segunda-feira, novembro 06, 2006

A JUSTA RECOMPENSA



Katsouranis é um profissional irreprensível e um jogador exemplar. Depois de ter sido chamado de "um grego" por um comunicado da SAD do FCPorto e de ter sido acusado de jogo violento, ele, um jogador que nas últimas seis épocas nunca viu um cartão vermelho e a quem o cartão amarelo foi exibido pouco mais de duas dezenas de vezes, como Rui Santos teve o cuidado de sublinhar na SIC Notícias, ontem marcou o primeiro golo do Benfica e, graças a uma portentosa jogada de Nelson, abriu caminho para mais uma goleada na Luz. Foi a justa recompensa para quem a semana passada foi tão injustamente acusado pela SAD do FC Porto e o seu treinador.

sábado, novembro 04, 2006

EVOLUÇÃO DO ABORTO EM ESPANHA 1985 - 2005


O Instituto de Política Familiar, no número de Julho de 2005, publicou o seguinte:

"El 5 de julio de 1.985 (Ley Organica 9/1985) se aprobó en España la ley del aborto por la que se despenalizaba tres supuestos concretos:

1. Evitar un grave peligro para la vida o la salud física o psíquica de la embarazada.
2.Si el embarazo es consecuencia de un hecho constitutivo de un delito de violación, previamente denunciado.
3.Presunción de graves taras físicas o psíquicas del feto.

Han trasncurrido, pues, 20 años y desde entonces las defunciones por aborto han aumentado de manera vertigionosa convertiéndose en la actualidad en la principal causa de mortalidad en España.

(...)

Aumento paulatino de las defunciones (22%)...
Por otra parte, las defunciones han ido creciendo paulatinamente en España, pasando de 312.532 en el año de 1985 hasta las 387.729 en el año de 2003, o que supone un incremento del 22% (71.197 defunciones más)
... pero sin tener en cuenta las defunciones por aborto...
Ahora bien este incremento de las defunciones seria mayor si tuviéramos en cuenta las defunciones producidas por los abortos,
... que hubiera provocado un aumento de defunciones muy considerable (48,3% de incremento) ya que en realidad se ha pasado de 312.541 defunciones en el año de 1.985 hasta los 463.517 defunciones en el año 2003, y que supone un incremento de 150.976 defunciones, es decir un 48,3% más.
(...)
Evolución de las defunciones por aborto en España: un aborto cada 6,6 minutos (79.870 abortos en el 2003)
... es decir, UNO (1) de cada seis (6) embarazos termina en abortos...
(...)
... lo que está provocando una verdadera explosión de los abortos en los últimos años...
(...)
En valores absolutos
Madrid (con 15.434 abortos en el 2003), Cataluña (con 15.373), Andalucia (14.280) y Comunidad Valenciana (7.870) son las Comunidades autónomas en las que se producén más abortos. Sólo en estas 4 CCAA se producen 52.957 abortos que representan el 66,3% del total de abortos.
(...)
Se ha reducido significativamente la edad media de las personas que abortan..."
Não vale a pena continuar. Quem quiser que leia o relatório e conteste os números que dele constam.

PGR - 1 MINISTÉRIO PÚBLICO - 0


Não é o resultado de um jogo de futebol. Também não é uma teimosia. É uma evidência. Pinto Monteiro apostou e ganhou. Manteve a coerência. Houve 3 membros do Conselho Superior do Ministério Público que para não mudarem de opinião preferiram faltar à reunião – isto é que é coragem e sentido do interesse público! – que aprovou o nome do novo vice-procurador geral da República. O resultado da votação foi de 8 votos a favor e de 5 votos contra.


A SIC Notícias na sua Edição da Noite (24h) veio dizer que a votação foi “renhida”. Pois foi. Pinto Monteiro conseguiu que à segunda tentativa a sua proposta passasse com mais de 50% dos votos dos que votaram contra. Está-se mesmo a ver que foi renhida. Que diria a Ana Lourenço se a diferença tivesse sido só de um voto? Eu digo: “PGR perdeu a votação no CSMP”. É assim que se cultiva o rigor neste país.

DEPUTADOS DA NAÇÃO: PELINTRAS OU AVARENTOS?


Os nossos ilustres representantes da Nação não param de nos surpreender. A revista Sábado publicou na passada 5ªfeira, dia 2 de Novembro, uma interessantíssima reportagem sobre “as novas repúblicas de deputados”.

Informou a revista que alguns dos nossos deputados eleitos por círculos eleitorais fora de Lisboa, resolveram arrendar e partilhar apartamentos na capital durante a sua semana de trabalho. Eu, que sou um bota de elástico, e que inclusivamente me indignei com uma alteração ao Estatuto da Ordem dos Advogados efectuada no tempo do meu Colega José Miguel Júdice, alteração essa que eliminou a obrigação dos advogados se comportarem na sua vida pública e privada por forma a merecerem e serem dignos das horas e da advocacia, fiquei espantado com a reportagem da Sábado.

E digo espantado para não dizer chocado, já que não sou flor de estufa, porque pela referida reportagem ficámos a conhecer, entre outras minudências, os dotes culinários do presidente da Liga de Clubes (daí o volume do dito), dotes, aliás, devidamente apreciados pelos seus colegas deputados, Pedro Duarte e Sérgio Vieira; que o apartamento tem um colchão usado encostado à parede do corredor, que há maços de tabaco, notas e moedas espalhados por uma mesa, que jogam playstation nas horas vagas e que fazem step de calças de fazenda, na sala de estar, enquanto vêem televisão.

Outros, deputados do PS, seguem o mesmo “esquema” e vai daí foram comprar móveis à Moviflor (!) e outras pechinchas em segunda mão (trastes, digo eu), através de anúncios de jornais, para mobilarem o apartamento partilhado.

Dizem os meus amigos que eu além de ser um bota de elástico também sou um bocadinho viperino, pelo que não gostaria de me alongar demasiado sobre a reportagem da Sábado e as atitudes dos senhores deputados, já que julgo que ela ilustra o nível, o estilo e a falta de noção que os mesmos têm sobre o alcance das funções que desempenham.

É lamentável que os senhores deputados se prestem a este tipo de reportagem, aceitando a devassa da sua intimidade e da sua vida privada, alimentado desta forma saloia o seu ego e a curiosidade voyeurista dos leitores, embora sejam eles, e não eu, quem faz figura de pacóvio.

Depois, porque quem se presta a este tipo de exercício jornalístico não tem autoridade moral para amanhã, se for apanhado em trajes menores por uma câmara indiscreta ou numa qualquer praia naturista da Jamaica, vir dizer que a sua privacidade não está a ser respeitada.

