolitado por um ou outro servo.
No lugar dele eu deixava de me preocupar com os trabalhos de casa, a que já se viu ninguém ligar peva, e começava a olhar um pouco mais para algumas autarquias do seu partido. Por exemplo Silves. Ou eu me engano muito ou a coisa está a começar a ficar preta. Ou se quiserem laranja, que quando chega o aperto todas as cores são possíveis e por ali produzem-se uns belos citrinos. O que por aquelas bandas se está a passar, a fazer fé no que diz o "vereador que desempenhava as funções de vice-presidente" (Público, 11/10/06) e nos rumores de Armação, demonstra à evidência que os maus exemplos que vêm de lá de cima (Gondomar, Marco de Canavezes ou Oeiras) também chegam ao Algarve e mais depressa do que aquilo que a distância poderia fazer supor. Certo é que com mais ou menos processos disciplinares, a gestão autárquica de Silves se assemelha cada vez mais à de Felgueiras. Comediantes não faltam. E não me estou a referir aos shows da Fábrica do Inglês.

POBRES RICOS OU RICOS POBRES?



O Correio da Manhã publicou hoje uma lista contendo a relação das 27 câmaras mais ricas per capita, com indicação dos respectivos valores. Essa lista contém algumas curiosidades e merece uma pequena reflexão.

Em primeiro lugar, verificamos que dos 27 municípios aí referidos, 12 se situam no Algarve (Loulé, Lagos, Albufeira, Lagoa, Vila do Bispo, Castro Marim, Portimão, Tavira, Aljezur, Vila Real de Santo António, Faro e Silves). Isto poderá levar muito boa gente, ou nem tão boa como isso, a querer dizer que o Algarve tem todas as condições para ser a primeira região do país. Não tem, como eu terei oportunidade de defender noutra ocasião. Só que isso não impedirá os demagogos do costume de virem para a praça pública procurar tentar acelerar o processo de regionalização.

Depois, verificamos que desses 27 municípios os cinco mais ricos per capita são todos do Algarve (Loulé, Lagos, Albufeira, Lagoa e Vila do Bispo) e que o sexto mais rico é o de Lisboa.

Se olharmos agora para o lado do endividamento desses 27 mais ricos, então vamos verificar que nessa relação estão alguns dos mais endividados do país e daqueles em que houve um maior aumento do endividamento e uma maior pressão para o agravamento das respectivas situações financeiras (cfr. a este propósito a notícia publicada no DN, em 20/4/2006 da jornalista Paula Sanchez). Neste rol incluem-se Lisboa, Tavira, o Porto, Sesimbra, Faro, Setúbal.

O ministro e o secretário de Estado esclareceram que serão aqueles 27 municípios que irão passar a ser contribuintes líquidos para o Fundo de Coesão. A atender pura e simplesmente no valor per capita não tenho dúvidas.

A minha dúvida reside apenas em saber como é que municípios como Lisboa, Faro ou Setúbal, que, não obstante possuirem uma capitação de impostos locais superiores em 1,25 à média nacional, estão completamente enterrados em dívidas, irão financiar o Fundo de Coesão.

No caso de Faro, uma bela cidade que chegou ao ponto de não haver rua que não tenha buracos, que tem contentores de recolha de lixo pré-históricos, em que há ruas bem próximo da zona central que estão pejadas de dejectos caninos, em que junto a algumas esquinas se nota um forte cheiro a urina, que herdou um elefante branco como o Estádio Algarve e onde nem sequer havia dinheiro para acabar o mercado municipal, se irá arranjar mais dinheiro para satisfazer as necessidades básicas da sua população, pagar aos fornecedores, ir aliviando o passivo do senhor Vitorino e ainda sustentar o Fundo de Coesão.

Já todos terão percebido que eu não estou contra a nova lei, nem sou dos que embasbaca com a demagogia dos topo gigios que por aí pululam, do tipo Marques Mendes. Porém, isso não invalida a necessidade de se explicar melhor algumas coisas. O povo não é burro. Gosta é de ter tudo explicadinho.

À atenção do Diogo Lacerda Machado



O Diogo, que além de excelente colega é um tipo que sabe pensar e ouvir, escreve hoje no DN ("Em auxílio dos juízes") que "está por entender melhor como o poder judicial reagiu à revolução democrática e como se comportou desde então" e sugere ao senhor conselheiro Noronha do Nascimento, certamente com a elegância a que já nos habituou, que ajude o poder judicial a transportar-se para o tempo presente.

Eu partilho inteiramente dessa ideia e, sem querer aconselhar ninguém, muito menos o Diogo, que por sem quem é e como é não precisa dos conselhos de um modestíssimo advogado de província, não posso deixar de sugerir, não tanto a ele, que provavelmente já o conhece, mas mais aos leitores, o pequeno livro do nosso ex-colega, hoje ilustre procurador e lagarto como ele, Luís Eloy, que tem por título "Magistratura Portuguesa - Retrato de uma mentalidade colectiva" (Edições Cosmos, Lisboa, 2001).

A sua leitura poderá ajudar a compreender, aos menos familiarizados com estas coisas da Justiça, a razão por que já então o Luís escrevia, referindo-se aos senhores juízes, que "isolados na torre de marfim da sua importância social, numa vertente de auto-exclusão, perde-se mais facilmente a noção de que julgar é uma actividade exercida numa relação entre homens, no centro dos embates do mundo".

Lamentavelmente, é isto que muitas vezes escapa a quem tem de julgar. Mas enquanto houver por aí Diogos e Luíses que o lembrem, sempre me sinto um pouco mais confortado de cada vez que passo horas sentado num banco de tribunal à espera que chegue a minha vez.

NA MOUCHE

Vale a pena ler o que Manuel António Pina escreveu no Jornal de Notícias de 10/10/06. Poderá parecer uma verdade lapalissiana, mas nos tempos que correm é sempre bom recordá-lo. Em especial, porque há gente que continua a pensar que só na ditadura é que era difícil ser livre. Ser livre em democracia tem, por vezes, um preço bem superior porque os carrascos da liberdade ficam sempre por punir, confortavelmente instalados nas suas secretárias, protegidos das suas acções, encaixados numa qualquer empresa, partido, ministério, sindicato, magistratura ou autarquia, à sombra dos poderes, dobrando a cerviz sem tugirem nem mugirem para garantirem a jorna.
"Para se ser livre é preciso coragem, muita coragem. E, desde logo, coragem para uma escolha fundamental, a do respeito por si mesmo. Porque é bem mais fácil sobreviver acobardando-se do que escolher viver livremente. Os locais de trabalho, a vida política, a mera existência social, estão (basta olhar em volta) cheios de cobardes de sucesso. O jornalismo não é, e porque haveria de ser?, excepção, pois a pusilanimidade e a cumplicidade dão menos incómodos e rendem mais que a dignidade. Mas, enquanto na vida politica e social, o preço da liberdade é a solidão (as águias, como Nietzsche escreve, voam solitárias; os corvos andam e grasnam em bandos), no jornalismo o preço é às vezes a própria vida. Anna Politkovskaya escolheu a liberdade e pagou com a vida. Mas a Rússia é um lugar longínquo e entre nós não se dão tiros na nuca a jornalistas, na pior das hipóteses despedem-se. É, por isso, fácil chorar por Anna Polit-kovs-kaya, basta só um pouco de falta de pudor. Assim, os jornais portugueses encheram-se nos últimos dias de grasnidos e lágrimas de crocodilo vertidas por gente que, na sua própria vida profissional, escolhe o salário do medo. Alguns conheço-os eu e, como no soneto de Arvers, hão-de ler-me e perguntar "De quem falará ele?".

terça-feira, outubro 10, 2006

O TEMPO? ORA BOLAS!