Como se isso não fosse já de si altamente criticável, os senhores deputados vêm também revelar os seus gostos, mais do que discutíveis, promovendo os locais onde adquirem móveis (na Moviflor, por exemplo, que é, como se sabe o crème de la crème da decoração de interiores), a forma como ocupam os seus tempos nos apartamentos que partilham (fazendo step na sala de estar de calças de fazenda e jogando playstation) e não percebendo, por exemplo, que uma pousada da juventude se destina a muitas finalidades, mas que não é seguramente um lar de estudantes nem se destina a dar guarida quase permanente a políticos profissionais, ainda que jovens, que recebem um subsídio de renda de 750 euros (quase o dobro do salário mínimo nacional) para se alojarem noutro local.

Há, inclusivamente, quem não se coíba de dizer que recebendo 750 euros de subsídio de renda ainda consegue poupar algum dinheiro arrendando um T2 nas Laranjeiras com a filha que é estudante de Medicina! A filha é uma sortuda, mas a afirmação do senhor deputado da Nação é mais uma cretinice.

Os senhores deputados que se prestaram a este exercício jornalístico da Sábado demonstram bem que se comportam como uns pategos, que não têm a mínima noção das funções que exercem e que vão para a capital como deputados, não para se comportarem como deputados, que é o que os eleitores esperam deles, mas para amealharem umas coroas com o subsídio de renda que o Estado e os generosos contribuintes lhes dão para que eles se alojem com um mínimo de dignidade. Preferem andar a fazer tristes figuras, ainda por cima publicitando-as, com o subsídio que recebem, sendo ainda por cima gozados pela vizinhança pela sua pelintrice. Os leitores da Sábado podiam ter sido poupados a esta reportagem. Não foram.

A reportagem da Sábado veio de novo colocar o dedo na ferida e mostrar, para quem ainda tivesse dúvidas, a falta de preparação desta rapaziada para os cargos que desempenham e que se os desempenham isso não acontece por mérito próprio mas apenas porque temos um sistema de selecção e recrutamento da elite política abaixo de cão e que é capaz de promover meros comissários políticos dos partidos, sem uma preparação mínima que se veja, desde que tenham feito o percurso das “jotas”.

Antigamente, no tempo do salazarismo, este tipo de gente ia para a PIDE, para a Legião ou para um cargo menor, enquanto amealhavam uns cobres, ganhando alguma respeitabilidade e fazendo de bufos. Agora continuam a amealhar e fazem carreira pela via dos partidos. Nisso as boas ditaduras e as más democracias são muito parecidas.

Esta história da Sábado fez-me lembrar alguns maus exemplos que colhi em Macau, no tempo da Administração portuguesa, de membros do Governo local e de outros altos funcionários do Estado, que tendo direito a viajar em 1ª classe e em classe executiva, em razão dos cargos que ocupavam, acabavam viajando numa classe inferior, para receberem a diferença, ficarem com crédito nas agências de viagem ou levarem a família à borla, mas depois metiam cunhas para transportarem consigo, sem pagar, os excessos de bagagem que se viajassem na classe a que tinham direito nunca teriam que pagar. Ignoravam esses ilustres representantes do Estado português que depois eram alvo da chacota dos chineses. Do mesmo modo que ignoravam que embora poupando umas patacas, faziam uma figura tristíssima viajando no meio da maralha indiferenciada sem perceberem que isso só servia para desprestigiá-los e, mais grave, desprestigiar as funções que exerciam. Esqueciam, naturalmente, que se o subsídio ou o direito eram atribuídos em razão de um dado cargo ou função, era porque o legislador entendia que esta actividade exigia uma certa dignidade. Não fosse assim e seria escusado estar a dar o subsídio. O arquitecto Saraiva (o tal que não dá brindes no Sol) e o prof. José Hermano Saraiva, que tanto criticaram a classe política portuguesa e que também andaram a passear por aquelas paragens tecendo loas ao general Rocha Vieira, nunca repararam nisso. Eu reparei e disse-o em tempo oportuno nas páginas de vários jornais. Caiu tudo em saco roto. A malfadada história das conversões repete-se agora com outros contornos.

Eu bem sei que aquilo que os senhores deputados poupam no subsídio sempre dará para comprar umas peúgas mais quentes para quando o frio apertar ou mais um perfume para “a esposa” – hão-de reparar que estes senhores, normalmente, não são casados com uma mulher, mas com uma “esposa”, e que até hoje nunca ninguém lhes explicou, por exemplo, a razão para que, felizmente, os nossos sucessivos presidentes da República (ao menos valha-nos isso) se referissem e refiram sempre às suas mulheres quando falam dos respectivos cônjuges. Mas será que tal pelintrice constitui justificação suficiente para o desprestígio que a sua conduta vem emprestar à função que exercem? Parece-me bem que não.

Tudo isto que aqui deixo vem nos livros. Não é precisa qualquer presunção ou educação especial para sabê-lo. Basta ler um pouco, perguntar a quem sabe, ter um mínimo de cultura geral e de conhecimento da vida e do mundo. Persistentemente, o que se constata é que isso é tudo o que os nossos deputados não têm. Não fazem por isso e ainda por cima têm gáudio em exibi-lo. O mal não é exclusivo deles. É transversal a toda a nossa sociedade. Ainda há uns meses uma senhora juíza censurava o termo “natalício”, ao analisar um acordo de regulação do poder paternal previamente preparado por dois advogados, depois de perguntar, ante o meu espanto e o do meu colega que patrocinava a outra parte, se o pai dos menores fazia anos no Natal para que ali se dissesse que os menores iriam passar o dia do “aniversário natalício” do seu progenitor com este!

Depois de tudo o que acabei de escrever não posso deixar de dar os meus parabéns à Sábado e aos autores da reportagem pelo magnífico trabalho que fizeram. Eu, que não sou filho de ricos, que com muito esforço e trabalho vou tentando exercer a minha profissão com um mínimo de brio, dignidade e decência, que não recebo quaisquer subsídios, que religiosamente pago impostos, quotas e contribuições, que não tenho, nem nunca tive, em quase vinte anos de advocacia, uma avença com uma autarquia, empresa pública ou um simples cliente particular que me tivesse sido “remetido” pela via de um qualquer partido e que, além do mais, nunca pedi dinheiro ao BES (livra!), é graças às reportagens como a que a Sábado publicou que vou conhecendo um pouco melhor a classe política do meu país.

Os valores e as normas que governam o nosso comportamento mudam quando passamos da escola para a família, do trabalho para o partido ou do templo para o grupo de amigos. Isto equivale a uma certa ‘compartimentação’ das sociedades. (...) Walzer sustenta que numa sociedade caracterizada pelo pluralismo das esferas apenas é necessário manter essas fronteiras. Os bens de cada esfera terão de ser distribuídos de acordo com os respectivos significados sociais, e ninguém deveria converter uma posição privilegiada numa dessas esferas em privilégios para actuar numa esfera diferente. As conversões ilícitas (...) pervertem o significado social dos bens em questão e constituem uma forma de tirania” – cfr. Daniel Innerarity, in A transformação da política, Teorema, p.88.

Parece-me elementar. Só que os deputados que temos desconhecem Michael Walzer, nunca ouviram falar no pluralismo das esferas e não leram o que escreveu o bilbaíno aqui citado. Como também desconhecem o Eça e o Ramalho. De outro modo não teriam dito o que disseram. Em suma, não têm a noção das funções que exercem nem do efeito que as suas atitudes têm na sua imagem e na imagem das instituições que é suposto representarem e prestigiarem. E não enxergam que essas atitudes, como a que a referida revista em boa hora revelou, só servem para os portugueses confirmarem, perdoem-me os leitores deste blogue, a ignominiosa classe política que temos e o nível medíocre de muitos dos nossos ilustres deputados.

E ainda por cima têm a lata de dizer, sem perceberem o alcance da besteira e ignorando que aos olhos da opinião pública há coisas com que não se pode brincar, que é nesses apartamentos partilhados e mobilados com móveis da Moviflor que nomeiam os árbitros. Dir-me-ão que são deputados da Nação, filhos da Pátria. Pois são. Eu também sou. E só posso limitar-me a constatá-lo e a dizer embevecido: Ditosa Pátria que tais filhos tem!



Em Faro, na madrugada de 4 de Novembro de 2006.

ÚLTIMA HORA: A SUIÇA MUDOU-SE PARA A BÉLGICA

“Muitos holandeses foram à vizinha Suiça...” – início do comentário do jornalista da RTPN ao resumo do jogo entre o Grasshoppers e o AZ Alkmaar para a Taça UEFA, partida que terminou com o resultado de 5-2 a favor dos holandeses (3/11/06, às 0.30)

quinta-feira, novembro 02, 2006

ÁGUIA FERIDA VOA MAIS ALTO


- Tás a ver como não custa nada!
- E estes não são como os outros que desde Abril não ganham em casa e vão em 15º lugar no campeonato!*
* - que me perdoe o Gouveia da Costa, que é um excelente colega e bom amigo, mas nestas coisas da bola...!

DEPOIS DO MENSALÃO...

...mais um grande imbróglio para o Banco Espírito Santo!


Depois do escândalo em que se viu envolvido no Brasil, vem agora a imprensa espanhola (El Pais, ABC, El Confidencial, por exemplo) relatar as buscas ao BES, em Espanha, por suspeita de lavagem de dinheiro. Um mal nunca vem só. Mas de um banco que destila pesporrência e cagança por todos os poros, é caso para dizer:
"Fostes ao teu banco? Não, fui à Guardia Civil!" ou então "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és!"

terça-feira, outubro 31, 2006

RECONHECIMENTO




Quem sou eu que não me esqueço
do que vejo pela rua;
do que vejo em minha casa;
do que vejo quando salto
e atiro olhos à lua?

Decerto, não ameaço,
nem condeno a cega-rega.
Menos, menos, contrafaço
quem, resoluto, se entrega.

Tenho um sorriso pra tudo.
Uma palavra a-propósito.
Um queixume mal ouvido
que me deixa quase mudo.

Quem me vê, vê-se num espelho
e retrai-se, embaraçado.
Eu sigo, parto, regresso
dentro e fora deste mundo.

Quando recolho a casa,
vindo, apressado, da rua,
julgo então que não me esqueço
e atiro olhos à lua.

Eu cumpro a lei do meu fado,
mas, aos poucos, desfaleço
de tanto salto mal dado,
sem saber que o céu me espera,
sem saber que me não lembro.

Ruy Cinatti, in Corpo e Alma

PORTAL DA INÉRCIA


O Portal do Cidadão é um daqueles sites que foi criado para nos facilitar a vida. Às vezes. E só às vezes.

Quando se trata de certidões, às vezes a coisa complica-se, porque ao que parece os pedidos são centralizados e depois reenviados para as conservatórias, não sendo poucas as vezes em que é preciso insistir junto da conservatória para nos enviar a certidão pedida e paga há um ror de tempo.
Por isso, também há quem nas conservatórias continue a recomendar baixinho aos utentes que o melhor é não pedir pela internet. Demora muito tempo dizem eles. E têm razão.
Eu tenho tido a prova disso. Numa das vezes fui a correr ao Multibanco fazer o pagamento para ter a certeza de que a certidão vinha a tempo e horas. Qual quê! No dia seguinte recebi uma mensagem a pedir-me mais dinheiro. Voltei ao portal, tirei a referência para o pagamento adicional e fui outra vez para o Multibanco. Uma semana depois nem cheiro da certidão. Voltei a insistir. Telefonei para a conservatória. Perguntei o que se passava e fiquei a saber que o funcionário se tinha enganado na conta e que ainda faltava pagar mais € 1,00 e qualquer coisa. Mas como tinha havido engano eu já poderia voltar a pagar no Multibanco. Teria de enviar o dinheiro, "por cheque, vale do correio ou embrulhado num bocado de papel dentro de uma carta" ao cuidado do funcionário! Resultado: uma certidão pedida e paga no mesmo dia, cujo preço incluía os portes de correio azul, demorou quase um mês a chegar!
Esta manhã precisei de pedir mais uma certidão. Desta vez perdi a senha. Culpa minha. Quem me mandou a mim mudar de computador! Tentei recuperá-la através do site. Recebi a mensagem de que me iriam enviar um e-mail. Como uma hora depois ainda não tinha vindo nada efectuei novo registo no site. Não serviu de nada. A activação do novo registo também ficou dependente de um e-mail. Depois telefonei. Primeiro para o geral do Portal, de onde me remetaram para os números 21 391 8452 e 21 391 8454 que eram os indicados. Só que os números chamam, chamam e continuam a chamar, até se desligarem sozinhos ficando eu a ouvir o sinal de impedido.
Vai daí enviei um e-mail a pedir resposta às minhas solicitações anteriores. E como não recebesse resposta, depois, enviei uma reclamação. Estou desesperado! São 15.45 e nada. Nem e-mail, nem certidão, nem resposta, nem uma operadora telefónica que me responda do outro lado da linha.
E fala o engº Sócrates em excelência! Queria vê-lo no meu lugar. Começo a ficar farto desta conversa das novas tecnologias. Uma boa trampa é o que isto é!
Em tempo: Tinha eu acabado de colocar este post quando três minutos depois recebi um e-mail a dizer-me que procederam, finalmente, à activação. Agora já não há nada a fazer. Está dito. Para a próxima que sejam mais lestos.

MAIS UMA PÉROLA ...

... do jornalismo televisivo!