Disse o ministro António Costa (sempre ele, o homem não pára) na apresentação do balanço trimestral do Simplex deste ano, que um dos «grandes obstáculos» à competitividade do país é «o tempo que demora» o licenciamento das actividades comerciais, turísticas ou industriais.
Não podia estar mais em desacordo. Todos sabemos que cada um chama os nomes que quer, ao que quer, quando quer e como pode. O António Luís, com as correrias em que anda metido, está a fazer uma grande confusão. Esse é um dos problemas quando se tem muita coisa para fazer e se é chamado a apagar tudo quanto é fogo por este país fora.
O mal não é só dele. Se repararem, o mal tem sido extensivo ao ministro da Economia, ao Mário Lino, ao Correia de Campos e até a essa senhora que nunca perde a compostura por mais nomes que os professores lhe chamem que é a ministra da Educação. Vale agora o Freitas já ter entrado em pré-reforma, senão o mal ainda seria mais grave.
Mas francamente. Tenho ouvido chamar ao fenómeno muito nomes. De luvas a comissões, de ajustes a trocos. Confesso é que nunca tinha ouvido chamar-lhe "tempo".
Ó António, vê lá se acordas! O problema não é o tempo que os licenciamentos demoram. Tempo temos nós para dar e vender. Ou será que ignoras as bichas para comprar bilhetes para a bola, as bichas para o selo do carro, as bichas para comprar o Sol ao sábado de manhã, as bichas para passar a portagem de Carcavelos, as bichas do IC19, as bichas da 2ª Circular (não confundir com os lagartos), as bichas no DIAP, as bichas na Caixa Geral de Depósitos, as bichas na FNAC para comprar bilhetes para os Stones, as bichas para entrar no Kapital e no Lux. Porra, António, não vês que temos tempo de sobra? Não vês que ninguém quer saber do tempo que demoram os licenciamentos?
O problema, meu caro, não é o tempo nem o Simplex! O problema é a Corruptex que é uma coisa um pouco mais complicada, mas que o Eduardo Cabrita te poderá explicar com relativa facilidade, pois já deves saber que ele agora se farta de conversar com os municípios! Esse tempo a que te referes não se chama tempo. E a palavra nem sequer é parecida. Esse "tempo" chama-se modernamente "Corruptex"! Topas, meu!? Mas antes fosse o tempo para eu te poder dar razão.

TROPA FANDANGA

O Diário Digital relata hoje a detenção, nos Açores (sempre o anticiclone), de um coronel que tinha na sua posse uma molhada de armas e munições, e, imagine-se, "viaturas e mobiliário".
Se bem se recordam esta detenção segue-se a algumas outras, na semana passada, de militares da Armada que, ao que dizem, nisto de culpa não há nada como o in dubio pro reo, tinham também uns cambalachos.
De tempos a tempos lá vêm uns fumos de corrupção do lado das fardas. O mal parece mesmo ser geral e nenhum ramo das Forças Armadas ou corporação militarizada está imune.
Há uns anos, andava eu pelos Orientes, onde no meio dos porcos voadores também vi uns tipos daqueles que despem a farda quando se trata de fazer negócios e obter as mordomias de alguns civis, para logo depois, passado o tempo das vacas gordas, voltarem a vesti-la, quando me apercebi que alguns comportamentos e atitudes eram pouco compatíveis com o estatuto. Não, não estou a pensar no tenente-coronel a quem chamam "doutor". Deixem lá o homem em paz!
Depois, tendo eu regressado a Portugal e necessitando de um local para morar (as minhas patacas não se reproduziam!), andei para aí à procura de casa, até que encontrei um major que fazia moradias em conta, em Cascais, e vendia ouro e relógios para os lados da Parede. Nunca percebi bem como é que aquilo era, porque o tipo dava aulas e mandava faxes da respeitável instituição militar onde trabalhava com minutas de contratos-promessa de compra e venda. Aquilo fez-me espécie, mas como não era nada comigo. É claro que o caldo se entornou quando eu percebi que o marmanjo queria fazer uma escritura de um imóvel por um quarto do valor que pedia. E isto depois de eu lhe ter dito que cá comigo não há nada por baixo da mesa. Não gostou do que lhe disse e vai daí amuou.
Conheço muito boa gente nos três ramos das Forças Armadas, na GNR e na PSP. Tenho mesmo muitos e bons amigos que envergam uma farda com brio, denodo, elevadíssimo espírito militar e que, além de serem excelentes companheiros, são cidadãos exemplares.
Creio ser uma tremenda injustiça que militares sérios, como os meus amigos, vejam o seu nome metido no mesmo saco desta tropa fandanga que passa os dias a tratar da vidinha e para quem o sentido do dever se escreve, invariavelmente, com €uros e muitos zeros.
A "guerra de África" acabou vai para mais de trinta anos. Macau passou à História há quase sete anos. Mas os fumos de corrupção continuam. Ou seja: continua a haver muitos bois, ainda por cima fardados, à volta das manjedouras. Só assim se compreende que para além de armas, também invistam em "viaturas e mobiliário".
É pois tempo de se começar a separar o trigo do joio.
De outro modo, mais tarde ou mais cedo, a ração irá faltar. E nessa altura eu quero ver quem é que segura a malta da caserna.

NÃO SOU UMA BESTA!


O "nosso" inefável Alberto João Jardim parece que anda muito zangado com a nova Lei das Finanças Locais. Acontece que eu também. Não é que eu seja autarca ou que vá ser, ainda mais, prejudicado com os "IMIs" e coisas quejandas. Nada disso. Lixado ando eu há muitos anos.
O problema é que depois de, em tempos, o senhor Alberto João ter dado uma entrevista à Única na qual, entre outras pérolas, dizia que não era uma besta, o que levará sempre qualquer bom pai de família a franzir o sobrolho, veio agora o senhor ministro das Finanças explicar ao sambista da Madeira que os Açores estão mais longe do continente (ele não disse de Portugal) do que o Funchal, que há mais ilhas no arquipélago dos Açores do que no da Madeira e que ele além de não saber fazer contas quando as faz fá-las mal.
Eu não teria sido mais claro se estivesse no lugar do ministro Teixeira dos Santos.
Porém, depois de recordar a entrevista dada pelo senhor Alberto João à Única, não sei se não seria de lhe dizer que por cada renda que ele se predisponha a cobrar aos serviços da administração central na Região Autónoma (maiúsculas pois claro que eu tenho respeito pela Madeira, pelos madeirenses e pelas autonomias), dos que ocupam edifícios "dele", ser-lhe-á descontada igual fatia na dotação da Madeira.
Só nessa altura é que nós, humildes cubanos, poderíamos ter a certeza de que nem ele, nem nós, nem o engenheiro Sócrates, somos umas bestas!
Até lá, se assim não for, o senhor Alberto João continuará a dar entrevistas e nós a fazermos de bestas. Mesmo que o ministro educadamente o negue.