"O caos esteve caótico dentro de Lisboa" (Jornal das 14, Sic Notícias, 31/10/06)

Mas ainda um dia havemos de ordená-lo...

segunda-feira, outubro 30, 2006

PAIS POBRES, FILHOS RICOS

De acordo com o estudo Duracell Toy Survey, referido na revista "Dia D", que acompanhou o Público de 27/10/06, as crianças portuguesas são, conjuntamente com as francesas, as que recebem a semanada mais alta da Europa. Refere-se o estudo a crianças entre os 5 e os 10 anos.
Seria bom que esse estudo fosse alargado aos demais escalões etários, até aos 18 anos, pois que estou certo que os resultados continuariam a ser surpreendentes.
Num país de tesos e semi-tesos com apenas 10 milhões de habitantes, em que o número de desempregados anda próximo dos 500.000, em que a maior parte da população activa ganha o salário mínimo nacional, que por sinal é dos mais baixos da Europa, em que uma grande parte da população está sobreendividada a pagar casas, roupas, carrros e viagens de sonho, e em que até já há gabinetes de apoio aos gastadores compulsivos, não deixa de ser curioso este dado.
Aliás, este dado contribui para explicar o número industrial de shots e de cocktails alcoólicos que são consumidos por jovens imberbes nas noites dos bares e discotecas deste país e o número elevadíssimo de acidentes rodoviários que se segue a tais consumos. Ainda há dias a SIC passava uma reportagem sobre este gravíssimo problema social.
Mas enquanto os papás e as mamãs deste país continuarem a pensar que é melhor mimá-las a educá-las, tratando as crianças como débeis mentais para não as magoar nem ofender, deixando-as berrar e correr pelos restaurantes como se nada fosse com eles, enquanto as pestes incomodam meio mundo, estou certo que continuaremos a ter resultados destes. E também a ver crianças de 3 e 4 anos aos pontapés às mamãs nos supermercados, chamando-lhes nomes irreproduzíveis de cada vez que lhes é negado o direito à aquisição de mais um chupa-chupa, enquanto elas, as mamãs, impávidas e serenas se limitam a dizer sorridentes: "isso não se diz".

O "GANG" DOS ALCAIDES

Informou o Diário de Notícias ("O "gang" dos alcaides", 28/10/06, p. 34) que "239 pessoas foram detidas em Espanha, entre Janeiro de 2005 e Junho de 2006, por delitos ligados ao urbanismo" e que "neste número não se contam os 63 presos (mais de metade ainda o estão) pela operação Malaya, relacionada com a corrupção urbanística em Marbella".

E mais adiante o DN esclarece que foi "o extraordinário desenvolvimento do sector da construção, um dos factores-chave do crescimento da economia espanhola acima de 3% nos últimos dez anos, tem a ver com esta 'febre do cimento', que parece ter contaminado uma boa parte da classe política espanhola ligada à gestão municipal".
O resultado parece ser o que foi dado pela Guarda Civil, que só entre Janeiro de 2005 e Junho de 2006 "denunciou 12.832 construções ilegais em todo o país", sendo rara "a província onde não ocorreu este tipo de escândalo".
Então e por cá? Como vão as coisas? Há delitos na área do urbanismo? Há construção ilegal? Há algum "gang" de autarcas capaz de ombrear com os feitos dos "gang dos alcaides"? Não meus caros, por cá corre tudo sobre rodas.

MERECÍAMOS OUTRA GENTE!


No mesmo dia em que João Vale e Azevedo era condenado a mais 7 anos e meio de prisão, o senhor Luís Filipe Vieira era reeleito para a presidência do Benfica. Até aí tudo bem, não fora dar-se o caso de quarenta e oito horas depois a equipa principal de futebol jogar no "Estádio do Dragão" - o nome não podia ser mais piroso - contra o FC Porto e do dirigente máximo da SAD encarnada ter dado uma triste imagem do clube.
A derrota pode fazer, e faz, parte do jogo, do espectáculo, da competição. A grosseria e a má educação é que não fazem parte de nada. Quem pensava que esta era exclusivo do senhor Pinto da Costa ou do senhor Jardim ficou agora com a certeza de que ela está disseminada e já atingiu o glorioso SLB. Uma coisa é a má preparação dos dirigentes, a dificuldade em digerir a derrota, o não saber aceitar com fair play um resultado negativo e que apenas o foi por culpa própria. Outra coisa é a baixeza, a vilania.
Um clube que teve como presidentes como Borges Coutinho ou Ferreira Queimado não pode ter à frente da SAD um homem como o senhor José Veiga que profere obscenidades a eito e que responde à provocação gratuita que vem da bancada com dedos espetados e com o insulto. Ele poderá ser um óptimo gestor, mas não sabe ser um cavalheiro.
Eu, como desportista, amante do desporto e benfiquista convicto, que nunca trabalhou ou fez negócios com o FC Porto nem com o senhor Pinto da Costa, tenho vergonha do senhor José Veiga e do seu comportamento público.
Pior do que a humilhação da derrota consentida é a falta de nível dos dirigentes que temos. Só gostava que o senhor Vieira me explicasse se a falta de educação do seu amigalhaço Veiga também é parte integrante do seu projecto e da promoção da marca Benfica. É que se for, então o melhor é começar a promover uma marca do tipo "OMO", "Sonasol", "Tide" ou outra qualquer que seja capaz de remover rapidamente as nódoas da catedral.

SENTENÇA COM DEDICATÓRIA



Uma ex-notária pública que colaborou prestimosamente com o senhor Vale e Azevedo, conferindo fé pública a documentos e actos jurídicos que se vem agora a saber terem sido falsificados, foi, depois de acusada pelo Ministério Público, pronunciada e julgada por um tribunal criminal, agora condenada a três anos de prisão, com pena suspensa por cinco anos pela prática, em co-autoria, de um crime de falsificação.

A decisão ainda não transitou em julgado.

Mas para os senhores da Ordem dos Notários, designadamente para o seu bastonário, que têm feito uma indescritível campanha corporativa contra a desformalização de alguns actos notariais de lana caprina, o que os levou a questionar, em termos manifestamente deselegantes e até acintosos, as opções do legislador e o papel e o estatuto dos advogados portugueses, colocando em causa o reconhecimento de assinaturas e a certificação de simples traduções e de meras cópias autenticadas de documentos, a referida condenação e tudo o que aconteceu até agora envolvendo Vale e Azevedo e a referida senhora enquanto notária pública, sublinhe-se o pública, assenta-lhes que nem uma luva.

AINDA A ENTREVISTA DE D. JOSÉ POLICARPO AO DN


Tenho a sensação global de que o Governo da Nação tem feito um esforço para governar.(...) No nosso caso tenho acompanhado com interesse a determinação em governar, em estudar os problemas e em fazer reformas estruturais. (...) tenho visto com simpatia a determinação em governar, em tomar decisões, em não ficar dependente da plateia e do que pode acontecer amanhã em termos de opinião pública.” – Diário de Notícias, 28/10/06.

Sabendo-se a força e a influência que a Igreja tem em Portugal e a alta craveira intelectual do cardeal patriarca de Lisboa, que pensarão disto Ribeiro e Castro, Paulo Portas, Manuel Monteiro e Marques Mendes?

NOTAS SOBRE O ABORTO E O REFERENDO

D.José Policarpo, o cardeal patriarca de Lisboa, deu uma interessante entrevista ao DN, no passado dia 28 de Outubro.

Entre outras coisas, uma mais interessantes do que outras, diz o cardeal patriarca, referindo-se à lei que regula a interrupção voluntária da gravidez que se trata de uma “lei que cria um direito cívico” e que “o aborto não é uma questão religiosa, é de ética fundamental”.

D.José Policarpo é um homem culto e inteligente, mas por mais do que uma vez já teve que vir explicar-se sobre a sua posição e a da Igreja na questão do aborto. Não pretendo agora polemizar sobre essa questão, antes aproveitar as duas frases que transcrevi para aqui deixar a minha posição, já que essas duas breves transcrições aproximam-se daquele que é o meu entendimento sobre o assunto.

Quero, no entanto, deixar claro que ela não se resume só a isso, e que importa esclarecer as coisas com um mínimo de rigor para que depois não subsistam dúvidas.

Sobre o aborto há, na minha modesta opinião, quatro prismas de análise: religioso, político, ético e científico. Todos eles são importantes na posição que cada um assuma, mas só um é decisivo.

De um ponto de vista religioso a questão não tem qualquer interesse. Portugal é um estado soberano e laico, pelo que por muito valor que se lhe queria atribuir numa perspectiva individual, ela é absolutamente irrelevante de um ponto de vista colectivo, o único que neste momento está em causa atenta a conflitualidade social que o aborto gera e tem gerado de há dezenas de anos a esta parte.

A consideração política do problema traz consigo uma reflexão sobre as opções legislativas e a aceitação do referendo como instrumento de consulta popular necessário para sua resolução.

O plano científico é importante para que se perceba a dicotomia embrião/feto e a razão que leva a que seja de dez o número de semanas em causa e não qualquer outro, superior ou inferior.

Sobra a vertente ética e esta é, a meu ver, a única que goza de verdadeira relevância e aquela que deverá pesar no momento da posição que seja tomada.

Por isso mesmo, sabendo nós que temos neste momento uma lei que já permite em determinadas circunstâncias, que me abstenho aqui de desenvolver por pressupor que todos as conhecem, que permitem o aborto em circunstâncias excepcionais, a primeira pergunta que se impõe fazer é se se justifica a alteração legislativa que se pretende fazer?

Um dado importante que foi revelado há algumas semanas atrás indicava que dos abortos efectuados em Badajoz, na Clínica Los Arcos, pelas cerca de 4500 portuguesas que anualmente a demandam, 62% eram mulheres que não tomavam anticoncepcionais e mais de 50% eram mulheres solteiras. Não sei se foi revelada a idade dessas mulheres. Se tal aconteceu não retive esse dado.

Mas para além disso, também julgo que é de admitir que as mulheres que foram abortar a Badajoz tinham condições económicas para o fazerem e que as mulheres que têm sido acusadas da sua prática voluntária em Portugal, na esmagadora maioria dos casos têm problemas sociais e económicos graves e que se não fora estes também iriam a Badajoz fazer o mesmo que as outras 4.500.

Perante estes dados e tudo aquilo que é conhecido, se é que se pode conhecer alguma vez com justeza o que medra na clandestinidade, sou tentado a concluir que o problema do aborto em Portugal é antes de tudo o mais um problema de educação e de responsabilização individual e colectiva. Quando 62% das mulheres que vão à Clínica de Los Arcos não tomam anticoncepcionais nem utilizam quaisquer métodos minimamente eficazes e cientificamente provados de evitarem gravidezes indesejadas, a única coisa que se pode dizer é que existe uma tremenda falta de responsabilidade individual e colectiva e que, provavelmente, essas gravidezes que se transformam em abortos em Badajoz seriam perfeitamente evitáveis com uma política adequada de educação, dentro da família e na escola, e de responsabilização individual e colectiva. Como se vê pela leitura dos dados da Clínica de Los Arcos e dos objectivos que os seus proprietários pretendem com a abertura de uma sucursal em Lisboa, isto é, fazer um negócio dentro da lei, a questão só assume natureza social num segundo momento e em relação a mulheres provenientes de meios economicamente desfavorecidos. Mas que as diferenças de classe e de poder económico criam uma inaceitável desigualdade entre mulheres que têm, em dado momento das suas vidas, o mesmo drama para resolver, não constitui uma especificidade que justifique a alteração legislativa.

O simples direito que algumas mulheres reclamam de poderem dispor do seu próprio corpo, também não me parece que seja argumento fundamental que justifique a mudança do actual quadro legal. Contudo, admito que para algumas mulheres isso possa ser importante e que em determinados contextos extremos queiram que esse direito se sobreponha ao direito do feto ou à vontade do outro progenitor de ver o mesmo desenvolver-se.

Daí que a opção pelo aborto, ou como é politicamente correcto dizer-se, pela interrupção voluntária da gravidez, se assuma antes de tudo o mais como uma questão do foro da consciência de cada um, como uma questão de ética fundamental.

Só que como questão de ética fundamental e como questão de consciência, a questão não é, ou não devia ser, sequer referendável. Neste ponto, o Governo de Guterres errou, da mesma forma que o Governo de Sócrates vai voltar a errar.

Como questão de consciência, o problema do aborto não tem que ser discutido colectivamente. Quando muito interessa aos dois parceiros que contribuíram para a formação do feto. Em última instância, numa perspectiva redutora, egoísta e feminista, interessa apenas à mulher, já que é esta quem no fim terá de tomar a decisão de levar a gravidez até ao fim ou não.

Daí que considere, racionalmente, ser a questão um assunto de pura política legislativa. Era ao Governo legítimo de Portugal que se impunha analisar a actual lei, auscultar a opinião pública e o sentir social sobre essa matéria e decidir se se impunha ou não a necessidade de uma alteração legislativa que permitisse a interrupção voluntária da gravidez até as dez semanas por vontade exclusiva da mulher. Se uma lei não serve, se não resolve um problema, se não presta, deve ser alterada. Nenhum católico, nenhum opositor ao aborto seria obrigado a aceitá-lo e, muito menos, a praticá-lo. Só que tal decisão também só faria sentido depois de se ter levado a cabo, ao longo de um período razoável, uma política de educação sexual e cívica tendente à responsabilização individual e colectiva.

Este entendimento leva-me então a concluir pela desnecessidade do referendo. O referendo com Guterres foi uma forma de desresponsabilização política, um erro grave que redundou na actual situação. Com Sócrates torna-se numa necessidade decorrente do erro de Guterres e do compromisso eleitoral que foi assumido nas últimas eleições legislativas.