TELEJORNAIS


Pacheco Pereira no seu Abrupto, e mais alguns comentadores e leitores, têm chamado a atenção para a forma como são escolhidos os alinhamentos dos telejornais e o conteúdo de algumas reportagens.
Sobre isso e os graves erros que são cometidos - ainda ontem à noite ouvi dizer na TVI, por uma jornalista da área económica, "Algéria" em vez de "Argélia" - já se tem dito muito.
Curiosamente, ninguém tem dito nada sobre a forma como as notícias são dadas, que é como quem diz, sobre o modo como se apresentam os serviços noticiosos.
Depois de passada a fase opinativa do tipo Manuela Moura Guedes, temos agora a fase soluçante da Alberta Marques Fernandes.
A senhora até poderá ser uma grande vedeta da televisão portuguesa - o que eu tenho dúvidas -, mas alguém deveria dizer-lhe que a pose seráfica e afectada não é compatível com o modelo soluçante e trapalhão como dá as notícias. Chega a ser entediante ouvir o Jornal da Noite da RTP 2, outrora um poço de excelência, já que a apresentadora, para além de muito gesticular e de exibir as mãos e os dedos diante das câmaras, como se isso fosse importante para a compreensão do discurso, ainda por cima parece que não quer ler os papéis ou o que quer que seja que tem à frente. O resultado tem sido lastimável. Atrapalha-se nas notícias, demora uma eternidade a dizer qualquer coisa e pontua cada palavra com expressões do tipo "aaaaaa..".
Com tantas e tão boas locutoras que a RTP tem, por que raio temos de gramar com a Alberta todas as noites?

sexta-feira, outubro 06, 2006

UM MAU EXEMPLO


A Câmara Municipal de Faro, segundo informa o jornal Região Sul, por proposta do seu presidente, resolveu aprovar a dispensa dos funcionários camarários no dia do seu aniversário natalício.
A proposta tem tanto de hilariante como de parola.
Porém, ela reflecte a mentalidade paroquial dos nossos autarcas. Faro é capital de distrito. Apolinário foi eleito apregoando que iria colocar Faro num lugar compatível com a sua posição central no universo algarvio e do turismo nacional. Mas medidas destas só estimulam a desconfiança e acabam por dar razão a quem duvida da seriedade dos nossos autarcas. A medida é demagogia da mais pura.
Já agora, responda quem souber: Que fazer, por exemplo, com os funcionários camarários que fazem anos a 25 de Dezembro, a 1 de Janeiro ou a 29 de Fevereiro? Dispensá-los no dia seguinte? Compensá-los nas férias?
Enquantro imperar esta mentalidade de paróquia, chame-se ele Apolinário ou Vitorino, não há nada a fazer.

António Costa vs. Jorge Coelho ou o combate entre um PS moderno e um PS caceteiro




Este candidato a blogue começou com a pretensão de fazer textos curtos, de preferência pouco maçudos e, se possível, com algum humor. Aos poucos ele vai-se afastando da montanha e do mar, os seus pais geradores no sentido freudiano da coisa, e começa a assumir um tom de almanaque. E ainda por cima elogioso. Vou procurar moderá-lo, embora não desconheça a tendência natural que os filhos têm para se emanciparem, libertarem-se da tutela dos progenitores. Como seu pai natural não quero castrá-lo e nesse ínterim lá terei que aqui deixar mais alguma coisa.

O ministro da Administração Interna do XVII Governo constitucional merece um lugar de destaque na galeria de hoje. Ainda há pouco dissertava eu sobre o discurso de Cavaco Silva no 5 de Outubro e o seu apelo à luta contra a corrupção. Seria injusto se depois daquilo que escrevi ignorasse a nova proposta de lei sobre as finanças locais e a discussão que a mesma tem gerado.

Por natureza e feitio desconfio das propostas do Governo. De qualquer um e de nenhum em particular (confesso que desconfiava ainda mais quando era primeiro-ministro Santana Lopes, altura em que cheguei a duvidar da razão humana e a acreditar piamente que o céu me ia cair em cima). Quando ouço o feudal Jardim vociferar contra a nova lei dos cubanos apetece-me sorrir sem lhe ligar peva. A vida política portuguesa tem estado infestada de bokassas, de petits le pen, de haiders compulsivos. Por isso mesmo também não constitui novidade nenhuma ouvir o maioral da paróquia do Funchal mandar vir contra a proposta de lei, ameaçando com o Carmo e a Trindade com a mesma sem vergonha com que criticava o “senhor Silva”. Se depois dele começo a ouvir o Ruas, aquele senhor da Associação Nacional dos Municípios Portugueses que queria correr com os fiscais do Ambiente à pedrada, também a berrar contra o pacote que ai vem, contra o ministro das Finanças e contra tudo o que está na forja, porque lhe querem fechar a torneira dos gastos, ainda sou capaz de prestar alguma atenção às notícias. Um senhor de bigode a falar à hora das notícias tanto pode ser um programa de humor como um anúncio do Gato Fedorento. Se a seguir a estes a rádio vier anunciar que “os autarcas do PS” estão contra a nova lei, contra o ministro António Costa e o minitro das Finanças e, ainda por cima, nesse mesmo dia, sair a terreiro o camarada Jorge Coelho a mandar as bocas da praxe para as bases do partido (só de ouvir falar nelas entro em pânico), então começo a rir a bandeiras despregadas. Querem ver que esta “malta está toda à rasca”?

É claro que enquanto João Cravinho falou ninguém se preocupou. O homem tem fama de louco e de cada vez que um deputado prepara alguma coisa aquilo leva uma eternidade a conhecer, se conhecer, a luz do dia. Mas no curto espaço de uma semana, depois dele, vieram António Costa e Teixeira dos Santos. E logo a seguir Cavaco. E curiosamente todos falaram nos autarcas. O major Loureiro dirá que é uma cabala, no que será secundado pelo Moita Flores. Muitos ficaram ofendidos. É natural. Eu também fico quando ouço dizer que os advogados são uns vigaristas e que os do Algarve ainda são piores. Ninguém gosta que chamem nomes à família. E enterrar a cabeça na areia nunca foi solução.

O ministro António Costa tem tido uma paciência de job. Não é fácil aturar aquela gente que, salvo cada vez mais raras excepções, se tem imposto na vida política por fazer a escola do partido, favorecer o emprego local de uma meia dúzia de eleitos, estimular o compadrio, o clientelismo, a política do pequeno favor, quando não do grande escambo, ao mesmo tempo que apadrinham equipas de futebol falidas e construtores civis ávidos de novos terrenos. Pode ser injusta mas essa é a imagem que cola à maioria dos autarcas deste país. Alguns há que nela não encaixam. Esses poucos são aqueles de quem ninguém fala, os que não fazem escola fazendo obra e que na primeira oportunidade são jogados fora a favor de um qualquer arrivista ou de um intelectual da moda. Quanto aos outros não há quem por esse país fora não os conheça e não fale deles, justa ou injustamente, das negociatas que promovem, das mordomias de que gozam, das contas dos sobrinhos, das férias no Brasil, das casas no Algarve, dos carros topo de gama, das noitadas...

Num país como o nosso, em que quem se tem safo têm sido os judas e os isaltinos, é sinal de esperança saber que há quem se preocupe connosco, quem ature os autarcas, os bons, os maus e os inqualificáveis e pacientemente vá reunindo com eles, até com os bem intencionados, que também os há, e lhes vá explicando que entre as virtudes da democracia existe uma que é a de saber gerir o dinheiro dos contribuintes e prestar contas de uma forma clara e transparente. Como qualquer advogado que se preze.