O nível de abstenção verificado no primeiro referendo deveria ter sido suficiente para que os partidos políticos portugueses percebessem o erro que havia sido cometido. É que o referendo só deve ser convocado para decidir questões fundamentais da vida colectiva. A falta de participação não foi apenas o resultado de uma postura cívica de desinteresse. Foi, igualmente, o resultado, e esta é a análise que faço, da consideração por parte do eleitorado da pouca importância colectiva do assunto e da estupidez que constituiu referendar uma questão de consciência.

Agora vamos voltar ao mesmo, havendo já quem, do alto da sua sobranceria, tenha vindo dizer que mesmo que a taxa de participação seja inferior a 50%, o Governo poderá sempre vir a legislar sobre essa matéria. Pois pode, mas convém dizê-lo já se o vai fazer ou não. Porque se pretende vir a fazê-lo independentemente do resultado, então para quê participar no referendo? Este é um ponto importante que deverá ser devidamente esclarecido e ponderado antes do referendo. É que a maior ou menor taxa de participação dos cidadãos no referendo que se avizinha poderá vir a depender do conhecimento antecipado e sem equívocos da posição que o primeiro-ministro e o Governo virão a tomar nas diversas hipóteses que se podem vir a colocar: acatar o resultado em quaisquer circunstâncias e qualquer que seja a taxa de participação, só aceitar o resultado se for vinculativo, e se não for vinculativo se vai acabar por legislar sobre a matéria ou se vai deixar tudo como está e remeter o problema para a próxima legislatura.

Posto isto, resta-me dizer que não faço tenções de fazer campanha nem a favor do sim nem a favor do não, porque considero um disparate esse tipo de iniciativa, posto que normalmente só serve para aumentar a confusão e introduzir elementos de irracionalidade numa discussão que se quer racional e séria. Sou pelo esclarecimento e não pela “campanha”.

Também não decidi ainda se irei participar no referendo ou não. Mas se à última hora decidir vir a fazê-lo, em consciência e como católico irei votar pelo “Não”. Mas isso dependerá, em certa medida, daquilo que o Governo e os partidos venham entretanto a dizer até lá sobre o que pretendem fazer depois se o referendo tiver uma participação inferior a 50% e um resultado idêntico ao da última consulta se repetir.

sexta-feira, outubro 27, 2006

BLOGOSFERA E RESPONSABILIDADE


"não devia ser possível abrir um blogue sem o autor ser identificado e tecnicamente confirmado" - Miguel Sousa Tavares, in DN, 27/10/06.
Esta frase de Miguel Sousa Tavares, extraída de um artigo hoje publicado pelo DN, vem, uma vez mais, colocar o dedo na ferida. A abertura indiscriminada de blogues, o acesso totalmente livre e não controlado da rede global, facilita a utilização indevida da blogosfera e constitui um meio para a difusão livre do crime.
O debate já tem muitos anos, quer nos Estados Unidos, quer em Portugal, havendo mesmo quem do lado de lá do Atlântico tenha criado organizações, fundações e grupos de pressão, destinados à defesa da liberdade, dizem eles, na blogosfera.
Desde há vários anos que tenho tido uma posição bem mais conservadora sobre essa matéria e, ainda estava eu a fazer o meu mestrado quando elaborei um trabalho sobre aquilo a que eu chamei então, talvez um pouco pomposamente, a cidadania digital. Dizia eu nessa altura, basicamente, que não existia liberdade sem segurança e que esta era o correlativo daquela num mundo em que há muita gente que desconhece os limites da sua própria liberdade.
Por isso mesmo, defendi que a criação do conceito de cidadania digital poderia, sem coarctar a liberdade de expressão de cada um e o direito à livre opinião, ajudar a disciplinar o uso abusivo da internet, responsabilizando os seus utilizadores. Através desse conceito, adaptado do próprio conceito de cidadania extraído da Ciência Política, enquanto conjunto, enquanto estatuto, de direitos e de obrigações, pretendia eu que cada cidadão tivesse um bilhete de identidade que lhe permitisse navegar na rede global sem medos nem constrangimentos, o que só será possível, diga-se de passagem, em Estados livres.
Todos temos um bilhete de identidade para nos identificarmos perante o Estado, todos necessitamos de um passaporte para viajar, todos temos um número de contribuinte, uma carta de condução, um carro que tem livrete e título de registo de propriedade e até para termos um telemóvel temos de nos registar perante o operador. Por que razão não há-de o meu computador ser objecto de registo? Por que razão não há-de alguém ser responsável se um dado computador ou um blogue é utilizado como instrumento da prática de um crime. Bem sei que existe uma legislação que prevê a punição de crimes informáticos, mas a extraterritorialidade da blogosfera exigiria uma acção concertada dos países interesados no problema. Aliás, não foi por termos múltiplos documentos de identificação ou dos nossos carros terem um registo que alguém colocou em causa a nossa liberdade de expressão ou de deslocação ou nos passámos a considerar menos livres. Mas também por possuirmos esses documentos, falo por mim, sabemos que se a nossa identidade for usurpada, se nos roubarem o carro e o utilizarem como instrumento de um crime, sempre haverá uma maior possibilidade do mesmo ser localizado e dos agentes do crimes encontrados do que se tudo se processasse sem quaisquer registos ou controlo. Confesso que prefiro este tipo de controlo às medidas bushistas ou blairistas que se seguiram ao 11 de Setembro ou aos atentados de Londres.
À medida que prolifera o número de crimes cometidos pela internet, face ao constante aumento de ataques às redes digitais, seja pela disseminação de vírus informáticos ou pela utilização abusiva da blogosfera e de sistemas não controlados de "espiolhagem", vai-se tornando cada vez mais urgente e imperioso o controlo da rede. Diria mesmo que é uma evidência.
Para muitos, isto que agora reafirmo poderá parecer uma blasfémia, uma verdadeira heresia. Mas para mim já hoje constitui uma necessidade fundamental para a preservação do nosso sistema de liberdade e para a manutenção de padrões aceitáveis de segurança.
Por isso mesmo, desde o início deste blogue afirmei que aqui não se publicariam escritos nem opiniões anónimas e que quem aqui escreve assina por baixo e responde pelo que assina.
Hoje a vítima é o Miguel Sousa Tavares. Amanhã será outro qualquer. Os cobardes e os frustrados que preferem o conforto do anonimato ao rigor da assunção de um estatuto de cidadania integral são os mesmos que clamando pela liberdade a plenos pulmões, acabam usando a rede global da internet para lançarem a calúnia, proclamarem a injúria, invadirem a privacidade de terceiros, promoverem o boato, espalharem vírus informáticos e, não raras vezes, para esconderem os seus vícios mais inconfessáveis, a começar pela pedofilia.
Não sei se estas linhas servirão para alguma coisa. Não sei mesmo se alguém perderá o seu precioso tempo a lê-las e parará dois minutos para reflectir. Mas ao menos que sirva para eu expressar a minha solidariedade e o meu apoio ao Miguel Sousa Tavares.
E olhem que eu não sou do Porto, não gosto do Pinto da Costa e chego a ter náuseas quando vejo o FC Porto a jogar.