Saber que Jorge Coelho está ao lado dos autarcas socialistas – e a sua posição sobre a política do ministro Correia de Campos não pode ter segunda leitura – que estão ao lado do inexistente Fernando Ruas (Mao chamar-lhe-ia a campanha dos gatos pardos), que por sua vez está ao lado do inqualificável Alberto João Jardim, contra a nova proposta de lei das finanças locais pelo simples facto esta vir moralizar aquilo que não deveria ser necessário moralizar – o escrutínio dos gastos das autarquias – só pode ser motivo de grande satisfação.

Saber que o António Costa é um dos esteios dessa unanimidade e da ansiedade que se gerou, é motivo de tripla satisfação. Pelo trabalho que está a fazer, por ele ser do PS e por gostar do SLB.

Agora só é preciso esperar que a lei seja aprovada, que a Inspecção Geral da Administração Interna comece a actuar e que o novo Procurador Geral da República não fique a dormir na forma. E, se possível, que varram este país de norte a sul. Se começarem pela Madeira não será mau. Depois é só continuar. Essas coisas quando entram no automático já não param. O Nunes da ASAE que o diga. E já agora, se puderem, que isto vai a talhe de foice, digam também ao João Adelino Faria (sic da SIC!) que “faria-lhe” não é coisa que se diga. Ainda menos em televisão.

APLAUSO


Não o conheço de lado nenhum. Nunca falei com ele. Eu não sou do CDS. Não temos a mesma idade nem frequentamos os mesmos círculos. Temos em comum apenas o facto de sermos ambos advogados e de Cascais (por mais anos que passem e por mais longe que esteja nunca deixarei de pertencer a essa terra de adopção) . Todavia, isso não tem qualquer interesse.

O que importa frisar é que sendo ele quem é, tendo a vida profissional que se lhe conhece (e quem anda na advocacia a sério sabe disso) e o passado que tem no CDS/PP, incluindo no Governo do “defunto” Santana Lopes, Luís Nobre Guedes não perdeu nem as convicções nem a verticalidade.

A entrevista que Luís Nobre Guedes deu a Judite de Sousa foi verdadeiro serviço público que ambos e a RTP prestaram ao país.

Nobre Guedes é um homem sério. É um homem decente. É um homem frontal. É um homem vertical.

Reconhecer isso não me obriga a partilhar as suas convicções, a aplaudir-lhe as ideias ou as suas manifestações públicas em relação ao aborto.

E apesar de poder nutrir alguma simpatia por aquilo que ele disse em relação ao Governo do eng.º Sócrates (“Nós temos um bom Governo” ou “Quando se tem um bom Governo só tem de se actuar em conformidade, reconhecer os méritos”), há, porém, uma coisa que não posso deixar de aplaudir. De pé de preferência. É, para além da sua educação e temperança, a sua enorme clarividência.

A sua tentativa de querer acabar com a fulanização, num partido que deu campelos e avelinos em barda, de querer abrir o partido à sociedade, reposicionando-o no espaço político nacional, de querer ser simpático para com Ribeiro e Castro, pode não levar a lado algum. Até pode ser que ele consiga chegar à liderança do partido e o volte a colocar dentro de um táxi a caminho de São Bento. Mas nada disso é importante quando se é confrontado com a dimensão política do homem. Com o seu sentido táctico e estratégico. O seu sentido de cidadania chega a assumir, num partido como o CDS, que tem na bancada parlamentar Nuno Melo e João Almeida, foros shakespearianos, uma dimensão trágica.

Só que como português e amante da política, no sentido nobre da palavra, também tenho que confessar que é por aí que passa a cidadania. Mas que seria dele sem a dimensão abissal da sua clarividência? Como dizia o Lobo Xavier “as pessoas sérias não gostam de vender ilusões”. Portugal precisa de gente assim. Precisa de políticos assim. E os partidos que não perceberem isto não percebem nada de política.

SINAIS PROMISSORES



A minha primeira palavra de hoje vai inteirinha para Aníbal Cavaco Silva.

Quem me conhece sabe que nunca gostei do estilo que ele cultivou. Nunca gostei da pose nem daquela gente de quem ele se rodeou enquanto primeiro-ministro (os “Costa Freire”, os “Cardoso e Cunha”, os “Santos Martins”, os “Deus Pinheiro”, os “Mira Amaral” e mais um ror de gente que é, em matéria de política, leia-se bem, tudo menos recomendável, independentemente do facto de poderem ser excelentes pessoas).

Por isso mesmo, fui dele feroz opositor e abandonei a simpatia pelo partido pelo qual travei importantes batalhas no meu tempo de faculdade, ainda antes de nele entrar. Por causa dele nunca me filiei no partido. E se entre o congresso da Figueira da Foz e o de Braga ainda pensei que seria possível construir um PSD melhor e capaz de governar decentemente o país, com aquela gente que lá ficou depois da morte de Francisco Sá Carneiro rapidamente desertei e vi fenecer o sonho.

Em Macau, já no extinto “Futuro de Macau”, apelei ao voto em Sampaio nas primeiras presidenciais que este ganhou. Mas estando em Macau era-me difícil dissociar o mau desempenho de Rocha Vieira do compromisso sampaísta, daquele permanente fingir que vou fazer para depois tudo acabar, sem ironia nem rasgo, tratado pelos jornais como conversas de sacristia.

Mais recentemente, não convencido do mito sebastiânico e ainda recordado do fiasco que foram aquelas eleições para o parlamento europeu, a que Mário Soares só concorreu porque alguém lhe fez crer que poderia ser presidente de tão nobre instituição (sempre a adoração pelo penacho), fui um dos que não o apoiando, contra aquela que era a vontade dos apparatchiks do partido, pensou que Alegre era mais genuíno, mais são, mais capaz.

Foi, pois, com um misto de amargura (com a Inês Pedrosa ao lado o Alegre nunca chegaria parte alguma) e receio (o Fernando Lima era um mau prenúncio) que vi Cavaco Silva ser eleito. Desde logo porque o imaginei rodeado daquela gente que diz amém a tudo para garantir a tença, o tacho ou a sopinha, como lhe queiram chamar. Depois porque já estava escaldado de uma dezena de anos de cavaquismo.

Ao ouvir ontem o discurso do 5 de Outubro, embora ainda não convencido, não posso deixar de subscrever na íntegra o apelo de Cavaco Silva. Pela primeira na história da democracia portuguesa do pós-25 de Abril vejo um Presidente da República, um alto dirigente do Estado, pegar o touro pelos cornos. Finalmente, haja alguém com bom senso e inegável prestígio que coloque o dedo na ferida.

Depois das preocupações com a Educação, do apelo ao entendimento nacional nas questões da Justiça e da forma, no mínimo sábia, como tem gerido estes primeiros meses de mandato, não posso deixar de dizer que os sinais são prometedores.

O homem pode ser de Boliqueime, a mulher pode não ser vistosa, o genro até pode ser um arrivista sempre à procura de uma oportunidade. Mas o certo é que com a educação que lhe deram, com aquilo que aprendeu, com a humildade de quem fez um caminho na vida (coisa de que Marques Mendes não se pode gabar) e soube trilhá-lo à medida das suas ambições e dos anseios do país em que acredita, é evidente que aprendeu muito nos últimos anos. Nesse aspecto temos de estar agradecidos a Paulo Portas.

Isso ainda não será suficiente para que se possa dizer que tem um pensamento político estruturado e consistente. Porém, nos tempos que correm não deixará nunca de ser uma tentativa lúcida e corajosa. Em matéria de combate à corrupção e de coragem política, Cavaco Silva não é Maria José Morgado. Nem se quer que seja. Chega uma de cada vez em cada geração. Todavia, é indiscutível que está a deixar os sinais de que os portugueses precisam. E isso, por muito que se lhe critique, por muitos defeitos que se lhe apontem, não deixa de ser significativo. Oxalá continue. Chega de demagogos e de presidentes meias tintas. A ética republicana vale bem um presidente.

P.S. Sendo Cavaco algarvio e conhecendo ele, com a distância que York e Lisboa conferem, as autarquias e “os partidos do Algarve”, interrogo-me se o Presidente não começou por enviar os recados a uns moços que para aí andam cada vez mais gordos, cada vez mais caciques e cada vez mais complexados. A melhor limpeza é a que começa na nossa casa!

quarta-feira, outubro 04, 2006

Notável: Vicente Jorge Silva no DN, 4/10/06

Esta semana não tive tempo para escrever uma linha que fosse. Mas, felizmente, neste país ainda há quem o faça por mim. E muito melhor. Já não preciso de voltar a este tema do PGR. "Le Roi est mort. Vive le Roi!". Bom feriado e que Viva a República!

O cândido que não quis ser Sísifo

Souto Moura deixa por estes dias as funções de procurador-geral da República e escolheu o semanário Sol para fazer as suas confidências de fim de mandato. Os entrevistadores evitaram perguntas incómodas e rodearam o procurador cessante de um comovente desvelo, quais jardineiros carinhosos tratando uma delicada flor de estufa. Vítor Rainho, subdirector do Sol e um dos entrevistadores, é definitivo: "Afinal, quantos procuradores deram seguimento a tantos processos envolvendo figuras públicas? Quantos tiveram a coragem de não ceder em momento algum? Se cometeu erros? É óbvio que sim, mas Souto Moura faz-nos acreditar que em Portugal nada será como dantes. Os poderosos do futebol, da política, do espectáculo ou das finanças sabem que, aos poucos, está a desaparecer o conceito de justiça para ricos e para pobres."Diga-se que o subdirector do Sol não está sozinho nesta avaliação. Outros comentadores têm manifestado idêntica benevolência com a acção do procurador, apenas porque Souto Moura foi supostamente incómodo para os poderes instalados, em especial o poder político. Pouco importa que a credibilidade do Ministério Público tenha sido literalmente arrasada por uma sucessão imparável de casos de incompetência e arbitrariedade judicial ou de condescendência corporativa, nos quais o procurador parecia ser sempre apanhado em falso, como um alienígena acabado de chegar à Terra. Em Portugal, o horror aos "poderosos" serve de caução às derivas da Justiça. E se, no fim, a Justiça não funcionar por culpa própria, deixando os culpados sem castigo e as vítimas sem reparação, logo se encontrará uma sibilina teoria conspirativa para o fracasso. A entrevista ao Sol nada traz de novo sobre as (in)decisões controversas do procurador. Nenhuma revelação, mas muitas justificações - algumas delas embrulhadíssimas, em particular sobre o caso Casa Pia ou o "Envelope 9". Os acidentes incompreensíveis são explicados com uma candura absolutamente desconcertante e quase inverosímil, porventura o traço principal da personalidade de Souto Moura. Daí a confissão: "Se há lição que tiro é que não tive na devida consideração a força que a comunicação social tem."O procurador acredita piamente no que diz, com a doce ingenuidade de um neófito, mesmo quando o que diz parece simplesmente... incrível. Porque é que no "Envelope 9" a culpa foi, afinal, do "mensageiro", dos jornalistas - e não de quem recolheu a mensagem no envelope? Resposta: "Obviamente, porque só em relação a eles o magistrado titular do processo entendeu que havia indícios suficientes. Pelo que tenho ouvido, muito cómodo seria não acusar ninguém." Assim pagou o "mensageiro" os custos da incomodidade da "mensagem".Onde podemos encontrar algumas pistas para perceber a imponderável candura de Souto Moura é nos episódios biográficos evocados na entrevista. Este homem, nascido numa família burguesa do Porto, que tem como hobbies construir modelos de barcos e desenhar folhetos para seminários de Direito, descobriu a religião aos trinta anos (diz-se próximo dos jesuítas) depois de ter lido O Mito de Sísifo de Camus. Por temer ser Sísifo, tornou-se cândido. E foi candidamente que furou a greve académica de Coimbra, em 69, porque ao regressar de um internamento hospitalar a sua "preocupação principal era não chumbar o ano". Reconhece que a greve foi "das coisas mais importantes que se fez contra o regime em Portugal", embora considere que "era tudo menos uma manifestação puramente espontânea", uma "coisa completamente limpa". "Mas se calhar", admite "era ingenuidade minha, pois essas coisas nunca se fazem com rigores desse género."Souto Moura começa como delegado do MP em Ponte da Barca e, enternecidamente, recorda: " Não havia casa de magistrados e fiquei na pensão da Fininha. Era uma coisa adorável, onde me aqueciam a água para o banho - província pura, portanto. Comia-se excepcionalmente, a Fininha adorava a minha presença, porque, para ela, ter o delegado a viver lá era como eu a receber aqui a rainha de Inglaterra." Trinta e tal anos depois, reencontramos a mesma candura pequenina: "Ainda há um mês, em Moscovo, houve uma reunião de procuradores-gerais da Europa, sobre o tema "Direitos Humanos e MP". E vieram pedir-me para falar uns minutos sobre o tema na presença do presidente Putin que estava a chegar. Enfim, nem deu para ficar aflito! Improvisei e lá falei. Ninguém soube disto cá." A candid conversation de Souto Moura ao Sol mostra, enfim, porque é que o procurador da República que esta semana cessa funções se equivocou sobre o "melhor dos mundos possíveis" do Cândido de Voltaire: "A imagem que me colaram foi a de que sou um indivíduo que de vez em quando diz uns disparates num vão de escada". Ele rejeita obviamente a caricatura, mas o auto-retrato é perfeito. (Vicente Jorge Silva, Diário de Notícias, 4/10/2006)

quarta-feira, setembro 27, 2006

ELE NÃO MERECIA UMA NOITE ASSIM


Ele não merecia uma noite como aquela que tivemos ontem. Ele não merecia ver a equipa a jogar para trás. Ele não merecia ver o Karagounis ser substituído numa altura crucial do jogo. Ele não merecia ter visto o Nuno falhar daquela maneira. Ele não merecia ver o Luisão a fazer de extremo esquerdo e de número 10 a colocar bolas fora das linhas laterais. E nós não merecíamos ter um treinador daqueles. Não merecíamos continuar a ver o Nuno Assis a jogar e ainda merecíamos menos ter o Fernando Santos como treinador. Um Benfica que joga para trás quando está empatado e tem 60.000 gargantas a puxar por ele é um Benfica irreconhecível, sem ambição, medroso. Detesto treinadores medrosos. A sorte nunca protegerá os medrosos. Hoje é um dia triste. Amanhã há mais.

segunda-feira, setembro 25, 2006

A propósito de rir: Hermínio Loureiro

Agora que ficámos todos a saber que o director geral da PJ mandou instaurar um inquérito a propósito da fuga de informação verificada no "Apito Dourado" em relação ao senhor Pinto da Costa, o que diz bem da teia de ligações deste sujeito, e enquanto o senhor Hermínio Loureiro não nos diz como irá descalçar mais esta bota, deixo-vos aqui com um pequeno texto escrito na antevéspera da eleição do referido senhor para presidente da Liga. Aquilo que eu penso sobre o próximo presidente da Liga é o que dele consta e que, como teve uma circulação reduzida, aqui deixo para vossa informação. Ele que me perdoe, mas há alturas em que não podemos deixar de ser quem somos. É um questão de identidade.