quinta-feira, outubro 26, 2006

AVESTRUZES NA ENGORDA



Um dos autores do Corta-Fitas escreveu uma carta aberta ao camarada Bernardino Soares sobre a Coreia do Norte, país em que aquele jovem deputado, mas já empedernido líder comunista, se tornou especialista. Alguns dos leitores do referido blogue, acharam por bem defender o rapaz, que deve estar neste momento sentado à secretária, tal qual o burocrata da foto, à espera das reacções às reacções.
Eu bem sei que é difícil defender o indefensável e que nem todos são como o José Saramago, que por mais piruetas que dê acaba sempre por ter toda a razão do mundo, mesmo que só ele a reconheça. Este passou a ser, aliás, um dos direitos conferidos, como bem se sabe, não pela defesa que fez das liberdades enquanto director do Diário de Notícias, mas pelo estatuto que o Nobel lhe emprestou.
Só que há ocasiões em que a omissão da palavra se torna num crime. Eu não sei o que leva o camarada Bernardino e os seus demais camaradas, a defenderem tão intransigentemente o regime totalitário de Pyongyang, cujas virtudes se desconhecem.
Por razões que não vêm agora ao caso, cheguei, em dada altura, a ter de contactar pessoalmente com responsáveis coreanos. Pouco depois, quando já nada o faria supor, dou de caras com um dos meus interlocutores, daqueles que usam fato castanho com um crachá com a bandeirinha vemelha, no luxuoso health club de um hotel de que em tempos fui membro, numa dessas mecas do "capitalismo selvagem" e da exploração das classes trabalhadoras. É claro que quando o dito camarada olhou para um espelho, me viu a olhar para ele, e me reconheceu, de imediato se pôs ao fresco. Certamente temendo que eu, qual bufo, fosse mandar um relatório para os seus patrões a relatar o encontro e ele acabasse num qualquer gulag.
Antes desse episódio, quando há mais de uma dúzia de anos estive em Panmunjong, na linha divisória entre as duas Coreias, pouco antes da visita de Soares a esse local mítico da Guerra Fria, fiquei com a imagem de uma bandeira monumental, permanentemente desfraldada do outro lado da fronteira, e do som intenso da propaganda nos megafones. Retive ainda a permanente tensão na zona de fronteira, até mesmo quando almocei na base americana, pese embora o clima aparentemente descontraído e a bonomia dos que me receberam e me guiaram numa visita à zona desmilitarizada. E não pude, também, deixar de fixar uma pequena história que me contaram, ocorrida aquando da assinatura do armísticio, num dos barraccões azuis da linha divisória. Pouco antes da sua assinatura, os dirigentes da Coreia do Norte resolveram substituir a pequena bandeira que tinham em cima da sua mesa, que era de igual dimensão à dos outros países que ali iriam estar, por uma outra um pouco maior. E de cada vez que as bandeiras eram substituídas pelos funcionários da ONU, creio eu, que preparavam o acto, de maneira a que as todas bandeiras fossem iguais nas respectivas dimensões, o representante de Pyongyang substituía a sua por uma maior. Ainda hoje quem entrar na sala onde se assinou o armísticio reparará que a pequena bandeira da Coreia do Norte que lá está é ligeiramente maior do que as outras. Tenho, aliás, uma fotografia desse local, tirada quando por ali passei.
É claro que isto não tem qualquer relevância no contexto do problema e que estas duas pequenas histórias não passam disso mesmo, de uma pequena memória pessoal. Mas quando vejo a defesa que os "camaradas" do PCP e aqueles jovens barbudos com lenços palestinianos ao pescoço fazem do regime de Pyongyang, a maior parte deles sem nunca ter passado a fronteira, nem para ir a Badajoz comprar caramelos, isso não deixa de ser revelador da teimosia, da megalomania, do desconhecimento das realidades e de uma determinada mentalidade que persiste.

E nem valerá a pena recordar aqui que no dia 1 de Maio de 1986, estando eu na República Popular da China, pude aperceber-me de que esse era ali um dia de trabalho como os outros para os desgraçados que a troco de 1 ou 2 yuans por dia construíam uma auto-estrada. Os panos coloridos idênticos aos que se vêem na Festa do Avante também estavam lá a ladear o estaleiro. Ainda hoje desconfio que ninguém explicou àqueles homens, mal alimentados e semi-nus, que no Ocidente, em tal dia, ninguém trabalhava e que as condições e número de horas de trabalho que lhes eram impostas nunca seriam admitidas no Ocidente nem permitidas pela OIT.
Não estranho, por isso mesmo, que haja quem defenda o regime de Pyongyang e o carácter dinástico da sucessão, da mesma forma que ignoram o que se passa à sua volta e ficam enxofrados com a mais ligeira crítica. Só que essa posição implica também a defesa de uma das ferozes ditaduras de que há memória, da fome, da miséria, da clausura de todo um povo e da sua manutenção num estado pré-medieval.
Pedir um entendimento entre o Ocidente e a Coreia do Norte, exigir a manutenção dos equilíbrios geo-estratégicos na península coreana e o diálogo entre as nações no contexto das Nações Unidas, não chega. É que enquanto o camarada Bernardino e os outros que o defenderam no Corta-Fitas vão engordando a ler o Avante e a descer a Avenida da Liberdade aos berros contra "o governo do Sócrates", os seus amigos vão fazendo ensaios nucleares à socapa e milhões morrem de fome e de doença devido à teimosia e à cegueira dos seus dirigentes. Hiroshima e Nagasaki ficam logo do outro lado. Às vezes convém recordá-lo.

Portugal ficou mais pobre!

O Ponto Final, um respeitável jornal de Macau, revela-nos que faleceu o Andrew Stow, que foi o proprietário da pastelaria Lord Stow, na ilha de Coloane.
O Andrew foi o tipo que lançou a moda dos pastéis de nata em Macau e Hong Kong. Alterou-lhes ligeiramente a receita e adaptou-os ao gosto chinês e inglês. Os do Andrew até nem eram muito ao meu gosto, talvez por demasiado doces. Mas ele vendia-os em barda. Depois dele, o Hyatt, o Afonso, o Bolo de Arroz, o Mandarim e muitos mais locais passaram a vender o célebre pastel. E até ele próprio expandiu o negócio de Coloane para Macau. Vi filas de dezenas de pessoas para comprarem pastéis de nata. Depois, expandiram-se para Hong Kong e Cantão, para Osaka, Filipinas, Tailândia e Coreia do Sul. Ouvir pedir um "Portuguese cake with lots of cinnamon" tornou-se um must na boca de muitos chineses.
O Andrew era inglês e de acordo com os critérios da RTP nunca poderia ser um "Grande Português". Mas a forma como ele encarava a vida e nos promoveu na Ásia a vender pastéis de nata e sumos de laranja, obrigar-nos-ia a incluí-lo na lista da Maria Elisa. O que ele e outros como ele fizeram por nós a milhares de quilómetros de Lisboa, sem subsídios, merecia bem um par de programas da RTP. Isso é que seria serviço público.
Oxalá que lá no sítio onde ele está não lhe faltem pastéis de nata. Eu, que agora ando a cortar neles, já fui comer mais um em sua homenagem. Com muito canela.