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O senhor Hermínio Loureiro resolveu apresentar a sua candidatura à presidência da Liga de Clubes. Nada de mais legítimo. Num país livre e democrático e desde que estejam preenchidos os requisitos de natureza formal que condicionam esse tipo de candidaturas, cada um é livre de avançar no momento que entender e com os apoios que reunir.

O senhor Hermínio Loureiro é um cidadão deste país interessado em ser presidente da Liga de Clubes. Nada de mais legítimo. O poder sempre foi uma fonte de inspiração e desde que se respeitem os pressupostos de natureza formal que condicionam a eleição e o acesso ao poder nada há a apontar.

Bem sei que ele já desempenhou numerosos cargos partidários e políticos, que ele se assume como gestor, que é presidente da assembleia municipal de Oliveira de Azeméis...

Porém, o simples facto dele ter andado a pedinchar ao senhor Luís Filipe Vieira e a muitos mais presidentes de clubes de futebol que integram a Liga que o recebessem, para que ele pudesse promover a sua candidatura e ser notícia nos jornais e nas televisões, seria mais do que suficiente para me deixar de pé atrás.

Mas nada seria grave se o senhor Hermínio Loureiro tivesse o perfil, a formação e o currículo que o recomendassem para presidente da Liga de Clubes.

Ora, aqui é que, como diz o povo, a porca torce o rabo.

Para que não se pense que falo de cor, convirá repescar o currículo vitae (vd infra) do senhor Hermínio Loureiro, publicado quando ele foi nomeado Secretário de Estado da Juventude e Desportos do XVI Governo Constitucional.

O senhor Hermínio Loureiro tem sido ultimamente apresentado pelos órgãos de comunicação social como “Dr. Hermínio Loureiro” ou simplesmente “gestor” (como o engenheiro Carlos Melancia), mas olhando para o seu CV a primeira dúvida que me assalta é a de saber se, entretanto, ele já acabou o curso de gestão do qual, em 2004, quando pela 4ª vez foi nomeado secretário de Estado, apenas tinha a “frequência” (sic).

E se só tinha “a frequência” convirá saber até que ano frequentou o curso, já que não é o mesmo não ter passado de caloiro ou ter chegado a finalista do curso (ou quase-doutor).

A pergunta não é de resposta múltipla nem indiferente, já que nas legislativas de 2005 o referido senhor ocupava o 2º lugar na lista de Aveiro do Partido Social Democrata, logo atrás dessa sumidade que é o Dr. Marques Mendes, sendo aí apresentado como “técnico de seguros” (sic). Pessoalmente, não acredito que o Dr. Mendes fosse colocar na sua lista uma pessoa pouco qualificada.

É claro que de quem tem o percurso político e profissional do senhor Hermínio Loureiro, de quem fez toda a escada da “Jota”, andou pela área comercial de diversas companhias de seguros, ocupou 16 (dezasseis!!!) cargos em estruturas políticas e associativas, foi director de marketing da Liga de Basquetebol, teve 4 pastas em dois governos nacionais e é presidente da assembleia municipal de Oliveira de Azeméis e membro da “Fundação La Salette”, a única coisa que se poderia agora esperar era que fosse presidente da Liga de Clubes. Ao que parece, o senhor Luís Filipe Vieira, que apesar de não ter grandes estudos ainda não foi membro do governo e é presidente do “Maior Clube do Mundo”, é que não foi na conversa.

Eu não sei que outras competências, para além das óbvias e que constam do seu riquíssimo currículo, terá o senhor Hermínio Loureiro, a ponto de ser neste momento candidato único à presidência da Liga de Clubes. Neste país tudo é possível.

Mas há uma coisa, pelo menos, que eu estou convencido que ele sabe fazer. E, talvez, também por isso mesmo é que o próprio Dr. Marques Mendes o tenha integrado na lista de deputados por Aveiro. O senhor Hermínio Loureiro poderá não ter tido tempo para acabar o curso de gestão até 2005, tantos foram os cargos que ocupou e as funções que desempenhou, mas ao menos já terá aprendido a jogar à lerpa e à sueca. É que se não o soubesse também não se candidatava.

O major Valentim que o diga, já que se não fossem essas actividades lúdicas a preencherem-lhe os tempos livres, ele também nunca teria dado a presidência do Boavista ao ex-vocalista de um grupo rock. Mesmo que fosse da família. Da dele é claro.
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Currículo do Secretário de Estado da Juventude e Desportos
Hermínio José Sobral Loureiro Gonçalves
Nascido em Oliveira de Azeméis, em 30 de Dezembro de 1965, Casado, uma filha
Formação Académica
Frequência do curso de Gestão de Empresas no Instituto Superior de Administração e Gestão
Actividade profissional
Responsável administrativo/financeiro da empresa Silva Brandão & Filhos Lda
Serviços comerciais da Aliança Seguradora, SA
Serviços comerciais da Aliança/UAP SA
Coordenador comercial da Global Companhia de Seguros SA
Actividade política e associativa
Presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária Ferreira de Castro
Vice-presidente da Comissão Política Distrital da JSD/Aveiro
Presidente da Comissão Política Distrital da JSD de Aveiro
Conselheiro Nacional da JSD
Vice-presidente da Mesa do Congresso da JSD
Conselheiro Nacional do PSD
Secretário-geral adjunto do PSD
Membro da Comissão Política Nacional do PSD
Membro da Assembleia Municipal de Oliveira de Azeméis
Candidato a deputado à Assembleia da República em 1991
Deputado à Assembleia da República - VII Legislatura
Vice-coordenador do PSD na Comissão parlamentar de Juventude
Deputado à Assembleia da República - VIII Legislatura
Coordenador do PSD na Comissão parlamentar de Juventude e Desporto
Presidente da Comissão parlamentar de acompanhamento do Euro-2004
Presidente da Assembleia Municipal de Oliveira de Azeméis
Actividade desportiva
Director de marketing do Basquetebol da União Desportiva Oliveirense
Membro da Comissão Directiva da Liga de Clubes de Basquetebol
Funções governamentais exercidas
De 2004-12-02 até 2005-03-12Secretário de Estado do Desporto e Reabilitação do XVI Governo Constitucional
De 2004-11-24 até 2004-12-02Secretário de Estado do Desporto do XVI Governo Constitucional
De 2004-07-21 até 2004-11-24Secretário de Estado do Desporto do XVI Governo Constitucional
De 2002-04-08 até 2004-07-17Secretário de Estado da Juventude e Desportos do XV Governo Constitucional

Sugestão: alcunhas para os rapazinhos do CDS/PP

Confesso que não pude deixar de rir quando soube a alcunha que foi dada ao líder parlamentar do PP, o jovem Nuno Melo. "Florimelo" é um achado. Não sei quem foi o génio, mas que está bem achada não há dúvida.
Já agora, penso que seria de lançar um concurso de ideias, a ver quem conseguia dar mais alcunhas aos rapazinhos do CDS/PP. Aquela bancada parlamentar tem figuras de antologia. Nâo me refiro ao Telmo Correia, mas a figuras como o João Almeida ou aquele outro que foi secretário de Estado das Pescas e fez crescrer desmesuradamente a nossa ZEE, são únicos. Haja alguém que substitua o Avelino e nos faça rir!

AS TAREFAS HÉRCULEAS DE PINTO MONTEIRO

O conselheiro Pinto Monteiro foi, em boa hora, nomeado para substituir o dr. Souto Moura. É precisa gente discreta, competente, com capacidade de liderança e, em especial, bem formada nos mais importantes lugares do Estado. A responsabilidade pelo exercício da função e o rigor ético têm de andar de mão dada.

A partir de 9 de Outubro, o novo PGR vai ter uma tarefa hérculea pela frente. Não se tratará apenas de meter ordem numa casa que de há alguns anos a esta parte dá a ideia de estar em permanente autogestão. Importa voltar a disciplinar e balizar a intervenção dos Mp's espalhados por esse país, fazendo sentir-lhes que o Estado de Direito e a defesa da legalidade não se coadunam com o uso e abuso de princípios de oportunidade e que a única actuação admissível é a que tem por mira o princípio da legalidade.
O conselheiro Pinto Monteiro terá, igualmente, de definir claramente o modo de articulação entre o MP e a PJ de maneira a que não se continuem a suceder os episódios que desprestigiando as duas entidades, em última instância minam a democracia e acentuam o sentimento de insatisfação da opinião pública. Acabar com o paroquialismo reinante e instituir padrões de rigor na actuação dos Mp's ao longo do inquérito será um primeiro passo para devolver a credibilidade à instituição.
Depois, importa que o MP não interponha recursos por despeito, como infelizmente tenho visto em variadíssimas situações, que não cozinhe as acusações a seu belo prazer, mas que as elabore com respeito pela verdade factual, em suma, que tenha uma actuação digna e respeitadora do seu próprio estatuto, à altura das necessidades de realização de Justiça e de defesa da legalidade.
O senhor conselheiro terá, também, de prestar alguma atenção à forma como alguns magistrados se vestem quando vão para o tribunal. Não é que isso seja fundamental, mas que imagem pode ter uma corporação judicial em que alguns dos seus membros e colaboradores vão trabalhar de chinelas, com o umbigo de fora e a cuequinha de fio dental azul claro a sair das calças? Nalgumas comarcas do interior e em zonas de veraneio isso é o pão nosso de cada dia. Bem sei que esse é fundamentalmente um problema de educação, mas não havendo quem a dê, nem em casa nem na escola, talvez seja de começar a apelar ao bom senso.
O problema não é exclusivo do Ministério Público, sendo, aliás, extensivo à magistratura judicial e a alguns dos funcionários judiciais, às autarquias e a muitos serviços públicos. Infelizmente tenho visto de tudo. Dos que vão trabalhar com calças de atilhos pelo meio da perna às que usam t-shirts com dizeres capazes de fazerem corar um santo.
Enfim, aí como em muitas outras áreas há um longo trabalho a desenvolver. O mínimo que posso fazer é então desejar ao conselheiro Pinto Monteiro as maiores felicidades e que nos faça rapidamente esquecer que em tempos o Ministério Público foi dirigido pelo dr. Souto Moura.

sexta-feira, setembro 22, 2006

COMPROMISSO PORTUGAL

Os senhores do designado "Compromisso Portugal" estiveram ontem reunidos no Convento do Beato e durante todo o dia tiveram direito a largas horas de tempo de antena.
À noite, na SIC Notícias, lá estiveram quatro das figuras gradas do movimento a debitar as suas "ideias". Eu pasmo com a facilidade com que neste país se bota discurso.
De economia não falo, mas não posso deixar de admirar as propostas para a Justiça.
O responsável por essa área quando questionado pelo jornalista sobre as propostas em concreto limitou-se a debitar meia dúzia de generalidades perfeitamente inócuas.
A única proposta que dali saiu foi a da profissionalização da gestão dos tribunais e a sua entrega a gestores profissionais. A avaliar por aquilo que está a acontecer na Saúde e com a forma como a gestão de algumas entidades desta área têm sido profissionalizadas, temo que amanhã tenhamos um desses gestores profissionais, seguramente um economista, engenheiro ou gestor, a dizer que o juiz não pode continuar a elaborar sentenças com 30 páginas, que se estão a gastar demasiados tinteiros e que que há que poupar nas cassetes das gravações das audiências.
Pessoalmente, creio que alguns daqueles senhores do Compromisso Porrtugal deviam ter vergonha, porque bastaria ir a algumas das suas empresas para ver como as coisas são tão burocratizadas como na função pública e como os direitos dos consumidores são vilipendiados. A começar na Vodafone do senhor Carrapatoso. Dou-vos só um pequeno exemplo: sendo titular de vários telemóveis, tenho um deles associado a uma conta que me obriga a fazer carregamentos todos os 30 dias. Acontece que estando eu de férias, de um momento para o outro fiquei sem conseguir fazer chamadas e ouvia uma mensagem que dizia que o serviço tinha sido desactivado por eu não ter feito um carregamento. Ora, acontece que além de não se ter ainda completado o período de 30 dias (faltavam algumas horas para isso acontecer), o telemóvel tinha saldo disponível mais do que suficiente para efectuar qualquer chamada. No final desse dia, ou seja, dez horas depois de me terem cortado o acesso à rede recebi um sms a dar-me conta do corte por falta de pagamento. Fiquei, pois, a saber que para a Vodafone o dia não tem exactamente 24 horas, pelo que 30 dias podem ser 29 dias e pouco, e que ao invés de me ter passado a facturar as chamadas por um valor qualquer mais elevado (por exemplo aplicando a tarifa mais alta da sua rede a título de penalização), se fosse o caso, por terem sido ultrapassados os 30 dias sem efectuar o carregamento, que é o que seria lógico, os serviços da excelente empresa do senhor Carrapatoso acharam por bem, pura e simpesmente, cortar-me o acesso ao serviço. A isto chama-se abuso, prepotência.
E quem fala na Vodafone fala na TVCabo, na PT, nalgumas seguradoras, nalguns bancos, nos CTT (o preço do envio de um fax ou da certificação de fotocópias é um "roubo"), enfim numa série de empresas privadas ou/e privatizadas, que estão habituadas a deixar os consumidores pendurados na linha a ouvir música, que sistematicamente se enganam na facturação e que quando o consumidor tem de reclamar ainda tem de pagar a chamada da reclamação.
Os senhores do Compromisso Portugal, alguns dos quais exalam snobismo e pesporrência (aquela do senhor presidente do BES Investimentos querer exemplificar a excelência das suas ideias com o apoio de dois ex-ministros, um irlandês e um espanhol, é de bradar aos céus), antes de se porem a mandar bocas, deviam olhar para o seu próprio umbigo. De bazófia estamos todos cheios.
Dali não virá, seguramente, nada de útil ao país.

quinta-feira, setembro 21, 2006

O SÍMBOLO DE UMA NAÇÃO



Não sei se essa nação tem os tais seis milhões de que alguns falam. Isso também não é importante. Importante não é só fazer da águia "o símbolo de uma nação". Importante é fazer do desporto e do futebol em particular aquilo que nunca deveria ter deixado de ser: uma escola de valores com princípios e regras indiscutíveis e intemporais. No dia em que o senhor Madaíl perceber isto e for capaz de transmiti-lo aos miúdos, então poderemos aspirar à honra de ter um futebol são em corpos sãos. E para isso não precisamos do senhor Scolari nem da Senhora de Caravaggio.