AINDA OS GRANDES PORTUGUESES

A RTP1 e a senhora D. Maria Elisa resolveram brindar-nos, uma vez mais, com um debate sobre o concurso “Os Grandes Portugueses”, que estão a promover e sobre o qual já aqui deixei umas linhas.

O facto de se estar a uma semana do termo da votação, levou a jornalista a constituir um painel de comentadores que, no seu entender, iria permitir um debate vivo e interessante, embora não se tivesse percebido muito bem qual seria (foi) o fio condutor do discurso w o que se queria discutir. Se o que se pretendia era o elogio barato à RTP e ao programa, como o prof. Saravai fez, então não valia a pena tanto aparato.

Mas ao invés do que seria de esperar, o que se viu foi um debate desconchavado, pontuado aqui e ali por uma ou outra intervenção mais interessante, não tanto por mérito da jornalista, mas mais por mérito dos participantes. Em suma, ouviu-se um conjunto de opiniões desgarradas, em que todos estão a favor – com a notória excepção de um catedrático de História – e ao mesmo tempo todos são críticos, mas do qual a única coisa que de concreto resultou foi uma dúvida maior que o mundo: como é possível sem critério promover um critério, qualquer que ele seja?

Mas para que a crítica não seja perdida, vou alinhavar aqueles que me parecem ser os pontos mais criticáveis do programa.

1. A primeira vai direitinha para a postura da apresentadora, convencida como está das virtudes inigualáveis do modelo. Afirmar, como todos ouviram em resposta a uma crítica, que o formato veio da BBC não é sinónimo que seja bom nem constitui garantia de qualidade. Maria Elisa pode ter muitos méritos, mas seguramente que entre esses não está o que lhe assegura o direito de querer passar aos portugueses que discordam do programa e do modelo um atestado de pacovice. Ou será que produtos como o “Big Brother” e outros da mesma laia não vieram também de Inglaterra?

2. Fiquei sem perceber qual a razão que levou a juntar no mesmo painel personalidades tão díspares como José Hermano Saraiva e Ricardo Araújo Pereira ou Pedro Pinto e Eduardo Lourenço. Para haver debate é preciso que exista um fundo comum de conhecimentos que permita a troca de ideias e uma argumentação consistente de parte a parte. De outro modo, as intervenções destinadas a suscitar o debate tornam-se monólogos. Se o objectivo era o espectáculo, então a encenação fazia todo o sentido, mas daí não veio grande esclarecimento.

3. Ao mesmo tempo que Maria Elisa pretendia dar um ar sério ao programa, as intervenções da jornalista que se encontrava em Braga deixaram-me absolutamente confundido sobre a natureza do mesmo. Será que essa jornalista sabia o que estava a fazer naquele local e àquela hora? Alguém lhe disse que aquilo não era um programa de humor e que ela não era a Maria Ruef?

4. O resultado da sondagem que foi divulgada sobre o sexo dos votantes, o elevadíssimo nível de participação, por comparação com o que sucedeu em Inglaterra, a participação por escalão etário e a “originalidade” das escolhas, reflecte a infelicidade do programa e do formato. Não sei se algum português minimamente consciente se revê naqueles resultados, mas creio que eles constituem a prova insofismável da ignorância dos participantes.

5. A apresentação de uma lista, por muito completa e abrangente que ela se apresente, acaba sempre por ter um peso inusitado perante um conjunto de pessoas que prima pela má preparação e o desconhecimento, a começar pela própria História de Portugal. Neste aspecto, e para além da gloriosa intervenção do presidente da Associação de Estudantes da Universidade do Minho, que referiu ser importante “sermos irresponsáveis” e “responsáveis” ao mesmo tempo, o que fará dele, sem dúvida, um político brilhante num futuro não muito distante, assinalo a lúcida intervenção daquela jovem estudante de comunicação social que, apesar das dificuldades de expressão que sentiu, questionou a colocação da Rosa Mota ao lado do Rei D.Diniz e a capacidade dos participantes para efectuarem as suas escolhas.

6. Se a ideia não é vincular os participantes no concurso à lista fornecida, então para quê divulgá-la, convidar os telespectadores a votarem e depois dar o espectáculo do aditamento dos nomes que ficaram de fora?

7. Ficámos a saber que por cada telefone fixo poderão ser efectuadas três chamadas para canalizar votos para o programa. E para os sms ou para as chamadas de valor acrescentado há limite? Estranhei que ninguém referisse o problema do custo das chamadas e do negócio que isso representa. Seria bom sabermos qual o custo do programa e quais os lucros obtidos à custa dos participantes em matéria de comunicações e de publicidade. A avaliar pelo número de participantes que já votaram, mais de 400.000, isso representará, grosso modo, um valor de 240.000 euros, partindo do princípio que os votantes se repartem pelas chamadas telefónicas e pelos sms.

8. Estranhei, ainda mais, que nem Fernando Nobre, nem Isabel Alçada, nem Reis Torgal, já que a Joana Amaral Dias é muito nova, se lembrassem de recordar ao diletante do Prof. José Hermano Saraiva que ele foi ministro de Oliveira Salazar e que conviveu alegremente com os gorilas e com as cargas de cavalaria sobre os estudantes universitários. O actual ministro da Justiça, se bem me recordo, foi uma das vítimas dele e chegou a estar preso por causa disso. Mas isto talvez fosse politicamente incorrecto de se recordar naquele momento, com grave dano para as gerações mais novas que desconhecem esses factos e admiram a figura de um sujeito que faz programas pretensamente históricos, por encomenda e sem qualquer rigor (cfr. os programas que ele fez em Macau para a TDM no tempo do general Rocha Vieira e o chorrilho de imprecisões, a demagogia e a propaganda que neles foi incluída).

Continuo a pensar que o programa, mesmo analisando-o sobre uma vertente lúdica, é um perfeito disparate. A demagogia casa bastante bem com a ignorância, mas não se coaduna com o rigor, com a seriedade e com o respeito que os Grandes Portugueses, e são muitos, merecem.

E quanto a critérios, seja em matéria de formatos televisivos, na discussão de questões históricas ou, ainda, na escolha de um grande português, só existe um. É o que combina o bom senso com a decência.