NOTÁRIOS PRIVADOS

A Autoridade da Concorrência publicou para aí um estudo em que recomenda a alteração de uma série de regras atinentes ao notariado e pugna por um aumento da oferta e da competitividade (pode ser lido no site da Ordem dos Advogados).
Entretanto, chegou-me a notícia de que uma senhora notária privada, que está contra a inércia da direcção da sua Ordem, pede uma reunião extraordinária para analisar o artigo 23º do Estatuto da Ordem dos Notários. Ontem ouvi nas notícias que os notários vão meter uma acção contra o Estado porque se consideram enganados.
Confesso que não percebo a razão para tanto alvoroço.
Eu estava convencido de que quando o notariado fosse privatizado e alguns actos desformalizados tudo iria correr melhor para os cidadãos. Em especial, depois de saber que o Dr. Pedro Rodrigues viera de Macau para ajudar a preparar a privatização, ele que até é (era, agora é privado!) um insuspeito notário público.
Afinal, enganei-me redondamente.
Aqui em Faro, onde resido, de um dia para o outro fecharam os cartórios públicos, que eram maus, com um atendimento péssimo, com excepção para os amigos do pessoal que aí trabalhava, mas que funcionavam, e abriram 3 cartórios privados, dois dos quais dirigidos pelas notárias públicas que antes estavam naqueles dois que fecharam. Ou seja, só passámos a ter mais um cartório, o que foi benefício de pouca monta.
Agora os notários que aí estão parece que têm medo da concorrência. Será que a experiência não está a ser proveitosa? Ganham menos do que ganhavam? A fé pública dos documentos está em risco? Só os cartórios públicos e privados é que dão garantias? Um ajudante notarial dá mais confiança aos cidadãos a certificar fotocópias do que o mesmo acto praticado por um advogado, uma câmara de comércio ou uma estação dos CTT?
Com o granel que para aí anda eu tenho uma sugestão a fazer ao senhor ministro da Justiça: por que não conceder um período de 6 meses para que os novos notários privados, que antes estavam nos quadros da DGRN e agora se sentem enganados, possam tomar a opção de regresso e depois colocavam-se de novo a concurso as licenças que entretanto lhes foram atribuídas. Era só uma questão de esperar para ver quantos deles voltavam atrás na decisão tomada.

O SOL

Estava convencido de que só eu é que tinha achado o novo semanário Sol um horror. Ontem fiquei mais acompanhado depois de ouvir o Lobo Xavier e o Pacheco Pereira. Este último foi ao ponto de considerar o jornal um misto entre o 24 Horas e o Correio da Manhã. Pode ser que as coisas venham a melhorar, embora eu esteja convencido que vai ser difícil.
Na verdade, não deverá ser fácil fazer um jornal que tem como director o centro do universo e cujo título é uma homenagem à sua própria pessoa. Mais difícil ainda deverá ser mantê-lo.
Há, contudo, duas ou três notas que me deixaram confundido e que gostaria de aqui vos deixar:
1. Por que razão eles não querem oferecer brindes nem fazer promoções? Creio que ainda o arquitecto era o director do Expresso quando este começou a oferecer promoções, brindes e luxuosos encartes pagos (os suplementos do Governo de Macau no tempo de Rocha Vieira são um pequeno exemplo). E lembro-me de edições especiais que eram promovidas pelo próprio jornal e vendidas por um preço simbólico. Do Livro da Boa Mesa e da Boa Cama (creio que era assim que se chamava) à Peregrinação, passando pelos Lusíadas e por cd's, houve de tudo um pouco. Nunca ouvi o arquitecto reclamar, apesar de admitir que se está sempre a tempo de mudar de ideias.
2. Outra coisa que me deixou baralhado foi aquela de ter visto cartazes publicitários do jornal com o prof. José Hermano Saraiva. Todos sabemos que a História se reescreve, às vezes por encomenda, e que nos dias de hoje vende muito. Espero que com isso não se quisesse afinal dizer que o jornal antes de ser já fazia parte da história. A ver vamos.
3. Também fiquei admirado por ver, logo no primeiro número (eles não perdem tempo), uma reportagem com o general Rocha Vieira na sua casa dos Salicos. E um anúncio da Gradiva de todo o tamanho. Será que depois desses indícios vamos ter também o Martins da Cruz e a Zita Seabra? O Pinto da Costa vem já a seguir que eles já anunciaram que a Felícia Cabrita anda a tratar disso.
4. Mas o que eu estranhei mesmo foi um pequeno anúncio no caderno de Economia que rezava o seguinte: "QUERO TRABALHAR! Jornalista (com alguns cabelos brancos) quer trabalhar, para pôr em prática a sua grande experiência nacional e internacional. Contacto: joao-paulo-diniz@hotmail.com". Se é quem eu estou a pensar, creio que o melhor era ir pedir emprego directamente à Fundação Jorge Álvares, ao coronel Salavessa da Costa ou então voltar para Macau e tentar arranjar um lugarinho na Revista de Cultura. É uma chatice. Se fosse um tipo como eu a publicar um anúncio desses não era de estranhar. Mas agora que alguém que se mostrou sempre tão prestável tenha de chegar a esse ponto... O mundo está cheio de ingratos e há "amigos" com os quais nunca se pode contar.
Até mais logo.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Cheguei!

Depois de muitas tentativas e hesitações aqui estou eu na blogosfera (que grande palavrão!).
Certamente que já todos gozaram e se riram com as duas notas anteriores, pensaram num milhão de coisas e conjecturaram sobre a melhor forma de investirem contra o Bacteriófago.
Importa, por isso mesmo, para que não comecem a surgir dúvidas escusadas logo de entrada e não gastem as vossas preciosas munições, que esta página, além de um espaço de afirmação da cidadania, tem pretensões a coluna de opinião, de preferência fazendo humor com coisas sérias (presunção e água benta...). Aliás, para quem se recorda, na esteira de algumas das crónicas que durante anos publiquei no "Ponto Final".
Procurarei evitar a chateza e a prolixidade, moderando o tom e o estilo. Mas é bom que se diga que não abdicarei de me pronunciar sobre todos os assuntos que interessam à comunidade em que me integro, ao povo a que pertenço, à gente em que me revejo.
Este blogue não é uma homenagem a ninguém. Antes deverá ser visto como um espaço de encontro entre amigos. E espera, isso sim, não deslustrar a memória de portugueses como o Eça, o Ramalho, o Antero, o Sena, o Cardoso Pires, o Rui Cinaty ou o Rui Knopfli.
Entre a lama e a alma
Algures no tempo deste tempo
Está um pedaço de tempo amputado
Um pedaço de alma
Talvez Portugal.